O constructo “Pai”, na teoria psicanalítica, surgiu particularmente associado aos processos e funções que possibilitam renunciar ao objecto, alterando ou renunciando à satisfação da pulsão, e à consequente capacidade de criar satisfações substitutas no contacto com a realidade. Neste trabalho pretendemos contribuir com uma reflexão aprofundada sobre a compreensão da interiorização da função paterna que se constitui na verdade como o protótipo do Terceiro no aparelho mental, capaz de remeter o sujeito para a posição de observador distante e auto-reflexivo. Através de duas vinhetas clínicas, relacionamos a natureza das funções paternas internalizadas com o desenvolvimento do espaço mental, e da capacidade analítica da mente, analisando as implicações destes conceitos na prática clínica da psicanálise.
Trabalho apresentado nas III Jornadas Ibéricas Teórico-Clínicas de Psicanálise: Pasado e y Presente en la práctica psicoanalítica, Barcelona, 2013
Psicanalista titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise/IPA, Lisboa – E-mail: raragao@clinipinel.com
O lugar do Pai em Psicanálise é bem paradigmático da evolução teórica e clínica nestes mais de 100 anos de existência.
Freud, num primeiro instante, captou a importância do construto “Pai” para o desenvolvimento do psiquismo humano: a admiração pelo poderoso pai e a ambivalência que cedo desperta, enquadrado nas triangulações vividas no plano mental com a figura materna, onde amor e ódio se cruzam.
O Pai constitui-se assim como um vasto objeto de representações – objeto de identificação, admirado e a imitar, poderoso e omnipotente; como objeto protetor; ou ainda como figura castradora, autoritária, proibitiva e temida – ocupando portanto um espaço singular na organização e desenvolvimento do mundo fantasmático. Enquanto objeto de estudo psicanalítico, cedo assumiu um lugar central na investigação e concetualização teórica, bem como na prática clínica.
Com Freud, o significado dado ao Pai transforma-se evolutivamente (Kraut, D., 2008): Se num primeiro momento prevalece a ideia de que a perda é o elemento central, apercebemo-nos gradualmente que o que assume especial destaque é a impossibilidade de acesso ao objeto ou da concretização do desejo, pela constituição de uma interdição, consequente à organização de uma lei interna.
De facto, o Pai Edipiano ocupou sempre um lugar basilar nos textos mais filosóficos e antropológicos: desde Totem e Tabu (Freud, S., 1912-13), até ao Mau estar na Civilização (Freud, S., 1930) e ao Moisés e o Monoteísmo (Freud, S., 1939). Freud discutiu também as origens do sentimento de culpa decorrentes desse parricídio do “Pai primitivo”, bem como as múltiplas expressões de ambivalência associadas ao conflito entre as forças eternas de Eros e a pulsão destrutiva de Thanatos.
Jaime Tabares (2002, p.151) assinala ainda que no texto sobre Leonardo da Vinci (Freud, 1910), Freud introduz de algum modo uma temática fundamental sobre o desempenho da função paterna, adiantando uma explicação compreensiva para o desenvolvimento homossexual da criança.
A teoria da inveja do pénis e o complexo de castração atribuem maior significado ao papel do Pai no drama edipiano, enfatizando a visão falocêntrica do pensamento psicanalítico inicial.
Este destaque dado ao Pai na teoria psicanalítica, só voltará a ganhar igual dimensão com Lacan. Concebe o inconsciente estruturado como uma linguagem e será o Pai a figura central que possibilita a introdução da lei do sistema de linguagem, fraturando o vínculo ilusório criado entre a mãe e a criança. O Pai apresenta-se como elemento fulcral pela forma como estrutura a organização pessoal na abordagem com o real, capaz de “abrir” o alfabeto materno na linguagem do Mundo. A criança torna-se assim sujeito e acede à cultura!
A morte do Pai, para Lacan, é o ponto sensível sobre o qual a psicanálise se debruça: o que está em jogo não é tanto a mera satisfação do desejo, mas sim uma determinada “relação ao saber”, entendido como articulação significante, onde o Pai, nessa passagem, é esvaziado de consistência imaginária e tomado como operador estrutural.
