A autora apresenta o processo psicanalítico de um paciente com séria patologia narcísica, que na tentativa de evitar um eminente colapso psíquico utilizava atuações “perversas” como forma para reestabelecer seu precário sentimento de existência. A cisão do ego com claros déficits simbólicos eram expressos na fragmentação da comunicação e nos acting outs. Essa configuração psíquica evidenciava a desmentida da castração, expressa em fantasias masturbatórias compulsivas diante do espelho, em que expunha sua ambiguidade sexual. Quando a angustia era mais terrível, apresentava compulsão a exibir seu pênis na rua. A cisão dos atos e emoções do paciente induziu a analista a um enactment (expressão direta de afetividade) que contribuiu para mudanças psíquicas. É notável, nesse relato, a aparição de sonhos que evidenciam a elaboração onírica dos atos “perversos”.
Há alguns anos venho me interessando pela emergência de sonhos no trabalho clínico com meus analisandos. Tenho observado que em alguns pacientes onde se nota o predomínio de aspectos primitivos na estruturação do psiquismo, expressos no campo psicanalítico por funcionamento predominantemente esquizoparanóide - com predomínio de descargas motoras, identificações projetivas maciças, acting outs, enactments, etc., - o aparecimento de sonhos só se dá após algum tempo de análise. Parece que é preciso que o analisando tenha atingido algum grau de integração psíquica e que tenha introjetado a dupla analítica, para que possa produzir o que L. Grinberg3 (1981) chama de sonhos elaborativos.
A proposta maior desse trabalho é a descrição e reflexão de momentos de um processo psicanalítico com um paciente com séria patologia narcísica, que na tentativa de evitar um eminente colapso psíquico utilizava atuações “perversas” como forma para reestabelecer seu precário sentimento de existência. Essa configuração psíquica evidenciava a desmentida da castração, expressa em fantasias masturbatórias
Trabalho apresentado no Congresso da IPA, México, Agosto de 2011, no painel “ Enactment: Reparación, Identificación projectiva y confesión (Una visión desde un pluralismo teórico-clínico)”
Cândida Sé Holovko - Rua Sabará 566, cj.81 Higienópolis, Cep:01239-010, fone 005511-32311970. Email:
L. Grinberg propõe uma classificação dos sonhos a partir de um enfoque clínico: sonhos evacuativos; sonhos mistos e sonhos elaborativos. Sonhos elaborativos estão ligados à posição depressiva ou a sua entrada nela. A distinção entre a tela-continente do sonho e os conteúdos projetados nela permite ao paciente não temer o sonho em si mesmo e não se opor a recordá-lo ou a sua interpretação terapêutica com a intensidade que se dava com os sonhos evacuativos. Os “sonhos elaborativos” mostram uma crescente capacidade do paciente para cuidar de si mesmo (da reparação de seu Ego e de seus objetos) ajudado por uma melhor internalização do continente-analista que já lhe permite “sonhar” seus sonhos.
compulsivas diante do espelho, em que expunha sua ambiguidade sexual. Quando a angustia era mais terrível, apresentava compulsão a exibir seu pênis na rua. A cisão dos atos e emoções do paciente induziu a analista a um enactment, que contribuiu para o enriquecimento do processo analítico. O trabalho contínuo com a contratransferência, produzida por intensas identificações projetivas do analizando e a reflexão dessa “colocação em cena” foram fundamentais para compreender a abertura e expansão do seu universo onírico. Pode-se dizer que a introjeção do par analítico fértil, que descortina um universo mais simbólico, favorável a emergência de sonhos, ocorreu no trabalho de três anos com esse paciente que chamarei Francisco.
Antes de abordar o material clínico gostaria de introduzir algumas breves ideias sobre o conceito de “colocação em cena” (enactment).
Psicanalistas que trabalham com a noção do espaço psicanalítico como um campo intersubjetivo (W. R. Bion, D. W. Winnicott, S. Ferenczi, T. Ogden, A. Ferro, T. J. Jacobs, S. Bolognini, etc.) tendem a ver os fenômenos contratransferenciais como uma criação conjunta da dupla analítica, na qual há comunicação e influencias recíprocas dos mundos subjetivos de paciente e analista. Partindo dessa concepção, Theodore Jacobs, nos anos de 1990, cunhou o termo enactment para descrever o fato de que fantasias transferenciais poderiam ser vividas (enacted) no comportamento verbal ou não verbal do paciente em relação ao seu analista. Porém, com o tempo, constatou-se que o fenômeno era mais complexo, pois deveria incluir a participação do analista que era solicitado a realizar essas fantasias transferenciais. Como relembra G. Ivey “… diz-se que ocorre um enactment quando o paciente inconscientemente recruta a predisposição subjetiva do analista a sentir e responder de determinadas maneiras, comportando-se de um modo que pretende induzir uma reação emocional do analista que confirme a fantasia transferencial.”
Com T. J. Jacobs (2001), aprendemos que o enactment “abrange um amplo espectro de comportamentos da parte do analista e/ou paciente. Estes variam de ligeiras, quase imperceptíveis modificações de conduta, movimentos corporais, expressão facial, afeto ou tom de voz, até ações complexas diretas e evidentes.”
