Este artigo tenta realçar a importância da interpretação enquanto instrumento dinâmico e circular no processo transferencial-contratransferencial de análise de pacientes que “pró-curam” aliviar o sofrimento e, simultaneamente, desvendar os sentidos inscritos na vida mental e no continuum intersubjectivo, que se cria entre paciente-analista-paciente.
A interpretação serve o processo de co-construção do par analítico e a relação analítica assimétrica constitui-se, para ambos, como um processo de comunicação e de escuta flutuante do inconsciente do paciente.
A linguagem e a fala de ambos servem a possibilidade de aceder ao “estranho” que habita em cada um dos elementos do par terapêutico, que buscam um vínculo de verdade e de conhecimento.
O tópico central do presente trabalho é o valor e o lugar da interpretação, enquanto processo de mudança psíquica, de insight, inspirado na hermenêutica, lato sensu, no campo intersubjectivo de (re)construção de realidades alternativas, internas e externas com pacientes de difícil acesso à simbolização e à verdade psíquica. Resulta de uma reflexão a que nos temos vindo a dedicar e a integrar no nosso trabalho clínico.
A partir da nossa prática psicoterapêutica com famílias, sob a égide da epistemologia cibernética de 2.a ordem – sistemas observantes –
Adaptação da comunicação apresentada no II Congresso Luso-Brasileiro de Psicanálise, São Salvador da Baía, Novembro de 2007.
Psicóloga Clínica. Membro Associada da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Psicoterapeuta Familiar Psicanalítica (Poiesis).
Recebido para publicação em 8 de Fevereiro de 2010. Revisão recebida em 7 de Junho de 2010. Aceite para publicação em 14 de Junho de 2010.
(von Foerster, 1982; Hoffman, 1990) e da inscrição da função psicanalítica da personalidade (Bion, 1963), como analista, procuramos pensar a relação dinâmica, circular e colaborativa de expansão do pensamento, entre o paciente e o analista, como processo de co-elaboração simbólica e de transformação dos processos mentais, no alívio da dor mental e a sua interferência no “bem-estar” pessoal e social.
A sessão analítica é por excelência o locus da interpretação.
Porque chamar enigma à interpretação?
Aristóteles afirmou que o enigma serve para exprimir factos em condições impossíveis (cf. Poética, 22; Retórica, 3.2, 10), o que constitui um género adequado à compreensão de um facto desconhecido através de um código conhecido que, uma vez compreendido, permitirá a revelação.
Partindo quase sempre de uma pergunta, directa ou indirecta, o enigma constrói-se com uma descrição nunca explícita, de um facto ou de uma situação, bloqueando desde logo a possibilidade de resposta imediata, por força da contradição que deve presidir aos elementos que o constituem.
Tem sido a partir da reflexão sobre o trabalho clínico, do seu impacto enquanto processo de articulação de realidades e de paradigmas, que nos temos colocado nesta aventura de equacionar os processos interpretativos como instrumento de mudança psíquica e de construir pontes entre diferentes modelos de tratamento.
Para nós, o acto de interpretar constituiu-se, desde sempre, como o verso e o reverso de um processo enigmático, de fascínio. No contexto específico do espaço e da relação analítica, temos sido estimulados para a dimensão subjectiva de desafio à realidade, de explicação do incompreensível ou daquilo que é ambíguo, como também temos encontrado, pelo recurso a metáforas ou a sentidos figurados, novas realidades, específicas do processo criativo de “pró-cura”, novos sentidos para o sofrimento humano.
Na interpretação, porque não realizarmos o encontro com o unheimlich – que Freud nos propõe, num dos seus trabalhos de 1919?
Freud (1900) a partir da descoberta da mensagem oculta dos sonhos (sonho de Irma), desenvolveu a orientação hermenêutica da análise dos sonhos, na busca do desejo recalcado no inconsciente e do fantasma em que se apoia, mas foi naquele encontro com o unheimlich, a procura do duplo que inscreveu nos mecanismos neuróticos de compulsão
à repetição, no pensamento mágico, na omnipotência do pensamento racionalista, bem como na superação da vivência do complexo de castração, que trabalhou o valor da interpretação, reenviando-nos para um lugar/espaço, específico e seguro, que possibilitasse uma comunicação do analista com o paciente, que pudesse realizar-se por uma decifração, uma passagem, uma transposição entre o objecto e aquilo que se ia dizendo sobre ele.
