Neste trabalho a autora parte de uma reflexão sobre conceito de Trauma ligado à insuficiência do objeto primário. Procura pensar a sua importância na compreensão das conjunturas transferenciais marcadas pela destrutividade, e também nas dificuldades técnicas que se apresentam ao analista no processo de transformação. Debruça-se sobre o principal mecanismo de defesa nestas organizações patológicas – a clivagem – considerada uma proteção contra a desintegração psicótica mas ao mesmo tempo uma barreira contra a integração da subjetividade. Realça o modo como o processo psicanalítico restabelece a inacessível experiência emocional. Finalmente salienta a necessidade de se começar pela expansão da mente em vez de se trabalhar na interpretação dos conteúdos inconscientes.
Comunicação apresentada nas IV Jornadas Internas do Instituto de Psicanálise de Lisboa, em Novembro de 2013.
Psicóloga Clínica, Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise E-mail: conceicao.m.almeida@hotmail.com
Este artigo emergiu num contínuo com um outro tema discutido nas jornadas internas anteriores - O Impasse – pela sua estreita ligação com as vicissitudes da prática clínica atual. Referimo-nos à questão da analisabilidade e do alargamento do tratamento analítico a pacientes que não parecem ter indicação para análise, mas que são cada vez mais os pacientes que nos procuram e que muitas vezes não obtiveram êxito noutros tipos de tratamento, inclusive no farmacológico, onde procuram o alívio rápido, mas não suportando, contudo, a dependência “da mão” que prescreve.
Como diz Howard Levine, (2013) fazendo referência a A. Green, esta constatação coloca-nos perante uma Ceasura, na teoria psicanalítica e obriga-nos a alargar a mente no que respeita a modificações ao modelo psicanalítico, sem que a especificidade da própria psicanálise se perca. Assim, propomonos aqui refletir sobre as dificuldades técnicas em conjunturas transferenciais de sofrimento psíquico ligado à destrutividade psíquica e, mais especificamente, as dificuldades técnicas que surgem no trabalho da transferência marcada nestas situações, pelo domínio da clivagem, enquanto mecanismo de defesa paradoxal e extremo, que tanto protege da desintegração psicótica como também impede o trabalho da integração neurótica.
Mas porque o setting que acolhe e transforma também é tudo o que um analista transporta dentro de si, incluindo a teoria e a boa ligação com a prática, isto é, aquela que não racionaliza (mas que expande), uma reflexão desta natureza tem necessariamente que convocar e mobilizar a relação dinâmica com os conceitos diretamente implicados.
Partimos do grupo de pacientes - limite, também chamados de difícil acesso, ou mais recentemente de “novas patologias”, na designação de J. Steiner (2011), os pacientes “dos refúgios psíquicos”, ou do enclausuramento D. Meltzer (1992). São situações, como sabemos, onde não há evidência de aliança terapêutica, e onde se instalam no processo, muitas vezes, formas de resistência como a reação terapêutica negativa, silenciosa ou ativa, o funcionamento em falso self, transferências erotizadas, imobilismo psíquico, o impasse e até a ruptura.
Este é um sofrimento mais da ordem do polo narcísico e menos do polo edipiano (Alexandre F., 2007); portanto, mais da ordem do desespero e abandono do que da ordem do sentimento de impossibilidade e rejeição. É algo mais desorganizado, “escangalhado”, não integrado no self, não representado, algo morto ou até inexistente. É também o vazio, mais do que o reprimido, onde nada ou pouco pôde ser criado.
Também como diz J. Steiner (2011) não são organizações que assentem na resolução do complexo de Édipo, mas sim num retraimento que tem por base um “desamparo originário” e no qual estão albergados ressentimentos e parcelas de vingança. A solução paranoide do dilema edipiano impõe-se, sendo sempre uma solução omnipotente, baseada na fantasia de triunfo sobre a autoridade parental e de usurpação da sua posição com o conluio da mãe. E mesmo quando é possível legalizar, integrar esta fantasia, emergir da omnipotência, na vertente mais depressiva, será possível perceber o ataque permanente ao elo criador. Nestas circunstâncias, a dependência e fragilidade infantis tornamse
visíveis, e percebe-se que não estamos em território de construção de identificações secundárias, mas sim no quase deserto das identificações primárias. Assim, deparamos com fantasias de triunfo, com o lamento, o remorso, com o desespero.
