A autora parte de uma breve revisão teórica sobre a teoria psicanalítica do trauma, procurando os denominadores comuns às diferentes contribuições teóricas, para uma compreensão dos aspectos mais destruidores do tecido psíquico que em certos casos atingem a capacidade de simbolização.
De seguida, reflecte sobre a clínica psicanalítica de casos com evidentes vivências traumáticas onde o aflorar de áreas da mente mais dolorosas é considerado pelos pacientes como de difícil ou impossível acesso. Para melhor aceder à compreensão deste tipo de obstáculos debruça-se sobre a literatura de testemunho de sobreviventes de grandes catástrofes que acabaram por pôr fim à vida.
Finaliza falando de um seu caso clínico exemplificativo desta problemática.
Conferência apresentada nas III Jornadas Internas do Instituto de Psicanálise, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise a 27 de Outubro de 2012.
Psicóloga Clínica (ISPA), Mestre em Aconselhamento Dinâmico (ISMT), Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, Assistente Principal do Centro Hospitalar Lisboa Central, HDE, Serviço de Pedopsiquiatria, E-mail: isabel.margarida.pereira@sapo.pt
O conceito de trauma está indissoluvelmente ligado à Psicanálise e à sua História, quer pela evolução do conceito até aos nossos dias, quer pelo facto dos seus mentores terem atravessado um tempo marcado pelos dois conflitos mundiais, com repercussões pessoais sobre a sua vida e, quem sabe, sobre as teorias do trauma.
Da mesma forma, a presença na clínica de pacientes cuja problemática se situa aquém da neurose, impele-nos a reflectir sobre o conceito de traumatismo, cuja amplitude integra patologias muito diversas que incluem factores internos e externos.
Iremos referir algumas conceptualizações sobre o traumatismo, procurando depois evocar as situações traumáticas extremas como processo de aproximação a determinadas situações clínicas.
Se Freud, S. começou a sua investigação por colocar as vivências reais de sedução no palco da sua compreensão da histeria, ao abandonar a teoria da sedução, deslocou o foco para a realidade psíquica, secundarizando os factores externos que, em última instância, seriam sempre integráveis numa realidade psíquica interna.
Se inicialmente a ideia de Trauma para Freud, S. estava ligada à etiologia da histeria, sendo esta explicada em função dos diferentes resíduos da cena traumática, Freud, S. vai olhar a histeria em termos de conflito de forças, passando a considerar o trauma como um processo em dois tempos. Já não era o evento inicial que constituía o trauma, mas a sua lembrança, quando a pessoa conseguisse aceder à compreensão do evento. De importância crucial foi a sua teorização sobre a angústia. A formação da angústia-sinal, procuraria minorar os efeitos de transbordamento sobre o Eu da angústia livre. O perigo externo, transformado em perigo interno, passa a ter um significado podendo, assim ser integrado numa historicidade pelo que o sentido pessoal constituir-se-ia como forma de enfrentar o desamparo primordial onde o objecto está ausente. A sua simbolização permitiria a nomeação e integração numa explicação causal compreensível.
Caberia ao processo analítico descortinar as “lembranças encobridoras” para poder aceder à história pessoal autêntica.
Se num primeiro tempo das experiências psicanalíticas o objectivo do tratamento seria o de trazer à recordação as experiências recalcadas, a descoberta da transferência trouxe à cena analítica a possibilidade do processo de recordação emergir sob a forma de acção no “aqui e agora” do teatro analítico, . Assim, o foco do processo terapêutico foi-se deslocando do passado para o presente e os desenvolvimentos sobre a contratransferência permitiram, mais ainda, o acentuar desse foco.
A necessidade na cura analítica de tornar conscientes as recordações psíquicas recalcadas, é fundamentada por Freud, S. na sua teoria da memória. As percepções seriam depositadas como traços de memória, mas não ficariam armazenadas de uma forma isolada. Freud, S. concebe vários sistemas de memória ligados em série. (Freud, S. 1896). Nesta sua teoria da memória a recordação do passado inalterada não seria acessível de forma directa na medida em que desejos inconscientes se associariam aos elementos de recordação, conduzindo aos processos de deslocamento e recalcamento. Contudo Freud, S. valorizou
no processo terapêutico a necessidade de preenchimento de lacunas existentes na recordação com a finalidade de ultrapassar as resistências que conduziram ao processo de recalcamento.
Mais tarde, ao discutir o papel da transferência no despertar das emoções“ depois de vencidas as resistências, será mais cauteloso no referente à evocação das recordações, sugerindo que em alguns casos poderá ser difícil aceder ao tempo esquecido da vida do paciente, devendo contentarmo-nos com construções .
A teorização de Freud, S. em torno da memória e das transformações nela operadas, conduz a que olhemos a memória como um processo construtivo modificado pelo presente, concepção essa que se aproxima das concepções modernas sobre a memória.
