Neste trabalho o autor não pretende deter-se excessivamente nos aspectos teóricos relativamente aos conceitos de contra-transferência, intersubjectividade e rêverie, mas sobretudo falar deles através da sua experiência clínica, nomeadamente na apresentação de três vinhetas clínicas. Para o autor, o processo analítico assenta neste tripé – contra-transferência, intersubjectidade e rêverie.
No processo analítico, tudo circula entre analista e analisando de forma a influenciar as respostas de um e de outro, que vão sendo integradas como numa espiral evolutiva em que cada elo da espiral incorpora aspectos tanto do analista como do analisando. Tendo em conta que o nosso objecto de estudo é o inconsciente e que as associações do analisando, a atenção flutuante do analista, assim como as interacções entre um e outro, devem ser entendidas como metáforas; penso que a circularidade entre analista e analisando tem o seu ponto alto, na intersubjectividade, contra-transferência e na rêverie que emanam directamente do inconsciente.
Para o autor, a contra-transferência, a intersubjectividade e a rêverie, entre outros fazem parte dos novos instrumentos que nos permitem conhecermo-nos melhor a nós próprios, ao outro, e ao mundo em que vivemos.
Qualquer destes termos – contra-transferência; intersubjectividade e rêverie, tem sido alvo do interesse de muitos autores, existindo inúmeros trabalhos extremamente interessantes onde se exploram os aspectos teóricos destas diferentes temáticas.
Neste artigo não me vou deter excessivamente nos aspectos teóricos, mas sobretudo dar ênfase à experiência clínica.
O interesse por estas temáticas decorreu da minha prática de psicoterapia analítica num longo período em que trabalhei com doentes graves em meio hospitalar, na Suíça, nos anos 60/70.
Psicanalista, Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association.
Nessa época, a grande ênfase quer em psicoterapia analítica quer em psicanálise centrava-se na problemática edipiana.
Uma das questões importantes nas supervisões era essa…
No entanto, já havia muitas vozes que sublinhavam a problemática pré-genital, assim como a importância do “aqui e agora” na sessão analítica. Fazendo-se referência à interacção profunda entre analista e analisando, designada por relação de inconsciente a inconsciente.
Desenvolvimentos recentes foram feitos nestas matérias, nomeadamente com Thomas Ogden, que retomou e desenvolveu conceitos de Winnicott sobre objecto transicional e espaço potencial.
Em trabalhos posteriores, desenvolveu também outros conceitos em particular o de rêverie e terceiro analítico.
Outros analistas nossos contemporâneos, nomeadamente André Green, têm-se interessado pela importância do “aqui e agora” na cura analítica, assim como com o “terceiro analítico” mencionado por Thomas Ogden.
Em quase todas as revistas actuais de psicanálise encontramos com frequência referência a estas temáticas, nomeadamente “o terceiro analítico”, que não é um equivalente do Édipo, mas do terceiro enquanto construção que decorre do trabalho analista-analisando, permitindo o acesso ao Édipo depois dos alicerces do mundo interno estarem estruturados.
Vou utilizar o conceito de contra-transferência no sentido da definição de André Green (2002): “A contra-transferência é uma reacção à transferência, o discurso do analisando produz efeitos de ressonância e de rejeição sobre o que foi insuficientemente ou mal analisado no analista, levando-o a compreender de maneira parcial ou distorcida o que procura transmitir ao analisando”.
Para Otto Kernberg o termo contra-transferência, é usado para todas as reacções afectivas do analista relativamente ao analisando. Quando o analista não analisa a sua contra-transferência corre o risco de projectar no analisando as suas próprias dificuldades.
Freud acusou Ferenczi de ser um caso de análise interminável, e em certa medida o trabalho de Freud “Análise terminável e interminável” é uma resposta a esta dificuldade da análise com Ferenczi.