Freud (1919) escreveu nesse artigo:
(…) “refiro-me a que um estranho efeito… quando se extingue a distinção entre imaginação e realidade, como quando algo que até então considerávamos imaginário surge diante de nós na realidade, ou quando o símbolo assume as plenas funções das coisas que simboliza, e assim por diante.” (pp. 261)
Pelo processo de interpretação do “estranho”, o analista propõe uma substituição metafórica, uma analogia entre os significantes, que implica um conhecimento da vivência subjectiva do sujeito. Estes aspectos técnicos da clínica vêm, pois, produzir uma mudança radical na Psicologia e na Psiquiatria, as quais eram, na sua época, puramente descritivas.
Assim, a interpretação foi para Freud um processo de “cura” e de “pró-cura”, e para nós, um tema de eleição, se não de encantamento, porque tem sido o resultado de uma memória, de um percurso e também um projecto de dignificação profissional.
Enquanto sujeitos catalisadores de expansão de pensamentos, de consciência de si, revelou-se como um instrumento de construção de realidades alternativas, um acto espontâneo e criativo, mas reaprendido pelo conhecimento da alteridade analítica. Trata-se de um processo auto-reflexivo, que nos tem possibilitado a liberdade de ser/estar na relação com o paciente. Um processo fecundo e de encontro simbólico, em que, outrora per vie di porre do nosso analista e, actualmente como analista, também per vie di levare, interferimos na cadeia associativa do paciente, criando, assim, uma dupla intersubjectiva.
Não podemos deixar de referir que também temos tido a influência das ideias contemporâneas de Gergen, (1998), Anderson (1999), Berger e Luchumann (2004), que consideram o paradigma linguístico como um cenário de fundo de construção de realidades, que serve de ecrã ao inconsciente colectivo.
A nossa reflexão busca partilhar este percurso que temos desenvolvido no trabalho clínico de escuta flutuante do sofrimento humano, que, para nós, se organiza em torno da ética do cuidar e de uma prática dialógica, conversacional, que é sempre interpretativa de realidades.
Para aqueles autores, e agora para nós próprios, ao encontrarmo-nos com a psicanálise, depois de um tempo de formação e trabalho clínico com famílias com problemáticas de toxicodependência, onde a dor mental inscreve o adormecimento dos pensamentos e o silêncio dos afectos e das emoções, algumas das dimensões da análise das narrativas emergentes do Construcionismo Social foram muito úteis na revelação de um campo subjectivo, no eixo dos aspectos comunicacionais que estão envolvidos na interacção transferência/contratransferência.
Hoje, neste caminho psicodinâmico, conceptualizamos o acto interpretativo como um instrumento específico da técnica analítica, que não sendo arbitrária nem imposta, se realiza pela procura do “negativo”, da ausência, na semântica da linguagem do psiquismo que se revela com a possibilidade de pensar a diferença, a experiência de desamparo e de estranheza que os nossos pacientes trazem, com as suas queixas incompreensíveis para eles, e tantas vezes para nós próprios.
A interpretação assume-se como um instrumento de interrogação, entre os aspectos não revelados, não construídos coincidentemente por esses actores sociais, que produzem representações e realizam a construção social íntima de realidades.
Não será o trabalho interpretativo e co-criativo do analista com o paciente, no processo psicanalítico, lugar onde o inconsciente está vazio à espera de significação, que o desconhecido, a “pró-cura” do carácter de incompletude do “estranho”, tendo sido reprimido, se torna familiar?
Para nós, a realidade, enquanto entidade independente e real, em si mesma, não existe. Ela é apenas construída pela objectivação de processos de comunicação e de significações subjectivas que dão sentido e coerência à experiência humana, que pode ser acumulada e conservada. Contudo, é pela definição do campo que a acção semântica, a interpretação dos símbolos e dos signos, constrói e desconstrói conhecimento, mas é pela linguagem que ele será transmitido de uma geração para outra.
A linguagem e a experiência de vida estão interligadas e o modo como os seres vivos descrevem as suas vivências constroem realidades e convertem esses factos em algo substantivo, vivo e mutante com o tempo. Como referem Gergen e Semin, “A linguagem não é a expressão exterior
de um estado interior, mas o social nas suas origens, no seu uso e nas suas consequências” (Gergen & Semin 1990, p. 14).
