Neste trabalho reflete-se sobre a evolução da adolescência ao longo dos últimos 300 anos, discutindo-se e avaliando-se os pressupostos subjacentes a uma conceptualização desta fase como uma realidade universal ou como uma realidade específica a certas culturas, nomeadamente a Ocidental. Partindo do pressuposto da universalidade deste fenómeno a adolescência é conceptualizada como uma fase do desenvolvimento marcada pelo conflito inerente à construção da identidade adulta. São analisadas diferentes expressões comportamentais, nomeadamente as que se observam na segunda metade do século XX e princípio do século XXI, considerando a transformação da estrutura social e as implicações sintomáticas dessa transformação nos processos de construção da identidade. Esta construção da identidade é também analisada como uma solução de compromisso (no sentido psicanalítico) entre as diferentes dimensões deste conflito, incluindo os determinantes culturais e socioeconómicos das diferentes sociedades.
Comunicação apresentada no XXVI Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise “Adolescência e Psicanálise”, realizado em Lisboa, a17 e 18 de Abril de 2015.
Doutorado em Psicologia Clínica, Professor Associado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, e-mail: rpaixao@fpce.uc.pt
A adolescência pode ser compreendida como a idade da mudança, como a etimologia latina da palavra o indica: adolescere significa “crescer”. É uma fase de “passagem”, entre a infância e a idade adulta, que pode ser definida pela negativa: o adolescente é aquele que já deixou de ser criança mas que ainda não é adulto. Esta contradição, correlativa de um “não ser”, constitui (na nossa perspetiva) a essência deste desenvolvimento, definindo o tão discutido elemento de conflito e, em consequência, a especificidade do processo psíquico adolescente. De uma forma mais simples podemos conceber a adolescência como um momento particular do desenvolvimento, quando o indivíduo se prepara para abandonar a dependência infantil e aceder à autonomia adulta.
Melvin e Wolkmar (1993) localizam a primeira utilização do conceito (adolescence) na língua inglesa, em 1430, referindo-se às idades de 14 a 21 anos para os homens e 12 a 21 anos para as mulheres. Segundo Debesse (1936), no entanto, os primeiros trabalhos científicos sobre o assunto só terão sido publicados no final do século XIX, citando para efeito o trabalho publicado nos Estados Unidos por Burnham em 1891, “The Study of Adolescence”. Já no Século XX, em 1904, Stanley Hall publica um trabalho em dois volumes com impacto mundial e através do qual se inicia a “Hebelogia”; do nome Hêbê, filha de Jupiter e de Junon, Deusa da Juventude. Estes trabalhos marcam o início do estudo da adolescência, evidenciando que até essa data o conceito era praticamente desconhecido, já que até ao final do século XIX apenas duas idades eram usualmente referidas: a infância e a idade adulta (onde se incluía a juventude) (Aries, 1973, 1981).
No decurso do século XX a adolescência torna-se numa das matérias de estudo mais referenciadas nas ciências sociais e humanas e numa das matérias preferenciais da agenda das classes políticas e da opinião pública dos estados ocidentais.
Esta pequena introdução serve para evidenciar o carácter evolucionário do fenómeno, tal como tem vindo a ser vivido nas sociedades ocidentais. Na sua dimensão expressiva e mais manifesta ele é o resultado de um processo histórico e económico, envolvendo em particular todas as vicissitudes da evolução dos sistemas familiares, em especial nos últimos trezentos anos. Este carácter contextual revê-se também nas diferentes expressões do fenómeno num mesmo tempo histórico.
Considerando especificamente a sociedade ocidental, a adolescência é, como dizíamos, um fenómeno complementar da organização familiar, podendo em função disso apresentar diferentes expressões, incluindo expressões pouco ou mais diferenciadas. Esta natureza expressiva parece estar ligada ao modo como a família se organiza e estrutura. Na era pré-industrial, por exemplo, a família era caracterizada pela concentração de múltiplas tarefas no seu seio, definindo-se como um elemento central da organização psicossocial da sociedade, ainda muito marcada pela continuidade e unidade relacional entre diferentes gerações. A contradição entre “não ser criança” e “não ser adulto” via-se, nesta fase, esbatida pela continuidade dos sistemas produtivos, dependentes em larga medida deste microcosmo. A família constituía-se como uma garantia na transmissão de um estatuto de ocupação e/ou de riqueza, ao mesmo tempo que se organizava como espaço de aprendizagem e de produção. A puberdade e a juventude marcavam o início da entrada no “mundo dos adultos”, pautado pelo casamento, e sem grandes momentos intermédios para além dos diversos rituais de passagem (Aries, 1981).