Nesse trabalho, também é claro que Freud responde a Otto Rank e a Ferenczi, na medida em que ambos pretendiam encurtar as análises. Preocupação que Freud também tinha mas não aceitava a forma de
colocar o problema técnico tanto em Otto Rank (traumatismo do nascimento) como em Ferenczi (técnica activa).
Alguns anos depois da análise com Freud, Ferenczi queixou-se dele não ter avaliado a transferência materna e feminina, assim como a transferência negativa.
A este propósito Thierry Bokanowsky (2000), refere que: “Em Freud, a transferência negativa inscreve-se no quadro das vicissitudes duma transferência essencialmente de tipo paterno, para Ferenczi, a transferência negativa evocada quando da sua análise com Freud, designa sem sombra de dúvida uma transferência de tipo materno e feminino, centrado sobre as identificações à mãe, assim como a relação ao objecto primário”.
Acrescenta ainda: que devemos ao grande talento de Ferenczi ter sublinhado certos pormenores, assim como ter tentado descrever certos efeitos, quando o analista é apanhado nos pontos cegos que levam à denegação de uma contra-transferência infantil, na posição materna.
Para o conceito de intersubjectividade, recorro aos desenvolvimentos teóricos de Thomas Ogden, em que a intersubjectividade é compreendida como a relação entre dois mundos intrasubjectivos e que no processo analítico ocorre entre analista e analisando, e da qual é possível a criação de algo de novo – a possibilidade de emergir o terceiro – que designou mais tarde por terceiro analítico.
Joan Coderch (2001), referindo-se aos trabalho de Ogden sobre a intersubjectividade acrescenta: “A intersubjectividade criada, engloba em si mesmo a subjectividade de ambos os participantes e permite o aparecimento de sentimentos, sensações, fantasias e pensamentos que anteriormente não tinham tido oportunidade de configurar-se.
A contínua interacção entre paciente e analista, modifica a primitiva subjectividade de um e de outro, e cria uma diferente subjectividade com outras potencialidades.
A identificação projectiva gera nos dois participantes a emergência de algo que não existia até aquele momento.
Cada um deles coloca no outro uma parte da sua personalidade, ao mesmo tempo que recebe algo de novo criado pela projecção do outro. Analisando e analista são, neste inter-jogo de identificação projectiva por sua vez, alternadamente, projector e receptor.
A partir deste ponto de vista, um e outro só chegarão a ser verdadeiramente analisando e analista se forem considerados como tal por este outro reconhecido como um sujeito separado e independente”.
Pergunto-me se Ferenczi quando propôs a alguns dos seus analisandos a alternância da posição no divã, não teria uma intuição neste sentido, como se ele estivesse a pôr em prática um projecto de intersubjectividade aplicada, no sentido da intersubjectividade prática – passando à acção na medida em que invertiam os papéis.
Ferenczi propunha ao doente que passasse à prática desta comunicação interna, para tentar que dessa forma o analisando percebesse o analista e o analista percebesse o analisando na sua condição de analisando.
Em relação ao conceito de rêverie, partimos da ideia de Freud que comparava a rêverie aos sonhos diurnos.
Para Freud, a rêverie era sinónimo de fantasias diurnas, considerando que estes sonhos diurnos tinham muitas vezes aspectos inconscientes. Estavam relacionados com o recalcado e iriam funcionar como resto diurno, para os sonhos.
Este conceito foi enriquecido por Bion em 1963. Para Bion, a rêverie designa a maneira como a mãe acolhe as projecções identificatórias do seu bebé; tratando-se de reacções imaginárias que a mãe passa a ser capaz de trabalhar para as metabolizar.
Mais recentemente Ogden (1997), conceptualizou a rêverie como “um processo psíquico individual e ao mesmo tempo uma construção intersubjectiva que se situa numa interacção analítica permanentemente dialéctica. Tanto o analista como o analisando contribuem para a intersubjectividade inconsciente”.
Neste trabalho pretendo reflectir como no processo analítico a contra-transferência, a intersubjectividade e a rêverie funcionam como organizadores do mundo interno.
Em meu entender, vivemos permanentemente num caos psíquico.
