Neste trabalho a autora propõe-se abordar a questão da contratransferência no tratamento psicanalítico do ponto de vista teórico e clínico. Para tal inspira-se na obra cinematográfica realizada por Paul Newman “O Efeito dos Raios Gama no Crescimento das Margaridas”, que usará como metáfora para desenvolver o conceito de “elementos gama”. Estes correspondem então ao grau de intensidade, frequência e qualidade do ambiente proporcionado pela situação analítica que de forma inconsciente influenciará a comunicação estabelecida e o desenrolar do processo transferencial e contratransferencial, favorecendo ou comprometendo o insight e a transformação em psicanálise. As ideias serão ilustradas através de vinhetas clínicas e fundamentadas pelo pensamento incontornável de alguns autores.
A contratransferência, actualmente aceite como o mais pessoal dos instrumentos profissionais, encerra na sua semântica, desde logo, os receios originalmente percebidos por Freud que, apesar do reconhecimento da importância da comunicação entre os dois inconscientes, lhe atribuiu sobretudo qualidades de resistência ao trabalho analítico e devendo, portanto, ser evitada ou eliminada. Desde então, porém, tornou-se um conceito incontornável na Psicanálise contemporânea, com implicações profundas ao nível da teoria e da prática. Pessoalmente, proponho-vos um olhar sobre este tema, baseado na prática clínica, revisitado pela mão de alguns autores de referência e inspirado na obra cinematográfica realizada por Paul Newman em 1972. Esta é a minha reflexão sobre
Comunicação apresentada nas “II Jornadas Ibéricas de Psicanálise: Dificuldades Contra-Transferenciais”; Lisboa, 1 de Outubro de 2011.
Psicóloga Clínica e Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. conceicaotavaresdealmeida@gmail.com
o manejo da contratransferência e suas implicações, nomeadamente ao nível da interpretação e da transformação em psicanálise.
O filme conta-nos a história de três personagens femininas – Beatriz, a mãe; Rute, a filha mais velha; e Matilda, a filha mais nova – e o seu esforço para sobreviver num ambiente hostil, frustrante e perturbador. Beatriz sofre e agita-se mas afunda-se na sua própria angústia, incapaz de sair de uma posição esquizoparanóide e contaminando as relações à sua volta com o seu próprio desespero e destrutividade. Rute receia a identificação à mãe e, no entanto, não encontra formas de lhe escapar, parecendo estar destinada à repetição. Matilda destaca-se pela sua postura silenciosa, tolerante, contentora. Centrada nos estudos que desenvolve nas aulas de Ciências, aos quais dedica todo o seu investimento e curiosidade, orientada nessas experiências pelo Prof. Goodman (good-enough-man), Matilda estabelece com as suas margaridas um vínculo de amor mas sobretudo de conhecimento, que lhe permite desenvolver resiliência face ao meio tóxico, carregado de projecções maternas (elementos beta), num ciclo de repetição e destruição ao qual procura escapar.
Tratando-se de um ensaio experimental, percebemos apenas no final do filme as hipóteses e variáveis em jogo: sementes de margaridas foram sujeitas a três graus de diferente intensidade e frequência de raios gama. Os raios gama são radiações electromagnéticas altamente energéticas, estando presentes no espaço cósmico, eventualmente influenciando o nascimento e desaparecimento de astros, estrelas e constelações. Estão também presentes nas reacções atómicas e nucleares, condensando em si forte potencial criador e destruidor.
O que os resultados apresentam então são três tipos de resolução:
aquelas margaridas sujeitas a fraca influência permaneceram iguais;
aquelas cuja radiação foi muito alta, não resistiram e foram destruídas;
as que receberam um efeito moderado, desenvolveram qualidades novas; mantendo reconhecível a sua natureza adquiriram porém outras características que as tornaram especiais.