Lacan constitui como a “Lei do Pai” a importância colocada na castração simbólica, que representa um momento de mudança na organização psíquica: a passagem do
Imaginário (próprio de um sistema diádico) para a ordem simbólica.
Tabares (2002) assinalou que este acesso ao simbólico é correlativo à capacidade de superar a posição depressiva, tal como Melanie Klein a concebeu, quando a criança aceita perder o que já perdeu! O papel do Pai estaria relacionado com o desencadeamento de um processo de luto cuja elaboração determina, de facto, a passagem da relação dual e imaginária ao simbólico.
Klein pensou o complexo de Édipo precoce como sendo desencadeado pelo corpo materno e seus conteúdos, ao que denominou de fase feminina - a criança fantasia o corpo da mãe como cheio de coisas boas, identificando-se então com este. A tomada de conhecimento do pénis do pai como conteúdo especial do corpo da mãe é que introduz naturalmente o complexo de Édipo.
É a frustração que o seio proporciona (inerente à ansiedade paranóide), e o desejo de o reparar (associado às ansiedades depressivas), que possibilita à criança voltar-se para o pénis do pai e assim aceder à situação triangular edipiana. Melanie Klein denomina este importante momento desenvolvimental como “a passagem do seio para o pénis”.
A tomada de consciência da existência do Pai e das relações com outros objetos, acompanha o processo gradual de reconhecimento da mãe como objeto total e diferenciado de si próprio. Para Klein, as crianças de ambos os sexos ao afastarem-se do seio frustrante da mãe, voltam-se para o pénis do pai concebido ou como objeto de desejo ou como rival identificatório, determinando consequentemente a base da heterossexualidade ou da homossexualidade.
Os estudos desenvolvimentais foram incluindo aspectos metodológicos complementares, onde o papel do Pai foi sendo inserido e abordado, permitindo por exemplo que Abelin (Abelin, E., 1975), partindo de concetualizações de Mahler sobre a importante função do Pai, aprofundasse os processos de individualização e separação enquanto organizadores do mundo mental infantil.
Apercebemo-nos então de como teoricamente a discussão do construto “Pai” se desenvolve para campos mais vastos e complexos, estabelecendo espaço para o desempenho de funções psíquicas importantes na construção identitária do sujeito, e na expansão do seu mundo mental.
A criança parece assim necessitar vivenciar o Pai como alguém que observa a sua relação com a mãe, oferecendo-se como elemento de identificação numa espécie de extensão do Self (Fonagy, F. & Tagret, M., 1995), que lhe abre a possibilidade de um contato outro com a realidade, desencadeando a abertura para a socialização.
A função desempenhada por este construto, Pai, parece assim deslizar de “temível e ameaçador”, para aquele que é também capaz de se constituir como o garante protecionista da criança perante a vivência narcísica de se acreditar como falo da mãe, isto é, um objeto de fabrico materno (Kraut, D., 2008) que o pode simplesmente condenar ao gozo da fusão/confusão imaginária.
Donald Meltzer utilizou o conceito de “pénis com testículos” para significar o Pai interno como função, enquanto objeto total, diferenciando-o do “pénis” como objeto parcial dentro do corpo da mãe, e atribuindo ao primeiro, “pénis com testículos”, uma função reparadora do corpo da mãe na mente da criança, associando-a à função criativa. Foi neste sentido que Dana Birksted-Breen (1996) propôs o conceito de penis-as-link como instrumento de Eros.
John Steiner, em 1996, obriga-nos a reformular algumas das clássicas noções propostas inicialmente por Freud sobre a resolução do Édipo proporcionada pela ansiedade de castração associado à figura paterna. Sugere que é a noção da realidade da relação parental que introduz o terceiro objeto na díada mãe-bebé, colocando necessariamente em causa a exclusividade da relação da criança com a mãe. A tomada de conhecimento da realidade psíquica da relação entre os pais é sentida como um duro golpe, associado ao Pai maligno e poderoso. A criança vê-se assim forçada a desistir dos desejos incestuosos para com a mãe, face à autoridade cruel do Pai (Steiner, J., 1996). Não reconhece contudo justiça no ato, e embora redirecione os desejos sexuais, e iniba o ódio e a vingança, irá aguardar o tempo onde esta mesma vingança possa satisfazer a gratificação edipiana que viu negada. Criam-se assim condições para uma idealização poderosa materna, disfarçando sentimentos de vingança contra o Pai, organizados numa espécie de “refúgio psíquico”, conceito aprofundado pelo próprio Steiner (Steiner, J., 1993), que impede o desenvolvimento para uma verdadeira autonomia emocional.
