Neste trabalho de cariz teórico-clínico, uma breve discussão do filme Shame (2011) de Steve McQueen é o ponto de partida para uma reflexão em torno de um dos transtornos aditivos comportamentais da atualidade, a adição sexual, que tem vindo a ganhar expressividade na clínica contemporânea. Este filme traduz o sofrimento e funcionamento psíquico de pessoas para as quais o sexo não é uma forma de encontro humano, mas uma forma de desumanização do outro e de si, visando apenas e tão só atenuar temores infantis ligados a uma história infantil traumática e confusa que qualquer contato libidinal tende a reativar. Vários psicanalistas, entre os quais destacamos Robert Stoller (1985) e Joyce McDougall (1998), têm contribuído para humanizar estes funcionamentos patológicos, entendendo estas neosexualidades expressas em roteiros eróticos incomuns como formas de sobrevivência psíquica destes sujeitos, pois permitiriam combater estados agudos de angústia enquanto, simultaneamente, salvaguardam o sentimento de identidade subjetiva. A intervenção analítica, nestes casos, implica a análise sistemática das angústias dominantes mas levanta problemas técnicos específicos presentemente analisados, entre os quais se destaca a necessidade de uma atitude clínica constante de firmeza com a parte mais psicopática da personalidade a par com uma extrema sensibilidade e tato com a parte paranoíde e desesperada, que facilmente se sente humilhada e destruída.
O filme Shame de Steve McQueen (2011) retrata a vida de um homem Brandon aparentemente integrado social e profissionalmente mas cuja
Comunicação apresentada no XXIV Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: A Psicanálise na Era Global, Lisboa, 17 de Maio de 2013.
Artigo recebido a 22 de Julho de 2013 e aceite para publicação a 3 de Setembro de 2013.
Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
atenção e agir se focaliza no sexo. A vida de Brandon é dominada por pensamentos e comportamentos sexuais de caráter compulsivo, aos quais se encontra obrigado a obedecer, parecendo, nos seus agires sexuais constantes em que se implica numa troca incessante de relações sexuais anónimas e promíscuas, ir à procura de algo que nunca encontra, imergindo rapidamente nos sentimentos que o lançam para o mesmo ritual. Brandon não sabe conscientemente aquilo que procura, e que se apresenta a ele de forma tão obscura e inapreensível. Nós, por outro lado, não sabemos quase nada do seu passado mas a chegada da sua irmã, Sissy, também ela emocionalmente instável e autodestrutiva e a matriz relacional de caráter incestuoso manifesta entre ambos, põe em evidência feridas latentes vividas num passado traumático comum insinuado nas próprias palavras de Sissy ao mencionar “a culpa não é nossa mas sim de onde viemos”.
Este filme põe-nos em contato com o drama de um homem cárcere de uma sexualidade agida e destrutiva, com a angústia devastadora que lhe subjaz e a sua luta desenfreada para se libertar dela, possibilitando-nos uma reflexão em torno de um dos transtornos aditivos comportamentais da atualidade que se apresentam sobretudo nos registos do corpo e da ação – a adição sexual – e evidenciando o impacto dessa forma de mal estar na constituição subjetiva dos sujeitos que padecem desta adição, especialmente na relação com o outro. Retrata o sofrimento e o funcionamento psíquico de pessoas para as quais o sexo não é uma forma de encontro humano, com um outro visto na sua alteridade com quem se estabelece um vínculo, mas constitui uma impossibilidade de qualquer intimidade emocional, ansiosamente repudiada nos (des)encontros com os múltiplos partenaires sexuais, meros depositários de aspetos desesperados de si, expondo uma sexualidade agida, não sentida e, essencialmente, não sexual.
O caráter aditivo da sexualidade baseia-se no predomínio, no funcionamento mental destes sujeitos, de fantasmáticas sexuais de ordem recorrente e intensa, que pressionam e determinam o seu agir compulsivo – habitualmente sob a forma de masturbação compulsiva (auto ou hetero), a procura de relações sexuais repetidas de carater parafílico (em geral, envolvendo objetos sexuais não usuais) ou não parafílico ou a dependência de pornografia – e que tendem a manter-se e a agravar-se apesar das implicações nefastas que possam ter (J. Giugliano, 2003). A dimensão patológica desta fantasmatização compulsiva é ser simplesmente uma prótese mental para colmatar o que há de caótico e informe
no mundo interior, não se constituindo como espaço potencial nem para o sonhar nem para o viver.