É fácil perceber aqui uma metáfora não só das três mulheres e seus destinos, como uma tentação de ampliar este ao paradigma das relações de objecto e ao manejo da técnica analítica. Foi-me inevitável inspirar-me nos conceitos de Bion sobre os elementos alfa, elementos beta e transformações em psicanálise e atrever-me a propor uma leitura dos fenómenos contratransferenciais à luz daquilo a que chamaria os elementos gama. Revisitando a literatura e apoiando-me nas ideias fundamentais de vários autores, ilustrarei através de vinhetas clínicas exemplos concretos daquilo
que tem sido para mim esta actividade, falando-vos das minhas convicções e perplexidades, mantendo como pano de fundo esta metáfora.
A contratransferência refere-se ao fenómeno através do qual o paciente em situação analítica, coloca no interior do analista material inconsciente o que terá um efeito na mente do último, cujo reconhecimento e manejo influenciarão o desenvolvimento do trabalho analítico. Podendo ser entendida largamente como fruto da projecção de partes da mente do analisando, da sua relação de objecto e defesas contra a angústia, a verdade é que a própria personalidade do analista, a sua história de vida e análise pessoal, bem como os modelos de compreensão e competências relacionais, entram necessariamente em jogo. Mais ainda, o próprio encontro que uma psicanálise proporciona, único e singular, poderá por si só determinar e ser determinado pela dinâmica inconsciente das duas mentes envolvidas numa lógica sistémica através da qual a aritmética simples do 1 + 1 terá como resultado 3. Percebemos então o quanto o conceito nos intriga ao mesmo tempo que nos coloca dificuldades de ordem teórica, mas também técnica, ética e até, porque não, filosófica.
Admitindo pela contratransferência a forma como analista e analisando interagem e se inter-influenciam, construindo algo de novo, tal implica uma ruptura epistémica e obriga à revisão de conceitos e técnicas. Determinismo, positivismo, neutralidade, deixam de fazer o mesmo sentido. Por outro lado ao erro, ao subjectivo, à intuição e à fantasia, confere-se-lhes um estatuto de comunicação e de matéria de investigação ímpar. Recorrendo à metáfora dos raios gama, diria então que à semelhança do 1.° grupo de sementes, a exposição a uma visão demasiado asséptica não produz grande alteração. No limite oposto, a perda da noção da assimetria e a incapacidade para conter e interpretar, podem gerar um grau insustentável de confusão, comprometendo o resultado irreparavelmente, como no grupo 2. Como criar então o ambiente propício e como manejar a técnica, proporcionando condições de luz e de energia capazes de produzir mudança?
Na visão clássica a fonte da contratransferência é o analista, percebida como obstáculo; na visão pós-moderna ou intersubjectivista, a origem radica no analisando, tornando-se numa ferramenta indispensável de transformação. Na leitura que fizemos, encontramos obviamente uma preocupação em achar um equilíbrio por parte dos autores, normalmente acrescentando ou salientando aspectos particulares ao termo mais genérico.
Faimberg (2001) usa até o termo “Babel” para classificar a variedade de idiomas em torno desta questão. Ela própria adianta um neologismo falando de posição contratransferencial frisando que esta se baseia na assimetria e na dialéctica da situação analítica. Recorre aos conceitos de Bion de capacidade negativa e à postura do analista por este autor defendida de sem memória e sem desejo, para fundamentar a ideia de uma escuta activa por parte do analista em face do intolerável e do enigma. Para esta autora, a contratransferência contém a parte (ainda) não analisada da transferência. Winnicott (1949) fala de contratransferência objectiva, definida pelo “amor e ódio sentidos pelo analista como reacção à personalidade e comportamento do paciente, partindo da observação objectiva”.
Betty Joseph (1983), fala de “solução de compromisso” entre o que é proveniente do analista e aquilo que se origina no analisando. Grinberg propõe a contratransferência como “reacção à postura de receptor passivo do analista à projecção maciça dos objectos internos do paciente”.
Mas para os desenvolvimentos actuais foram sem dúvida fundamentais as contribuições de Bion colocando o conceito de identificação projectiva na sua qualidade de comunicação. Tanto Bion como, posteriormente, Meltzer destacam a importância da experiência emocional como fonte de desenvolvimento do pensamento mas também da própria capacidade de pensar, indicando que é a emoção que dá significado a toda a experiência. Desta forma e através da metáfora da relação mãe/bebé como base da relação analítica, assume-se como determinante a capacidade de conter (rêverie) as projecções (elementos beta) para o sucesso da re-introjecção de sensações apaziguadoras, mas também da própria função contentora (função alfa). Neste modelo, a atitude de conter é activa permitindo ao analista dar significado às experiências emocionais através da interpretação.
