Este artigo nasceu da necessidade de aprofundamento da obra clássica de Freud, Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental (1911), por a consideramos originária por três vias: (1) originária e precursora da metapsicologia pois ao condensar as concepções anteriores de Freud, constitui-se como uma terceira revisão da descoberta psicanalítica, introduzindo, simultaneamente, muitos dos desenvolvimentos posteriores; (2) por ser neste texto que Freud formula a noção dos dois princípios originários que regem o funcionamento psíquico; e finalmente, (3) por ser também originária a investigação neste artigo, mas transversal a toda a obra, sobre o papel, na etiopatogenia, da realidade na estruturação do psiquismo, da função da fantasia (trauma real ou psíquico) e da relação entre prazer e desprazer. Realidade, fantasia e prazer são os conceitos chave do funcionamento psíquico, aos quais Freud se dedicará até ao final da sua vida. As ideias seminais aqui geradas, serão directamente revisitadas e ampliadas pelas escolas kleiniana e bioniana, e também, de forma mais indirecta, pela teorização winnicottiana.
O artigo enfatiza ainda, pelo decisivo entrelaçamento entre esta obra e a emergente institucionalização da psicanálise, uma quarta via também ela originária: o nascimento da International Psychoanalytical Association ocorrendo simultaneamente com as primeiras e as mais determinantes cisões com três dos pioneiros do movimento psicanalítico.
Para a elaboração deste artigo foi decidido utilizar não só a metodologia de leitura, como a estrutura formal dos capítulos, proposta por Jean-Michel Quinodoz (2004) no seu livro Ler Freud. Comunicámos-lhe a nossa iniciativa de escrever o que ele chamou um dos “missing chapters”, que ele apreciou e encorajou.
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association. Formadora do Instituto de Psicanálise da SPP. E-mail: .
Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: .
Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: .
Artigo recebido a 24 de Setembro de 2012. Aceite para publicação a 10 de Outubro de 2012.
Dada a importância da obra de Freud Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental (1911a) e sendo ela parte integrante da formação do Seminário Freud I do 1.° ano de formação oferecida pelo Instituto de Psicanálise da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, foi lançada uma proposta ao grupo de candidatos de 2010-2011: a elaboração conjunta de um artigo para o aprofundamento dessa obra, utilizando para tal não só a metodologia de leitura, como a estrutura formal dos capítulos, proposta por Jean-Michel Quinodoz (2004) no seu livro Ler Freud, onde esta não consta.
Contactámos Quinodoz, de um lado para lhe dar a conhecer este projecto e, de outro, para lhe perguntar qual a razão desta obra de Freud não ter sido seleccionada para o seu livro, ao que nos respondeu: “I left aside “The two principles…” as well as a lot of other Freudian texts in order to avoid overwhelming the readers. Nevertheless, I rely on their capacity to read the missing texts by themselves, even on their ability to complete the missing chapters, a task you and your candidates are doing now. They will learn a lot in writing themselves; I congratulate you for your nice initiative.” (J. M. Quinodoz, comunicação pessoal, 11 de Abril de ).
A elaboração conjunta deste “missing chapter”, será assim realizada no mesmo formato apresentado no livro de Quinodoz (2004) e, no sentido de evitarmos repetições, remeterá diretamente a alguns quadros de informações suplementares ali elaborados.
Em 1911 – há cem anos – Freud publica simultaneamente duas obras importantes: Notas Psicanalíticas sobre um Relato Autobiográfico de um Caso de Paranóia, conhecido como Caso Schreber, e Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental. Esta simultaneidade remete desde logo, para a relação intricada e permanente em Freud, de um lado, entre clínica e teorização – sendo os Dois Princípios, escrito paralelamente como um pequeno suplemento teórico ao caso – e de outro, entre a construção da sua obra e a relação com alguns protagonistas do cenário científico – “concebi-o para o Jahrbuch, escrevendo-o dois dias antes da chegada do seu “Simbolismo” mas de há muito, naturalmente, tudo já havia tomado forma em meu pensamento” (carta a Jung, 19 Junho 1910 – McGuire, 1974, p. 388). A relação com figuras idealizadas é transversal à descoberta psicanalítica e o lugar de interlocutor privilegiado antes
ocupado por Charcot, Brucke, Breuer e Fliess, pertence neste momento a Carl Gustav Jung. Os actos falhados de Jung e os dois desmaios de Freud na sua presença, revelam a ambivalência e a intensidade desta relação e são, como se sabe, assunto de vivo interesse psico-biográfico.
O “delfim ariano” acalentado esperançosamente por Freud como seu sucessor, salvando a psicanálise do anátema de ciência judia numa Europa anti-semita, acabou por ser também a mais dolorosa dissidência do movimento psicanalítico. Foi ele que apresentou a Freud a recém publicada autobiografia de Daniel Paul Schreber (Memórias de um Doente dos Nervos, ), que o encaminhou para a discussão da função da religião em Totem e Tabu (1913a) e que reactualizou o conflito de plágio com Fliess (neste caso, a propósito do conceito de bissexualidade), acusando Freud de se apropriar tanto das suas ideias sobre a divisão do pensamento em dois tipos, o simbólico e o verbal, como da sua noção filogenética do simbolismo. É nos Dois Princípios que, segundo Blum (2004), de variadas formas inconscientes se anuncia já a inevitável cisão, não só pelas questões ligadas às preocupações mútuas de plágio, mas também por aquelas ligadas ao parricídio, enfatizado pelos desejos de morte como um componente do conflito inconsciente, que este autor liga ao sonho de Jung acrescentado por Freud no final da obra. Sabemos bem que muitas das obras de Freud, são clarificações e delimitações científicas endereçadas, respostas a oposições, e integrações no seu pensamento de contribuições dos seus discípulos mais chegados, com quem discutia regularmente as suas ideias através da Sociedade das Quartas Feiras e através da sua permanente e intensa actividade epistolar.
Os Dois Princípios é um clássico da psicanálise e um texto condensado, na medida em que actualiza e relança questões ao próprio Freud introduzindo novos desenvolvimentos na sua obra. É uma obra onde Freud considera que “o predomínio do princípio de realidade está começando” e é “de natureza preparatória e exploratória” (Strachey, 1969, p. 275) constituindo-se como uma terceira revisão de suas conceptualizações prévias, ao mesmo tempo que lhe serve de base a formulações posteriores, como o narcisismo em 1914, a metapsicologia entre 1915-17 e a revisão do princípio de prazer em 1920. A primeira enunciação das suas hipóteses fundamentais, ainda em termos neurológicos, aparece no Projecto para uma Psicologia Científica (1895 – Secção 1, 15 e 16 da Parte I e Secção 1 da Parte III), enquanto o capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos (1900), constitui-se como a segunda formulação das suas concepções, enunciadas
agora em termos psicológicos. Os Dois Princípios e as ideias que veicula têm sido seminais e, como tal, revisitadas e ampliadas pela escola kleiniana com a sua teorização sobre a simbolização (ver Quinodoz, 2004, pp. 68-69, quadro A Escola Inglesa, do simbolismo primitivo à representação simbólica), por Winnicott e seus seguidores mais contemporâneos em relação à descoberta e elaboração da área intermédia dos fenómenos transicionais e, com maior abrangência ainda, na conceptualização bioniana sobre o pensamento (ver Quinodoz, 2004, p. 171, quadro W. R. Bion: criação do aparelho de pensar os pensamentos).
A tese principal da obra é a modificação do funcionamento psíquico com a introdução do princípio de realidade, ao lado do princípio de prazer, mencionado como tal pela primeira vez por Freud que o designava, anteriormente, como princípio de prazer–desprazer. A distinção e a articulação entre estes dois princípios que regem, respectivamente, o processo secundário e o processo primário, constitui-se na génese do pensamento, surgindo a área da imaginação e da fantasia, como forma de obtenção do prazer através da realidade. “Com a introdução do princípio de realidade, uma das espécies de actividade de pensamento foi separada” (Freud, 1911a, p. 281). Essa separação parece ter permitido tridimensionalizar a concepção do funcionamento psíquico – entre o prazer e a realidade, entre o subjectivo e o objectivo, entre o mundo interior e o mundo exterior – a que corresponde o mundo da fantasia, da imaginação, do devaneio, da interrelação permanente inter e intra psíquica, com o seu correlato de complexificação na evolução da própria psicanálise em direcção à segunda tópica e aos progressos que daí se originaram. “O artigo antecipou muitos desenvolvimentos posteriores importantes, na teoria psicanalítica e estimulou o pensamento sobre realidade versus fantasia, relações objectais, narcisismo e agressão (Blum, 2004, p. 240).