Wittgenstein (1995) propôs-nos também uma concepção pós-moderna da linguagem, considerando-a como representante de factos empíricos, da realidade da nossa experiência subjectiva com o meio, pela qual oferece sentido ao fenómeno vivencial que depende do modo como as pessoas tratam as coisas do mundo em que habitam.
Então, a linguagem é realidade?
Os factos ocorrem, porém os significados que atribuímos a essas experiências, materiais ou simbólicas, constroem a linguagem enquanto contexto comunicacional das interrelações humanas.
Nesta perspectiva, o que sabemos hoje é que, tal como o conhecimento, os sentimentos, as emoções, os pensamentos e as percepções são aquisições da consciência, inscritas em determinados contextos. Se a linguagem que nos forma e influencia as experiências subjectivas, a fala/narrativa do quadro circular e co-evolutivo paciente-analistapaciente, a relação emergente do trabalho elaborativo e perlaborativo se sustenta pela co-representação das palavras, bem como pela interpretação da transferência-contratransferência e das relações de objecto que se estabelecem no espaço analítico, dizemos nós, no ecossistema analítico em que a comunicação se estabelece, pela possibilidade narrativa do paciente e pela interpretação do analista construindo ambos um quadro motivacional intersubjectivo (Stern, 2006) de “pró-cura” da verdade psíquica.
Heidegger (1996), na sua obra “O Ser e o Tempo”, demonstrou bem a importância e a amplitude da linguagem que estabelecemos para compreendermos a nossa existência, a forma como podemos construir a realidade: “As mudanças no mundo requerem mudanças de linguagem, tal como as mudanças na linguagem afectam aquilo que somos capazes de compreender acerca do mundo”.
O propósito ontológico e fenomenológico de Heidegger veio, pois, também trazer à luz o que significa ser para o homem, ou “como é ser” para o Homo sapiens sapiens que é também Homo socius.
Na sociedade contemporânea do instante, a estética que lhe está subjacente – e que se vive no mundo global – tende a colocar-nos interrogações sistemáticas sobre o seu impacto nas leituras da insegurança, que é crescente, geradora de medos e de realidades estranhas, que podem colocar o analista quase encurralado, ante o vazio e o absurdo das vivências
dos sujeitos pensantes. Referimo-nos aos nossos pacientes que revelam quadros psicopatológicos de dependência, os chamados infodependentes que se escondem e se privam da interacção com o outro, cuja revelação de si atravessam o abuso dos meios informáticos.
A proposta da cura analítica, na contemporaneidade, não se baseará, hoje, na renúncia às verdades cartesianas do pensamento dualista, dirigindo-se para um processo de “pró-cura” de verdades plurais, que assentam na tradução simbólica da relação pela relação, mas também por uma conversação dialógica, no aqui e agora, que recontextualiza o passado no presente e que se projecta no futuro?
Ao determo-nos nesta reflexividade recursiva, oferecendo-nos para uma participação social de compreensão do “estranho”, do incognoscível, quer na sociedade em geral quer no ecossistema analítico, por uma atitude relacional constante, uma relação nova, regular, sanígena (Matos, 2001) e duradoira, emocionalmente suportada pelo entusiasmo (des)alienante, não o propósito incondicional do analista em atingir “curas milagrosas” ou respostas definitivas, porque a certeza é, por certo, a paradoxalidade de sujeito-pensante – a interpretação constitui-se como um instrumento de transformação social, de desenvolvimento de mentalidades e tradutor/propulsor, gerador de futuro e de desenvolvimento tecnológico, próprio do processo evolutivo da Humanidade.
Assim, a legitimação e a metalinguagem da relação analítica vão criar novas realidades, tal como as palavras servem para desenvolver a narrativa e comunicar os significados das experiências significativas, que se reactualizam no “aqui e agora” da fala.
O nosso foco tem-se dirigido para o problema da relação entre as palavras e o mundo, proposições que se constroem na nossa cabeça, que são veiculadas pela linguagem falada e escrita.