Outro conceito fundamental parte de Winnicott que propõe espaço potencial, definindo-o como uma área intermédia entre fantasia e realidade, onde é possível reunir e separar sujeito e objecto simultaneamente, dando origem à formação do símbolo e da própria criatividade. Para este autor, o analista encontra-se numa posição semelhante à da mãe face ao recém-nascido, activando movimentos contratransferenciais da mesma natureza. A interpretação funcionará como um limite à compreensão do analista, reduzindo a sua omnipotência. Esta atenção ao limite, a meu ver, centra o problema da análise no seu quadro, ao mesmo tempo que relativiza os poderes na equação. O equilíbrio na dosagem oferecida
de elementos gama é balizado pela realidade abrindo-se em simultâneo à dispersão, pelo universo dos fantasmas, mitos e concepções, com retorno à síntese subjacente à posição depressiva e à integração.
Sandler enuncia o conceito de role-responsiveness, encenação contratransferencial ou enactment, para descrever a forma pela qual o paciente pode exercer pressão sobre o analista para que este assuma padrões de resposta ou papéis, agindo-os; alerta para os riscos das repercussões iatrogénicas de se considerar tudo o que o analista pensa, sente, vivencia como efeito da contratransferência. Encontramos referência a vários indicadores de reacções contratransferenciais por parte do analista (pontos cegos, actos falhados sobre horários, honorários, mudanças de humor, sonhos com os pacientes) que devem ser tidos em conta pelo analista na análise da sua contratransferência.
Violeta inicia a sua psicoterapia aos 22 anos, na sequência de uma desilusão amorosa. Paciente com uma organização neurótica, revela traços histéricos e fóbicos muito evidentes, mantendo uma rivalidade latente com a sua mãe e uma ligação privilegiada e idealizada com o seu pai. Numa fase em que lhe venho propondo aumentar o número de sessões e passar para o divã, é à saída de uma sessão que me anuncia que não virá na 4.a feira dia X porque vai ver o Papa. Contratransferencialmente sinto-me “trocada por um homem de saias”, não sendo possível porém, devolver ou interpretar este seu movimento por estarmos no fim da sessão. A verdade é que eu tenho um lapso e troco a terça-feira em causa, estranhando ao vê-la chegar no dia em que não contava com ela, sem porém o verbalizar. A paciente então conta-me um sonho em que estava na sessão comigo, a falar e a chorar e em que eu começo a transformar-me a pouco e pouco num homem e levanto-me para a abraçar. Ela assusta-se e acorda. É então possível interpretar o sentido do seu movimento interno no contexto da relação.
Inicialmente identificado como efeito negativo, mais recentemente porém, o enactment tem vindo a ser considerado como uma característica inevitável, potencialmente facilitador de conhecimento e mudança terapêutica, como me parece tratar-se deste caso, bem como da situação seguinte.
Magnólia, 35 anos, procura-me porque engravidou e sente-se particularmente ansiosa; por outro lado há três anos que atrasa o fim da sua licenciatura com desculpas que lhe parecem irracionais. Última filha numa fratria de cinco, só ao fim de 10 sessões me refere o facto de à sua mãe lhe ter sido diagnosticada uma esquizofrenia precipitada após o seu nascimento, e me revela que a causa da sua morte fora o suicídio. Define-se
como low profile, sempre correcta, discreta. Em bebé diz “era muito sossegadinha, não chorava, não dava trabalho nenhum, até se esqueciam de mim; só era um castigo para comer”. Frequentemente interpretada a sua angústia e defesa patente nesse comportamento precoce, negou sempre invertendo-lhe mesmo o sentido percebido como qualidade. Na transferência, coloca-se de forma empenhada, cumpridora, pontual, sem dar trabalho, mas recusando o alimento de forma subtil. No período do Natal anuncia-me que fará umas curtas férias. Eu própria fiz uma pausa de alguns dias. A verdade é que por lapso omito o seu nome e a sua hora habitual na minha agenda na semana do seu regresso. Ainda assim estranhando ter aquele intervalo no meu horário, acabo por entendê-lo como um privilégio optando por ir lanchar a um local muito agradável. Magnólia esteve, entretanto à minha espera, silenciosa, ligando-me justamente no fim da hora. Este enactment da minha parte, doloroso de suportar, pode no entanto trazer luz sobre aspectos inaudíveis do funcionamento interno da paciente actualizados pela contra-transferência.