A sexualidade como sintoma aditivo tem vindo a ganhar expressividade na clínica atual. Sabemos que os padrões de comportamento destrutivos têm na sua origem motivos complexos tecidos na trajetória existencial individual, mas a subjetividade constitui-se na intersubjetividade e é sempre atravessada pela transubjetividade. Brandon surge como uma produção singular tecida no imaginário destes novos tempos, promotores de exposição fácil, da instrumentalização do outro, de imediatismo prazeroso e parcos na contemplação de instrumentos de mediação simbólica.
Vários psicanalistas têm contribuído para humanizar estes funcionamentos patológicos, atribuindo-lhes uma compreensão sobretudo à luz da teoria do trauma e da angústia, entendendo-os como soluções que os indivíduos encontrariam para atenuar conflitos psíquicos intensos ligados a uma história infantil traumática e confusa geradora de angústias e temores não acessíveis à elaboração psíquica e mentalização. Designando-os de “neosexualidades”, Joyce McDougall (1998) alude à necessidade de criação destas “neorealidades” através destes cenários sexuais, que podem assumir diferentes desenhos, objetos fetichistas ou jogos sadomasoquistas, como técnicas de sobrevivência psíquica, pois permitiriam combater formas agudas e precoces de angústia não mentalizadas (relacionadas essencialmente com uma imagem castrada de si mesmo, mas também com angústias paranóides e, até mesmo, psicóticas de fragmentação ou afundamento psíquico no vazio) e, simultaneamente, satisfazer carências narcísicas intensas, salvaguardando o sentimento de identidade subjetiva.
A força da compulsão sexual e, portanto, a gravidade do quadro, pode assumir graus diversos dependendo da natureza dos estados psíquicos a combater e da extensão dos vazios a alienar podendo, nos casos mais graves, originar uma degradação das várias áreas de funcionamento da vida. Surge associada à promiscuidade, a condutas ordálicas que expõem o sujeito a situações de risco inelutáveis, vividas com caráter excitatório e das quais parece retirar força de viver.
A eleição de objeto neosexual é plurideterminada; as transmissões psíquicas parentais no que concerne à identidade de género, à identidade sexual e ao papel sociosexual futuro dos filhos, e o próprio modo narcisista de resolução de conflitos pelos pais, tem um papel atuante no desenvolvimento psicosexual dos sujeitos neosexuais. (H. Faimberg, 2001; R. Kaes et al, 1993).
Nas fantasias e atos neosexuais está patente a pobreza psicoafetiva da pessoa neosexual, a sua violência interna e a precocidade das suas falhas desenvolvimentais. Predominam fantasmas arcaicos prégenitais infiltrados de pulsões eróticas e sádicas que tendem a dramatizar-se de forma indiferenciada (J. McDougall, 1972). Muitos dos jogos sexuais em que se envolvem traduzem tentativas de re-encenação de fantasmas da cena primitiva que não puderam ser integrados no erotismo genital, aos quais o sujeito se socorre para atenuar angústias pré-edipicas e edípicas intensas, sentimentos de identidade sexual confusa, de vazio e morte interna.
Robert Stoller (1985) elucida-nos que o ato neosexual tende a preservar o trauma na sua estrutura. Encerra habitualmente um caráter hostil face ao outro, de o humilhar e subjugar expondo a ferida latente sofrida no passado infantil, relativamente à qual se procura vingar: a humilhação que o feriu narcisicamente e o deixou em situação de desamparo. Através da encenação sexual criada, o neosexual consegue um palco suficientemente seguro para se excitar (sem risco de intimidade emocional) convertendo o trauma infantil em triunfo. Os traumatismos precocemente vividos podem originar no psiquismo zonas psíquicas mortas, “criptas” (N. Abraham e M. Torok, 1978) pela ausência de simbolização que acarretam. A hipersexualidade poderá constituir uma forma de animar estas zonas psíquicas desvitalizadas, onde “ser” se confunde com “ejacular”.
Na adição sexual encontramos frequentemente uma sexualidade impregnada de agressividade, prevalecendo encenações sadomasoquistas associadas ao desejo de domínio e de fazer sofrer o outro, ocultando fantasmas paranóides ligados a vivências persecutórias internalizadas. Essas encenações, permitem escoar a agressividade suspendendo temporariamente o sentimento de violência interna e visam, simultaneamente, proteger os objetos internos do ódio e da destrutividade do sujeito.