R. Cassorla (2001, 2005, 2008, 2009), reconhecido internacionalmente pelas publicações em torno do conceito de enactment, propõe utilizar o termo enactment para descargas mútuas que ocorrem no campo analítico, ou seja, situações evacuativas (elementos beta) fruto da indução mútua. A descarga pode manifestar-se em apenas um dos membros da dupla analítica, mas ela é sempre produto das identificações projetivas do outro. Com o tempo esse autor percebeu que os enactments agudos eram uma mescla de “não-sonhos” e de sonhos que estavam começando a ser sonhados e que desfaziam um enactment crônico, fruto de conluio entre o par analítico. R. Cassorla (2001, 2005) assinalou que isso sempre fazia parte do processo analítico, diz ele: “em área não psicótica, de identificação projetiva realística, a dupla também se confunde momentaneamente (é necessário que essa identificação ocorra para que o analista viva o que o paciente comunica) e, em seguida o analista se separa e comunica o que sonhou. Chamei essas experiências de enactments normais. E, existe um espectro entre enactments normais e patológicos, que correspondem a áreas não psicóticas e psicóticas da mente…”.
Em psicanálise enactment faz alusão a passagem ao ato, mas difere do acting out que indica comportamentos inapropriados que tem uma conotação negativa, obstrutiva do processo analítico. Por sua vez, na noção de enactment, está incluída a participação da dupla analítica em uma “colocação em cena” que geralmente possui um aspecto comunicativo que pode fazer progredir a análise.
Encontramos na literatura psicanalítica controvérsias teórico-clínicas sobre o papel positivo que enactments contratransferenciais têm sobre o paciente e as oportunidades de insights que propiciam na situação analítica. Assim como sonhos, transferência e contratransferência eram antigamente vistos como obstáculos ao processo analítico e se converteram em instrumentos para a compreensão do inconsciente dos analisandos, assim também os fenômenos de “colocação em cena” (enactments) podem ser vistos por muitos psicanalistas da contemporaneidade, como uma oportunidade e uma abertura
na técnica, a ser mais explorada na clínica psicanalítica.
Para S. Bolognini “O analista sabe que não é consciente do que encena com o paciente em alguns momentos, mas sabe que a posteriori pode recuperar algo precioso por meio dessa particular cena que criou inconscientemente. O método permite enriquecer o conhecimento desse momento inconsciente compartilhado”.
“Cada homem em sua complexidade psíquica é uma obra única, toda análise uma Odisseia”
Quando abro a porta a Francisco, em sua primeira entrevista, vejo um homem alto de trinta anos com uma expressão atormentada. Desde o início percebo que se trata de uma pessoa com séria perturbação narcísica, com predomínio da parte psicótica da personalidade e que apresenta grande sofrimento psíquico: mostra-se desorientado, confuso, com pouca capacidade para pensar e expressar seus sentimentos. A cisão de seu ego, com claros déficits simbólicos são claramente expressos na fragmentação de sua comunicação.
Conta que tem tido fantasias e ideias que o atormentam muito: de repente é assaltado pela ideia de matar a pessoa que está com ele. Resolve separar-se da companheira por temer matá-la em um momento de descontrole. Esses “pensamentos” começam a perturbá-lo à noite quando acorda e se vê como se fosse em um filme, matando com uma faca a companheira. Nesse momento transpira muito, levanta da cama e é invadido pelo pavor de vir a realizar esse ato. Procura rezar, desviar o pensamento, mas a angústia é muito forte. Conta, nesse primeiro contato, que atualmente esses pensamentos são mais frequentes e aparecem a qualquer momento, principalmente em lugares fechados quando se encontra a sós com outra pessoa (nesse momento eu sinto contratransferencialmente um calafrio na espinha como se ele pudesse cometer esse ato ali mesmo. Nesse primeiro contato fica evidente o impacto vivido na contratransferência).
Durante essa primeira entrevista lembra que sete anos antes havia sido diagnosticado com um quadro de depressão, pois não tinha ânimo para nada e permaneceu vários dias sem conseguir levantar da cama. Na ocasião foi tratado com medicação e algumas sessões de psicoterapia no seu país de origem, a Alemanha.
Nas primeiras sessões conta-me um pouco de sua história: seus pais são alemães e moraram no Brasil durante alguns anos, período no qual nasceu o paciente. Quando Francisco tinha cinco anos voltaram definitivamente para a Alemanha, onde toda a família passa a residir. Há três anos, Francisco resolve vir morar sozinho no Brasil. Queria se separar do pai que sempre foi para ele uma pessoa autoritária e dominadora, queria também se afastar do ambiente familiar por não suportar as brigas frequentes entre os pais. Com relação à mãe sempre a viu como muito fria e distante. Francisco nunca se sentiu aceito, valorizado e amado por ela e acreditava que não só não foi desejado pela mãe, mas foi fruto de uma relação na qual a ela foi submetida sexualmente pelo pai. Em uma sessão, meses depois, conseguiu figurar em uma imagem a relação dele com os pais. Nessa imagem via a mãe de costas olhando para a Alemanha enquanto o pai caminhava em sua direção.
Francisco ao chegar ao Brasil com 27 anos montou uma empresa com a ajuda de amigos do pai. Assim que a empresa começou a crescer, um ano antes desse nosso contato, sentiu que não tinha condições psicológicas para continuar no comando e resolveu vendê-la. Nessa época começou a se isolar do relacionamento com as pessoas e a permanecer a maior parte do tempo recluso em casa, evitando até atender telefone. Sentia-se falido, fracassado profissional e emocionalmente.
