Os estudos clássicos de psicanálise aplicada a propósito de Hamlet (Shakespeare) encaram a trama da peça como sendo a exteriorização/manifestação de conflitos psíquicos internos (de natureza edipiana).
Partindo da diferenciação entre traumatismo psíquico precoce e “trauma puro” (Baranger et al., 1988), perguntámo-nos até que ponto o comportamento e palavras do protagonista, narrados na peça, podem ser manifestações exclusivas de conflitos internos e em que medida traduzem a forma como ele foi sofrendo o impacto de acontecimentos traumáticos actuais.
Os autores fazem uma revisão dos artigos que integram o Psychoanalytic Electronic Publishing (PEP) Archive, desde 1921, seleccionando os que continham, no título, resumo ou texto principal, ambas as palavras: “Hamlet” e “hero”. Foram seleccionados, numa primeira fase, cerca de quatro dezenas de artigos e, desses, foram seleccionados para uma análise mais profunda 24 artigos.
As perguntas que orientam a pesquisa, nos artigos, são as seguintes: 1) em que medida Hamlet apresenta ou não as características atribuídas ao herói, 2) como é tida em conta a realidade externa e 3) em que medida a atribuição de características de heroicidade a Hamlet está presente nos artigos cujos autores, para além de considerarem, na sua análise, factos da realidade psíquica (interna), sublinhem também os factos externos incomuns, referidos na peça de Shakespeare.
Docente do Curso de Psicologia da Universidade Católica (Braga). Psicólogo Clínico. Mestre em Psicologia Clínica do Desenvolvimento pela Universidade de Coimbra. Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Professora do Curso de Psicologia da Universidade Católica (Braga). Psiquiatra. Psicanalista Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Psicodramatista Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo.
Alunos do Curso de Psicologia da Universidade Católica (Braga).
Artigo recebido a 12.08.2011. Versão revista recebida em 21.10.2011. Aceite para publicação em 31.10.2011.
“The time is out of joint, O cursed spite”
Estaremos, em Hamlet, perante um prisioneiro do seu próprio conflito interno edipiano, tal como os estudos clássicos de psicanálise aplicada o encaram, ou perante um herói a enfrentar enormes e incomuns, porventura traumáticos, acontecimentos externos? Propomo-nos trabalhar esta questão, numa abordagem psicanalítica à peça que Willliam Shakespeare escreveu, algures entre 1599 e 1601.
Iremos servir-nos dos conceitos de trauma e traumatismo psíquico, tal como têm sido descritos na literatura psicanalítica.
Analisaremos uma selecção de artigos e livros publicados por psicanalistas em que, de alguma forma, Hamlet seja trabalhado. Através desses artigos e livros confrontaremos a figura de Hamlet com as características atribuídas ao Herói. Para uma aproximação a essas características, recorreremos a um herói que possa considerar-se prototípico: Ulisses, da Odisseia; contrastando-o com Aquiles.
Desde os primeiros escritos de Freud que a compreensão do trauma assumiu uma importância inquestionável. Freud amplifica progressivamente o conceito, de uma perspectiva médica inicial (uma perda brusca na homeostase orgânica, por efracção da protecção externa do organismo), até ao entendimento do trauma compreendendo uma dialéctica defensiva em que, para além da formulação económica-energética, o mesmo é encarado como uma situação complexa que mobiliza os mundos interno e externo e que envolve o sujeito num estado de quebra ou falência na “barreira contra os estímulos” (Freud, 1920), originando estados de profundo desamparo, decorrentes de uma desorganização das funções psíquicas.
Para esta evolução do pensamento de Freud sobre o trauma contribuiu o abandono da teoria da sedução infantil e a descoberta do predomínio da fantasia na produção dos sintomas da histeria. Nos “Estudos Sobre A Histeria” (1892), Freud e Breuer consideram o trauma como uma excitação excessiva que não flui pelas vias motoras, não é integrada por associação nem trabalhada pela memória. Alguns dos sintomas histéricos deixam de ser um produto de memórias reprimidas da experiência infantil – passam a ser encarados como sintomas de falhas no material psíquico a
que se pudesse aceder pela associação livre. Tratar-se-ia de uma ruptura na cadeia de representações, patenteando a natureza traumática de certo tipo de sintomas. Paralelamente, reconhece-se a importância central da fantasia, consequentemente da realidade psíquica, na dinâmica interna do indivíduo. Aqui, a ênfase deixa de incidir sobre a realidade do acontecimento em si, para recair sobre a sua representação psíquica. Este momento pode considerar-se fundador, no que à psicanálise diz respeito. Contudo, as duas formas de geração e/ou estabilização de sintomas ficam classicamente adstritas às então denominadas neuroses actuais e psiconeuroses, mantendo-se a relevância concedida aos acontecimentos externos, no desencadear dos sintomas, no primeiro destes quadros.
Madeleine e Willy Baranger e Jorge Mario Mom (1988) consideram que o reconhecimento da importância da realidade psíquica e da fantasia enfatiza os aspectos fantasmáticos internos do trauma, atenuando a perspectiva económica. A fantasia seria construída em relação à situação traumática, ao facto real. Os autores chamam a atenção para a importância que Freud atribui, logo em 1895, ao conceito de a posteriori: apesar de traços do acontecimento traumático permanecerem na psique, tal não constitui um trauma, por si só. São necessárias condições de maturação ou eventos ulteriores que convertam retroactivamente esses acontecimentos em trauma.
