Neste trabalho, o autor faz uma viagem através da obra de Thomas Ogden, salientando novos contributos para a psicanálise.
Retomando o conceito de “espaço potencial” de Winnicott, Ogden relaciona-o com o processo analítico, referindo que a essência da psicanálise toma forma no espaço interpretativo entre analista e analisando.
É neste espaço, entre a associação livre do analisando e a rêverie do analista, que se criam novas formas de sentir, de pensar e de dar significado à experiencia analítica, que Ogden intitula de “terceiro analítico”.
Ogden coloca o assento na intersubjectividade entre analista e analisando e na permanente actividade interactiva consciente/inconsciente entre um e outro, no decurso do trabalho analítico.
Thomas Ogden, é psicanalista em São Francisco da Califórnia e desde os anos setenta que desenvolve aquilo que designa actualmente como uma teoria analítica integrada.
Diferente de muitos analistas americanos que desde o inicio da Psicanálise criaram uma escola a partir de um conceito ou de aspectos parcelares da teoria analítica, Ogden tem aprofundado e desenvolvido contributos que vão desde Balint a André Green passando por Bion, Fairbairn, Klein, Tustin e Winnicott para citar apenas alguns.
Thomas Ogden faz parte de uma escola de analistas nos Estados Unidos que continua a respeitar as bases fundamentais da obra de Freud,
Médico Psicanalista. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Artigo recebido a1 de Março de 2012. Aceite para publicação a 8 de Março de 2012.
nomeadamente a metapsicologia e a concepção de um mundo interno que se rege por forças pulsionais.
Ogden (2005) refere que tem consciência em cada momento, de se apoiar naqueles que, para ele, são considerados como os três gigantes da psicanálise. Cita Freud, Winnicott e Bion.
Das suas inúmeras publicações constam trabalhos sobre as obras de Winnicott, em 2002, de Freud em 2003, de Bion em 2004 e de Fairbairn em 2010.
Thomas Ogden não é apenas um teórico da psicanálise ele tem uma profunda e diversificada cultura analítica com base numa prática clínica que percorre um universo vastíssimo de doentes com patologias diferentes, incluindo casos de psicoses graves internados em hospitais psiquiátricos, assim como adolescentes e doentes idosos.
O objectivo deste trabalho, será salientar alguns dos contributos de Ogden para a psicanálise actual. Conceitos como “espaço potencial” de Winnicott, “posição de autismo-contíguo”, “o terceiro analítico”, “rêverie” e “intersubjectividade”, são do meu ponto de vista conceitos propulsores para o desenvolvimento psicanalítico.
De início, Thomas Ogden foi um leitor atento de Winnicott desenvolvendo, transformando e aprofundando alguns dos seus conceitos, nomeadamente o “objecto transicional” (1951) e “espaço potencial” (1971).
Ogden, em 1985 publica um artigo intitulado “Em torno do espaço potencial”.
Nesse artigo (1985, p. 73) propõe que: “O conceito de Espaço Potencial de Winnicott possa ser entendido como um estado de ânimo baseado numa série de relações dialécticas entre fantasia e realidade, eu e não-eu, símbolo e simbolizado, etc., no qual cada pólo da dialéctica cria, dá forma e nega o outro.
O êxito deste processo dialéctico ocorre por meio do avanço evolutivo desde a unidade invisível (termo de Winnicott), composta pela mãe/criança, à tríade subjectiva composta pela mãe – e – criança (como objectos simbólicos) e a criança (como sujeito interpretador).
O facto de não ser possível criar ou manter o processo dialéctico conduz a formas específicas de psicopatologia que incluem a experiência do objecto da fantasia como real, o uso defensivo da realidade que
exclui a imaginação, a relação com um objecto-fetiche, e o estado de ‘não-vivencia’.
O processamento de uma identificação projectiva é entendido como o restabelecimento da capacidade do receptor manter um processo dialéctico (ou seja, de eu e não-eu), que tem estado limitado no curso da participação inconsciente do receptor na fantasia inconsciente, externalizada, do projector.
O espaço potencial estabelece o limite entre a mãe e o bebé, mas ao mesmo tempo anula os limites. A célebre frase de Winnicott (1945) “não há bebé sem mãe, nem mãe sem bebé”, e que Ogden adaptou para a díada analista/analisando; em certa medida refere-se a este aspecto. Da mesma forma, o conceito de objecto transicional que une e separa vai no mesmo sentido, uma vez que se organiza no espaço potencial e é constituído por partes que pertencem à mãe, ao bebé, e ao mundo exterior.
