Pretende-se um entendimento do modo como na relação com o objecto cuidador se formam núcleos narcísicos, pela não aceitação dos estados afectivos do bebé por parte do objecto, conduzindo a um desenvolvimento invertido em que o bebé passa a funcionar como um objecto do self para o cuidador, determinando a formação de um self ideal defensivo, em favor dos desejos do outro. Estes núcleos narcísicos são muito visíveis nas relações amorosas, uma vez que estas reactivam esquemas de relação que ficaram internalizados precocemente e que muitas vezes condicionam todo o desenrolar sadio da sexualidade.
Os núcleos narcísicos, oriundos da fragilidade do self, organizam-se de forma mais maníaca, promovendo uma visão mais colorida do self do próprio através da ligação a objectos-espelho desvalorizados que gravitem em torno do próprio e lhe possibilitem uma visão enaltecida, ou em formas mais persecutórias em que se pretende uma ausência de ligação como forma de preservar uma falsa estabilidade do self, possibilitando uma ilusão de auto-suficiência, mas traduzindo-se numa simplificação da vida mental, num empobrecimento desastroso de toda a vida afectiva e emocional, desembocando num bloqueio afectivo que culmina num enfermo vazio interior.
O verbo amar é difícil de conjugar: o passado não é simples, o presente não é indicativo e o futuro é muito condicional.
Sabemos hoje em dia que a afectividade não é um resultado de mecanismos intrapsíquicos isolados, mas resulta de uma regulação mútua entre o bebé e o objecto/cuidador (Stolorow & Atwood, 2004). É nos encontros e
Especialista em Psicologia Clínica. Assistente na Universidade de Évora. Sócia Candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 6 de Outubro de 2008. Revisão recebida em 27 de Outubro de 2008. Aceite para publicação em 28 de Novembro de 2008.
desencontros com o objecto primeiro de relação que se começa a estruturar toda a vida afectiva e relacional, a qual dará o colorido à vida sexual. A interacção com o objecto cuidador proporciona uma série de sensações e sentimentos prazerosos que vão auxiliando o bebé na descoberta do próprio corpo e do seu Eu. Deste modo, o que na posição esquizoparanóide (Klein) é odor, sabor, calor, um aconchego, algo que acalma a dor e transforma a angústia, passa na fase depressiva a ser tudo isso, mas relacionado com um objecto total: a mãe (ou cuidador), conduzindo agora à possibilidade do sentimento de identidade pessoal, pelo do reconhecimento do próprio através do outro, este percebido como limite entre o Eu e o mundo (Grinberg & Grinberg, 1976). Assim, de suma importância para o desenvolvimento, a posição depressiva permite (devido à resposta harmonizada por parte do objecto cuidador) a integração de tudo o que até aí era sentido como dissociado e que agora passa a ser reunido numa pessoa, determinando uma noção da existência do próprio, do outro separado e ainda de um terceiro (que não é nem o Eu nem o outro), cuja ideia de existência surge no momento da ausência do objecto primeiro.
O objecto cuidador, ao validar as experiências afectivas do bebé, vai proporcionar o desenvolvimento do seu self, constituindo-se assim como um objecto do self com função delineadora do self e das suas fronteiras (“the self delineating self-object function”), tal como referem Stolorow e Atwood (2004). É a identificação e o correcto significado que o cuidador vai dando à linguagem corporal do bebé que possibilita que os afectos possam ser experimentados como mente e não só como estados corporais, se quisermos, é essa significação que permite a transformação dos elementos beta em elementos alfa (Bion), os quais podem ser assimilados, integrados na experiência do self e não necessariamente expulsos. A experiência repetida de correspondência entre a necessidade sentida e a resposta obtida na relação com uma mãe capaz de conter e designar os fragmentos do frágil Eu do bebé possibilita um sentimento de realização que conduz ao nascimento de uma consciência de formação de uma força interna que mantém a integração do self, passando a não ser necessário um constante recurso ao auxílio externo, constituindo-se aqui as bases da autoconfiança e da auto-estima.