Enfatizam a importância dos estudos de Freud sobre as neuroses de guerra, que lhe permitem reconsiderar e aprofundar o aspecto económico do trauma através da conceptualização da barreira contra os estímulos, cuja ruptura se deve à intensidade da excitação externa; e a descoberta daquilo que o autor denominou como pulsão de morte. Um dos seus indícios, a compulsão à repetição, visa dominar (dissolvendo de forma fraccionada) os estímulos excessivos, retroactivamente, desenvolvendo a ansiedade que teria faltado no momento da situação traumática.
Em “Inibição, Sintoma e Angústia” (1925), Freud conclui que as situações traumáticas estão relacionadas com experiências de perda, que submergem o sujeito num estado de desamparo, implicando este estado uma total impotência motora ou psíquica face à intensidade dos estímulos. Relacionando ansiedade e trauma, Freud distingue ansiedade automática (em que o Eu se confronta com ansiedade excessiva, sem significação e, portanto, totalmente disruptiva, da qual não toma necessariamente consciência, como resposta a fenómenos no Id, estabelecendo-se uma “coisa estranha” na mente), da ansiedade-sinal (as defesas do Eu não estão a ser totalmente eficazes, não conseguindo assim evitar a
irrupção de pequenas quantidades de angústia na mente). Neste texto, a distinção entre situações traumáticas externas e estímulos traumáticos internos (devidos à pressão das necessidades não satisfeitas, por exemplo) tenderia a desaparecer porque ambas conduziriam ao desamparo do Eu.
No supracitado artigo dos Baranger com Mario Mom, os autores referem-se ao “trauma puro”, energia pura em excesso, conceito próximo do “terror sem nome” de Wilfred Bion4: a angústia não-mentalizada, livre de qualquer representação, rompe a barreira de contacto (constituída por símbolos) e emerge como aterrorizantes coisas-em-si. O Eu reage passivamente ao trauma, repetindo-o depois na expectativa de ser capaz de o controlar. A situação traumática desliga a pulsão de morte que a líbido teria vinculado.
A função primitiva do objecto, para Madeleine e Willy Baranger, seria preservar a pessoa do trauma puro, gerador de ansiedade automática e sem significado. Para Freud, que se aproximou daquela perspectiva em 1925, a ideia de trauma permaneceu contudo paralela e essencialmente como uma condição económica intrapsíquica, decorrente de acontecimentos (cujo carácter extraordinário se mantém como característica essencial) que, pela sua violência, provocam “excitação” (elementos não simbólicos) suficiente para abalar o funcionamento dos mecanismos de defesa habitualmente eficazes.
Apesar das expansões pós-freudianas relacionadas com estes conceitos, entendem os Barangers que o conceito de trauma puro (algo não mentalizável, ainda não ligado, por Eros, a uma história) manteria a sua pertinência, acrescentando que as psiconeuroses seriam traumas com história (Baranger et al., 1988).
A violência dos acontecimentos e o seu carácter inesperado (Freud, 1925; Rycroft, 1968), como consequência possível da idealização, seriam notas fundamentais a determinar se um trauma psíquico evoluiria no âmbito de uma psiconeurose (a cadeia das representações não fica marcadamente danificada – Hartke, 2005 – e as defesas “neuróticas” do Eu permitem a contenção de ansiedade desorganizadora) ou, pelo contrário, ocasionaria “choque” e uma “neurose traumática” (Rycroft, 1968). É esta distinção, classicamente entre traumatismo psíquico não totalmente disruptivo da capacidade de criar (e da cadeia de) representações e o
Na obra “A Psicanálise Em Tempo De Mudança – Contribuições teóricas a partir de Bion”, Carlos Amaral Dias e Manuela Fleming (1998) abordam o “terror sem nome” pela “remoção do elemento bom do medo de morrer, ou seja, o desejo de viver (…). Este passa assim de terror da morte a terror sem nome.” (p. 43)
“trauma puro” (Baranger et al., 1988), que norteia o nosso escrutínio da figura de Hamlet na obra de Shakespeare.
O trauma psíquico, por definição, seria “uma experiência totalmente inesperada que o sujeito não pode assimilar” (Rycroft, 1968) e o estabelecimento da sua existência implica um juízo subjectivo acerca da capacidade de elaboração (assimilação) de um dado acontecimento, por parte do sujeito. Freud referiu que a susceptibilidade ao acontecimento traumático depende das tendências de carácter individuais (Rycroft, 1968) e Balint que esta avaliação implica a transformação de dados quantitativos em dados qualitativos (quanta ansiedade e quanta desorganização das instâncias representacionais no Eu, por emergência de violência não mentalizada, é necessária para que exista trauma puro, relativamente a um Eu estável?), sempre aferidas pela subjectividade do(s) observador(es). São, portanto, as avaliações subjectivas na qualificação de trauma (ou, pelo contrário, de sintomas psiconeuróticos) em Hamlet, nos autores psicanalíticos, que pretendemos escalpelizar, partindo da nossa própria avaliação subjectiva, também ela historicamente situada.
Questionamo-nos sobre a importância do impacto de factos da realidade externa, bem como sobre a hipótese de um Hamlet afectado por traumas actuais. A clássica interpretação psicanalítica, segundo a qual o protagonista sofre e torna manifesto o seu conflito interno edipiano, parece secundarizar essa leitura.
O estranho comportamento de Hamlet, anunciado a Horácio pelo próprio, assume o protagonismo. Na chamada interpretação clássica, a melancolia e a suposta loucura de Hamlet, bem como a procrastinação na execução da vingança (que passaria pelo assassinato do tio/padrasto), é atribuída a forças inconscientes, relacionadas com desejos antigos de eliminar o pai e garantir a exclusividade do amor da mãe – os desejos edipianos nunca elaborados desde a infância. Assim, Hamlet não poderia matar o homem que tinha realizado o seu desejo, sem antes levar a cabo a sua própria punição – uma vez que, inconscientemente, ele era culpado dos mesmos crimes.
