Com base na teoria da “pele psíquica” de Esther Bick (1968), a autora, através de dois casos clínicos, ilustra como o processo psicanalítico funciona como objecto exterior contentor, possibilitando o desenvolvimento da vida psíquica do sujeito.
No campo teórico da psicanálise existem diferentes concepções acerca da constituição do psiquismo. Neste artigo, esta temática terá por base a noção de “pele psíquica” de Esther Bick (1968).
No 25.° Congresso Internacional de Psicanálise (Copenhaga, Julho de 1967) Bick proferiu uma comunicação cujo tema central se referia à função primária da pele como condição originária do psiquismo. Refere Bick (1968): “Em sua forma mais primitiva, as partes da personalidade são sentidas como não tendo nenhuma força de ligação entre si e precisam portanto, ser mantidas unidas de forma passiva, pela pele que funciona como limite. Mas esta função interna de conter as partes do self depende inicialmente da introjecção de um objecto externo experienciado como capaz de exercer esta função”.
A autora tem por base a ideia de que existe um estado originário de não-integração e que a primeira necessidade do bebé é a de que as partes da sua personalidade sejam mantidas unidas por um objecto externo continente. Bick (1968) sugere que “o objecto continente é experimentado (pelo bebé) concretamente como uma pele”.
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 27.05.2011. Revisão recebida em 20.07.2011. Aceite para publicação em 07.09.2011.
Tendo como base a noção de “pele psíquica” introduzida por Bick, pretendo fazer um paralelismo com o processo analítico, partindo do princípio que o paciente muitas vezes chega à sessão de análise num estado de não-integração, necessitando que as partes da sua personalidade sejam mantidas unidas pelo analista.
Neste sentido, na continuidade das sessões e após repetidas experiencias com o analista (objecto continente), é possível que o paciente possa introjectar a função continente constituindo uma “pele psíquica” e portanto um espaço interno que servirá de base para novos desenvolvimentos do psiquismo. Estou a referir-me às “partes não nascidas” da mente que podem, agora, ter espaço de crescimento.
A imagem que Bick (1968) propõe para promover uma experiência de contenção seria: “o mamilo na boca, juntamente com a mãe que segura o bebé, fala com ele e tem um cheiro familiar”. Estas experiências corporais e sensoriais entre a mãe e o bebé, tal como o contacto boca-seio, pele-pele, promovem uma vivência para o bebé de estar envolvido por uma pele ou seja, envolvido dentro de um espaço delimitado.
No espaço delimitado do gabinete do analista, o cheiro e a palavra promovem igualmente uma vivência de envolvimento. Como menciona Ogden (2008) “considero fundamental para a compreensão da psicanálise a ideia que o analista deve reinventar a psicanálise com cada paciente. Pôr em marcha este objectivo requer uma experiência de continuidade que se inscreve no quadro da situação analítica onde analisando e analista criam em conjunto um tipo de diálogo singular e próprio de cada par analítico, num determinado momento da cura”.
É este reinventar em cada sessão de análise que possibilita descrever o processo de contenção das partes não integradas da personalidade (quer sejam de origem externa ou intra-psíquica) e que permanecem por desenvolver no psiquismo.
O João tem três sessões por semana; sempre pontual. De início, repetia de forma persistente durante as sessões: “Não tenho nada de interessante para dizer, sou um mau caso clínico, não tenho interesse nenhum como pessoa, você já deve estar farta de me ouvir…você não gosta de mim…”.
O João vivia numa constante ansiedade e insatisfação, expressando uma fragilidade que nos remete para uma perturbação ao nível da introjecção da função primária da pele continente, no sentido de Bick
(introjecção de um objecto experienciado como capaz de exercer a função continente).
A mãe do João sofreu uma depressão pós-parto e, de seguida, ficou grávida de um irmão. Paulatinamente foi-se delineando o sentimento de que não havia espaço junto da mãe, que estava mais atenta ao irmão.
Nos dois primeiros anos de análise, a presença da analista como objecto continente e a interpretação persistente sobre a internalização da representação de uma mãe rejeitante, possibilitou uma atenuação dos mecanismos de identificação projectiva e, consequentemente, uma maior integração do Eu, transformando a forma de se olhar, de se pensar e de se aceitar. O João mudou do discurso: “afinal, sou eu próprio que olho sempre para mim como rejeitado, como reprovado…”
Segundo Bick (1968) é a partir da introjecção das funções continentes que é possível a construção de um espaço interno.
As sessões constituíam-se como um espaço contentor e as separações eram vividas de forma aniquiladora. Próximo das férias de verão, faltava às sessões antes da separação, ficava deitado na cama, queria desistir de tudo, convicto de que a analista estava cansada e não voltaria mais. De acordo com a concepção de Bick, o objecto continente é experienciado pelo bebé concretamente como uma pele. Na sua ausência, o bebé vivencia uma experiência de total desamparo, dominando as ansiedades catastróficas.
Contudo, no terceiro ano de análise, o João apresentava uma maior capacidade de suportar a separação física. Como refere Winnicott (1958), o João aumenta a sua capacidade de estar só.