Não há fundo para bater, porque não há fundo, há um Buraco Negro por onde se podem esvair. E esta é a nossa época, estes são os pacientes que parecem marcar -la, as ditas “novas patologias” ou “patologias atuais”, ou então “velhas patologias” vistas com outra profundidade. Com eles, é à beira deste precipício que estamos a trabalhar. É, como diz J. Grostein (1999), à morte psíquica ou à quase morte que o nosso trabalho é dedicado.
O nível de regressão que encontramos nestes pacientes, que muitas vezes vai desembocar em angústias de morte psíquica, fez, em muitos autores, repensar a noção de Trauma e caminhar no sentido da ligação entre a dimensão traumática e os sofrimentos identitários, na ligação entre o trauma e a atividade destrutiva. No trauma criado, não só pela insuficiência do objeto, pelo fracasso da rêverie - através da função alfa, pelas falhas no holding enquanto espelho que distorce ou, pior ainda, que nada reflete - mas também, e isto não podemos esquecer, que comporta uma componente de transgeracionalidade de identificações projetivas malignas, intoxicantes (aspetos psicóticos não resolvidos). Em termos clínicos falamos na questão do legado do mundo interno dos pais, isto é, a criança como receptáculo destas identificações projetivas opostas. Estes são pacientes que no início das suas vidas estão numa confluência de vivências de privação, com vivências de ataques aos objetos internos. Como no Cabo das Tormentas, esta é também uma confluência de oceanos mas sem continente, de correntes que podem ser chamadas de conjunturas heterogéneas.
E, aqui, mudando o vértex da concepção de Trauma, situamo-nos claramente na linha dos contributos de Ferenczi (T. Bokanowski, 2013), na linha de pensamento de D. Winnicott (T. Bokanowski, 2013), e de outros psicanalistas da atualidade como R. Roussillon (2011), César e Sara Botella (2013), Thierry Bokanowsky (2013) e Howard Levine (2013), onde a valência traumática está, como diz um arquiteto japonês da atualidade, no “In between”. Ou seja, nas vicissitudes do destino libidinal, ligadas a experiências primárias do sujeito com o objeto externo. O impacto traumático sobre a organização psíquica e o funcionamento mental é indissociável da insuficiência do objeto primário (que, por sua vez, tem ou não o terceiro bem incorporado) e/ou seus substitutos, o ambiente (demasiado ausente ou demasiado presente), face às angústias da criança, sendo-lhe atribuído um papel determinante na constituição e alterações do Eu, na constituição do narcisismo, nas falhas de simbolização, nos problemas do sofrimento identitário e da subjetividade. Podemos aqui citar como exemplo, a génese do fantasma de sedução. Basta pensarmos nos casos de abuso sexual e/ou de incesto. O trauma passa a estar situado numa experiência com o objeto, relacionada com o que não pôde ter lugar, ou com o que foi tóxico, numa experiência dolorosa negativante, que transforma, brutalmente, a relação de objeto numa relação narcísica.
Para Winnicott (R. Roussillon, 2011), o trauma está relacionado com um fracasso da dependência. Melhor dizendo com o fracasso da vivência da boa dependência, atacando a construção da confiança básica, deixando o Eu da criança num estado de excitação traumática, que não pode seguir a via da representação e da integração, e, também, da realização alucinatória do desejo.
R. Roussilon (2011), retoma a ideia de uma experiência subjetiva em fases, chamando-lhe agonia primitiva, ideia essa que D. Winnicott tinha já acrescentado à teoria do trauma de S. Freud baseada no rompimento da barreira protetora contra o estímulo. Caracteriza-a também como uma experiência subjetiva esmagadora para a mente, que se desenrola progressivamente. Passa da exaustão provocada por uma tensão intensa e contínua, sem possibilidade de representação, a um estado de desamparo e de desalento. Na melhor das hipóteses, pode ainda ser acompanhada por traços mnésicos de gratificação e, portanto, pelo acesso a uma sensação positiva de falta ou de uma esperança do objeto, não nomeáveis, o que é claro quando trabalhamos com delinquência juvenil. De todo o modo, diz R. Roussilon (2011), nesta progressão, se esta esperança for bemsucedida acontece o contrato narcísico com o objeto. O objeto será idealizado quando estiver presente a satisfazer, e predominantemente odiado quando ausente/negligente ficando o indivíduo como que assombrado por uma intensa culpa inconsciente paralizadora. Este contrato narcísico formará o padrão-base do
processo de socialização e, evidentemente, será também o padrão no processo analítico. Tais contratos narcísicos estão ainda na base das alianças patológicas e do falso self, mas se a esperança for mal sucedida, nem se chegam a constituir. Predominará a raiva e a impotência, como vemos no que W. Bion (1994) chama de “terror sem nome”. Temos o desespero e a vergonha existencial, ligados à necessidade de estar vivo, ameaçadores da subjetividade. Mas aqui podemos dizer que já estaremos num território da psicopatia, menos frequente no trabalho de consultório, mas que vai surgindo no trabalho clínico institucional.