Com a Revolução Industrial, particularmente com a crescente importância da tecnologia e da ciência nos circuitos de produção e, consequentemente, com a necessidade de múltiplas especializações técnicas, esta organização social entra em rápida decadência, o que surge concomitantemente com a entrada em cena da escola e de outras instituições educativas, de suporte social e jurídico. Esta entrada em cena de múltiplas instituições, que vão partilhar com a família um determinado poder em relação à criança e ao jovem, para além de minarem a autoridade tradicional (pré-industrial), transformam todo o sistema familiar. Neste último caso, o corte ou desfasamento na continuidade evolutiva do jovem e a passagem de uma realidade produtiva e psicossocial autónoma (adulta), para uma realidade dependente e em formação (não adulta), dilatam este tempo de desenvolvimento psicológico a que chamamos adolescência, o que acontece em concomitância com a contração e transformação progressiva do sistema familiar.
Todos estes fatores, que podem ser sintetizados em termos de descontinuidade da família dos tempos modernos (descontinuidade de tempos, de papéis,
de grupos de idade ou de sexo, de autoridade, etc.), conotando a vida familiar pelo seu aspeto fragmentado, surgem paralelamente com o crescimento e reforço sistemático de uma nova expressão comportamental, enquanto espécie intermédia entre a vida familiar infantil perdida e os rituais de passagem a uma vida adulta, tornados cada vez mais diferidos. Este novo desenvolvimento encontra no grupo de iguais um espaço substituto da vida familiar e torna-se cada vez mais manifesto no comportamento dos adolescentes depois da segunda Grande Guerra (décadas de 50, 60 e 70 do século XX). Isto é, encontra nesses grupos uma forma compensatória à descontinuidade familiar.
A dependência do adolescente, em relação a estes grupos, parece acontecer muito em função da transformação da família tradicional, não só nos aspetos funcionais mas também nas relações de poder e na ordem bem definida com que todos os comportamentos se encontravam regulamentados. De qualquer modo, de uma dependência familiar, o “novo adolescente” do Século XX, passa para uma outra dependência: a do grupo de iguais. Esta nova dependência vai marcar todo o desenvolvimento adolescente, incluindo o desenvolvimento dos processos identificatórios desviantes e de algumas psicopatologias que se começam a observar nesta fase com maior frequência (Winnicott, 1980). Contudo, estes grupos representarão, também, uma influência benéfica importante para o desenvolvimento, contribuindo para preencher a distância que a organização socioeconómica dos novos tempos introduz em relação à família. Este papel será particularmente importante para os adolescentes oriundos de famílias no extremo da descontinuidade que referíamos antes.
De notar, ainda, um outro fenómeno de natureza biológica que parece ter um desenvolvimento paralelo. Referimo-nos, concretamente, ao fenómeno da menarca e à alteração das idades médias do seu aparecimento na Europa Ocidental. Neste caso, observa-se, por exemplo, que em menos de um século esta idade passou dos 17 anos para os 13 anos na Noruega e França (Marcelli & Braconnier, 1988) e dos 15 anos (final do século XIX) para os 12,4 anos (final do século XX) em Portugal e na generalidade dos países mediterrânicos (Rocha et al., 2015). A evolução fisiológica torna-se, assim, ao longo deste processo, inversa da evolução social, o que acaba por alargar cada vez mais o período da adolescência, o que continua ainda hoje a observar-se.