A resposta maternal adequada conduz a um sentimento de encaixe emocional, bem-estar narcísico, de satisfação com o seu self e, progressivamente, a aceitação de um outro capaz de proporcionar essa experiência de satisfação. Ao longo da interacção, o bebé vai se apercebendo
do impacto que os seus afectos produzem no objecto, adaptando-os progressivamente às respostas que necessita, para satisfação das suas necessidades. Assim sendo, quando os estados afectivos da criança não encontram resposta integradora por parte do objecto, esses afectos não podem ser assimilados na organização da sua experiência de self (Stolorow & Atwood, 2004), é então necessário criar defesas que permitam preservar a integração de uma estrutura de self frágil. Deste modo, o bebé vai aprendendo que é necessário sacrificar algumas das suas experiências afectivas, pois essas não são bem acolhidas pelo objecto, de forma a ser possível a preservação da relação que é necessária à sua sobrevivência (Socarides & Stolorow, 1984). Quanto mais repetidas forem essas falhas, ou a ausência de resposta, por parte do objecto, e quanto mais precocemente ocorrerem, mais regressivas vão ser as defesas necessárias, maior a incapacidade de regular os estados afectivos, o que determinará a gravidade da patologia. Pensamos que, nas formas mais graves de patologia, a ausência de resposta por parte do objecto primeiro de relação determinou uma incapacidade para lidar com sensações, que ao não serem passíveis de simbolização, ficam à deriva e não podem contribuir para o sentimento de formação do self. Deste modo, a ausência de um contexto relacional adequado compromete a formação de estruturas psicológicas que possibilitem o desenvolvimento da experiência do self e consequentemente a possibilidade de gerir internamente estados afectivos que se afiguram como desorganizadores.
Quando os estados afectivos desprazerosos do bebé são sentidos como um ataque à auto-estima e ao sentimento de competência dos pais, é o bebé que passa a funcionar como um self-objecto, cabendo-lhe a tarefa de substituição dos seus genuínos estados por outros, esses aceites e gratificantes para o objecto, suscitando a sua admiração. Assim, ficam comprometidos os processos de diferenciação do self, desenvolvem-se padrões de submissão que implicam a rendição dos sentimentos e necessidades legítimas, em torno dos quais se constroem muralhas defensivas. O desenvolvimento processa-se de forma invertida, a ausência de objectos que se constituem como objectos do self do bebé em desenvolvimento determinará fragilidades na auto-representação, a exigência de se tornar um objecto do self para o cuidador lesa o self em desenvolvimento, fá-lo definhar, impede a formação de uma visão mais enriquecida do próprio, porque esgotado e sem ânimo.
Deste modo, desenvolve-se um self ideal defensivo, livre de afectos dolorosos e inaceitáveis, o qual possibilitará a regulação da auto-estima
e a manutenção da ligação aos outros. Claro está que a manifestação patológica deste depende da extensão da lesão do self do próprio, sendo maior nos funcionamentos psicóticos e tendo manifestações mais ténues nos funcionamentos neuróticos.
Deste modo, desde cedo as experiências que passam a ter um sentido são as que vão tornar possível a aprendizagem e o desenvolvimento emocional, por outro lado as que não fazem sentido ou obrigam o self a uma “acomodação plástica”, determinando a construção de uma realidade alheia, porque imposta de fora, que impregna na mente do bebé conteúdos que não lhe pertencem e como tal é deformadora; ou terão de ser expulsas, postas noutro lugar, em todo o caso impedindo o crescimento emocional. Surge, deste modo, a formação de “núcleos narcísicos da personalidade”, que invadem tanto mais a personalidade quanto mais precária for a estruturação do self, originando assim o self narcísico que se constitui como uma organização patológica.
Quando não existe por parte do objecto cuidador uma “sintonia emocional validante” (Stolorow & Atwood, 2004) nesta fase mais precoce, surge a ausência de experiência partilhada, o que conduzirá a um sentimento de isolamento e crença de que as necessidades afectivas são vergonhosas e inaceitáveis; deste modo, os afectos não aceites pelo objecto cuidador passarão a ser inaceitáveis para o próprio e impossíveis de serem pensados e integrados na experiência porque não foram acolhidos nem transformados por um objecto pensante e capaz de não se deixar dominar pela impaciência ou ansiedade próprias.
