Apesar de um crescente interesse sobre o pai, a maior parte dos estudos sobre as representações psíquicas parentais diz respeito às representações maternas. Esta síntese teórica procura considerar toda a riqueza dos conhecimentos psicanalíticos sobre a relação mãe-bebé e dar um passo para inovar o modo de pensar a relação pai-bebé.
Ao destacar a complexidade do tornar-se pai, a ideia da co-construção das identidades mãe-pai-bebé decorrente da articulação das identificações feminina e masculina e das funções materna e paterna de cada um dos membros do casal e ao diferenciar o pai como sujeito da função paterna enquanto função psíquica, pretende sublinhar a importância de um pai estruturante, integrativo e humanizante que garanta o desenvolvimento psíquico do bebé e da criança em cada um de nós.
A vida conjugal e familiar tem sido palco de grandes mudanças associadas às questões contraceptivas, às novas técnicas de procriação, ao desenvolvimento da actividade profissional feminina, ao acréscimo de divórcios e separações. Porém, a velocidade vertiginosa destes desenvolvimentos contrasta com a transformação dos papeis masculino e feminino tradicionais, o que supõe um longo e difícil processo de evolução das mentalidades à afirmação da mulher como igual ao homem em direitos e deveres.
Os cuidados prestados às crianças e as responsabilidades educativas foram durante muito tempo da responsabilidade directa das mães. Actualmente tem vindo a estabelecer-se uma igualização dentro do casal, pelo
Artigo recebido a 27 de Março de 2013. Artigo aceite para publicação a 31 de Maio de 2013.
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Doutoranda do Instituto Superior de Psicologia Aplicada. hcostamartins@gmail.com
que os pais das novas gerações estão a reinvindicar o seu espaço junto da criança (C. Castelain-Meunier, 2001).
Como, do ponto de vista biológico, não existe um pai sem uma mãe, o modo de teorizar o pai tem herdado as questões ligadas à mãe. Neste propósito, no que concerne às funções do pai, M. Schneider (1989) alerta-nos para a idealização das teorias que o separam da mãe. Querer teorizar sobre o pai, isolando-o da mãe, pode significar uma clivagem ou uma defesa de um lado demasiado maternal que reenvia a uma mãe controladora ou invasiva ou, ao contrário, a uma mãe ausente na sua presença. (M. Schneider, 1989), ou seja, pode constituir uma defesa de uma mãe cega e surda às necessidades do bebé ou da criança que existe no autor. Acresce ainda dizer que qualquer teoria é uma construção parcial da realidade, colorida pela subjectividade do autor e pela época em que surge.
Se a psicanálise e certas correntes da psicologia têm abordado múltiplas facetas do pai, é necessário lembrar que este é igualmente uma instituição social, política e religiosa. A forma de o abordar nas suas funções é tributária das modificações socio-culturais. Efectivamente o pai já não é o pater familias solidamente reconhecido e definido pela sociedade. Nos dias de hoje o homem não se define como pai na vertente social, mas em referência à mulher que se torna mãe e à sua ligação com a criança. São as relações e não a sociedade que o definem, daí falar-se de paternidade relacional (C. Castelin-Meunier, 2001, 2004) estabelecida através de uma ligação de afecto e de desejo entre o pai e a mãe e de um contrato de palavra que une os dois progenitores (F. Hurstel, 2001). Passámos de um pai sacralizado para um pai mediatizado pela mãe.
A questão do pai associa-se à história da própria psicanálise, desenvolvida por Freud à roda do seu próprio pai e das análises dos pacientes adultos que o conduziram à descoberta progressiva da criança no adulto e ao Complexo de Édipo.
Freud (1909/1969) refere-se a um pai edipiano que não existe para o filho enquanto agente específico diferenciado da mãe antes da fase fálica-edipiana. Ele é o detentor do princípio da realidade (T. Ferreira, 2002), um objecto de identificação primário, um ideal ou um rival. Não é somente um personagem real e fantasmático, pois exerce uma função psíquica de organizador do psiquismo (R. Perron & Perron-Borelli, 1994).
