A autora, a propósito de um filme que retrata uma relação sadomasoquista (Polanski, 2013), desenvolve uma investigação acerca da literatura psicanalítica sobre esta temática. Assim, a partir da descrição da evolução das ideias de Freud, para quem, de acordo com a sua teoria pulsional, todo o masoquismo era erógeno, este trabalho prossegue com as ideias de um autor contemporâneo (Johnson, M., 1994), que procurou integrar a teoria pulsional com a teoria da relação de objecto, introduzindo o conceito de “masoquismo de carácter”. Finalmente, a autora investiga a literatura actual no sentido de compreender as diferenças/semelhanças do masoquismo sexual e do masoquismo como um funcionamento da personalidade e de relação de objecto, questionando se estamos ou não perante duas entidades/funcionamentos diferentes. Da pouca literatura actual encontrada sobre esta temática, sendo que muito existe sobre outros e vários tipos de perversão mas muito pouco sobre funcionamentos sadomasoquistas, a autora destaca um estudo (Novick & Novick, 1987) que aborda a questão masoquista numa perspectiva desenvolvimental. Este trabalho enfatiza a origem do masoquismo na relação precoce, o qual se torna posteriormente sexualizado na fase fálico-edipiana. A autora procura ilustrar com exemplos da sua prática clínica alguns dos pensamentos teóricos expostos neste trabalho.
Artigo recebido a 2 de Fevereiro de 2014 e aceite para publicação a 7 de Outubro de 2014
Psicóloga Clínica, Psicanalista, Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise/IPA. E-mail: ritamarta7@gmail.com
Este trabalho surge após a visualização do filme Vénus de Vison, de Polanski (2013), pela forma como me impressionou ver dramatizada aquilo que me parece ser uma relação sadomasoquista, não só na sua dimensão do bater/ser batido ou agredir/ser agredido, mas também na confusão/oscilação entre estas duas entidades opostas que não são mais do que duas faces da mesma moeda, como descreveu Freud em 1905. Opostos esses que correspondem afinal de contas a objectos parciais, vítimas de profundas clivagens, assim se explicando a sua instabilidade e permanente transformação no seu contrário.
Foi Polanski, de quem eu já havia assistido a filmes sobre esta mesma questão (Lua de Mel, Lua de Fel, 1992) que me inspirou a investigar a temática do sadomasoquismo, surgindo também em mim um outro olhar sobre alguns dos meus pacientes, olhar esse que ajudou a desfazer certos “nós analíticos”, permitindo que o processo terapêutico desse saltos para a frente. Não há dúvida que as imagens de um filme podem por vezes funcionar como um sonho que ficou a pairar na nossa mente, e nos instiga a elaborar, investigar e escrever…
Na primeira cena do filme Vénus de Vison (2013), baseada numa peça de teatro de David Ives, que recentemente Roman Polanski trouxe para o cinema, a câmara leva-nos num voo sobre as árvores invernosas de uma rua deserta, cinzenta, e fortemente chuvosa, até aquele teatro decadente, também cinzento e comido pelo tempo, onde as portas se abrem de par em par, empurrando-nos para a grande sala de teatro. Lá dentro encontramos Thomas, o encenador, sozinho, a quem pouco depois se vem juntar uma mulher – Vanda. Thomas pretende adaptar-encenar a novela “Vénus de Vison” publicada em 1870 pelo austríaco Leopold von Sacher-Masoch, o patrono do masoquismo, e Vanda procura um lugar de actriz.
No princípio da peça ele domina, é ela que precisa dele. Mas quando ela, Vanda Jourdain e actriz candidata ao papel, começa a fazer a personagem Wanda von Dunayev, transforma-se na outra Wanda, que ecoa no teatro interno de Thomas.
No início Vanda chega, já fora de horas, àquele teatro antigo, encharcada até aos ossos, suplicando-lhe que a aceite para a audição do
papel de Wanda. A actriz, intelectualmente pouco sofisticada e de aparência ligeiramente brejeira (traz um corpete de couro e ligas, e um fio de couro com chave ao pescoço para fazer as cenas sadomasoquistas), ao iniciar o papel da personagem transforma-se, ganhando de imediato a sofisticação/sedução de Wanda. A sua voz (em Vanda é uma fala incontinente e mascada por pastilha elástica) torna-se um canto de musa para o encenador Thomas. Aos poucos, quanto mais ela é a personagem dominadora que ele escreveu e que algures habita a sua mente, mais ele se rende ao seu domínio…
Para contracenar com Vanda, Thomas é impelido a fazer o papel da personagem masculina, o aristocrático Severin von Kusiemski, que na famosa novela de Sacher-Masoch se oferece como escravo de Wanda, e acaba a viver cenas em que é amarrado e chicoteado por ela, declarando sentir prazer com isso.
Também o personagem Severin, do autor-encenador-actor Thomas, tem prazer no sofrimento, e durante o filme-peça-audição vai revelando a sua história pessoal, e de como foi brutal e sadicamente chicoteado por uma tia - figura poderosa que usava um casaco de vison - como castigo pela sua rebeldia infantil. Desde aí refere ter uma fixação erótica em mulheres, vestidas de peles, a subjugarem-no…O autor-encenador Thomas fica impressionado por aquela actriz que tão bem parece dominar o papel, que tudo parece saber sobre Wanda, mas que também adivinha - domina - a história escondida do seu autor Thomas, a realidade latente por detrás da ficção (ela vai fazendo um pouco o papel de psicanalista, tendo como pano de fundo, um velho divã freudiano repousado naquele cenário semi-decadente…). Aos poucos Thomas deixa de falar como autor, e confunde-se com o seu personagem.
A realidade mistura-se com a ficção. À medida que a peça/filme decorre podemos assistir à transformação das personagens no seu contrário. A actriz que submissamente pedia para ser ouvida passa a dominar o fascinado encenador. À medida que Wanda ganha poder sobre Severin, Vanda ganha-o sobre Thomas, enquanto alterna a sua fala entre a personagem e a actriz, entre a ficção e a realidade: troca o nome dele durante a sua fala, chamando o personagem (Severin) pelo nome real do encenador (Thomas) ou, inversamente, quando a falar fora da peça, designa o encenador pelo personagem.
Aos poucos Vanda toma o lugar de encenadora, propondo pequenas alterações na peça, sugerindo o aparecimento de uma vénus sensual (deitada num divã!) que, com o seu fascínio, domina absolutamente o autor-escravo Thomas, a vénus narcísica que o seduz com elogios ao seu trabalho e que ao mesmo tempo (numa aparente empatia) adivinha o seu interior (poderia ser esse o poder de um psicanalista perverso…). A vénus enrolada num vison, que gradualmente caminha de doce a sádica enquanto, ajoelhado, ele lhe calça as botas altas de couro negras.
É este o ritmo da peça, uma troca relacional incessante, em que uns se transformam nos outros, ora dominadores ora dominados, em que personagens e actores se confundem, assim como autor e personagens por ele criadas, seres reais e seres internos, ficção e realidade… masoquismo e sadismo.
Thomas transforma-se no dominado Severin e depois na dominadora Wanda. De criado torna-se senhor dela, e dele nela, mulher escravizada. Na cena final, Thomas-Severin encontra-se femininamente de lábios pintados, amarrado a um pau tribal, onde é batido e humilhado…
A novela “Vénus de Vison”, escrita por Masoch em 1870, base da peça de teatro de David Ives, retrata exactamente esta relação sadomasoquista entre um homem e uma mulher, que se inicia com uma discussão sobre a possibilidade de uma relação isenta de domínio entre as partes. É também dentro desta ficção que os dois personagens encenam um jogo em que Severin faz de criado de Wanda, sendo amarrado e chicoteado.
Terão sido as próprias práticas masoquistas (com amantes) do escritor Masoch que levaram, em 1870, o psiquiatra Richard Von Krafft-Ebing a designar por “masoquismo” uma das perversões sexuais, a qual consistiria no prazer sexual advindo de ser batido e humilhado (assim como designou por “sadismo”, as práticas sexuais violentas presentes na obra e vida do Marquês de Sade).
Mas será Freud, em “Três Ensaios sobre a Sexualidade” (1905), quem mais tarde virá a desenvolver toda uma teorização sobre o masoquismo. Desde o início Freud descreve a presença do par antitético sadismo/masoquismo num mesmo indivíduo, ligando prazer e crueldade, passividade e actividade: “um sádico é sempre ao mesmo tempo um masoquista” (1905 p. 151), associando-os ao complexo de castração e ao sentimento de culpa ligado à masturbação infantil, que conduziria a uma “fixação na atitude sexual
passiva” (1905 p. 150) e ao “sadismo voltado para a própria pessoa” (1905 p. 150). Sadismo e masoquismo seriam perversões sexuais, sendo a zona erógena primordial a pele (é curiosa a fantasia erótica do personagem com casaco de vison, que dá conta da pele, mas também da ideia de animal, primitiva…). Já nessa altura, Freud falava de “masoquistas mentais” para referir igualmente a presença de prazer na tortura mental e humilhação (e que também se pode ver no filme…).