Nestas situações a sobrevivência é assegurada pela retirada da experiência traumática primária. O self assegura, de forma paradoxal, a sua sobrevivência mental, cortando a subjetividade da vida mental. O indivíduo deixa de sentir o estado traumático, isto é, de certa forma descentra-o do self atual.
A clivagem como mecanismo de defesa aparece assim, por um lado, como uma importante proteção contra a desintegração psicótica, mas por outro lado como uma barreira contra a experiência de subjetividade e da intersubjetividade, contra a possibilidade de representação ou seja, de simbolização dos afetos, contra a possibilidade de integração de diferentes aspetos do self, estando portanto na base dos défices narcísicos.
Percebemos assim que a clivagem protege não contra a emergência de conteúdos representados e reprimidos, mas contra a emergência do Nada, do sem sentido e do caos, como refere J. Grotstein (1999).
E isto tem, obviamente, pesadas implicações técnicas no processo analítico. Estes pacientes desvitalizam-nos, provocam frequentemente sonolência pela expulsão que fazem da inacessibilidade aos afetos, põemnos fora dali, fazem-nos sentir impotência, reverso de medalha da sua omnipotência, testam a nossa capacidade interna de acolher a sua destrutividade. Opera desencadeando evacuação, expulsão, extrojeção de uma parte do Eu, que vai permanecer omnipotente e sem afeto, insensível. Relembramos, novamente, com sérias implicações para o processo analítico. Estamos perante um objeto primário interiorizado como “não fiável”, “não preenchente”, “não para-excitante”, com a lógica simétrica a funcionar aqui. Portanto, enquanto analistas, não escapando à transferência somos um objeto primário não fiável, não preenchente, não para-excitante. Mas temos que emergir, desta sombra transferencial, deixada pelo objeto, precisamente pela recepção e elaboração dessa destrutividade. E penso que, enquanto proposta de relação transformadora este é um bom modo de não sermos evacuados.
Aqui, o que estes pacientes acabam por nos transmitir, quando começam a aceder à possibilidade de representação, é que, no início do processo analítico, o que foi determinante não foi o conteúdo do que lhes dissemos, pois por vezes nem se lembram, mas sim o sentimento com que ficam ou não da nossa preocupação verdadeira para entrarmos em contacto com a sua aridez mental, é o sentimento com que ficam, ou não da nossa solidez. E será isto que começará por os ajudar a representar o objeto sólido, permanente. E é assim que gradualmente se poderá passar de uma sessão para duas, e de duas para três, sem sensação de peso, para ambos, paciente e analista. Num movimento, diríamos, transformativo de verdadeira empatia com o próprio mecanismo de defesa, a clivagem, porque, como vimos, também é ela que segura do abismo, do precipício, do não representado, da desordem, da psicose. Partindo da capacidade de rêverie do analista, sonhar com o paciente os sonhos não sonhados (T. Ogden, 2005).
A mudança psíquica irá resultar da integração dos aspetos clivados, não pelo trabalho sobre a própria defesa, mas pelo “facilitar do desenvolvimento de pensamentos, sentimentos e estados mentais; nomear e elaborar estes elementos psíquicos recentemente formados e ligá-los a outros componentes na mente de cada um dos participantes ou no espaço mental intersubjectivo que existe entre eles” (Levine, 2012, p. 209).
Ao falarmos em transformação tocamos inevitavelmente na questão clínica da especificidade da relação transferencial nestas organizações patológicas de difícil acesso. Na medida em que o que se transforma é muito mais da ordem do vazio, da ordem da pulsão
de morte e do narcisismo destrutivo, o analista tem de emprestar muito mais a sua mente ao paciente, e deixar que este a use, ou seja, tem de emprestar o seu aparelho de pensar o pensamento, mas também o seu pensamento, a sua capacidade de representação/simbolização, sendo que a simbolização vai permitindo criar desejo e a sua realização alucinatória, para que a transformação e a mudança psíquica se operem, porque o que encontramos não são aspetos representados e reprimidos como no neurótico, mas aspetos não representados, como por exemplo a culpa inconsciente, ou mortos e, por isso, não integrados no ego. Isto muda o processo e a qualidade da transferência, trazendo obviamente dificuldades acrescidas ao analista no que toca à sua própria tolerância à dor mental e à sua relação com o seu narcisismo.