Ultrapassados o que caracterizou como os seus anos de “esplêndido isolamento”, de 1895 a 1910, finalizada a sua relação com Fliess e superada a fatídica “linha mortal de demarcação” (Schur, 1973, p. 307), em que Freud temeu, como idade crítica, os seus 51 anos, tinha começado a desenhar-se um novo período, por ele designado como “dias ensolarados” (Schur, 1973, p. 307), pelo início do reconhecimento internacional, de uma crescente segurança financeira e de férteis enriquecimentos científicos
na troca iniciada com aqueles que viriam a constituir-se como os pioneiros na expansão da psicanálise.
Em 1911, Freud com 55 anos, em termos pessoais, festeja as Bodas de Prata do seu casamento com Martha Bernays, no mesmo ano em que, curiosamente, se assinala o primeiro divórcio institucional no movimento psicanalítico nascente, com a dissensão de Alfred Adler. Como nos diz Jones (1961), este foi um ano de grande preocupação para Freud, marcado por essa primeira e violenta ruptura, foi também o ano do 3.° Congresso, em Weimar, o de maior sucesso, com 55 pessoas inscritas e onde se retomou o clima de cordialidade do 1.° Congresso, e foi ainda o ano da fundação do periódico Imago, que Freud deseja dedicar às aplicações “não-médicas” da psicanálise, uma vez que já se encontrava ocupado com as questões da religião que vai desenvolver em Totem e Tabu (1913a).
Freud começou a trabalhar nos Dois Princípios em 1910. Em 26 de Outubro desse ano apresentou uma versão inicial à recém-criada Sociedade Psicanalítica de Viena, cujo título era Über die zwei Principien des psychischen Geschehens. A recepção, de acordo com um comentário no dia seguinte numa carta a Ferenczi, não passou de “uma mistura de admiração tímida e de contradição estúpida” (27 Outubro 1910, Brabant, Falzeder & Giampieri-Deutsch, 1993, p. 229). O artigo foi publicado na primavera de 1911 constituindo as primeiras oito páginas do terceiro volume do primeiro periódico exclusivamente dedicado à psicanálise, o Jahrbuch für Psychoanalytische und Psychopathologische Forschung.
Na altura da publicação, o movimento psicanalítico estava em acelerada expansão, como nos enuncia uma carta a Jung de 12 Dezembro de 1909 (McGuire, 1974, p. 326): “É raro que se passem dois dias sem uma nova indicação, mesmo pequena, de que nossas ideias se difundem.” Freud tinha, nesta altura, conhecido todos os pioneiros. É, junto com esse grupo originário, que ele vai dedicar-se à formação do seu crescente número de adeptos e à organização da instituição psicanalítica, retirando-a do ambiente de semi-clandestinidade e do clima de conspiração derivado da constante hostilidade em que estava submersa pela cultura vienense do final de século. O império austro-húngaro, monárquico e católico, sem instituições democráticas, com um marcado preconceito face às minorias étnicas e com uma pobreza que se alastrava, transforma-se, paradoxalmente, numa “Grécia” da modernidade, pela sua incrível diversidade multicultural e a sua exuberância em todos os campos das artes e das ciências.
A fundação de novas sociedades locais, a criação de jornais de especialidade, a regularidade das conferências internacionais e a criação da International Psychoanalytical Association, demonstram o vigor de um movimento científico jovem e promissor. No entanto, o crescente reconhecimento e sucesso eram postos à prova, como relata Freud numa carta a Jung de 25 Janeiro 1909 (McGguire, 1974, p. 252): “Sei muito bem que, deixando os primeiros sucessos para trás, logo um psicanalista envereda por uma fase dura e mais amarga durante a qual há de maldizer a psicanálise e o criador dela. Mas depois as coisas se ajeitam e ele chega a um modus vivendi. Esta é a realidade! C'est la guerre”. Por um lado e internamente, começam a emergir conflitos que resultaram nas dissensões de Alfred Adler em 1911, na de Wilhelm Stekel em 1912 e, mais significativamente, na de Carl Gustav Jung, em 1913 (Gay, 1998; Bos & Groenedijk, 2007). Externamente, intensificou-se a hostilidade que chegava dos circuitos académicos, onde Freud era considerado persona non grata, e a rejeição activa de profissionais ligados à psiquiatria e à psicopatologia, tais como Pierre Janet em França, Emil Kraepelin, na Alemanha e Eugen Bleuler, na Suíça.
A presença destas ameaças, levou à constituição em 1912 de um Comité Secreto – constituído pelo próprio Freud, Sándor Ferenczi (ver Quinodoz, 2004, pp. 132-133, quadro Sándor Ferenczi), Karl Abraham (ver Quinodoz, 2004, pp. 165-166, quadro Karl Abraham), Ernest Jones (ver Quinodoz, 2004, pp. 188-189, quadro Ernest Jones), Otto Rank (ver Quinodoz, 2004, pp. 239-240, quadro Freud e Rank), Hans Sachs e mais tarde, em 1919, Max Eitingon – cujo objectivo era proteger a causa psicanalítica (Gay, 1998).
Na Figura 1, encontramos numerados (Sociedades – círculos/Conferências – quadrados) os desenvolvimentos mais importantes do movimento psicanalítico entre 1907 e 1913 (Jones, 1961; Gay 1998).
Em 1908, a Sociedade Psicológica das Quartas-feiras (1), iniciada por Freud em 1902, foi transformada na Sociedade Psicanalítica Vienense (3), que nessa altura já não era a única organização psicanalítica. C. G. Jung em 1907, fundou a Sociedade Freudiana em Zurique (2). Ainda em 1908 em Salzburg, realizou-se o Primeiro Congresso de Psicologia Freudiana (4), com 42 pessoas reunidas, e quatro meses depois, K. Abraham fundou a Sociedade Psicanalítica de Berlim (5).
Em 1909, sob a edição de Jung, foi publicado o primeiro volume do Jahrbuch für Psychoanalytische und Psychopathologische Forschung. Nesse
mesmo ano, Freud foi galardoado com doutoramento honoris causa na Universidade de Clark em Worcester, EUA, onde, a convite de Stanley Hall, nas celebrações do vigésimo aniversário da universidade, proferiu as famosas Cinco Lições de Psicanálise , leitura que continua a ser uma excelente iniciação à obra psicanalítica.
No ano de 1910, presidido por Jung, num ambiente tempestuoso, realizou-se o 2.° Congresso Internacional de Psicanálise (6) em Nuremberg. É ali também, que a ideia lançada por Ferenczi se materializa, nascendo a International Psychoanalitschen Vereinigung (IPA), para a qual Jung é nomeado para Presidente. (ver Quinodoz, 2004, p. 136, quadro O Papel Actual da Associação Psicanalítica Internacional). Para contrabalançar o desagrado dos vienenses com o crescente protagonismo do grupo de Zurique, Freud demitiu-se da presidência da Sociedade Vienense e propôs A. Adler para o posto sendo W. Stekel eleito vice-presidente. Este ano contou ainda com a criação de um novo periódico mensal, o Zentralblatt für Psychoanalyse cujos editores eram Freud, Adler e Stekel.
Em 1911 foram criadas duas organizações nos Estados Unidos, a Associação Psicanalítica Americana (7) e a Sociedade Psicanalítica de Nova York (8). Realizou-se o 3.° Congresso Internacional de Psicanálise em
Weimar (9) e nessa altura a IPA contava já com 106 membros registados. É ainda o ano da fundação por Freud da Imago.
Em 1912 o primeiro volume do novo jornal, Imago, é publicado e Freud funda o Zeitshtift für ärztliche Psychoanalyse, um periódico que irá ocupar o lugar do Zentralblatt. Atestando o lugar e a importância que Freud dava a Jung, neste ano não se organiza o Congresso, uma vez que Jung se ausentou para dar palestras em Nova York e Freud não concebia um Congresso Internacional sem a presença do seu Presidente.