Na opinião de (Bohleber, W. 2007) no seu artigo “Recordação, trauma e memória colectiva: a luta pela recordação em Psicanálise”, artigo apresentado no 45° congresso da I.P.A. em Berlim, Freud, S. nunca sistematizou uma teoria do trauma e considerou quer o sonho post-traumático, quer a neurose traumática, como áreas obscuras que não queria aprofundar.
No que a Freud, S. se refere, todas as reflexões iniciais, em torno das situações traumáticas dos soldados no campo de batalha, na 1a guerra mundial, procuram situar a compreensão dessas perturbações em articulação com a teoria das neuroses, situando Freud, S. as neuroses de guerra como neuroses traumáticas. Se Freud, S. em 1895, concebe o traumatismo psíquico ou a sua lembrança como um corpo estranho que muito tempo após a sua aparição permanece como activo e actual, em “Para além do princípio do Prazer” (Freud, S. 1920) a neurose traumática é vista como consequência de uma ruptura causada no escudo protector contra os estímulos. Freud, S. vai dar importância ao susto, que “é causado pela falta de qualquer preparação para a ansiedade” (Freud, S. 1920).
Sabemos como o binómio realidade interna-realidade externa tem atravessado a história da Psicanálise tendo-se afunilado numa visão dicotómica. Ao ser dada a primazia à realidade interna, a consideração da realidade externa parecia tentar denegrir a “realidade psíquica” ou mesmo contrapor-se-lhe.
Esta posição trouxe problemas na investigação dos casos de abuso sexual e muitos de nós percorremos esse caminho doloroso em que as situações de abuso foram lidas à luz exclusiva de fantasias inconscientes, caindo-se, mais tarde, noutro tempo em que o abuso sexual tendia a colar-se à quase totalidade dos casos.
As teorias da relação de objecto irão dirigir o foco da sua atenção para a perda dos objectos internos.
(Ferenczi, S. 1926) vai introduzir, de certo modo, uma ruptura epistomológica ao deslocar o traumatismo da vivência traumática para a qualidade das relações objectais. Se Ferenczi, S. retoma a questão do trauma sexual, situa-o no contexto da natureza da relação da criança com os seus cuidadores e as relações objectais, pelas suas características poderão ter uma natureza traumática.
No seu artigo de 1933 (Confusão de língua entre os adultos e a criança) explicita o facto do trauma ter origem num abuso, geralmente sexual, por parte do adulto que provoca na criança uma reacção de medo intenso, pelo aspecto imprevisível e incompreensível associado à autoridade do adulto, gerando aquilo a que chama de “confusão de línguas”, pela diferença radical existente entre a sexualidade do adulto e a da criança.
A noção de “confusão de línguas” não se cinge ao sentido literal da natureza diferente dos erotismos na criança e no adulto, mas ao facto deste não respeitar as necessidades infantis de ternura e colocar a criança face a uma surpresa e imprevisto completamente incompreensíveis, que a colocam num estado de confusão relativamente à confiabilidade daquele adulto. É nesta “falha”, neste desencontro entre as necessidades da criança e a atitude violenta do adulto, que se vai alicerçar o desmentido - quando a criança procura no adulto um interlocutor, encontra a negação do abuso, a rejeição dos seus sentimentos ou impressões ou o silêncio. É este desmentido que torna o trauma verdadeiramente patogénico, pela destruição da crença nos bons objectos e na possibilidade da presença de uma díade comunicativa interna entre o self e os objectos bons.
Tal perda dá lugar a um estado de extrema solidão que acarreta uma impossibilidade de consolo. O bom objecto interno fica reduzido a um estado de mudez o que destrói a expectativa de uma relação empática.
Esta conceptualização poderá ser alargada à compreensão de situações traumáticas extremas onde nos aproximamos do domínio
do incomunicável, já que na solidão catastrófica ocorre uma desistência que paralisa o self ou pode conduzir à sua destruição.
, citada por (Bohleber, W. 2007) fala de uma zona morta, quase autista, sem a presença do outro e da sua capacidade empática.
Ferenczi, S. ao descrever a reacção após o trauma descreve como “ uma agonia psíquica e física que acarreta uma dor incompreensível e insuportável”. Nessas circunstâncias dá-se um processo de afastamento de si mesmo, distanciando-se quer do seu psiquismo quer do seu corpo.
No dizer de Ferenczi, S. o “choque” é comparável à destruição do sentimento de si, integrando a ideia de desmoronamento, abdicando o sujeito com facilidade das suas características próprias. Para este autor a dor não é susceptível de ser inscrita no inconsciente nem de ser recalcada: “nenhum traço mnésico subsistirá dessas impressões, mesmo no inconsciente, de sorte que as origens da comoção são inacessíveis pela memória” . A presença do trauma estaria inscrita em marcas corporais, excluídas do sistema mnésico que irromperiam sob a forma de manifestações neo-catárticas.