Mesmo a associação livre que Freud propôs como instrumento de trabalho analítico, tomada à letra conduzir-nos-ia a uma situação caótica próxima do discurso psicótico.
Contudo não é um discurso psicótico, porque o analisando vai escolher um dos múltiplos temas que tem em mente e esta escolha já funciona como um organizador do mundo caótico.
Da mesma forma que o decidir falar sobre um tema, o decidir escrever um texto ou a tentativa ao acordar de recordar os sonhos, são organizadores psíquicos.
Refere Pontalis (2003): “O sonho situa-se entre o caos e a ordem… É o recalcado infantil que, efectuando um regresso incontrolado, leva numa corrida louca a sonhar: fuga para a frente, percorrendo uma linha quebrada, que não cessa de se bifurcar, conflito entre instância recalcante e o recalcado que, ao preço de muitos desvios, ganha terreno”.
Para Pontalis, pensar e sonhar são da mesma substância, da mesma matéria… o que quererá dizer que sonhar é igual a pensar.
No entanto, do meu ponto de vista, sonhar é igual a pensar se o pensamento for livre e não um pensamento aprisionado por memórias e desejos que se impõem ao curso da livre associação.
Neste sentido acrescenta Bion (1997): “Eu esforço-me de ver outra coisa, de escutar outra coisa, de me abrir a outra coisa – aos vestígios, aos vestígios mentais. (…) O que é evidente, é evidente, não há nada mais a dizer.
O analista deve libertar-se das suas recordações e dos seus desejos de forma a poder abrir-se ao presente. A psicanálise dá a impressão – que corre o risco de nos induzir em erro – de que o que importa é o passado, na medida em que nos faz acreditar que o importante em psicanálise é o passado.
No entanto, o passado não é importante, porque relativamente a ele não podemos fazer nada. As únicas coisas às quais podemos ter acesso são os restos, os vestígios do passado, os vestígios de estados de espírito do passado ou de componentes arcaicas do nosso físico – as fendas branquiais, a cauda atrofiada ou a nossa ascendência simiesca“.
No plano prático, e referindo-se ao controlo de casos em análise, diz-nos ainda Bion relativamente às supervisões, que “é preferível não esperar do supervisor ensinamentos ou um saber sobre a psicanálise na medida em que for possível recolher uma ideia ou duas em supervisão ou mesmo em análise. É melhor esquecer quando nos encontramos com o analisando; caso contrário, corremos o risco, de ter o espírito de tal forma saturado de desejos, teorias, expectativas, que não haverá mais espaço para uma ideia, não haverá mais interstícios por onde a informação recolhida pelos sentidos possa introduzir-se e atingir a capacidade para compreendermos.
É importante que o analista em formação, o candidato, ouse usar da sua imaginação e ouse formular o produto em supervisão“.
Maria é uma jovem de vinte e poucos anos filha de um casal de professores. Tanto o pai como a mãe são descritos como muito perturbados.
O pai é mencionado como sendo uma pessoa inteligente mas incapaz de assumir as suas responsabilidades, vive no limiar da pobreza.
Maria é filha do primeiro casamento, do qual nasceu também uma irmã dois anos mais velha. Seguiram-se mais casamentos dos quais Maria tem vários irmãos.
Por sua vez, a mãe é descrita como rígida e fria. A relação entre ambas foi impregnada de ódio desde que Maria se recorda de existir. De tal forma, que ela relaciona as otites de repetição que tinha em criança, como uma protecção contra a “terrível voz daquela puta” (sic). As perturbações da audição provocadas pelas otites de repetição tê-la-iam levado a um autismo que foi “tratado” em criança por um analista pedopsiquiatra competente.
Além destes sintomas sofria duma gaguez grave e de estrabismo.
Aos quinze anos de idade a mãe procurou-me de acordo com o terapeuta anterior, para comigo prosseguir o tratamento da filha. Nessa altura era referido que ela tinha melhorado significativamente, estava integrada na escola com aproveitamento e estudava música. Os sintomas referidos neste período estavam sobretudo relacionados com uma grande agressividade para com a mãe, assim como a gaguez.
