Da experiência clínica, assim como da investigação aprofundada que temos vindo a desenvolver com sujeitos, suas famílias na relação com a sociedade, conceptualizámos as Famílias de Vidro (Lito, A. M., 2010). Estas resultam então, das dinâmicas entre a sociedade contemporânea e a família, que estão pressionadas, no tempo e no espaço, pela diversidade de sugestões de valores para o consumo, impondo aos cidadãos respostas imediatas e pulsionais. Derivam também da construção patogénica da representação mitopoiética do “self familiar”, da evolução de vínculos patológicos entre os seus membros e/ou da incorporação de modelos conjugais e parentais fragilizados, imaturos e/ou doentis, que frequentemente revelam fronteiras geracionais transparentes, invisíveis e/ou distorcidas que se complexificam em Nós-problemáticos transgeracionais (Lito, A. M. & Ferreira, A. M., 2014). O dispositivo da Psicanálise de Casal e da Família aplica-se ao tratamento das perturbações de subjetivação, das patologias narcísico-identitárias e de dependência emocional que se repetem entre gerações. Estes processos inscrevem-se na metapsicologia psicanalitica dos vínculos intersubjetivos, e na interpretação dos processos transferenciais, contratransferenciais e intertransferenciais.
Artigo submetido a 30/12/2013 e aceite para publicação a 17/03/2014
Psicanalista, Membro Associado da SPP/IPA; Doutorada em Psicologia Clínica e Professora do ISPA- Instituto Universitário e do ISCSP-UL. E-mail:anamarqueslito@gmail.com
Na sociedade global da comunicação, do consumo, da imagem e do protagonismo, na ótica de interferência múltipla, ocorre um fluxo informacional ininterrupto e contínuo, entre o interior e o exterior dos sujeitos, entre estes e os grupos familiares e sociais.
A tese de Breton (1992) evoca os efeitos perversos do projeto utópico da comunicação na aldeia global, surgindo esta como definição de um mito e um valor de uma sociedade ideal, em que o homem ideal é o Homo communicans: “é um ser sem interioridade e sem corpo, que vive numa sociedade sem segredos, um ser por inteiro voltado para o social, que não existe senão através da informação e da permuta, numa sociedade tornada transparente graças as novas máquinas de comunicar” (Breton, P., 1992, pp. 46).
As dinâmicas entre a sociedade e a família estão pressionadas, no tempo e no espaço, pela diversidade de sugestões de consumo, de valores alienantes impondo aos cidadãos uma resposta imediata, pulsional que os leva a confundir o necessário do útil e do supérfluo. Neste quadro civilizacional existe uma panóplia de ideais e de modelos ideológicos orientadores de formas e estilos de vida em que a labilidade dos valores existentes e a pluralidade de escolha provocam uma espécie de enucleação destes, colocando-os uns sobre os outros de forma efémera/volátil, e até confundindo-os ou dissipando-os (Bauman, Z., 2001).
Neste contexto, as sociedades da modernidade têm sobrevalorizado a afirmação do Self num processo de autocentramento e de alienação narcísica. Quando não cumpridos os modelos de projeção no futuro imediato de sucesso e de bem-estar, a dificuldade de tolerar essa frustração propícia nos sujeitos pensantes solidões psíquicas e um vazio intersubjetivo.
Os excessos, a abundância e os desperdícios refletem paradoxalmente o desamparo civilizacional. As coisas e os objetos substituem o valor nutricional e comunicacional das relações e dos afetos e frequentemente evocam o deficit de narcisismo primário e secundário. A idealização, o sucesso alienante, que representa a tentativa de aplacar o deficit de estruturação do narcisismo, inscreve-o numa posição paradoxal de competição, de inveja, isolamento e de solidão psíquica emergente, como organizador individual e social deficitário.
O sujeito excitado narcisicamente tende ao desinvestimento objetal, vacila na ética dos valores e dos vínculos favorecendo não só a perversão como a inversão hierárquica geracional, sabotando a reciprocidade e a previsibilidade das regras e dos limites da socialização. Este sujeito, proveniente de
grupos familiares que denominámos Famílias de Vidro (Lito, A. M., 2010), incorpora noções de fronteiras e de limites ocultos e/ou confusos, transparentes, invisíveis, porque esbatidos e/ou ausentes, induzem nas dinâmicas familiares e sociais, soluções perversas e narcísicas, aspetos anti-libidinosos propícios a vivências de ordem amorosa, mesmo incestuosa, no domínio da autoridade e da confiança, no casal, entre pais e filhos, entre os educadores e mesmo entre os jovens, crianças e adultos (Baudrillard, J., 2008; Birman, J., 2007; Lito, A. M., 2010).