Nesta luta pela sobrevivência dá-se um processo de auto-destruição da vida psíquica, com a criação de uma “espécie de psique artificial para o corpo obrigado a viver” Ferenczi, S. Ocorre então uma clivagem entre uma parte sensível e destruída e outra, que sabe tudo e nada sente. Só através da autodestruição do sentimento de si poderá sobreviver.
Ferenczi, S. pensa que esses fragmentos perdidos e aniquilados poderão ser recuperados na condição de encontrarem um ambiente benevolente e acolhedor e um analista não hipócrita capaz de escutar e tolerar essas partes infantis devastadas. Outro aspecto que gostaríamos de salientar é a ênfase que coloca na impossibilidade de rememorar o trauma já que este, pela sua condição, não deixou quaisquer traços mnésicos.
Para Ferenczi, S. uma reconstrução intelectual será manifestamente insuficiente pelo que o paciente deverá sentir que o analista compartilha com ele a dor e procura, dentro das suas possibilidades, minorá-la. Para Ferenczi, S. a compreensão analítica implica identificação. “Compreensão é identificação. Não se pode realmente compreender sem se identificar com o sujeito” .
(Abraham, N., Torok, M. 1984) cujas histórias pessoais foram atingidas pelo trauma da II Guerra Mundial, debruçaram-se sobre as repercussões dos fenómenos traumáticos na vida psíquica. Para estes autores o traumático decorre da impossibilidade de metabolizar psiquicamente determinadas experiências, isto é, conhecer, pensar, verbalizar, simbolizar e transformá-las em formas suportáveis. Estas experiências não susceptíveis de digestão psíquica destroem o sentido individual de coerência e continuidade, criando feridas na coesão do psiquismo.
A impossibilidade de integração no psiquismo destes fragmentos de experiência leva a que permaneçam clivados e se mantenham intactos em regiões psíquicas isoladas e clivadas, consequência do trabalho psíquico imposto pelo trauma, ficando fora das capacidades de conhecimento e mentalização do sujeito. São como um segredo, ainda que não inconsciente, e assemelham-se a zonas psíquicas desabitadas.
Na experiência subjectiva há o sentimento da existência de algo de estranho/ estrangeiro que dá lugar a sentimentos incompreensíveis e por vezes a sintomas psíquicos e somáticos. Nicolas Abraham e Maria Torok apelidam este conceito de “ fantasma psíquico” (fantome).
Este “fantasma psíquico” pode ser transmitido transgeracionalmente. Todavia, o que é transmitido transgeracionalmente não é o conteúdo do segredo, mas a clivagem do ego. A presença do “fantasma psíquico” no adulto cria uma espécie de zona muda, inacessível à compreensão do outro. A criança ao ir ao encontro dessa zona muda, inesperada e inacessível, tentará digeri-la, incorporando esse aspecto mudo dos pais e criando, em si, também uma zona muda. Estas partes isoladas do psiquismo serão consideradas por Abraham, N. e Torok, M. (Yassa, M. 2002) os “enclaves”. É o processo de clivagem do eu em partes estrangeiras que tem um efeito verdadeiramente gravoso.
No âmbito deste trabalho não poderei referir todos os autores que desenvolveram a sua investigação no campo do trauma. Orientarei a minha escolha no sentido de dar ênfase a determinados aspectos que espero conseguir desenvolver na segunda parte deste trabalho.
Em Winnicott, D. as noções de trauma pressupõem a sua concepção de desenvolvimento emocional, sendo o centro de toda a teoria a estrutura da relação mãe-bebé
como um todo. Para Winnicott, D. o trauma é a ruptura na continuidade do ser, decorrente de falhas ambientais
A única forma que o bebé tem para se defender a dor destas agonias impensáveis e evitar o aniquilamento, é o recurso à cisão, que isola o “self” do resto do ser, protegendo-o da repetição traumática.
O processo terapêutico nestes doentes traumatizados coloca em primeiro plano um “setting” capaz de proporcionar confiança e um “holding” para o paciente à semelhança da mãe com o seu bebé. Winnicott, D. irá considerar que as agonias não acontecidas buscam o direito à existência, tendo em vista a sua integração, só podendo ser reproduzidas parcialmente. Se o colapso original “viesse a ser experienciado, seria indescritivelmente doloroso” .
Aos atravessarmos estas concepções de trauma encontramos divergências, mas também pontos de convergência:
a ideia de morte psíquica, de impossibilidade de representação, de angústia impossível de ser simbolizada, e em especial, o conceito de clivagem narcísica.
Nas diferentes abordagens de Trauma independentemente do lugar atribuído à sua origem, impõe-se a ideia de ferida, de ruptura no tecido psíquico. Admitimos pois que em condições extremas quer do ponto de vista das condições de desenvolvimento do self, quer em situações de profunda violência, os processos de formação simbólica sejam atingidos.