No decurso do processo analítico, o João foi introjectando a função continente e progressivamente foi constituindo um espaço psíquico no qual a imagem mental do objecto continente permanecia, o que lhe possibilitava uma maior tranquilidade na ausência.
Progressivamente desinvestiu os objectos exteriores de dependência, por exemplo, da namorada de quem não se conseguia separar. Com um bom desempenho profissional arranjou um contrato de trabalho, reactivou contactos com antigos colegas e fez novos amigos.
Os aspectos narcísicos, que na primeira infância tinham sido gravemente afectados, foram, por via da transferência, elaborados, permitindo que o João fosse desenvolvendo um sentimento de maior consistência/contenção/para-excitação/sexualização e de individuação, que no sentido de Anzieu (1985) corresponde ao funcionamento da pele do Eu.
Não há registo dos primeiros meses de vida do Luís, somente que foi encontrado no lixo, entregue à polícia e posteriormente a uma Instituição. Foi adoptado aos dois anos de idade e, assim que integra a família, é de imediato operado aos ouvidos. Com grande atraso na linguagem, somente aos quatro anos disse algumas palavras.
Quando o conheci, o Luís tinha seis anos, andava e movia-se como um “robot”. Como refere Bick (1968), na ausência de uma experiência de relação com um objecto externo continente, a criança envolve-se na constituição de uma segunda pele, tipo carapaça protectora formada por um hiper-investimento muscular (carapaça “robot”).
Iniciámos uma psicoterapia de inspiração analítica, bissemanal. Os primeiros anos, foram baseados na construção de experiências que visavam os rudimentos da noção de lugar e de fronteira que separava o dentro e o fora, o Eu do outro (bom/mau; fraco/forte; leão/domador; professor/aluno; policia/ladrão).
Predominava, nas sessões, o agir que fazia curto-circuito e bloqueava a palavra. O movimento e o ruído impediam que qualquer brecha “ameaçadora” existisse e quebrasse a carapaça. Progressivamente, as sessões tornaram-se um espaço de luta entre os animais que, completamente pintados de vermelho, eram submetidos a um banho que representava o lavar o sangue das feridas. Algum tempo depois, esta brincadeira foi transformada no brincar aos médicos (sem água e dentro do gabinete).
No final do segundo ano de análise, os pais referiram que o Luís cresceu, estava mais responsável.
Passámos para a folha de papel e construímos uma grande quinta onde cultivámos e alimentámos/cuidámos os animais. Alimento/sessão que fazia desenvolver cada vez mais a simbolização e a linguagem. O Luís começava a construir frases.
Ainda na folha de papel construímos uma cidade com todas as valências: bombeiros, polícia, hospital, padaria, bombas de gasolina e várias ruas com semáforos, onde nos cruzávamos e por vezes chocávamos.
A figura humana, que de início era fragmentada, começava a ficar mais completa (cabeça, tronco e membros).
O Luís queria brincar, nas sessões alternadamente um fazia de palhaço rico e o outro de palhaço pobre. Surgia a oportunidade de cuidar o menino pobre, esburacado que não tinha nada e estava profundamente triste. O Luís respondia: “Triste, nunca…”. No entanto, nesta altura, em algumas sessões chorava: “Queria brinquedos novos!”.
Também os pais referiram que em casa, por vezes, o Luís chorava, situação que nunca tinha acontecido, nem em pequenino quando se colocava num canto e não queria que ninguém lhe tocasse.
Já no quarto ano de análise, preenchia as sessões com palavras, falava imenso num discurso muitas vezes confuso, sem sentido… Progressivamente as sessões eram preenchidas com pequenas peças de teatro, numa delas, o Luís referiu: “Vamos fazer um teatro – o teatro do menino mal comportado na escola, em casa, em todo o lado… Tu és a mãe! Eu, eu sou quem? Eu sou o Luís!”.
Gradualmente, a carapaça “robot” desapareceu e o Luís começou a distinguir o Eu do não-Eu. Parafraseando Winnicott (1966) o Luís começou a desenvolver o “sentimento de existir”. É a partir do “sentimento de existir” e ser olhado que nasce um espaço no qual é possível sonhar e jogar.
Através das sessões que funcionavam como “pele” no sentido de Bick, o Luís foi progressivamente construindo um espaço interior que lhe possibilitou o sentimento de existência.
O analista com a sua capacidade de contenção, elaboração e transformação favorece a integração das diferentes partes da personalidade do paciente. Retomando a teoria de Bick (1968), o analista oferece-se como um “objecto continente” que é experienciado pelo paciente “concretamente como uma pele”.
Esta experiência, muitas vezes nova para o paciente, possibilita o retomar do desenvolvimento emocional que tinha ficado em suspenso. Por esta razão, o valor da psicanálise é notável, uma vez que a função continente do quadro e a solidez da técnica, possibilitam o desenvolvimento da vida psíquica.
ABSTRACT: Based on Esther Bick's theory of “psychic skin” the author, through two case studies, illustrates how the psychoanalytic process works as external object container, enabling the development of the psychic life of the subject.
KEYWORDS: Psychic skin; Psychoanalytic process; Containment.