O pai do período pré-genital surge com Melanie Klein (1928), com a análise de crianças, sendo ela a primeira a descrever a complexidade do mundo interno do bebé. Para Klein, o fantasma dos pais combinados
representa a versão precoce do complexo de Édipo. A relação entre o pai e a mãe é colocada num cenário de cena primitiva, em que os progenitores não correspondem aos pais da realidade externa mas, antes, se constituem como objectos internos da criança (imagos3 parentais interiorizados). A situação triangular é associada a experiências dolorosas de perda e exclusão. Deste modo, o fantasma de pais combinados, que a criança quer destruir e manter, parece corresponder a uma tentativa para lidar com a angustia de exclusão vivida face aos pais e à relação que une o casal.
As teorizações de Lacan (1938/1984) permitiram organizar os diferentes discursos sobre o pai e constituem um caminho para uma compreensão mais alargada da sua função. Contudo, a tónica colocada sobre a dimensão simbólica da função do pai, desenvolvida por Lacan, pode fazer-nos esquecer que o pai também é um objecto pulsionalmente investido (B. Brusset, 1992).
A contribuição materna para a instauração do espaço do terceiro fica a dever-se a D. W. Winnicott (1957a; 1957b), ao introduzir a ideia de um pai presente no pensamento da mãe. Para este autor, a mediatização da relação pai-bebé continua a pertencer à mãe.
Enquanto o pai edipiano é imbuído de um estatuto de detentor da lei e porta-voz da realidade (T. Brazelton & B.Cramer, 1989/2007) tendo, sobretudo, uma função de separação na relação entre a mãe e a criança, o pai pré-edipiano desempenha o papel de suporte e de aprovisionamento alimentar da díada mãe-bebé tendo, portanto, um papel contextualizador desta última (B. Golse, 2006/2007).
Porém, a distinção entre o pai pré-edipiano e edipiano não é tão clara quanto se poderia supor, sendo que a figura paterna reúne simultaneamente, numa mesma dinâmica, um processo de contenção e alimentação pré-edipianos e um processo de separação pós-edipiano (B. Golse, 1999/2002; B. Golse, 2006/2007).
Os trabalhos sobre as observações directas dos bebés e a análise de pacientes muito regredidos destacaram a parte activa da criança no triângulo e relevaram a utilização que a mesma faz dos pais no plano psíquico, para além do modo como esta vivencia a situação, com todo o seu cortejo de perda, privação e exclusão (D. Meltzer & Harris Willians, 1988).
Imago é um “protótipo inconsciente de personagens que orienta de preferência a forma como o indivíduo apreende o outro; é elaborado a partir das primeiras relações intersubjectivas reais e fantasmáticas com o meio familiar” (Laplanche & Pontalis, 1967/1976, p. 305).
Mas o facto da psicanálise se centrar particularmente na noção simbólica da função paterna, no pai fantasiado ou mítico (T. Brazelton & B. Cramer, 1989/2007) poderá ter contribuído para se atribuir uma importância secundária ao pai comparativamente à mãe e realçado a função de separador, interditor do incesto e introdutor de regras do pai como constructo psíquico.
Ora a função paterna é muito mais do que a função simbólica de castração e não é exclusiva do pai. No interior de cada progenitor as duas funções (materna e paterna) estão sempre articuladas (A. Ciccone, 2011).
Actualmente sabe-se que o pai não está congelado nos primeiros tempos de vida do bebé (F. Bayle, 2006), uma vez que a relação pai-bebé parece desenvolver-se em simultâneo com a relação mãe-bebé desde as primeiras semanas de vida (E. L. Abelin, 1975; P. Blos,1985; D. Burlingham, 1973; J. Herzog, 2001; K. D. Pruett, 1983, 1992, 1993). Para o filho, o pai não se constitui enquanto um terceiro como os outros, ocupando um lugar especial na sua vida interior. Para além da importância do pai-que-existe-na-mãe, ele representa uma figura masculina e próxima, um contraste e uma alternativa à mãe (B. Golse, 2006/2007). Este pai-que-existe-na-mãe revelar-se-à pela capacidade materna de deixar o campo livre àquele que reconhece como pai do seu filho. Por outro lado, o pai paternal tem um papel de contenção da função maternal e um espaço de amante, para além das próprias qualidades psíquicas que desenvolve com a criança (C. Anzieu-Premmereur, 2011).