A insistência do fantasma do pai na vingança contra Cláudio parece ser, também, a exigência de Hamlet em relação a si próprio. Mas em que medida o será? No entender de Eissler, os acontecimentos traumáticos, a que Hamlet esteve sujeito, provocaram uma regressão no processo de apersonalização do Supereu, ameaçando reduzi-lo à função básica de
executar as ordens do pai. À medida que a peça decorre, no entanto, Hamlet vai tomando como sua a exigência que, inconscientemente, era ditada pelo fantasma. A lentidão na execução da vingança poder-se-ia, então, dever à necessidade de tempo e de provas suplementares, para a elaboração da identificação com a exigência do fantasma do pai.
Consideremos dois possíveis acontecimentos traumáticos, em dois momentos: Laertes e Polónio proíbem Ofélia (irmã e filha, respectivamente) de corresponder ou sequer alimentar, seja de que forma for, as intenções amorosas de Hamlet. Polónio chega mesmo a ordenar-lhe que evite encontrá-lo, ao que Ofélia anui. Trata-se da segunda mulher, objecto do amor de Hamlet, a traí-lo num curto espaço de tempo. Pouco antes, dois meses após a morte do Rei Hamlet, Gertrudes (mãe de Hamlet) casa com o cunhado. O segundo acontecimento traumático diz respeito às revelações do fantasma do pai: o seu assassinato às mãos do irmão, Cláudio, que não só lhe terá roubado o trono (bem como a Hamlet, seu sucessor), como lhe terá também roubado a esposa (bem como ao Hamlet-edipiano). Um terceiro golpe traumático fica no ar, como uma nuvem pouco definida, quando o fantasma parece sugerir que a relação entre Gertrudes e Cláudio teria começado ainda antes da morte do rei. Segundo Theodore Lidz (1975), é aqui que o mundo de Hamlet se desmorona. Deixa de ter pela frente, apenas, o luto pelo pai. Tem também, ou principalmente, o luto pela mãe e a luta contra impulsos matricidas. “Para ele, o comportamento da sua mãe toma precedência sobre o do ”sorridente, condenado vilão“ que jurou matar” (Lidz, 1975, p. 58).
O impacto da realidade externa no comportamento de Hamlet poderá ainda ser examinado tendo em conta a frágil situação do reino dinamarquês, objecto da cobiça do Príncipe Fortimbras da Noruega, que ia preparando exércitos para recuperar os territórios perdidos pelo pai, em favor do pai de Hamlet. Se Hamlet levasse a cabo o projecto de vingança sobre o tio, teria provavelmente que assumir o trono e lidar, ele próprio, com essa ameaça.
Através da leitura da Odisseia, de Homero, da pesquisa em estudos sobre a obra e da discussão com um perito em Antiguidade Clássica, pretendemos chegar a um entendimento das características de um herói prototípico: Ulisses, na Odisseia.
De um total de 582 artigos seleccionados a partir do Psychoanalytic Electronic Publishing Archive (PEP) desde 1921, obtidos em pesquisa
a partir de ambas as palavras “Hamlet” e “hero” (no título, resumo ou texto principal), foram inicialmente seleccionados 40 artigos, publicados entre os anos de 1948 e 2006, através da leitura dos resumos. Esta triagem teve como critério a centralidade da peça e da figura de Hamlet no artigo em causa. Após análise mais aprofundada dos 40 artigos obtidos, foram seleccionados 24, por se debruçarem, com maior ou menor extensão, na problemática do impacto da realidade externa e/ou interna no estado psicológico de Hamlet.
O estudo aprofundado dos artigos foi orientado no sentido de saber em que medida Hamlet apresenta ou não características atribuídas ao Herói (Ulisses), e em que medida essa atribuição se relaciona com o facto de os autores dos artigos, para além de considerarem factos da realidade psíquica (interna), sublinharem também factos externos incomuns, referidos na obra de Shakespeare. Para esta inquirição, cada artigo foi submetido a uma grelha de perguntas versando os pontos mencionados (disponível junto dos autores).
O regresso a Ítaca daquele que a Ítaca mais desejou regressar pode ser observado de ângulos praticamente infinitos. A estória de Ulisses contém aspectos essenciais da experiência e demanda humanas. Recorrendo a José Maria Mardones, “colocamo-nos fora da linguagem, clara e distinta, da lógica científica, para caminhar pelos despenhadeiros do paradoxo e da polissemia. Estamos no reino do inexacto, da interpretação inacabável e múltipla” (2005, p. 14).
A sucessão de aventuras, no regresso a Ítaca, suscita o contacto com o mundo interno e o paulatino encontro com o(s) sentido(s) da viagem rumo à plena autonomização e à consolidação da identidade.
As questões em torno do envelhecimento e da própria morte vão também surgindo, geralmente pelas representações das diversas personagens – como partes de si que anunciam a necessidade de uma nova etapa de integração do self.
Ulisses é, segundo Grimal (2004), o herói mais célebre de toda a antiguidade, mesmo quando simula uma mente alienada para não ter que abandonar a sua jovem esposa e o filho recém-nascido, no cumprimento de uma promessa; ou quando o seu carácter astuto e, por isso, necessariamente mais racional parece encerrar uma oposição ao carácter sanguíneo e à força explosiva e fora de controlo de Aquiles.