Num livro publicado em 2002 em homenagem a André Green intitulado “Pensar os Limites”, Ogden aborda este tema num artigo designado por “Ler Winnicott”. De referir que neste livro participaram além de psicanalistas, filósofos e escritores, incluindo José Augusto Seabra.
Neste artigo Ogden, baseia-se numa leitura minuciosa e numa análise rigorosa e extremamente detalhada do trabalho de Winnicott – “O Desenvolvimento Afectivo Primário” (1945).
O artigo é extremamente denso e complexo, dele retiro apenas um pequeno fragmento que me parece por um lado, evidenciar e destacar o pensamento de Winnicott e por outro lado, a ligação de Ogden aos trabalhos de Winnicott, assim como a sua forma de praticar a psicanálise.
Ogden (2002 pp. 509) refere o seguinte: “Na frase que segue imediatamente, nós encontramos uma das mais importantes contribuições teóricas de Winnicott para a psicanálise. Uma ideia que de forma significativa tem transformado a segunda metade da história do pensamento psicanalítico.
A frase é: estes dois fenómenos (a criança com as suas necessidades e as ideias predadoras e a mãe com as suas necessidades instintivas e o seu desejo de ser atacada por um bebé esfomeado) não estão em relação um com o outro, a não ser no momento em que a mãe e a criança têm uma vivência comum“.
Acrescenta ainda Ogden (2002, p. 511): “Este trabalho de Winnicott aborda também aquilo que ele mais tarde designou por fenómeno transicional, que consiste num momento de ilusão entre a mãe e a criança em que a mãe vive uma experiência com a criança no decurso da qual ela se entrega activamente, inconscientemente, naturalmente como um
objecto que pode ser sentido pela criança como sendo a sua criação (uma experiência que passa desapercebida pelo facto de que não acontece nada que não seja aquilo que é esperado) ou a sua descoberta (um acontecimento que reveste uma qualidade de alteridade num mundo externo ao seu sentimento de self“.
Descreve Winnicott (1969, pp. 66): “a criança vem ao seio num estado de excitação e prestes a alucinar alguma coisa que é susceptível de ser atacada. Neste momento, o mamilo real aparece e a criança pode sentir que era isto que ela alucinava.
Assim, as suas ideias enriquecem-se de detalhes reais devidos ao olhar, ao tacto, ao cheiro, e na vez seguinte, este material é utilizado na alucinação. É assim, que se edifica pouco a pouco a sua capacidade de fazer aparecer o que é, de facto, disponível. É preciso que a mãe continue a dar à criança este tipo de experiência.”
Continua Ogden (2002, p. 511): “O que Winnicott tenta descrever não é somente uma experiência, mas uma maneira de sentir que será mais cheia de energia viva que outras. A metáfora inicial que Winnicott utiliza para introduzir esta maneira de sentir implica a imagem da mãe e da criança como duas linhas vindas de direcções opostas (uma vem do mundo da magia, e a outra do mundo da realidade) que são ‘susceptíveis de se encontrar’.
Para Winnicott, a capacidade materna é ainda muito mais complexa pelo simples facto de criar um campo psicológico – inter-pessoal no qual a criança, no mesmo instante, obtém um direito de entrada na realidade externa, na realidade interna e na experiência da ilusão“.
É nesse “campo psicológico”, que tem por base o “espaço potencial” que Winnicott (1971) considera como a área do jogo e relaciona com o desenvolvimento do processo analítico, tal como o faz mais tarde Ogden ao dizer que a essência da psicanálise toma forma no espaço interpretativo entre o analista e o analisando e assume-se como um tipo de jogo.
Ogden referindo-se a Winnicott descreve a importância do olhar, do tacto e do cheiro. É importante relacionar isto com o trabalho minucioso que Ogden faz em psicanálise, baseando as suas intervenções no processo transferencial, contratransferencial, e na reverie tendo em conta todos estes aspectos.
“Têm uma vivência comum” para Ogden (2002, p. 510), o que torna esta frase notável, é: “a utilização inesperada da expressão ‘ter uma vivência’. A mãe e a criança não ‘participam’, não ‘partilham’, não ‘entram’, numa experiência de conjunto: eles vivem uma experiência de conjunto.