Existe porém outra alternativa que se constituirá como a solução depressiva para o conflito edipiano (Steiner, J., 1999): reconhecendo a realidade da relação parental, tendo implícito a aceitação da diferença de gerações e a inevitável separação da mãe. Ainda que não seja uma solução propriamente fácil
e sem custos, é alcançável quando a criança se torna capaz de, com força e determinação, ser rebelde contra a autoridade parental, e diluir a agressividade proveniente do Pai castrador por ambos, pai-mãe, percepcionado então como casal (objeto total e diferenciado). O que o sujeito ganha, neste esforço, é a possibilidade do contato com a realidade que lhe é dolorosa, porém essencial para o seu desenvolvimento.
É então a qualidade da relação com o Pai e a forma como esta é tolerada pela criança que se torna fundamental. Suscita-lhe o sentimento de ser observado e permite-lhe mais tarde aceder à capacidade de se perceber a si próprio em interação, identificando-se a uma 3ª posição (Britton, R., 2002), naquela que é uma triangulação identificatória interna essencial para a capacidade de se observar e de refletir sobre si mesmo.
Pensamos de maior importância as implicações desta noção de Pai na construção da identidade de género, da elaboração da diferença generacional, e ainda da noção da diferença entre Eu e o Objeto, e entre realidade interna e realidade externa.
As enormes mudanças sócio-culturais operadas no século XX, com o declínio das sociedades patriarcais, e um novo e fascinante olhar sobre o feminino, permite-nos agora ter novas condições para perspectivar este “Pai” na clínica psicanalítica.
Num mundo contemporâneo onde não mais é absolutamente necessária a presença do pai biológico para a concepção do Ser-humano, e onde o número de famílias mono-parentais tem aumentado extraordinariamente, a teoria Psicanalítica assume uma posição diferenciadora e importante, demarcando também a natureza das particularidades do seu objeto de estudo: o Pai como objeto do mundo interno.
Esta complexa conceção do mundo psíquico levou M. Fakhry Davids a questionar-se sobre o propósito de conceber a Mãe como 1° objeto, colocando o Pai como eventualmente o 2° objeto estruturado do mundo mental; se assim fosse, qual será a justificação primitiva para a criança ser levada a procurar algo (neste caso, o Pai) fora da díade construída com a mãe? Davids (Davids, M.F., 2002) propõe antes que o Pai se constituí igualmente como um dos objetos primários. Teriam formas equivalentes, mas desempenhando funções diferentes, inevitavelmente em relação, mas não similares ou não meramente opostas. Concebe-os a ambos como primários no sentido que Bion atribuiu às pré-conceções, aguardando a possibilidade de, uma vez confrontados com a realidade se constituírem numa conceção, e iniciando o conhecido processo do desenvolvimento do pensamento proposto por este autor.
O exemplo clássico (Davids, M. F., 2002, p. 77) é a referência à situação de choro inconsolável da criança que a mãe, apesar dos seus esforços, não parece capaz de apaziguar e “calar o seu bebé”. Podemos inferir que a criança se sente cercada e com receio de ser possuída pelo mau objeto: a mãe, o contexto físico em que se encontra, os ruídos e cheiros ficam assim associados ao mau estar interno. Como consequência de ter exteriorizado, por projecção, o bom objeto (de forma a preservá-lo e protegê-lo) a criança necessita de uma ajuda externa para o recuperar e redescobrir; contudo a mãe afigura-se como que impossibilitada para tal, por ser parte constituinte da situação persecutória. Para tal, na perceção da criança, uma figura parental livre desta trama persecutória poderá ser capaz de resguardá-la desta complexa situação e restabelecer um estado de acalmia importante.