Mas não será Aquiles uma espécie de jovem-para-sempre, um filho revolucionário que não chegou a fixar a sua lei e que, assim, não terá passado de “filho”? E poderá um herói que não passe como um cometa, em suma, um homem que envelhece, continuar a considerar-se herói? Aquiles apresenta-se como um guerreiro belo e forte para toda a eternidade, até ao fim sujeito a uma mãe providencial e quase sempre presente, que o mantém num estado mental de omnipotência infantil contra os objectos perseguidores internos e externos, incapaz de dissimular os sentimentos, escravo das suas paixões, que escolheu viver depressa e à procura da glória, sem no entanto cumprir as etapas finais da sua identidade. Enquanto Aquiles é possuído pelas suas paixões, Ulisses toma posse de si próprio, abrindo espaço para um outro tipo de herói.
A Odisseia pode ler-se como a projecção da dinâmica inconsciente de desenvolvimento ou edificação da masculinidade madura de Ulisses (Saraiva, 2009). Mediadas pelos deuses (objectos internos persecutórios e os seus correspondentes idealizados e protectores contra a angústia de aniquilamento), as duas realidades (interna e externa) mantêm-se constantemente numa relação articulada, em Ulisses de forma tendencialmente integrada. A cisão do self e do objecto nunca é levada a cabo de forma inflexível, o que lhe permite não ter que negar a sua própria realidade psíquica e poder assumir-se como sujeito histórico, não se apresentando como uma personalidade especialmente paranóide ou fragmentada.
Ulisses é descrito como um homem de mil ardis, astuto, de manhas, engenhoso, corajoso, inteligente, que podia ser amável ou fogoso, magnânimo, de uma eloquência pelo menos tão poderosa quanto os seus músculos, capaz de suportar um imenso sofrimento, aventureiro; um homem nostálgico, que consegue ser prudente, adiar a satisfação, mas que também se deixa levar por impulsos que podem tornar-se perigosos obstáculos aos seus intentos.
Nas palavras de Frederico Lourenço, na introdução à sua tradução da Odisseia, “Ulisses mata, mente, sobrevive; abraça as experiências que vêm ao seu encontro (…). É essencialmente uma figura a quem as circunstâncias, e não a sua própria natureza, conferem uma dimensão heróica” (2003, p. 14). Aqui se reforça a importância da realidade externa e das exigências que a mesma pode impor aos indivíduos, no reconhecimento do herói clássico. Mas serão as circunstâncias que Ulisses enfrenta e abraça tão independentes da sua natureza? Apareceriam os mesmos monstros ou as mesmas tempestades a quem quer que se lançasse na
mesma viagem? Quando se propõe regressar a Ítaca, não estará a cumprir algo da sua natureza, de homem a fechar um ciclo de maturação, agora mais do que nunca, de consolidação da identidade? Se assim for, tal depende do carácter. Não escolheu morrer em glória longe de casa, ou tornar-se senhor de outros reinos, ou sujeitar-se a Calipso, à magia aprisionante de Circe ou aos encantos pueris das Sereias, sem ter alguma vez que enfrentar os fantasmas que lhe mapearam o sofrido regresso.
Uma figura em contacto com as próprias emoções (“na praia estava ele sentado, a chorar no sítio do costume, torturando o coração com lágrimas, tristezas e lamentos.”5), em que mesmo as capacidades mais extraordinárias e apenas ao alcance de uma minoria estão ao serviço de desejos e necessidades com que podemos identificar-nos.
Heróis e deuses nunca seguiram por caminhos muito afastados. O herói deve ser tão antigo como os deuses, por representar uma aproximação humana, uma figura de identificação mais próxima, um mediador e um desafiador do inefável e do incognoscível. Fazendo a ponte com a análise de Hamlet a que nos propusemos, poder-se-ia dizer do herói que pretende enfrentar as situações de desafio que constituiriam situações traumáticas para o comum dos seres humanos.
Johnson (2007) recorre a Homero numa tentativa de definir o herói: este seria o nome dado a seres humanos de força, coragem ou habilidade super-humanas, favorecidos pelos deuses, vistos como intermediários entre deuses e homens, e por isso imortais.
Em suma, a figura sobre a qual se faz recair o peso da resolução da fragilidade humana deve ser capaz de ultrapassar as suas próprias limitações. Este é um dos factores decisivos no reconhecimento do herói clássico, e está relacionado com a necessidade que o resto do grupo tem na sua emergência. Uma necessidade de agir sobre o nada, sobre o retorno do idêntico, sobre a repetição da ordem das coisas. Não há heróis sem a necessidade de heróis – o herói é uma resposta, tendencialmente eterna, universal, definitiva à imperfeição do homem, da época, que pode muito bem ser a imperfeição do ser humano de todas as épocas. É ele quem actualiza os mitos e assim abre e mostra o caminho regenerativo da sociedade como um todo, um resgate da deficiência simbólica de que a sociedade e o futuro herói estão feridos .
Canto V, v.82-83
Campbell descreve o caminho-padrão da aventura mitológica do herói e situa-o nos rituais de passagem: a separação, a iniciação, o regresso. É esta, segundo o autor, a unidade nuclear do monomito, construído à volta de um personagem com dotes excepcionais, honrado mas também frequentemente desprezado pelo seu grupo.