Assim, a propósito das triangulações precoces deve sublinhar-se que o terceiro não se situa constantemente como separador mas, antes, oscila entre separador, reparador e companheiro. A função de triangulação, representada classicamente pelo pai, surge como uma função emergente do triângulo pai-mãe-bebé. Na relação com o bebé, o pai como terceiro exerce, por um lado, um papel de fornecedor de alimento da díada, contendo e providenciando alimento afectivo à mãe, para que esta possa conter e alimentar o bebé (E.Correia, 2009), por outro lado, permite o distanciamento da criança à exclusividade da relação com o objecto4 materno. Para o bebé o pai é o “diferente” mais próximo, reconhecido como duplo materno e como equivalente de segurança, protecção, poder, conhecimento e justiça. (T. Ferreira, 2002).
Segundo Laplanche & Pontalis “a noção de objecto em psicanálise não deve apenas entender-se em referência à pulsão…ela designa igualmente aquilo que para o indivíduo é objecto de atracção, objecto de amor, na generalidade dos casos uma pessoa” (Laplanche & Pontalis, 1967/1976, p. 409).
Mas então o que é ser pai? Um complemento da mãe, um substituto materno que assegura e sustenta, protege e maternaliza a mãe e o bebé? Um amante da mãe e parceiro da cena primitiva, promotor da triangulação edipiana? A incarnação da lei e do interdito? Um suporte identificatório e de aprendizagem para a criança? Um criador fonte de atracção? Haverá uma franca dicotomia entre a mãe e o pai, uma vez que há sempre uma mãe em cada pai e um pai em cada mãe? Estará a função paterna de um pai ou de uma mãe simetricamente sobreposta ou será antes solidária?
No que toca à criança, sabe-se que esta precisa de um pai e de uma mãe para construir a sua identidade (C.Chiland, 2001). Ainda que uma presença ou uma ausência do pai na realidade externa não constitua forçosamente uma presença ou uma ausência psíquica do pai, a relação que o pai estabelece com o filho é influenciada pela relação que este tem com a mãe, sendo que esta última tem um papel essencial na facilitação ou pelo contrário, no boicote, do vínculo entre pai-bebé (F. Bayle, 2006; T. Brazelton & B. Cramer, 1989/2007; E. Correia, 2009). Nas palavras de Celeste Malpique (1990) quanto mais cedo se estabelecer uma interacção pai-filho forte e positiva, mais o desenvolvimento cognitivo e a capacidade expressiva e criativa do bebé se diferenciam.
No que toca à mulher/mãe o pai será «o sustentáculo do narcisismo da mãe, o que é de extrema importância para o tipo de relação que esta última estabelece com o filho» (A. Coimbra de Matos, 2002), construindo uma relação libidinal, positiva, doadora se, por sua vez, a mãe estiver suficientemente impregnada de satisfação amorosa e segura na sua qualidade de pessoa, mulher e mãe (A. Coimbra de Matos, 2002). Nestes casos o casal suporta as funções maternas e paternas de cada membro. Ao contrário, se a relação de casal estiver imbuída de conflito e/ou se desenrolar sob uma dinâmica disfuncional, a proximidade entre pai-bebé torna-se mais difícil, pois o pai é aquele que a mãe designa como tal, de forma explícita e implícita (E. Correia, 2009; B. Golse, 2006/2007).
No que toca ao homem que vai ser pai será actualizada a dimensão enigmática das suas origens. Ser pai excede o saber da biologia da reprodução, da genética e da história familiar, na medida em que é, também, um facto de cultura, conduzindo a novas inscrições no insconsciente.
Assim, o ser pai poderá encarar-se quer como uma condição quer como uma função da paternidade do homem que reconhece aquele filho como seu, que reconhece a companheira como mãe da sua criança, que
aceita essa criança na sua nova função e que concomitantemente também é reconhecido como pai pela companheira e pela própria criança. Os três reconhecem-se mutuamente como ligados uns aos outros e partilham a função de terceiro. Tal, implica ultrapassar a visão clássica segundo a qual a função de triangulação é unicamente representada pelo pai, para a conceber como uma propriedade emergente da tríada mãe-pai-bebé (R. Noël & F. Cyr, 2009).