Permanecia em casa e falou com muita vergonha e constrangimento que tinha frequentemente fantasias sexuais com mulheres (com sua namorada já não mantinha relações sexuais há muito tempo). Diz que todo o dia ao acordar dirige-se nu a frente do espelho e fica olhando para o próprio pênis. Uma dúvida compulsiva o assalta: - “o pênis é grande ou é pequeno”. Isso o atormenta porque não consegue se decidir - (em uma folha de papel que me dá alguns meses depois está escrito: “Olhar no espelho, sempre a dúvida: pênis grande = homem e pênis pequeno = mulher”). Enquanto se olha no espelho fantasia algo e se masturba. A fantasia mais frequente e que se repete quase inalterada refere-se a uma experiência que viveu em uma praia de nudistas no Nordeste brasileiro. Lembra que
estava no quarto do hotel nu quando entrou uma camareira para arrumar o quarto. Na situação vivida ele se sentou em um sofá, pegou o jornal e fingiu estar lendo. A lembrança do ocorrido o excita. Muitas vezes quando se masturba lembra-se da cena e se imagina masturbando-se na frente da camareira que o olha extasiada. Essa imagem desperta nele intensa excitação. Como não trabalha e permanece a maior parte do tempo em casa, assistindo a televisão ou lendo revistas, a compulsão a ir ao espelho repete-se várias vezes ao dia. Com muita vergonha me conta também que tem compulsão a exibir o pênis. Em geral isso ocorre quando vê uma mulher bonita na rua. Procura atrai-la para o seu carro e dar um jeito para que ela olhe em direção ao pênis exposto. O excitante para ele é poder exibir o pênis e perceber a mulher olhando. Todas essas situações ao mesmo tempo em que produzem muita excitação, desencadeiam nele fortes sentimentos de desagrado, repugnância e desejo de libertar-se delas.
Para ilustrar o clima de tensão emocional, de desespero e desamparo que Francisco vivia nesse início de análise e como o campo transferencial- contratransferencial era acionado, apresentarei um fragmento de sessão do segundo mês de análise. Durante quase todo esse primeiro ano de análise, frequentar as quatro sessões semanais era uma de suas raras atividades fora de casa.
Assim que o vejo percebo um olhar atormentado como de um louco. Imediatamente sinto um calafrio percorrendo minhas costas. O paciente entra rapidamente na sala, deita-se no divã e permanece em silencio. Ocorre-me que esse homem poderia me matar ali mesmo, o que me faz sentir grande medo. O paciente continua em silêncio e isso faz com que o meu pavor aumente ainda mais, pois imagino que se ele não fala pode vir a atuar. Aos poucos vou pensando que talvez ele esteja aterrorizado que eu possa atacá-lo, uma vez que suas fantasias são de atacar mulheres pelas costas e era ele que estava de costas para mim. Também penso nas últimas sessões, nas quais o paciente se mostrara menos agressivo e mais controlado. De forma que aos poucos vou me acalmando. No momento em que me percebo bem mais tranquila, de repente e para surpresa minha, Francisco começa a falar. Diz que tem medo que eu o ataque pelas costas!
Essa conversa me impactou pela força da identificação projetiva, pela constatação da comunicação não verbal que veicula processos inconscientes na dupla analítica, na qual me dei conta que havia experimentado em minha própria pele o terror do paciente. Em uma evidente relação intersubjetiva eu sonhei os elementos que o paciente cindia e não conseguia sonhar, mas que comunicava através da identificação projetiva. Partindo da experiência contratransferencial pudemos falar a respeito de suas angústias de morte, de seu terror a ser atacado por alguém e acrescentar o grande medo que ele tinha de atacar a mim, a quem buscava para analisar-se e lidar com esses terrores.
Percebi que nesse início de análise eu era convocada de forma premente, a estar mergulhada num estado de turbulência emocional, semelhante ao vivido por Francisco e a partir deste estado “sonhar” junto com ele, a fim de encontrar expressões aproximadas ao que se passava em seu mundo mental. Essa função de “rêverie” - semelhante a “rêverie” materna descrita por W. R. Bion, na qual a mãe precisa executar funções psíquicas pelo seu bebê, até que este possa introjetar essas funções em seus objetos internos e executá-las por si mesmo - era nosso grande desafio nesse momento. Na época vinha sempre a minha mente o conceito de barreira de contato de W. R. Bion (1962):
«… O homem deve “sonhar” uma experiência emocional corrente, tanto se esta ocorre durante o sono ou durante a vigília, desta maneira: a função-alfa do homem, dormindo ou desperto, transforma as impressões sensoriais relacionadas com uma experiência emocional em elementos-alfa, os que ao proliferar se aderem formando a barreira de contato. Esta barreira de contato deste modo em contínuo processo de formação marca o ponto de contato e separação entre os elementos conscientes e inconscientes e origina a distinção entre eles“… O termo ”barreira de contato“ acentua o estabelecimento de contato entre consciente e inconsciente e a passagem seletiva de elementos de um a outro».
Como se vê, a barreira de contato, que separa elementos inconscientes e conscientes, estava danificada em Francisco produzindo experiências de confusão, devido à mistura desses elementos. Sem essa barreira protetora, o inconsciente ficava vazando para o consciente e para a realidade externa, dando
origem a fenômenos de natureza alucinatória e acting-out.