Cabe aqui evocar o contributo de Segal, H. através do seu artigo incontornável: “Notas sobre a formação dos Símbolos”, (Segal, H. 1955). Ela chama a atenção para a possibilidade de reversibilidade da função simbólica em circunstâncias em que o nível da ansiedade seja excessivo. Nessas condições onde a identificação projectiva maciça domina “O símbolo confunde-se com a coisa simbolizada e, portanto, transforma-se numa equação”.
A palavra que adquirira um valor simbólico pode reverter e transformar-se num objecto concreto.
Como relembra Segal, H. “o símbolo não é usado para negar a perda, mas para poder superá-la”.
Retomaremos mais tarde esta questão quando abordarmos as vicissitudes no processo de narrativa, tanto na clínica quanto na narrativa testemunhal em situações de catástrofe.
As conceptualizações de Bion, W. são de importância extrema para compreendermos as dificuldades que se podem pôr no processo de transformação de determinadas vivências. Quando a função continente se esbate todo o material em bruto tende a ser evacuado, sem qualquer possibilidade de assimilação e integração. Determinadas experiências em bruto são completamente insuportáveis se não poderem ser recebidas e modificadas e só o envolvimento da mãe com o seu bebé criará condições para que determinados estados mentais possam adquirir uma feição tolerável. Caso contrário o destino destes estados em bruto é a sua evacuação. Sabemos como estas experiências em bruto são vividas como aterradoras e adquirem um carácter persecutório (Bion, W. 1961).
Admitimos aqui uma analogia entre o que se passa nos processos de elaboração do eu-infantil e a tarefa do eu traumatizado. Garland, C. refere que num primeiro tempo as “coisas” tem um carácter vago e intenso e sem conteúdo, podendo transformar-se em estados de espírito extremamente persecutórios e dar origem a uma perturbação e mudança ulteriores (Garland, C. 1998).
Feita esta revisão de conceitos sobre o trauma, inevitavelmente incompleta, passarei a levantar as questões que se desenvolveram na minha mente decorrentes de determinados casos clínicos com evidentes vivências traumáticas, onde no processo analítico se afloravam zonas da mente consideradas pelos pacientes como profundamente dolorosas e dificilmente acessíveis, não susceptíveis de serem abordadas.
As vivências traumáticas ficavam umas vezes circunscritas a uma abordagem racionalizada, quase destituída de afectos, outras, a uma descrição “laboratorial” das situações vividas, ou ainda, alojadas numa zona secreta do self considerada como um refúgio não susceptível de ser revisitado.
O reconhecimento por parte dos pacientes da impossibilidade de aceder a determinadas áreas da mente, o sentimento de que se trataria de um processo extremamente doloroso, arriscado ou impossível, fez-me associar com as questões levantadas pelas narrativas de testemunho dos sobreviventes de grandes catástrofes, de que o Holocausto é o paradigma,
que mais tarde puseram termo à sua vida. Esta questão tem sido objecto de reflexão e investigação em psicanálise, em literatura, antropologia, história, filosofia, sociologia, etc… Ainda recentemente, no 48° Congresso da I.P.A. em Praga, Gerson S. nos apresentou uma conferência a propósito dos suicídios de Jean Amery, Paul Celan e Primo Levi (“Mourning and Melancholia” After the Holocaust: A Psychoanalytic Exploration of the Suicides of Jean Amery, Paul Celan and Primo Levi).
Da revisão da literatura psicanalítica sobre o trauma algo de comum aos diferentes autores pode ser identificado: a experiência traumática, ainda que deixe registos indeléveis no tecido psíquico, não é acessível à representação, havendo aqui uma estreita articulação entre o traumático e o indizível. Essa dimensão intransmissível e não simbólica da experiência traumática é referida pelo filósofo (Benjamin, W. 1933) num ensaio intitulado: “Experiência e Pobreza”.
“Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres de experiências comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências transmissíveis boca a boca”, porque, continua “Uma geração…. viu-se abandonada, sem tecto, numa paisagem diferente de tudo, excepto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano”.
Benjamin, W. atribui à Primeira Guerra mundial o fim da narrativa tradicional, por se tratar de uma experiência única que sendo invivível não seria susceptível de se constituir como narrativa e seria impartilhável.
Esta mudez de que fala Benjamim, W. é um denominador comum aos que viveram situações traumáticas. Sabemos como em muitos casos a narrativa aguarda anos para ser tornada pública. Por exemplo, só em 2012 Cyrlunic, B, escreveu o seu testemunho autobiográfico de sobrevivente da 2a guerra mundial. Numa entrevista de apresentação do seu livro, ao lhe ser perguntado o porquê de não ter contado mais cedo, diz-nos que naturalmente entre 40 e 45 ele não o poderia contar pelo risco de ser preso. Nos anos seguintes ele alude à impossibilidade de contar pela impossibilidade de ser ouvido: as pessoas riam-se, diziam que também tinham sofrido e rejeitavam a possibilidade da narrativa.