O processo analítico foi longo e difícil.
Apesar das modificações consideradas positivas serem significativas:
Casamento com um jovem professor universitário do qual nascerem três filhos saudáveis;
Mudança de emprego – abandono da actividade lectiva, para um lugar numa importante instituição ligada à economia;
Franca melhoria no plano das relações sociais, assim como uma importante atenuação dos problemas somáticos nomeadamente as otites de que se libertou definitivamente;
A gaguez durante as sessões era rara e os problemas com a visão estão controlados.
Um dos problemas que se colocou no trabalho com esta analisanda foi o de organizar o fim da análise. Muitas vezes imaginei estar perante uma análise interminável. Porquê?
Porque apesar das mudanças sintomáticas e estruturais que esta analisanda fez, existia ainda uma grande dependência do objecto real. Foi recorrente no nosso trabalho – o receio de me perder, sobretudo quando me ausentava para férias.
Revive nas minhas ausências, o traumatismo que viveu com a mãe, quando ela saía e a deixava aos cuidados de uma empregada doméstica negligente que durante horas, a encerrava num guarda-fatos. Foram os gritos de terror repetidos durante meses que alertaram os vizinhos e que denunciaram a situação à mãe.
Poderemos pensar que é esta situação traumática de base, “après-coup” de outras situações traumáticas que a tornam escrava do objecto real. Na maior parte das sessões sinto-me um “seio toilette” como descreveu Meltzer. Maria evacua palavras e sentimentos através de um discurso compacto, ocasionando-me poucas possibilidades de intervenção.
Apesar de gostar dela, em muitas sessões sinto-me aborrecido, apenas usado como receptáculo, e não usado como Winnicott descreveu no trabalho: “a importância do uso do objecto”.
Por exemplo, sabendo da importância de relatar os sonhos no início da sessão, sempre que tem sonhos relata-os no final da hora. Cumprindo duas funções, por um lado, a tentativa de prolongar a sessão e por outro lado, o impedir de nos debruçarmos sobre o sonho.
É neste ambiente analítico que decorreu o fragmento de sessão que vou mencionar.
A analisanda fala-me de aspectos ligados à sexualidade queixando-se do marido e referindo que tem que pensar noutros homens, como forma de se estimular a ter relações sexuais. É de sublinhar que Maria tem o sentimento que o marido a despreza. O marido não se interessa por ela, quando na realidade, é Maria que ao pensar “noutros homens” se afasta e o despreza.
Enquanto ela falava, pensei numa viagem que tinha programado para o próximo mês e da qual ela estava avisada. Por momentos, esqueci-me dela, perdi-a dentro de mim.
Repentinamente a analisanda surpreende-me na minha rêverie e diz: “não se esqueça de mim”.
Analista: será que receias que na minha ausência eu desapareça para sempre e fiques sem mim. (quando fiz esta intervenção pensei, por um lado na viagem que já lhe anunciara, e por outro lado na viagem do aqui e agora, através da minha rêverie).
Maria recorda-se de um sonho: “era um sonho consigo em que me dizia: vamos tratar desses joanetes. E acompanhava-me até uma sala de cirurgia onde iria ser operada”.
Nesta pequena sequência interactiva, vemos a leitura, da minha contra-transferência que vai no sentido de me sentir excluído (tal como ela se referia ao marido) – pelo intenso mecanismo projectivo e evacuativo – o outro é que não se interessa por ela – quando é ela que com um discurso cerrado, não me dá hipótese de intervir – põe-me fora. Imensas vezes, noutras sessões manda-me calar, referindo que ela é que tem que falar, não eu.
Posteriormente, a minha rêverie sobre a viagem.
Passagem ao acto sob a forma do pensamento – ao pensar na viagem, afasto-me e provoco uma ruptura no contacto com a analisanda.