Em “As Pulsões e seus Destinos” (1915), Freud considerou o masoquismo como a transformação do sadismo no seu contrário e orientação para a própria pessoa, sendo uma dinâmica em três tempos: (1) sadismo como violência contra outra pessoa, (2) substituição do objecto pelo Eu do indivíduo, e mudança da finalidade pulsional de activa para passiva, e finalmente (3) busca de uma terceira pessoa para assumir o papel de sujeito. Como Freud afirma: “Não parece existir um masoquismo originário que não se engendre do sadismo” (1915 p. 134).
Mais tarde, em “Uma criança é batida” (1919), Freud constata a presença de fantasias infantis masoquistas em alguns dos seus pacientes em análise, indivíduosesses que “muito raramente haviam sido espancados na infância” (1919 p.196). Freud considerou essas fantasias como um traço primário de perversão o qual, na neurose, permaneceria no fundo da personalidade, retirando uma parcela de energia sexual (histerias e neurose obsessiva) e nas perversões consumiria toda a vida sexual do sujeito. A fantasia inconsciente reprimida seria, em meninas e meninos, o “sou amada/o pelo meu pai”, dando conta de uma homossexualidade latente no caso masculino (no filme Thomas acaba de lábios pintados…). O fantasma consciente das meninas “estou a ser espancada pelo meu pai” teria um carácter masoquista e resultaria do sentimento de culpa pelo amor incestuoso (“o meu pai ama-me” converte-se em “o meu pai bate-me” por regressão à fase pré-genital sádica). Nos meninos, Freud não encontra uma fantasia análoga (mãe no lugar do pai), e constata uma maior presença de pervertidos sexuais entre os pacientes masculinos com esta fantasia, em cujas práticas haveria uma transferência do homem para o papel de mulher: “A sua atitude masoquista coincide com uma atitude feminina” (1919 p. 212). Assim, Freud encontra nas fantasias de espancamento masculinas a ideia de um menino malvado que é castigado, sendo esse castigo aplicado por mulheres (tal como na fantasia de ser castigado por uma tia do personagem Severin da “Vénus de Vison”), mas acaba por estabelecer como primária a fantasia “sou amado pelo meu pai”, transformada em fantasia consciente “estou sendo espancado pela minha mãe” (ou substituto, como a tia no caso do filme): “A fantasia de espancamento do menino é portanto passiva desde o começo e deriva de uma atitude feminina em relação ao pai (…) em ambos os casos, a fantasia de espancamento tem a sua origem numa ligação incestuosa com o pai” (1919 p. 213). A fantasia inconsciente na menina partiria da atitude edipiana normal, e no menino da atitude invertida, em que o pai é tomado como objecto de amor. Freud constata como a repressão se mantém sempre incompleta: o menino procura reprimir a sua homossexualidade latente ao reprimir a fantasia inconsciente e substituindo amor por sadismo, e o pai pela mãe, mas na sua fantasia consciente ele sente-se uma mulher, e “dota as mulheres que o espancam de atributos e características masculinas” (1919 p. ).
Com a introdução da segunda tópica e o conceito de pulsão de morte, Freud remodela a ideia de masoquismo, dando-lhe um carácter primário, como a parte da pulsão de morte que não se deslocou para fora, sob a forma de sadismo, mas se manteve no interior do sujeito (Freud, S., 1924). Este “masoquismo erótico”, primário, estaria na base das outras manifestações masoquistas (como o masoquismo moral): a líbido procuraria neutralizar a pulsão de morte, encaminhando-a para os objectos exteriores, ficando ao serviço da função sexual como sadismo; outra parte ficaria fixada no organismo como masoquismo. O masoquismo erótico vai assim tomando diferentes aspectos psíquicos consoante a fase da líbido: medo de ser devorado pelo pai na fase oral, ser maltratado na fase anal, ser castrado na fase fálica.
O “masoquismo moral” surgiria da relação do Eu com o Super-Eu (interiorização do pai poderoso) como a satisfação pelo castigo e dor, a necessidade de sofrimento, a relação terapêutica negativa… O masoquismo moral teria então um carácter profundamente inconsciente (o Eu pede castigo e remete à relação com o pai poderoso, base do fantasma de espancamento e da relação passiva com ele) e, por vir da pulsão de morte e integrar um componente erótico, mostra como a destruição do indivíduo por si mesmo pode ser uma satisfação libidinal.
Ao colocar a origem do masoquismo na pulsão de morte, Freud coloca-se dentro de uma teoria pulsional da mente, base do
seu pensamento. No entanto, ao descrever uma dinâmica intrapsíquica do Eu atacado pelo Super-Eu, esta última estrutura como resultante da internalização da figura de um pai todo poderoso, Freud abre a possibilidade de um olhar através da Teoria da Relação de Objecto, que mais tarde se veio a desenvolver e a criar o velho conflito da psicanálise entre a teoria pulsional clássica (o conflito psíquico é visto como resultante dos impulsos instintivos e das inibições sociais) e o modelo interpessoal (os conteúdos da psique são derivados das relações interpessoais).
Johnson (1994), na tentativa de conciliar o conflito entre a teoria pulsional clássica e o modelo interpessoal, desenvolve uma “teoria integrativa” que reconhece a existência de pulsões instintivas primárias (sexualidade, agressão), mas que dá igual importância à resposta ambiental aos impulsos e necessidades do indivíduo.
Apesar de na realidade tal conflito não tenha razão de existir, já que a pulsão se organiza sempre em função da relação com o objecto (Seabra Dinis, 2014), uma incursão nesta teoria integrativa torna-se interessante pela forma como procura integrar conhecimento importante no âmbito de diversos modelos como o pulsional, o interpessoal, a teoria da relação de objecto - em particular o modelo de Fairbairn -, a psicologia do ego e psicologia do desenvolvimento.
Johnson (1994) enfatiza, para a formação da personalidade, quer a existência de necessidades básicas que se vão alterando ao longo do desenvolvimento, quer a resposta do meio ambiente nestas alturas chave. Considera então que a natureza da personalidade e psicopatologia são determinadas pelo tipo de frustrações interpessoais vividas pela pessoa à medida que ela procura atingir as suas necessidades, e por ambas a sua resposta instintiva natural à frustração em causa e os métodos que escolhe para lidar com ela, ajustando ou suprimindo essas respostas naturais. É este jogo entre necessidades básicas e o impacto do ambiente interpessoal que torna esta uma teoria integrativa.
Assim, ao longo do desenvolvimento existem questões/metas a serem alcançadas, e a forma como se vai lidar com cada questão é de grande importância, especialmente se a experiência do indivíduo for vivida como traumática. Nomeadamente no desenvolvimento precoce (com o limitado equipamento cognitivo e emocional), as formas de resolver a dita questão tornam-se fixas e resistentes à mudança.
Estas necessidades instintivas vão para além das orais, anais e fálicas colocadas por Freud, e incluem a necessidade de vinculação a um prestador de cuidados(Bowlby, J., 1969), a necessidade da criança de se individualizaratravés da exploração, actividades auto-determinadas e construção de limites psíquicos (e.g. Mahler, M., 1968), a necessidade de expressão de si (Kohut, H., 1971, 1977: Lowen, A., 1983) e a necessidade de uma relação empáticacom o outro (Kohut, H., 1971; Stern, D., 1985).
Acresce que, para além do tipo de personalidade relacionado com a natureza da frustração a determinada necessidade básica, qualquer funcionamento mental é visto num continuum entre a psicopatologia (distúrbios de personalidade) e a normalidade (tipo de personalidade), sendo que aquilo que varia será a maior ou menor integração da personalidade, recurso a defesas mais primitivas ou mais neuróticas, capacidade de insight, existência de maior ou menor sintomatologia, etc.
No que diz respeito ao funcionamento masoquista (também ele visto num continuum entre um tipo de personalidade “normal” e a psicopatologia masoquista), a necessidade básica do desenvolvimento sujeita a importantes frustrações é a vontade própria e autonomia.
