Reflectir sobre a escuta psicanalítica é reflectir sobre os processos mentais do psicanalista durante a sessão de psicanálise. A escuta psicanalítica define-se como sendo a escuta do inconsciente, sendo que escuta do psicanalista corresponde a um processo de elaboração psíquica, em que intervêm elementos inconscientes e conscientes. Sendo um processo interactivo, a escuta psicanalítica é vulnerável aos diferentes impactos que a comunicação entre o par analítico provoca nos respectivos mundos internos e está sujeita a variações qualitativas. Por parte do analista, estas variações podem ir de momentos de compreensão empática e tentativas “de entrar em contacto com os objectos internos do analisando” (Racker) e, dessa forma, torná-lo mais apto a formular a interpretação, até momentos de rotura em que se perde o significado e o simbolismo do discurso.
Nesta comunicação, o processo da escuta é descrito como um trabalho do inconsciente, mas que se inscreve no funcionamento mental de cada psicanalista.
Seguidamente, aborda-se a escuta psicanalítica em situação de supervisão. Constata-se que a escuta psicanalítica do supervisor decorre em 3 planos simultâneos e que a análise das diferenças entre a escuta do analista e a do seu supervisor permite identificar também diferentes níveis de problemas.
Como conclusão, são apresentadas algumas recomendações que podem tornar o processo de escuta menos vulnerável a roturas.
Este texto presta uma homenagem agradecida ao Prof. Doutor Pedro Luzes, membro fundador da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, que ao longo de toda a sua vida se manteve firme na defesa da psicanálise, da sua prática e dos psicanalistas.
A escuta psicanalítica, sendo a escuta do inconsciente ou dos inconscientes (do analisando e do analista), diz respeito à comunicação intra-analítica e corresponde a um processo de elaboração psíquica, em que intervêm elementos inconscientes e elementos conscientes de ambos os elementos do par analítico.
Texto elaborado a partir da comunicação “A escuta psicanalítica. Da clínica à supervisão”, apresentada na I Jornada Interna do Instituto de Psicanálise em 6 de Março de 2010, em Lisboa.
Psicanalista, Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, Membro da International Psychoanalytical Association.
À semelhança do psicanalista, também o paciente não se limita a ouvir o analista. Ao escutar a palavra do analista, o paciente apropria-se dela, transforma-a, e põe em marcha todo um processo de simbolização e subjectivação.
Neste artigo, a minha reflexão centra-se na escuta do psicanalista, considerando-a o primeiro passo do trabalho psicanalítico.
Como diz Widlocher (1995), o discurso do analisando (pensamentos, recordações, actos falhados) durante a sessão analítica não é um objecto externo de análise ou de observação do analista, mas sim um “agente” que activa o seu pensamento inconsciente e consciente. Assim sendo, a escuta do psicanalista é pensamento, a partir do qual é possível atribuir significado à comunicação do analisando durante a sessão analítica.
A propósito do processo mental que implica a escuta analítica, retomei duas afirmações de Freud (1912): “quando estou a ouvir um paciente, eu entrego-me à minha própria corrente de pensamentos inconscientes”. Ou ainda (1922): “a atitude a adoptar pelo psicanalista é entregar-se à sua própria actividade mental inconsciente, num estado de atenção suspensa, evitando tanto quanto possível a reflexão e a construção de expectativas conscientes e tentar não fixar na sua memória nada que tenha ouvido em particular”. Para Freud, a escuta do paciente pelo psicanalista implica a escuta do seu próprio inconsciente.
Por sua vez, Bollas (2007) argumenta que a psicanálise contemporânea, para reencontrar a sua “sabedoria”, deve voltar à primeira tópica e que o trabalho psicanalítico consiste no encontro entre dois inconscientes. A sequência associativa do discurso manifesto do paciente, com as suas aparentes descontinuidades entre as ideias, transporta ligações que se originam no inconsciente. São esses elementos do inconsciente, activados durante a sessão pela presença do analista e pelos movimentos transferenciais em jogo, que regem a associação de ideias do paciente, digam eles respeito a um acontecimento histórico da sua vida e aos modelos inconscientes das suas relações de objecto (inconsciente recalcado) ou sejam eles ditados pela emergência dos “organizadores psíquicos” inconscientes (inconsciente primário), tais como os fantasmas originários“ (cena primitiva, complexo de Édipo) ou outras formações pulsionais (sadismo/masoquismo primário, narcisismo primário ou, ainda, instinto de vida/instinto de morte).