É o caso de Mauro, nome fictício, cuja vida profissional, social e económica se encontra gravemente comprometida pela adição sexual. Procurou-nos por situação de abusos de álcool, que percebemos serem secundários ao sintoma sexual. Mauro bebia preferencialmente antes dos atos sexuais, como forma de desinibir a expressão da agressividade envolvida, diluindo ou anulando sentimentos de conflitualidade e intensificando o prazer obtido através da realização destes atos. Procurava regularmente prostitutas, várias por noite, com o intuito de realizar práticas sexuais específicas que frequentemente envolviam a ejaculação para cima da mulher, obrigando-a a engolir o esperma até esta se engasgar.
Também eram frequentes fantasias e atos sexuais com travestis, através dos quais nos parecia sentir o prazer e a convição de estar fundido, e fortemente identificado, com o seu pai e a sua mãe numa relação sexual primitiva.
As soluções neosexuais de Mauro começaram a ser criadas na infância, masturbando-se compulsivamente desde os 4 anos de idade e acompanharam a adolescência e a idade adulta, com intuito terapêutico, não apenas para conter uma angústia de castração excessiva, mas também como forma de alcançar reasseguramento narcísico e reforçar uma identidade sexual precária e confusa. Na sua hipersexualidade realça o prazer de ver o pénis ereto, ao que associa o sentimento de pequenez quando em criança observava o pénis do seu pai. A admiração excitada do tamanho da sua ereção parece servir de apoio visual e sensorial para a restauração narcísica da sua imagem corporal e, particularmente, da imagem deficiente do seu pénis. Da história infantil de Mauro destaca-se o sentimento de ter sido desprezado, humilhado pelo objeto cuidador. Passou por várias amas durante o primeiro triénio de vida e possui uma recordação verbalizada pelos pais de ter sido abusado por uma delas que o impedia de fazer os dejetos na fralda, obrigando-o, precocemente, a permanecer no bacio. É este objeto persecutório internalizado, associado à função materna que Mauro vai atuar nas suas dramatizações sexuais onde sadicamente parece procurar controlar o esperma no interior da mulher/bacio e onde o sémen se confunde com dejetos. Aos 4 anos, o nascimento do irmão e a separação do pai, que entretanto vai trabalhar para outra cidade, vão intensificar o seu sentimento de desprezo e abandono e exacerbar a sua angústia de castração. Nas ligações que estabelece na vida adulta não suporta a ausência do outro, criando fantasias paranóides de que este o despreza e humilha quando não lhe dá atenção. Na sua vida, tal como na de Brandon, a promiscuidade constante é sinónima de uma angústia desesperada que apenas conhece o caminho da destruição.
Os atos neosexuais de Mauro parecem funcionar como uma espécie de bálsamo químico que o tranquiliza temporariamente, permitindo-lhe manter um frágil equilíbrio narcísico, assim como escapar a fortes ansiedades paranóides, tratando as mulheres com a mesma desconsideração humilhante de que foi vítima na infância. Nas suas encenações sexuais, os elementos das relações traumáticas são claramente repetidos e controlados e a ameaça de destruição agressiva do self, ou dos objetos internos, é mascarada e contida pela erotização.
Tal como noutras adições, na adição sexual o sintoma falha nas suas intenções terapêuticas de reconstruir o sofrimento, surgindo apenas como promessa e possibilidade de o fazer calar momentaneamente.
A atitude de escuta analítica, num contexto de relação transfer-contratransferencial, sendo a que melhor possibilita a empatia com o drama vivencial do sujeito neosexual, depara-se com questões técnicas e éticas específicas. A necessidade de uma avaliação cuidada do grau de estruturação do ego do paciente é funtamental à decisão do tipo de tratamento analítico a realizar: se psicoterapia analítica ou psicanálise, mas constitui desde logo uma dificuldade. Personalidades mais frágeis podem não tolerar as frustrações inerentes à relação analítica e pode haver o perigo de emergirem angústias psicóticas intensas. Por outro lado, a relação face-a-face poderá ser facilitadora da emergência de fantasmáticas sexuais com o/a analista perturbando o curso do pensamento e interferindo no discurso associativo através de bloqueios, quebras do processo associativo, comunicações tangenciais e emocionalmente vazias, etc. A questão da confusão de línguas de que fala Ferenczi (1933) implica, desde o início, uma atenção terpêutica constante.