Neste contexto de emoções intensas, Fakhry Davids (2002) argumenta que a capacidade de pensar é por vezes associada à função paterna (paterna uma vez que é construída na sequência de “quebrar” o vínculo da díade mãe-bebé até aí acreditado como omnipotente). Surge assim inevitável a realização de vivências decorrentes da atividade castradora (associadas à figura paterna) que interferem com as fantasias omnipotentes (associadas à figura materna). Quando temos na realidade um Pai que age desta forma, podemos pensar nele como desempenhando a função simbólica paterna.
Desde o início, o Pai aparentemente ausente da cena diádica, na relação entre a mãe e a criança, encontra-se longe de se poder constituir como inexistente. Na realidade é ao Pai que é atribuída a importante função de observador da díade, colocando-se numa “posição anti-sexual”, na expressão de André Green (Green, A., 2009, p. 28). Mesmo não assumindo uma posição hostil, como a problemática edipiana evidencia, o Pai pré-genital encontra-se bem presente através da particular posição de observador, constituindo-se como uma terceira e fundamental parte de cena, apreendida pela criança apenas intuitivamente.
Parece ser a natureza da relação entre pai e mãe, e o modo como ela é vivida no mundo interno da mãe, que determina se o “Pai” no mundo mental da criança é afastado ou se se constitui como violento, promovendo um acréscimo de tensão capaz de paralisar
o processo de pensamento. Escolher somente a protecção da díade, afastando o Pai, como 3°, poderá significar a entrega à loucura, onde a capacidade de se auto-observar, refletir e aprender com a experiência se vê impossibilitada.
No primitivo contexto da vida mental infantil, o Pai, precisamente por se apresentar continuadamente próximo e constante da criança, mas por ser tão diferente da mãe (mesmo fisicamente, em termos de aparência, tom de voz, cheiros, etc), promove a importante capacidade de apreensão da diferença, desencadeando o processo fundamental da capacidade elaborativa.
Da percepção desta diferença organiza-se mais tarde a representação da relação “Pai-Mãe” que se constitui como construto próprio, e onde a qualidade da relação do casal parental imaginada inconscientemente ganha uma importância decisiva.
Ser capaz de fechar o triângulo edipiano através do reconhecimento do vínculo que une os pais, torna-se uma fronteira limitadora e fundamental do mundo interno. Para Ronald Britton (Britton, R., 1989), a criança vê-se assim capaz de criar um “espaço triangular” – isto é, um espaço constituído pelas três pessoas da situação edipiana e todos os seus potenciais relacionamentos. Desta forma, a criança adquire a possibilidade de ser participante de uma relação, mas também observado por uma terceira pessoa, e ainda o de ser ela própria observador da relação entre duas pessoas. A sua habilidade para imaginar a relação parental influencia assim determinantemente o desenvolvimento de um espaço, onde pode ser pensado e simultaneamente constituir-se como capaz de pensar.
Temos aqui a origem da capacidade mental de nos vermos a nós mesmos em relação com outros, concebendo pontos de vista diversos, mas simultaneamente continuarmos a ser nós próprios, de refletir sobre nós e ao mesmo tempo sermos nós mesmo.
A capacidade de se identificar ao observador e de se refletir sobre si mesmo na relação, permite uma primeira vivência que se encontra inerente a algo fundamental do trabalho clínico psicanalítico (Aisenstein, M., 2009): o de procurar construir uma narrativa com sentido histórico no contato elaborativo das representações de objeto, e a possibilidade de se socorrer do mecanismo de identificação que se abre à relação com o diferente, integrando elaborativamente essa experiência, tornando-se assim capaz de se transformar sem deixar de ser quem é.
V. procura-me após um trabalho psicoterapêutico que fez com colega de outra cidade onde viveu. É um jovem contabilista, de origem humilde, curioso e atento. Nos primeiros 2 anos é muito difícil sair de uma fala concreta, onde qualquer interpretação minha lhe soa a inteletualização inacessível. Apercebe-se da barreira que mentalmente cria sobre temáticas dirigidas ao seu mundo interno, em contraponto à sua grande sensibilidade para com terceiros, para escutar e compreender.