Para mim, mais do que o exemplo de enactement, nestas vinhetas pretendo ilustrar a forte comunicação inconsciente/inconsciente e como a análise da contratransferência do analista permite aceder a áreas de forte dispersão e não mentalização do paciente. Para Betty Joseph muitas das situações projectadas no analista têm origem em relações de objecto primitivas, de um período pré-verbal, marcadas pela posição esquizoparanóide, do Édipo primitivo e impregnadas de inveja primária. Justamente por serem primitivas não acedem à palavra, portanto são enunciadas não-verbalmente e apenas percebidas pelo acting ou através da contratransferência do analista. “É reconhecendo essas pressões subtilmente exercidas que conhecemos o paciente, a natureza das suas fantasias, suas defesas e sua história”. Eu acrescentaria, sua pré-história também.
Margarida, nos seus 22 anos, traz como única queixa na primeira vez que me procura, a indecisão quanto às escolhas profissionais. Descreve uma vida feliz em todas as áreas, ausente de conflito ou de sofrimento. Procurar-me-á 2 anos mais tarde com um quadro depressivo grave e iniciando então a sua análise. Segunda filha numa fratria de 4, é a segunda rapariga tendo os pais desejado muito um rapaz. No segundo ano de análise e com o agravamento do quadro depressivo marcado por angústias de morte, ideação suicida, sentimento de vazio e fantasias sádicas que tenta controlar mentalmente através de rituais obsessivos e pensamento mágico, começa a questionar a sua relação com a mãe, até agora “intocável”. Numa sessão conta um sonho: “Estava com a minha
mãe num terraço, sobre um telhado, e estavam também duas meninas que são filhas de amigos dos meus pais. Elas brincavam à beira do varandim, mas depois uma delas salta para lá deste e eu apercebo-me de como é perigoso e tento ajudar mas receio não conseguir. Ela de facto escorrega e eu seguro-a pela mão mas não tenho força. Grito e peço ajuda à minha mãe mas ela não faz nada, fica parada e a miúda cai“. Para além da compreensão do movimento transferencial óbvio, arrisco e o que faço é devolver a ideia de que ela terá vivido grande insegurança na relação com a mãe e desde muito cedo e pergunto-lhe o que sabe sobre esse período da sua vida. Num primeiro tempo Margarida questionando a mãe é paz de a tolerar, questiona a empregada que os criou e esta confirma-lhe que a gravidez foi de risco desde o início e que a mãe esteve com recomendação de repouso absoluto, tendo estado sempre sob ameaça de aborto. A paciente fica triste mas ao mesmo tempo aliviada e sente-se profundamente compreendida. Atrevo-me a dizer que este foi um ponto de viragem crucial no nosso trabalho.
Papoila tem 27 anos e reconhece que repete incessantemente um padrão de trair ou ser traída nas relações amorosas. Nas duas primeiras sessões fala ávida e exclusivamente do mal-estar na relação actual em que “sente que há outra”. No início da 3.a sessão troco-lhe o nome e ela queixa-se, corrigindo-me e protestando. Devolvendo este meu lapso à nossa conversa colocando-o como matéria de pesquisa, é então que me revela que foi adoptada ao mês de vida e que sempre se questionou sobre o nome que lhe teria sido dado pela mãe biológica. Na 5.a sessão avisa que não virá e na véspera da nossa 6.a consulta sonha que encontra o seu companheiro com outra mulher na sua cama.