O espaço paterno surge sempre como sendo co-construído pela mãe e pelo bebé, no âmbito das interacções precoces, através das várias situações triangulares que confrontam o bebé com uma dimensão de terceiro, que desenham um espaço nem-mãe-nem-bebé, percursor da futura função paterna do pai. Assim, muito antes da criança poder ter uma representação do pai enquanto objecto total e sexuado, vai ser confrontada com um terceiro mais parcial que prepara a construção da representação paterna na sua completude (B. Golse, 2006/2007).
É necessário integrar os contributos oriundos de diferentes especificidades teóricas do campo psicanalítico, de forma a melhor compreender o pai, a articulação da função materna e paterna deste e atender ao tornar-se pai.
A presença cada vez mais importante do futuro pai nas consultas de gravidez e no trabalho de parto, bem como, após o nascimento, nas consultas de pediatria e nas creches tem facilitado o estudo da dinâmica psíquica inerente ao processo de tornar-se pai e suas vicissitudes. Este está estreitamente ligado aos acontecimentos reais da gravidez, como é o caso do proto-encontro da ecografia, onde surgem a revelação do sexo do bebé e os sinais do seu bem-estar e desenvolvimento.
Existe um pai que não é de forma alguma uma segunda mãe, mesmo que nos dias de hoje os cuidados prestados ao bebé possam ser genericamente assegurados por qualquer um dos membros do casal. O pai, ainda que esteja tão ou mais habilitado que a mãe a responder às necessidades de segurança e de estimulação da criança, fá-lo-á com as suas próprias referências e com as suas próprias identificações.
Desde os primeiros momentos de vida da criança, o pai que está presente entrará numa inter-relação com o seu filho, distinta da inter-relação mãe-filho. Esta inter-relação pai-filho tem características próprias, hoje bem conhecidas graças às micro-análises das interacções da Escola de Lausanne e de Fivaz-Depeursinge e colaboradores (2010). As inter-relações
comportamentais pai-bebé são mais tónicas, mais motoras e mais lúdicas. O pai que embala o filho fá-lo num ritmo mais sustentado. Estamos longe de um pai com um efeito diferido (como refere Le Camus, em 1997, caracterizando o atraso da relação pai-bebé relativamente à relação mãe-bebé que marcou o período entre ) uma vez que muito precocemente (desde o quinto mês de gravidez) o feto é sensível aos estímulos sonoros e tácteis e revela perceber de forma diferente aqueles que vêm do pai daqueles que vêm da mãe (B. Cyrulnik, 2006, J. Le Camus, 2001a, 2001b). Os bebés podem entrar, desde muito cedo, num jogo triadico tal como num jogo diadico.
Joan Raphael-Leff (1995) refere que há homens que se tornam mais carinhosos durante a gravidez, sendo todos os seus cuidados e carinho direcionados à companheira grávida., Nestes casais pode ocorrer um aumento de relações sexuais em que o homem procura demonstrar uma forma de gratidão. Outros homens desenvolvem inveja e ciúmes, sentem-se rejeitados pelas companheiras e passam abdicar do desejo sexual, evitando a proximidade ou qualquer forma de carinho. Nestes últimos, os habituais conflitos decorrentes da gravidez da mulher, podem despertar-lhes violência verbal e física como forma de descarregarem todas as suas ansiedades.
Brazelton e Cramer (1989/2007) consideram que para o homem o acto sexual nos primeiros meses de gestação pode representar uma forma de contribuir para um aumento de energia na companheira, passando indirectamente essa energia para o bebé. Porém, também há homens que durante a gestação reclamam que as suas necessidades sexuais não são atendidas. Então os futuros pais dividem-se entre os que alimentam as suas esposas com carinho e ternura e os que se afastam por se sentirem frustrados, devido ao ciúme que têm da companheira e do filho que vai nascer.
No pai dos primeiros meses do bebé a função de continente das emoções e angústias maternas e o apoio e protecção à função materna é por demais importante. As duas funções, materna e paterna, articulam-se entre si, tal como os papéis paternal e maternal. Esta articulação de funções paterna e materna far-se-á no seio da bissexualidade psíquica de cada um. Resnick (1994) fala-nos, a propósito de pais combinados bons um objecto interno que articula as funções maternais figuradas pela horizontalidade, receptividade e continência e as funções paternais
figuradas pela verticalidade e firmeza, objecto este que apoiará a identidade do sujeito. O casal representa uma dupla articulação das funções maternas e paternas entre si com a articulação do erótico/conjugal ao parental (A. Ciccone, 2011).