A partir de algumas (pequenas) variações de autor para autor, Campbell propõe uma síntese progressiva dos estágios da jornada do herói: o seu mundo anterior à aventura, a apresentação do problema, a sua recusa ou demora na aceitação do desafio (geralmente devido ao medo), o encontro com um mentor que o faz aceitar o chamamento, o informa e o treina; o abandono do mundo comum e o ingresso num mundo iniciático, o enfrentamento de testes, o encontro com aliados e o confronto com inimigos, o alcançar de êxitos durante as provações; a maior crise, geralmente traumática, de vida ou de morte, o enfrentamento da morte, a sobreposição da coragem ao medo e a recompensa que daí lhe advém, o regresso ao mundo comum, o surgimento de novo teste em que o herói recorre a tudo o que aprendeu e o retorno a casa, altura em que ajuda os outros no mundo comum.
E assim, de acordo com Leeming (1998), este homem, aspirante à imortalidade, é recompensado depois de ter lidado com a infância, com o Eu interior, com a vida adulta, com a questão da morte, surgindo agora preparado para a descoberta de Deus.
Sigmund Freud coloca o mito do herói sobre uma mentira primitiva. Em “Psicologia de Grupo e Análise do Eu” (1921) refere-se ao que entende como o “mito do pai da horda primeva”, segundo o qual esta figura, temida e odiada, terá sido morta e desmembrada. Acontece que o grupo não ousou, ainda assim, assumir o seu lugar, surgindo o totem como símbolo da unidade e das interdições impostas ao grupo e à comunidade de irmãos. As proibições totémicas mantinham-nos unidos, preservando também a memória do assassinado. Desta comunidade de irmãos surgem vários pais, cujo poder estaria limitado entre si. E terá sido nesta fase que o mito do herói se esboça: um dos novos pais rompe com os irmãos e ousa apoderar-se do lugar do pai primitivo. Desta forma, emerge o primeiro indivíduo, prestes a ser deificado: o herói, que representa “o ponto do desenvolvimento mental da humanidade em que a passagem da psicologia de grupo para a psicologia individual foi alcançada também pelos membros do grupo” (Freud, 1921).
O herói é geralmente o líder mais conveniente ao grupo. Segundo Wilfred Bion, o grupo procura alguém que o lidere, “quer na fuga ao inimigo, ou seja, ao estado mental receado, quer na luta ao lado da vítima sofredora”, pelo que é encontrado “alguém que tem já um inimigo em mente, por exemplo, alguém que seja paranóide”. “Por isso, o grupo pode escolher um líder que é frequentemente o seu membro mais perturbado; se não abertamente paranóide, então possivelmente alguém com tendências psicopáticas” (Joan & Neville Symington, , p. 153).
Outro conceito de Bion que pode ajudar-nos a enquadrar psicanaliticamente o herói, é o de génio: alguém que, relativamente ao grupo, é tido como excepcional. Bion aborda a ideia popular, de que o génio está próximo da loucura, pela necessidade de alguém que lide de forma adequada com os mecanismos psicóticos do grupo, manipulando-os de forma a dirigi-los para o crescimento ou para a vida. O génio, no entanto, pode também levar o grupo à própria destruição (Bion, 1965).
Nesta breve revisão encontramos mais presentes, na definição do herói, características que classicamente são atribuídas a Aquiles e menos presentes características atribuídas a Ulisses, na Odisseia.
No entender de Freud, Hamlet é dos primeiros dramas modernos: “o seu tema é a maneira como um homem até então normal torna-se neurótico devido à natureza particular da tarefa com que se defronta (…)” (1905-06, p. 295). É esta interpretação da peça de Shakespeare que, como foi referido, pretendemos questionar, na linha do que alguns autores já fizeram, a partir de uma ponderação das circunstâncias externas presentes no desenrolar da peça. Perguntamo-nos se o drama de Hamlet será exclusivamente pessoal/psicológico ou se envolve circunstâncias externas fora do comum, reclamando então recursos pessoais e grupais (de simbolização) também fora do comum. Tal questionamento decorre igualmente da diferenciação entre traumatismo psíquico (revivenciado na idade adulta, que não chegou a desorganizar significativamente o Eu) e trauma actual (veja-se o exposto na introdução).
Freud entende Hamlet como um drama psicológico que se torna, sob algumas condições, psicopatológico: o herói não é identificado inicialmente como alguém com problemas psíquicos, o recalcamento do Édipo faz parte das bases do desenvolvimento pessoal e a moção pulsional que luta por chegar à consciência não é reconhecida, facilitando
a identificação do espectador, que pode deslocar para os personagens as ansiedades em torno do Édipo e da fragilidade do seu próprio recalcamento.
No seu trabalho sobre a maior peça de Shakespeare, Eissler (1971) resume bem o sentimento que acaba quase inevitavelmente por nos assaltar: “a profundidade de uma tragédia como Hamlet pode ser apreendida apenas se a investigarmos da mesma forma que um psicanalista está acostumado a investigar os sonhos” (p. 55). Como na generalidade da grande arte e, de forma muito evidente, em Hamlet, somos transportados para um estado de suspensão da incredulidade, que possibilita a aceitação do aparentemente ilógico como válido. É, parafraseando Jacobson (1989), a transformação onírica das categorias em que vivemos: obras como Hamlet subvertem as distinções entre consciente e inconsciente, entre conteúdo latente e manifesto, entre linguagem e mundo material.