Esta impossibilidade da escuta já fora abordada por Primo Levi no livro “Se isto é um homem” a propósito do sonho no campo de concentração que ele refere ser comum a outros prisioneiros. “Surgem a minha irmã, alguns amigos meus não identificados e muito mais gente. (…) Falo pormenorizadamente da nossa fome, do controlo dos piolhos e do Kapo que me bateu no nariz e a seguir ordenou que fosse lavar-me porque sangrava. É um prazer imenso, físico, inefável, estar na minha casa, entre pessoas amigas, e ter tantas coisas para contar; mas não posso deixar de me aperceber de que os meus ouvintes não prestam atenção. Pelo contrário, são totalmente indiferentes: falam confusamente de outras coisas entre si, como se não estivesse lá. A minha irmã olha para mim, levanta-se e vai-se embora sem dizer nada.
Então nasce dentro de mim uma pena desoladora, como certas dores, de que mal nos lembramos, da primeira infância: é uma dor no estado puro…“. Mais à frente Primo Levi depois de relatar a surpresa que o atingiu ao descobrir que outros prisioneiros tinham o mesmo tipo de sonho, pergunta: ”Porque é que acontece isto? Porque é que a dor de todos os dias se traduz tão constantemente na cena mil vezes repetida de estarmos a contar e não sermos ouvidos?“.
Voltarei aqui, de novo, sobre a experiência de análise com pacientes que, ao aflorarem a possibilidade de uma partilha emocional de acontecimentos particularmente dolorosos, recuam pondo de sobreaviso a analista, relativamente a regiões só susceptíveis de serem conhecidas pelo próprio, ou criando dores sentidas como invisíveis, como o de um paciente que depois de um longo trabalho analítico que lhe trouxe manifestos benefícios quis preparar o fim da sua análise por sentir que se aproximava de zonas em que temia ficar “em carne viva”.
Evocarei o trabalho analítico com uma paciente que me procurou, por um profundo sofrimento associado à relação com um dos seus filhos, jovem adulto, que tinha para com ela comportamentos de grande violência, rejeição e arrogância.
Tratava-se de uma mulher sobriamente bonita, elegante, que se evidenciava pela forma como se vestia. Inicialmente apresentava-se nas sessões, vinda do seu trabalho, como se fosse para um jantar de festa. Havia uma discrepância evidente entre a forma “impecável” como se cuidava e as exigências
do seu dia-a-dia. Toda a comunicação inicial se caracterizava por uma descrição factual e neutra da sua vida e da sua história, como se me quisesse fazer assistir a um filme documental da sua existência na qualidade de espectadora. O controle era também uma presença constante no seu discurso. Embora desde os primeiros momentos do nosso encontro, fizesse acompanhar todas as suas comunicações por um copioso choro, para o qual se munia sempre de um lenço de homem que encharcava totalmente, foi-me inicialmente difícil sentir-me tocada pelas suas emoções. Tal contratransferência inicial fez-me propor-lhe num primeiro tempo uma psicoterapia face a face que só alguns meses depois, evoluiu para uma análise três vezes por semana. Habitou-me a dúvida se seríamos capazes de um genuíno encontro emocional. Passada nas antigas colónias, a infância da minha paciente, desde os seus primeiros tempos de vida, foi atravessada por um clima de terror quase permanente, decorrente de crises de violência do pai. Pelas descrições da paciente a violência do pai em relação à mãe era um estado quase permanente o qual conduzia a que mãe e filhos saíssem de casa, frequentemente, para encontrarem abrigo numa qualquer pensão ocasional.
Cláudia guarda desses tempos a memória de uma infância aterrada e solitária, sem amigos, de uma casa pouco acolhedora onde não poderia levar ninguém, de uma mãe num sofrimento mudo, mas, sobretudo, da necessidade de se apagar para conseguir sobreviver às explosões inesperadas de raiva do pai. Distinguia-se pelo bom comportamento que se contrapunha ao temperamento de uma irmã, descrita como sempre pronta a criar histórias mirabolantes. Atravessou assim a infância e adolescência com o sentimento de ser completamente desconhecida aos olhos da mãe, do pai e demais família, de não se sentir reconhecida nas suas necessidades, a não ser uma vez pelo pai, quando este se opôs à mãe, recusando que a filha fosse inscrita num colégio particular e pela mãe, às portas da morte, quando esta lhe disse que se tinha enganado a seu respeito e que, de facto, ela não era hipócrita, como sempre pensara. A sua vida pessoal e profissional era extremamente restrita e, no princípio da sua análise, tinha um contacto exclusivamente social e superficial com uma ou duas colegas, vivendo enclausurada numa espécie de “bolha” que era o seu território restrito. À sua volta gravitava um universo hostil e persecutório do qual se defendia enclausurando-se em movimentos e relações limitadas. A relação com a irmã era praticamente inexistente.