Opto por deixar-lhe apenas breves elaborações minhas, no decorrer das sessões, como que estados de alma a pontuar a vivência do momento (e recordo os mestres Ogden ou Ferro, na sua forma inigualável de estar clinicamente, quase que sonhando – que muito admiro, mas na qual não me revejo facilmente como clínico). Inicialmente são comentários incompreensíveis, estranhos e impróprios, escutados esforçadamente.
Um dia recebe um telefonema do senhorio que o obrigaria a mudar de casa, e que o deixa num estranho e desproporcional mau estar e desejo de desligar. Associa depois estupefacto à sensação caótica quando em criança foram a sua casa comunicar a morte do pai por acidente – na realidade, não retém qualquer outra memória consciente da presença do pai. Apercebe-se então como a omnipresença da figura materna se lhe impôs na sua vida consequente ao luto patológico da mãe, criando-lhe um esmagador sentimento de insegurança, com o qual luta, na construção da sua autonomia e no contato com outras mulheres.
O contato fortuito com a consciência dolorosa da perda permite-lhe repentinamente começar a escutar-me de outra forma (e perceber um pouco a minha língua), onde o acesso ao simbólico passa a ser possível e onde a mudança no progresso analítico se elabora progressivamente.
D é uma jovem mulher que me procura desesperada por sentir que destrói a relação amorosa de forma quase gratuita e descontrolada.
O período da adolescência é recordado com grande pesar, revolta e sofrimento. No evoluir do trabalho analítico associa a violência na relação presente com a vivida internamente em episódios secretos, até hoje silenciados, em que executava cortes no seu próprio corpo quando adolescente.
Narra-me um sonho: está numa fábrica, junto com o companheiro e apercebem-se
que numa grande sala se encontra um homem a ser torturado por trabalhadores num ambiente de enorme tensão. O homem nada revela, e mantém-se bem-disposto e sorridente não obstante estar sob tortura. Ela é capturada pelos trabalhadores juntamente como companheiro e são forçados a torturar o tal homem com seringas. Ele continua a resistir e a rir. Num segundo momento está fora da sala, num carro com este homem. O namorado fica porém de fora, gritando para ela partir sem problemas, descansando-a. Ela arranca a grande velocidade com este homem que entretanto se transforma numa mulher, assumindo uma posição mesclada. Vão dar depois a um barco, continuando o namorado a gritar-lhe, incentivando-a para prosseguir, e manter-se tranquila.
Associa o homem ao analista, impressionada porém com a tortura/resistência, não obstante encontrar o garante de persistência e sentido de humor face ao desespero que traz frequentemente às sessões, expresso num choro incontrolável. Aponto-lhe o detalhe deste homem que ela sente firme como que a encaminhá-la para as águas do feminino.
Ri-se e comenta que esta última semana se deu conta pela primeira vez a falar com a mãe longamente, descobrindo nela uma mulher diferente da mãe de sempre, com quem é agora possível aproximar-se e dialogar.
Parece assim descobrir dentro dela um resto da figura paterna que é colocada e revivida sobre o analista, e que assim lhe permite transmitir o sentimento de que poderá sobreviver pela transferência aos ataques dirigidos anteriormente. Somente desta maneira parece possível enfrentar a ameaça do desespero de poder cair numa espécie de orfandade e destrutividade.
Nesta sequência recorda-se de dois sonhos antigos: num primeiro vive intensamente a violência do poderoso desejo da morte do pai, onde culmina com a expressão que não consegue esquecer, dirigindo-se ao pai no sonho – “tu não és verdade, não estás aqui, porque eu enterrei-te!”; e logo de seguida, num outro sonho, que percebe agora ter sido recorrente no passado e vivido com grande ansiedade; encontra-se presa, numa prisão muito diferenciada, porque o seu crime foi maior do que o dos outros presos, embora não saiba qual – pesadelo angustiante da sua vida! E que agora procura transformar.
É talvez na análise de casos limite que se tem demonstrado de forma particular as distorções, por vezes subtis mas fundamentais, das funções paternas, onde o lugar que o sujeito ocupa nas particularidades do jogo fantasmático de relações parentais se revela pervertido. A Mãe omnipotente investe a criança substituindo-se à figura paterna, e torna-se particularmente difícil odiar e desejar a morte do Pai nestas condições.