Em 1913, Ferenczi funda a Sociedade Psicanalítica Húngara (10).
Com a expansão da psicanálise, Freud deixou de ser o único psicanalista do mundo para se transformar no líder de um movimento internacional cujo objectivo consistia em aprofundar, divulgar e perpetuar o conhecimento e a prática psicanalítica. Como ele próprio nos diz (Freud, 1914a, pp. 41-42): “A partir de 1907, quando as escolas de Viena e Zurique se uniram, a psicanálise tomou o extraordinário impulso cujo ímpeto ainda hoje se sente; isto é indicado tanto pela difusão da literatura psicanalítica e pelo constante aumento do número de médicos que a praticam ou estudam, como pela frequência com que é atacada em Congressos e Associações eruditas. Penetrou nas terras mais distantes e por toda a parte não somente deixou perplexos os psiquiatras, como dominou a atenção do público culto e de investigadores de outros campos da ciência. Havelock Ellis, que tem acompanhado seu desenvolvimento com simpatia, embora sem jamais se intitular um adepto, escreveu em 1911 num relatório para o Congresso Médico da Australásia: “A psicanálise de Freud é agora defendida e praticada não somente na Áustria e na Suíça, como também nos Estados Unidos, Inglaterra, Índia, Canadá, e, não duvido na Australásia.” Chemouni (1990), comenta que os ecos da expansão nesta época, faziam-se já ouvir em vários outros países da Europa (Rússia, França, Itália, Noruega, Grécia, Holanda, Bélgica e Polónia), da América Latina (Brasil e Chile) e a Oriente, no Japão.
O Hospital Psiquiátrico Universitário de Zurique, mais conhecido por Clínica de Burghölzli, foi o primeiro hospital psiquiátrico a adoptar as teorias freudianas como linhas orientadoras para a investigação e intervenção institucional. Entre 1904 e 1913, sob a direção de Eugene Bleuler e catalisado pelo entusiasmo de Carl Gustav Jung, este centro de investigação internacionalmente reconhecido desempenhou, temporariamente, um papel determinante na defesa e na divulgação da psicanálise.
Burghölzli abriu as suas portas em 1870. Após uma década de mudanças conflituosas de directores (Bernhard von Gudden , Gustav Huguenin , Eduard Hitzig [1875-1879]), um jovem psiquiatra de 31 anos, August Forel , com apenas dois anos de experiência em psiquiatria, estabeleceu uma estabilidade e uma dinâmica institucional que rapidamente conquistou reputação internacional. O sucesso de Forel deveu-se, em grande parte, à sua capacidade de estabelecer uma ponte entre abordagens orgânico-experimentais vigentes e abordagens psicoterapêuticas emergentes, uma vez que já conhecia os trabalhos de Breuer e Freud, abrindo assim caminho a seu sucessor.
As próximas três décadas do hospital foram marcadas por Eugene Bleuler que abandonou completamente as especulações sobre etiologia orgânica, aproximando-se das teorias freudianas no estudo das perturbações mentais. Influenciado pelo entusiasmo do seu assistente Carl Gustav Jung, foi criando terreno fértil para novas possibilidades terapêuticas. Como nos diz Geissmann (1998, p. 24): “Bleuler e Jung pensaram que poderiam chegar às raízes do problema da esquizofrenia (ainda chamada de dementia praecox por Jung) usando esta nova teoria. Bleuler correspondeu-se episodicamente com Freud a partir de 1904 e Jung manteve uma correspondência regular de 1906 a 1912. Através destes poucos anos, a Clínica Burgholzli pareceu ser mais atractiva que Viena, com as visitas de Karl Abraham, Max Eitingon, Ernest Jones e Sándor Ferenczi. Todos estes pioneiros, irão para Viena mais tarde.” Bleuler nunca se associou à IPA, o que muito decepcionou Freud, e nunca se associou inequivocamente à psicanálise, escrevendo artigos ora apoiando, ora criticando. Essa sua hesitação foi ironicamente comentada por Freud: “…não era de estranhar que desse tanta importância ao conceito de ambivalência que havia introduzido no campo da psiquiatria.” (Jones 1961, p. 420). Em 1913, Bleuler acaba por se distanciar definitivamente da obra de Freud devido a um misto de desentendimentos científicos e conflitos pessoais. (ver Quinodoz 2004, p. 120, quadro Evolução dos Conceitos Freudianos).
A passagem da psicanálise por Zurique, foi “um intenso, ainda que curto, namoro entre a psicanálise, a academia e a psiquiatria na Europa” (Falzeder, 2007, p. 346). Ainda que temporária, foi importante a vários níveis, que acabaram, no entanto, por não se mostrar tão promissores como o entusiasmo inicial fazia crer. Jung e Bleuler, arianos num meio científico suíço cristão, libertariam a psicanálise de continuar a ser considerada ciência judia numa época de violento anti-semitismo. A crescente internacionalização da psicanálise foi reforçada através da primeira
presidência de Jung da recém-criada IPA, abrindo fronteiras além Viena na direcção da Europa e dos E.U.A. Bleuler foi o primeiro professor universitário a endossar os pontos de vista freudianos, fazendo a ponte tão desejada, ainda que sempre em vão, por Freud, entre a academia e a psicanálise. A Clínica Burgölzli permitiu de um lado, a aplicação da psicanálise a nível institucional, experimentando-se pela primeira vez, terapêuticas não orgânicas e, de outro, fazendo parte da Universidade, aproximou a psicanálise da psiquiatria e de alguns dos investigadores que por ali passaram e posteriormente se ligarão ao movimento psicanalítico. Através do Caso Schreber, apresentado por Jung a Freud, e da esquizofrenia (dementia praecox), investigada por Bleuler, ponto onde acaba aliás por divergir com Freud, a psicanálise faz a sua introdução ao estudo da psicose. Na apreciação de Mannoni (1968, pp. 132-133), “se a escola de Zurique teve algum papel na extensão da psicanálise às psicoses, isto não se deu graças a Jung nem a Bleuler, mas a Abraham sobretudo através da sua discípula Melanie Klein. Como Abraham foi o primeiro a perceber, a ruptura com Jung era inevitável”.
Actualmente a Clínica Psiquiátrica Universitária de Zurique (CPUZ, n.d.) é um hospital psiquiátrico moderno com 313 camas e com uma rede ampla de serviços ambulatórios e semi-ambulatórios para todos os sectores de psiquiatria. Além dos serviços oferecidos à comunidade, o hospital mantém viva a sua tradição em investigação e no ensino oferecendo uma vasta gama de cursos de formação e tendo a sua própria escola de enfermagem (CPUZ, n.d).
(carta de Freud ao Pastor Pfister, 16 Outubro 1910 – Freud & Meng, 1963, pp. 82-83)
O ano de 1911 e os dois seguintes, marcaram as três primeiras dissidências do movimento psicanalítico, revelando muitas das dificuldades que se perpetuariam ao longo da construção científica do seu edifício e da gestão e organização, não só de um número cada vez mais alargado de adeptos, como da expansão internacional que aglutinava diferentes culturas, numa Europa em franca transformação histórica. Até agora tinham sido “todos homens, todos judeus e todos do grupo vienense” (Falzeder, 2007, p. 343).
Freud encontrava-se agora frente à tarefa de preservar e desenvolver a sua obra com a contribuição dos pioneiros, ao mesmo tempo que geria
diplomaticamente os lugares de poder e as rivalidades acesas que se criaram, nesta época, entre Viena (Alfred Adler e Wilhelm Stekel) e Zurique (Carl Gustav Jung). Escreve na carta de 14 Março de 1911 a Biswanger (Handlbauer, 1998, pp. 110-111): “Quando o reino que fundei ficar órfão, o único herdeiro deverá ser Jung. Como você pode ver, o meu plano segue incansavelmente esse objectivo e a minha conduta com Stekel e Adler se adequa a esse mesmo sistema.”
A produção das duas principais obras que se seguem aos Dois Princípios, são consideradas por Freud, uma discussão científica sobre as opiniões divergentes: Totem e Tabu (1913a), em que Freud, para se demarcar das concepções de Jung, mergulha na sua área de eleição, como ele mesmo assume: “Porque, por mil diabos, teria eu que me deixar sugestionar a segui-lo nessa área.” (carta a Jung, 12 Novembro 1911 – McGuire, 1974, p. 508); e Sobre o Narcisismo (1914b), onde revê a sua teoria pulsional, e a considera um “científico ajuste de contas com Adler” (carta a Ferenczi, 17 Junho 1913, Brabant, Falzeder, & Giampieri-Deutsch, 1993, p. 492).