Esta teoria conceptualiza três períodos desenvolvimentais: (1) Vinculação(Bowlby, J., 1969), cujas fixações dariam origem ao carácter esquizóide (outro vivido como fonte de dor e não de conforto) e à personalidade dependente (as necessidades são negadas ou demasiado grandes para serem satisfeitas), na psicopatologia corresponderia às perturbações esquizóides e às psicoses funcionais; (2) Desenvolvimento do Eu e do Objecto (dá conta da relação dual), ligado ao (a) carácter simbiótico (identidade encontrada nos outros e não em si) e na psicopatologia ao problema dos limites (personalidade borderline e dependente), à (b) personalidade narcísica (problema do amor de si e identidade encontrada no falso self no lugar do verdadeiro self empobrecido), ao (c) carácter masoquista (controlo e vontade própria renunciadas para ter poder sobre o outro); (3) Desenvolvimento do Self no Sistema (dá conta da relação triangular, edipiana, e da disrupção dos impulsos amorsexo), originando na psicopatologia
às neuroses histéricas, obsessivo-compulsivas ou mistas (Johnson, S., 1994).
O carácter masoquista formar-se-ia então no segundo momento do desenvolvimento, onde se forma e diferencia o Eu e o Objecto, e cuja frustração incide sobre o sentimento de vontade própria e autonomia.
No masoquismo de carácter a questão base (ou necessidade desenvolvimental básica) que foi sujeita a traumatismos e frustrações sucessivas do meio ambiente, e que ficou aquém de satisfação, foi o controlo ou vontade própria(Johnson, S., 1994), a qual surge por volta dos dois anos de idade, quando existe maturação da criança para ter vontade própria, e cujos dados clínicos mostram a presença de histórias de intrusão, controlo, e subjugação humilhante da vontade própria. Efectivamente, só depois de estabelecida a locomoção de pé e algumas palavras adquiridas, se verifica a expressão marcada da criança em determinar a sua vontade e resistir à vontade dos outros (antes a criança manifesta vontade, mas pode ser distraída). Com maior desenvolvimento da locomoção, manipulação, memória, e linguagem, a criança é cada vez mais capaz de acções independentes, aumentando assim o potencial de conflito entre os seus desejos e os dos prestadores de cuidados. A maioria dos autores coloca a idade de dois anos como aquela em que existe um aparelho cognitivo suficientemente desenvolvido para que este padrão masoquista possa ser estabelecido: capacidade de memória, antecipação das consequências do seu comportamento, exigência em fazer tudo sozinha, capacidade de pensar e brincar simbolicamente (Stern, D., 1985), auto-reconhecimento. Para se desenvolver o padrão masoquista é necessário existir um sentimento de auto-identidade e o orgulho que o acompanha.
Relativamente ao meio ambiente, alguns exemplos clínicos revelam mães que obrigavam a comer, castigavam com cinto, ou ameaçavam matar-se se o filho não obedecesse; forçavam a criança a sentar-se no bacio durante horas, e num paciente em particular, quando a criança tinha prisão de ventre, a mãe introduzia-lhe os dedos no ânus para o estimular (Johnson, S., 1994).
Efectivamente, o treino do controlo dos esfíncteres, como protótipo do treino de socialização, pode despoletar o tipo de tratamento parental e interacção progenitor-criança que produz o funcionamento masoquista. Aquele treino é especialmente sensível a este tipo de relação parental devido ao momento em que ocorre, à natureza da mudança de controlo involuntário para controlo voluntário e às dificuldades inerentes ao processo, as quais são susceptíveis de produzir as experiências de ansiedade, vergonha e luta de vontades. Alice Miller (1983) menciona manuais de educação de crianças instruindo os pais em métodos abusivos para controlo e quebra da vontade da criança, como força extrema, manipulação, humilhação e degradação cruel.
O quadro clínico do masoquista é assim caracterizado por uma atitude de sofrimento permanente, auto-depreciação, auto-limitação, e muitas vezes auto-tortura, em indivíduos que parecem ter necessidade de sofrer e, com isso, torturar os outros. Existe nestes indivíduos uma tendência geral para se queixarem, uma falta crónica de prazer, e uma imobilidade desesperante altamente frustrante para quem os tenta ajudar, dando conta de uma agressão passiva (e na relação terapêutica originando a reacção terapêutica negativa, já mencionada por Freud, em que o terapeuta é associado com a figura paterna danificante). É como se a grande raiva para com a intrusão fosse virada contra o self.
Além disso, existe uma falta de confiança no outro, e isto é sentido com desesperança para si, porque abrir-se à confiança e esperança é abrir a possibilidade de ser enganado, humilhado, e novamente controlado.
Tudo isto é reforçado com a ligação do indivíduo ao mau objecto, por isso o indivíduo queixa-se e desvaloriza quem o tenta ajudar a sair deste sistema fechado da realidade interna. Este padrão (na terapia representado pela reacção terapêutica negativa), serve para provocar a retaliação e hostilidade do outro, a qual justifica a falta de confiança e, quando esta retaliação é suficiente, serve para libertar a agressão e a hostilidade contidas da pessoa masoquista. Tal como acontece no bater na relação sexual, não é o bater em si próprio que o indivíduo deseja, mas será a intensificação da descarga física, a qual provoca uma libertação sexual, que é de facto satisfatória. E é esta libertação que a pessoa masoquista deseja mais profundamente, uma libertação não só da hostilidade escondida, mas também dos impulsos hiper-controlados de expressão de amor e ternura… O paradoxo é que é esta libertação que abre a estrutura masoquista à desesperança da posição original: “o prazer é pecado, confiar é ser digno de desconfiança, a esperança leva à desilusão. Se esperares o pior
não ficarás desapontado, ou pior ainda, não serás enganado“(Johnson, S., 1994, p. 50)
Onde o masoquismo social e auto-sabotagem são mais óbvios e disfuncionais, há uma história esmagadora de derrotas em batalhas onde a vontade da criança foi persistentemente e intrusivamente, muitas vezes sadicamente, batida para se submeter… É nestes casos que o padrão da auto-derrota se torna derrotado e abusivo para com os outros e extraordinariamente resistente à mudança. Para se identificar um masoquista, pode-se recordar momentos em que fomos batidos injustamente e sem forma de retaliação, e a raiva e impotência que isso traz. É isto que existe inconscientemente na pessoa masoquista: “I don't get angry, I get even”(Johnson, S., 1994 p. 194).
O problema para a pessoa masoquista está relacionado com o diferencial de poder, deixando-a à mercê do outro. A auto-anulação, por ser controlada pelo próprio, preserva o orgulho: a única forma de derrotar o outro é aprendendo a gostar da própria anulação, mostrando isso ao mundo e desafiando qualquer tentativa para a alterar.
Assim, o padrão masoquista pode ser comparado com a espécie de resistência passiva que existe nos regimes mais totalitários e sádicos. Por exemplo, durante a dominação Nazi na Europa, onde qualquer acto de resistência poderia ser castigado com retribuição à população civil, incluindo execuções em massa, quaisquer actos de sabotagem tinham que parecer acidentais e passíveis de negação. Da mesma forma, a auto-sabotagem, de origem inconsciente, torna-se o acto de agressão mais negável, o prazer na auto-degradação do self está seguramente escondido (Johnson, 1994).
Em termos psicopatológicos, e tal como em qualquer tipo de carácter, o masoquismo poderá ser visto num continuum entre psicopatologia e personalidade masoquistas. Num extremo encontram-se histórias de prestadores de cuidados sádicos, intrusivos, humilhantes e controladores ao máximo. Nestes casos, esses maus objectos, muitas vezes eles próprios psicóticos, borderline, sociopatas, produzem crianças também elas próprias lesadas numa série de áreas essenciais e diagnosticadas como “Personalidade Borderline”. São crianças frequentemente abusadas física, sexual e psicologicamente, com intrusões como abusos físicos, enemas frequentes, alimentação forçada, raiva parental, e experiências muito humilhantes e degradantes, que expõem sadicamente a sua vulnerabilidade. Estes sujeitos não têm alternativa senão internalizar tais maus objectos e viver uma vida caracterizada por relações intrapsíquicas com eles. A questão masoquista ajuda a compreender estes sujeitos na sua adaptação ao abuso que representa a auto-anulação e, ao mesmo tempo, não só reproduz e preserva as ligações aos maus objectos, mas também exprime resistência, rebelião, e retaliação contra esse objecto.
No outro extremo estão indivíduos que vêm de ambientes adequados numa série de áreas, mas cujos prestadores de cuidados encaram com dificuldade a oposição da criança: “Desde o primeiro ‘não’ no segundo ano, até à mínima violação adolescente, o castigo para qualquer violação é seguro, imediato, e isento de compromisso” (Johnson, 1994 p. 201). Nestas famílias pode haver amor, espelhamento e apreciação, aceitação da expressão de si, mas sem qualquer tolerância para a oposição e desrespeito. Estes sujeitos internalizam este objecto mais saudável, mas ainda assim controlador, e ficam sobretudo afectados com uma espécie de passividade crónica e energia diminuída, tendo uma vida de papéis e obrigações sociais rígidas. São sujeitos com pouca espontaneidade, criatividade, originalidade, ou brilho. O seu falso self é de aceitação, submissão, com capacidade de grande frustração e auto-sacrifício. São normalmente bons servidores em hierarquias burocráticas.