O casal Baranger lança o conceito de campo analítico pressupondo uma ligação única entre o par, mas prevendo a complementaridade num processo em si dinâmico. “Nenhum membro dessa dupla é inteligível dentro da situação sem o outro”. A estrutura desse par estabelece-se pelo jogo de identificações projectivas e introjectivas ampliando a situação analítica ao setting e à técnica. Uma série de desenvolvimentos actuais podem ser reportados a este conceito, tais como terceiro ou quadro , terceiro analítico , pictoramas afectivos, personagens e mundos na sessão . Thomas Ogden desenvolve a partir do pensamento de Winnicott a noção de espaço potencial intersubjectivo e de sujeito psicanalítico, como resultante da dialéctica, “processo em que elementos opostos se criam, preservam e negam um ao outro”. Antonino Ferro chama a atenção para a ideia de transformação
como objectivo terapêutico do campo, em movimento contínuo de mútua aprendizagem: “O campo torna-se a matriz das histórias possíveis, aguardando o momento capaz de serem desenvolvidas”.
Uma característica irrefutável da psicanálise contemporânea é sem dúvida a sua preocupação com o aspecto relacional ou vinculativo, consubstanciado no interesse pela interacção entre o par analítico. Esse encontro passou a ser reconhecido e estudado como uma relação que produz um impacto emocional mútuo, no qual ocorrem trocas aos níveis verbal e não verbal, consciente e inconsciente. Será então pela contratransferência que ao analista é permitido escutar, através da sua própria ressonância emocional, o que o analisando diz, mas também o que não diz, inaudível no plano da consciência para ambos e o como diz, salientando os aspectos da tonalidade do discurso. Assim, na actualidade, o analista passa de observador a participante.
Aceitemos, portanto, com convicção que a relação analítica se trata de um processo dinâmico, num movimento contínuo de identificações projectivas, de criação de personagens e narrativas, de formação de sujeitos ou terceiros, e que reporta a um espaço de encontro e de construção entre duas subjectividades. A contratransferência (raios gama) ilumina zonas obscuras ou invisíveis e potencia capacidades de transformação na própria estrutura (mutação atómica). O grande desafio coloca-se em termos da capacidade do analista, sem negar a sua individualidade e humanidade, de transformar o agido em compreensão através da contenção, da rêverie e/ou da interpretação que devolva significado e sentido à experiência emocional, ou seja, de manejar doseando adequadamente a influência de elementos gama à qual submete e é submetido pela experiência analítica.
A ideia de padrões de resposta do analista em função do funcionamento do paciente é particularmente interessante na clínica com patologias graves, com um tipo de transferência intensa ou marcadamente regressiva. Nestes pacientes, a delicadeza do material e a fragilidade estrutural e defensiva, convocam especial cuidado na abordagem.
Winnicott estabelece uma diferença entre aquelas pessoas que viveram experiências precoces satisfatórias e as descobrem na transferência e aquelas outras que experimentaram interacções deficitárias ou perturbadoras cabendo ao analista a tarefa de suprir essas falhas proporcionando um ambiente de qualidade. Winnicott alerta-nos para a importância de se reconhecer o ódio por vezes antes do amor, pois certos pacientes só podem aceder ao amor se lhes for previamente permitido
odiar e ser odiado. No seu trabalho “Ódio na Contra-Transferência” oferece-nos relatos de sonhos procurando ilustrar o impacto e o recurso destes fenómenos na psicanálise.
A questão da neutralidade vs. subjectividade no analista, em certos casos capitula perante factos da realidade incontornáveis: por exemplo no feminino, quando acontece uma gravidez e um nascimento. No meu percurso como analista, esta experiência pessoal trouxe-me importantes fontes de reflexão. Movimentos regressivos, sentimentos de inveja primária e de rivalidade edipiana, angústias de rejeição e de abandono, foram amplamente vivenciados na relação analítica, manifestando-se pelo sonho, pelos lapsos e actos falhados, ou pelo protesto verbal explícito. Interpretados e contidos, muitas das vezes procurei sobretudo entender a emoção desencadeada, uma vez que a realidade se impunha por si só como limite.