Em 1914 publicou Contribuição para a História do Movimento Psicanalítico, um texto destinado a esclarecer, contrapondo a adlerianos e junguianos, o seu ponto de vista no desenrolar das cisões. Diferenciando da psicanálise os desenvolvimentos teóricos destes, impede-os assim de continuarem a nomeá-los como tal. “Para concluir quero expressar o desejo de que a sorte proporcione um caminho de elevação muito agradável a todos aqueles que acharam a estada no submundo da psicanálise desagradável demais para o seu gosto. E possamos nós, os que ficamos, desenvolver até o fim, sem atropelos, nosso trabalho nas profundezas” (Freud, 1914a, p. 82). Mas se, como nos diz Chemouni (1990, p. 103), colocarmos em perspectiva a história do movimento psicanalítico, “as cisões espantam menos que a riqueza das controvérsias que não redundaram em rupturas ou exclusões”.
Nasceu em Viena, numa família comerciante de cereais e judia, cuja condição acaba por renegar, convertendo-se ao cristianismo. Sofria de um raquitismo grave e foi portanto uma criança frágil, como nos conta Zimerman (2001, p. 21): “Este fato, segundo os seus biógrafos, o deixava em estado de inferioridade em relação ao seu irmão mais velho (que significativamente se chamava Sigmund), ao qual ele tenta superar com outros
recursos. A inferioridade orgânica veio a tornar-se uma noção básica da doutrina adleriana.” Forma-se em Medicina em 1895 e interessa-se inicialmente pelas questões sociais. Como entusiasta socialista, foi o primeiro a conceber uma ligação entre o marxismo e a psicanálise, tornando-se compreensível a sua elaboração teórica dos aspectos sociológicos conscientes.
Conheceu Freud em 1902, e começou a frequentar as reuniões da Sociedade das Quartas Feiras, tornando-se um dos membros mais activos e original desse pioneiríssimo núcleo. Permaneceu no círculo freudiano durante nove anos, e realizou diversas comunicações nas reuniões e congressos que se seguiram. Com a criação da IPA em 1910, passa a ser considerado o homem de confiança do grupo psicanalítico vienense e com Stekel é co-redactor do Zentralblatt, fundado nesse mesmo ano. No entanto, nos congressos de Salzburg e de Nuremberg, Freud demonstrou uma extrema preferência pelo seu discípulo Carl Gustav Jung, nomeando-o primeiro presidente da IPA, atitude que provocou revolta e ciúmes dos seus colegas vienenses, especialmente de Adler. No Outono de 1910, Freud demite-se de presidente da Sociedade Vienense dando o seu lugar a Adler como forma de apaziguamento, contudo, já tinham começado a manifestar-se divergências fundamentais entre as suas posições teóricas e as de Freud.
Torna-se o primeiro dissidente do movimento psicanalítico, em 1911, quando se demite da IPA, com outros nove membros. A 22 de Fevereiro, Adler e Stekel, apresentaram as suas demissões como presidente e vice-presidente da Sociedade Psicanalítica de Viena, mas apenas em Outubro do mesmo ano renunciaram à Sociedade. As suas concepções tornam-se inconciliáveis com a psicanálise, na medida em que abandonando as noções de inconsciente, de recalcamento e de sexualidade infantil, caminham assim para uma elaboração teórica da psicologia do Ego, da relação social e da adaptação. As obras fundamentais de Adler na cisão com a psicanálise são em 1907, A Compensação Psíquica do Estado de Inferioridade dos Órgãos, e em 1912, O Temperamento Nervoso (cf. Roudinesco & Plon, 1997).
Funda a sua escola em 1912, inicialmente denominada de Psicanálise Livre e que passou em 1913, a ser definitivamente chamada de Sociedade de Psicologia Individual, onde cria a sua própria publicação. A sua psicologia, como nos diz Helmut Gröger (Mijolla, 2002, p. 27), baseava-se no Eu e “considerava o indivíduo na sua totalidade, incluindo os aspectos sociais e sociológicos…, e o desenvolvimento psíquico, como a formação de um plano de vida inconsciente, na verdade um estilo de vida,
desde os primórdios da infância”. O eixo central da sua teorização sobre a neurose, é o “complexo de inferioridade” que surge pela dependência orgânica e psicológica. Para compensar esse sentimento, a criança busca o poder e a supremacia, através da demonstração de uma superioridade na relação com os outros, o “protesto viril ou masculino”. A neurose seria a consequência do fracasso desse protesto.
Adler é pioneiro em contribuições ligadas à pedagogia, às consultas psicopedagógicas e ao trabalho com grupos de professores, uma vez que trabalhava no Instituto Pedagógico de Viena desde 1924. Realiza várias conferências bem sucedidas nos EUA, onde recebe dois títulos honoris causa e para onde emigra em 1935. Tem vários livros de conferências destinadas ao público mais vasto, e as suas principais obras são segundo Zimerman (2001, p. 21): Teoria e Prática da Psicologia Individual , a Psicologia da Criança Difícil e o Sentido da Vida .
Caracterizada por uma extrema violência, com graves insultos pessoais trocados entre os dois ao longo de bastante tempo, a ruptura entre Freud e Adler é comentada por Jung na sua autobiografia (1961, p. 139): “Freud mostra como o objecto sucumbe ao instinto, Adler, como o homem utiliza o instinto para violentar o objecto.”
Nasceu numa província da Roménia, oriundo de uma família de comerciantes judeus ortodoxos de língua alemã. Estuda medicina em Viena, onde segue a sua carreira como clínico geral e trabalha durante algum tempo na clínica psiquiátrica de Krafft-Ebing.
Stekel conhece Freud em 1901, mas antes ainda dessa data, Freud cita o seu artigo de 1895, O Coito das Crianças, no trabalho de 1896 sobre a etiologia da histeria. Em 1902 como jornalista médico do Neues Wiener Tagblatt, Stekel publica um artigo elogioso sobre a Interpretação dos Sonhos. Torna-se um dos discípulos de Freud e juntamente com Max Kahane, Rudolf Reitler e Alfred Adler constituem em 1902 o primeiro núcleo psicanalítico – a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras –, sugerida por ele a Freud. Além de fundador, foi durante dez anos, um dos seus membros mais activos, participando entusiasticamente dos grandes acontecimentos na origem do movimento psicanalítico e tornando-se co-redactor ao lado de Adler, do Zentralblatt für Psychoanalyse.
A sua divergência e ruptura com o movimento psicanalítico em 1911 quando, seguindo Adler, abandona a vice-presidência da Sociedade Vienense, da qual se demite formalmente em 1912, está ligada à organização do Zentralblatt e às suas críticas à posição de Freud quanto às neuroses actuais. Volta também a repetir-se o motivo gerador do conflito entre Fliess e Freud, ou seja, a apropriação e uso de ideias por este último. Com Stekel, estava em causa o conceito de Thanatos, que foi o primeiro a conceber em oposição à pulsão de vida: “Defendeu com ardor o ponto de vista segundo o qual todas as neuroses são psiconeuroses e antecipou de vários anos certas teorias de Freud, particularmente sobre a sexualidade infantil e o instinto de morte” (Clark-Lowes, 2002, p. 1795).
Cria em 1923 o Instituto de Psicanálise Activa, grupo independente onde difunde as suas ideias sobre a técnica psicoterapêutica, além de fundar e dirigir algumas revistas nessa área. Assim como Ferenczi, foi um dos primeiros a criticar “as intermináveis análises freudianas” e a propor um modelo baseado nos princípios da técnica activa, de psicoterapia breve, concordante com o que conhecemos hoje como psicoterapias de apoio.
Stekel tenta posteriormente retornar à Sociedade, mas Freud não lhe permite por considerá-lo um discípulo incómodo. Ainda que valorizasse a sua imaginação e capacidade inventiva, e o considerasse “um psicólogo naturalmente dotado com inusitado faro para detectar material reprimido” (Jones, 1961, p. 479), temia pela abordagem científica que nem sempre considerava suficientemente rigorosa e pelos seus traços de personalidade. Ao contrário de Adler e Jung, Stekel continuará sempre a ser um adepto e incansável divulgador da psicanálise, reunindo discípulos e fazendo uma carreira de sucesso, como atesta a sua vasta obra em dez volumes, essencialmente dedicada à psicopatologia das pulsões e emoções, além de centenas de artigos e ensaios.