Fui descobrindo que a frieza, o gelo, o congelamento emocional que se tinham constituído como forma de sobrevivência ao longo da sua vida, se transformavam numa arma que era usada como um bisturi implacável em momentos em que o seu narcisismo se sentia atingido.
O casamento acontecera cedo na sequência de uma gravidez e a relação de casal marcada por uma grande falha comunicacional. Desde os primeiros tempos de casada, sempre vivera sozinha, contando com a presença do marido só nos fins-de-semana. Durante o período da gravidez da filha foi-lhe diagnosticada uma doença crónica do foro intestinal, situação clínica que no dizer dos médicos da especialidade se declara, muito raramente, durante a gravidez. Nos primeiros anos do seu casamento dedicou-se exclusivamente a cuidar do filho, fazendo-o com esforço evidente, pelas crises sucessivas da sua doença que a deixavam completamente depauperada e sem forças, e pelo sentimento de imensa solidão relativamente à partilha de cuidados. Antecipava-se, funcionalmente, a todas as necessidades do filho, procurando reparar os sentimentos de desamparo e abandono que vivera. A actividade profissional foi só encetada após a entrada do filho na pré-primária.
Cláudia sentia toda a sua história como uma profunda humilhação que se colara à sua identidade. Durante a adolescência o pai adoecera com um cancro e quando este morreu anulou totalmente a sua morte sendo incapaz de a referir junto dos colegas do liceu. Foi para as aulas como se nada se tivesse passado. A ideia de mostrar qualquer fragilidade e poder contar com o apoio dos outros não lhe era concebível, sentindo todas as fragilidades como humilhações. Assim foi com grande surpresa que me fui apercebendo que a sua história familiar constituía para a minha paciente “um segredo” que só foi partilhado no espaço da sua psicanálise. Marido e filhos ignoravam completamente a história da sua vida e a possibilidade de partilha foi sempre severamente eliminada.
Esta área de “segredo” esteve também presente no espaço analítico. Contratransferencialmente senti durante um longo período a presença de uma zona oculta. Tinha a sensação de que a minha paciente
se comportava na análise, em parte, como me descrevera a passagem pela sua infância e adolescência. Era uma aluna aplicada e bem comportada, esforçando-se por se desempenhar razoavelmente no seu trabalho de cooperação comigo, mas, despertando em mim algum mal-estar, como se me estivesse a contar algo de parcial.
Só no segundo ano de análise acedeu a falar-me duma relação extra-conjugal que tinha há longos anos, e a que desejava pôr fim, por esvaziamento completo da relação. Decorreu então na sua análise um longo período de intenso dramatismo, onde foi possível analisar o sentido desta relação, tal como foi possível aceder à análise da clivagem do seu self. A descoberta por parte da paciente do facto da analista ter uma genuína empatia com o seu sofrimento, permitiu-lhe construir uma relação mais autêntica.
No plano transferencial inicialmente eu era uma presença sem rosto, num registo bidimensional, sem me ser reconhecida qualquer existência como pessoa, talvez à semelhança de uma certa imago materna insensível e deprimida. A relação evoluiu no sentido do espaço analítico se constituir como um receptáculo confiável para todas as suas dores, passando a reconhecer na analista um lado humano.
Todavia, Cláudia sempre reconheceu aquilo que afirmava ser a sua total incapacidade de aceder a uma relação de total dependência da analista, afirmando ter a certeza da existência no seu psiquismo de uma zona completamente inacessível e inenarrável. Não se tratando de uma paciente que tivesse qualquer contacto directo com a psicologia, descrevia e nomeava fenómenos que apelidava do seu “autismo”. As minhas interpretações dirigiram-se ora ao seu temor de não se sentir escutada e acolhida no seu lado mais genuíno, ora ao seu receio de que eu fosse um objecto surdo às suas dores, com as quais acabaria por ter de se haver sozinha, à semelhança da sua experiência infantil. Outras vezes ainda falava da sua impossibilidade de nomear emoções para as quais não havia ainda palavras, bem como o temor de me poder destruir com a sua violência. Cláudia achava que estas hipóteses lhe faziam sentido, mas tentava demover-me na minha esperança de continuar a estar disponível para desbravar essas regiões ignotas. No seu ponto de vista as dificuldades resultariam dessa área da sua mente ser como que uma zona atingida por um cataclismo, que teria deixado marcas impossíveis de serem recuperadas. Analisámos também o seu masoquismo em que tentaria perpetuar no presente a ausência de esperança do passado. Se por um lado sentia que gostaria de ter na análise e com a analista um contacto mais vivo, com tudo o que isso implicasse, por outro, fazia-me sentir estas dificuldades como um verdadeiro “handicap” não susceptível de ser recuperado, usando para o efeito a metáfora da “lesão” que teria deixado um terreno afectado definitivamente. A minha expectativa em aberto, levava-a, transferencialmente, a sentir-se incompreendida, transmitindo-me o sentimento de que eu nunca seria capaz de me identificar a esse sofrimento, pelo facto de não ter seguramente vivido uma experiência assim, que ela comparava a uma lesão orgânica, situação que me fez pensar no que atrás foi descrito a propósito do sentimento de “não se ser escutado”, tão bem descrito por Levi. Progressivamente, contransferencialmente, fui, eu própria, sentindo que esta inacessibilidade teria também um efeito protector.