Estes jogos interactivos vão sendo internalizados, originando representações mentais que se constituem como organizadores que dão significado aos estímulos e premeiam os relacionamentos posteriores, pelo que no futuro é natural que haja um receio do reencontro com a falha, determinando um evitamento defensivo de certos afectos, mantendo-se uma ligação ao conhecido. Pensamos que a maior inflexibilidade desses princípios organizadores é responsável pelos funcionamentos patológicos. Da Saúde Mental faz parte a integração de novas experiências de relação, renovadoras e promotoras do desenvolvimento.
No bebé, a experiência repetida das necessidades físicas só fica realmente satisfeita com o contacto visual, cutâneo, auditivo, com a sensação do calor do corpo materno, com as vocalizações, surgindo a percepção crescente de que a necessidade se produz no seu interior mas que a satisfação vem do exterior, havendo uma progressiva clarificação da consciência da mãe enquanto objecto separado e independente. Consideramos ser
necessário para a estruturação do self, como identidade separada, o estabelecimento de um “vínculo de reconhecimento mútuo”, em que o bebé, conhecido e reconhecido nas suas necessidades genuínas pelo objecto, toma contacto com a sua subjectividade e vai reconhecendo este último como separado do seu self, estabelecendo-se princípios de relação onde mutuamente se informam e partilham estados emocionais. Deste modo, a partir do segundo semestre de vida do bebé, as interacções afectivas entre este e o objecto cuidador permitem que se desenvolva uma consonância no plano dos afectos e das emoções, onde cada um é informado do estado afectivo e emocional do outro (B. Golse 2007).
Aqui nasce o amor! É quando surge esta consciência de um outro, a quem estamos ligados, o qual pela sua competência contentora e compreensiva é capaz de entrar em sintonia afectiva, proporcionando uma paz e uma quietude apaziguadora, afastando o sentimento de desamparo e de vazio, que se torna possível o desabrochar do amor.
Assim, o objecto é o da gratificação narcísica, o que possibilita a satisfação das reais necessidades, mas que tem também uma atitude reflexiva que reflecte satisfação pela interacção estabelecida, que manifesta prazer no cuidar e no resultado da interacção (I. Mesquita, 2008), que é capaz de sintonia afectiva e que legitima as experiências do bebé. Consideramos que é esta manifestação de prazer emitida pelo objecto que é de fundamental importância para o desenvolvimento de uma imagem positiva do seu self, de suma importância para um desenvolvimento sadio da sexualidade, o sentimento de que se pode inserir numa relação preenchida com ternura onde se deseja e se é objecto de desejo.
Encontramos aqui, nesta relação primária, todos os ingredientes de base para um desenvolvimento prazeroso da sexualidade, possibilitado pela ternura do olhar e ser olhado, do tocar e ser tocado, sentir o outro e sentir-se parte de um outro, o permitir-se partilhar prazer com o outro a par do sentimento de que se é parte do prazer desse outro.
Deste modo, nesta fase de desenvolvimento, a par da necessidade de satisfação proporcionada pelo alimento, nasce uma outra, o desejo de obter prazer, que Freud designou de prazer e sexualidade pré-genital. Este, caracterizado por uma necessidade de investimento predominantemente narcísico, amor mais captativo, como refere Coimbra de Matos (2001), em que o objecto oral é um objecto que proporciona satisfação, que é desejado pela satisfação e prazer que proporciona, deste modo, havendo um primado do receber sobre o dar. Ao longo da evolução prevê-se que este amor mais captativo se transforme num amor mais partilhado,
que haja uma deslocação do narcisismo para o amor objectal (A. Coimbra de Matos, 2002), este último mais maduro, contendo a partilha, o companheirismo e o desejo de criação a dois.
No seio da relação primária onde o indivíduo começa a ter uma noção de si e do outro, desenvolve-se, a partir da rêverie (Bion) materna e da identificação à função continente do objecto, uma competência para se pensar e pensar a relação, para ir ao encontro do interior de si e do outro (desenvolvimento de K), competência necessária ao desenvolvimento da sexualidade, sem a qual essa passa a ser agida mas não sentida, mecanizada, fixada no estado de desenvolvimento pré-genital.