A relação transfer-contratransferencial revela-se intensa e difícil de manejar. Estes pacientes possuem uma comunicação predominantemente agida; como não organizam a angústia o espaço analítico tende a ser invadido por actings, atacando intensivamente o setting e a função continente e de reverie do analista, defesas do paciente face aos temores de poder tocar vivências confusas e inquietantes que qualquer contato libidinal tende a reativar. A utilização da contratransferência pelo analista é fundamental para aceder ao aspeto comunicacional da transferência, trabalhar os agires constantes e evitar o role-responsiveness (J. Sandler, 1976), ou seja, o atuar de papéis impostos pelo drama relacional interno agido pelo paciente. Estes pacientes tendem a re-encenar na transferência a cena primitiva sadomasoquista destrutiva e a expressar, por meio de esforços inconscientes para esterilizar o processo analítico, a rejeição e o ódio a uma cena primária genital propícia a criar um “bebé analítico” (J. Chasseguet-Smirgel, 1981, 1984).
Sabotar a análise pode também representar dificuldades do paciente em suportar a assimetria da relação correspondendo a tentativas de triunfar perante um/a analista facilmente experienciado como esmagador e subjugador e/ou dificuldades em suportar a simetria pelo temor de se fundir com este.
O principal instrumento terapêutico é a interpretação sistemática das angústias que emergem na relação transferencial no palco analítico e com os objetos externos, de forma a, progressivamente, ir modificando a(s) angústia(s) dominante(s). O dilema do analista passa pela exigência de uma atitude constante de firmeza com a parte mais psicopática da personalidade do paciente, não podendo permitir que este corrompa a relação com os seus actings mas, simultaneamente, que tenha uma extrema sensibilidade e tato com a parte mais paranóide e desesperada, que facilmente se sente humilhada e destruída face à perturbação narcísica envolvida. Interpretações excessivas ou a defesa de restrições do setting pelo analista podem evocar afetos ou vivências intoleráveis de submissão ou “coisificação” pelo outro e gerar agires transferenciais geradores de impasse ou reações terapêuticas negativas. Por isso, as interpretações deverão ser usadas com precisão cirúrgica, devendo o analista ter particular atenção aos tecidos psíquicos a afetar. O trabalho analítico com estes pacientes exige uma interpretação ativa do ódio ligado às constelações patológicas internalizadas que podem operar como verdadeiras organizações patológicas gozando de grande autonomia no interior do aparelho psíquico (O. Kernberg, 1972) mas, simultaneamente, que se vá significando o ansejo de afeto feito pelo sujeito, nas múltiplas relações (des)amorosas em que se envolve, numa procura agida e, como tal, impossível de encontrar.
Neste trajeto terapêutico moroso, exigente e de grande impacto no psiquismo do profissional, a metamorfose do impensável é imperativo para que o paciente se possa ir libertando das suas partes avatares e aceder ao «verdadeiro si próprio» (D. Winnicott, 1960), em suma, à realização e possibilidades inéditas do laço humano.
TITLE: Sexual addiction and (un) human encounter
ABSTRACT: In this theoretical-oriented clinical work, a brief discussion about the movie Shame (2011) of Steve McQueen is the starting point for a reflection around one of nowadays behavioral addictive disorders, sexual addiction, which has gained expressiveness in contemporary clinical practice.
This movie reflects the suffering and psychic functioning of people for whom sex is not a form of human encounter, but dehumanization of others and themselves, to just and only reduce children's fears related to a traumatic and confusing history in childhood that any libidinal contact tends to reactivate. Several psychoanalysts, such as Robert Stoller (1985) and Joyce McDougall (1998), has helped to humanize these pathological
behaviors, understanding these neosexualities expressed in unusual itineraries as forms of psychic survival of these individuals because it would combat acute states of anxiety while, at the same time, safeguard the subjective sense of identity. The analytic intervention in these cases involves the systematic analysis of dominant anguish but raises specific technical problems analyzed in this work, namely the need for a clinical attitude of constant firmness with the most psychopathic part of the personality as well as an extreme sensitivity and tact with the desperate and paranoid part that easily feels humiliated and destroyed.
KEYWORDS: addictive sexuality; trauma; destructive behaviors; pathological narcissism.