Neste ponto de vista, as vulnerabilidades psicológicas que se repetem consciente e inconscientemente entre gerações que se manifestam nas problemáticas aditivas individuais, familiares e sociais, a consanguinidade e a coabitação podendo ter uma influência observável, equaciona na nossa análise uma perturbação metapsicológica vincular.
Ficamos confrontados com patologias narcísicas, de como se, do agir, do vazio, de violência em que as dinâmicas familiares ansiogénicas, compulsivas com problemáticas de dor mental transgeracionais, que se repetem pelo contágio identitário (Ciccone, A., 2005), se sobrepõem em realidades atuais, múltiplas, de sofrimento, vivendo-se em tensão, por vezes silenciosa ou forcluida. O risco de incidentes e/ou a revelação de experiências - limite é banalizado mas eminente e periga a estabilidade familiar sonhada e desejada. Os comportamentos em acting out ou acting in substituem-se à reflexividade e resolução mental dessas vivências, que coexistem nas dinâmicas do espaço potencial familiar (Winnicott, D., 2005).
Na clínica psicanalítica do casal e da família temos verificado que esse contágio interfere na escolha de parceiros, nos processos de aliança (na conjugalidade), nas dinâmicas de filiação (entre pais e filhos e netos, etc.) e ainda nas afiliações (entre pares, entre os irmãos e nas novas relações interpessoais), em que o continente familiar constitui-se com problemáticas de triangulações rígidas, em coligações invisíveis, geracionalmente e patologicamente arrastadas por dinâmicas apressadas, invejosas, distorcidas em si mesmas onde o efémero, o descontinuum e a fragilidade dos vínculos afetivos inscritos nos traumas, não podem ser simbolizados porque negados, esquecidos ou denegados, forcluidos impossibilitam o pensamento e a palavra.
O olhar frio, a distância emocional e relacional bem como, pelo contrário, o excesso de proximidade, a hipocrisia e o cinismo, mesmo a sensualidade versus promiscuidade, na ilusão grupal de união (Anzieu, D., 1975), de associação familiar confundindo a transparência com a coerência nos processos comunicacionais, inscreve um processo dialógico perturbado pelas identificações projetivas maciças, pelos segredos e equívocos relacionais.
O sujeito e o grupo familiar ao convocarem o analista, refletem a impossibilidade de se ligarem autêntica e afetivamente, porque o sofrimento comum vivido e transbordado no espaço psíquico familiar desencadeia sentimentos de impotência e de raiva inconsciente que alimentam o amor ideal perdido, a solidão e a difícil tarefa da singularidade. A noção de alteridade e de identidade grupal é precária e a comunicação transgeracional fica atravessada pelos imperativos sociais e culturais de apropriação mútua num falso-self coletivo, escondendo frequentemente traumas existenciais, que perturbam a vida mental grupal bem como facilitam a reprodução de perturbações narcísicas e identitárias.
A contemporaneidade tem-se revelado inovadora nas diversas e novas configurações de famílias regulando em flexibilidade as dimensões geracionais e de género. Estas apresentam-se banalizadas e nuas (Tisseron, S., 2003) veiculadas por mecanismos defensivos ou ofensivos onde a função paterna, a lei e a terceirização são de difícil representação, porque a autoridade nascendo da relação com o Outro e não do poder sobre o Outro, complexifica-se na distância emocional que se verifica e, pela tendência à negociação dos afetos pela funcionalidade fria e pela troca versus apropriação de objetos de consumo.
É então deveras importante pensar a família e as suas dinâmicas, enquanto grupo de referência primário da sociedade, lugar e continente por excelência, onde se procura e se supõe encontrar a aliança, pactos de segurança, o amor e a esperança, a estabilidade perante o conflito e a tensão, o campo experimental de desenvolvimento e de aprendizagens entre pais, filhos e irmãos, onde as crianças herdam e se projetam na construção de vínculos fraternais e de solidariedade para uma sociedade possível, deste futuro viável (Lito, A. M., 2010) que se tem vindo a demonstrar comprometido.
Como sugere a Organização Mundial de Saúde em 1994, o conceito de família não pode ser limitado a laços de sangue, casamento, parceria sexual ou adoção, mas
baseia-se na confiança, suporte mútuo e na construção de um projeto comum. Família é uma unidade grupal onde se desenvolvem três tipos de relações pessoais: alianças, filiação, afiliação, onde identificamos que o vínculo da consanguinidade não se esgota exclusivamente na preservação da espécie. Os vínculos e as alianças nutrientes e protetoras à descendência concorrem também para o processo de uma identidade pessoal e familiar. É o lugar de transmissão genética e psíquica, de modos de vida, de valores éticos, estéticos, religiosos e culturais.