Não se trata tanto do retorno do reprimido onde o paciente acaba por ir mostrando, através de metáforas e de deslocamentos, aquilo que nega de si mas sem perder a noção de que afinal é um familiar estranho que lhe pertence.
Na transferência narcísica, o analisando tenta mostrar ou fazer o analista sentir aquilo que não está apto a sentir e que não percebe como fazendo parte dele, que não pode tolerar como sendo seu. A percepção e a sensação substituem a representação. Há que ir ligando o rudimentar e contê-lo dentro de uma forma/sentido. Como diz A. Green – “dar um continente ao seu conteúdo e um conteúdo ao seu continente”, que começa por ser precário ou rígido, como nas crianças a casa de legos ora é um “bunker” sem portas nem janelas, ou então uma desconstrução sem paredes.
Neste tipo de transferência, inicialmente o analista é sentido na sua diferença como um objeto observador que pode infligir humilhação, sem a capacidade de olhar reconhecedor. Depois passa para objeto, para o qual, por essa razão, o amor e o ódio são dirigidos de forma clivada e por isso massiva. O empréstimo que faz da sua interioridade ainda não é verdadeiramente decifrado pelo paciente, mas é a empatia com isto, sempre guiada pela análise da contratransferência que o levará a ser sentido, como alguém, fora do refúgio psíquico, que vale a pena. Lembro-me de uma criança que está em análise desde os três anos, com núcleos autistas, numa das muitas sessões em que eu estava ajoelhada do chão, e ela em pé, à minha frente, me olha nos olhos, apontando para eles e dizendo, no tom de voz (continente sonoro, reproduzido) em que eu própria lhe falo: “Têm cor!”.
Na relação analítica, quando se trabalha especificamente a saída do refúgio psíquico, deparamo-nos com resistências organizadas em torno de um medo agudo inconsciente. De um lado, reside o medo da paranoia, do outro lado o medo da melancolia e ambas as faces da moeda remetem para a questão da falha de representação, da culpa primária inconsciente e da perda do objeto, ou da perda do olhar do objeto, e, portanto, para a impossibilidade de um processo de luto. Contudo a melancolia pode também ser vista como um outro refúgio psíquico mais aproximado da posição depressiva, mas onde esta ainda é evitada, a favor da omnipotência. Enfrentar a perda do amor do objeto significa enfrentar também a perda de omnipotência.
São frequentes, nesta fase do percurso transformacional, muitas oscilações, muitas regressões, identificando-se o paciente ao objeto perdido, para denegar a sua perda e portanto será um momento em que teremos que trabalhar com a libido fusionada a este mesmo objeto, mas com o veredicto da realidade. Isto vê-se através de certas passagens ao ato no dia-a-dia do paciente como se ele vivesse em ilhas psíquicas seguindo mecanicamente os passos da fusão com objeto interno e, claro este acting representa, em simultâneo, uma falha de elaboração e um obstáculo à transformação, mas só assim podemos ir separando as águas, devolvendo ao objeto o que é do objeto, enquanto também construímos, ou reconstruímos, com o paciente partes das quais se sentiu despojado.
Desta forma são expectáveis mudanças significativas na qualidade da transferência. É expectável que esta deixe de ser marcada pela incapacidade de ligação, pela pseudooperação de uma parte do self, sendo que, a outra, como vimos, é posta fora de forma clivada, andando a sair como uma organização mafiosa que impede que os aspetos frágeis e dependentes da personalidade se desenvolvam.
Mas quero salientar que, em meu entender, estas transformações se conseguem, digamos assim, muito mais à custa da análise da contratransferência, do que pela muitas vezes, infrutífera interpretação clássica da transferência.
Trata-se de uma mulher de 36 anos, a quem chamamos Luísa, licenciada a trabalhar e gostando do que faz. Vive há vários anos com um companheiro, estrangeiro radicado em Portugal, também licenciado. Passado uns meses de ter iniciado o tratamento a uma vez por semana, percebeu que era manifestamente insuficiente tendo pedido para passar a duas vezes. Atualmente começou a referir que há momentos em que sente falta de uma terceira vez, embora isso ao mesmo tempo lhe coloque dúvidas.
