Todo o acto de construção do self passa pela luta equilibrada entre o desejo de construir e de destruir o essencial do núcleo do objecto interno.
Desta luta pode resultar uma fenomenologia de intolerância interna, ou, se não houver recurso suficiente à defesa como seja o recalcamento e outras, gerando culpabilidade, poder-se-á passar à intolerância externa, tão evidente nos grandes fenómenos sociais como sejam, as guerras, os sismas religiosos, as grandes apostasias, e os fundamentalismos.
Toda a intolerância tem como matriz electiva o medo, que se pode localizar a vários níveis do desenvolvimento pessoal e da colectividade.
Há ainda, o recurso ao proselitismo como salvaguarda da estabilidade vivencial e grupal, que nos permite melhor viver um self social, evitando o conflito, que, na maior parte das vezes, se situa a nível da rivalidade edipiana.
Sem a cabal vivência desta rivalidade é difícil ao homem atingir a serenidade que a esperança lhe proporciona; se esta vivência for aquém, resta a solução da submissão.
A construção do self resulta do constante desequilibro da dicotomia organização/desorganização da intolerância e da submissão.
Apresento quatro exemplos de intolerância/tolerância interna (culpabilidade) e externa (passagem ao acto): o percurso de vida de Santo Agostinho, o Protestantismo, o Nazismo e uma manifestação literária de J. P. Sartre.
Desde que se conhece o homem pensante, que este se representa como profundamente ligado a dois conceitos de sobrevivência: o direito
Psicanalista. Membro Associada da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Comunicação apresentada no XXIII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise – “In-Tolerância, a In-Suportável Diferença”; Lisboa, 4 e 5 de Fevereiro de 2011.
de posse e a tentativa de compreensão da finalidade da sua existência. Poder-se-ia talvez dizer, de uma maneira mais de acordo com a nossa civilização ocidental: o direito à terra e o direito a Deus, como Ser Princípio e Fim.
Vê-se bem, no desenvolvimento infantil, como a criança desde os primeiros anos, se refere amiúde a dois temas essenciais da sua vida: o primeiro, é o porquê de tudo (a idade dos porquês, tão nossa conhecida); e a criança nunca fica satisfeita com as respostas, uma vez que, as repete até á exaustão. O segundo, é o desejo para obter algo pertença de outro; para o objecto se tornar sua propriedade.
Julgo que esta consciência de posse teve como consequência a necessidade da sua regulamentação e assim nos aparece o Direito.
O desejo do “Conhecimento” leva a humanidade à necessidade de podermo-nos situar em relação ao Universo. Num dos construtos mais elaborados, como na Índia, não existe distinção entre o divino e o universo. Este é teofânico. “O homem cosmizando-se funde-se num divino impessoal” (Clément, 2002). Aqui todo o Universo é Deus.
Posteriormente, no caso do judaísmo aparece a separação entre universo e acção divina; Deus aparece por manifestações em algum lugar, coisa ou pessoa. Uma das mais importantes teofanias foi a manifestação do Senhor a Moisés, quando o exortou a liderar a fuga do povo hebreu do Egipto, conforme relatado no livro do Êxodo. No entanto, esta forma de pensar a divindade vai-se repetir no cristianismo com o nome de Cristofania que é um termo da teologia cristã utilizado para designar as aparições de Cristo pré-encarnado ocorridas no Antigo Testamento, como sejam: Anjo do Senhor, Anjo da Revelação, Anjo da Providência e outras.
Como podemos perceber, houve desde sempre, a necessidade de externalizar o poder não controlável pelo homem, uma vez que, este poder remete para a noção de liberdade/não liberdade, criando desde logo o conflito moral e este gera a insegurança interna, resultante da culpabilidade. A descoberta do fim transcendente da vida, aspiração de todas as religiões, é difícil de ser realizada sem convicção e sem conflito.
Mas todo este processo referido passa pela busca incessante da identidade.
Na continuação das escrituras ligadas a Jeová, onde tudo é criado do nada, por um “Eu sou” Cristo destaca bem esta necessidade incessante de procura ao afirmar: “sou o filho incarnado, sou um Outro de Um, cujo Sopro repousa nele e que ele nos comunica para nos unir, diversificando-nos”.
Associando sobre esta última frase lembrei-me do maravilhoso livro que li quando tinha 15/16 anos: As confissões de Santo Agostinho, escrito supostamente nos anos 397/398 depois de Cristo.
Para os menos interessados nestas matérias quero apresentar-vos em traços muito breves a vida deste Santo e Doutor da Igreja católica, destacando o que a mim me pareceu de grande importância.