Através de fenómenos intersubjectivos, a analisanda capta o meu afastamento quando refere “não se esqueça de mim” possibilitando a minha interpretação, a que se segue o relato de um sonho.
Verificamos assim, que a analisanda no decurso da sessão abandona a sua postura evacuativa, para se colocar numa posição menos defensiva e portanto mais analítica.
Penso, que os processos intersubjectivos, nomeadamente a análise da contra-transferência e a rêverie, facilitaram o processo analítico desbloqueando o impasse.
Sendo de salientar, a dificuldade em terminar a sessão, como se houvesse da parte da analisanda uma necessidade de me intoxicar; de prolongar indefinidamente a sessão analítica e de me impedir de interpretar os sonhos que surgem sempre no final da sessão, para dessa forma transformar os nossos encontros analíticos numa análise interminável.
Pedro é um jovem arquitecto de vinte e quatro anos.
Os pais procuraram-me quando ele tinha nove anos por sofrer de fobia gravíssima que o impedia de frequentar a escola e até de sair sem ser acompanhado. De preferência exigia a companhia da mãe.
Descrito como saudável até essa idade, excelente aluno dum colégio privado. O número um da classe. Numa das aulas do quarto ano do ensino básico, humilha a professora perante os colegas mostrando-lhe que ela escrevera uma palavra errada no quadro.
A partir daí instala-se uma guerra com a professora, mas sobretudo dentro dele, que o impede de ir à escola e progressivamente, de sair de casa sem ser acompanhado.
No início da terapia fala de insónias graves, e da impossibilidade de sair sozinho. Elabora a agressividade contra a mãe projectada e deslocada para a professora. Depois dos incidentes com a professora, desenvolve uma rêverie que viveu sozinho nos momentos de insónia, e que mais tarde passou a viver comigo na terapia: ele com uma faca de talho matava a professora, abrindo-lhe o tórax e o abdómen ainda com vida. Tirava-lhe as vísceras: fígado, rins, pulmões, cérebro etc. Posteriormente, montava um talho e um restaurante.
No talho vendia os bifes “à professora”. No restaurante eram cozinhados pratos gourmet como por exemplo: miolos à professora; rins à professora etc. Não contente com isto tinha mandado curtir a pele da professora mantendo a cabeça. O que lhe servia como tapete para ao sair da cama todos os dias ter o prazer de a pisar.
A elaboração desta agressividade focalizada na professora poupou a mãe durante os dois ou três primeiros anos de terapia.
As guerras eram sobretudo dirigidas ao pai e curiosamente à hora das refeições. O pai era descrito por ele como exigente, meticuloso e autoritário. Repreendia-o durante as refeições, pelo que comia ou não comia, como se sentava, como segurava os talheres, etc.
Nesse período a mãe mantinha-se muito idealizada.
Pouco a pouco no processo analítico começa a falar do período antes dos nove anos em que se sentia frequentemente abandonado pela mãe. Foi possível aprofundar esta temática sobretudo nos períodos das minhas ausências (por exemplo das férias) em que ele receava que eu o perdesse dentro da minha cabeça.
É-lhe possível a partir daí recordar episódios em que se sentia abandonado pela mãe e vivia secretamente o pavor da mãe se esquecer dele.
Entretanto começa a recuperar aspectos positivos da relação com o pai e passa a atacar a mãe, que a pretexto de um crónico conflito conjugal abandona a família e deixa-o a viver só com o pai.
Terminou a licenciatura de arquitectura e está prestes a terminar a terapia.
Pedro, neste momento está bem no trabalho e na vida social, é um rapaz interessante e com sucesso profissional.
Nesta sessão, fico surpreendido porque ele relata-me um encontro que teve com uma ex-amiga/namorada (era uma amiga com quem ele gostava de estar mas falava de muitos pontos de desencontro o que não lhe permitia organizar uma relação mais séria).