Como diz o conhecimento popular: “Três foi a conta que Deus fez”, denotando-se um conhecimento da importância de um terceiro para o desenvolvimento. A imagem positiva do pai é uma condição importante para a identidade sexual masculina, pois possibilita o desenvolver de desejos edípicos positivos (Grinberg & Grinberg, 1976), e no caso da menina facilitando a identificação desta com o objecto por ele desejado.
A relação com o pai depende muito do modo como se desenrolou a relação mais precoce, mas também da competência deste para poder alterar qualquer imagem menos favorável ao desenlace desta nova relação. De facto, com o terceiro relacional passa-se a uma nova fase, à da exploração, da curiosidade, tão necessária à sexualidade e ao desenvolvimento do erotismo, pois toda a excitação pela novidade é símbolo do erotismo. O pai estimula o filho(a) para a socialização, impele à descoberta do mundo, transmitindo segurança através dos seus incentivos e da valorização, esta proporciona a passagem de um estado de narcisismo para a socialização.
Mas é também com esta nova relação que surgem outros sentimentos, também eles tão presentes na vida amorosa: o ciúme, a raiva, a atracção, a competição, o sentimento de perda… Nesta fase de desenvolvimento, o objecto é portador de desejo, é o objecto que traz prazer à mãe, o qual é também agente de proibição, é o “objecto anal”, que se deverá tornar num “objecto de identificação e de competição (objecto fálico) ”, o qual estimula a procura e a descoberta (Coimbra de Matos, 2002).
Chegada a adolescência, rampa de lançamento para a fase adulta, procura-se a confirmação do self, a edificação da imagem sexuada, a comprovação das competências de atractividade, é imperativa a co-validação de que se é objecto desejado para poder desejar o outro. Mas é essencial ter sido objecto de desejo, ter sentido a satisfação do seu desejo, para se tornar também objecto desejante.
Este é a fase de partida para a vivência da sexualidade genital, passagem de uma posição mais receptora para uma outra de partilha de afecto, da busca de experiências que promovam o conhecimento de si mesmo e aumentem o sentimento de estima, o sentimento de competência. O conhecimento do que espera de si e dos outros conduzirá o seu percurso evolutivo em direcção à vida adulta. Como refere Coimbra de Matos (2002), nesta fase deverá coincidir o desinvestimento do objecto parental com o investimento do objecto sexual, desidealizando os primeiros para ganhar a confiança em si, para que se permita arriscar investir o novo objecto. De acordo com Braconnier & Marcelli (2000), a adolescência corresponde ao momento em que está em jogo a harmonia entre a vida sexual e a vida amorosa.
Quando o objecto foi internalizado como essencialmente bom, é possível uma segurança do Eu, um sentimento de riqueza interna que permite que as partes boas do self sejam projectadas sem que haja um sentimento de vazio. Como nos refere Klein , o Eu pode então reintrojectar o amor projectado, ou o bom originado noutras fontes, e sentir-se enriquecido com todo o processo.
R. N. Emde (1988) referira que os aspectos relacionais internalizados pelo indivíduo vão, ao longo da vida, ser reactivados em contextos relacionais similares. Consideramos que, quando foi possível um encontro de afectos entre bebé e cuidador, onde prevaleceu o sentimento de ser compreendido e amado, é natural que se mantenha a expectativa de encontro de sentimentos semelhantes na relação com os outros e da parte deles.
Assim, da relação amorosa estabelecida na infância com a mãe e com o pai (ou cuidadores) e do modelo de relação entre estes, surgem na vida adulta relações amorosas que têm configurações análogas e que, por vezes, condicionam todo o desenvolvimento da sexualidade. David Zimerman (2004) refere que da internalização do objecto enquanto divino ou demoníaco, poderoso ou incapaz resultaram idealizações, desvalorizações, submissões ou revoltas que vão modelar todo o envolvimento amoroso.
De facto, consideramos que os conteúdos mentais se formam a partir da interacção com as figuras cuidadoras da infância e do modo como se interpretaram essas interacções originam-se esquemas mentais de relação que se vão interpor na vivência de interacções posteriores, e que muitas vezes podem ser perturbadores e paralisar todo o desenvolvimento. Como refere J. Coderch (2001), estes esquemas precocemente formados
são conservadores, uma vez que tendem a assimilar cada nova interacção às antigas e originar respostas idênticas às do passado.