O Fernando, de 28 anos, procura a minha ajuda na consulta do Centro de Saúde por intensas fobias e ataques de pânico, somatizações várias e fantasias de perseguição na rua, sintomas que surgiram durante o seu emprego num call center de uma empresa de telecomunicações. Fora colocado numa “linha difícil”, cuja função era telefonar para os clientes “zangados e insatisfeitos”, e “era obrigado a ser simpático e a telefonar várias vezes por dia, e a ter bons resultados”. Começa a sofrer de somatizações várias, com perda da força física, vómitos e diarreias, febres e dores no corpo. Paralelamente desenvolve ideias paranóides persecutórias na rua, deixa de conseguir andar de comboio porque imagina as pessoas zangadas com ele, olhares hostis na rua, etc…
Sobre a infância descreve uma permanente violência desde sempre, ora entre os pais, ora descarregada sobre ele: “Um dia, com quatro anos, a minha mãe deu-me um murro que me partiu os dentes, depois de ter chegado a casa frustrada por ter perdido ao Bingo”. Relativamente ao pai, comenta: “O meu pai dizia que eu era uma merda. Quando fui para
a Federação de Futebol depois de ter sido diagnosticado com hiperactividade, o meu pai, quando assistia aos jogos, dizia sempre que tinha pena que fosse eu o filho dele e não o meu colega…”
O Fernando cresce com os avós paternos, de quem tem boas memórias, e com um pai idealizado. Recentemente descobre uma série de mentiras e manipulações do pai e fica profundamente decepcionado e deprimido. É nessa altura também que, incapaz de continuar submisso a este objecto idealizado projectado no pai real, e já estando a trabalhar no call center, adoece…
A sua avaliação projectiva revelou uma enorme violência interna: no Rorschach surgem imagens agressivas e destrutivas (vulcão, armas de fogo) ou, persecutórias (demónios); no Tematic Apperception Test (TAT) as relações são frequentemente agressivas e intrusivas (“estão a estropiá-lo, a tirar-lhe um rim”) e a temática sexual agressiva está presente (“mulher que foi violada, rapariga que acabou de ser violada”)
Nas primeiras consultas, o Fernando tem uma atitude submissa e queixosa, com pena dele mesmo. A tudo o que diz, acrescenta: “peço desculpa”…
Para melhor compreender a dinâmica interna deste tipo de personalidade, Johnson (1994) parte do modelo de Fairbairn (1974), cujo trabalho com crianças abusadas o fez perceber que crianças abusadas querem voltar para os seus pais abusadores, e o grande esforço que elas fazem para manter a bondade dos mesmos, colocando assim a hipótese de a criança internalizar o mau objecto para ganhar controlo sobre ele, e remover a maldade do objecto externo de quem depende. O mau objecto seria então sujeito a dois mecanismos defensivos: a repressão (elas esquecem o abuso) e a clivagem (o mau objecto seria clivado em partes boas - objecto libidinal - e más - objecto anti-libidinal -, sendo a parte boaa esperança de gratificação que o ser humano precisa desde o nascimento): “O recém-nascido merece ser acolhido e contido no novo mundo, uma criança pequena merece ser espelhada nas suas maravilhosas conquistas na locomoção, linguagem, e autonomia emergentes; uma criança em idade escolar merece ser ensinada por métodos sintonizados com as suas capacidades emergentes, e encorajada pelos seus sucessos” (Johnson, 1994, p. 203). O que é reprimido e clivado são estas expectativas desenvolvimentais por satisfazer: “O esquizóide anda à procura da aceitação no mundo, o oral da gratificação completa e incondicional, o simbiótico de uma mistura de conexão e liberdade sintónica, o narcísico do espelhamento perfeito e do outro idealizado, etc…” (Johnson, 1994 p. 203)
No caso do masoquismo, muito do que o indivíduo faz como auto-anulante, autolimitante, ou auto-torturante pode ser compreendido como fazendo a si o que lhe fizeram a ele anteriormente (“sabotador interno” – self e objecto anti-libidinal atacam o self libidinal), processo que pode ocorrer de três formas: (1) pela projecção do objecto internalizado no exterior, (2) pela identificação projectiva que promove este tipo de negatividade no objecto; (3) pela selecção de indivíduos que são limitadores e abusadores.
Parar este comportamento implica perder o objecto interno e aspectos da identificação do self que derivam dessa ligação, isto é, mudar estes padrões disfuncionais implica desistir das ligações à família e identidade que se construiu com base nessas conexões primordiais, especialmente quando não existem outras ligações alternativas, deixando o indivíduo frágil na identidade e sozinho no mundo: “um mau objecto é melhor que nenhum” (Johnson, 1994 p. 205). Os sintomas predominantes desta dinâmica são o medo, a culpa e a vergonha (agressão anti-libidinal contra o self libidinal).
Fairbairn conceptualiza ainda outros três modelos de relação entre self e objectos libidinais e anti-libidinais, responsáveis pela psicopatologia em geral, mas que todos eles ocorrem no masoquismo: “adição” (ligações do indivíduo com o objecto esperado - self libidinal fixa-se nas ligações esperadas com o self e objecto anti-libidinal); “resistência-rebelião” (agressão do self libidinal contra self e objecto anti-libidinal) - a criança responde agressivamente contra a repressão, intrusão e degradação e abuso, e esta resistência pode ser activa e expressa, ou passiva e secreta como no masoquismo; “abuso” (self e objecto anti-libidinal atacam objecto libidinal) – o sujeito abusa dos outros da mesma forma como foi abusado (por exemplo, abusadores de crianças que foram abusados).
A dinâmica masoquista é única por ter os quatro modelos em simultâneo. A auto-tortura, auto-derrota e auto-abuso mantêm contacto com o objecto original, e aspectos da identidade relacionados. Suportar a dor e a derrota exprime a integridade do self e posse da vontade própria que é necessária ao ser humano (“adição”), e ao mesmo
tempo exprime a resistência e rebelião contra as forças que produzem esta tortura (“resistência-rebelião”): “no masoquista todas as outras formas de rebelião foram fechadas e só na auto-derrota exagerada existe possibilidade de expressão libidinal do self” (Johnson, 1994 p. 207). É o prazer em sofrer como forma de vencer o agressor. Tudo isto torna o carácter masoquista muito resistente à mudança: “desistir da auto-derrota significa total rendição à derrota” (Johnson, 1994 p. 207). Finalmente, o servilismo, passividade e intratabilidade têm muitas vezes um carácter mortificante e indutor de culpa. A hostilidade do masoquista é sentida mas muito difícil de identificar e designar dada a sua profunda negação (“abuso”)
O carácter masoquista é, como se vê, uma solução muito difícil de renunciar…
Em síntese, a essência da subjectividade do masoquista é um sentimento de desesperança, de estar preso num eterno círculo fechado de máximo esforço que conduz à derrota, de uma desistência da vontade própria para não ser novamente batido humilhado e enganado, de uma agressão a um nível profundo contra o mau objecto que faz com que, sempre que há rebelião, existe auto-derrota, e de falta de experiências de prazer (o prazer conduz à ansiedade e culpa por convidar ao castigo do mau objecto internalizado).
Mas no carácter masoquista permanece alguma esperança, embora secreta… Reik (1941) diz que a libertação do prazer é indutora de ansiedade pelo castigo que promete, e para controlar esta ansiedade o masoquista produz uma passagem à frente do castigo de forma que este é sentido primeiro, reduzindo a ansiedade e autorizando o prazer. Na visão de Reik o masoquismo sexual envolve este processo na esfera sexual e o “masoquismo social” envolve este processo em relação à agressão e expressão de si na área social.
Catarina está em análise comigo há sete anos, após cerca de três anos de psicoterapia. Procura ajuda por volta dos 18 anos, após uma tentativa de suicídio, que se seguiu a um abandono pelo namorado que tinha nessa altura. Os primeiros anos do acompanhamento são marcados por uma intensa angústia, que ela procura controlar através de ruminações obsessivas que a levam à exaustão, pelo medo do abandono, e fundamentalmente por uma enorme dificuldade em se entregar na relação com o outro, seja com o namorado que a abandonou e do qual ela “não gostava mas precisava dele”, seja transferencialmente com a psicoterapeuta.