Para ser mãe ou ser pai não é suficiente ser progenitor, é preciso, como referem Lebovici & Stoleru (1983), “tornar-se pais”. O processo de torna-se pai5, tal como o de tornar-se mãe ultrapassa a função dos pais por constituir uma transição complexa que envolve, além dos níveis consciente e inconsciente do funcionamento psíquico, o contexto psicossocial do sujeito.
Apesar de já haver trabalhos que atribuem ao pai um papel nuclear e mais directo na construção do psiquismo da criança (D. Cupa & H. Riazuelo-Deschamps, 2001; E. Fivaz-Depeursinge, C. Lavanchy-Scaiola & N. Favez, 2010; D. Levandowski & C. Piccinini, 2002, 2004, 2006; R.Petri, 2008; L.Solis-Ponton, 2004), a maior parte dos estudos sobre as representações psíquicas parentais diz respeito às representações maternas. Há uma enorme lacuna acerca das representações paternas, pelo que o pai se constitui ainda como um terceiro muitas vezes excluído ou subalternizado. Deste modo, enquanto o processo de transição para a maternidade tem sido um tema bastante explorado na literatura, ainda pouco se sabe sobre as modificações que ocorrem com o pai no seu processo de se tornar pai (D.Houzel, 2003).
Num projecto de se tornarem pais em comum cada um dos protagonistas projectará, de per se, representações de um bebé fantasmático e de um bebé imaginário sobre o bebé concebido, mas também projectará outras representações sobre a(o) companheira(o), a futura mãe ou o futuro pai, na medida em que como sujeitos individuais têm as suas próprias imagos complexas de mãe e pai interiorizadas. Todas estas representações, que inscrevem o bebé numa filiação, vão sendo confrontadas com o peso do desconhecido, com a relação de casal e com a relação que estabelecem com o filho. Como me dizia uma paciente envolvida no processo de tornar-se mãe, ter um filho é uma verdadeira prova de fogo para um casal. Assim, no processo de tornar-se pais, tanto a mãe como o pai necessitam do apoio de uma função paterna.
Designado em itálico por se tratar da tradução do termo Becoming a Mother, reportado a Wendy Hollway (2008).
O futuro pai contribui para o processo de tornar-se mãe, tal como a futura mãe contribui para o de tornar-se pai, havendo uma influência mútua ou co-construção onde a criança tem de ser incluída. Um filho orienta o modo como os pais se tornam pais, tal como os pais orientam o desenvolvimento de um filho.
Tornar-se pai envolve uma dinâmica temporal que implica transformações psíquicas profundas. Neste processo são despertados conflitos que têm subjacentes conteúdos inconscientes, que influenciam o tipo e a qualidade da relação que o homem estabelecerá com o filho, com a mulher e com todos os outros. As representações psíquicas construídas desde a infância acerca da paternalidade serão actualizadas, intensificadas, transformadas e criadas ao longo de toda a vida.
O tornar-se pai será, então, um processo dinâmico que se constrói gradualmente através da relação conjugal e com o filho, que mobilizará as funções e os papeis femininos, masculinos, maternal e paternal de cada homem.
Há no tornar-se pai toda uma mobilização de experiências infantis. O re-surgimento da sexualidade infantil, na qual as fases pré-genitais e a bissexualidade ocupam um lugar preponderante, suscita-lhe a emergência de uma conflitualidade entre as identificações feminina e masculina, maternal e paternal.