O que permanece essencial “é o reconhecimento de que todos os universos simbólicos e todas as legitimações são produtos humanos, cuja existência tem a base na vida dos indivíduos e que não possui qualquer estatuto empírico separado dessas vidas” (Berger & Luchumann, 2004, pp. 135) e de que o veículo mais importante para a construção de realidades é o da conversação.
Gergen (1998) referiu também que “o significado de uma palavra não reside na intenção subjacente, nem está fechada na profundidade do inconsciente”. Pelo contrário, os significados das palavras, tal como as acções, actualizam-se nas pautas mutantes das relações.
Perguntamo-nos, pois, se Freud fosse nosso contemporâneo, não se identificaria, também, com uma visão co-evolutiva do pensamento e das relações?
Aliás, tem sido por nós reconhecido esse seu interesse, pois foram tornando-se óbvias a riqueza e a transformação de algumas das suas conceptualizações do aparelho psíquico da mente, ideias que foram evoluindo com a sua prática clínica e com o debate científico entre os seus seguidores e demais pesquisas no campo da psicanálise.
A obra de Freud foi pioneira relativamente à construção de sistemas de referência para a compreensão da vida mental e da sociedade em geral. Procurou incessantemente reflectir a Humanidade, que reside dentro e fora de nós, a partir duma posição crítica e reflexiva, quer da medicina, quer da psicologia, e de outros saberes, como a filosofia, a literatura, a religião e a política. Observou e analisou, ainda, os diversos contextos influentes no conhecimento. Ofereceu-se como um homem de cultura implicado no alívio do sofrimento mental e na transformação social.
A cultura, refere Umberto Eco (2000), “é como um todo, é um fenómeno de significação e de comunicação, em que a humanidade e a sociedade só existem a partir do momento em que se estabelecem relações de significação e processos de comunicação”.
Sabemos, portanto, que a cultura, num sentido mais lato, é o lugar do conhecimento intersubjectivo, que permite intuir, reconhecer, experimentar ou integrar hábitos linguísticos, onde os mecanismos inconscientes podem estar por detrás da produção da fala, da narrativa dos sujeitos. A cultura oferece-se, então, como um contributo para a emergência do campo inter-subjectivo, como um espaço de busca do “outro”, da alteridade recalcada ou perdida.
Nos processos analíticos, em que a psicanálise se impõe como método de investigação, estamos sistematicamente a lidar com uma organização mental particular, idiossincrática, quer do analista, quer do paciente, onde a linguagem desempenha um papel fulcral na transmissão de experiências subjectivas, de valores culturais do contexto de referência de ambos.
A convergência e o encontro, bem como a emergência de novas realidades de análise, emanam da interpretação dos factos psíquicos, os quais pressupõem um sistema de referenciação que se constrói na e pela relação transferencial/contratransferencial.
Apesar da regra da neutralidade, perguntamo-nos se o banho cultural circundante não interfere na forma como nós escutamos, compreendemos e comunicamos com os nossos pacientes.
E a posição de “não saber”, a postura de investigação clínica adoptada por Freud, bem como a sua humildade perante a extensão e desconhecimento do psiquismo do “outro”, não corresponderão àquilo que hoje denominamos como o campo de construção de novas realidades?
O contexto cultural que se transmite na e pela linguagem, com a sua plurissignificação caleidoscópica, não se constituirá também como um quadro de conotações que serve de cenário para quem selecciona interpretações possíveis para cada situação ou vivência, que o sujeito analisante traz e leva, para e da sessão de psicanálise?
O nosso psiquismo não é, ele mesmo, um lugar cultural e social privado, onde o sujeito se afirma por aquilo que “narra” e que “vive ali” no ecossistema analítico?
O pensamento analítico inaugurou, pois, uma nova realidade de “pró-cura” da consciência humana, pela relação transformadora da transferência/contratransferência, entre paciente-analista-paciente, o campo da intersubjectividade psíquica que se inscreve na apropriação de uma convicção, uma co-construção, fornecida pelo analista, produzida por processos de interpretação do material narrativo.
No seu trabalho “Construções em Análise” (1937), Freud escreveu:
“(…) Convicção que alcança o mesmo resultado terapêutico que uma recordação recapturada. O problema de saber quais as circunstâncias em que isso ocorre e de saber como é possível que aquilo que parece ser um substituto incompleto produza todavia um resultado completo… tudo isto constitui assunto para uma investigação posterior” (Freud, 1937, p. 284).