Ao fim de algum tempo surge subitamente uma diabetes gravíssima (seria esta doença auto-imune uma somatização de um ataque a si mesmo?…) que altera todo o seu estilo de vida, e que a deixa profundamente deprimida, mas que, por outro lado, a ajuda a tomar consciência e a aceitar as suas vulnerabilidades, e lhe permite ligar-se e envolver-se mais com o processo psicoterapêutico. A transferência psicoterapêutica oscila entre a aproximação e o afastamento, entre a necessidade imensa do outro e o medo do abandono, o que me fazia a pensar num funcionamento limite. Ao fim de algum tempo propus-lhe uma psicanálise três vezes por semana.
É deitada no divã que tudo parece mudar no gabinete da analista. A transferência que se apresentava já não era a aproximação/fuga, mas uma enorme agressividade devoradora, tendo surgido na mente da analista a ideia da “devoração do seio” de Klein, e de um funcionamento esquizo-paranóide. O ódio à mãe abandonante, a inveja dos outros que tinham mais sorte na vida do que ela, do novo namorado, da analista, estavam constantemente presentes na sala… As fantasias centravam-se menos sobre o abandono mas mais sobre a agressividade: imaginava empurrar o namorado pela janela, ou estrangular a analista… E sobretudo surgia uma enorme desesperança: “ninguém me pode ajudar…”.
Ao longo de vários anos tudo isto foi interpretado, e muito da vida de Catarina mudou: tem um namorado estável há cinco anos de quem gosta, fez amizades boas e duradouras, acabou o curso e experimentou vários trabalhos, e esteve a viver uns meses no estrangeiro com o namorado, o que até há pouco tempo era impossível para ela, para quem mesmo as férias da analista eram difíceis de suportar.
Mas, por outro lado, o cenário interno manteve um grande sofrimento durante muito tempo. Quanto mais as sessões eram construtivas, das quais ela saía mais lúcida e menos angustiada, mais eram atacadas pouco depois dentro dela: “eu sinto que saio daqui bem, mas depois é como se eu desconfiasse… sinto que ataco esta relação, e fico sem nada…”. Aos pouco foi-lhe interpretada a necessidade de lealdade aos maus objectos do passado e a Reacção Terapêutica Negativa, que surgia quando ela ficava contente com a relação com a analista, a qual lhe provocava
uma inveja devoradora, e que a fazia atacar a relação e distanciar-se: “sim, eu sinto que invejo toda a gente, toda a gente tem mais sorte do que eu, e também invejo a Dr.a…”
A análise da Catarina tem sido este “partir pedra”, que por vezes cria novas pedras… Apesar da sua atitude no divã ser de uma menina frágil, chorosa, falando baixinho e de forma contida, cheia de pena de si e de tudo o que lhe aconteceu na infância, e que ela não perdoa, a contra-transferência da analista oscila entre a ternura empática e uma irritação e impotência relativamente a uma agressividade sabotadora que parece estar muitas vezes presente, quando ela transforma as coisas boas que construímos ali em coisas más, que têm que ser destruídas…
A Catarina é filha de uma mãe psicótica, com vários internamentos em psiquiatria, e que teve, durante muito tempo um comportamento imensamente desadequado, não sintónico e projectivo com a filha. Até aos três anos, a Catarina não comia nem dormia, e a mãe, imaginando-a possuída, levava-a aos bruxos… O pai é descrito como extremamente egocêntrico e deprimido, com uma atitude de vitimização permanente perante as reivindicações da filha, virando sempre as queixas da filha contra ele. O irmão, três anos mais velho, batia-lhe e humilhava-a como forma de mostrar o seu poder…
Numa sessão, a propósito de ter sido verbalmente agredida pelo namorado e ter ficado paralisada, sem conseguir responder ou defender-se, e de se ter sentido vítima, sem alternativa senão afastar-se na relação com ele, ficando mais só, analisámos a enorme dificuldade que tem em lidar com a sua zanga interna: “Não consigo zangar-me para fora porque tenho medo de destruir a relação… Quando era pequena e me zangava com os meus pais era muito pior… O meu pai ficava ainda mais zangado e não percebia o que eu estava a sentir, a minha mãe ficava destruída e triste, e pedia-me que não arranjasse confusão, que engolisse… Uma vez, em adolescente, após ter enfrentado o meu pai, ele deu-me um estalo à frente de visitas, e foi profundamente humilhante… Nunca falou sobre isso, e nunca me pediu desculpa, não imagina a raiva e a impotência e a vergonha que eu senti”… Impossibilitada de agredir activamente, a Catarina passa a agredir passivamente, através da auto-sabotagem?
Depois de uma sessão em que a analista lhe sugere a imagem interna dela mesma como a de um escravo que não se pode revoltar, ela refere: “A seguir à sessão fiquei com de falta de ar… senti-me completamente indefesa, que não posso fazer nada… Estou à mercê do outro…”.
Na Catarina agressor e vítima surgem sempre de mãos dadas, ora numa oscilação entre um e o outro (“Vi um filme em que a mulher era esfaqueada por um homem e fiquei muito angustiada, com medo de que me façam mal… Mas logo a seguir senti-me má, capaz de matar alguém!”), ora amalgamados (“Sonhei com um homem com uma grande faca que ia afiar, mas tinha o braço por baixo…”), e noutra sessão conta: “Fui sair com uns amigos e tive tanta inveja da casa, do emprego, da relação deles, que quando estávamos dentro do seu carro imaginei partir-lhes o vidro e ficar com a mão toda ensanguentada…”
Recentemente começou a surgir na sala analítica, no lugar da raiva, uma profunda tristeza na Catarina (e a analista pensou no surgir da fase depressiva no lugar da esquizo-paranóide), tristeza por ter sido como foi, lentamente aceitante e renunciante aos maus objectos internos, deixando lugar para a internalização da relação com a analista. E sempre que isso acontece, surge a esperança: “Sonhei que estava em cima de uma mota com um bebé, e só me apetecia atirá-lo para fora, livrar-me dele, mas depois encontrei a Dr.a com as suas filhas, e já quis ficar com o bebé”
Numa sessão recente, depois de numa sessão anterior lhe ter recusado substituir uma sessão que ocorria num feriado, e lhe ter interpretado a questão masoquista e a necessidade de mostrar a ela e aos outros como é vítima e como são todos injustos com ela, diz: “Não gostei nada da última sessão, fiquei muito zangada consigo, acho que foi muito dura comigo. Mas depois, estranhamente, a semana correu melhor do que nunca, e consegui aproveitar as coisas boas da minha vida…”. Respondo-lhe: “Parece que estava a precisar que fosse ‘dura consigo’, possivelmente disse-lhe algumas verdades difíceis de aceitar… Mas há uma coisa curiosa: sempre que a sessão corre bem pouco depois fica mal, e quando corre mal para si, parece que depois as coisas correm melhor…”, o que lhe parece fazer sentido: “Pois, é verdade, nunca tinha pensado nisso! Parece que quando é meiga e empática comigo, eu depois desconfio… Quando foi dura, e me disse verdades que não gostei de ouvir, uma parte minha achou que era verdade, e tive que me virar… Às vezes parece que tenho necessidade de sofrer, de me vingar pelo que sofri… Neste momento sinto um misto de zanga e tristeza, mas para passar a zanga tenho que ficar mais triste…”
Aos poucos, a Catarina percebe que a raiva e frustração que ainda sente surgem de estar sempre à espera (objecto libidinal) que a mãe seja empática e sintónica, e o pai disponível para ela como nunca foram, ao que eu comentei: “Já reparou que por mais que tenha tido más experiências com eles está sempre à espera que sejam diferentes, e por melhor que tenha sido a sua experiência comigo ao longo destes anos, tem dificuldade em confiar?”. Ela responde: “É verdade, nunca tinha visto as coisas assim”. E eu continuo: “Será que a sua dificuldade em confiar em mim, e me levar consigo quando vai lá para fora, é pela lealdade que ainda sente necessidade de manter com os seus pais da infância?…”. Ela continua: “Eu às vezes consigo sentir-me muito bem, mas ao mesmo tempo isso angustia-me… Quando me sinto bem, não sei quem sou, nem onde estou…”
Pelo acima exposto, masoquismo sexual e masoquismo de carácter parecem entidades paralelas mas diferentes, onde o primeiro ficaria restrito e focalizado na área sexual, razão pela qual é habitualmente compreendido no contexto de um funcionamento mental perverso: relação de objecto parcial, pobreza da vida fantasmática e pouca simbolização, sexualidade regressiva pré-genital pela incapacidade de lidar com a ansiedade de castração e negação da sexualidade do casal parental, recurso ao controlo infantil omnipotente, funcionamento simultâneo em negação e clivagem, utilização dos objectos para negar a dependência, etc… (Aragão, 2008; Chasseguet-Smirgel, 1991; McDougall, 1972).