Quando do Anschluss, em 1938, refugia-se na Suíça, indo mais tarde para Londres, onde se estabelece em termos clínicos, proferindo inúmeras conferências públicas. Acaba por suicidar-se em 1940 em Londres devido a uma gangrena no pé oriunda dos diabetes de que sofria, e por não suportar a ocupação nazi que se espalha pela Europa.
Remetemos para os dois quadros biográficos no livro de Quinodoz (2004, p. 90, ver quadro Carl Gustav Jung e p. 138, ver quadro A Caminho da
ruptura com Carl Gustav Jung), retomando aqui apenas os momentos principais da relação de seis anos entre Jung e Freud, e dos motivos da ruptura que constituiu, para Freud, um acontecimento importante quer do ponto de vista pessoal, quer do ponto de vista científico.
Em 1900 Jung tornou-se assistente de Bleuler, na clínica do Hospital Burghölzli, que lhe apresentou as ideias de Freud. De acordo com McGuire (1974), Jung teria lido a Interpretação dos Sonhos em 1900, sem perceber a obra. Voltou a ela em 1903 e de fato, na maior parte das suas publicações entre 1902 e 1905, existem referências a Freud. Em 1905 experimentava o teste da associação verbal, em contacto com Bleuler. Em 1906 inicia-se uma correspondência de aproximadamente quatrocentas cartas trocadas entre Freud e Jung. Durante dois ou três anos a admiração que Jung sentia por Freud e a sua obra eram ilimitadas. Freud sentiu rapidamente que Jung seria o seu sucessor e herdeiro da psicanálise. Depositou grandes esperanças nele que, como ariano e cristão, a libertaria do estigma de ciência judia. Sentia-se fortemente atraído pelo carisma da sua personalidade e o brilhantismo da sua inteligência, que se distinguia ainda dos seus discípulos, pelo seu vasto conhecimento de mitos, simbolismo, literatura e filosofia de diferentes culturas, assim como pela sua experiência com psicóticos. Iniciou-se um debate entre Freud, Jung e Bleuler sobre o estatuto da esquizofrenia, e sobre a questão do autoerotismo e do autismo (termo criado por Breuer). Em 1907, conhece Freud em Viena e este lendário encontro entre os dois, é descrito por Jung (1961, p. 135): “Conversamos a partir da uma hora da tarde, quase ininterruptamente, durante treze horas. Freud era a primeira personalidade verdadeiramente importante com a qual me relacionava”. Estabeleceu-se desde logo uma relação caracterizada como originária, por Jung, que “tomava o encontro com Freud como o ponto alto de toda a sua vida… e afirmou-lhe que quem quer que tivesse adquirido conhecimento da psicanálise havia comido da árvore do Paraíso, e com isso ganho o poder da sabedoria” (Jones, 1961, p. 390). Em 1908, Jung participa já no primeiro Congresso psicanalítico em Salzburg. Em 1909, juntamente com Sándor Ferenczi, acompanha Freud aos Estados Unidos. Em 1910, no segundo Congresso, o de Nuremberg, é eleito o primeiro presidente da recém-nascida International Psychoanalytical Association. Jung envia a Freud um exemplar das Memórias de um Doente dos Nervos, do juiz Daniel Paul Schreber, sobre a história dos seus delírios mentais, esperando que estas eventualmente “o convencessem das origens tóxicas das psicoses”. Freud aborda o discurso delirante segundo o modelo dos sonhos, e atribui a paranóia a uma
As controvérsias com Adler e Jung, levaram Freud a aprofundar o seu estudo sobre o narcisismo. De um lado, em oposição às questões sociais enfatizadas por Adler e, de outro, opondo-se ao monismo libidinal defendido por Jung, em contraste com o ponto de vista objectal de Freud. Como ele próprio refere, segundo Mannoni (1968, p. 140), a psicanálise continuará sempre exposta a que novas teorias sejam “geralmente obtidas tomando-se a parte pelo todo. De uma combinação de grande
complexidade, destaca-se uma parte dos factores efectivos, apresentando-os então como a verdade total. Em prol dessa verdade, repudia-se o resto, ou toda a combinação. Observando-se mais de perto, vê-se a que grupo de factores se deu preferência: aquele que contem um material já conhecido a partir de outras fontes. Jung escolhe os conflitos actuais e a regressão e Adler os motivos egoístas“.
As páginas indicadas nesta secção remetem ao texto Freud, S. (1911a). Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. XII, pp. 233-246. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.
A tese principal do texto, desdobrada em oito formulações, “como uma espécie de memorando metapsicológico” (Assoun, 2009, p. 580), centra-se como nos diz Freud, nas “consequências psíquicas da adaptação ao princípio de realidade” (p. 286): como se articulam os dois princípios que passam a reger o funcionamento psíquico – o de prazer-desprazer e o de realidade –, que para Assoun (2009, p. 578) são “duas formas de um princípio, o segundo, especificando o primeiro”; exemplifica a progressiva articulação desse duplo princípio do desenvolvimento psíquico, através da religião, ciência, educação e arte; apresenta o que os caracteriza como processo primário (representação de coisa) e secundário (representação de palavra) e, finalmente, demonstra a génese da fantasia face à realidade, uma vez que o aparelho mental se constitui frente à necessidade de agir e transformar a realidade frustrante nascendo, onde era alucinação, uma nova área do pensamento, a da fantasia.
O argumento principal que Freud nos apresenta nesta obra, é como o adoecer psíquico, leva e é causado pela alienação da realidade que se apresenta intolerável, e o seu objectivo no texto é o de investigar a relação não só dos neuróticos, mas do homem em geral, com a realidade. Freud retoma e precisa a questão da capacidade para distinguir entre realidade e sonho, sintoma e alucinação. Introduz-nos de seguida ao princípio de prazer que rege o único tipo de processo mental do funcionamento primordial da mente, ou seja os processos inconscientes ou primários, que buscam o prazer e se afastam de tudo o que possa causar desprazer.
Este modo de funcionamento é incapaz de tolerar a modulação de desejos ou retardar a sua satisfação. Tal como nos sonhos, “tudo que havia sido pensado (desejado) foi simplesmente apresentado de maneira alucinatória” (p. 278). A frustração da satisfação desejada de maneira alucinatória, obriga o psiquismo a “empenhar-se por efectuar uma alteração real” (p. 279) e esse “passo momentoso”, ou seja, o estabelecimento do princípio de realidade, é demonstrado por Freud numa “ficção” através da qual “o que se apresenta na mente não era mais o agradável, mas o real, mesmo que acontecesse ser desagradável” (p. 279). O conceito de realidade deixa de estar ligado à percepção em si mesma, para passar a ser um princípio regulador da actividade psíquica. Através do exemplo do ovo de um pássaro, como um sistema que quase se satisfaz autísticamente por encerrar em si o alimento, mas que necessita exteriormente do calor da mãe, Freud descortina em esboço a teoria da relação objectal para a qual evolui a partir desta obra.
Freud descreve aqui uma série de adaptações do aparelho psíquico frente às novas exigências da realidade, e o motor dessas transformações é a insuficiência da alucinação para satisfazer as necessidades. É necessário tomar consciência da realidade e desenvolver capacidades para agir sobre ela, passando “a consciência a abranger qualidades sensórias, em acréscimo às qualidades de prazer e desprazer…, para pesquisar o mundo externo” (p. 280). Surgem assim as funções da atenção, da notação, “uma parte do que chamamos memória”(p. 280), da passagem de julgamento imparcial ou acto de julgamento, a passagem da descarga motora à acção e finalmente o processo de pensamento, todas elas desempenhando conjuntamente um novo papel adaptativo do psiquismo. A evolução do pensamento permite assim ensaiar acções sem as executar, tornando-se esta nova forma de pensamento, perceptível à consciência, quando se liga a resíduos verbais (representação de palavra). “O pensar foi dotado de características que tornavam possível ao aparelho mental tolerar uma tensão aumentada de estímulos, enquanto o processo de descarga era adiado” (p. 281). Isso significa que as necessidades e desejos podem ser parcialmente satisfeitos, mas mais importante, podem ser adiados via pensamento. Os processos secundários – identidade de pensamento (representação de palavra) assim constituídos, funcionam com base no princípio de realidade, emergem com a maturação da mente e constituem os alicerces para o desenvolvimento
do pensamento. No entanto, e apesar destas novas funções adaptativas, uma parte significativa da mente, o inconsciente, preservou o funcionamento originário e continua a tratar a fantasia como realidade, por meio do processo primário – identidade de percepção (representação de coisa).