O paradigma comunicacional da condição humana revela-se, assim, um lugar extenso, complexo e sempre inacabado, campo intersubjectivo onde a função terapêutica se desenrola no processo circular da linguagem “entre o projecto e o introjecto” (Dias, 1983, p. 63), que nos empurra para a compreensão científica da cura.
A linguagem, a língua, bem como o dialecto emocional, sustentam a relação co-evolutiva e recursiva entre o mundo interno e externo dos interlocutores, entre o ecossistema simbólico e afectivo, do paciente-analista-paciente, permitindo assim desenvolver níveis de entendimento e de encontro subjectivo, em que a interpretação da experiência psíquica
marca a passagem de modelos dualistas, indivíduo-mundo interno (modelo intrapsíquico, positivista), para um quadro pós-moderno de análise construtivista, sociolinguística das relações humanas.
A neutralidade acolhedora, o instante esclarecedor, o insight do analista, bem como a sua empatia e disponibilidade, facilitam a transferência do sujeito e são co-criadoras desse processo de confiança mútua, que se instala como mola propulsora do crescimento psíquico suspenso. Propicia um renascer da capacidade de fazer encontros implícitos na procura do “estranho”, que está dentro do campo intersubjectivo daqueles sujeitos pensantes, ligados por um desejo de verdade e de rêverie.
Na psicanálise relacional contemporânea, também conhecida a partir da psicologia psicanalítica do self formulada por Kohut (1978), a ciência relativista parece-nos também aproximar-se do construtivismo.
“(…) A psicanálise clássica descobriu o desespero da criança no adulto profundo – realidade do passado, a psicologia do self descobriu o desespero do adulto na criança profunda – realidade do futuro” (cit. Roudinesco & Plon, 2000, pp. 437).
Trabalhamos as nossas atitudes, as relações e as inter-relações precoces (Bégoin, 2005) através da linguagem, do vocabulário e das narrativas/falas que utilizamos na vida. Desde que nascemos, nomeadamente na relação recursiva entre mãe-bebé, emerge um campo intersubjectivo em que os primeiros investimentos maternos e identificações primárias se implicam sob o princípio da mutualidade e da reciprocidade. A linguagem e a expressão dos afectos emanam dessa inter-relação suficientemente harmoniosa, do sistema motivacional básico (Stern, 2006), conhecimento implícito primordial, onde a alegria de viver e de comunicar co-organiza a confiança e a segurança.
Também nos sistemas terapêuticos, no ecossistema analítico onde se privilegia a segurança de base de modo a constituir um espaço suficientemente protegido das angústias primordiais de aniquilação, o analista e o paciente comunicam entre si por associação livre e por interpretações do discurso consciente e inconsciente, por uma atitude de abertura de possibilidades – por uma atitude de indagação partilhada em que paciente e analista exploram os enigmas da interpretação na construção social interna.
Inicialmente, a linguagem transformadora da psicanálise baseou-se essencialmente nos processos de interpretação das falas, enquanto elaborações de representações derivadas de factos externos, da percepção à representação.
Actualmente, com o desenvolvimento do pensamento de Bion (1970), como uma teoria construtivista do pensar, encontramos um diálogo interno, vivo e dinâmico em que: “A interpretação é um acontecimento actual numa evolução do O, comum ao analista e ao analisando” (Symington, 1999, p. 97), em que a linguagem enquanto expressão verbal “(…) é sempre uma transformação e, por isso, a narrativa e a interpretação são duas formas diferentes da mesma coisa” (Symington, 1999, p. 167).
Com efeito, por uma ética de abertura existencial, procuramos o “outro” no campo dialéctico de observação-transformação intersubjectivo.
Mas não se trata de compreender a pessoa no “outro”, nem somente a interacção do paciente com o analista – a transferência. Parece-nos muito mais complexo que o processo de análise das defesas ou das resistências e da natureza das relações de objecto que ali se estabelecem. É a comunhão do nosso pensamento, de dois aparelhos de pensar e sonhar, é o viver (co-sentindo) a narrativa, que se exprime na sessão analítica. Aí realizamos a escuta flutuante, co-associativa, co-construtiva, aprendendo com a experiência, a qual nos tem permitido “alfa-betizar” a técnica psicanalítica de interpretar os factos psíquicos, com a neutralidade possível, com a melhor empatia e a menor projecção da nossa visão do mundo.