Com esta única frase, Winnicott entrou num processo de transformação da psicanálise, enquanto teoria e relação terapêutica duma forma que implica a alteração da noção daquilo que é mais fundamental para psicologia humana.
A partir dai, desejar e regular o desejo (Freud), amar, odiar e reparar (klein) ou ainda procura do objecto e relação de objecto (Fairbairn) deixam de constituir o que é da maior importância no desenvolvimento psico-somático, desde o seu início e ao longo de toda a vida.
Em contrapartida, o que Winnicott começa a apresentar aqui, é a ideia que o fio organizador central do desenvolvimento psicológico, consiste na experiência de estar vivo, com as consequências das rupturas que têm lugar nesta continuidade do ser.
A mãe e a criança não entram em relação um com o outro, antes que cada um deles faça alguma coisa que deve ser vivido, quer dizer que eles a vivam em conjunto (não simplesmente no mesmo momento, mas enquanto eles vivam e respondam ao acto separado do outro que consiste em estar vivo na vivência da experiência)“.
O conceito da posição de autismo-contíguo, foi desenvolvido num artigo intitulado “A propósito do conceito de posição de autismo-contíguo” .
Ogden refere-se a uma posição de autismo-contiguo anterior à posição esquizo-paranoide descrita por Klein, e diferente do autismo patológico e do autismo normal descrito por Margaret Mahler.
Este conceito assenta nas ideias de Winnicott sobre a importância dos cuidados maternos que tem por função proteger a criança das angústias primitivas como por exemplo: fragmentar-se, cair desamparado, não ter relação com o seu próprio corpo, ou não ter orientação.
Ogden (1989, p. 154) define a organização autista-contigua como: “associada a um modo específico de atribuir significado à experiência, na qual a informação sensorial em bruto é ordenada mediante a formação de conexões pré-simbólicas entre as impressões sensoriais, que passam a constituir superfícies delimitadas. É nestas superfícies que a experiência do self tem as suas origens. O Eu é antes de tudo um Eu corporal como o disse Freud em 1923”.
Neste artigo Ogden faz referência a dois casos clínicos. Descreve o caso de um rapaz de dezanove anos, esquizofrénico e cego de nascimento que seguiu em psicoterapia intensiva durante muitos anos. Posteriormente
faz referência ao tratamento de uma paciente de sessenta e dois anos que seguiu durante oito anos.
No primeiro caso, o adolescente de dezanove anos, chamado Robert viveu uma infância com uma mãe que passava de uma hiper-protecção asfixiante a um ódio extremo pelo filho.
Abandonava-o durante horas no berço, e ele batia fortemente com a cabeça contra uma parte dura do berço.
Robert, quando iniciou o tratamento recusava tomar banho há muito tempo e cheirava mal. Impregnava o gabinete do analista de um cheiro pestilento que o perturbava durante e depois das sessões.
Refere que se sentia invadido pelo paciente, como se ele se introduzisse debaixo da sua pele através do cheiro que saturava o gabinete. Acrescentando, que esta forma de sentir era a expressão de uma identificação projectiva, que o fazia sentir-se infiltrado nos seus próprios sentimentos pelo objecto materno interno do paciente.
Ocorreu-lhe perguntar a Robert: o que é que o assustava mais quando tomava banho? Ao que ele respondeu: desaguar. Desaguar = a despejar a banheira.
Despejar a banheira significava dissolver-se, desaparecer com a água enquanto a banheira era despejada.
Robert tentava agarrar-se ao odor corporal para se sentir vivo.
O odor constituía uma forma autista reconfortante que o ajudava a criar um lugar no qual ele podia sentir que existia.
Concluiu a propósito do caso de Robert que o uso do cheiro como uma forma autista pode ser considerado neste caso como não patológico, na medida, em que existia como parte da relação de transferência/contratransferência, que estava destinada em grande medida ao estabelecimento de uma relação objectal de contiguidade (o toque do cheiro) e não constituía simplesmente um esforço para criar um substituto do objecto.
Considera ainda que a posição de autismo-contiguo contribui para a sensação de delimitação da experiência sensorial que serve para criar a base sensorial de toda a experiência.
Para Ogden a psicopatologia pode conceber-se nesta perspectiva, como o colapso de interacção dialéctica gerada entre os vários modos da experiência:
autista-contigua
Esquizoparanoide
Depressiva
O colapso em direcção a um modo autista-contíguo resulta numa prisão tiranizante dentro de um sistema cerrado de sensações corporais que impede o desenvolvimento do “espaço potencial”, é o autismo patológico.