Pedro encontra esta rapariga com outro rapaz no cinema e desencadeia uma crise de abandono e de perda brutal, desproporcionada à forma como ele habitualmente vive a relação com as ex-namoradas, e desproporcionada também relativamente àquilo que se passava entre eles.
Eu não percebi absolutamente nada.
Tentei interpretar em função da relação com a namorada e perceber o que é que se estaria a passar, mas não percebi a intensidade do sofrimento, que o levou a chorar, não só junto de mim como também junto da mãe mais tarde.
Uma catástrofe emocional bastante intensa.
No intervalo entre duas sessões, eu estava a folhear um jornal, onde li uma notícia sobre a arquitectura em Timor-leste e no Sri Lanka depois das devastações da guerra e do tsunami. Uma arquitecta descrevia a forma desolada como estavam as casas e a falta de conservação a que elas estavam votadas depois de uma intervenção que permitiu construir casas para realojamentos e escolas.
Enquanto lia esta notícia, pensei no Pedro, que neste momento, tem apenas uma sessão por semana; Duas sessões atrás falamos sobre a hipótese de terminarmos a análise, embora não tenhamos marcado a data.
É ao ler este artigo do jornal sobre a arquitecta que se deparou com a desolação do Sri Lanka e de Timor Leste, e do abandono a que as casas foram votadas que pensei que o Pedro me estava a falar através da ex-amiga, da separação comigo.
Durante toda a sessão não pensei que também nós, nos íamos separar e só ao ler o jornal penso nisso.
Durante toda a sessão estive completamente cego e surdo relativamente à transferência e à contra-transferência, que somente consegui analisar ao ler o artigo do jornal.
Percebendo então, que este rapaz me era particularmente agradável, falava de assuntos interessantes sobre arquitectura e agradava-me muito conversar com ele.
O que me permite pensar que o facto de não analisar nem transferência nem a contra-transferência durante a sessão teve necessariamente uma relação com o facto de inconscientemente eu pretender retê-lo mais algum tempo, para minha satisfação narcísica.
Marta é uma jovem de vinte e cinco anos, que está a iniciar o quarto ano de análise.
Desde sempre Marta tem apresentado grande resistência em aceitar e cumprir o setting analítico: dificuldade na passagem para três sessões semanais, atraso nos pagamentos, faltas e atrasos frequentes – não cumpre nenhuma das regras estabelecidas.
No dia desta sessão estávamos perto das férias de verão, e mais uma vez eu estou a esperar por ela. Enquanto espero, vou pensando no funeral a que assisti recentemente de uma amiga de infância.
Apesar de nunca ter sido minha namorada havia desde criança um interesse particular por esta rapariga. Brincámos muito em miúdos, mas sempre houve uma obstrução a que houvesse alguma coisa entre nós, sobretudo da parte dos pais. Eu lá fui ao funeral.
Estava a pensar em tudo isto quando a Marta chega, e inicia a sessão falando que tem muitas sequelas provocadas pela mãe.
Analista: Será por isso que chegou hoje, mais uma vez, atrasada?
Analisanda: Sim, é possível…Este comportamento da minha mãe, que tive de suportar toda a vida, foi terrível. O meu pai também não foi melhor. Portanto, a minha vida foi tremenda.
Menciona como a mãe foi recentemente “arrogante, cruel e desprezível”, para um amigo de infância de quem ela gostava muito. Ouviam música juntos, mas não podia ter uma relação amorosa ou contactos mais profundos, porque a mãe considerava que ele era maluco.
Este relato evocou a minha rêverie do início da sessão, antes da analisanda chegar.
Analista: será que aqui, com os seus atrasos quer-me fazer sentir, as sequelas, que a mãe lhe deixou para a vida, na medida em que a sua mãe estaria sempre atrasada?
Analisanda: Fica em silêncio durante alguns minutos. Chora. Realmente eu recordo que a minha mãe esteve sempre atrasada na minha vida. Por exemplo, na escola, quem me ia buscar era a minha tia, raramente era a minha mãe, mas quando ia, eu era a última a sair e nesse tempo de espera ficava sozinha na escola. Recordo-me que uma vez caí e fiquei ferida. Nesse dia, todos os meus colegas saíram e eu fiquei à espera que me fossem buscar, acabou por ser a minha tia, porque a minha mãe nem procurou por mim.