Podemos conjeturar que nas primeiras sessões, ao falar de seu medo de matar pessoas, Francisco expressa o drama que vem vivendo ao longo de sua vida: o pavor a destruir os frágeis laços que o ligam a uma realidade compartilhada com outro, e que significaria sua morte psíquica. Também poderíamos supor que essa fantasia homicida, o medo de matar mulheres, condensa seu horror em relação à própria feminilidade ainda não suficientemente integrada, essa confusão identificatória que busca eliminar através desse fantasiar e do impulso a passagem ao ato. Poderia também expressar o ódio à mãe que de costas para ele, nos seus primeiros anos de vida, olha em direção à Alemanha e não pode olhá-lo como necessitaria. A compulsão ao exibicionismo e a masturbar-se frente ao espelho, com a fantasia onipotente de exibir seu pênis evidencia tentativas de desmentida da castração e sua ambiguidade sexual. Tentativas desesperadas para recuperar um equilíbrio narcísico precariamente constituído e constantemente ameaçado pelo sentimento de não ser visto, de não existência, do abismo de não ser.
Esse acontecimento clínico, como expressão de identificações projetivas maciças, lembra situações descritas por R. Cassorla (2009) quando o paciente não pode ou falha em simbolizar.
“O analista sente-se pressionado a se livrar dos ‘não-sonhos’ que o paciente lhe introduz. Concomitantemente, sente-se pressionado a buscar formas de simbolizá-las. Sua função analítica permite que ele se deixe invadir e vivencie os aspectos projetados. Ao mesmo tempo, ou em seguida, discrimina-se deles e os desvenda, dando-lhes significado… cenas e enredos que ocorrem no teatro da análise se ampliam e sofisticam… Estamos frente ao funcionamento adequado do aparelho de pensar pensamentos cuja origem é fruto do ‘trabalho-de-sonho-alfa’ ou função alfa”.
Neste primeiro momento vemos os restos de um desastre emocional e o colapso do sistema de produzir pensamentos. A analista sonha o “não-sonho do paciente” (R. Cassorla, 2005) e através de sua rêverie é capaz de transformar e desintoxicar fantasias de assassinato/suicídio do analisando.
Passados oito meses, próximo as férias de final de ano, quando vou chamá-lo na sala de espera vejo que está com sua namorada. Na sessão me diz que pensa em voltar a trabalhar, mas que ainda não sabe bem o que quer fazer. Conta-me que a compulsão ao exibicionismo na rua desapareceu e que as fantasias em frente ao espelho diminuíram consideravelmente. Revela que deseja estar mais ocupado fora de casa e que se inscreveu em um curso de natação para exercitar-se. Diz ele:
Francisco: - “Vou para o espelho e aí me imagino numa praia de nudismo e que várias mulheres ficam me olhando e admirando o meu penis. Isso tem durado menos que antes e já não me excita tanto, não tenho mais vontade de me masturbar. O que me excita não é transar com mulher, mas que elas olhem e achem que eu tenho um penis grande. Queria ter o penis maior do mundo e que as mulheres fizessem fila pra transar comigo” (ri).
Nesse ponto, como em muitos momentos anteriores da análise de Francisco, observo uma espécie de transferência “perversa” na qual o paciente usa a fala para se excitar e erotizar o vínculo analítico. Várias vezes observei na saída da sessão o rosto vermelho do paciente, como de alguém que andou se excitando e o olhar de canto buscando conluio comigo. Contratransferencialmente me produzia mais compaixão do que excitação, por verificar o estado de precariedade narcísica e de regressão psíquica de Francisco. Com isso em mente, opto por dizer que a admiração das mulheres por ele faria com que ele se valorizasse mais e acrescento que ele quer muito que eu o olhe como alguém que tem muito valor (Penso nesse momento que lhe faltou o olhar materno e paterno que o reconhecesse como sujeito e em seguida como menino e homem. Recordo que o investimento narcísico necessário ao desenvolvimento psíquico são os pais que passam ao filho, nesse caso, conjeturo que Francisco com seu exibicionismo busca desesperadamente encontrar nos olhos das mulheres o investimento narcísico que não ocorreu).
No retorno das férias conta que passou bem. “Levei a Joana para a praia. Ficamos uma semana lá. Transamos e foi bom. Fazia mais de um ano que eu não transava, não sabia mais como fazia, quase esqueci”. Conta que foi com amigos, sentiu-se ativo, entretanto a necessidade de ser visto como alguém especial estava presente.
Francisco utiliza a fantasia no espelho para compensar o sentimento de ser
castrado, impotente, de não ter recursos de personalidade para fazer frente a angustia avassaladora. A fantasia funciona como uma ilha para o precário equilíbrio narcisista. Quando Francisco se encontra angustiado, vulnerável, frustrado, sem potencia, é urgente reconstruir o narcisismo atacado por meio da passagem ao ato exibicionista e a masturbação compulsiva. Aqui o que está em jogo, não é só a potencia sexual, mas sobretudo a relação com a existência psíquica, a angustia suscitada é muito mais de desintegração psíquica. Curioso que à medida que Francisco se sente mais visto na análise e na relação com outras pessoas, não só a compulsão para exibir seu pênis na rua desaparece como também as fantasias masturbatórias no espelho vão diminuindo de frequência. Ao exibir seu pênis na rua, provavelmente estivesse à procura de alguém que o contivesse, talvez a polícia ou mais precisamente, uma mulher que, ao olhá-lo pudesse devolver-lhe vida e sentido. Essa compulsão desapareceu nos primeiros meses de análise, penso que isso ocorreu por ter encontrado no espaço analítico um continente onde podia “mostrar-se” sem tantos riscos.