Pode concluir-se que para Ogden (1989, p. 165), o modo autistico-contiguo: “é uma forma pré-simbolica de gerar experiência sobre domínio sensorial que fornece uma boa parte da sensação de limite na experiência humana e o início do sentido de lugar no qual a experiência ocorre.
Deste modo, a ansiedade constitui um terror sem nome ligado à sensação de dissolução dos limites, que produz sentimentos de queda ou dissolução num espaço sem forma e sem fim“.
Para o autor, a relação entre as posições não é fundamentalmente sequencial, nem mesmo hierárquica. As posições são, sobretudo, ligadas entre elas de maneira dialéctica, (exactamente como os conceitos de consciente e inconsciente) que não têm sentido, a não ser quando numa relação dialéctica, mutuamente criativa.
Por exemplo, Ogden não considera a posição depressiva, como vindo depois da posição esquizoparanóide, mas como existindo desde o início como elemento da experiência.
Ogden e Mitchell referem (2000, pp. 164): “Isto não quer dizer que, o recém-nascido, no nascimento, se sinta ele mesmo e a sua mãe como objectos totais e separados. No início da vida, a criança tem um sentido rudimentar da alteridade que é inerente à própria vida. Ao mesmo tempo, há um aspecto da consciência onde o recém-nascido e o outro fazem apenas um.
Estas considerações que parecem por vezes contraditórias, tentam mostrar múltiplos estados de consciência em conexão uns com os outros.
Por exemplo, quando se produz uma ruptura no funcionamento da unidade mãe/bebé, o papel da mãe, enquanto tampão contra os sentimentos de impotência no mundo dos objectos não-eu, deve ser assumido pelo próprio recém-nascido.
Em outros termos, o que tinha sido, numa larga medida, uma forma intersubjectiva e interpessoal de defesa ou ilusão, deve tornar-se progressivamente um acto intrapsíquico de auto-defesa da parte da criança.
Este último protege-se através de uma maior confiança que pode ter formas de pensamento omnipotente, em lugar de se apoiar em estadios de ilusão criados a um nível interpessoal, o que, precedentemente, tinha sido, sobretudo uma experiência com “o invisível” mãe/como/meio ambiente, é agora, então, tornado a experiência da mãe/como/objecto (contra a qual a criança deve, por vezes, proteger-se).
A explicação que acabei de dar sobre a relação da posição esquizoparanóide, relativamente à falha do meio, é um bom exemplo de um ponto onde sinto que os meus esforços para criar uma teoria analítica “integrada” apoiam-se sobre as metapsicologias de Klein e Winnicott até ao ponto da ruptura. Podemos, como tentei fazê-lo, estabelecer um laço entre estas duas correntes de pensamento analítico, mas este laço não é sem falhas“.
O'Shaughnesy (2006), refere que: “as novidades em psicanálise (aquilo que aparece de novo) não decorrem necessariamente de rupturas mas de transformações”. É o que nós vemos também no trabalho de Thomas Ogden, ele não faz uma ruptura com a obra de Freud, ele está constantemente ligado a Freud, como está a Bion, como está a Klein, e como está aos seus contemporâneos.
Portanto esta ideia de que aquilo que vem de novo decorre de uma ruptura é uma ideia que me parece errada na medida em que mesmo que haja ruptura no sentido macroscópico, se formos investigar, a mudança decorre de trabalhos anteriores e naturalmente está impregnada de aspectos que foram trabalhados e publicados anteriormente.
Ogden (2004), define o terceiro analítico, como um conjunto de experiências conscientes e inconscientes, intrapsiquicas e intersubjectivas, construídas e vividas conjuntamente, mas de maneira assimétrica, nas quais participam o analista e o analisando.
É neste espaço entre a associação livre do analisando e a reverie do analista que se criam novas formas de sentir, pensar, observar e de dar significado à experiência analítica.
Rêverie, foi introduzido por Ogden no trabalho analítico, para em certa medida complementar o termo da atenção flutuante.
Este conceito de reverie deu mais tarde nome a um livro publicado em 1997, intitulado “Rêverie et interpretation”.
Já nos estudos sobre a histeria de 1895 Freud e Breuer dão uma grande importância em particular no caso de Anna O. à rêverie diurna, diríamos aos sonhos acordados diurnos.