Chega-me profundamente deprimida, numa oscilação com a apatia, começando por dizer que aquilo que vou ouvir é uma monstruosidade, que ela é um monstro e que seguramente será muito difícil, senão mesmo impossível de entender. Descreve-se como “obsessiva com alguns rituais, e paranoide”. Pensa frequentemente que as pessoas suas conhecidas estão a falar mal de si. Mas também se descreve como uma boa pessoa, atenciosa, prestável. O seu contato tem sido até aqui afável.
Vem queixar-se e responsabilizar-se quase exclusivamente por um episódio incestuoso com o irmão mais velho ocorrido, há algum tempo, numa casa de férias de um familiar, do qual só ela e ele têm conhecimento e que funciona como um segredo entre ambos. Fantasia, pela rigorosa coincidência temporal, que dele nasceram as suas filhas gémeas de quatro anos, por quem nutre sentimentos ambivalentes. Diz preocupar-se e gostar muito delas mas também sentir por vezes necessidade de se afastar por se condenar pelo sucedido. Como conta com o apoio dos seus pais, tanto económico como no que respeita às rotinas das meninas, esse afastamento acaba por acontecer diariamente mas de forma encoberta.
Este episódio aconteceu sob efeito de muito álcool em ambos mas foi de imediato erradicado da mente de Luísa assim permanecendo alguns anos até reemergir, aparentemente a partir de uma conversa banal do seu dia-a-dia, de uma forma difusa e lacunar onde relata os fragmentos que consegue recordar como se fossem algo que está fora dela.
Diz-me repetidamente, de forma imperativa e distante, que é como se isto tivesse acontecido porque tem as imagens desse momento, mas ao mesmo tempo é como se não fosse ela que esteve lá porque nunca houve qualquer sinal de atração pelo irmão, ficando imobilizada neste paradoxo. Nos momentos em que acredita, fá-lo como se falasse de outra pessoa, sem ter acesso ao sentimento de culpa, porque culpa só pode ter alguém que age por decisão própria. Mas mesmo assim diz que se terá de suicidar, como forma de limpar a sua honra, pois afirma que as pessoas suas conhecidas andam todas a falar de si e um dia as filhas vão acabar por saber. Nos momentos em que não admite ter sido, Luísa justifica a impossibilidade fazendo referência à pessoa correta e ponderada que sempre foi. À medida que foi evoluindo no seu processo terapêutico começa a ficar mais clara a sua dependência do álcool e de drogas deixando a descoberto uma omnipotência que a conduz a um território onde tudo pode ser possível, num absoluto contraste com a imagem inicial que insistia em ter de si própria.
Para além do irmão em questão, Luísa tem outro mais novo. Refere ter tido uma infância feliz, sem dificuldades económicas, considerando os seus pais uns bons pais. Contudo, a mãe era e é, ainda hoje, obsessiva com limpezas e arrumações, o que segundo Luísa a tornava repressora e por vezes fria. Diz ter a ideia de ser a sua filha preferida talvez por ser a mais compreensiva e paciente com ela, o que despertava rivalidades sobretudo no irmão mais velho. O pai era visto como bem-disposto e sociável, mas ausente, como forma de lidar com este ambiente frio e ordenado. Não obstante as rivalidades com os irmãos manteve com eles uma relação próxima até à sua adolescência, para depois dar lugar a uma oscilação entre a proteção e a hostilidade velada. Com estes e com os primos, nesta casa de férias, tinham já acontecido vários jogos e brincadeiras sexuais desde a infância, que não valoriza.
Na minha contratransferência sinto a culpa que expulsa sob a forma de desespero, o sentimento de horror que diz viver, e o que faço é empatizar com estes sentimentos, recebendo-lhe pacientemente aquilo que sente ser a monstruosidade, tendo esperança na integração destas facetas de si, por entre a sua desesperança massiva e o facetado da sua vida. Nesta fase, revelava inútil qualquer outra intervenção para além disto, tal era a intensidade da sua dor e proporcionalmente a implacabilidade da sua defesa contra ela.
Aos oito meses de tratamento analítico traz-me o seu primeiro sonho. Estava junto à
casa de férias da família, a brincar com o seu irmão, mas agora em adulta e ele também.