Como distinguimos entre fantasia e realidade, é a questão que Freud se coloca desde o Projecto. Segundo Amaral Dias (2000), é neste texto que o problema é colocado explicitamente. Trata-se de uma reviravolta metapsicológica de importância capital, um duplo princípio do desenvolvimento psíquico que rege a economia psíquica. Freud apresenta-nos, pela primeira vez, o teste de realidade do qual, “com a introdução do princípio de realidade, uma das espécies de actividade de pensamento foi separada… permanecendo subordinada somente ao princípio de prazer” (p. 281). A fantasia surge assim como uma reserva natural do princípio de prazer. A introdução do princípio de realidade leva a psique a entregar-se a uma actividade dissociada, unicamente sob o princípio de prazer, escapando ao teste de realidade. Surge logo nas brincadeiras das crianças e, mais tarde, desligando-se da necessidade de objectos reais, passa a existir como devaneio. Esta área da fantasia, virá a ser proficuamente elaborada pelos kleinianos nas famosas “controvérsias” e vai ser amplamente desenvolvida por Winnicott e seus seguidores, em termos da conceptualização teórica dos fenómenos transicionais e das suas repercussões na técnica.
A transição de um funcionamento mental para o outro é progressiva e não ocorre nem simultânea nem totalmente. A transformação do funcionamento afecta sobretudo as pulsões do ego porque as pulsões sexuais, no início, dada a sua natureza auto-erótica, são menos sensíveis às imposições da realidade. Elas encontram satisfação no próprio corpo. Quando o seu alvo começa a ser deslocado para um objecto externo, surge o período de latência interrompendo o desenvolvimento. A realidade só começa portanto a ter peso no desenvolvimento das pulsões sexuais a partir da puberdade. “Estes dois factores – auto-erotismo e período de latência – ocasionam que o instinto sexual seja detido em seu desenvolvimento psíquico e permaneça muito mais tempo sob o domínio do princípio de
prazer, do qual, em muitas pessoas, nunca é capaz de se afastar… Surge uma vinculação mais estreita entre o instinto sexual e a fantasia por um lado e, por outro, entre os instintos do ego e as actividades da consciência” (p. 282). Mesmo nessa altura, o fantasiar, o bastião do princípio de prazer, oferece uma via rápida para a satisfação em comparação com o caminho, por vezes sinuoso, da realidade que exige esforço e adiamento. Como na fantasia a repressão permanece omnipotente, Freud considera esta actividade como o ponto fraco de uma mente racional. É de onde potencialmente se desencadeia, frente à possibilidade de desprazer, ou seja, frente às frustrações impostas pela realidade, a restituição ao domínio do princípio de prazer de um funcionamento mental mais evoluído. Até na mente em que o princípio de realidade atinge seu pleno desenvolvimento, encontramos actividades impregnadas pelo princípio de prazer como, por exemplo, o fantasiar.
Às dualidades, princípio de prazer – princípio de realidade, pulsões sexuais – pulsões do ego, fantasia – consciência, Freud opõe agora o ego-prazer ao ego-realidade, assunto a que voltará a dedicar-se em 1915, no texto metapsicológico Os Instintos e suas Vicissitudes. “Tal como o ego-prazer nada pode fazer a não ser querer, trabalhar para produzir prazer e evitar o desprazer, assim o ego-realidade nada necessita fazer a não ser lutar pelo que é útil e resguardar-se contra danos” (p. 283). Recorrendo a uma expressão de Bernard Shaw, Freud ilustra a superioridade do ego-realidade sobre o ego-prazer (p. 283): “Ser capaz de escolher a posição de maior vantagem no lugar de submeter-se à direcção da menor resistência.”
Freud demonstra de seguida, através da religião e da ciência, como o princípio de realidade tenta a todo custo proteger o princípio de prazer, adiando a sua satisfação imediata, sem contudo dele conseguir desligar-se. Na religião, com a promessa adiada de um paraíso, não se dá uma efectiva conquista do princípio de prazer, mas apenas uma renúncia com o objectivo de uma compensação posterior. Já a ciência, aproxima-se mais de ser bem sucedida nessa conquista, mas o seu trabalho além de envolver um prazer intelectual, também oferece um ganho prático ao final.
Muito sinteticamente Freud lança aqui a ideia de que a educação é um meio auxiliar do ego no seu processo de desenvolvimento e que “pode ser descrita, sem mais, como um incentivo à conquista do princípio de prazer e à sua substituição pelo princípio de realidade” (p. 283), através do amor dos educadores como recompensa. Freud exemplifica as dificuldades criadas, na substituição do princípio de prazer pelo de realidade, através de uma criança mimada que não deseje por nada perder esse amor.
Fascinado pela arte, como expressão humana, Freud escreveu mais de vinte artigos sobre obras de arte ou criatividade artística. O que aqui postula é muito semelhante à posição de Otto Rank no seu ensaio O Artista de 1907, e ao que o próprio Freud já vinha desenvolvendo em Escritores Criativos e Devaneios (1908), ou seja, que os artistas “transformam suas fantasias em verdades de um novo tipo, que são valorizadas pelos homens como reflexos preciosos da realidade, … sem seguir o longo caminho sinuoso de efectuar alterações reais no mundo externo” (p. 284). Portanto o artista, sem se submeter à realidade, com a sua correlata renúncia ao princípio de prazer, utiliza a fantasia para criar uma outra realidade e consegue isso “porque outros homens sentem a mesma insatisfação que ele com a renúncia exigida pela realidade, e porque essa insatisfação, que resulta da substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade, é em si uma parte da realidade.” O artista nessa reconciliação dos dois princípios, torna-se “o herói, o rei, o criador, ou o favorito que desejava ser…” Em trabalhos posteriores, como no Moisés de Michelangelo (1914c), Freud é mais preciso quanto à experiência estética, afirmando que o artista procura evocar no público os mesmos sentimentos inconscientes que o motivaram a criar.
Freud formula aqui questões ligadas ao desenvolvimento, quanto à passagem do auto-erotismo ao amor objectal, em termos da pulsão sexual, e às transformações da passagem do ego-prazer para o ego-realidade. Alerta para algo que vai desenvolver posteriormente em A Disposição à Neurose Obsessiva (1913b). Não sendo concomitantes o curso do
desenvolvimento do ego e o curso do desenvolvimento da pulsão, é portanto “…plausível supor que a forma assumida pela doença subsequente (a escolha da neurose) dependerá da fase específica do desenvolvimento do ego e da libido na qual a inibição disposicional no desenvolvimento ocorreu” (p. 284). Ferenczi em 1913, com o trabalho Desenvolvimento do Sentido da Realidade e seus Estágios, dedica-se a explorar a génese da realidade a partir do princípio de prazer.
Finalmente, Freud levanta a questão da “moeda corrente do país que estamos explorando” (p. 285), em relação ao uso de um padrão da realidade exterior, aplicado à realidade psíquica, ou seja, à fantasia e aos processos inconscientes ou reprimidos, enunciando claramente a divisão entre um mundo interno e um mundo exterior e as suas diferentes lógicas, ou seja, que uma das características dos processos inconscientes, é a realidade mental ficar equiparada à realidade exterior. “Daí a dificuldade de distinguir fantasias inconscientes de lembranças que se tornaram inconscientes” (p. 285), tema sobre o qual a escola Kleiniana se irá debruçar. Freud parece estar aqui a dialogar com as conceptualizações de Adler sobre a elaboração da sua psicologia do Eu. Dialoga também com Jung, na medida em que interpreta o seu sonho do “pai que estava morto e não o sabia”, ligando-o ao “significado infantil dos desejos de morte contra o pai” e afirmando assim a moeda neurótica (a da fantasia pré-histórica do sujeito e não a da simbólica universal) da sexualidade infantil. Freud abre também aqui a discussão que desenvolverá em Totem e Tabu (1913a), sobre a origem da culpa, como nos mostra Mannoni (1968, p. 154), à guisa de conclusão: “Freud, no início desse artigo (Dois Princípios), declarou-se disposto a atribuir maior importância ao princípio da realidade, mas só o fez, afinal de contas, para conferir um lugar ainda maior à fantasia, que não é nem o inconsciente, nem o pensamento submetido ao princípio de realidade…. Freud situa assim na “realidade” da pré-história o que no presente existe apenas sob forma de fantasia.”