Agostinho nasceu na cidade de Tagaste, na época uma província romana no norte de África, na actual Argélia, no ano 354 e morre no ano 430, filho de pai pagão, chamado Patrício e mãe católica, Mónica. Foi educado no norte de África e resistiu aos ensinamentos de sua mãe para se tornar cristão.
Desde jovem se revelou hábil para as letras, tendo-se dedicado à literatura latina com especial relevo para a retórica. Viveu como um pagão intelectual; numa tenra idade, ele desenvolveu uma relação estável com uma mulher jovem em Cartago, com a qual teve um filho, Adeodato, que viria a morrer ainda em vida dele. Seu pai morre quando ele contava 17 anos.
Dois anos depois da sua morte, Agostinho, no âmbito dos seus estudos chega à leitura do livro de Cícero. Comentário dele próprio: “não era o estilo, mas sim o assunto tratado que me persuadia a lê-lo. O amor da sabedoria pelo qual aqueles estudos literários me apaixonavam tem o nome grego de Filosofia”.
Inicia, assim, um caminho em que vê a Sabedoria como um ideal de verdade de que o homem desfruta no mundo. Identifica-a como o Bem Inteligível. É este um dos pontos essenciais da filosofia agostiniana.
Amigos maniqueístas apresentaram-lhe o prefeito da cidade de Roma, Symmachus, que tinha sido solicitado a encontrar um professor de retórica imperial para o tribunal provincial em Milão.
Um parêntesis sobre este assunto: Esta seita foi fundada por Maniqueu (ou Manés), que acabou por ser perseguido pelo Rei do seu país, a Pérsia, tendo de se refugiar na Mesopotâmia. Após o seu longo percurso pelo Egipto, Síria, África do Norte e Itália regressa à Pérsia onde foi esfolado vivo e atirado às feras. O Maniqueísmo misturava as doutrinas de Zoroastro com o cristianismo.
Assim, afirma: “Desde toda a eternidade existem dois princípios, o do Bem e o do Mal. O primeiro, que se chama Deus, domina o reino da luz e Ele mesmo é luz imaculada, que só pela razão não pelos sentidos se pode perceber. O segundo chama-se Satanás, rei das trevas, é mau quanto à sua natureza, pois é matéria infeccionada.
Deus, para libertar a luz do cativeiro da matéria, criou, por intermédio dos espíritos antagonistas dos demónios, o sol e a lua, os astros e a terra. Esta é de matéria inteiramente corrompida.
O homem compõe-se de três partes: do corpo, oriundo do Mal, de espírito, oriundo de Deus, e de alma insensível cheia de maus apetites e dominada por Satanás” (In “Confissões de Santo Agostinho”, Livro Terceiro, p. 57).
“Para os maniqueus, havia duas divindades supremas a presidir o universo: o princípio do Bem e o do Mal – a luz e as trevas. Como consequência moral, afirmavam ter o homem duas almas. Cada uma presidida por um desses dois princípios. Logo, o mal é metafísico e ontológico. A pessoa não é livre nem responsável pelo mal que faz. Este é-lhe imposto” (Oliveira, 1995, p. 15).
Agostinho desiludido, em parte devido a um decepcionante encontro com um chefe expoente da teologia maniqueísta, Fausto, e, por outro lado, pela sua prática de vida levada, resultante da libertinagem permitida
pelo construto desta filosofia, começa a afastar-se desta seita. Sente-se agora, que a sua culpabilidade aparece de forma mais consciente e elaborável.
Poderia pensar-se, que se torna mais evidente a sua necessidade de se colocar numa postura depressiva, aceitando a ambivalência, deixando de precisar de recorrer à clivagem do objecto interno, unindo-se num só, Bom e Mau, numa única divindade.
Sua mãe, inquebrantável na fé cristã, (Santa Mónica) insistia para que ele se tornasse cristão.
Sob o ponto de vista racional, também os seus próprios estudos sobre o neoplatonismo o foram levando neste sentido.
O regresso à identificação materna, naquilo que ela tinha de apaziguador e de transcendente, segura-o numa caminhada para a busca do homem salvador – Cristo.
Encontra-o na pessoa do bispo de Milão, Santo Ambrósio. Este, com a sua retórica, teve muita influência sobre a conversão de Agostinho. Dá-se então a sua conversão, com o consequente baptismo, dele e de seu filho.