Narciso, um paciente com 32 anos, no seu primeiro ano de análise, após repetidos protestos, acabou por referir “todos os dias penso se ainda vai a tempo de perder esse bebé”. O ódio reconhecido e vivido na relação (nesta e nas outras), consolidou o trabalho analítico e, após a interrupção regular, muitos dos meus analisandos referiram tanto o sofrimento, quanto a esperança pela identificação ao bebé de uma mãe suficientemente boa, capaz de proteger e frustrar, dando sentido.
A interpretação centrada na teoria ou no conhecimento do analista sobre o seu paciente, mais orientada para o “ajudar a compreender”, pode não ser eficaz por ser percepcionada com frieza e distância, desencadeando angústias de abandono. Por outro lado, a interpretação centrada no afecto e no paciente, muitas vezes percebida contratransferencialmente, devolverá sobretudo um sentimento de “ser compreendido”. Ainda assim, a revelação da contra-transferência pode induzir uma lógica de causa/efeito desenvolvendo no paciente a ideia de que é responsável pela mente do analista, sentindo-se mais invadido do que compreendido e, através de sentimentos de culpa e de vergonha, podendo activar padrões de censura ou castigo. É sobretudo aqui que a qualidade e o tom do que é dito ou percebido se torna particularmente sensível e o analista deve estar atento à subtileza desses movimentos. O dito pode ser facilmente tomado por maldito convocando-nos à desconstrução.
Tulipa tem 42 anos e veio referenciada por um colega mais velho por quem tenho grande estima e consideração. Quando me contacta por telefone, pede-me que a veja com muita urgência. Percebo a sua aflição e marco-a para o dia seguinte. Nessas 24 horas faz uma tentativa de suicídio. Nas primeiras 3 semanas fará mais duas e telefona-me de novo
para desmarcar a consulta do dia seguinte. Procuro contê-la naquele momento e remeter para a sessão para percebermos em conjunto a sua zanga. Ela acede e esta sessão foi decisiva. Fala-me do seu sentimento de que eu a criticava e culpava pelo seu desespero e ainda de como sentia que eu não era capaz de aguentar a sua dor. A partir desta data inicia a sua análise. Nessa noite, tenho um sonho no qual percorro com ela uma lixeira, e falamos enquanto procuramos activamente entre o lixo objectos valiosos da minha mãe.
Ou seja, trazer luz, ou voz (verdade) àquilo que era obscuro e inaudível, podemos concordar tratar-se de um dos objectivos primordiais da nossa actividade. No entanto, os cuidados a ter com o manejo desses instrumentos decorrem de outros tantos factores. Lembro as recomendações de Bion sobre a inutilidade do amor sem verdade e a crueldade da verdade sem amor: ambos ineficazes no processo criativo mas causadores de danos co-laterais. Ou seja, proponho que se entendam como elementos gama o uso da Interpretação decorrente dos fenómenos percebidos na contratransferência, cuja intensidade, frequência, natureza, deverão ser constantemente avaliados e trabalhados pelo analista, sedimentados numa postura de abertura não saturada e de honestidade intelectual decorrente do facto de sermos quem somos, únicos mas ligados universalmente por tudo o que nos confere humanidade e capacidade de pensar.
Defendo que pela psicanálise se acede à mudança das pessoas envolvidas (ninguém fica imune às suas radiações). Pela transferência se repete e se transforma. Pela contratransferência se amplia a experiência interpessoal: pelo jogo de identificações se reconstrói a relação de objecto numa lógica do “eu” através, apesar e para além do “outro”.
ABSTRACT: In the present article the author approaches the Counter-Transference in the psychoanalytic treatment issue, from both a theoretical and a clinical standpoint. Paul Newman's cinematographic work “The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds” serves as metaphor to the development of the “gamma elements” concept. These elements relate, therefore, to the intensity, frequency and environmental quality level made available on the analytical setting, which unconsciously influences the communication tone as well as the transference and counter-transference evolution process, favouring or engaging insight and transformations in Psychoanalysis. The ideas set forward are illustrated by clinical vignettes and grounded on the fundamental thinking of selected authors.
KEY-WORDS: Counter-transference; Communication; Unconscious; Rêverie; Transformation; Gamma elements.