No entanto, sabemos também que as filiações e as afiliações que o sujeito realiza com o grupo familiar original e os demais societais, ao longo do tempo supõem a inscrição de vínculos psíquicos fundamentais como a reciprocidade, a responsabilidade, reconhecimento e responsabilidade (Eiguer, 2008) que suportam a malha genealógica de transmissão (Benghozi, 1994, 2005), sendo que esta também pode ser afetada pela precariedade e pelos aspetos mutantes da vida contemporânea pondo em causa a estabilidade dos sistemas de valores comunicacionais anteriormente descritos.
Ruffiot, (1981) formulou mesmo a hipótese da existência de um aparelho psíquico familiar pré-existente, genética e estruturalmente anterior à organização do aparelho psíquico do sujeito, utilizando a metáfora de que a família é um tecido antes de ser tecido. Por sua vez, André-Fustier e Aubertel (2005), Carel (2005), Porto (2005) e Eiguer (1995, 2011) referem mesmo que a família é uma matriz de sentido, que serve de envelope e de suporte básico aos psiquismos dos sujeitos, que nascem no seu seio, tendo como funções: ser continente, desenvolver a ligação e a sua transformação, a transmissão de valores e, como Eiguer (1995) defende, o tecido familiar sendo constituído por organizadores psíquicos, encerram aí vínculos intersubjetivos e objetos transgeracionais.
Família espera-se pois, que seja o lugar genealógico, espaço intersubjetivo, onde se realiza a função continente do grupo primeiro, da rede primária emocional, relacional e comunicacional, onde se ensaiam as capacidades humanas de confiança para a construção de elos e vínculos para uma sociedade mais harmoniosa, promotora do bem-estar coletivo.
Já as famílias que denominámos Famílias de Vidro (Lito, A. M., 2010) resultam pois da construção patogénica da representação mitopoiética do “self familiar”, da evolução de vínculos patológicos entre os seus membros e/ou da incorporação de modelos conjugais e parentais fragilizados, imaturos e/ou doentis, que frequentemente revelam fronteiras geracionais transparentes, invisíveis e/ou distorcidas que se complexificam em conflitos, em Nós-problemáticos transgeracionais (Lito, A. M. & Ferreira, A. M., 2014) os quais geram processos confusionais entre o passado, o presente e o futuro, entre o público e o privado e ainda entre o privado e o íntimo, revelando-se uma clivagem no si familiar (Eiguer, A., 1995) que afecta os processos de autonomia e de individuação-diferenciação dos seus membros (Bowen, M., 1991; Mahler, M., 1982).
Os Nós-problemáticos transgeracionais (Lito, A. M. & Ferreira, A. M., 2014) encerram na bolha do tempo, os núcleos centrais de sofrimento silenciado, culpas inconscientes esquecidas e/ou reprimidas no próprio ou no grupo familiar geracional que arrastam consigo segredos, não-ditos e/ou experiências psíquicas catastróficas, não transformadas e suspensas em lutos adiados que inscrevem perturbações nos vínculos intersubjetivos geracionais (Ausloos, G., 1995; Abraham, N. & Torok, M., 1987; Lito, A. M., 2010). Impedem a reflexividade para uma intimidade organizadora de valores, de identidades e de pertenças para a construção dum self seguro e auto-confiante, num exigente mundo interno e externo.
Na sequência da mediatização da violência tem-se evidenciado, por um lado, a tirania conjugal e parental na imposição de modelos autocráticos, rígidos e/ou arbitrários por outro, tem-se verificado a tendência á filocracia, ou tirania dos filhos, que não é mais do que uma inversão hierárquica, um mal-entendido na simbolização e na interiorização de modelos seguros na família contemporânea.
Perante a escassez de tempo físico e real dedicado ao valor presencial e afetivo para o diálogo entre gerações têm-se vindo a utilizar práticas educativas baseadas em lógicas materialistas e hedonistas, que corrompem o valor da aprendizagem da tolerância à frustração, da interiorização de autoridade, dos limites geracionais, da organização hierárquica nas dinâmicas familiares, originando um maior número de pais-amigos em substituição aos pais-segurança, de amor firme e confiança.