Acresce, ainda, que a sua conversão a um Deus uno terá um momento de exaltação com a seguinte aparição: foi a voz de uma criança invisível, que ouviu enquanto estava em seu jardim em Milão, que dizia repetidamente, “toma e lê” “toma e lê” (“Tolle, lege”; “tolle, lege”). Ele tomou o texto da epístola de Paulo aos romanos, e abriu ao acaso em 13:13-14, onde se lê: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem em contendas e rixas, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites”.
Agora tudo é mais sereno, porque conhecido, logo mais controlável. Pôde melhor especificar onde se situava a sua culpabilidade e assim expulsá-la, libertando-se da angústia, com um “modus vivendi” mais adequado à sua expulsão.
Santo Agostinho terminará a sua carreira eclesiástica como Bispo de Hipona, Doutor da Igreja e patrono, entre outros, dos teólogos.
Penso ser a vida e obra deste Santo um paradigma de como as convicções primárias actuam de forma elaborativa na resolução da angústia ligada à depressão. O seu percurso defensivo, desde as defesas mais arcaicas, como seja a clivagem até ao recalcamento, tiveram o esteio sempre seguro de uma relação materna perene, persistente, duradoura e transcendente.
Onde se situou a sua tolerância/intolerância interna e externa? Terá havido um equilíbrio sustentado destas duas opções de que resultou uma estabilidade emocional, que embora variando de nível de angústia, se foi concretizando.
Estava, finalmente, criada a sua identidade! Esta resultou da intolerância interna, geradora de culpabilidade, que em Santo Agostinho o conduziu à revelação/conversão.
Vamos agora abordar outra forma de intolerância, agora no domínio da crença com repercussão religiosa e social. Mais uma vez me vou servir de exemplos ligado à minha civilização, que tem por base o cristianismo.
Passando rapidamente pelo Sisma de 1054 em que se dá a excomunhão recíproca do papa e do patriarca de Constantinopla, gostaria de referir que a igreja indivisa já não era monolítica. Na altura já existiam pequenos cismas localizados como é o caso dos arianos, dos monofisitas e outros, sem no entanto, haver ruptura global.
Este Sisma teve a ver com a intolerância de interpretação da Escritura, mas não só. Parece-me ter havido um desejo de autonomia do Oriente em relação às regras de prática doutrinária, que mais tarde daria origem a leste, à criação de um novo calendário litúrgico e a um outro catecismo.
Esta autonomia possibilitou o desenvolvimento de uma nova identidade estável e duradoura com um conjunto de normas mais adequadas à situação geográfica e, consequentemente, melhor se expandiu como corpo unificado.
O mesmo não aconteceu posteriormente com o movimento chamado de Reforma, que se deu em 1378 com Lutero, Zuínglio, e mais tarde, em 1536, com Calvino.
Nesta altura temporal da cristandade, existia uma simbiose entre a Igreja e o poder temporal. A concepção era a seguinte: só existe uma sociedade, destinada a uma só finalidade: a salvação dos homens segundo o Evangelho. Esta sociedade, constituída por um corpo único, era regida por uma dualidade de estruturas: papéis de papa e imperador, de reis e de bispos, de senhor feudal e de pároco. Esta dualidade de funções, ainda hoje é severamente contestada através da constante afirmação da separação da Igreja e do Estado, criando o conceito de estado laico.
Mas não só! Mais uma vez tem a ver com a interpretação da Escritura e com intolerância ao poder que a Igreja de Roma vinha a exercer, também no domínio do Teológico!
Os “Reformadores” foram pessoas de vasta cultura teológica e humanista: Calvino estudou na Sorbonne; seu pai era bispo. Lutero foi monge e professor universitário; Zuínglio era sacerdote e humanista. De acordo com o programa dos humanistas, eles buscaram nas fontes da antiguidade cristã as bases para uma renovação religiosa. Lendo as Sagradas Escrituras descobriram uma nova visão da fé e uma doutrina bíblica cristocêntrica.
O protestantismo apresenta elementos comuns apesar de uma grande diversidade. A Bíblia é considerada a única fonte de autoridade doutrinal e deve ser interpretada de acordo com regras históricas e linguísticas, observando-se o seu significado sempre dentro de um contexto histórico. A salvação é entendida como um dom gratuito de Deus alcançado através a fé. Entenda-se aqui o conceito de salvação eterna, salvação celestial ou salvação espiritual; este faz referência à salvação da alma, pela qual, a alma, se livraria de uma ameaça eterna (castigo eterno ou condenação eterna), que se esperaria depois da morte. Este é um conceito vitalmente importante nas várias religiões. Este conceito de salvação é transversal à maior parte das mais repercutidas religiões tais como: Cristianismo, Catolicismo, Islamismo, Hinduísmo e Budismo.