A vida fantasmática e imaginária do homem que se torna pai está impregnada de acontecimentos associados com todo o passado e futuro do sujeito. Alguns autores contemporâneos propõem que o pai também vive uma espécie de constelação da paternidade (H. Coutinho & D. Morsch, 2006; C. Piccinini, M. Silva, T. Gonçalves, & R. Lopes, 2004), ao apontarem o seu significativo envolvimento na gestação e nos primeiros tempos do filho. Porém, nem todos os pais se conseguem sentir envolvidos com o bebé durante o período gestacional (E. Bornholdt, 2001) ou nos cuidados primários. Contribuiria para que isso acontecesse o recrutamento de aspectos decorrentes da identificação feminina, geralmente com a própria mãe que, se integrados na consolidação da masculinidade, poderiam levar o pai a uma maior empatia com a mulher e com o bebé (T. Brazelton & B. Cramer, 1989/2007; J. Raphael-Leff, 1995).
Se o tornar-se pai mobiliza o feminino e o maternal do homem, como refere Korff-Sausse (2009), e a feminilidade está associada à receptividade nos dois sexos, a verdade é que se continua a dar um lugar preponderante ao ponto de vista das mães, sem haver preocupação com o ponto
de vista da criança e sem o questionamento acerca do modo como os homens se situam enquanto pais.
Contrariamente à mulher, durante a gravidez o homem não vivencia a satisfação libidinal de ter um bebé no seu corpo. A apropriação desse processo da mulher e a do nascimento do seu filho advém de uma elaboração puramente psíquica “um processo de pensamento” como sublinha Freud (1939/1969) em “Moisés e o Monoteísmo”.
Tornar-se pai implica, assim, uma inscrição psíquica da gravidez que é efectuada de um modo indirecto e multi-identificatório. Há uma necessidade de se voltar para o seu próprio pai, quer na fantasia, quer na realidade, numa tentativa de afirmar o seu papel parental (T. Brazelton & B. Cramer, 1989/2007) de progenitor, amante e transmissor de valores culturais. Mas, para além desta identificação, ele também se identifica com a sua própria mãe, com a sua mulher grávida e com o seu bebé.
Como dizia Green (1990), para uma mãe sonhar com o pai é lembrar-se que a felicidade da relação mãe-filho não tem senão um tempo, que deve ser vivida plenamente, que o seu filho não lhe pertence. Provavelmente, para um pai, sonhar com a mãe e com o seu bebé será recapitular toda a sua sexualidade de menino e homem. Estes diferentes movimentos permitem-lhe contra-investir o ciúme e a inveja relativamente à criança e à mulher em cujo corpo se desenvolve o bebé. Eles garantem-lhe, por seu lado, o seu próprio narcisismo de homem que se torna pai e o investimento narcísico do filho.
A conflitualidade psíquica do tornar-se pai está também ligada a sucessivos lutos. O luto de não ser uma mulher, o luto de não poder gerar o filho no seu próprio corpo, o luto da sua bissexualidade psíquica, o luto da criança que crê ter sido, que gostaria de ser, o luto da omnipotência infantil e dos pais idealizados do romance familiar. Todos estes lutos podem ser reagrupados como “lutos do desenvolvimento ligado à parentalidade” tal como propuseram Cramer e Palacio Espasa, em 1993.
Segundo Bydlowski (1997) muitas vezes o homem torna-se pai apenas a posteriori, uma vez que o seu desejo é atingido pelo recalcamento e pela denegação. O que está recalcado é a dimensão feminina da paternidade.
Assim, para alguns homens, o tornar-se pai pode representar um risco subjectivo maior. Poderá mesmo falar-se em “gravidez de risco” para o homem, como testemunham a relativa frequência de manifestações somáticas, descompensações psicopatológicas e rupturas conjugais no decurso da gravidez e no início da vida do bebé. Nestes homens constata-se uma fragilidade narcísica, uma identidade sexuada insuficientemente
estabilizada ou um defeito das identificações primárias e secundárias (A. Moreau, 2001) Este complexo processo será fundado por elementos inconscientes até então recalcados e pela transformação dos investimentos anteriores. A passagem de filho-homem-companheiro-pai é rica em ligamentos, desligamentos e rupturas. Os compromissos sintomáticos, como as formações reactivas, são postos à prova. Pode considerar-se que há uma crise identitária e narcísica que apresenta certas características comuns com a crise da adolescência, o que aponta para esta última como sendo a preparação para a paternalidade. A conflitualidade psíquica no futuro pai será tanto mais exacerbada quanto menos estes movimentos psíquicos se tenham dado na sua adolescência.