Os acontecimentos de vida problemáticos, sucedem-se na bolha do tempo, com urgência e violência pelas e entre gerações. Constituem-se como herança inconsciente, como pedras que rolam das encostas e tendem a esmagar a vida psíquica dos indivíduos
descendentes. Percebe-se bem como os filhos fazem identificações aos adultos com quem estabeleceram relações significativas baseados em vínculos intersubjetivos, alguns patológicos que fundaram a sua sobrevivência e as condições de vida. Os pais, por sua vez, projetam inconscientemente nos filhos aquilo que aspiraram e experienciaram no passado, baseando-se em soluções edipianas mais ou menos resolvidas, em modelos de identificação que tiveram com os seus próprios pais e assim sucessivamente, estabelecendo elos de ligação invisíveis que transcendem várias gerações – identificações projetivas, alienantes e perturbadoras para uma identidade idiomórfica (Coimbra de Matos, A., 2002). Mais do que identificações, são mandatos transgeracionais, delegações, missões (Stierlin, H., 1977, 2007; Stierlin, H. et al., 1986; Boszormenyi-Nagy, I., 1991), os quais, às vezes, podem ser verdadeiros esquemas de árvores de vida, que trazem organizadores psíquicos com culpas ancestrais inconscientes e, permitem ou não a localização, por exemplo, de efeitos traumáticos de acontecimentos de vida. Efeitos traumáticos que muitas vezes se transmitem durante várias gerações. É aqui que pode surgir a ideia de que o trauma tem uma dimensão real e uma dimensão imaginária e inconsciente, e que, dessa forma, somente durante a crise e/ou depois dos acontecimentos de vida marcantes podem fazer despoletar angústias e ansiedades ocultas e/ou inconfessáveis no contexto familiar ou no interior do sujeito psicológico. Estes sujeitos apresentam-se muitas vezes mais severos e negativos, sugerindo que a sua fragilidade, a imaturidade psicoafectiva, a culpa, a falha revelam-nos a distorção narcísica, um estado de transição identitário prolongado, bem como a distorção do anel familiar (Amaral Dias, C., 1980).
O diálogo construtivo entre gerações facilita a individuação relacional (Stierlin, H., 1977, 2007), mas pode ficar comprometido quando os conflitos de lealdade entre os modelos educacionais tradicionais e aqueles impostos pelas famílias da sociedade de escolhas múltiplas, colocam pais e filhos numa pluralidade de opções que testam a coerência das comunicações e do legado geracional.
Faimberg, H. (1988) apresentou, no seu trabalho sobre telescopagem ou encaixe geracional, o fenómeno de identificação inconsciente narcísica e alienante, realizando a distinção entre o transgeracional e o intergeracional nos processos de identificação. Estas diferenças que se devem aos trabalhos sobre a cripta, de Abraham e Torok(1987) e de Tisseron (1997), abrangem o debate tanto das questões dos obstáculos na transmissão geracional, quanto do processo de alienação do sujeito face ao desamparo. São identificações amalgamadas, encriptadas em lutos indizíveis, que se opõem à representação na transmissão entre gerações, conduzidas pela função de intrusão ou de apropriação, na regulação narcísica entre ascendentes e descendentes. Os filhos ficam cativos na história ancestral, num vazio das relações intersubjetivas, que o processo interpretativo psicanalítico poderá (re)significar (Aulagnier, P., 2009; Eiguer, A., 2009).
Relembrando, a transmissão transgeracional é aquela que acontece, portanto, através das gerações, à distância, frequentemente sem contato direto, inconsciente, e é exercida em sentido descendente (das gerações passadas para as gerações presentes), utilizando também a comunicação e a linguagem (interditos, não-ditos, segredos, equívocos/paradoxos). Corresponde à transmissão reconstruída a posteriori e, como tal, estudada pelos psicanalistas do casal e da família. Os conteúdos psíquicos dos filhos estarão marcados pelo material psíquico dos avós ou de outros ascendentes, que podem não ter conhecido, mas que marcaram sob forma traumática os seus pais e a eles próprios (Ruiz Correa, O., 2001).
A transmissão intergeracional, ao contrário, acontece entre gerações em contacto, entre pais e crianças. É exercida nos dois sentidos, ascendente e descendente, utiliza a compreensão da comunicação verbal e não-verbal. É consciente. Observa-se diretamente e tem sido estudada por psiquiatras, psicólogos do desenvolvimento e psicanalistas de crianças e de bebés (Bernard, G., 2003).
Analisemos a trajetória de vida da Patrícia, 30 anos, licenciada, que desenvolveu um percurso de vida atravessado por consumos abusivos de SPA's3, tendo adquirido doença hepática grave. Compreende-se que não podemos deixar de incluir na relevância dos conteúdos manifestos da narrativa da sua história pessoal e familiar, as crenças religiosas e a educação a que esteve submetida. Na Patrícia, esta influência foi vivida como negativa e convergente para uma perturbação narcísica, um estado-limite da personalidade (McDougall, J., 1984, 2000; Ramos, S., 2004; Ribeiro, J. S., 2008; Fabião, C., 2002), que não se pode reduzir aos aspetos sociocontextuais exógenos.