S. Freud, em nota de rodapé, acrescentada em 1920 para os seus “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), afirma que: “A compulsão de exibir depende intimamente do complexo de castração: é um meio de insistir constantemente na integridade dos próprios órgãos genitais (masculinos) do paciente…”. Nesse texto, a ênfase é dada a angústia de castração sexual, no entanto, se pensarmos que o paciente se identifica com seu órgão genital, podemos falar em necessidade de verificar continuamente sua integridade psíquica. Poderíamos pensar que a função do espelho para Francisco, parece ser não só de defesa narcísica vital, mas também incluir uma função de integração. A imagem refletida no espelho lhe devolve uma “Gestalt” momentânea de seu corpo, permitindo integrar numa visão do todo partes dissociadas. Para J. Lacan (1966) é no “estádio do espelho que vão surgir os primeiros esboços da função do eu e os primórdios da identificação a outro”.
Quatro meses depois dessas férias com a namorada Francisco se mostra muito envolvido com sua família, envia e-mails ao irmão e aos pais que moram na Alemanha. Começa a surgir a importância que essas pessoas têm em sua vida. Até muito pouco tempo era um expatriado, solto no mundo, sem raízes.
Nessa época seu pai precisava vir ao Brasil e tenta entrar em contato com amigos para indicar um trabalho para o paciente. Francisco sente-se de novo muito pressionado por seu pai. Procura encontrar uma forma diferente de lidar com a situção, levando em conta seu temores, ansiedades e o contacto com a realidade. Creio que seja um momento importante que vale a pena descrever:
Francisco – Sexta saí com meu pai e fomos a uma reunião com o objetivo de arrumar um emprego. Ao retornarmos, ele começou a me dizer tudo o que eu deveria fazer. O que me afligiu muito a ponto de me fazer pensar em ligar para você, entretanto, depois achei que não seria adequado. De repente me ocorreu uma coisa da qual nunca tinha lhe falado antes… às vezes quando fico assim me dá vontade de ir a boites e fazer programa com aquelas mulheres.
Meu pai adormeceu e eu muito aflito não conseguia descansar. Como não sabia o que fazer comecei a pensar na razão do meu mal estar, então, achei que deveria falar desses sentimentos com o meu pai, mas era muito difícil explicar-lhe o que eu estava sentindo. Depois de muito pensar, finalmente consegui dizer que sempre me senti muito pressionado por ele. Meu pai me disse que sempre tinha tido medo dele e que só iria me sentir melhor quando ele morresse. Eu disse que não era verdade e que, pelo contrário, queria muito aproveitar a companhia dele. Que não precisava se preocupar comigo, que o trabalho viria naturalmente a medida que eu ficasse bem comigo mesmo. Acho que não me entendia, pois para ele o mais importante era arrumar um trabalho e ganhar dinheiro. Tentei esclarecer que as coisas não funcionavam assim para mim, e por fim, consegui fazê-lo aceitar o que curiosamente também me fez sentir aliviado, imediatamente!
Eu digo a Francisco que aconteceu algo muito importante, pois ele pôde ter uma conversa de homem para homem com seu pai. Quando seu pai começou a exigir coisas ele se sentiu submetido mais uma vez às vontades do pai, sem liberdade para ser ele mesmo. A pressão retornou como se fosse esmagado pelo pai e começou a sentir-se impotente perante ele. De maneira que pensou em procurar uma “prostituta-analista”, uma mulher experiente em assuntos sexuais, quem sabe para recuperar a potência que lhe foi roubada.
Comento que ele não correu para descarregar a aflição, muito pelo contrário, pôde conter-se e escolheu o método mais eficaz para solucionar o conflito: pensar e enfrentar o pai.
Francisco – Meu pai disse que sempre tive medo dele. Eu lhe perguntei como eu era quando criança. Me disse que meu irmão chorava muito e eu era um bebê muito tranquilo, muito bonzinho (falso self?)
Nessa sessão, Francisco me disse das muitas sitauções em que se sentia submetido pelo pai. Ele me conta que chegou um primo da Noruega e que comentaram a respeito da sua experiência de fazer terapia e da situação que tinha ocorrido com o pai dele. O primo se comoveu pela oportunidade que o paciente teve de mudar sua relação com o pai. Esse primo tem um irmão psicótico e que vive internado o que fez com que Francisco pensasse que também poderia ter tido o mesmo destino
Procuro enfatizar o caminho que ele está percorrendo, sua percepção para refletir e o próprio poder que ele possuía, mas que antes não conseguia reconhecer.
Francisco – Chegou o amigo que estava esperando. Conversamos muito… Porém, agora tem uma coisa que é muito difícil de falar…e também não sei se há tempo suficiente para isso. É algo que não sai da minha cabeça e estou com vergonha.
Esse meu amigo me diz que está trabalhando em uma fábrica na Alemanha. Escreveu, contando-me muito animado como é esta fábrica. Achei perfeito mas de repente me deu vontade de chupar o seu pênis. Que nojo! É terrível! Na verdade, já tinha me acontecido outras duas vezes: a primeira quando conversava com o pai da Joana e a segunda com um empresário conhecido. Horrível!