Assim, em muitos casos, cada nova interacção gera uma “angústia antecipatória” que vai determinar a recusa de relações que possam reactivar sentimentos, emoções e pensamentos outrora vivenciados como avassaladores.
Existe, no entanto, a possibilidade, ao longo da vida, de se estabelecerem relações, de tal modo vigorosas e transformacionais, que possibilitem o suplantar desses esquemas patogenicamente criados. Mas, quando isso não parece ser possível, surgem alternativas menos saudáveis, como nos disse Florbela Espanca: “Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui…. além… / Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…/Amar! Amar! E não amar ninguém!”. É a manifestação do “narcisismo maníaco” (J. Manzano e Palácio Espasa, 2008), com séria dificuldade em amar verdadeiramente, procurando apenas no outro a manifestação do desejo e paralisando a relação, desenvolvendo-se muitas vezes condutas sexualmente excitantes mas que não implicam intimidade, onde os pensamentos erotizados substituem os afectos, quase sempre implicados numa sucessão cíclica de relações dependentes das circunstâncias, revelando-se o que designamos ser uma “sexualidade operatória”, não se ligando verdadeiramente a ninguém, mas adoptando jogos de sedução com contornos infantis, que mantém o objecto na expectativa da satisfação do desejo, o que nunca acontece. Em todo o caso, o que é partilhado são sentimentos falsos, que resultam da manifestação do falso self, os verdadeiros ficaram bloqueados, não são passíveis de serem aceites, as necessidades genuínas mantêm-se à deriva do self, há um distanciamento em relação aos próprios afectos e aos do outro.
Stolorow & Lachman (1983) já haviam referido o facto de certos comportamentos sexuais cujas experiências corporais intensas têm apenas como objectivo suster uma organização psicológica precária que tende à fragmentação. Precisam do outro sem falta, para fugir de si, pois com a ligação ao outro vem muitas vezes a esperança de uma nova identidade, a que possibilite lidar com uma realidade interna que é vivida como dolorosamente insuportável. Trata-se de uma forma agida de procurar o afecto, e como tal impossível de encontrar, implicando-se assim numa incessante troca de relações sem intimidade nem profundidade, onde não é possível o desenvolver do conhecimento de si e do outro, relações muitas vezes com carácter parasitário em que o objectivo é sentir que se é objecto de desejo, em que há uma antecipação do sexual face
ao relacional, onde o contacto corporal jamais reflecte o envolvimento emocional e afectivo, criando-se relações com proximidades ilusórias, constituindo-se como verdadeiros ataques à intimidade; ilusório é também o sentimento de ausência de dependência e o afastamento do temor de abandono. Está em causa uma procura desenfreada de um outro ideal, envolto de particularidades construídas com base em sonhos estéreis, e por isso facilmente desidealizável e imediatamente desprezível. Trata-se de um objecto que tem duas faces com as quais o indivíduo joga alternadamente, ora é desvalorizado, ora ideal, convenientemente, de forma a regular a auto-estima, e impedir a queda na depressão (é o objecto bifacial, como refere Coimbra de Matos, 2001).
O Supereu é externo, o que torna o indivíduo dependente da apreciação emitida pelos demais, revelando-se furioso quando essa necessidade não é satisfeita. A fragilidade do Super-eu está relacionada com a não aceitação da diferença, do outro enquanto distinto do próprio no que respeita aos sentimentos, desejos e ambições.
No narcisismo maníaco, cujas defesas se organizam contra a angústia de separação, o outro inexistente enquanto objecto separado apenas desempenha um papel previamente encomendado: o de admirador, não é objecto de desejo, apenas de exibição, muitas vezes para confirmar o valor do próprio. O culto do corpo surge para demonstração da própria virilidade ou feminilidade. O. F. Kernberg (1995) referira que nalgumas mulheres o exibicionismo e os comportamentos de sedução frios e controlados face aos homens indiciavam uma identificação a uma mãe fria e rejeitante, tendo como objectivo o controlo, a exploração e a protecção face à inveja. A sexualidade, privada do sentimento, é infantil, muitas vezes baseada em condutas exibicionistas em que o outro não é senão objecto de actividade masturbatória do próprio, uma vez que o prazer não resulta da relação. O envolvimento afectivo fica substituído por condutas robóticas e desafectadas, que impedem o crescimento mútuo. O amor, esse, tão desejado e nunca encontrado! Assim o fazem porque assim sentiram que lhes fizeram, ficando penhorada toda a vivência de uma sexualidade baseada na troca de afecto e ternura, essa sim geradora de um sentimento de plenitude.
