Têm vindo a lume numerosas notícias sobre o desaparecimento de Marilyn Monroe. Algumas dessas notícias referem o seu psicanalista, Ralph Greenson, cujo livro “A Técnica e a Prática da Psicanálise” (Rio de Janeiro: Imago Editora, 1967) mantém a sua actualidade, podendo continuar a ser um Manual de Técnica Psicanalítica de referência, como foi para candidatos a psicanalistas em todo o Mundo durante anos.
Ralph Greenson foi um psicanalista competente e prestigiado em Los Angeles, com numerosa clientela na cidade, nomeadamente actores de Hollywood. Grande era a sua paixão pelo cinema! Não só sonhava com enredos cinematográficos, como teria a expectativa de vir a escrever sobre alguns dos seus casos e, possivelmente, sobre o caso de Marilyn. Tal não chegou a acontecer, com frustração de muitos psicanalistas que esperavam esse relato e, também eles, ficaram perplexos com o desfecho calamitoso da sua vida (suicídio por overdose, assim o comunicou a polícia a 5 de Agosto de 1962; ainda que, na altura, também se tenha colocado a hipótese de crime, relacionado com a Máfia italiana e o envolvimento amoroso que Marilyn teve com os irmãos Kennedy).
Greenson entregou ao colega Milton Wexler duas bandas com a gravação electromagnética de sessões com Marilyn. O conteúdo de tais cassetes reforçou no psicanalista a ideia de que ela não procurou conscientemente o suicídio, antes foi levada por fortes impulsos autodestrutivos numa defesa pela negação (pois fazia muitos projectos para futuro). Greenson deixa, ainda, um apontamento sobre o seu diagnóstico de Marilyn que é seriamente grave: uma personalidade muito frágil, uma forte depressão
Pedopsiquiatra. Professora Jubilada do Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, da Universidade do Porto. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, do Instituto de Formação e Terapêutica Psicanalítica do Porto e da Comissão de Ensino da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
dependente de antidepressivos e de barbitúricos (usados por via endovenosa e misturados, pois consultava diversos médicos sem os avisar do que estava a tomar). Greenson chega mesmo a falar em esquizofrenia e em doença bipolar (diagnósticos psiquiátricos), embora a descreva como criança órfã abandonada, muito carente de atenções, de ser amada, procurando em vão o afecto materno. A mãe seria também uma doente mental com internamentos psiquiátricos. Há em Greenson uma grande necessidade de a adoptar e de lhe oferecer “uma família normal”, a sua, no que conseguiu empenhar todos os seus membros – a mulher e os filhos. Era comum Marilyn fazer refeições em conjunto com a família de Greenson, tinha uma governanta arranjada por ele, e ele mesmo chegava a aplicar-lhe a medicação.
A proposta inicial de Greenson é a de que não deveria ser demasiado ambicioso, pois a estadia de Marilyn em Los Angeles seria curta. Propôs-lhe, por isso, que fizessem psicanálise em face-a-face. Mais tarde, chega a justificar-se com uma nova técnica freudiana para neuroses narcísicas mas reconhece, com o desfecho desta psicanálise, que cometeu muitas transgressões. O que consideramos uma falha técnica pode ter sido, já, uma adaptação técnica à grave patologia por ela apresentada. Seja como for, não podemos deixar de considerar “o ícone sexual”, a fascinante beleza e o ar terno e infantil que Marilyn criava à sua volta e ao qual nenhum homem ficava indiferente – nem o conceituado psicanalista que era Greenson. Este admite que a intimidade que se estabeleceu entre Marilyn e a sua própria família foi excessiva e esse, terá sido um factor importante no fatídico desfecho. Aliás, a própria Marilyn falhava já nas filmagens, chegando sistematicamente atrasada, obrigando a repetir sequências, sendo notório o grande esforço com que tentava de novo. Os impulsos autodestrutivos acabaram por vencê-la.
Nada que não possa acontecer a um paciente ou a um psicanalista – prova de que o Inconsciente é poderoso!
Em livro recente (“Marilyn – últimas sessões”; Oeiras: Difel, 2007), o psicanalista francês Michel Schneider aborda os últimos 15 anos de vida da conhecida actriz americana, até ao final dramático da sua vida. Nele chama a atenção para aspectos diferenciados da capacidade introspectiva e inteligência de Marilyn, que a reabilitam da imagem de actriz chamada apenas para comédias fúteis e superficiais, que se focavam sobretudo no aspecto sexual e coquete da sua imagem e do seu irresistível sex appeal. Aliás, ela própria tem consciência de que poderia fazer outros papéis e de que os realizadores de Hollywood a exploram nessa faceta
mais comercial. Todavia, o poder da sua imagem e da sua beleza é das poucas qualidades que ela verdadeiramente integra (tendo começado por ser modelo fotográfico, cedo revelou qualidades de actriz).
Durante esses 15 anos já Marilyn mostrava grande interesse em fazer psicanálise. Era mesmo obcecada por Freud e queria aliviar-se de sintomas dominantes como: grande insegurança, sentimento de ter sido abandonada precocemente pela mãe, necessidade imperiosa de agradar e seduzir (sentimento que sempre a acompanhou), sentimento de identidade mal definido, depressão, ansiedade, etc. Neste período andou entre Los Angeles e Nova Iorque à procura de si mesma, tendo sido acompanhada por diversos psicanalistas: Marianne Kris e Margaret Hohenberg, além de Paula Strasberg, que a acompanhou com frequência na rodagem dos seus filmes. Donativos e pagamento de viagens eram feitos por Marilyn às suas analistas sem a mínima hesitação.