Enquanto Francisco falava, ficou muito claro para mim que se referia ao desejo de incorporar a vitalidade, os recursos, o ânimo, enfim, toda a potência daqueles homens a quem admirava. Muito mais que uma fantasia homossexual clara, se tratava de um desejo de incorporar a virilidade daqueles homens, portanto, uma tentativa de reforçar sua própria masculinidade…
Francisco – Gostaria de poder falar das minhas coisas com esse mesmo ânimo e energia como ele faz.
Próximo as minhas férias de julho, depois que anuncio meu afastamento, Francisco me diz que vai suspender as sessões de análise. Pretende viajar para a Alemanha para visitar sua família e não sabe quando vai voltar. Nesse momento a relação transferencial é marcada por muita agressividade e claras defesas maníacas: de triunfo, desprezo e negação da falta.
Em uma das sessões em que assinalo a negação dos sentimentos de dor pela ausência do período de férias, após um tempo de silêncio, Francisco começa a chorar e diz:
Francisco –Na sexta feira telefonei para um amigo que me convidou para jantar e me deu um trabalho que começarei amanhã. Eu estava com muita raiva de você e com vontade de parar a análise, mas domingo quando pensei no novo emprego, comecei a ficar muito ansioso e com medo de começar a trabalhar. Lembrei das nossas conversas e percebi que precisava falar com você. Tem outra coisa que eu queria te contar, de sábado para domingo eu tive um sonho:
Sonhei que tinha um homem numa casa com vários andares e que estava matando as pessoas. Eu falava para ele parar, mas ele continuava, eu ficava olhando sem conseguir fazê-lo parar. Num determinado momento pensei em chamar a polícia, mas fiquei na dúvida se deveria ou não. Aí acordei assustado.
Peço associações ao sonho e entre elas Francisco diz que o homem cortava com uma faca o pescoço e os braços das pessoas. Digo que ele estava com muita raiva de mim e que talvez um Francisco nele quisesse me matar dentro dele, enquanto outro Francisco não queria. Digo que ao matar a relação comigo ele sentia que podia ficar sem possibilidade de pensar e sem possibilidade de conter os impulsos agressivos. Falo de uma vivencia de luta dentro dele, um lado que quer matar a relação e outro que quer comunicar as angústias e fortalecer o vínculo comigo. Isso o torna confuso. Mostro a ele que esse sonho é uma espécie de filme do seu mundo interno neste momento. Há um Francisco que olha passivamente outro Francisco matando um relacionamento. Está numa encruzilhada, pode pegar um caminho ou outro.
Francisco - Acho que sim. Eu estava com muita raiva de você, mas no domingo mudou pois percebi que tem muita coisa que eu quero falar para você.
Conta que tem muito medo de voltar a ter vida profissional e receio de perder os horários livres. Diz que nesses últimos dias voltou a ocupar-se com as fantasias masturbatórias no espelho.
Francisco - Hoje no espelho percebi como queria ser homem e mulher ao mesmo tempo. Nós já tínhamos falado sobre isso antes, mas hoje ficou mais claro, muito nítido. Eu estava na frente do espelho e comecei a pensar naquela cena no Nordeste. Eu me vi no quarto com a camareira. Como eu fico na frente do espelho, fiquei tentando ser a empregada me olhando no espelho, mas quando comecei a falar estragou tudo. Eu falava como se fosse ela me olhando e dizendo: “que penis gostoso! Que penis grande!” Mas quando comecei a falar e ouvi minha voz grossa, aí eu vi a loucura que estava fazendo. Me senti ridículo! Já fazia tempo que eu não tinha vontade de ir ao espelho….
Surge aqui de forma mais clara a expressão da dor pela perda da onipotência, ou seja, a constatação de que não dá para ser homem e mulher ao mesmo tempo, que a denegação da castração vai perdendo força, sendo revista e resignificada.
Nessa sessão podemos apreender certos movimentos do paciente. Aqui fica em evidencia a oscilação entre métodos alucinatórios e projetivos que são a expressão do repudio à dor mental e métodos mais sofisticados de pensamento (o sonho, por exemplo) nos quais a dor mental é considerada e suportada.
Com dois anos de análise, na época de seu aniversário, Francisco me conta que recebeu muitas demonstrações de carinho e atenção. Diferentemente do ano passado, não desliga o telefone nem evita o contato com as pessoas, porém sente-se estranho nesse momento. Fica ansioso, transpira muito quando os colegas do trabalho trazem um bolo de surpresa à sua sala. Acha estranho que não se alegra, nem consegue retribuir o afeto recebido, sente-se indiferente e frio a esses acontecimentos. Isso o intriga.
No final da sessão, na qual o analisando relatou esses fatos, eu me surpreendi cumprimentando-o pelo seu aniversário. Dou-lhe a mão pela primeira vez, digo algumas palavras e percebo que Francisco fica visivelmente emocionado. Faz um movimento de ficar de costas para mim, como se quisesse escapar logo da situação, porém em seguida me olha e me agradece com os olhos marejados de lágrimas.
Este acontecimento, enactment da analista, desencadeou certa ruptura de defesas rígidas. Essa “colocação em cena”, na qual o inconsciente do par analítico emerge parece criar uma contratransferência que contém elementos vitais da estória desse analisando. Talvez Francisco tenha vivido traumas em que, frente a olhares necessários, se davam as costas e ele, compulsivamente, repete esse ato, identificado com o objeto rejeitador (repete a mãe de costas olhando para a Alemanha nos seus primeiros anos de vida no Brasil?). Será que essa sua primeira reação é a repetição de dar as costas como as costas lhe foram dadas – e o olhar confundido com o não olhar é sentido como ser atacado (pelas costas)? Poderíamos conjecturar que o trabalho analítico realizado ao longo desses dois anos foi permitindo ao analisando reparar, aos poucos, a área traumática e, ao ser cumprimentado por mim (olhado) ele inicialmente reage como no trauma (dando as costas), mas as áreas recompostas lhe dão confiança para em seguida- olhar-me nos olhos e aceitar meu olhar sem sentir-se traumatizado.