São relações que se sustentam pela amputação, tolhidas por um sentimento, muitas vezes mútuo, de insuficiência crónica, em que o outro é apenas um complemento do próprio, aquilo que lhe falta para ter uma visão mais colorida do seu Eu, embora permanecendo sempre uma estrela sem luz própria que necessita de objectos que gravitem à sua volta e lhe
proporcionem gratificações que são da ordem da pré-genitalidade, dado que as exigências são de reconhecimento e admiração e não de troca afectiva. Consideramos que este se constitui como um lado mortífero do amor que se fica a dever a uma ligação de dependência, na infância, a um objecto frio, indiferente, não sintonizante, em que muitas vezes o que se realiza é uma vingança contra esse objecto que lesou e utilizou o indivíduo como objecto de completude narcísica (A. Coimbra de Matos, 2002), numa fase do desenvolvimento em que era crucial o reforço narcisante e provisor de reservas.
A sexualidade saudavelmente vivida implica uma troca de ternura e respeito mútuo, de conhecimento e reconhecimento, onde é possível surgir o prazer de dar e receber, o apetite por satisfazer, onde existe a sede do desejo. Como referiu Santo Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida!”, mas quando ocorre o fracasso genital, surge a adopção de estratégias de compensação, pelo poder, dinheiro, um consumismo exagerado, a procura de um objecto do qual ficam à sombra ou colocando-o na sua sombra, de forma que possa iludir uma visão mais valorada de si, como se pudessem estar “sempre à mama”, revelando uma dificuldade na autonomização e uma manutenção de uma dependência infantil, ainda que sempre negada, pois têm grande dificuldade em aceitar a dependência face ao outro e em consciencializar o que o outro tem de bom para dar.
A genitalidade é distante do controle obsessivo sobre o outro, onde se instala a ritualização da relação em que prima o exibicionismo do próprio, em que a relação se estabelece sem emoção ou criatividade, implicando uma estagnação asséptica, em que ninguém se toca verdadeiramente em intimidade, porque existe um receio de poder ser invadido pelas emoções e perder o controle, em que o afecto tem de ser colocado à distância, sob pena de trazer sofrimento. São assim relações envoltas numa redoma asfixiante que conduz a uma insuficiência de vida, porque não vivida em plenitude. Difere também da dependência estéril do depressivo, que não manifesta o desejo porque se coloca à mercê do outro para evitar a rejeição e impede-se de se colocar na relação enquanto ele próprio, muitas vezes controlando o outro de forma masoquista, não deseja mas submete-se ao desejo do outro, apenas recebe o que o outro quer dar e não exige o que sente que necessita, pois receia a rejeição. Ávidas presas, que se deixam encarcerar em relações que ilusoriamente lhe trazem um benefício à auto-estima, mas que resultam num sentimento de darem mais do que recebem (economia depressiva ou depressígena, de
acordo com Coimbra de Matos, 2002), e como tal são insatisfatórias, diz-nos o fado: “Se eu soubera que morrendo tu me havias de chorar, por uma lágrima tua que alegria me deixaria matar”. Por norma envolvem-se em paixões de foro masoquista em que a atracção é sempre por um outro que se apresenta como incapaz de corresponder aos desejos do próprio, comprovando o sentimento de não ser merecedor de melhor (decorrente da sua fragilidade narcísica), muitas vezes protegendo-se dos temores da rivalidade edipiana.