Mas mantém-se a dúvida sobre a ligação entre o masoquismo erógeno e o masoquismo enquanto tipo de personalidade… Quando falamos de sujeitos cuja sexualidade assenta em práticas sexuais sadomasoquistas, estamos a falar de uma dinâmica de personalidade masoquista, com comportamentos de autoderrota, vitimização, inflexão da agressividade sobre o próprio? Pode haver uma sem a outra?
A personagem Thomas do filme de Polanski, e a personagem Severin do livro de Masoch, para além das práticas sexuais sadomasoquistas, mantinham uma relação de submissão emocional com Vanda e Wanda…
Serão manifestações sintomáticas da mesma entidade, ou trata-se de dinâmicas mentais diferentes?
Para Freud todo o masoquismo era erógeno, a ligação entre o masoquismo erotogénico e moral aparece na fantasia de ser batido (Freud, 1919), representando um desejo inconsciente e re-sexualizado de ser batido pelo pai. Como se referiu anteriormente, estas fantasias seriam um traço primário de perversão, que na neurose permaneceriam no fundo da personalidade, retirando uma parcela da energia sexual (histerias e neurose obsessiva), e nas perversões consumiriam toda a vida sexual do sujeito. Freud tem assim uma teoria erógena e genética, na qual a fantasia de espancamento é a essência do masoquismo e tem uma origem edipiana.
Tendo em conta que, desde “Uma criança é espancada” de Freud (1919), existe uma vasta literatura sobre o masoquismo, mas pouco precisa e com diversos significados, Novick & Novick (1972, 1987) resolvem estudar o masoquismo a partir da fantasia se espancamento. Assim, num primeiro estudo, a partir de 111 casos do Centro Anna Freud perceberam que “o desejo de ser batido, a teoria da relação sexual sádica, e os jogos fálicos com o bater podiam ser encontrados em todas as crianças”(Novick & Novick, 1987, p. 354). No entanto, constataram a presença de dois tipos de fantasia de espancamento: uma normal etransitória e uma fixa. A transitória apareceria mais em raparigas e desapareceria espontaneamente, enquanto a fixa tornava-se um foco permanente na vida psicossexual e muitas vezes imutável em tratamentos psicanalíticos com anos de interpretação.
Sendo uma das controversas da literatura sobre se a origem do masoquismo é pré-edipiana ou edipiana, o estudo de 1972 mostrava que, enquanto a fantasia de espancamento transitória aparecia pósedipianamente e representava uma regressão de desejos edipianos e castigo por eles (segundo a dinâmica clássica dos conflitos edipianos regredidos para fixações anais à volta da agressão e do desejo de serem batidas), nas crianças com fantasias fixas os dados indicavam perturbações nos primeiros meses de vida, com descrições de falta de prazer na interacção precoce de ambas mãe e criança. Contrariamente, nas crianças com a fantasia transitória, podiam encontrar-se momentos difíceis na relação mãe-criança, mas sempre acompanhados de outros muito gratificantes.
Assim, partindo de uma perspectiva desenvolvimental, um estudo posterior baseado na análise de dados de 11 crianças com fantasias de espancamento, material da observação de bebés e crianças, e de psicanálise de crianças, adolescentes e
adultos, concluiu a epigénese do masoquismo como uma adaptação a um ambiente precoce perturbado, uma defesa contra a agressão, e uma forma de gratificação instintiva, mostrando como o masoquismo é não só hiper-determinado, como também serve outras funções do ego (Novick & Novick, 1987). Efectivamente, segundo esta perspectiva desenvolvimental, o masoquismo teria uma origem pré-edipiana, relacionada com perturbações na relação precoce e tomaria diferentes formas ao longo do desenvolvimento psicossexual. Seria somente na fase edipiana que a fantasia de espancamento adquiriria características libidinais.
Nas crianças com a fantasia fixa de espancamento, as perturbações iniciais estariam associadas a uma des-sincronia psicológica e emocional na relação precoce, que provocaria uma redução dos canais de comunicação como o olhar, falar e sorrir, podendo a relação ficar reduzida fundamentalmente ao contacto pela pele, como mostra o exemplo de duas crianças que se tornaram puxadores de cabelo, sendo o sintoma de busca de dor uma adaptação a uma relação mãe-bebé perturbada. Ambas as crianças eram filhas de mães adolescentes que passaram por uma depressão e rejeição dos bebés nos primeiros meses, e numa delas, filmes sobre alimentação antes dos quatro meses mostravam uma grande des-sincronia, nos quais a mãe não respondia às tentativas do bebé de interagir entre colheradas, que depois causava uma rejeição alimentar na criança, tendo como resposta o desagrado da mãe. Esta criança começou com comportamentos compulsivos de puxar o seu próprio cabelo até ele partir.
Esta busca de dor pode ser compreendida como uma adaptação a uma situação patológica em que a segurança assenta num objecto que dá dor mais do que prazer (Novick, K. & Novick, J., 1987). Efectivamente, na amostra estudada, nas crianças com fantasias fixas, havia mães incapazes de conter a vulnerabilidade, necessidades, e raiva da criança, mas que inversamente a culpavam e externalizavam os seus próprios estados afectivos infantis. Estas externalizações dolorosas - de culpa, falha, e aspectos desvalorizados do self na criança - tornavam-se o estilo relacional precoce e primordial, originando a evolução de estruturas masoquistas.
Estes períodos prolongados de desconforto e insatisfação vividos pelas crianças com posteriores fantasias fixas de espancamento teriam perturbado a fase normal de omnipotência prematuramente, tornando as crianças conscientes da sua dependência da mãe e sentindo intensamente a sua incapacidade para controlarem a relação emocional. As soluções patológicas seriam uma adaptação para este dilema.
Concluindo, a evidência empírica sugere que a base do masoquismo surge na primeira infância, na adaptação da criança a uma situação em que a segurança reside numa relação dolorosa com a mãe (vinculação a uma figura associada a dor). De facto, a necessidade de dor parece estar na base da personalidade destes pacientes, como mostra o exemplo da análise de uma mulher que melhorou numa série de áreas (relação amorosa, satisfação profissional e social), mas continuava incapaz de sentir emoções de prazer, especialmente com a analista: “Quando estou feliz sinto que não estou consigo, estar infeliz e deprimida é estar tranquilamente consigo. Às vezes penso no meu suicídio como algo maravilhoso, com todos comigo, a amarem-me e com pena de mim. Sentir-me mal é algo seguro, é o cheiro a casa” (Novick, K. & Novick, J., 1987 p. 361).
O mesmo parece passar-se com a minha paciente Catarina: “Quando me sinto bem não sei quem sou, nem onde estou”.
Mais tarde, a fase dos toddlers (cerca dos dois anos, tal como postulava a teoria de Johnson) é muito importantena determinação da qualidade dos impulsos agressivos, e na fixação do padrão para lidar com eles. As mães destas crianças pareciam ter dificuldade em conter e transformar os impulsos agressivos do filho e em funcionarem como ego auxiliar protegendo a criança do excesso de estimulação libidinal e agressiva. A integração destes impulsos tornar-se-ia então difícil, tendo como resultado uma agressão clivada, primitiva, e omnipotente, como mostra o exemplo de uma criança em análise com uma fantasia fixa de espancamentoe que passava as sessões a tentar destruir a sala, e de uma mulher em análise que exprimia uma grande raiva omnipotente durante as sessões e tinha sonhos de explosões destrutivas e incontroláveis (Novick, K. & Novick, J., 1987).
Efectivamente, as mães da amostra das crianças com fantasia fixa de espancamento, em vez de conterem e modificarem os impulsos e ansiedades da criança com a ajuda do seu próprio investimento libidinal, intensificavam a agressão da criança pela intrusão corporal, restrição dos movimentos naturais de autonomia, e interferência no prazer da exploração. Assim, além da não contenção da agressão nas crianças, estas mães seriam psicológica e corporalmente intrusivas
(como é o caso de uma mãe que examinava as fezes do filho em busca de vermes, ou de outra que limpava o rabo do filho até aos 11 anos), e reprimiam os impulsos dos filhos para a autonomia, o que parece estar de acordo com o que Johnson (1994) observou no “masoquismo de carácter”. Além disso, estas mães lidavam com a sua conflitualidade relativamente aos seus impulsos instituais através da externalização nos filhos, seja através de explosões de raiva, seja através da exibição de um comportamento sexual promíscuo. Assim se passava com o meu paciente Fernando: “Um dia a minha mãe deu-me um murro depois de ter chegado a casa frustrada por ter perdido ao bingo”.
As crianças com fantasias fixas, todas lidavam com a agressão negando qualquer sinal de hostilidade entre eles e as suas mães, lutando para manter uma imagem idealizada da mãe, como amorosa e protectora, o que aponta para o aspecto defensivo do masoquismo escondido nas fantasias de espancamento.