A visão binocular, bidireccional, como uma acção consciente do analista, associando-se à intuição como uma variante do insight, bem como a utilização da linguagem, enquanto veículo da nossa experiência emocional, faz-nos caminhar na resolução do “estranho” da constelação emocional, que decorre da natureza do vínculo que temos estabelecido na comunicação esclarecedora e transformativa da história encobridora (sintomas) que cada paciente nos traz para a análise.
É verdade que a teoria do pensamento de Bion (1970) acredita na capacidade do analista se constituir num continuum intersubjectivo continente/conteúdo do sofrimento, da criatividade, procurando a sua transformação na busca e no encontro da verdade de ambos.
Mas é na atitude: “sem memória, sem desejo”, um estado de relaxação ou de rêverie, ou de livre atenção flutuante, que criamos o contexto emocional e relacional de desapego à memória em que a linguagem repõe o histórico-social, na narrativa ontológica.
A relação nova e diferente, numa relação sanígena (Matos, 2002), que surge no campo da intersubjectividade psíquica, o processo de interpretação coloca-nos numa atitude de amor à verdade. Se no estado de rêverie
do analista ocorrer uma recordação, então essa recordação, enquanto símbolo da realidade psíquica, revela-se como relevante.
Bion (1970) acrescentou: “(…) Pior do que uma interpretação certa ou errada é a falha da interpretação não significativa, embora não baste que ela seja significativa (…) Ela deve ser também verdadeira (…) Não pode existir um resultado genuíno baseado na falsidade. Portanto o resultado depende da proximidade que a avaliação interpretativa mantém com a verdade”.
A capacidade negativa não será também um processo de identidade simbólica que nos coloca numa posição epistemológica equivalente à capacidade imaginativa do poeta, do artista, do tecelão que co-constrói uma tapeçaria para suportar a Vida, um aparelho de pensar os pensamentos?
Para nós, no processo comunicacional, na interpretação psicanalítica da narrativa do paciente, imersos no contexto conceptual de Bion, a aventura psicanalítica centra-se, pois, na análise do discurso mental, nas suas dinâmicas disruptivas face à inveja e à avidez, problemáticas que encontramos em pacientes borderline com difícil acesso à verdade psíquica.
Encontrando, pois, pontos de convergência entre os diferentes quadros conceptuais já referidos, aquilo que designamos de realidade é a nossa particular interpretação do mundo. Uma forma pessoal, por vezes íntima, de entender o mundo objectal – visão do mundo.
Hans von Foerster (1982), epistemólogo do pensamento cibernético, relembra-nos que a Ética é actuar permanentemente de modo a ampliar o número de alternativas, enquanto que a Estética tem como princípio a experiência de observador/observado para poder actuar.
Assim, partindo da capacidade de estruturar o negativo, de ligar, de interrogar a dor do desamparo, mais do que da ideia do lugar onde o sujeito resolve, a sessão analítica constitui-se num campo de expansão da competência narrativa (Ferro, 2004).
As narrativas que se actualizam pela linguagem, que decorrem das significações da experiência, porque a conduta humana inscreve intenções, a interpretação implícita e luminosa de esperança reenvia-nos para o mundo intersubjectivo que é o da palavra e da indagação partilhada, enquanto processo de construção de realidades alternativas, de busca de verdades reprimidas.
No mundo global de relações efémeras e funcionais, de “amor líquido” (Baumann, 2006), a interpretação enquanto processo de cura vive da
produção de um diálogo interno amoroso, da consciência reflexiva, de constituição e de legitimação de identidades, cujas mudanças exigem o nosso afecto inscrito na reconstrução simbólica dos pensamentos e das falas emergentes. Sem uma linguagem de afectos e a sua interpretação, não poderíamos pensar no amor, na cooperação, no poder e na inveja, tal como nas experiências sociais complexas, como é o caso da psicoterapia ou a transformação psíquica operada no processo psicanalítico.
A partir desta perspectiva, vivemos com os nossos pacientes processos de co-narração transformante , onde a interpretação pela palavra permite a construção de um espaço de crescimento mútuo, que qualifica, adjectiva e nomeia a natureza do pensamento e da relação intersubjectiva paciente-analista-paciente, bem como articula modelos histórico-sociais de referência e práticas de vida idiossincráticas.