Escreveu Fernando pessoa: O amor maior é por isso morte…, ou ainda: o amor causa-me horror; é abandono…
Quando as experiências de ligação a um outro implicam o reviver de sentimentos, recordações, fantasias e outros conteúdos experienciais que ameaçam o ressurgir de configurações vinculares avassaladoras, a recusa à relação afigura-se como uma estratégia de sobrevivência. De facto, para alguns, a vivência de intimidade está estreitamente ligada ao fusional e como tal é morte, é desaparecimento do próprio no outro, pelo que ilusoriamente se salvam pelo refúgio narcísico, criando uma falsa estabilidade com um efémero Eu disfarçado de grandioso que se alia de forma maníaca ao poder, desprezo e ao controlo (tríade maníaca descrita por Klein), subestimando o outro como forma de se enaltecerem e encobrirem o sentimento profundo de menor valor, negando a dependência através do controlo do objecto para o submeterem ao seu poder, para o fragilizar, não reconhecendo que esta atitude apenas leva a um empobrecimento da vida emocional, uma deterioração do sentimento de identidade e ao incremento do ódio e da inveja que corrompem nocivamente toda a relação. Trata-se da manifestação de um “narcisismo persecutório” (Manzano & Palácio Espasa, 2008) ou “maligno”, de acordo com O.F. Kernberg , cujo objectivo é denegrir os aspectos idealizados do outro, de forma a negar o sentimento de inveja profunda e encobrir a angústia paranóide, o qual é próprio dos funcionamentos mais psicóticos e que se caracteriza essencialmente pela negação intensa da necessidade de ligação ao objecto, um ataque a tudo o que signifique vínculo, sendo total ou parcialmente destruídas todas as funções cognitivas do Eu, traduzindo-se numa simplificação da vida mental, num empobrecimento desastroso de toda a vida afectiva e emocional, desembocando num bloqueio afectivo que culmina num enfermo vazio interior. Devido à intensa actividade projectiva e de identificação projectiva, o vazio é cada vez mais profundo, tendo que ser preenchido por actividades delirantes, condições megalómanas que por sua vez vão afastando mais da
realidade e, por isso, aumentando o vazio e delineando um “ciclo vicioso psicótico” (A. Perez Sanchéz, 2003). Desenvolve-se uma arrogância psicótica (que substitui o orgulho próprio), alicerçada numa ilusão de auto-suficiência, donde sobressai uma inveja destrutiva, a indiferença geral e a ausência de vida afectiva que acompanha o algemar das emoções. Nestes casos há uma destruição dos aspectos do outro que desencadeiam inveja, num ataque constante ao narcisismo alheio, por projecção das partes indesejadas do próprio self no outro. O self pouco coeso está fragmentado numa imagem grandiosa arcaica e numa outra incompleta e frágil, esta última negada e projectada sobre o outro. Poderíamos dizer que se forma um narcísico (que encobre o desnarcisado), de tal modo forte, atacante e arrogante face ao outro, abarcando a personalidade, tentando proteger a imagem grandiosa, afastando-se do contacto com a realidade, a qual é tida como antinarcísica, dado que confronta o próprio com a necessidade do outro e com as fragilidades que desencadeiam uma vergonha arrebatadora. A realidade interna e externa é odiada, a em aliança com este narcísico destrói as funções que constituem resposta evolutiva ao princípio da realidade , forma-se então necessariamente uma , caracterizada por todo um conjunto de confianças mais ou menos mágicas.
SUMMARY: In this article the author tries to understand how narcissistic nuclei will be formed in the relation to the caregiver, when some of the affective states of the child are not accepted, leading to an inverted development in which the child becomes the parents selfobject conducting to a defensive ideal self, in order to satisfy others wishes. These narcissistic nuclei are clearly observed in love relations because internalised schemas of relations are reactivated, some of them, pathological ones, who may be a threat to the growing healthy sexuality.
These narcissistic nuclei, whose origin is in the weakness self, will organize themselves in a maniac way leading to a bright and positive view of oneself by being surrounded by objects-mirror whom, although devaluated, provides a grandiose and brightly self image. In more persecutory forms, what is achieved is the absence of ties as a way to preserve the integration of the self, conducting to an illusion of self-sufficiency but leading to a growing impoverishment of emotional and affective life, conducting to an unhealthy and empty internal world.
KEYWORDS: Narcissistic nuclei; Defensive ideal self; Maniac narcissism; Persecutory narcissism; Mutual recognise.