Ou seja, as fantasias de espancamento são sequentes e reforçam a submissão inicial da criança a um ambiente ameaçador. A aceitação inicial das externalizações maternas ao serviço da retenção do objecto torna-se uma internalização activa utilizada pela criança para a imagem de uma mãe amorosa, protectora e perfeita, salva da raiva destrutiva do seu sadismo anal… O masoquismo teria assim uma função defensiva contra a agressão através de mecanismos de negação, deslocamento (exemplos de crianças que eram batidas unicamente pela mãe, mas cuja fantasia era com o pai), internalização, e descarga no próprio corpo (pela dificuldade de integração do corpo e self, a agressão a si torna-se dirigida ao corpo). Estas defesas podiam ser vistas na fantasia de espancamento, implicitamente porque envolviam castigo, e explicitamente na afirmação “sou um rapaz mal comportado”. Mark, um rapaz de 13 anos em análise, imaginava que a sua tia paterna, austera, entrava no seu quarto, enquanto ele tirava a roupa e dizia “sou mal comportado”, e então ela espancava-o (Novick, K. & Novick, J., 1987). Este exemplo é espantosamente idêntico à fantasia do personagem Severin da novela de Masoch…
Será só no estádio fálico-edipiano que a natureza da teoria da criança sobre a sexualidade dos pais tem um efeito profundo no desenvolvimento do masoquismo e na posterior fantasia de espancamento (Novick, K. & Novick, J., 1987). Sendo as teorias sádicas da cena primitiva universais, nas crianças normais elas co-existem com outras teorias, enquanto nas masoquistas a noção de que os pais se batem e magoam é a mais segura, que preferem a outras mais desorganizadas e assustadoras, com acontecimentos caóticos, incontroláveis, de mutilação e castração mútua, etc. Assim “a teoria da relação sexual sádica serve para estruturar experiências de cenas primitivas desorganizadas e aterrorizadoras”. (Novick, K. & Novick, J., 1987 p. 170)
Por outro lado, para estes pacientes, a cena primitiva não é uma hipótese ou metáfora reconstruída da exclusão universal das actividades parentais, mas uma realidade presente, uma vez que os pais de pacientes com patologia masoquista parecem incapazes de os proteger à repetida exposição a experiências excessivas. Por exemplo, Mark relata ter em pequenoassistido aos pais a ter relações sexuais porque a porta estava aberta, vendo a mãe em cima do pai, e no dia seguinte partiu o braço a jogar à bola. A sua análise revelou várias situações traumáticas seguidas de um comportamento auto-destrutivo. Ou seja, “submeter-se, sofrer, ser batido e humilhado passa agora a representar a posição receptiva feminina na relação sexual dos pais” (Novick, K. & Novick, J., 1987 p. 370). Portanto, a excitação fálica desta fase e o desejo de participar na relação sexual parental sádica torna-se um fim em si mesmo.
Em resumo, ocorre uma transformação, quando as experiências dolorosas da interacção parental pré-edipiana se tornam libidinizadas e passam a representar para a criança a participação na relação sexual dos pais.
Com a resolução do complexo de Édipo e formação do super ego, as crianças entram na latência, e é nesta altura que emerge então a fantasia transitória de espancamento, representando questões edipianas na sua forma regredida e o seu castigo, tal como Freud descreveu. Pelo contrário, as crianças que mais tarde (na puberdade) desenvolviam uma fantasia fixa de espancamento não tinham tido período de latência para consolidação do desenvolvimento do ego, e tinham passado esses anos a repetir os impulsos sadomasoquistas pré-edipianos e edipianos, ou sob uma grande inibição e sintomatologia obsessiva severa. (Novick, K. & Novick, J., 1987).
Efectivamente, o estudo revelou que o emergir da fantasia fixa nos rapazes coincidia com o inicio da puberdade: M tinha uma fantasia masturbatória aos 13 anos, que começava com despir uma rapariga da escola, que depois mudava para mulher, e finalmente para uma cena do pai a bater-lhe (Novick, K. & Novick, J., 1987).
Enquanto a fantasia transitória (encontrada só em raparigas) se distanciava progressivamente dos desejos edipianos assustadores, na fixa representava a forma mais forte do desejo, com variações tais como fantasias de suicídio, auto-mutilação e morte.
Além disso, a amostra de adolescentes com fantasia fixa, indicava que esta tinha surgido após vários anos de análise, em alternativa ao agir (capacidade de conter os impulsos), ao contrário de outros adolescentes, que agem em comportamentos auto-destrutivos e suicídio.
Isto sugere que as crianças e adultos desta amostra usavam a fantasia de espancamento para funções egóicas e super-egóicas que se deveriam ter desenvolvido na latência, se a tivessem atingido: controlo da ansiedade, estabilização do mundo representacional e defesa contra a descarga pulsional. Enquanto no início do tratamento de indivíduos com perturbações masoquistas não era claro a diferenciação entre sujeito e objecto, a criança podia ser ambos o objecto poderoso atacante e a sua vítima, quando se formava a fantasia de espancamento, pelo contrário, havia uma clara diferenciação entre self e objecto: o sujeito era sempre a vítima e o que batia uma pessoa que fazia parte da vida real da criança. (Novick, K. & Novick, J., 1987).
Margarida é uma mulher de 55 anos, que vem à minha consulta do Centro de Saúde porque se sente profundamente infeliz com as suas relações com os outros: “A minha vida relacional foi um desastre: fui batida fisicamente pelo meu primeiro marido, depois humilhada psicologicamente pelo meu segundo. Quando era pequena, a minha mãe batia-me todos os dias, e o meu pai era terno mas fraco, sempre submetido a ela”.
Margarida viveu a infância às escondidas “porque nunca consegui enfrentar a minha mãe”: fugia de casa para ir à biblioteca, assim como para assistir à relação sexual entre os adultos: “Vivia no Alentejo, e quando havia cinema, ao ar livre, escondia-me debaixo do capote de um homem para conseguir entrar, e aí ficava a olhar o que se passava entre os homens e as mulheres…”. Casa cedo para fugir da violência materna, com o líder do grupo da rua, que um dia olha para ela e diz: “tu, pequenota, vais ser minha”. Desde aí desenvolve uma imensa atracção por este homem, que de dia lhe bate sempre que ela o contraria, tal como acontecia com a mãe, e que de noite a acorda todos os dias às 5h da manhã para terem relações sexuais: “ele sempre me atraiu, embora nunca tivesse sabido o que era um orgasmo com ele. Descobri o orgasmo quando estava na maternidade, sozinha, a olhar para os médicos, e a masturbar-me…”.
Quando o filho tem dois anos, a Margarida consegue sair de sua casa porque finalmente a mãe, depois da notícia da morte de uma mulher da terra, vítima de violência doméstica, acedeu a que Margarida voltasse para casa dela. Alguns anos mais tarde consegue ir viver sozinha com o filho, e pouco depois volta a encontrar um outro homem, com quem descobre o prazer sexual, mas que pouco tempo depois ameaça tratá-la mal, a humilha e inferioriza, e mete outras mulheres lá em casa…
Actualmente vive com uma filha desta última relação que mais tarde terminou, mas não consegue estar com o filho que também lhe bate, e que ela nunca conseguiu proteger da violência paterna: “Tinha medo de enfrentar o meu marido, como tinha medo de enfrentar a minha mãe”…
A avaliação projectiva da Margarida revela no Rorschach imagens de violência física (“animais a serem sacrificados”), muitas vezes acompanhadas da temática sexual crua (“vulva a sangrar”) e sofrimento psíquico (“rosto em desespero”). São imagens de objectos na sua maioria parcializados (rosto, vulva) ou imagens abstractas(desespero, dor, etc), indicando ausência de objecto. Por vezes está presente o objecto persecutório (demónio). No Tematic Apperception Test (TAT) surgem relações objectais hostis e a criação de uma neo-realidade idealizada para lidar com eles: “Era uma vez um menino que não gostava de tocar música, detestava portanto o instrumento, e os pais insistiam que ele tinha que aprender violino. Então, ele virava o violino ao contrário, fechava os olhos, e durante todo o período da aula era como se fingisse que não estava ali, viajava para outras paragens…”
Pelo acima exposto, torna-se claro como o filme de Polanski “Vénus de Vison” parece ter sido “cozinhado” com todos os ingredientes da teorização sobre o sadomasoquismo, em particular esta oscilação permanente do par antitético sadismo-masoquismo, tal como, há 100 anos, Freud postulou. Além disso, a história de uma tia do personagem Severin, que o havia sadicamente espancado e dominado, parece exemplificar as fantasias de espancamento masculinas que Freud
descreve em “Uma criança é espancada”, as quais teriam por base a fantasia inconsciente edipiana invertida do “sou amado pelo meu pai”. Essa fantasia primária homossexual seria posteriormente reprimida e transformada no seu contrário, substituindo amor por sadismo, e o pai pela mãe, ou mais eficazmente ainda, por um substituto feminino, como a tia de Severin… A transformação, na cena final, do actor-personagem numa figura feminina, de lábios pintados, presa num pau/ Totem, símbolo fálico, e a ser violentamente chicoteada por uma mulher dominadora, sádica e masculinizada, parece corroborar as ideias de Freud que relata ter encontrado, no sexo masculino, pervertidos masoquistas em cujas práticas sexuais, haveria uma transferência do homem para o papel de mulher: “A sua atitude masoquista coincide com uma atitude feminina”(Freud, S., 1919, p. 212). Aqui, Freud descreve os mecanismos implicados sem explicar a origem deste funcionamento, enquanto que posteriormente Novick & Novick (1987) afirmam que na base da procura de relações sexuais masoquistas está uma criança que deseja participar na relação sexual sádica fantasiada entre os pais, em que o submeter-se, ser batido e humilhado, representa a posição receptiva feminina na relação sexual dos pais. Seria esta última cena com Thomas de lábios pintados, amarrado a um pau fálico/totémico, onde é batido e humilhado, uma referência simbólica à cena primitiva?…
Por outro lado, um olhar dentro de uma teorização da relação de objecto, pode-nos fazer pensar esta tia como a substituição do mau objecto materno, sádico e dominador, o qual seria depois substituída pelo objecto sexual de uma mulher, também ela sádica e dominadora: a Wanda, tal como a tia, envolvida numa pele de vison.