O psicanalista, no estado de atenção flutuante, de escuta livre, capta, de algum modo, com o seu inconsciente a lógica da sequência associativa do paciente e descobre as ligações inconscientes do discurso do paciente no momento em que a sua consciência é informada por essa percepção inconsciente.
Podemos dizer que, num primeiro tempo, a mente do psicanalista se deixa “impressionar” sob um modo inconsciente e num segundo tempo a sua consciência apreende esses fenómenos e os transforma em pensamentos.
Resta então ao analista elaborar estes seus pensamentos, que vão dar lugar à interpretação, também em função do que lhe é dado conhecer do seu paciente e da análise do seu próprio estado emocional.
É neste trabalho do inconsciente, imponderável e irrepetível, que a essência da psicanálise se define.
Trata-se dum processo de elaboração mental que implica da parte do analista um tempo de reflexão e, parafraseando Meltzer (1988), a capacidade de aceitar a incerteza face à “qualidade enigmática” do inconsciente.
Convém sublinhar que a escuta do psicanalista não se dirige só ao discurso verbal do paciente. Também o seu discurso afectivo infra-verbal (a tonalidade da voz, o ritmo, a gestualidade, os movimentos do corpo no divã) impregna o aparelho psíquico do analista. Não só a palavra, mas também, a linguagem do acto e a linguagem corporal transportam em si uma narrativa e uma historicidade própria, podendo articular-se entre si ou, pelo contrário, manifestarem-se separadamente em diferentes momentos da análise ou em doentes com situações particulares. É importante para a escuta psicanalítica que o psicanalista tenha em linha de conta este polimorfismo da associatividade psíquica (Roussillon, 2009).
Remeto ainda para o conceito de “memória corporalizada”, ou seja, para manifestações somáticas que correspondem à memória de experiências dolorosas insuportáveis e precoces e que reaparecem no contexto da relação transferência/contra-transferência como verdadeiras narrativas dos acontecimentos que lhes deram origem .
Algumas vezes geram-se situações particulares, como o efeito de surpresa que se actualiza na diferença entre o que é esperado pelo psicanalista e o que é devolvido pelo analisando, e que é sempre um momento fecundo da escuta psicanalítica e que Faimberg (1996) desenvolveu através da sua “escuta da escuta ”. Ou ainda o aparecimento na mente do analista de “pensamentos contra-transferenciais” (Racker, 1988) que aparecem como fantasias, ideias associativas, sem grande carga emocional
e que, por vezes, o analista tem mesmo tendência a ignorar, mas que se revelam ser muito úteis e que o paciente vem posteriormente confirmar
Porém, a escuta do inconsciente está sujeita a variações e é vulnerável aos diferentes impactos que a comunicação entre o par analítico provoca nos respectivos mundos internos.
Por parte do analista, estas variações podem ir de momentos de compreensão empática e tentativas “de entrar em contacto com os objectos internos do analisando” (Racker, 1988) e, dessa forma, torná-lo mais apto a formular a interpretação, até momentos de rotura da escuta em que se perde o significado e o simbolismo da comunicação. Freedman (1993) chama aos momentos de rotura da escuta, “contra-transferência des-simbolizante”, por oposição à contra-transferência simbolizante que dá lugar à empatia e à interpretação. Um dos aspectos mais nocivos para a escuta psicanalítica em termos contra-transferenciais é o narcisismo exacerbado do psicanalista que o leva a “des-simbolizar” a transferência e a considerar o amor do analisando pelo psicanalista, não uma repetição metafórica das suas relações objectais mas uma realidade actual e factual. O psicanalista compreende e actua face ao material do seu paciente em função daquilo que sente que é como pessoa real e não como representante e suporte transferencial dos objectos internalizados do paciente.
A escuta e o comportamento dentro e fora das sessões é determinado, nestas situações, pela procura das satisfações narcísicas do próprio psicanalista É nestes casos que o risco de violação dos limites do quadro analítico e da ética psicanalítica é maior.
Outros elementos da vida psíquica do psicanalista, quer emocionais quer cognitivos influenciam a sua escuta e vão determinar a escolha selectiva do material que o analista interpreta.