Assim, a Patrícia sofreu e atacou o corpo com as tentativas de suicídio e abusos sexuais que nos relatou. Apesar de ser a filha
Substâncias psicoativas
mais nova de uma fratria de cinco irmãos, é considerada como a “filha protegida” dos pais. Patrícia cuidada pela irmã mais velha, perdida no complexo fraternal, da vida intrafamiliar, sentiu-se “mal amada”, incompreendida, oferecendo-se como a “sensual”, a “constatária” e identificando-se com o “patinho feio”, com o porta-sintoma e o porta-vergonha da família (Benghozi, P., 2007; Kaës, R., 2007). Fixa-se na missão de denunciar o processo auto-destrutivo de que foi vítima (incesto fraternal), apresentando-se, agora, agente de perversão e de vingança, de retaliação inconsciente, no seio do grupo fraternal/familiar convocando a sexualidade, as excentricidades e experiências de vida perversas provenientes de processos de sedução mórbidos. Através da sua rebeldia, quiçá causa da falha do contrato narcísico entre mãe-bebé (Aulagnier, P., 2010), age pela função ómega (Decherf, G., 2003) a transmissão traumática que encerra não só problemáticas pré-edipianas parentais como perversão dos vínculos de filiação e afiliação ameaçados de ruptura. Desafiou a autoridade e os valores instituídos, resultando daí ganhos secundários como os privilégios económicos face aos irmãos (por ex.: frequência de escolas privadas, para-excitação narcísica na apropriação do espaço conjugal, quando se recolhia no quarto dos pais), provocação ao superego parental, na exibição da homssexualidade como tentativa de revelar hostilidade e ódio à religião e aos valores educativos rígidos a que esteve exposta e lhe impuseram. Estes valores religiosos foram para a Patrícia, geradores de sentimentos de castração, de culpa e de discriminação sociofamiliar, não a protegendo. Pelo contrário, empurrou-a para um processo doloroso de revolta e sofrimento humano, que a colocou nos limiares da sobrevivência psíquica:
“Eu sentia-me diferente pelos meus pais serem testemunhas de Jeová e darem-me essa educação. Não podia participar em N coisas que os outros participavam ou, se participasse, tinha que ser sem o conhecimento dos meus pais… Eu não me sentia bem em casa, não sentia que tinha um lugar em casa, não me sentia pertencendo à família, sentia-me a mais… Lembro-me que ia para o quarto dos meus pais porque eu não tinha quarto e ficava sentada lá no chão, ficava a noite toda sozinha, a ouvir música ou, pura e simplesmente, no silêncio e no escuro e não me abria muito… tanto que em casa não me conhecem muito (…) Eu fiz tudo ao contrário durante o dia (riso) para a noite e então, daí também vem a minha culpa toda. Eu fazia uma coisa e depois, à noite, estava ali a ouvir que aquilo tudo que eu tinha feito, afinal de contas, era pecado. Ninguém sabia o que eu tinha feito, mas na minha cabeça sabia e então, depois, sentia-me muita mal. ”Ai, eu errei, como é que eu fiz isto?“ Mas pronto, continuava a fazer. E era assim, o meu dia a dia… [durante a adolescência]. A educação religiosa que eu tive, mesmo que eu não fizesse, na minha cabeça era assim(…)”
O ciclo vicioso e a dimensão crítica de dependência versus autonomia parece-nos tê-la aprisionado num dilema existencial, num processo de individuação conturbado bem como o contrato identificatório da Patrícia (Aulagnier, P., 2009), incluindo a sua indefinição de género uma vez que se afirma como homossexual. Patrícia, pelos diferentes e sucessivos acting outs que protagoniza mas de que também foi vítima (tentativas de suicídio, consumos abusivos de substâncias psicoativas, negligência e violência parental, incesto fraternal, violação) fixa-se no estado quase permanente de isolamento e de autocentramento nos consumos de substâncias psicoativas que atacam os vínculos e os objetos reais, manifesta a revolta na perversão narcísica primária que inscreve a sua (in)adaptação psicossocial. Verificamos, como já referimos anteriormente no que diz respeito a estas famílias, um quadro psicopatológico de perversão, com narcisismo deficitário e perverso impeditivo da interiorização das noções de alteridade, de reconhecimento e de respeito por si próprio e pelo Outro, devido não só às experiências catastróficas e traumáticas bem como à invasão da dor mental não representável da angústia de castração parental, dos ataques e intrusões fraternais. Pelo facto de ter escondido as agressões sexuais infantis de que foi vítima, os efeitos perversos do segredo inconfessado
não terão sido determinantes para Patrícia não só na problemática identitária de género, como fatores precipitantes de iniciação e de manutenção nos consumos de haxixe, que a própria escamoteou na escola, na família e nas sociabilidades? Mais tarde, Patrícia passou da experimentação das substâncias à dependência de cocaína e heroína, tornando-se tóxico-dependente4 negando para si e para os outros a gravidade desses consumos. Patrícia interrompeu o seu processo de desenvolvimento mental e psicoafetivo porque esta incursão no mundo das drogas a fixou temporalmente numa adolescência difícil e interminável.