Assim sendo, as mudanças psíquicas não constituirão uma reconstrução dos objectos internos danificados, que na relação transferencial se vão tornando mais coesos e mais consistentes, que veiculam um sistema de referência, de reconstrução das relações primordiais geradoras de uma nova narrativa à procura de novos sentidos, novas realidades?
A mudança psíquica não se constituirá na busca recursiva das “convicções” subjacentes e/ou irracionais, que residem naqueles enredos das estórias, no “duplo” emergente nos processos narrativos da fala do paciente?
Para nós, a narrativa psicanalítica é narrativa de uma narrativa (a do paciente) e resulta de uma organização secundária, consciente, subjectiva, que revela a lógica e o estilo de pensamento circular daqueles: paciente-analista-paciente.
Como escreveu Anzieu (1979): “(…) a narrativa contada pelo contador fornece ao narrador a ilusão de trazer um sentido à história”. Não é apenas organizada por um fantasma, nem somente histórica, nem mesmo dramática. Ela é desenvolvimento, é palavra do Id e/ou do Supereu, mas essencialmente palavra do Eu… É expressão do Eu, de qualquer forma.
A interpretação revela-se, assim, como um trabalho enigmático de reflexividade co-construída, interminável, que nos empurra para a descoberta da qualidade inefável do sonho, da indagação de ser analista no trabalho clínico, tal como a competência narrativa do paciente (Ferro, 2004) instala, para ambos, a possibilidade de novas experiências emocionais, transformadoras de relação: reparar o passado pela recontextualização de novos sentidos intersubjectivos, abrir, renovar e preparar o futuro.
A escuta flutuante, a atitude de indagação partilhada, assim como os efeitos enigmáticos da interpretação da construção social interna do paciente são as dinâmicas que põem o processo psicanalítico em movimento, que geram impasses, que provocam intervenções, e, principalmente, nos empurram para a criatividade, para as metáforas, para as imagens e as palavras frescas de esperança, por vezes, quiçá, para contornos da técnica que nos possibilita co-equacionar as mudanças psíquicas do paciente.
Em nosso entendimento, as tendências contemporâneas apontam para uma evolução epistemológica.
A relação psicanalítica surge de um encontro interrelacional, que tem regras próprias que produzem uma realidade específica, que não é mais a mera revelação de uma outra, que estaria latente, mas o desenvolvimento mesmo de potencialidades da subjetividade e da intersubjetividade dos participantes.
Em suma, a psicanálise precisa de somar recursos, ao invés de subtrair estilos, para fazer face aos desafios de tratar pacientes com distintos e complexos quadros psicopatológicos com especificidades emocionais, os quais requerem versatilidade nas exigências do método e no processo de cura analítica.
A psicanálise, para nós, constitui-se como um processo que se edifica não só num estilo conversacional com o paciente, como também abre um campo dinâmico de pensamentos do novo paradigma, que integra uma posição epistemológica co-evolutiva do conhecimento transformador e inovador para cada um de nós.
Navegando com a narrativa do poeta Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa, no seu “Livro do Desassossego” (2001), terminamos a pensar com ele:
“(…) Mas como se faz, então? Não fazendo. Sonhando. Cumprindo os nossos deveres quotidianos, mas vivendo, simultaneamente, na imaginação. Viajando imenso na imaginação (…)”
Porém, na co-evolução da e na escuta do “outro”!
ABSTRACT: This article attempts to highlight the importance of interpretation as a dynamic and circular instrument of the transference-countertransference process of the analysis of patients who search to relieve the suffering and, concomitantly, unveil the inscribed meanings in mental life and in the inter-subjective continuum that is created between patient-analyst-patient.
Interpretation serves the co-construction process of the analytical pair, and the asymmetrical analytical relationship is constituted, for both, as a communication process and a “floating listening” of the patient's unconscious. The language and speech of the two give the possibility of accessing the “unknown” which inhabits in each element of the therapeutic pair who seek out a bond of truth and of knowledge.
KEYWORDS: Interpretation; Analytical treatment; Analytical ecosystem; Language and communication; Social constructionism; Alternative realities.