Nestes últimos 15 anos tem pois um acompanhamento psicológico e cultural de qualidade. Nas suas relações mais próximas encontramos Frank Sinatra, seu amante, o conceituado escritor Truman Capote, homossexual, e Arthur Miller, dramaturgo e seu marido, com quem as relações começaram a deteriorar-se. Manteve sempre interesses culturais e chegou a frequentar, na Universidade, o curso de História da Literatura. Em Nova Iorque frequentou a Actors Studio dirigida por Lee Strasberg, que considerava a relação entre o teatro, a psicanálise e o cinema fundamental, e defendia a ideia de que o actor deve mergulhar fundo, dentro de si, para encontrar a emoção a projectar no ecrã. John Huston, realizador de alguns dos seus filmes, achava que esta orientação sempre a prejudicara, porque mais a interiorizava. Chamava-a, por isso, mais para o exterior: “É na realidade que estás; é lá que está o espectador e é nele que deves pensar, procurando mostrar-lhe o que ele quer sentir e ver. Porque és uma puta e não uma actriz. Como todas as verdadeiras putas, as boas, tu não finges. Pagas os preços com o teu corpo, com a tua alma. Mas sabes que esta mulher não és tu. E a tua angústia guarda-a, é um trunfo precioso, não acredites que o analista te vai livrar dela. Não é possível, e, de qualquer maneira, não deve ser. Sem angústia, mais vale desistir deste emprego”.
Mas Huston, que falava bem, não estava a falar para uma personalidade normal, falava para uma “não-pessoa”, como ela própria se intitula, com graves problemas de identidade e que se cola aos personagens que interpreta. Ela não sabe quem é. Ela, que se chamava Norma Jeane e passa a adoptar o nome Marilyn Monroe… Quem é ela, afinal? Ela que
era filha de pai incógnito e de mãe bastante perturbada, que a entregou a Instituições! A doença e o cinema tornaram-na ainda mais confusa.
Em Fevereiro de 1961 está de tal modo perturbada com o divórcio de Arthur Miller que a sua psicanalista, Marianne Kris, aconselha o internamento na clínica psiquiátrica Payne Whitney, em Nova Iorque.
Alguém que conhece a situação diz: “o casamento de Marilyn com Joe DiMaggio falhou porque a mulher com quem casou era Marilyn Monroe; o casamento com Arthur Miller falhou porque não era Marilyn Monroe”.
E foi grave a perturbação da identidade em Marilyn. Muito grave, mesmo. Ainda que a versatilidade dos papéis que desempenhava ajudasse a disfarçar uma falha no self que jamais conseguiu colmatar, mas da qual a sua inteligência introspectiva tinha consciência e era fonte de sofrimento. Uma referência para si e para os outros – o seu corpo, a sua beleza! As imagens no espelho, no ecrã, mas sobretudo nas inúmeras fotografias. Uma perturbação narcísica da personalidade.
É ela que diz, por esta altura: “Tive professores, pessoas que podia admirar, mas ninguém com quem pudesse identificar-me. Sempre me senti uma não-pessoa e a minha única maneira de ser alguém, provavelmente, foi tornar-me noutra pessoa. Foi por isso que quis representar e ser actriz. (…) Estou a tentar ser artista, tento ser verdadeira mas, apesar disso, muitas vezes as minhas janelas abrem-se sobre o meu vazio. Tenho medo de enlouquecer. (…) penso que sou uma falsificação, alguém que soa a falso (…) perante as câmaras. Lee [Strasberg] diz-me que devo partir de mim mesma. Respondo-lhe: de mim mesma? O que será eu mesma? Quem? Não sou assim tão importante. Quem é que ele pensa que eu sou: Marilyn Monroe?”.
E, todavia, os seus amigos não suspeitavam do risco de suicídio que era bem patente!
Atravessa um período muito difícil, zanga-se com a analista que a internou em Nova Iorque e pede encarecidamente ao seu psicanalista Greenson que a receba em Los Angeles. Embora este hesite, acaba por recebê-la “como uma adolescente que tem de ser protegida dos próprios impulsos”.
O que fez com que Marilyn ainda sobrevivesse até aos 36 anos? Em nossa opinião, foi a beleza do seu corpo, corpo do qual ela gostava e um dos aspectos mais integrados da sua pessoa. Realmente, ao longo da sua vida, Marilyn é um dos maiores atractivos para os fotógrafos (o famoso ensaio de Bert Stern, para a revista Vogue é apenas um de inúmeros exemplos), porque joga facilmente com a sua imagem, fazendo do acto uma
excitante sedução recíproca. Nua ou envergando vestidos lindíssimos, deitada ou de costas, mas sempre oferecendo uma imagem fascinante. Marilyn reuniu centenas de fotos às quais voltava com frequência; imagens paradas que podia apreciar em contraste com a celeridade das imagens cinematográficas. É como se pudesse parar a vida, e era a prova de que estava ali: viva, bela e jovem. Que suspendia a mudança para um futuro desconhecido e tenebroso (o envelhecimento, a loucura, etc.).