Torna-se claro pela nossa análise que das vulnerabilidades familiares da Patrícia destaca-se o efeito perverso da dimensão geracional, o sentimento de profunda incompreensão paterna (stress pós traumático do pai), abandono materno que está ausente na narrativa e, patologias graves no complexo fraternal (Jaitin, R., 2006; Kaës, R., 2008). A violência física e psicológica dos comportamentos instáveis, imprevisíveis e incoerentes do pai, bem como a problemática incestuosa, ao nível do complexo fraternal, sugerem claramente os Nós-problemáticos transgeracionais individuais, familiares e também sociais que inscrevem um acumular de experiências catastróficas e apocalípticas. Patrícia reconhece que a vida familiar a afetou profundamente e fechou-a nas dinâmicas da sua Família de Vidro (Lito, A. M:, 2010), num “poço” existencial onde a forças psíquicas, o ódio fraternal e a pulsão de morte, a destrutividade dos vínculos intersubjetivos a esmagaram. A dependência das substâncias psicotrópicas constituíram o remédio para as mágoas vividas e para a culpabilidade não transformada proveniente do acumular de vivências intoleráveis ao pensamento. Os sintomas aditivos esconderam a depressividade precoce, défice nas relações primitivas de objeto e no espaço potencial (Winnicot, D., 1982) inscrita num processo de “vitimização” e de acting out, de masoquismo, que por sua vez ao longo da trajetória de vida constituíram-se num dilema entre a exclusão e a inclusão social, entre o desafio e a submissão familiar, numa ambitendência (Coimbra de Matos, A., 2002) numa posição paradoxal entre a autonomia e a (in) dependência emocional, numa problemática de perversão narcísica face à autoridade (Eiguer, A., 1995, 2008; ). Os vínculos intersubjetivos de respeito e de responsabilidade ficaram profundamente degradados, clivados e denegados numa lógica do “desmentido” e do enunciado falso (Bion, W., 1970).
Patrícia não estará a cumprir a missão de denunciar a pulsão de morte que estilhaça o aparelho psíquico familiar, ao permanecer ligada pelo sofrimento à sua Família de Vidro (Lito, A. M., 2010) desestruturada e clivada? A função fórica5 do sintoma toxicodependência não estará a revelar a perversão familiar de fantasmas incestuosos ancestrais, a partir das dinâmicas do casal parental? (Kaes, R., 2007; Eiguer, A., 1995, 2008). A mãe, ao deslocar para a filha mais velha os cuidados da sua filha mais nova, Patrícia, não a protegendo das agressões do marido, nem do incesto do grupo fraternal, não terá desenvolvido sentimentos de rejeição, abandono e encurralado esta filha numa problemática de filiação dependente e patológica?
Analisemos também o Paulo e Teresa, casal de 40 anos, com dois filhos menores e proprietários de uma empresa familiar. Estão em psicoterapia psicanalitica de casal há cerca de 3 anos, pois a mulher vivia numa dinâmica conjugal saturada de função materna, ser mulher-mãe do marido com as queixas somáticas deste, com crises de pânico, sintomas hipocondríacos e, da sua demissão conjugal e parental. Paulo é o filho mais velho de uma família numerosa do norte, e referenos que foram as práticas desportivas durante a sua adolescência, que ainda mantêm, bem como a relação estável que tem vindo a manter com o trabalho, com a Teresa e os seus filhos que constituíram o factor de proteção de se ter tornado num dependente de cocaína. Contudo, este com a sua mulher – mãe, cuidadora e protetora, que se dedicam aos filhos e à empresa familiar desenvolveram um grupo familiar com objetos transgeracionais endogâmicos. Paulo descreve-se como “bom aluno, revolucionário na escola e com ideologia de esquerda”. Foi impedido pelo pai, de se manifestar ideologicamente em casa, proibido de influenciar a liberdade das suas irmãs, então adolescentes em busca de uma sexualidade e de afirmação psicossocial. Hoje com um quadro de dependência conjugal, mas em evolução significativa, pela sua fragilidade narcísica, denuncia a opacidade das dinâmicas familiares de origem, uma Família de Vidro, com uma mitopoiese que ele próprio qualificou de problemática:
“a vida dos meus pais e da nossa família não foram mais do que uma farsa, os problemas não eram falados, a minha mãe
Apesar de na literatura científica, se utilizar o termo consumidores problemáticos adoptamos a terminologia tóxico-dependência escrita por duas palavras separadas por um hífen, porque muito embora o próprio acordo ortográfico de 1990 o contrarie, a decomposição do termo tem a ver com a nossa conceptualização clínico-teórica. Trata-se de um neologismo que se prende com a nossa experiência clínica de tratamento destes pacientes. O processo identitário é provisório, temporário ou não, que inscreve um percurso singular e idiossincrático passível de transformação.