Desta forma, o Pai não se posiciona na mente da criança nem como objeto ausente, nem para ser odiado ou ainda como estando perdido. Tem de ser reconstruído no setting analítico através dos destroços fragmentados remanescentes, ou como afirma Green (Green, A., 2009, p. 45): o Pai perdido necessita de algum modo ser reencontrado pela transferência.
A internalização da figura paterna surge assim com uma importante função de mediação capaz de se estruturar precocemente e promover o desenvolvimento mental; mediando primeiro a relação com a realidade diferente do mundo externo, e mediando igualmente a relação com o desconhecido que encontra dentro de si, e que o contexto analítico promove. O sujeito necessita então de novos recursos que lhe permitam lidar com a realidade não-pensável, desenvolvendo mecanismos mentais com funções diversas que lhe possibilitem simultaneamente aproximar-se mais do contato com o diferente e suportar a ferida narcísica das descobertas que efetua.
Nos primórdios da concetualização do tratamento analítico, com Freud, o foco primordial centrava-se na pessoa singular, na compreensão e auxílio ao paciente. O Pai era essencialmente concebido como primeiro representante da realidade, capaz de criar obstáculos aos desejos, capaz também de se organizar como barreira e de desencadear na criança intensas ansiedades de castração. Na clínica, a interpretação e a análise das defesas iniciavam um processo contínuo de resolução de conflitos que permitia ao paciente tolerar melhor as suas ansiedades – estávamos pois perante o modelo arqueológico da interpretação (Levine, H., 2011), enquadrado na abordagem terapêutica de pacientes predominantemente neuróticos.
O desenvolvimento da teoria psicanalítica permitiu realçar a importância dos aspetos relacionais, e a exigência psíquica solicitada a ambos os intervenientes, analista e paciente, distintos, onde os processos transferênciais e contratransferenciais se assumem como instrumento central da pesquisa clínica.
O acompanhamento de estados limites e psicossomáticos, entre outros, mais complexos, leva o analista a promover o desenvolvimento da capacidade de pensar os pacientes, em nomear e elaborar os novos elementos
psíquicos criados na mente de ambos, analista e paciente, no espaço intersubjetivo que é potencializado na relação analítica.
No trabalho analítico, onde a internalização da função paterna pode ser revivida e recriada através da figura do analista, o sujeito parece renunciar às imagens parentais primitivas, sem contudo as deixar de tomar como origens identificatórias, mas sendo capaz de desenvolver o seu próprio sentido de temporalidade e historicidade, construindo desta forma o “seu projeto” e objetivos para o processo terapêutico.
Para o realizar, tal como os seus pais internos renunciaram à possessão da sexualidade infantil (Perelberg, R., 2009, p.128), também o analista no exercício da sua função paterna necessita renunciar à tentação de “possuir” a sexualidade infantil do paciente. Assim, permitirá que o setting analítico evolua ele próprio de um estado transicional entre a simbiose e a união potencial, capaz de refletir a localização originária bem como a identidade diferenciadora evolutiva do sujeito.
O trabalho psíquico do analista fundamenta-se num eixo concetual terciário que inclui a atenção flutuante (numa perspetiva intrapsíquica, sobre a análise de conteúdo), e a contratransferência (numa perspetiva intersubjectiva, com a análise da relação e do espaço continente), subordinando-as a uma gama mais ampla e complexa de operações, na qual se destacam a imaginação e a criatividade psicanalítica.
Ao paciente cabe descobrir “outras linguagens” do Mundo para além da primitiva. Hoje, ao analista cabe conhecer os diferentes dialetos da “fala do inconsciente”!
ABSTRACT:
The construct “Father”, in psychoanalytic theory, appeared particularly associated with the processes and functions that enable renounce to the object, altering or abandoning the satisfaction of the drive, and the consequent ability to create substitute satisfactions in touch with reality. In this work we intend to contribute a further reflection on the understanding of the internalization of the paternal function that is actually as the prototype of the Third mental apparatus, able to refer the subject to the position of distant observer and self-reflective. Through two clinical vignettes, we relate the nature of fathers' roles internalized with the development of mental space, and analytical capacity of the mind, examining the implications of these concepts in clinical practice of psychoanalysis.
KEYWORDS: father, paternal function, development of mental space