Brincavam com dois carros telecomandados, quando chegou uma “terceira entidade”, que não sabe se é homem ou mulher, mas inclina-se mais para que fosse um homem. Esta entidade dá um pontapé no seu carro. Depois, sem saber como, viu-se no interior da casa, como se estivesse a masturbar-se, observando-se a si mesma. Entretanto surgiu a voz do seu pai a chamar. Vestiu o seu vestido e veio para o meio do corredor, percebendo que não podia ficar ali. Entrou no quarto em frente - quarto do “crime”- e viu-se num espelho. A sensação foi de horror, como nos filmes de terror porque ela mexia-se mas a imagem que aparecia refletida no espelho permanecia estática. A única associação que fez foi “parece uma parte demoníaca de mim. Será que foi esta parte que me levou a fazer aquelas coisas?”
Claro que mais adiante, recua, diz ter sido algo da ordem da reencarnação, portanto sem ser da sua responsabilidade e repete, repete. De todo o modo, aqui senti uma brecha para lhe poder dizer que parece haver um lado telecomandado nela, algo que sente como um horror, demoníaco e que se revela sobretudo com o álcool (a sua parte omnipotente). Desejou que o pai a tivesse protegido desse lado, mas dá ideia que se viu sempre muito sozinha. Claro que ela também mostra dar uns pontapés, na “terceira entidade”, mas isso foi deixado para uma outra altura.
Temos trabalhado neste registo. Na primeira sessão da semana, Luísa vem mais desorganizada, na segunda sinto-a um pouco mais elaborativa. Os seus movimentos paranoides aumentaram e deslocaram-se intensamente para o local de trabalho, onde ela se vê gozada e censurada.
Através desta condenação social, foi possível ir-lhe dizendo que sente nas vozes das pessoas a punição e a culpa. Aparentemente, não integra, rejeita, contudo, na sequência disto começou a escrever uma longa carta de suicídio e a minha contratransferência, não pondo de lado alguma inquietação, foi-me dizendo que não se tratava de algo destrutivo mas pelo contrário, parecia ser um movimento elaborativo. Era onde se via a ser capaz de contar as suas coisas aos seus pais, onde ela convocava um tribunal para si própria e portanto entendi como sendo o início da representação mental da culpa. Esta devolução, cautelosa e ajustada ao seu sofrimento, foi-lhe provocando um certo alívio.
Depois das férias, pelo meio das suas desesperanças, diz-me “e no entanto eu nunca vivi tão tranquila como agora, porque agora eu sinto-me em verdade comigo mesma, não posso contar isto senão aqui mas eu sinto-me em verdade comigo mesma”.
Tem chorado muito. Ainda não consegue chorar junto de mim, mas chora quase sempre no retorno a casa, ao rememorar o excerto de um poema: “Vê o animal na jaula que tu construíste/Tens a certeza de que lado estás?/É melhor não olhá-lo muito perto nos olhos/Tens a certeza de que lado estás?/Vê que segurança construíste/Sente o vazio do teu coração(….)/E se puderes olhar através das fendas/Será que te encontras a ti próprio?/Encontras-te a ti próprio com o medo de ver”.
Para expandir a sua mente e apaziguar um super-ego ao mesmo tempo tão severo e tão pontapeado, começou a ser possível, no lugar da condenação que sente, questionar porque é que aquilo aconteceu? Preparo-me, aqui, para me aproximar, “do brilho da estrela”, ou seja do Trauma ligado ao desamparo originário, porque, a hipótese de trabalho é de que, estas brincadeiras de cariz sexual traduzem a privação de objeto que estes dois irmãos seguramente viveram, comprometendo o acesso às identificações secundárias.
Este contributo clínico pretende reenviar-nos para a ligação dos vários aspetos aqui apresentados – a necessidade de refletir a conceção de Trauma, integrando a sombra interna deixada pelas próprias caraterísticas do objeto bem como a inevitabilidade de uma aliança temporária com a clivagem em prol da expansão da mente, guiada pela contratransferência enquanto marcador do intersubjetivo e motor da transformação. Por fim, pretende retomar ponto de partida, ou seja à necessidade crescente de se repensar as questões técnicas inerentes ao alargamento do tratamento analítico às ditas novas patologias.
ABSTRACT: Starting from a reflexion on the Trauma concept related to the failure of the primary object, the author research its relevance, in understanding the transferencial conjuntures marked by destructiveness, and also in the techcnical difficulties presenting to the analyst in the transformation process. She is interested in the main defense mechanism, in these pathological organizations - the splitting – considered, in one hand, as a protection against psychotic disintegration but also, in another hand, as a barrier against subjectivity integration. Focused in the psychoanalitic process re-establishing the inaccessible emotional experience, she finally stresses the need to begin with the mental expansion, instead of working in the interpretation of the unconscious contentes.
KEYWORDS: Trauma, splitting, transformation, intersubjectivity