A paradoxalidade desta evolução biológica é complementada pela transformação da organização social e pela alteração estatutária da adolescência ao longo deste mesmo período. Em termos sociais, o aumento contínuo e progressivo do tempo dedicado à adolescência acontece em paralelo com o aumento da diferenciação, complexidade e (mais ainda) imprevisibilidade da organização das nossas sociedades, espelhando-se no perfil expressivo e no estatuto desta fase do desenvolvimento psicossocial. Particularmente no fim do século XX, e início do século XXI, esta complexidade, diferenciação e abstração cada vez maior das funções exigidas pela estrutura social, acaba por a tornar marcadamente imprevisível (no extremo da descontinuidade) e, por essa razão, incapaz de propor às novas gerações as referências identificatórias capazes de congregar os valores pedagógicos, profissionais e morais que levem em linha de conta as modificações necessárias a estes novos tempos. Nestas condições, o adolescente ensaia novas expressões comportamentais, propondo novos estilos de vida aceites positivamente pela própria sociedade porque percebidos como provavelmente mais adaptados e adequados às realidades futuras. Assistimos, assim, a uma espécie de inversão das perspetivas: porque o mundo está em constante mudança, o adolescente dos nossos dias, pelas condições em que se encontra, torna-se numa espécie de referência que se “autoinventa” e por isso eventualmente mais adaptado à realidade potencial daquilo que será o seu futuro.
A adolescência constitui-se, deste modo, como uma fase do desenvolvimento psicossocial modelada, na sua expressão comportamental, pela organização das sociedades desde a revolução industrial até à sociedade da incerteza dos nossos dias. A análise histórica parece evidenciar isto, mostrando a existência de diferentes “expressões adolescentes”, sintomáticas dos tempos e dos contextos em que acontece. No século XX, por exemplo, podem ser identificados alguns desses tipos dominantes em períodos históricos bem definidos. Destacamos a adolescência ingénua dos anos 30 e 40, a “adolescência rebelde” da década de 50 e a adolescência revolucionária, reivindicativa e defensora das grandes causas das décadas de 60 e 70. Estas últimas muito marcadas pela ideia de confronto e oposição ao “status quo” adulto e estabelecido, o que viria a ter grande impacto na forma como o fenómeno seria analisado no
último quartel deste século. Contudo, ainda nesse século, nos anos 90, estas expressões adolescentes começam a ser substituídas por uma outra bem mais pragmática: a adolescência materialista/consumista ou, pejorativamente, aquilo que alguns chamam de “adolescência centro comercial”, que se constitui como uma espécie de antecâmera à adolescência que se anuncia no século XXI, simbolicamente confundida com a evolução tecnológica e associada a essa referência de que falávamos antes. De outro modo, o século XXI, anunciando-se como o tempo das tecnologias da comunicação e da Era do digital, é aquele que encontrará também na adolescência a sua referência fundamental, consubstanciando-se isto no imaginário social como uma aproximação da adolescência a um ideal de maleabilidade, adaptabilidade e criatividade. Muita desta mitologia dos novos tempos tem como pano de fundo a criação de tipologias históricas associadas à criação e desenvolvimento dos grandes grupos da Era digital (Microsoft, Apple, Google e Facebook, são bons exemplos disso mesmo).
Todas estas evoluções marcam a construção e o desenvolvimento da identidade adolescente, isto é, a identidade é também uma consequência da forma como os contextos socioeconómicos se organizam e oferecem para formatar esse desenvolvimento. A dimensão expressiva da adolescência constitui-se, portanto, como uma resposta aos desafios colocados por estes processos identificatórios, tal como são vividos nos tempos históricos em que ocorrem. Os grupos de iguais, por exemplo, constituem respostas compensatórias organizadas muito em função da descontinuidade introduzida pela família, mas que acontece em paralelo com os processos mais profundos de transformação dos referenciais simbólicos, também representados no imaginário social. Por exemplo, a evolução da família moderna, marcada pela morte virtual da ordem e da regularidade predefinida no “pater familias” tradicional, procurou noutros referenciais simbólicos criados pela própria estrutura social os elementos necessários a essa construção da identidade.