Analista: provavelmente houve outros atrasos a que não teve acesso, porque não se recorda: por exemplo, quando tinha sede ou fome e a sua mãe se atrasava…
Analisanda: Disso não me lembro, mas recordo-me que a minha mãe dizia muitas vezes, que lhe apetecia atirar-me pela janela fora quando eu chorava durante a noite.
No desenrolar da sessão fala do problema de gritar muito com a filha e de perder o controlo, mas pela primeira vez, faz mea culpa e reconhece esta responsabilidade nela. Porque anteriormente queixava-se de forma sistemática das gritarias da filha e do mau comportamento dela na escola, tal como a mãe fazia com ela e do que acabou de se queixar.
A sessão desenrola-se de uma forma relativamente agradável, reconhecendo a Marta que tem feito progressos mas entretanto diz-me que gostava de reduzir a frequência das sessões.
Sinto-me irritado, tanto mais que esta analisanda pretende ser analista. Foi difícil aceitar as três sessões, e com frequência fala-me em reduzir uma sessão por dificuldades económicas evocando que outros colegas fizeram análises mais curtas e apenas com a frequência de uma vez por semana.
Neste dia, termino a sessão quinze minutos antes. Só me dei conta porque a minha secretária me chamou a atenção quando terminei a hora.
Neste caso, antes de iniciar a sessão e durante o seu atraso pensei numa perda importante relativamente à minha amiga de infância, a que fui ao funeral.
Marta durante a sessão vai falar de duas grandes perdas da infância: a mãe que a abandonou precocemente e a deixou nos primeiros anos em casa dos tios e o pai que abandonou a família; com quem tem contactos pobres e esporádicos.
Faltam poucas sessões antes de partirmos para as férias de verão. Eu termino a sessão quinze minutos antes da hora prevista, como se perante a identificação projectiva patológica tão poderosa que ela coloca em mim, me impedisse de pensar e inconscientemente fosse forçado a desprezá-la tal como a mãe e o pai fizeram na sua infância.
O processo analítico assenta neste tripé: contra-transferência, intersubjectidade e rêverie.
O que podemos observar é o “couple” analista/analisando, porque todas as respostas do analisando estão profundamente impregnadas pela presença do analista – por aquilo que ele é, pelo que diz ou pelos silêncios.
Recordo Claude Monet ao pintar a Catedral de Rouen, sempre diferente. A Catedral de Rouen apesar de não ser um elemento vivo, era um objecto animado das projecções do pintor, que a observava de forma sempre diferente, em função das horas do dia, ou dos dias da semana, e do seu humor.
Poderíamos dizer, que as respostas do analisando às intervenções do analista variam de acordo com a gravata ou perfume, que ele traz nessa sessão. É evidente que isto é um exagero, mas em termos de intersubjectividade e de circularidade do processo analítico – tudo circula entre analista e analisando de forma a influenciar as respostas de um e de outro. Estas vão sendo integradas numa espiral evolutiva em que cada elo da espiral integra aspectos tanto do analista como do analisando.
Nunca termina – reporto-me ao trabalho de Freud “Análise terminável e interminável”, porque todas as análises são intermináveis.
É a peste a que Freud fez referência aos Americanos quando visitou os Estados Unidos, dizendo-lhes: “Eu trago-vos a peste”.
É evidente que há um momento em que analista e analisando chegam a acordo relativamente ao fim de uma análise, porque foram atingidos os critérios de satisfação para ambos, o que permite interromper o encontro dos dois, mas não significa que a análise tenha terminado.
O que terminou foi o encontro entre analista e analisando, uma vez que foram atingidos objectivos que apontam para um bem-estar social; afectivo; sexual e profissional.