O ato da analista toca profundamente o analisando que reage com emoção. Em um primeiro momento ele tenta fugir, vira-se de costas, mas imediatamente expõe a emoção sem reservas. Algo inédito nas suas relações com as pessoas se faz presente. Podemos dizer que esta ação da analista foi um enactment, pois se deu espontaneamente, sem reflexão, com um componente inconsciente que se expressou em ato.
Poderíamos conjecturar que se trata aqui daqueles enactments normais descritos por R. Cassorla (2005), que permitem contato profundo com áreas traumáticas, cuja compreensão permite ampliação de rede simbólica. Diz ele: “Stern e al (1998) efetuam hipóteses sobre movimentos intersubjetivos implícitos, que coexistem com o conhecimento explícito da relação transferencial. Esses movimentos desembocam no que esses autores chamam” momentos de encontro “(moments of feelings), que ocorrem quando cada participante (principalmente o analista) manifesta algo único e genuíno de si como indivíduo.”… “Esses momentos de encontro alteram o contexto intersubjetivo permitindo rearranjos nos processos defensivos”.
A elaboração do que foi mobilizado aqui, ficará mais evidente duas sessões após, quando digo a Francisco que por muitos anos ele tentou separar o que sentia do que mostrava,
não só para os outros, mas principalmente para ele mesmo. Digo que na sessão anterior revelou que era algo novo poder mostrar uma emoção de gosto e de satisfação para outra pessoa.
Francisco – Lembrei de um sonho estranho que tive essa noite, parece meio absurdo. Eu moro num apartamento pequeno, no meu sonho tinha o apartamento do vizinho desse lado (mostrando a parede do lado do divã). No sonho não tinha essa parede, como se tivesse ficado uma sala só, a minha com a do vizinho.
Sonho: Eu e a Joana saímos do meu apartamento que estava com a geladeira cheia de coisas gostosas. Aí o vizinho e os filhos começaram a comer o que eu tinha na geladeira. Havia um queijo que eu tinha comprado e eles estavam comendo quando voltei com a Joana. De repente não vi mais a Joana e me vi sentado, nu, em uma cadeira conversando com a vizinha. Eu estava me sentindo muito atraído por ela. A situação era boa, aí não me lembro mais.
Ao solicitar associações, Francisco diz que não conhece bem os vizinhos, mas acha que é um casal que se relaciona bem.
Faço referência a nossa relação analítica de cooperação e a experiência de ter-se desnudado emocionalmente na sessão do enactment da analista. Digo que essa vivência deu um sentimento de expansão dentro dele (uma parede que cai), o que é atraente, porém junto com a satisfação do momento aparece o temor e a ameaça de ser invadido, roubado naquilo de bom que tem dentro.
Alguns psicanalistas poderiam dizer que a ação da analista é um acting out no qual a analista seduz seu paciente ao gratificar desejos de ser querido e amado pelas pessoas. Eu acredito que o sonho que se segue ao enactment da analista pode ser uma resposta que contrarie essa suposição e que assinale algo mais na linha do que Laplanche chama de sedução generalizada, ou seja, uma libidinização parecida com aquela oferecida pelos objetos primários que propicia o aparecimento dos desejos no sujeito.
Achei interessante que, no sonho, é ele que está atraído pela vizinha, o que é muito diferente do que ocorria com as fantasias no espelho, em que era a mulher que estava sempre muito atraída por ele. Podemos pensar que há um investimento da libido objetal alimentando áreas de intercâmbio do ego com o mundo dos objetos externos e internos. Há um encadeamento de surpresas que acabou se repetindo na sessão. Ele foi pego de surpresa pela analista (nu, com as defesas rebaixadas). Poderíamos pensar que se sentiu assaltado pela analista que foi abrir a geladeira (elegeladeira ou geladeira-continente que preserva os alimentos-recursos estocados), franqueando o acesso a eles. No sonho, Francisco continuou processando o impacto emocional, e os afetos encontraram nesse caso símbolos imagéticos que entraram na rede simbólica do pensamento os quais, na sessão, puderem ser expandidos com novos significados. Apesar da surpresa e das emoções despertadas, Francisco demonstrou satisfação por poder experimentar e elaborar essas vivências na relação analítica. Essas vivências reiteram o nosso conhecimento da importância da qualidade dos vínculos entre o sujeito e o objeto para a constituição de uma base primitiva para o sonhar e o pensar criativos.
Com relação às experiências no espelho, podemos conjecturar que as imagens distorcidas de Francisco projetadas na tela mental da analista sofreram transformações graças à experiência da análise, o que não acontecia com a imagem projetada no espelho-artefato que só podia devolver a visão distorcida do narcisismo ou onipotentemente poderoso ou onipotentemente desqualificado.