Esta postura leva à condução de um constante medo de retaliação ao nível do consciente, que não é mais do que exteriorizar e uniformizar, aquilo que, se passa no intrapsíquico, que é a culpabilidade. É possível apaziguar este medo, cumprindo a regra e submetendo-se ao poder divino da Igreja, ou seja, evitar o pecado, fruto de todo o conflito.
Como reacção ao aqui dito, no conceito protestante, as boas obras não salvam, são o resultado da fé, e não causa de salvação. O culto é sempre simples, tendo como base as Sagradas Escrituras. A autoridade da Escritura em matéria de fé é, segundo a teologia protestante, o princípio da Reforma. “O poder divino ligado ao homem é relativizado. Estabelece-se uma distinção entre a Igreja visível (clero) e a Igreja invisível (corpo de Cristo, que está no segredo de Deus)” (Baubérot, 2008).
Resulta daqui, naturalmente, que o dogma da transubstanciação (transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo), com excepção de alguns sectores da Igreja anglicana, é refutado pela maior parte do protestantismo. Talvez porque se dá aqui um poder divino ao celebrante, que não sendo Cristo, adquire o seu poder, poder esse, só aceite pela fé.
Parece-me, evidente haver aqui, no protestantismo, uma tentativa de passar da equação simbólica (Hanna Segal) ao simbolismo. Aliás, não será sempre assim? Não será que quando chegamos a esta forma de pensamento – a equação simbólica –, aparece a necessidade da existência do dogma?
Obviamente, todo este construto teológico, que gerou não só uma perplexidade como também um forte antagonismo, tornou-se uma apostasia. A contra-reforma instala-se criando uma forte clivagem extremada, que só poderia levar à violência física e mental. Aumenta a intolerância em ambos os lados de forma proporcional ao medo de aniquilação. A angústia colectiva aparece sob a forma de exaltação violenta.
A Europa entra num período de guerra sangrenta. Penso ser escusado referir o que todos sabem: a guerra dos 30 anos, as revoluções em Inglaterra, a mortandade nos Países Baixos, etc. É claro, que em todas estas situações se vão misturando as conveniências políticas dos diferentes países.
Ouve, no entanto, por outro lado a capacidade de reparação e reconstrução, obtida em ambos os lados, através da intelectualização e da racionalização pelo meio da escrita e do espírito missionário, como sobrevivência das duas identidades. É nesta altura que se expandem as grandes obras literárias e filosóficas, com a criação de universidades ligadas às ciências humanas. Como resultado do reaparecimento da necessidade de expansão dita da “palavra” acentua-se o proselitismo no ensino da mesma.
É esta a forma mais eficaz porque, mais duradoura, de manter a sobrevivência duma identidade grupal, que se diz essencial à felicidade, e que eu diria essencial ao seu desenvolvimento, porque contentora dos impulsos mais arcaicos geradores de violência. Mas esta situação, a maior parte das vezes, leva à expulsão da alteridade representada pelos outros grupos.
Outro exemplo importante de intolerância resultante do medo e da insegurança interna e externa é o Nazismo.
Neste caso, é bem manifesta a diferença dos movimentos anteriores. Não foi pela erudição, nem pela intelectualização, que se tentou criar uma identidade social, mas sim pelo abuso da força irracional (Girard, 1972).
Por falta de capacidade elaborativa, devido à vacuidade de símbolo, toda a perspectiva da “Ordem” era traduzida por passagem ao acto. O símbolo, que permite a relação entre os homens, transforma-se em algo incompreensível e ameaçador. Para preenchimento desta brutal lacuna
é usado o poder da força das armas, porque este poder é destituído de palavras. E, no entanto, Hitler tinha muitas palavras, mas… todas elas, ao serviço da sujeição da alteridade.
Esta necessidade de sujeição expressa-se pelo seu estado maníaco e deliriforme. Passo a citar o próprio Hitler ao referir-se à escolha do nome do partido por ele criado, o nacional-socialismo: “Porque iria eu forçar essas criaturas a submeterem-se a uma disciplina rígida, da qual não conseguem escapar? Elas podem ter tantas terras ou fábricas quanto quiserem, o importante é que o estado, por intermédio do partido, decida quanto às suas acções e atitudes, pouco importando, que sejam proprietários ou operários. O nosso socialismo tem uma forma de agir mais profunda. Não modifica a ordem das coisas, não faz senão mudar as relações dos homens com o estado (…) Que significado têm a partir de agora as expressões ‘propriedade’ e ‘renda’? Por que teremos a necessidade de socializar os bancos e as fábricas? Nós socializamos os homens!”.