Este texto pode ser considerado originário por três vias: (1) por condensar as concepções anteriores de Freud, lançando o que virá depois, constituindo-se assim como um texto originário e precursor da metapsicologia
(junto com a terceira parte de Schreber sobre o mecanismo da paranóia) e da segunda tópica; (2) é neste texto que Freud formula a noção seminal dos dois princípios originários que regem o funcionamento psíquico; e finalmente, (3) é também originário o seu questionamento neste artigo, mas transversal em toda a sua obra, sobre o papel, na etiopatogenia, da realidade na estruturação do psiquismo, da função da fantasia (trauma: real ou psíquico) e da relação entre prazer e desprazer. Realidade, fantasia e prazer são conceitos chave do funcionamento psíquico, aos quais se dedicará até ao final da sua vida.
Em termos das exigências contraditórias que são feitas ao psiquismo face à realidade e da consequente elaboração da distinção entre fantasia e realidade, podemos traçar os seus desenvolvimentos desde o Projecto (1895), com as indicações da realidade, e no cap. VII dos Sonhos (1900) com a introdução da função da inibição e demora e do processo secundário. Vemos Freud debatendo-se ainda em Leonardo (1910) com o papel da fantasia ou da lembrança real e, no caso Schreber (1911b), discutindo a paranóia como desinvestimento da realidade exterior. Em Luto e Melancolia (1917), já nos fala de uma parte clivada do ego. Em Psicologia de Grupo (1921), o teste de realidade é visto como trabalho do ego, função que depois lhe é retirada no cap. III do Ego e o Id (1923), onde descreve a noção da negação da percepção da realidade. Prossegue a partir daqui, introduzindo a noção de perda da realidade e conceptualizando a natureza da distorção da realidade em A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose (1924). Em A Negativa (1925) retoma o teste da realidade relacionando-os com os instrumentos de percepção sensorial, chegando às relações objectais mais antigas. Remete-nos, finalmente, em O Fetichismo (1927), para a dissociação do ego derivada da denegação/recusa da realidade, e continua ainda, no seu último trabalho, Esboço de Psicanálise (1940), a desenvolver as questões ligadas à articulação das duas atitudes psíquicas face à realidade, uma que aceita e outra que rejeita.
Este artigo constitui-se como precursor da segunda tópica, uma vez que, na primeira tópica e com a primeira teoria das pulsões, o psiquismo tinha como objectivo essencialmente a busca do prazer e o evitamento do desprazer. Com a noção de pulsão composta dos Três Ensaios (1905), a conceptualização de ego vai evoluindo, passando ele a ser também composto – ego-prazer e ego-realidade no narcisismo – em direcção à segunda tópica. O ego deixa de ser consciente e passa a abarcar uma parte sexual/pulsional, evoluindo para o ego clivado de 1923, com a crescente complexificação dinâmica da organização psíquica.
Em termos económicos, na relação da obtenção do prazer versus a realidade, vemos como nos sonhos, nos chistes, na arte e na poesia, Freud procura explicar a produção do prazer, uma vez que estes fenómenos respeitam as defesas ao mesmo tempo que as burlam, imprimindo a marca do processo primário. Evolui assim do trabalho do aparelho psíquico no sonho, nos chistes e no humor e debruçar-se-á posteriormente no trabalho do luto. Nos Dois Princípios aborda o trabalho do pensamento: a questão é, agora, como se pode obter prazer na esfera do processo secundário. Surge como resposta o mundo da imaginação, da fantasia, do devaneio (o artista é diferente do neurótico), que se forma entre o princípio de prazer e o princípio de realidade.
(ver Quinodoz, 2004, p. 171 – quadro H. Segal: da equação simbólica ao simbolismo verdadeiro ou representação simbólica e quadro W. R. Bion: criação do aparelho de pensar os pensamentos)
Diversos pioneiros, como Rank, Sachs, Ferenczi e Jones, dedicaram-se a investigar o simbolismo e consideraram que “não podemos falar em psicanálise de simbolismo a não ser nos casos em que o simbolizado é inconsciente” (Laplanche & Pontalis, 1967, p. 627). Os kleinianos e pós-kleinianos, ampliaram a teorização da simbolização e da fantasia inconsciente, aproximando o pensamento dos processos emocionais, alargando dessa forma a teoria freudiana, tanto por se dedicarem a conceptualizar a área mais arcaica do funcionamento mental, como na medida em que se dedicaram à criação da técnica do brincar das crianças pequenas. Na época das grandes controvérsias , a fantasia inconsciente, foi o tópico mais debatido e que gerou mais polémica, acima de tudo pelo artigo de Susan Isaacs, publicado em 1948, sobre A Natureza e a Função da Fantasia. Neste artigo, a fantasia inconsciente, pela sua proximidade da natureza biológica do homem, é conceptualizada como uma ponte para a questão corpo-mente e é vista como uma expressão directa da pulsão.
Segal realizou, entre os anos 1940-50, trabalhos inovadores na análise de pacientes esquizofrénicos, da mesma maneira que Rosenfeld e Bion. Em 1957, publicou o seu artigo Notas sobre a Formação de Símbolos, no qual distinguiu entre a representação simbólica e a equação simbólica.
Demonstrou, explicitamente, como o símbolo é utilizado para superar a perda na posição depressiva, enquanto a equação simbólica é utilizada para negar a separação entre sujeito e objecto.
Ao longo da sua obra é evidente a atenção dada ao problema da diferenciação entre a realidade interna e externa, entre self e objecto, a formação de símbolos e a investigação na estética, apoiando-se e desenvolvendo os Dois Princípios de Freud. Segundo Segal (1964, p. 20), Klein expandiu o conceito freudiano de fantasia inconsciente: “o que Freud descreve como realização alucinatória de desejo baseia-se segundo M. Klein numa fantasia inconsciente que acompanha e exprime o impulso instintivo”.
Para Segal, a fantasia em Freud está muito próxima do devaneio: “Freud concebe a fantasia como fenómeno um tanto tardio, que só aparece quando o princípio de realidade e a capacidade de pensamento lógico foram firmemente estabelecidos” (Segal, 1991, pp. 31-32). E, relativamente à criação artística, discorda de Freud que, segundo ela, via a arte como uma espécie de devaneio reprimido, não podendo dessa forma atribuir à fantasia inconsciente o seu papel de fonte criativa para a arte. No seu livro Sonho, Fantasia e Arte (1991), Segal desenvolve e amplia o conceito freudiano de fantasia, enriquecendo-o com as suas próprias formulações sobre o simbolismo, o teste da realidade e a criatividade.
Os Dois Princípios constituem a base sobre a qual Bion edifica a sua teoria do pensar, avançando na compreensão do pensamento do psicótico e da parte psicótica da personalidade. Utiliza os cinco aspectos do Eu, propostos por Freud: atenção, notação, memória, juízo e acção, necessários para estabelecer contacto entre a consciência e a realidade exterior, para elaborar a sua teoria do pensar e do pensamento. Para Bion, (1962) o pensar e o pensamento são essencialmente inconscientes. Ele distingue entre o desenvolvimento dos pensamentos e o desenvolvimento do aparelho para pensar. O pensar dependeria do sucesso destes dois desenvolvimentos. O pensamento representa a união de um pré-conceito com uma frustração. A realização de um desejo produziria uma concepção, enquanto a frustração daria lugar a um pensamento.