Mais tarde na “Interpretação dos Sonhos”, 1900 estabelece uma equivalência entre a rêverie (sonho diurno) com sonho nocturno. Em 1908, compara a rêverie com o jogo, em: “A Criança Histérica e o Sonho Acordado”.
Seria este o embrião para os trabalhos de Winnicott sobre a área transicional e o objecto transicional de 1971.
Para Freud, os fantasmas ou rêverie (sonhos acordados) são os pródromos de sintomas histéricos e merecem o nome de “sonhos” (…) da mesma forma que os sonhos, são realizações de desejo; tal como os sonhos acordados que repousam em grande parte sobre as impressões deixadas pela experiência infantil“.
Em 1962, Bion fala da rêverie materna que corresponde à capacidade da mãe acolher, transformar e devolver as projecções do bebé.
Para Ogden a experiência de rêverie do analista constitui uma via indispensável para a interpretação da transferência/contra-transferencia.
Acrescenta Ogden (1997) que a experiência da rêverie do analista constitui uma via indispensável para a compreensão e para a interpretação da transferência/contra-transferência, e é portanto, talvez, a dimensão da expressão do analista que se sente menos digna de exame rigoroso.
A rêverie toma as formas do que há de mais banal, de mais pessoal, de mais íntimo, compreendendo muitas vezes a minúcia da vida quotidiana.
Embora a rêverie do analista seja constituída por acontecimentos psicológicos pessoais, Ogden considera como construções intersubjectivas inconscientes, geradas pelo analista e pelo analisando.
Penso que é aqui que se situa o avanço do conceito de rêverie relativamente aos desenvolvimentos anteriores. Consiste na importância da rêverie no processo de transferência/contra-transferência assim como no processo intersubjectivo inconsciente que é gerado (criado) pelo analista e pelo analisando.
Através da rêverie do analista (que é fruto da interacção entre o analista e o analisando, e também das interacções inconscientes entre objectos internos do analista e naturalmente objectos internos do analisando), criam-se novos elementos que correspondem ao terceiro analítico. Esses novos elementos são ideias, sensações, e interpretações.
Com Ogden o trabalho da interpretação da transferência ficou mais clarificado, de facto a importância não só da análise da transferência, mas também de se analisar constantemente a contra-transferencia.
A contra-transferência surge em Ogden como um barómetro indicador fundamental da leitura profunda que o analista faz do processo analítico em curso.
Ogden, coloca o assento nesta interacção intersubjectiva entre analista e analisando e na permanente actividade interactiva consciente e
inconsciente entre um e outro – o que permite identificar o terceiro que constantemente vai surgindo no decurso do trabalho analítico.
Considera a rêverie simultaneamente como um acontecimento pessoal íntimo e um acontecimento intersubjectivo.
Os sonhos que o analisando relata durante a análise, são construídos no “espaço analítico do sonho” e podem, segundo Ogden, ser considerados como expressões do terceiro analítico.
Por isso mesmo, o sonho, considera Ogden, é um sonho do paciente e do analista.
Na realidade os três: analista, analisando e terceiro analítico estariam numa “tensão não resolvida” uns com os outros e o sonho produzir-se-ia nesse quadro, decorrente da transferência, contra-transferência e todos os aspectos intersubjectivos entre analista e analisando.
Ogden (2004, p. 124) refere: “Paradoxalmente, tão pessoais e íntimas que as nossas rêveries nos pareçam, é um erro considerá-las como nossas criações pessoais, pois a rêverie é ao mesmo tempo um aspecto de uma construção intersubjectiva inconsciente criada conjuntamente (mas de maneira assimétrica) que nomeei como o “terceiro analítico intersubjectivo”.
Conceptualizando a rêverie como sendo, por sua vez, um acontecimento psíquico individual e uma parte de uma construção intersubjectiva inconsciente, refere Ogden que se apoia sobre uma concepção dialéctica da interacção analítica. Ambos, analista e o analisando, contribuem em conjunto para uma intersubjectividade inconsciente e participam nela.
Winnicott referiu, não existir mãe sem um bebé, nem um bebé sem mãe e Ogden, parafraseando Winnicott diz que não há analisando sem analista e analista sem analisando; ao mesmo tempo o analista e o analisando, são indivíduos distintos, cada um com o seu espírito próprio, o seu corpo próprio, a sua história própria, etc.