Função fórica é um processo intermédio, o porta-palavra, o porta-sintoma, ou o porta-sonho. É a única ligação possível entre dois espaços descontínuos. Alguns sujeitos encarnam e realizam a função fórica na passagem entre os espaços psíquicos comuns e de cada membro da família: no casal, no grupo, na família ou na instituição. Eles são portadores e agentes de transmissão de algo no espaço intrapsíquico e intersubjetivo. (Kaes, 2008)
Page 32vivia permanentemente num desespero à espera dos problemas, nunca percebi a relação deles, vivia-se numa fachada de abundância, vivíamos numa gaiola doirada, (ri-se)… passavam o tempo a dizer-nos o que as pessoas poderiam pensar de nós, não podíamos ser nós próprios…”
Estas famílias com perturbações narcisícoidentitárias, anteriormente descritas, vivem em espelho e coabitam sem se tocarem emocionalmente, em processos de depressão grupal, em dependência depressiva e/ou em posição esquizo-paranóide, submetidas à violência da imposição e intrusão de valores da sociedade paradoxalmente transparente, ideal e anónima.
Em trabalhos posteriores apresentaremos uma proposta de tipologia das Famílias de Vidro (2010) que temos vindo a desenvolver: Famílias Âncora, Famílias Pêndulo e Famílias de Estilhaços. São descritas a partir da nossa investigação empírica realizada num estudo aprofundado de 30 pares de irmãos inscritos no mesmo continente familiar.
O dispositivo da Terapia Familiar Psicanalítica aplica-se às patologias narcísicas e de identidade, dependência emocional, às perturbações de subjetivação e pretende dar resposta a esta e muitas outras questões das problemáticas da contemporaneidade. Revela-se muito favorável ao acolhimento e tratamento de sofrimentos arrastados geracionalmente, silenciados entre os membros do grupo familiar. Tratam-se de processos psicoterapêuticos de análise e de interpretação dos processos transferenciais, contratransferenciais e intertransferenciais cujos modelos de intervenção estão baseados na metapsicologia dos vínculos intersubjetivos. Estes podem definir-se como processos de psicoterapia psicanalítica do grupo familiar de intervenção na crise e/ou como tratamentos mais longos, regulares no setting e no contrato terapêutico, acompanhados em supervisão por psicanalistas de casal e de família. O modelo de intervenção consubstancia-se pela e na coconstrução do novo espaço analítico neogrupo-família e analista, potencializando-se economicamente em vínculos generativos que (re)instalam novos equilíbrios objetais nos organizadores psíquicos das funções da conjugalidade, da parentalidade e da filiação, de renovação do romance familiar e do processo mitopoiético (Eiguer, A., 2011). Como Decherf (2003) referiu é o lugar de reencontros dos psiquismos, das vozes inconscientes que promovem um espaço transicional de mudança. Segundo Faimberg (1988), o conceito construção contém um paradoxo enriquecedor. Esta dimensão, inscrita nos processos de psicoterapia e de psicanálise familiar e/ou individual, torna-se decisiva para a transformação psíquica ao revelar-se pelos aspetos retroativos: é simultaneamente previsível e antecipatória porque predispõe os sujeitos a autorrefletirem-se, a procurarem a busca de verdades psíquicas nas memórias da sua história no encontro analítico.
As Famílias de Vidro apresentam pois, frequentemente vínculos violentos e totémicos, paradoxalmente indicadores da fragilidade escamoteada, que encerram sentimentos arrastados de vergonha, de traição e de humilhação. Para os tratar psiquicamente há que nos implicarmos e sermos reconhecidos e aceites na rede vincular familiar e tecer relações de escuta flutuante, em associação livre e existencial, de contenção e de confiança com prudência interventiva. Caso contrário, poderemos ser confrontados com abandonos terapêuticos, os drop-outs, pois a fragilidade do tecido familiar perante a violência da interpretação pode sentir-se ameaçada pela rutura dos sistemas ofensivos ou defensivos instalados e de mudanças desejadas, mas temidas. A mudança pode ser equiparada ao fantasma de aniquilamento e de desagregação do grupo e/ou do aparelho psíquico familiar, podendo comprometer a possível transformação do sofrimento na bolha do tempo psíquico grupal.