De uma outra forma, esta evolução pode tomar como referência a ordem do simbólico Freudiano, associado ao Vitorianismo e à rigidez dessa ordem moral, ao recalcamento da sexualidade e à histeria (Freud, 1896/1969, 1905/1969, 1914/1969). Neste caso, o processo identificatório realiza-se no âmbito do universo estrito e limitado daquilo que é determinado pelo espaço familiar, tendo por referência um quadro imaginário de evolução socioeconómico e cultural não apenas bem definido mas também prédefinido pela cultura familiar. Todo o processo identificatório é, nesta fase, dominado pela família num quadro de previsibilidade e imutabilidade psicossocial e económica típica do final do século XIX (claramente expresso no ditado popular «filho de peixe sabe nadar»). O século XX, e depois mais claramente aquilo que parece marcar o século XXI, constituem uma transformação progressiva, sistemática e completa dessa ordem, introduzindo um novo tempo de variabilidade e obrigando ao alargamento progressivo e sistemático do processo identificatório fora do limite da ordem familiar. No extremo deste processo encontramos o domínio da ideia de uma «história em aberto», ou a determinação de um processo onde as vinculações aos objetos são meramente transitórias e superficiais, esbatendo as vivências de perda e a elaboração do luto. Esta «nova adolescência», e todos estes processos, constituem-se paradoxalmente um carácter de referência ideal para o próprio adulto, perdido na imprevisibilidade dos tempos e numa vivência dissonante da realidade.
Esta dificuldade em lidar com a realidade, sentida no essencial como imprevisível, pode ser objetivada na ideologia educativa (parental) das crianças do fim do século XX, particularmente na forma como esta tende a constituir um mecanismo de controlo da angústia perante o desconhecido, o que terá também importantes implicações na organização dos futuros adolescentes. Em nome dessa angústia muitas crianças passam a ser sujeitas a um regime intensivo de múltiplas aprendizagens (a escola, o inglês, o acompanhamento escolar, a música, o xadrez, a natação ou a ginástica, o futebol ou o ballet, etc.), cumprindo muitas vezes uma agenda mais sobrecarregada que a maioria dos adultos que as acompanham. No entanto, mais do que essa sobrecarga parece ser a síndrome social de controlo da angústia perante a imprevisibilidade do futuro, mas também a superficialidade que a acompanha, pois nada disto é feito ou pensado em profundidade, como se a ideia de hiperatividade estivesse subjacente ao frenesim educador destes tempos. Muito do desenvolvimento destas crianças acontece esquecendo-se a importância da relação em profundidade, da dedicação e da frustração como elementos fundamentais da aprendizagem. A nova
adolescência, que começa aqui a ser criada, constitui-se neste espaço imaginário de controlo da angústia associada a um futuro imprevisível. No extremo da psicopatologia é o culminar de um tempo dominado pelos fenómenos borderline e dos falsos self, que substituem definitivamente a neurose Vitoriana descrita por Freud (1896/1969, 1905/1969).
Muitas das observações que temos vindo a fazer sobre a dimensão da expressão histórica do fenómeno adolescente deixam em aberto a hipótese de estarmos perante uma realidade particular, não universal, absolutamente específica a certos contextos culturais, nomeadamente ocidentais. Neste caso, a adolescência seria simplesmente uma criação histórica, primariamente produto da evolução socioeconómica da sociedade ocidental.
Esta visão culturalista da adolescência está já presente nos trabalhos pioneiros de Margaret Mead (1930, 1935), onde se estabelece a ligação entre a natureza social do período etário e o grau de complexidade da sociedade estudada: quanto mais a sociedade é complexa mais a adolescência é longa e conflitual (Mead, 1935). A adolescência é, também, segundo este ponto de vista, um fenómeno cultural que existe em função da sociedade em diferentes níveis, nomeadamente ao nível da duração, dos métodos adotados para a socialização do indivíduo e dos tipos de cultura (Mead, 1930), o que será retomado por algumas correntes sociológicas (Bock, 2004; Muuss, 1976).
Como vimos antes, a análise histórica de todo o processo adolescente evidencia muitos destes aspetos, mas deixa em aberto o problema de saber se o núcleo estruturante desta fase (o conflito subjacente à passagem da infância à idade adulta, tal como definido no início deste trabalho) é, ou não, uma realidade universal.
O problema ganha contornos semelhantes aos evidenciados por Malinowski, por volta de 1922, relativamente à ausência do Édipo nas sociedades matrilineares, pelo facto do representante da lei e do poder simbólico estar no irmão da mãe e não no pai. Isto é, diferentes expressões manifestas do fenómeno não anulam a dimensão universal do mesmo, nem tão pouco a universalidade da unidade psíquica.