Durante a hora analítica, o psicanalista não aliena a sua identidade própria, pessoal e profissional, nem as competências que foi adquirindo ao longo da sua formação, que contribuem para a qualidade da escuta e que convém saber distinguir dos aspectos inconscientes da sua contra-transferência. Baranger (1993) chama a este conjunto de factores, os “recursos” do psicanalista
Os recursos que o psicanalista traz consigo são a sua história pessoal e as suas referências culturais, mas também as suas referências
psicanalíticas pessoais (a experiência da sua análise pessoal, das supervisões, os seus modelos psicanalíticos). Outros elementos são ainda, o conhecimento do paciente e a história da relação psicanalítica, nomeadamente a memória do processo (Baranger, 1993).
Para além disso, mesmo quando não é referido, explicitamente, o analista tem sempre um quadro de referência teórico implícito no qual enquadra a sua escuta. É a minha própria experiência clínica e de supervisão que as diferentes teorias que fazem parte da rectaguarda do psicanalista, como que existem numa espécie de sótão psicanalítico (o pré-consciente) e que estão prontas a serem utilizadas ou activadas face a determinado material do paciente.
Como diz Bollas (2007) o psicanalista deve ter um conhecimento teórico alargado e aprofundado, mas também uma flexibilidade que lhe permita compreender o material do doente à luz dum quadro de referência da teoria da técnica que seja mais apropriado à especificidade do material. Baranger (1993) cita Aulagnier que lhe chama “teorização flutuante” por comparação com o estado de atenção flutuante descrito por Freud.
Em determinada altura o analista pode preferir fazer apelo a uma compreensão mais estrutural do material (2.a tópica), outras vezes mais topográfica (1.a tópica), ou ainda percorrer as diferentes teorias da relação de objecto, consoante os casos e os momentos. O analista que tem sempre o mesmo quadro de referência teórico impõe ao seu paciente um estilo interpretativo que bloqueia a comunicação inconsciente. Um exemplo é a compreensão e interpretação sistemática de toda e qualquer comunicação do paciente no “aqui e agora” transferencial adquirindo, por vezes, um carácter paranóide que condiciona a livre associação do paciente (Bollas 2007).
Em 1993, no 38.° Congresso da IPA em Amesterdão, “A Mente do Analista: Da Escuta à Interpretação” vários autores mostraram, através de casos clínicos, como os conteúdos do material dos seus pacientes evocavam experiências pessoais que influenciavam para o bem, ou para o mal, a sua escuta e posteriormente a interpretação. Jacobs (1993) apresentou a par e passo o material do seu paciente, onde nos dá conta de como as suas próprias associações e os seus diferentes estados de espírito o conduziram à evocação da suas experiências pessoais que o ajudaram a melhor compreender o seu paciente. Schwaber (1993) referiu um caso em que a experiência de luto por que ela própria tinha passado não deixou que ela seguisse o caminho, digamos da “boa escuta” das reacções do seu paciente a um luto recente.
É no gabinete do psicanalista e durante a hora analítica que o inconsciente se manifesta e que, consequentemente, a escuta psicanalítica e o trabalho psicanalítico têm condições para ser realizado.
Vários factores concorrem para que assim seja:
O interesse do psicanalista pelas manifestações do inconsciente e o seu estado de espírito de receptividade à experiência emocional;
A motivação do analisando para conhecer o seu mundo interno;
A segurança do quadro psicanalítico mas também o seu próprio formato. Na realidade o quadro psicanalítico, reproduz as condições do “sonho” (via real para o inconsciente), ou seja promove a restrição da actividade motora, limita a estimulação sensorial exterior e a actividade perceptiva em benefício da apreensão da realidade interna. Quer do lado do analisando, quer do lado do psicanalista, que também está sujeito às mesmas condições do analisando, a realidade interna impõe-se durante a sessão de análise.
Embora saibamos que um psicanalista com uma identidade psicanalítica bem estabelecida, pode manter a capacidade para manter no seu espírito a compreensão psicanalítica do seu doente, mesmo na ausência do quadro psicanalítico, em sentido estrito (Levine, 2010), a importância do quadro como um dispositivo necessário para a instalação duma verdadeira experiência psicanalítica tem sido posta em evidência pela maioria dos autores,
De acordo com Baranger , o quadro, definido em termos de espaço, tempo e assimetria constitui uma das 3 configurações básicas do processo, sendo as outras 2 o conteúdo manifesto do discurso por um lado e a fantasia inconsciente que lhe subjaz, por outro. Begler (1967) diz-nos que o quadro funciona como uma “instituição ” no interior da qual se vai desenvolver a relação psicanalista/analisando.