Mas esta Wanda-Vanda sádica, é também a Vénus sedutora, que tão bem parece adivinhar/sintonizar/compreender o interior de Severin-Thomas, que valoriza o seu trabalho como encenador, ou seja, um possível objecto libidinal primário (Fairbairn), prometendo uma sintonia e reconhecimento à procura de serem satisfeitos (Johnson)…
Sabemos que o escritor Masoch de “Vénus de Vison” tinha práticas sexuais masoquistas, que descreveu no seu livro. Sobre o realizador Polanski de “Vénus de Vison”, sabemos unicamente que terá sido vítima de um regime sádico, violento e dominador. Sendo judeu polaco nascido em Paris, aos quatro anos Polanski volta à Polónia com seus pais, os quais acabam por ser presos e morrer num campo de concentração, enquanto Polanski fica detido no Gueto de Cracóvia (tão bem exemplificado pelo seu filme “O Pianista”), de onde acaba por conseguir fugir, passando a Segunda Guerra Mundial em fuga, de um lado para o outro. Anos mais tarde, a cena repete-se, voltando a andar fugido (agora da polícia) após acusação de ter praticado relações com uma menor de 13 anos.
A sua filmografia é rica, extensa e variada, mas algures a temática da dominação, violência (O Pianista, 2002) e relação sadomasoquista (Lua de Mel, Lua de Fel, 1992; Vénus de Vison, 2013) estão presentes…
Também nos casos de Fernando, Catarina e Margarida, a infância foi vivida num ambiente de permanente violência, tornando as suas mentes carregadas de raiva e impotência, na qual a única saída terá sido a submissão. Submissão como forma de sobrevivência, já que a resposta agressiva traz mais agressão, e como forma de preservação dos laços aos maus objectos internos. Submissão e auto-agressão que tantas vezes se reforça na repetição (compulsão à repetição) da relação agressor-vítima nas relações adultas (Margarida), ou na vitimização como forma de captar a atenção do outro (Fernando), no prazer sexual ligado à humilhação (Margarida), na incapacidade de confiar em novas relações e na reacção terapêutica negativa, para evitar ser novamente decepcionado (Catarina). Subjacente aos seus comportamentos/atitudes masoquistas, estão cenários/objectos internos sádicos (como se vê na extrema violência presente nas provas projectivas).
Curiosamente, parece haver uma certa concordância de autores e diferentes perspectivas teóricas relativamente à posição sádica ou masoquista tomada habitualmente por homens ou mulheres, e a forma como, na relação sexual sadomasoquista perversa, os homens tomam habitualmente o papel passivo e masoquista, tal como aparece em Vénus de Vison. Assim, Freud referia, nas mulheres masoquistas, uma atitude edipiana normal, enquanto que nos homens a fantasia de espancamento corresponderia a uma atitude edipiana invertida, e a uma homossexualidade latente. Também Novick & Novick (1972, 1987) só encontraram fantasias de espancamento transitórias, edipianas, em raparigas, enquanto nos rapazes só estavam presentes fantasias de espancamento fixas, pré-edipianas.
Finalmente, de acordo a perspectiva evolucionária (Stevens, A. & Price, J. 1996), a dominação-submissão é um sistema
filogenético paralelo ao sistema reprodutivo, mas que no sadomasoquismo se tornam ambos ontologicamente associados, quando a dominação social ou o sucesso reprodutivo deixam de ser importantes, passando o prazer sexual para primeiro plano. Esta perspectiva descreve como os homens sadomasoquistas procuram habitualmente o papel masoquista (fazendo o papel de criança batida, de criada, ou escravo!), tendo por isso que requerer prostitutas para o papel sádico, dada a escassez de mulheres interessadas em fazer o papel de sádica. Aliás, estes autores acrescentam que as mulheres, de uma forma geral, não se interessam particularmente pelo jogo sexual sadomasoquista, fazendo ocasionalmente, numa relação não perversa, o papel masoquista para agradar ao homem. De adicionar que esta perspectiva leva em conta as questões desenvolvimentais: “O sadomasoquismo é uma resposta adaptativa ao sadomasoquismo parental” (Stevens, A. & Price, J. 1996 p. 190). De qualquer forma, um aprofundamento desta abordagem seria tema para todo um outro trabalho…
Em qualquer caso, e em jeito de conclusão sobre Vénus de Vison, aquilo que me parece mais premente e forte será justamente esta confusão, tão bem representada, entre um e outro, sádico e masoquista, dominado e dominador, actor e personagem, masculino e feminino, realidade e ficção, dando conta desta oscilação permanente entre sujeito e objecto interno, produto de profundas clivagens internas, que tão frequentemente encontramos na nossa clínica em pacientes não neuróticos.
Mas esta peça/filme será também um pensamento sobre o teatro como metáfora perfeita da nossa mente, habitada por personagens internas projectadas em objectos externos, e que o espectador pode seguir incólume. A actriz Vanda será o objecto da realidade sobre o qual será projectado o objecto interno sádico Wanda do encenador; e o encenador Thomas, o objecto real sobre o qual é projectado o personagem/objecto interno masoquista (Severin) do escritor. Serão aqui projecções de objectos parciais, clivados, personagens frágeis clivadas nos seus opostos, onde facilmente se resvala de um para o outro, do agressor para a vítima e da vítima para o agressor, do sádico para o masoquista e vice-versa. Tal como dizia Freud em 1905: “Um sádico é sempre ao mesmo tempo um masoquista”, ou inversamente, no que respeita à prática clínica, poderíamos dizer: “Um masoquista é sempre um sádico”…
FICHA TÉCNICA
Título Original: Vénus de Vison Realização: Roman Polanski (2013) Alguns Prémios: César Awards, França – Melhores: filme, realizador (Roman Polanski), Actriz (Emmanuelle Seigner), Actor (Mathieu Ameiric), adaptação (David Ives, Roman Polanski), Música original (Alexandre Desplat)
ABSTRACT
On the basis of a film about a sadomasochistic relationship (Polanski, 2013), the author engages on a psychoanalytical literature research pertaining to this issue. Starting out from the Freudian ideas whose pulsional theory masochism was always erotogenetic, the present work proceeds with the ideas of a contemporary author (S. M. Johnson), who tried to integrate the pulsional and the object relation theories, by introducing the “masochist character” concept. Finally, recent literature is perused in trying to understand the links between the sexual masochistic behaviour and the masochistic personality and its object relations, wondering if we are facing two different mental dynamics. From the scant literature found on masochism (though much exists on other kinds of perversions, but very few on sadomasochism), the author describes an empirical study (Novick, K. & Novick, J., 1987) which looks upon the masochistic problematic from a developmental perspective, and concludes that it begins in the early mother-baby relationship, becoming sexualised only subsequently, during the phalic-edipian developmental stage. Throughout this work, the author attempts to illustrate the more theoretical material with some of her own clinical material.
KEYWORDS: Sadomasochism, Venus in Furs, Sexual Masochism, Character Masochism, Development