Hamlet esteve presente, na mente de Sigmund Freud, pelo menos desde as primeiras conceptualizações sobre o Complexo de Édipo. Ao longo da década de 90 do século XIX, a correspondência que trocou com Wilhelm Fliess não deixa qualquer dúvida em relação à sua interpretação sobre a peça de Shakespeare. Armstrong (2001) sublinha a ideia de que, para Freud, a grande vantagem de Hamlet em relação ao drama de Sófocles seria que aquele tipificava o avanço secular da repressão na vida emocional da humanidade, enquanto que em Édipo o leitor tem tudo a nu. Por outro lado, Lacan (1977) considera que Hamlet finge a loucura porque, apesar do recalcamento, tem noção de estar numa posição de fragilidade. É aqui, segundo Lacan, que Hamlet encarna o herói moderno e a sua relação com o destino: a pessoa que sabe encontra-se numa posição marcada pelo falhanço e pelo sacrifício. Fingir a própria loucura seria então uma das dimensões da estratégia do herói moderno. Esta observação reforça a ideia, já anteriormente referida, de uma certa excentricidade na figura de Ulisses como herói da antiguidade, uma vez que, a par do carácter reflexivo e da eloquência como arma, este herói clássico partilha com Hamlet o episódio de simulação de uma mente alienada como forma de contornar o destino.
Na “Interpretação dos Sonhos” (1900), Freud relaciona a criação de Hamlet, por Shakespeare, com o luto deste pelo pai, recentemente desaparecido. Freud realça ainda que o filho de Shakespeare, falecido ainda novo, se chamava “Hamnet”. Theodore Lidz (1975) aprofunda a pesquisa, afirmando que Shakespeare tinha acabado de completar 30 anos de idade quando o seu único filho varão, Hamnet, morreu com apenas
11 anos. Hamnet Sandler, um padeiro amigo de Shakespeare, que terá inspirado o nome do filho, é referido no testamento de Shakespeare como “Hamlet”. Lidz considera que Hamnet terá sido recriado na imaginação do pai, sendo elevado à imortalidade em Hamlet.
Estes vínculos associativos permitiram a Freud reforçar a ideia de que Hamlet seria, em certa medida, uma parte do seu criador.
Ernest Jones (1945) ampliou a interpretação edipiana que Freud fez da peça, em “Hamlet And Oedipus” (1945). Segundo Armstrong (2001), Jones defende que Hamlet, longe de celebrar a omnipotência da mente racional do humanismo iluminista, demonstra a escravidão do humano relativamente a forças que permanecem obscuras e ininteligíveis, ou seja, do inconsciente.
Na obra de Jones é ponderada a atracção universal pela peça, demonstrativa de que a sua temática deve conter algo que permanece actual. Segundo o autor, isso reside na personalidade de Hamlet, afastando-se aparentemente da hipótese patológica ou traumática que aqui iremos sopesar.
Numa tentativa de abordar o mistério central da peça – o significado da hesitação de Hamlet em procurar obter vingança pelo assassinato do seu pai – Jones percorre algumas das razões que, ao longo dos anos, tinham vindo a lume: grandemente baseadas no temperamento de Hamlet, elas incluíam a sua incapacidade para acções decisivas de qualquer espécie devido a uma mente extremamente sensível e por isso fortemente impressionada pela situação, um desequilíbrio de forte pendor contemplativo e passivo, pretexto para encobrir a cobardia e uma disposição melancólica, nisto seguindo as análises da peça, que, durante décadas, assemelhavam Hamlet ao Werther de Goethe (Faber, 1973).
Contudo, o autor de “Hamlet And Oedipus” realça duas perspectivas sobre os aspectos psicológicos de Hamlet: a constitucional, que explicaria uma instabilidade natural; e a chamada “visão do choque”, próxima da noção de Trauma, que defende um Hamlet anteriormente normal e feliz, agora paralisado pelas notícias da morte e assassinato do pai. Sublinha, no entanto, que esta “paralisia” não seria total, lembrando a capacidade que o príncipe demonstrou ao matar impulsivamente Polónio ou, de forma deliberada, ao enviar Guildenstern e Rosencrantz para igual destino; recordando ainda o desprezo com que brindava os seus inimigos e o abandono a que votou Ofélia, ou como denunciou a mãe e engendrou uma provocadora dramatização para expor o tio, ou ainda chamando a atenção para a forma resoluta com que seguiu o fantasma do pai, nas muralhas de Elsinore.
Jones, na senda de Freud, sugere então que um conflito edipiano inconsciente terá causado a hesitação de Hamlet em matar Cláudio. Embora odeie o tio, inconscientemente também se identifica com ele. É que, matando o pai de Hamlet e casando com a mãe, Cláudio satisfaz o desejo inconsciente de Hamlet.
É esta a tese de Freud e de Jones, talvez a mais difundida e aceite no âmbito das abordagens psicanalíticas à obra: a centralidade de fortes conflitos, nunca totalmente elaborados, de origem edipiana, subitamente reactualizados, de forma brutal, pelos acontecimentos da realidade.
Armstrong (2001) considera, a partir de Jones, que Hamlet constitui uma alegoria sobre a relutância (resistência) de cada um em explorar o mais íntimo de si próprio, e que o drama permite manter a ordem dominante, providenciando um espaço de expressão das fantasias subversivas, de forma “socialmente higiénica” (p. 29).
A relação existente entre acontecimentos externos, passíveis de serem assinalados no tempo, vivenciados por vários sujeitos, relatáveis de uma forma consensual e acontecimentos internos, com as suas consequências e reverberações, na personalidade e na vida, irá orientar o nosso olhar e labor na análise da figura de Hamlet.