O paradoxo é: “ser aceite, tolerado e respeitado… naquilo que não é resolvido” tal como refere, Winnicott, 1971.
A propósito da regra fundamental, Freud (1913, p. 94) propunha:
“Diga o que lhe vier ao pensamento mesmo que isso lhe pareça fútil, absurdo ou desagradável”; ou “Deve dizer tudo o que vem ao pensamento e nunca omitir nada”
Para Ogden, este tipo de mensagens são incompatíveis com a criação de um meio analítico que possibilite o desencadear da rêverie do analista, fundamental para o processo analítico.
Para Ogden é importante, o paciente saber que é livre de ficar silencioso, como é livre de falar.
Ogden (1997, p. 128) sugere a propósito da regra fundamental, o seguinte:
“Considero os nossos encontros como momentos onde você pode dizer o que quiser e onde eu posso, quanto a mim, responder à minha maneira. Ao mesmo tempo, a nossa intimidade, tanto a sua, como a minha, deve manter-se”.
Num trabalho recente, Ogden (2010) passou a focar a investigação dos processos do pensamento, do sonho e do jogo (Play) em detrimento da compreensão simbólica.
Descreve três formas de pensamento que nunca existem de forma pura mas que estão sempre interligadas. Trata-se do pensamento mágico, do pensamento dos sonhos e do pensamento transformativo.
Para Ogden (2010, 318), “cada forma de pensamento representa um leque relativamente vasto de modos de pensar que dependem do nível de maturidade psicológica, do contexto intra-psíquico e emocional interpessoal do momento, dos factores culturais, etc.”
Num trabalho de investigação que realizei durante quatro anos, com crianças do ensino básico, verifiquei que em todas as crianças, o “pensamento” projectado na folha de papel (desenho) variava de observação para observação. Por exemplo, quando pedia à criança para desenhar a família, a criança desenhava-se sempre numa posição diferente em relação às figuras parentais, algumas vezes excluía-se do desenho e noutras vezes aumentava o número de elementos da família.
Este trabalho de Ogden parece ajudar-me na leitura que fiz no final desta investigação, ao referir que o pensamento (desenho) depende do nível de maturidade psicológica, do contexto intra-psíquico e emocional do momento.
Na realidade, a criança três meses depois não tem a mesma maturidade psicológica, o contexto intra-psíquico e emocional varia de momento para momento decorrente de factores internos e externos que estão em permanente mutação. Todas as modificações internas e externas que vão interferir nos processos intra-psíquicos e emocionais variam permanentemente e de forma imprevisível.
Para Ogden (2010, p. 320), “O pensamento mágico tem apenas um propósito, fugir a encarar a verdade da nossa experiencia interna e externa. Encontra-se sobretudo na psicose maníaco-depressiva e na hipomania.”
Relativamente ao pensamento onírico refere Ogden (2010, p. 328) “É a actividade psicológica predominantemente inconsciente que desenvolvemos durante o sonho… o pensamento onírico é a nossa forma de pensamento mais absorvente, penetrante e criativa.”
Por pensamento transformativo entende que é: “Uma forma de pensamento onírico que cria uma nova maneira de ordenar a experiencia que permite conceber diferentes tipos de emoções, forma de relação entre as coisas, relações objectais e qualidades anímicas previamente inimagináveis”. (2010, p. 332)
Como é frequente nos trabalhos de Thomas Ogden, ele ilustra as suas ideias com vinhetas clínicas esclarecedoras.
Depois desta curta viagem através de alguns aspectos fundamentais do pensamento de Thomas Ogden, penso que será de grande utilidade para a formação dos novos analistas, uma leitura aprofundada deste autor.
ABSTRACT: In this paper, the author makes a journey through the writings of Thomas Ogden, highlighting new contributions to psychoanalysis.
Returning to the concept of ‘potential space’ of Winnicott, Ogden relates it to the analytical process, stating that the essence of psychoanalysis takes shape in the interpretative space between analyst and patient.
It's in this space between the analysand's free association and the analyst's reverie that create new forms of feeling, thinking and give meaning to the analytic experience, which Ogden entitles “analytic third.”
Ogden places the basis in the intersubjectivity between analyst and patient and in the continuous interactive activity conscious/unconscious between one another, during the analytical work.
KEYWORDS: Potential space; Autism-contiguous position; Analytic third; Reverie.