Era este o seu socialismo! Socialismo das pessoas, como de coisas se tratasse. O desvio evidente de finalidade, como é habitual na perversão, é bem patente. A incapacidade de identificação projectiva normal desaparece, transformando-se numa identificação projectiva patológica. A vida perde o valor humano para se transformar num veículo de poder levado até à exaustão.
Que intolerância em relação a si próprio, projectada nos outros! Que incapacidade de confiar em si (insegurança)! Restava-lhe a fuga para a paranóia!
Como defesa, vai construindo, ao longo do seu desenvolvimento psíquico, um Eu Ideal. Este é realmente o algoz de qualquer homem. Mas, neste caso, a vivência do Eu Ideal tinha de ser partilhada pelo “outro” (não pela alteridade) de forma compulsiva e sem metáfora. O Ideal do Eu, pelo contrário, é solitário. Hitler nunca aceitou esta solidão.
Aqui não há elemento reparador. Todo o seu caminho de vida foi orientado para a morte, mas uma morte assistida e colectiva. Aí havia o encontro com o outro, idealizado/desprezado.
Gostaria, agora, de exemplificar uma forma de reparação da intolerância.
Na peça de teatro de Jean Paul Sartre, “Bariona ou o Jogo da Dor e da Esperança” apercebi-me que esta peça, e porque vinha a pensar na intolerância, se coadunava bem com o que tinha previamente pensado. A tolerância adquire-se no afecto de união entre as pessoas, ou seja, na minha linguagem: na identificação projectiva não patológica e na partilha de algo externo que possa ser metaforizado no prazer ou no sofrimento.
Penso que Sarte expressou exactamente isso ao escrever sobre a sua peça. Passo a citar: “Ao verem-me escrever um mistério (a natividade de Cristo) pensaram, estar eu, a atravessar uma crise espiritual. Não! A mesma recusa do nazismo ligava-me aos padres prisioneiros no campo. A natividade pareceu-me um assunto capaz de realizar uma maior união de cristãos e ateus. Ficou acordado na escrita da peça, que eu diria aquilo que pensasse. Para mim o importante nesta experiência era que, prisioneiro, eu poderia dirigir-me aos outros prisioneiros, evocando os nossos problemas comuns. O texto está cheio de alusões à situação do momento e é perfeitamente evidente para cada um de nós que o enviado de Roma a Jerusalém era, no nosso espírito, o alemão carcereiro” (Sartre, s/data; tradução nossa).
Embora com simbologia diferente, para cada um de nós, a vivência do nascimento de uma criança é introdutora de algo desconhecido; há sempre o desejo que ela, a criança, nos aporte a criatividade necessária para prosseguirmos a vida com mais deslumbramento espiritual.
Para finalizar, em todos estes exemplos foi para mim claro, que a intolerância possibilita a desorganização do pensamento, não do Eu, desorganização essa que, inserida numa relação de afecto, pode levar à criatividade.
Toda a intolerância tem como matriz electiva o medo, que se pode localizar a vários níveis do desenvolvimento pessoal e da colectividade.
Há, ainda, o recurso ao proselitismo como salvaguarda da estabilidade pessoal e grupal, que nos permite melhor viver um self social mais estável, evitando o conflito, que, na maior parte das vezes, se situa a nível da rivalidade edipiana.
Sem a cabal vivência desta rivalidade (do “ser”, em Freud, ou do “ter” em René Girard) é difícil ao homem atingir a serenidade, que a esperança lhe proporciona; se esta vivência for vivida aquém, resta a solução da submissão.
Citando Joyce MacDougall (1978): “Pour développer une identité il faut toujours accepter de plaidoyer pour une certain anormalité!”
ABSTRACT: All the acts of construction of the self involve the balanced struggle between the wish to construct and to destroy the essential nucleus of the internal object.
From this struggle a phenomenology of internal intolerance may result, or, if a sufficient resource to defence does not exist, as for example through repression and others, generating culpability, it can be transformed in external intolerance, so evident
in the great social phenomena, like the wars, the religious sisma, the great apostasies and the fundamentalisms.
Every intolerance has as a source in fear, which can be at different levels of personal and collective development.
There is still the resource of proselytism as a safeguard of the stability of life and of the group, which allows us to better live the social self, avoiding conflict, which in the majority of cases is situated at the level of Oedipal rivalry.
Without the complete experience of this rivalry it is difficult for men to achieve the serenity that hope provides; if this experience is not reached, the remaining solution is submission.
KEYWORDS: Identity; Self; Ideal ego; Ego ideal.