Um aspecto que teve grande importância na sua análise e que lhe trouxe um significativo sofrimento depressivo, foi a sua constatação relativamente à quase impossibilidade de viver as emoções, sobretudo em momentos mais dolorosos. Tal era particularmente reactivado nos funerais, momentos em que se sentia invadida pelo gelo e frieza. Associada a esta frieza encontrava-se a grande dificuldade em se lembrar das datas em que cada um dos pais tinha falecido. Anualmente sentia-se atingida por um grande mal-estar a que não conseguia dar nome. Foi-se apercebendo como não fizera o luto de nenhum dos pais, o que lhe permitiu uma recuperação de algumas facetas mais afectivas de cada um deles, a par da consciência do ódio que a habitava.
Uma grande dificuldade no trabalho com esta paciente consistiu na dificuldade de metaforização da sua comunicação que tinha uma dimensão iminentemente literal, sendo as sessões preenchidas pelas descrições da sua organização diária, da forma como se sentia desnarcisada por algumas das suas chefias e ainda com o relato da frieza e arrogância do seu filho, que ela considerava ser o resultado da impossibilidade que tivera em estabelecer uma relação de proximidade e intimidade, o que vivia com intensa culpabilidade.
No início da análise centrei-me sobretudo no trabalho de “alfabetização” das suas
emoções. Pouco a pouco Cláudia tornava-se capaz de fazer “a leitura” (como ela dizia) dos seus estados internos. Tal capacidade teve uma grande importância na sua relação com os outros, em particular com os mais frágeis e carenciados. Familiarmente passou a interessar-se, genuinamente, pelas crianças da família que mostravam sinais de isolamento, alheamento ou tristeza, tentando interceder para que fossem ajudados. No emprego, tendo uma relação próxima com jovens, tornou-se especialmente atenta às características internas dos jovens com quem contactava, criando com eles laços de confiança.
Durante muito tempo a vida desta paciente estava completamente cingida à rotina diária, que executava de forma perfeccionista, não se permitindo qualquer outro tipo de satisfação. Foi através do seu investimento numa casa de férias que pudemos acompanhar o processo de reparação das áreas “desertas” da sua mente. Os fins-de-semana passaram a ter um valor precioso para Cláudia que passou a dedicar-se de alma e coração ao cultivo da sua horta e jardins, partilhando com o marido este prazer. A sua relação conjugal recuperou alguma cumplicidade através desta obra comum e da partilha de um sofrimento também comum – as grandes dificuldades de ambos os pais na relação com o seu filho, cujo comportamento era sugestivo de uma patologia borderline. Numa primeira fase da análise a relação com este filho era caracterizada por uma total submissão sua e do pai ao autoritarismo do filho que atingia proporções inconcebíveis. Foi possível analisar como o estado de terror em que a minha paciente vivera a fazia continuar a sujeitar-se, por culpabilidade, a um objecto agressor, desta vez o filho. A comunicação de Cláudia com o filho era pautada por uma total falta de sinceridade e autenticidade emocional, pelo terror do abandono, pela culpa, e pela dor que as sistemáticas acusações e exigências lhe provocavam. Tornou-se, pouco a pouco, mais capaz de integrar a sua agressividade na relação com o filho, mantendo disponibilidade em relação a ele, mas sendo mais capaz de estabelecer limites ao seu funcionamento omnipotente.
Este caso tem-me levantado numerosas questões relativamente aos limites da elaboração e da transformação do processo analítico, admitindo eu a existência de uma área do self que poderá ter ficado inacessível à simbolização.
Retomando a reflexão sobre as situações extremas direi que se as situações traumáticas impelem à narrativa de testemunho, sendo esta uma das vias possíveis que o ser humano utiliza para tentar sair do traumático, outras são o silêncio ou a falsificação da memória. Todavia, “o testemunho documental pode contudo expor o seu autor a uma série de perniciosos efeitos que vão para além da atrocidade ela própria”, como nos diz Gerson, S. na sua comunicação no 48° congresso da I.P.A.