Na realidade é o quadro que permite, como diz Modell (1988), separar os diferentes tipos de realidade: a realidade concreta da vida quotidiana, da realidade metafórica da relação analítica, tal como a moldura duma pintura separa a imagem do mundo real. Durante a sessão de psicanálise, a realidade virtual co-construída pelo par analítico só pode existir no interior dum espaço concreto e seguro que é o quadro psicanalítico e que assegura a ética psicanalítica.
Também, em situação de supervisão a escuta decorre em ambos os sentidos supervisor/supervisando, sendo indispensável um ambiente de confiança e uma aliança de trabalho e não de criticismo e desconfiança mútua. Szecsodi (1997) chama-lhe “aliança de aprendizagem” graças à qual supervisor e supervisando trabalham no sentido duma reflexão comum e contínua sobre o material que é apresentado.
A escuta psicanalítica do supervisor é duplamente exigente e decorre em 3 planos simultâneos.
A escuta do material que lhe é apresentado, deixando-se levar pelo fio condutor das suas próprias associações;
A escuta das intervenções do analista e das suas associações livres no contexto da supervisão, procurando o supervisor acompanhar o fio condutor do analista em acção com o seu paciente e as variações da sua escuta empática, nomeadamente os momentos de rotura da escuta (contra-transferência des-simbolizante, acima referida). A este respeito é interessante constatar que a “boa” escuta versus “boa” comunicação, entre supervisando e supervisor é justamente marcada pelo surgimento das associações livres do supervisando durante a supervisão;
O reconhecimento pelo supervisor das flutuações do seu próprio estado de espírito ao longo da apresentação do material, nomeadamente, as variações na sua capacidade de escuta.
No fundo, também o supervisor vai deixar que a sua escuta seja “impressionada” pelos diferentes ângulos do conteúdo da sessão de supervisão, e desse modo interrogar-se e interrogar o supervisando sobre aquilo que podemos chamar o diferencial entre as escutas de ambos.
É neste questionamento sobre as diferentes escutas que surgem, em meu entender os momentos mais fecundos para a compreensão do material e a aprendizagem psicanalítica. Ao identificá-los e discuti-los, podemos descobrir novas leituras e novos simbolismos, mas também ajudar a resolver bloqueios contra-transferenciais.
A “boa” escuta do supervisor permitir-lhe-á dar uma ajuda adaptada às dificuldades específicas dos supervisandos e considero que uma atitude empática e flexível do supervisor, uma boa aliança de aprendizagem, traduz-se, em geral, por uma muito boa progressão dos casos de supervisão e por um alargamento da competência psicanalítica dos candidatos.
Para concluir gostaria de deixar algumas recomendações baseadas na minha experiência e que tornam o processo de escuta menos vulnerável a roturas:
Confiar e treinar a atenção flutuante, deixando-lhe a “escolha” do material significativo.
Deixar “impressionar o seu aparelho psíquico” pelo material, pela surpresa, pelo pensamento súbito que atravessa o espírito, pela recordação dum momento particular o instrumento do analista é o seu aparelho psíquico e o seu pensamento psicanalítico.
Deixar-se ter memória e não obrigar-se a não ter memória.
Interrogar-se e aceitar o tempo de incerteza que alguns dos fenómenos psíquicos do paciente provocam.
Saber que a pressa é contra o processo analítico. O campo analítico cria-se devagar. Tal como o paciente, o analista precisa de tempo para pensar os seus pensamentos.
RÉSUMÉ: La réflexion sur l'écoute psychanalytique implique une réflexion sur les processus mentaux du psychanalyste pendant la séance d'analyse. L'écoute psychanalytique est par définition l'écoute de l'inconscient et, chez le psychanalyste, cela correspond à une élaboration psychique qui intègre des éléments conscients et inconscients.
Étant un processus interactif, l‘écoute psychanalytique est vulnérable aux différents impacts dans le monde interne de chacun provoqué par la communication du pair analytique et elle est soumise à des variations qualitatives. Ce travail d‘écoute s'inscrit, donc dans le fonctionnement mental de chaque analyste.
Ensuite on aborde le problème de l'écoute psychanalytique en situation de supervision. On décrit 3 plans simultanés de l'écoute du superviseur et l'on constate que l'analyse des différences entre l'écoute du psychanalyste et du superviseur permet d'identifier différents niveaux de problèmes.
En conclusion, l'auteur présente quelques recommandations qui pourront diminuer la vulnérabilité aux ruptures de l'écoute psychanalytique.