O modelo que Bion sugere é o de um bebé cuja expectativa de um seio é confrontada com a realização de um não-seio (frustração). Assim, a frustração induz a necessidade de pensamentos primitivos (proto-pensamentos) para lidar com a ausência do seio. Não se trata da ausência de realização, mas de uma realização negativa. Se a capacidade para
tolerar a frustração for adequada, o não-seio transformar-se-á num pensamento primitivo (elementos alfa), e desenvolve-se um aparelho para pensar (Bion, 1962), reflectindo aqui Os Dois Princípios de Freud, em que a predominância do princípio de realidade é acompanhada do desenvolvimento da capacidade para pensar e supõe uma modificação da frustração. A intolerância a esta, pode obstruir ou limitar o desenvolvimento dos pensamentos e de aprender com a experiência.
Segundo López Corvo (2002, pp. 261-262) para Bion, “o pensar é algo que é forçado dentro de um aparelho que não está preparado para tal e surge como produto das exigências da realidade, pelo que deve sofrer adaptações”. Neste sentido, pensar não é um processo natural, mas sim um desenvolvimento adaptativo forçado, pela realidade, na mente.
Para Bion, o dilema fundamental da psique é conservar as impressões da experiência psíquica para serem elaboradas ou então evacuadas para o exterior através da identificação projectiva (elementos beta). Assim, o pensamento seria inicialmente um processo para descarregar a mente de uma sobrecarga de estímulos. Prossegue, apoiado nos Dois Princípios, em que a descarga motora serve para dois processos distintos: inicialmente serve para libertar o sujeito das impressões sensoriais que o invadiam; mais tarde, a descarga motora serve para dotar o sujeito de intencionalidade psíquica (acção).
Em relação à passagem do princípio de prazer para o de realidade que foi considerada por Freud como progressiva e não simultânea, Bion dá um salto intuitivo ao propor uma presença sincronizada e interactiva dos dois princípios, na vida de qualquer indivíduo, a que chamou de visão binocular. Para Bion, segundo Grotstein (2007), o princípio de prazer e os processos primários funcionam em colaboração complementar com o princípio de realidade e o processo secundário.
Em 1975, Matte-Blanco publicou o seu trabalho seminal The Unconscious as Infinite Sets. O argumento básico é o de uma bi-lógica, onde operam conjuntamente a lógica aristotélica, heterogénea ou assimétrica (que promove as diferenças), e uma lógica homogénea ou simétrica (que dissolve as diferenças). Para Matte-Blanco, o inconsciente funciona em termos de conjuntos infinitos, sem diferenciar a parte do todo, o self do objecto. Na lógica simétrica ou homogénea do inconsciente, as emoções não conhecem indivíduos, mas só classes ou conjuntos de indivíduos.
A bi-lógica de Matte-Blanco é mediada pelo princípio da simetria – princípio de prazer – enquanto a lógica bivalente é mediada pelo princípio da assimetria – princípio de realidade. Ele propôs uma antinomia entre simetria e assimetria. O princípio de realidade operaria segundo a lógica do reconhecimento das diferenças, enquanto o princípio de prazer utilizaria mecanismos como a condensação e deslocamento, a atemporalidade, a substituição da realidade externa pela realidade psíquica, a co-presença de contradição, onde não operam as categorias lógicas.
Como resultado do que ele chama “simetrização” de classes, todos os elementos se tornam idênticos e intercambiáveis, bem como idênticos para a classe no seu todo. Segundo Skelton (2009), Matte-Blanco utiliza o termo infinitização para denominar uma forma de pensamento que não pode operar dentro da lógica do processo secundário. A infinitização é evidente na psicose e no pensamento do processo primário. Esta modalidade que dissolve as diferenças, transformando qualquer similitude numa identidade, é concebível, e pode emergir em situações de ansiedade extrema.
A contraparte da lógica simétrica, é o estabelecimento das diferenças, chamada lógica assimétrica ou heterogénea. Segundo ele, o pensamento “lógico” (bivalente) está constantemente a fazer combinações de tríades. A mente está constantemente a ligar uma coisa com outra coisa, e a sua relação entre elas. Um vasto conjunto, potencialmente infinito, de tríades é o ponto de partida através do qual o pensamento e a lógica do conhecimento científico estão constituídos.
No modelo de Matte-Blanco, estas duas estruturas de lógica antitéticas utilizam simetria e assimetria dialecticamente, mas organizadas de forma diferentes. O princípio de prazer e de realidade funcionariam unidos e separados. Desta forma, Matte-Blanco define uma terceira lógica, a bi-lógica, uma lógica para a realidade bi-modal. A visão do Matte-Blanco da bi-lógica, é relativamente próxima da visão binocular de Bion, embora não sejam conceitos simétricos.
princípio de realidade, teste de realidade, passagem de julgamento imparcial, atenção, memória, acção, devaneio, ego-prazer, ego-realidade, escolha da neurose.
ABSTRACT: This paper is the result of the necessity we felt to deepen the study of Freud's classical paper, Formulations on the Two Principles of Mental Functioning (1911), that we consider originary in three ways: (1) originary as the precursor of the Freud's metapsychology. Having in account former conceptions, this paper constitutes the third revision of the psychoanalytical discovery and, simultaneously, points in many new directions; (2) in this text Freud introduces the notion of the two originary principles that govern mental functioning; and finally, (3) Freud deepens his originary investigation of the role of reality in structuring mental life and in etiopathogeny, the study of the function of fantasy (trauma: real or psychic) and the examination of the relation between pleasure and displeasure, topics that are transversal of his whole work. Key concepts of mental functioning as reality, fantasy and pleasure deserved Freud's attention till the end. The seminal ideas generated in this text were revisited and directly extended by later authors of the kleinian and bionian schools, but also, in a less direct way, by authors of winnicottian theorization.
In our paper we also emphatize the closing interlacement of the Two Principles and the forthcoming of the psychoanalysis's institutionalization, as a fourth originary way: the IPA's genesis occuring hand in hand with the first and most decisive ruptures with three of the psychoanalysis movement's pioneers.
To write this article we used Jean-Michel Quinodoz (2004) working method and the writing format in his book Reading Freud. We shared with him our initiative of writing what he called one of the “missing chapters”, which he appreciated and encouraged.
KEY-WORDS: Mental functioning, pleasure principle, the reality principle, fantasy, imagination, reverie.
fixação homossexual no pai, reafirmando perante Jung a centralidade e a importância da sexualidade infantil. Em 1911, participa do terceiro Congresso de Weimar. No entanto, com a publicação nesse mesmo ano da primeira parte do ensaio de Jung, Metamorfoses e Símbolos da Libido, manifestaram-se abertamente as divergências em relação à sexualidade infantil, ao Édipo e à teoria da libido. Jung defende que o termo libido designava uma tensão geral e única (monismo sexual), anunciando de seguida que estava ampliando o conceito de libido. Ele nunca aceitara totalmente a teoria sexual de Freud e nunca a usou, mas também não a contradizia ostensivamente, até este momento. Segundo Blum (2004, p. 246), Freud interpreta, no primeiro encontro entre os dois, um sonho de Jung, como o seu desejo de destroná-lo derivado da sua fantasia de parricídio edípico. No fim dos Dois Princípios, Freud acrescenta esse sonho como “uma premonição do término posterior da sua relação analítica e pessoal”(Blum, 2004, p. 249), dando-lhe a mesma interpretação. “O conflito sobre desejos de morte são um fio vermelho através de toda a relação, condensando e mascarando outros conflitos, como por exemplo, competitivos, homossexuais e narcísicos” (Blum, 2004, p. 246). Em 1912, Jung é convidado por Ely Jelliffe a proferir oito conferências na Universidade de Nova York e, por esse motivo, sem a presença do seu presidente, não fazia sentido para Freud que se organizasse o congresso da IPA. Jung obteve grande reconhecimento nos Estados Unidos, anunciando publicamente as suas divergências com Freud. Depois de várias disputas, Jung tentou, em vão, convencer Freud da necessidade de dessexualizar a psicanálise. Em 1913, a ruptura consumou-se, no quarto Congresso em Munique, onde Freud tomou a iniciativa pedindo-lhe para abandonar o movimento, após sofrer uma síncope no jantar da IPA. É dissolvida a Sociedade Psicanalítica de Zurique. A partir de 1914, Jung demitiu-se progressivamente de todas as suas funções, afastando-se do movimento psicanalítico. Acabou por elaborar uma teoria estranha ao sistema de pensamento freudiano, embora se inspirasse nele: a Psicologia Analítica.