Se a palavra e a comunicação nos permitem a representação, os acontecimentos traumáticos têm por característica intrínseca a impossibilidade de representação, ficando inscritos no psiquismo a um nível perceptivo e literal. As diferentes concepções do trauma atrás apresentadas convergem nesse sentido. Mas, na narrativa do traumático não nos encontramos só face a uma falha do simbólico e ao paradoxo de pôr em palavras um vivido para o qual não existem palavras, estamos também perante um processo de luto profundamente difícil e complexo. Voltando a citar (Gerson, S. 2013) no seu artigo que nos diz que Freud, S. em “Luto e melancolia” não considerou o destino psicológico das perdas irreparáveis que destroem a capacidade de ter esperança num mundo empático, dando-se o risco de queda numa existência melancólica com uma total ausência de esperança. E este autor interroga “como se faz o luto da morte da esperança e da possibilidade de um mundo moral”? Muitas vezes a minha paciente me questionou como esperava eu que ela pudesse genuinamente confiar, se só “aprendera” a viver numa total solidão?
Assim, estamos perante uma convergência de dificuldades no processo de transformação das vivências traumáticas: dificuldades que decorrem da ruptura catastrófica resultante da experiência de um “mundo morto”, à semelhança de uma identificação a uma “mãe morta” Green, A. que, melancolicamente, se abate sobre o self, isto nas situações mais extremas; dificuldades que decorrem do facto de as situações traumáticas serem registadas de uma forma diferente, provocando uma cisão da recordação em elementos somatosensórios isolados que não podem integrar uma recordação narrativa já que se trata de um conteúdo não simbólico que tende a permanecer rigidamente imutável, pelo facto do self se ter mantido desligado durante a situação traumática, processo que poderá ter analogia com os mecanismos de desmantelamento descritos por (Meltzer D., 2008) relativamente ao autismo. Outra característica do self
do traumatizado é o congelamento da temporalidade que não permite a integração das situações traumáticas numa linha temporal e, por conseguinte, na memória.
Consideramos, com (Ferenczi, S. 1949) que, quanto maior for a gravidade do trauma, maiores serão os danos na relação objectal, pela destruição na díade comunicativa entre self e bom objecto, sentindo-se o sujeito num estado de solidão absoluta, sem esperança na presença de bons objectos internos e consequente possibilidade empática com o mundo envolvente. Citando (Bohleber, W. 2007): “formam-se assim ilhas de experiência traumática que se mantêm encapsuladas e impedidas de comunicação interna”.
Voltando a esta paciente poderemos admitir uma articulação entre as vivências traumáticas e a sua doença crónica, que no processo analítico a paciente veio a considerar como “uma implosão interna”. Refira-se que actualmente a sua situação clínica se encontra significativamente compensada, considerando o seu gastroentrologista que ela é a doente dele que, após tantos anos de evolução da doença, apresenta menos alterações, situação que a minha paciente atribui claramente ao seu processo analítico.
Em jeito de conclusão :
As situações traumáticas extremas poderão ajudar-nos na reflexão e questionamento relativamente às possibilidades e limites do processo narrativo na elaboração e transformação do trauma e ainda relativamente às condições mais favoráveis a essa transformação.
A narrativa de testemunho constitui-se como uma aporia onde se entrecruzam processos contraditórios. O traumatizado é compelido a narrar a sua experiência como forma de externalização de uma dor que procura uma elaboração. Contudo este mesmo processo comporta riscos acrescidos, não só pela reactivação do trauma, mas, principalmente pelo hiato que se cria entre o sujeito e os seus interlocutores, ficando nestas circunstâncias o sujeito imerso numa dor impartilhável que, melancolicamente, se poderá abater sobre o self, destruindo a esperança de relações empáticas.
Estas situações extremas poder-nos-ão ajudar a melhor compreender os nossos pacientes relativamente às dificuldades no processo de reparação de um objecto fiável.
Consideramos que em condições favoráveis, quando é possível o desenvolvimento de uma genuína capacidade contentora, poder-se-á aceder a uma experiência nova, capaz de restaurar a esperança em objectos fiáveis, o que implicará que a ausência do objecto se transforme em pensamento e se instale um “aparelho de pensar os pensamentos”.
Na vinheta clínica que apresentei, apesar de toda a evolução que a paciente pôde ter, é de admitir a permanência de uma zona muda no seu self, através da qual Cláudia, continuará, paradoxalmente, a evocar o seu passado.
Precisará ela de continuar a manter “viva” essa zona muda?
“A faculdade humana de cavar um nicho para si, de segregar uma carapaça, de levantar à sua volta uma ténue barreira de defesa, mesmo em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e merece um estudo aprofundado”.
ABSTRACT
The author begins with a brief theoretical review of the psychoanalytic theory of trauma, seeking common perspectives to the different theoretical contributions in order to obtain an understanding of the most destructive aspects of psychic tissue. In some cases those destructive aspects hurts the symbolization capacity.
Then reflects on the psychoanalytic clinic of cases with obvious traumatic experiences where the simple approach of the most painful areas of the mind is considered by patients as a difficult or impossible task. To access a better understanding of this type of obstacles the author focuses on the testimony literature of major disasters survivors that eventually put an end to their lifes.
Finalizes talking about a clinical case that exemplifies this problem.
KEYWORDS: trauma, simbolization, memory, narrative