Se nos debruçarmos sobre o porquê, para quê e para quem um homem se torna pai damos de caras com a questão do desejo narcísico e objectal. No que respeita às questões narcísicas poderá dizer-se que no homem o desejo de tornar-se pai se associa ao desejo de imortalidade e de confirmação da integridade sexual. Poderá constituir-se como função protectora relativamente à angústia de castração reactivada na complexidade do processo, como uma função de consolidação narcísica e/ou uma oportunidade para elaborar os conflitos que não tinham sido suficientemente resolvidos, facilitando por isso o seu processo de maturação. Relativamente às questões objectais e em termos inconscientes, para o homem o tornar-se pai poderá significar tomar o lugar do seu próprio pai ou, ao contrário, constituir um processo de identificação com o mesmo (no sentido edipiano do processo). Poderá corresponder a um desejo de reparação dos seus objectos internos fantasmaticamente danificados e/ou poderá, ainda, revelar a componente feminina-maternal do homem que entrará em ressonância harmoniosa ou conflitual com a componente feminina e maternal da companheira.
Na complexidade deste processo de tornar-se pai é, assim, importante compreender se a condição biológica (de não ter o bebé no útero), até há pouco tempo reforçada por condições sociais que levam o pai para fora de casa, preocupado com a organização económica da família (E. Bornholdt, 2001, 2006), pode ser responsável pela exclusão ou subalternalização das suas condições psicológicas. Se haverá no tornar-se pai uma re-actualização dos conflitos infantis ou uma “constelação paterna”. Se ele anula a ambivalência dos seus desejos e os sentimentos em prol da mulher, canalizando as suas preocupações e investimentos afectivos predominantemente para ela e menos para o bebé (E.Bornholdt, 2006), ou se a sua ambivalência é mais aceite socialmente, uma vez que a
ambivalência é um sentimento naturalmente experienciado por mulheres e homens durante a gravidez (J. Raphael-Leff, 1995, 2000, 2010). Se para alguns autores é necessário que o pai recorra às identificações de cuidado que teve com a sua própria mãe no passado (sobretudo se não teve um modelo de pai participativo), para que se possa incluir de facto no processo e se relacione mais com o bebé (T. Brazelton & B. Cramer, 1989/2007; J. Raphael-Leff, 1995; D.Stern, 1995), há que pensar se haverá no pai alguma resistência interna que o limita, relacionada com a integração da bissexualidade psíquica e consolidação da sua masculinidade. (T. Brazelton & B. Cramer, 1989/2007; R. Debray, 1987; J. Raphael-Leff, 1995; M. Soulé, 1983/1987; M. Szejer & R. Stewart, 1984/1997).
Pensar sobre o pai implica pensar nos espaços individuais, nas diferenças e nas semelhanças, nas presenças e nas ausências, no dentro e no fora, no pai observado e no pai construído, constituindo esta questão um dos grandes desafios dos homens e mulheres da contemporaneidade. A implicação cada vez mais precoce dos futuros pais é uma mais-valia da civilização, independente do “mito da equivalência funcional”, descrito por Le Camus em 1997, que não tem em conta a influência da identidade sexual dos pais e a das crianças. A assimetria das relações pais-filhos é necessária à construção psíquica da criança, quer na sua vertente geracional, quer ainda nos dois modos de alteridade masculino e feminino. O amor, os limites, as regras e os interditos só poderão interiorizar-se numa relação assimétrica.
Há que continuar a fazer face a uma multiplicidade de discursos referentes a uma multiplicidade de teorias que existem sobre o pai reportadas à sua função psíquica, ao seu papel numa dimensão familiar e pedagógica, ou ainda ao pai como pessoa real (I. Krymko-Bleton, 1990). O papel do pai está sujeito e é definido pelas mudanças socio-culturais e é conceptualizado pelo lado do adulto. A função paterna, tal como a função materna, é conceptualizada pelo lado da criança. Esta dialéctica entre papel e função poderá ser ultrapassada considerando mais os seus propósitos do que as suas definições (C. Zaouche-Gaudron, 2001). Considera-se que o papel do pai se refere ao que ele faz no quotidiano e à representação que tem do que faz, é definido socialmente e por isso é submetido às mudanças socio-culturais. As funções do pai e da mãe, são concebidas do ponto de vista da construção psicológica, na medida em que servem de apoio e ajudam a organizar a criança.