Em “Narciso à procura de uma nascente”, J. MacDougall (1978) fala da fascinação de Narciso pelo seu rosto na água: “Pode ser que o encastelamento em si mesmo delimite um espaço impregnado de decepção e desespero; que a aparente autossatisfação de Narciso seja mera ilusão do observador. E não poderíamos supor que essa criança frágil, à espreita de uma imagem de si mesmo duplicada, procura avidamente nas pupilas maternas um reflexo destinado a devolver, não apenas a sua imagem especular, mas também tudo aquilo que ela representa para a mãe?… através de um olhar que fala, a criança poderá se reconhecer como sujeito com um lugar e um valor próprio”.
É possível que ao viver essas experiências na análise, Francisco pode encontrar um significado que não tinha antes, diminuindo o “splitting” da personalidade, permitindo um vínculo de vida e de expansão psíquica. Talvez pudéssemos conjeturar que na medida em que Francisco se sente olhado e considerado emocionalmente pela analista, ele pode liberar o desejo pela analista, sem risco de repetir e sucumbir a uma outra vivência
catastrófica (a mãe de costas olhando para a Alemanha) ou a um congelamento defensivo. Parece nos mostrar que já há no seu mundo interno um casal analítico que se relaciona bem. O surgimento de vários outros sonhos nos últimos meses expressa uma mudança significativa na forma de Francisco processar os impactos emocionais.
Francisco: “- Agora sim percebo como as pessoas são importantes para mim. Não tinha percebido como são importantes! Acho que fui longe demais nessa situação de me fechar, de fugir da realidade. Ontem com a Joana pensei que queria ser eu mesmo. Pela primeira vez aceitei ser eu mesmo e isso me deixou muito contente”.
Francisco começou um novo emprego mais estimulante para ele, não queria voltar para a Alemanha como um fracassado. No início foi muito difícil o relacionamento com os colegas do trabalho, a angústia era ainda forte, mas com o tempo foi ganhando maior confiança.
No terceiro ano de análise, sentindo-se mais fortalecido internamente, decidiu voltar a seu país de origem para trabalhar com o irmão que tinha uma empresa muito promissora. Esse ato, nesse momento, não era mais um acting out, mas uma escolha consciente, pois desejava voltar as suas raízes e enfrentar as dificuldades que o fizeram fugir da Alemanha.
Achei extremamente interessante observar nesse processo analítico, que os sintomas mais marcantes do início da análise -, ou seja, a compulsão a exibir-se (esfera da ação) e as fantasias alucinatórias terroríficas de assassinato (esfera perceptiva) - surgiram após dois anos de trabalho analítico no conteúdo dos dois sonhos relatados nesse texto. Em um deles Francisco vê um homem assassinando pessoas, no outro, vê-se nu conversando com uma vizinha. O que quero enfatizar é que houve uma mudança considerável na qualidade da comunicação: que do campo da sensualidade e da sensorialidade passou para o campo da representação mental. É possível dizer que estávamos trabalhando com o que W. R. Bion chama de “trabalho-onírico-alfa”, que transforma estímulos sensoriais (elementos beta) em elementos alfa, mais apropriados para o sonhar e o pensar criativos. (W. R. Bion, 1958/1979)
Na análise de Francisco, a questão do olhar e ser olhado e a questão do espelho se sobressaem como temas sempre recorrentes. Nos últimos meses o material clínico revelava varias situações emocionais nas quais o paciente podia ver-se melhor: no contato com mulheres, com amigos, com familiares, com colegas, em filmes, o que faz supor que, o espelho que utiliza nesse término de análise não é mais um artefato sem vida, mas sim é um espelho que tem vida emocional, porque agora são os olhos e as respostas emocionais de outros seres humanos que o refletem.
Como diz um personagem do filme argentino “O Segredo dos Teus Olhos”: “en una mirada se puede pasar un mundo!”.
SUMMARY
The author presents the psychoanalytical process of a patient with serious narcisistic pathology who trying to avoid an eminent psyquic colapse made use of “perverse” acts as a way to re-establish his precarious sense of existence. The splitting of the ego with clear symbolic deficits were expressed in the fragmentation of communication and acting out. This psychic configuration made evident the castration denial expressed in compulsive masturbatory fantasies in front of the mirror where he exposed his sexual ambiguity. When anguish was most terrible he presented the compulsion to exhibit his penis on the street. The split of the acts and emotions of the patient induced the analyst to an enactment (direct expression of affection) what contributed to psychic changes. It is noteworthy in this account, the appearance of dreams that show the dream-work of “pervers” acts.
KEYWORDS: enactment, acting out, projective identification, dreams, perversion, alpha-dream-work.
RESUMEN: La autora presenta el proceso psicoanalítico de un paciente con una seria patología narcisista que en el intento de librarse del eminente colapso psíquico, utilizaba actuaciones “perversas” como una forma de reestablecer su precario sentimiento de existencia. Inicialmente predominaban terrores persecutorios. La escisión del yo con claros déficits simbólicos eran expresados en la fragmentación de la comunicación y el pasaje al acto. Esta configuración psíquica evidenciaba la desmentida de la castración, representada por fantasías masturbatorias compulsivas ante el espejo, en que se jugaba la ambigüedad sexual. Cuando la angustia era más terrible, mostraba la compulsión a exhibir su pene en la calle. La escisión de actos y emociones del paciente, indujeron a la analista a un enactment (expresión directa de afectividad) que contribuyó a los cambios psíquicos. Es notable la aparición de sueños en que se comprueba la elaboración onírica de los actos “perversos”.
PALABRAS CLAVES: enactment, identificación proyectiva, sueños, perversión.