Em 12 dos 24 artigos estudados em profundidade encontrámos uma extensão mínima de referências à realidade externa, enquanto que 5 artigos faziam referência constante à mesma e 7 artigos se lhe referiam de forma que consideramos, já de alguma forma, significativa. 9 dos 12 artigos em que a dificuldade que a realidade externa encerrava foi suficientemente sopesada, realçaram maioritariamente o casamento da mãe de Hamlet e a morte do pai como factores de impacto mais importantes. A ameaça constituída pelas movimentações bélicas de Fortimbras, príncipe da Noruega, é também tida em conta. Para além destas, encontrámos ainda referências mais genéricas às mudanças que tiveram lugar na ausência de Hamlet, aquando da sua estadia em Inglaterra (antes da acção da peça), bem como a ideia de todas as personagens daquele universo dramático estarem envoltas em falsidade ou mistério. Fazem-se ainda algumas referências mais escassas, como a existência de “obstáculos externos” e o risco da própria vida como impedimentos para que Hamlet levasse a cabo a vingança ou decidisse o seu rumo. Nestes 12 artigos que, de alguma forma, aludem significativamente ao impacto da realidade externa, destacam-se as referências ao carácter sacrificial do personagem
em prol da comunidade, o que o faz ser encarado como um herói trágico (5 artigos); a sua grande capacidade de suprimir a acção violenta e substituí-la prudentemente por palavras, nomeando os acontecimentos traumáticos e suportando a incerteza (3 artigos); o ter que lidar com as aparições, revelações e ordens do fantasma (3 artigos). Noutro destes artigos não são feitas referências específicas à forma como Hamlet terá lidado com os desafios da realidade externa, embora seja reconhecida como suficientemente relevante para a postura do protagonista.
O número de artigos que, de forma mais ou menos incisiva, fazem referência à importância da realidade externa e, ao mesmo tempo, sublinham Hamlet como herói é exactamente igual ao número daqueles em que tal não acontece (12/12). Esta divisão de artigos não coincide, totalmente, com aquela que inicialmente descrevemos (artigos com extensão mínima de referências à realidade externa vs. extensão significativa ou constante à mesma).
Relativamente à interacção entre realidade interna e realidade externa, conclui-se que em 20 artigos os autores consideram existir alguma relação de causalidade entre certo acontecimento e certo sintoma/agir de Hamlet, embora a influência da realidade externa possa depois não ser aprofundada. Nos restantes 4 artigos essa relação de causalidade não é, de todo, assumida.
De entre os 20 artigos onde se considera existir relação causal entre certo acontecimento e certo sintoma ou agir de Hamlet, em 9 deles os autores defendem a ideia de que os acontecimentos são meramente precipitantes de sintomas ou de comportamento perturbado, ou seja, considera-se uma personalidade prévia com problemas. Nos 11 artigos restantes, os autores defendem que os acontecimentos da realidade externa são causadores desses sintomas, portanto agentes traumáticos numa personalidade prévia sem problemas.
Podemos identificar uma tendência geral dos autores da esfera psicanalítica para sublinhar maioritariamente questões relativas à realidade interna, com diferentes graus de ponderação sobre os acontecimentos externos, mas, de forma geral, secundarizando-os ainda que bastante referidos. Mesmo entre os autores que atribuem relevância, no drama, à realidade externa, cerca de metade não se debruça sobre ela de forma vincada. A realidade externa é encarada como mais um de entre vários factores contribuintes para o estado mental de Hamlet.
Curiosamente, as revelações e exigências do fantasma não estão ao mesmo nível da morte do pai e do casamento apressado da mãe,
nos acontecimentos ponderados, em termos quantitativos – apesar do evidente impacto no equilíbrio emocional de Hamlet. Tal poderá ser compreendido pelo carácter ambíguo, na interpretação, da verdadeira natureza (interna ou externa) desta exigência.
Nos artigos vindos a lume nas publicações de referência, no âmbito da psicanálise, nem a leitura de Hamlet como conflito edipiano reactualizado, nem a leitura da peça como narrativa de acontecimentos traumáticos fora do comum parecem afirmar-se solidamente, deixando de lado a outra das versões. Como já foi referido, algumas passagens da peça transportam-nos para um clima melhor apreensível pelo onírico, em que realidade interna e externa não são facilmente separáveis (por exemplo, as cenas em que o fantasma do rei Hamlet aparece).
A hipótese de o comportamento ou sintomatologia que Hamlet apresenta ao longo da peça ser o produto de um ou vários traumas, pareceu-nos, no entanto, passível de exploração.
Depois da morte do pai e do rápido casamento da mãe, Hamlet apresenta um comportamento que poderá considerar-se normal, talvez um pouco melancólico, como seria de esperar, mas nunca bizarro. No entanto, essas experiências de perda (um pai morto e uma mãe que, aos seus olhos, como é típico da entrada no Édipo, prefigura a imagem da prostituta, que ele sucumbe à tentação de querer regenerar) podem ter começado a suscitar o seu desamparo e paralisia psicológica e motora. Hamlet perdeu, quase de uma assentada, os dois objectos que, provavelmente, constituíam o garante da sua preservação face ao trauma puro, ao terror sem nome.
A eclosão dos sintomas mais bizarros pareceu-nos ligada ao surgimento de eventos ulteriores às situações referidas. O primeiro desses acontecimentos, na fronteira entre o interno e o externo, que por hipótese provocaram retroactivamente o trauma, terá sido a aparição e as revelações do fantasma do pai. A essas revelações, Hamlet reage com um quase despercebido “Oh, minha alma profética!”6, indiciando a luta interna em que vinha vivendo, como se material inconsciente ou pré-consciente forçasse o acesso à consciência. De facto, um pai edípico morto é diferente de um pai edípico assassinado (Perelberg, 2009).
Acto I, Cena V
O acontecimento seguinte, a conspiração contra si, em que Ofélia se deixa envolver, parece ser o golpe fatal e necessário para a desorganização interna eclodir – para que as defesas, até aí mais ou menos eficazes, fracassem na sua função de proteger o Eu.