A interface entre o mundo intrapsíquico e a intersubjectividade dos protagonistas da tríada pais/bebé (as interacções interpessoais observáveis) não deve ser ignorada, daí que Von Klitzing e colaboradores (1999) nos proponham pensar esta interface como um espaço transicional, que nos conduzirá ao abandono de uma visão clássica sequencial de uma díada para uma tríada.
Os novos desenvolvimentos da psicanálise, decorrentes da observação de bebés, dos estudos empíricos sobre as triangulações interaccionais, da interface representação/interacção de Von Klitzing e colaboradores (1995, 1999), do jogo triádico de Lausanne (Lausanne Triadic Play) de Fivaz-Depeursinge & Corboz-Warnery (1999, 2001), destacam que o bebé aprende muito cedo que a tríada existe tal como a díada, que a existência de uma conjugalidade entre os pais exerce uma função psíquica para a criança, decorrente da oscilação entre as questões de exclusão e as questões de inclusão, constituindo a articulação entre casal conjugal e casal parental um capítulo concomitante. Alertam que cada um dos pais é único, sexuado e com uma função simbólica para a criança. Que a ideia de terceiro se constroi psiquicamente e relacionalmente no seio da díada, que o terceiro poderá ser entendido para além do pai (como um campo ocupado pelos profissionais da primeira infância e pela sociedade) representando uma transicionalidade, o dentro e o fora, um novelo do intrapsíquico e intersubjectivo para cada um dos membros do triângulo.
Mesmo que o pai tenha uma posição externalizada relativamente à díada mãe-bebé, tem igualmente uma vida psíquica povoada de triângulos. O triângulo pai-mãe-filho caracteriza-se, quer pela complementaridade, quer pela interdependência dos papéis de cada um, numa lógica circular. A capacidade de estar-a-três reúne não só as questões de exclusão mas igualmente as questões de inclusão (T. Vaughn Heineman, 2004). São as rêveries conscientes e inconscientes da mãe e as repetições da exclusão e inclusão que a criança vive face ao casal (uma vez que a criança é excluída do casal conjugal e incluída no casal parental) que tornam o pai um terceiro específico.
Apesar de tudo e por mais progressista que seja o pensamento psicanalítico, o pai continua a ser muito mediado pela importância da relação mãe-filho. É necessário considerar-se toda a riqueza dos conhecimentos sobre a relação mãe-bebé e dar um passo para se poder inovar o modo de pensar a relação pai-bebé (D. Paquette, 2004). A esperança de obter futuros insights sobre a família, depende do portal de entrada utilizado para a avaliar (D. Stern, 2004).
Assim, embora reconheçamos a primazia da relação mãe-bebé, é necessário atender à especificidade da clínica quando esta nos mostra claramente que em certos casos de psicopatologia materna e/ou paterna a abordagem individual mãe, pai, filho ou a abordagem diádica filho/progenitor mais saudável, poderá ser a mais adequada ao desenvolvimento da criança.
Considerar no processo de tornar-se pai, a intersubjectividade do casal e o mundo intrapsíquico de cada um dos vértices do triângulo, em particular no que respeita à construção do terceiro, será uma forma de sublinhar a importância de um pai estruturante, integrativo e humanizante que garanta o desenvolvimento psíquico do bebé e da criança que existe em cada um de nós.
TITLE: About the father and become a fatherContributions of psychoanalysis – new perspectives
ABSTRACT: Despite the increasing interest about the father, most of the studies on parental mental representations relate to maternal representations. This theoretical synthesis seeks to consider all the richness of the psychoanalytic knowledge on the mother-baby relationship, and take a step to innovate the way of thinking about the father-baby relationship.
By highlighting the complexity of becoming a father, the idea of co-construction of the mother-father-child identities resulting from the articulation of female and male identifications and of maternal and paternal roles of each member of the couple, by differentiating the father as a subject of the paternal role as a psychological function, intends to underline the importance of a structuring, integrative and humanizing father that ensures the mental development of the baby and of the child in each of us.
KEY WORDS: becoming a father, early triangulations, paternal function