Tendo em conta que o nosso objecto de estudo é o inconsciente e que as associações do analisando, a atenção flutuante do analista, assim como as interacções entre um e outro, devem ser entendidas como metáforas; penso que a circularidade entre analista e analisando tem o seu ponto alto, na intersubjectividade, contra-transferência e na rêverie que emanam directamente do inconsciente.
Refere André Green (2003): “o que apela para o recurso à metáfora, não é a pretensão do discurso analítico poder ser interpretado de acordo com os abismos do psiquismo; mas o facto de, enquanto promotor do discurso associativo, colocar a troca verbal não somente em relação ao seu destinatário – o que é a sua vocação primária – mas de acordo com as diferentes vertentes da significação – verbal e não verbal – que comunicam uns com os outros, no ser que fala.
Assim, o discurso não tem que ser avaliado apenas segundo a inteligibilidade que o marca em relação ao seu interlocutor, mas de acordo com as modalidades que situam os tipos de interlocução, no seio das diferentes modalidades expressivas do psiquismo.
O que orienta naturalmente o pensamento para a poesia e para a metáfora. Por outras palavras, das interacções entre:
o discurso interno (não verbal) do analista e do analisando;
o discurso verbal do analista e do analisando;
e das respectivas interacções quer internas quer externas: decorre uma dinâmica que produz aquilo que Thomas Ogden chama “o terceiro analítico”, e que varia de acordo com o analista e o analisando mas necessariamente com a intervenção de miríades de factores que interferem nas interacções intra-psíquicas quer de um quer de outro.
Daí que a investigação em psicanálise seja extremamente difícil, em virtude destes aspectos subjectivos e intersubjectivos que estão sempre activos e em movimento, a partir do encontro analista e analisando.
Acrescenta ainda André Green (2003): “Designando a polaridade oposta como a do Outro e do simbólico, o acento parece sobretudo incidir sobre a intersubjectividade. É de sublinhar, de facto, que nos laços inter-humanos, a relação de um sujeito ao outro tem toda a influência, qualquer que seja a sua natureza, e pode, mostrar-nos o aspecto especificamente humano do psiquismo”.
Terminaria citando novamente André Green a propósito da complexidade do processo analítico: “Para abordar a psicanálise de amanhã, é necessário uma nova forma de pensar, que existe em germinação na obra de Freud e que nós conseguimos ultrapassar.
Ela repousa sobre três princípios:
A complexidade dialógica, que afirma que a relação supõe pelo menos dois, é mais importante que os termos que ela reúne;
A recursividade, que nos obriga a não separar o efeito e a causa: a causa produz efeitos que retroagem sobre a causa; o efeito torna-se por sua vez a causa;
O ponto de vista hologramático: a parte está no todo que se encontra ela própria na parte“.
Em conclusão, a contra-transferência, a intersubjectividade e a rêverie, entre outros, fazem parte dos novos instrumentos que nos permitem conhecermo-nos melhor a nós próprios, ao outro, e ao mundo em que vivemos.
ABSTRACT: In this work the author does not intend to dwell too much on theoretical aspects regarding concepts of countertransference, intersubjectivity and rêverie, but rather talk about them through his clinical experience, by naming the presentation of three clinical vignettes. To the author, the analytical process is based on this tripod – countertransference, intersubjectivity and rêverie.
In the analytical process, it all runs between analyst and patient in order to influence the response to one or the other, which are integrated as an evolutionary spiral in which each link in the spiral incorporates aspects of both the analyst and the analysand. Given that our object of study is the unconscious and that the associations of the analysand, the analyst's floating attention, as well as the interactions between them, should be understood as metaphors; I think the interplay between analyst and patient has its high note, in the intersubjectivity, countertransference and the rêverie that emanate directly from the unconscious.
For the author, the countertransference, intersubjectivity and rêverie, among others, are part of the new instruments that allow us to know ourselves better, to others, and the world in which we live.
KEYWORDS: Countertransference; Intersubjectivity; Rêverie.