No geral, para os autores que estudaram Hamlet numa perspectiva psicanalítica, este dificilmente poderia ser encarado como um herói sobre o qual pudesse sobrevir a responsabilidade da resolução simbólica da fragilidade humana, uma vez que, segundo os mesmos, Hamlet não parece capaz de ultrapassar as suas próprias limitações. Seria interessante estudar os autores de outras áreas do conhecimento, para aferir do peso atribuído à realidade externa e assim ponderar um possível enviesamento nas abordagens psicanalíticas, possivelmente inclinadas para a vertente interna.
Na nossa perspectiva, Hamlet terá também sido, de certa forma, indigitado (ou ter-se-á assim sentido) como o líder mais conveniente ao grupo – pelo menos a um certo grupo. É várias vezes referido o amor que o povo lhe devotava, e é também claro que esse amor lhe terá, em determinados momentos, salvo a vida. É-nos vagamente anunciado algo de podre no reino da Dinamarca. O grupo, qualquer grupo, elege geralmente quem já tenha um inimigo em mente – o eleito pode ser, por exemplo, alguém com traços paranóides na personalidade, para o ajudar (ao grupo) a lidar com os seus próprios mecanismos psicóticos. A podridão da Dinamarca, a que o oficial da guarda de Elsinore se refere, estaria condensada, de forma simbólica, na corte, no quarto real, no trono.
A nossa análise aos artigos seleccionados parece contradizer, ou pelo menos não confirma a hipótese interpretativa de que Hamlet terá sido afectado pela situação classicamente denominada de trauma, e que isso explicaria os seus sintomas e o seu comportamento. Julgamos que Hamlet leva tempo a significar o choque (o que não pode ser considerado anormal), o que começa a acontecer com a aproximação do fim da peça, em que se vai tornando progressivamente mais senhor de si e do seu espírito, transformando uma área mental, até aí sem simbolização e, consequentemente, impossível de converter em experiência. Consegue-o de forma mais clara, principalmente no processo de confirmação das revelações do fantasma, depois da dramatização que concebe, denominada “a ratoeira” (em termos psicodramáticos, a hipótese terapêutica perfeita para permitir simultaneamente o “diagnóstico” e o insight), aproveitando a passagem pela corte de um grupo de actores nómadas.
Assim, consideramos Hamlet como um herói de características simultaneamente trágicas e modernas. Porque enfrenta conteúdos internos angustiantes e sem significação, através da elaboração e da apersonalização dos mesmos – o que lhe permite, finalmente, vingar a morte do pai. Mas, ainda assim, um herói trágico, porque o tempo dispendido ter-lhe-á custado a própria vida e a de outros, em seu redor. O herói clássico teria agido quase imediatamente, mesmo sem compreender o que fazia ou simplesmente por ter de o fazer. Hamlet lutou, durante a peça, para se conquistar a si mesmo.
Na literatura psicanalítica predomina, como referido, a abordagem da obra tomando a narrativa como uma metáfora do mundo interno. Fazer co-existir este tipo de análise com o impacto simultâneo de acontecimentos reais extraordinários, vividos no presente, complexifica enormemente o nosso quadro. Foi esse o método que pretendemos seguir. Na vida e no quadro analítico, em momentos de turbulência, é tarefa hercúlea deixar de colocar em primeiro plano a crueza do acontecimento. Nestas circunstâncias, dada a emergência das partes psicóticas da personalidade, a teoria clássica da “consciência como o órgão dos sentidos para a qualidade psíquica” demonstra ser uma teoria da consciência (para avaliar a realidade interna e externa) “fraca” (Bion, 1962b). Através deste tipo de circunstâncias reconhece-se a teoria do processo primário e secundário como “insatisfatória” (Bion, 1962b) e, em certa medida, dela fomos reféns ao desenhar este trabalho. Porém, ao analisar as circunstâncias em que se desenrola a narrativa, melhor será “emendá-la [à teoria] afirmando que consciente [da realidade] e inconsciente, deste modo, se geram continuamente um ao outro, funcionando como se fossem binoculares e portanto capazes de correlação e auto-observação” (Bion, 1962b). Façamos, pois, o luto da possibilidade de registo objectivo da realidade psíquica (Bion, 1962b), em qualquer circunstância, reafirmando a natureza subjectiva desta nossa análise.
AGRADECIMENTO: Os autores agradecem à Professora Doutora Ana Paula Pinto, docente no Mestrado em Estudos Clássicos na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Braga, pela sua ajuda na discussão do entendimento que na Antiguidade Clássica se fazia da figura de Ulisses e da Odisseia.
ABSTRACT: Classic psychoanalytic studies on Hamlet (Shakespeare) face the play's plot as externalization/manifestation of internal psychic conflicts (oedipal in nature). Based on the distinction between early psychic trauma and “pure trauma” (Baranger et al., 1988), we ask ourselves to what extent can the character's behavior and words stand as exclusive manifestations of internal conflicts and in what measure they translate the way real traumatic events were experienced and impacted upon him. The authors have reviewed those articles in the Psychoanalytic Electronic Publishing (PEP) Archives, since 1921, which simultaneously included the words ‘Hamlet’ and ‘hero’ in their title, abstract or main text. About 40 articles were initially selected among which 24 were deeply analyzed.
The questions that drive us through this search are the following: (1) to what extent does Hamlet present those features attributed to a hero, (2) how is external reality considered and (3) is the heroic stance present in those articles in which the authors approach, not only psychic reality events, but also highlight the uncommon reality facts in the play.
KEYWORDS: Hamlet; Hero; Trauma; Traumatism; External reality.