A Psicanálise de Casal e da Família constitui-se pois, como indicação clínica para as problemáticas do trauma, da adolescência e das perturbações das dinâmicas de casal e de família. Proporciona a palavra, a contenção/transformação de conflitos geracionais de vínculos destrutivos e violentos por possibilitar a reinvenção de um novo espaço de sonho partilhado, de holding onírico familiar (Ruffiot, A., 1990), onde as dores e mágoas então caladas, poderão ser trabalhadas e interpretadas para a transformação e mudança psíquica do grupo. A emergência da ilusão grupal possibilita, em cadeia associativa, o aparecimento da dialética da lei, do interdito e do desejo. O trabalho clínico que temos desenvolvido tem-nos ensinado que o respeito e a ética são princípios fundamentais que nos ligam ao sofrimento alheio, à paradoxalidade do(s) sintoma(s). Exige-nos uma presença delicada, segura perante a fragilidade apresentada e/ou evacuada no espaço psicoterapêutico.
O cenário genealógico que a Psicanálise do Casal e da Família propõe, destaca a
possibilidade de cuidar, de coconstruir e de cotransformar num processo transferencial e contratransferencial, os conteúdos fantasmáticos edipianos, de castração e/ou de perversão narcísica onde os núcleos de sofrimento instalados perpetuam o tempo parado no grupo familiar. A mudança sendo desejada o desconhecido é ameaçador. O encontro empático continuado e de acolhimento atento supõe assim a reconstrução histórica narcísico-identitária do grupo familiar, do mesmo modo que o analista propicia a emergência do terceiro, a função paterna ausente, superficial ou periférica. A nova história sonhada e desejada re-co-inventada no neogrupo, (re)escreve no interior de cada um e no seio do novo grupo “igualdade com partilha e fraternidade com apelo à responsabilidade de cada um” (Eiguer, A., 2011), superando clivagens, descontinuidades ou ruturas impostas pelas desidentificações ocorridas.
No palco psicoterapêutico, o psicanalista do casal e da família investe o grupo familiar com o vínculo do amor à verdade (Bion, W., 1970), com a sua autenticidade e neutralidade emocional, que permitem a elaboração/transformação psíquica da história mitopoiética do grupo familiar. Tanto o psicanalista como o casal e as famílias que nos procuram, ao longo do processo clínico, realizam novas subjetivações por um trabalho de perelaboração, de transformação dos lutos patológicos e suspensos. De igual modo, coconstróem connosco, no processo de continuidade terapêutica, novas conceções e outras realidades familiares passíveis de inscrições esperançosas de vida.
A Psicanálise de Casal e da Família oferece-se então como um processo regulador e reparador do cuidar, respeitando as fragilidades e as solidões emergentes do mundo global virtual (Tanis, B., 2003) bem como dos grupos famíliares contemporâneos. Estamos convictos de que as Famílias de Vidro são passíveis de trans-formação apesar das múltiplas configurações que apresentam, uma vez que o grupo familiar é uma instituição social e cultural referente, flexível e plástica, que irá seguramente persistir ao longo dos tempos, podendo promover um futuro viável.
ABSTRACT
The clinical experience, as well as the in-depth investigation that we have been developing with subject, their families in relation to society, we conceptualise Glass Families (Lito, A. M., 2010). These results then the dynamics between contemporary society and the family, which are pressed, in time and space, by the diversity of suggestions of values for consumption, requiring immediate and pulsionais answers. Derive also from the construction of mitopoiesis representation of pathogenic “self family”, the evolution of pathological links between its members and/or the incorporation of conjugal and parental models weakened or immature, which often reveal generational borders transparent, invisible and/or distorted to confuse Trans-generational Problematic Nodes (Lito, A. M. & Ferreira, A. M., 2014). The device of Psychoanalysis of the Couple and the Family applies for treatment of disturbances of subjectivations, of the narcissistic pathologies-identity and emotional dependency that are repeated between generations. These processes form part of the psychoanalytic metapsychology of the intersubjective links, and in the interpretation of transference, countertransference and intertransferenciais processes.
KEY-WORDS: intersubjectives links, psychoanalysis of the couple and family, glass families, transgenerational communication, foric function
“Ah, para o meu pai, o meu maior problema nem é as drogas, é o facto de eu gostar de mulheres. Isso para ele é uma aberração (…) Lembro-me de uma vez, terem dito que preferiam ter um filho toxicodependente do que homossexual. E eu sou as duas coisas numa só (riso) a coisa que me fazia também sentir diferente, era o facto de gostar também de mulheres. Sofri muito com isso na minha adolescência e escondia isso das minhas amigas, como é óbvio. Nunca consegui contar a ninguém.”