Em parte, esta questão surge também associada à ideia de que o conflito adolescente (marca da sua especificidade), a existir, obriga a que a adolescência se manifeste por expressões comportamentais de oposição, confronto e luta mais ou menos violenta com o «status quo» dominante, tal como aconteceu de forma mais clara com os adolescentes antes referenciados da década de 60 e 70 do século XX. No entanto, o carácter contextual do processo adolescente seria evidente, pois nem todas estas adolescências são, necessariamente, marcadas por estes comportamentos. O carácter violento do conflito pode ser, apenas, uma dificuldade da formação de compromisso , e não a forma dominante como este se manifesta. De outro modo, a substituição das bases identificatórias da infância, como tarefa desenvolvimental necessária à constituição do psiquismo adulto, implica necessariamente um confronto com essas bases infantis e a sua transformação, o que implica um conflito. Este apresenta a tonalidade agressiva intrínseca a todos os conflitos, particularmente porque envolve um pôr em causa essas referências infantis, em nome de uma nova realidade. No entanto, todo este processo não acontece como uma simples troca violenta e mais ou menos brutal de vínculos, objetos e relações. Ao contrário, a grande dificuldade reside exatamente no facto da construção da futura identidade adulta acontecer no seio de uma história pessoal infantil necessariamente insatisfatória, mas num movimento que implica a proteção dessa realidade, enquanto fundamento histórico do sujeito. Muitos comportamentos ambivalentes adolescentes evidenciam esta paradoxalidade, mesmo quando no manifesto não evidenciam grande agressividade. Mais, a ideia de negatividade tantas vezes associada a esta fase deve ser também revista, considerando a sua potencial dimensão reparadora das dificuldades emocionais vividas na infância. Esta possibilidade reparadora consubstanciase na dimensão «aprés-coup» da adolescência, capaz de dar uma dimensão reconstrutiva ao psiquismo por via da elaboração de novos significados associados aos acontecimentos passados (Laplanch, 2006; Laplanche & Pontalis, 1967/1998). Nesta base, também a fantasia do Romance Familiar pode funcionar como um esquema mental reabilitador, isto é, como uma possibilidade de dar à história do sujeito as significações protetoras de que necessita (Gediman, 1974; Weissman, 1975).
De qualquer modo, a ideia de conflito como elemento central da adolescência está presente em muitas referências históricas a esta fase da vida, evidenciando que as tarefas desenvolvimentais aqui colocadas são um elemento estruturante do psiquismo que não se limita a um quadro especificamente cultural. Na Antiguidade Clássica, por
exemplo, as referências ao comportamento dos jovens identificam como traços dominantes, já nesse tempo, a impulsividade, o desprezo pela autoridade, o desrespeito pelas normas sociais e a grande inclinação para o confronto (Pagnoncelli de Souza, 2008). Também Rousseau , na obra Emile, faz referência a este período, descrevendo-o como emocionalmente instável e conflituoso. Os jovens a que Rousseau se refere eram marcados por grandes oscilações emocionais, com frequentes estados de inquietude e acessos de revolta que os tornavam incontroláveis. A universalidade da dimensão conflitual manifesta da adolescência parece, portanto, estender-se a outros períodos da história, embora a sua expressão possa estar marcada por diferentes comportamentos, atitudes e dinâmicas relacionais, muito em função das contingências sociais, culturais e económicas desses tempos.
Esta dimensão conflitual da adolescência continua, no entanto, a ser questionada por alguns investigadores que afirmam (em alternativa) a importância do modelo assente na continuidade do desenvolvimento como referência normativa. Parte deste problema nasce de estudos correlacionais, particularmente da observação de que muitos adolescentes apresentam um crescimento contínuo, emocionalmente estável e sem períodos de conflito ou de oposição com o meio envolvente (Weiner, 1995). Ao contrário, a ideia de um desenvolvimento adolescente marcado pelo conflito e sobrecarregado por instabilidade emocional e maior dependência dos pares seria uma consequência dos estudos feitos com populações clínicas (Weiner, 1995). Todas estas considerações partem dos pressupostos já antes referidos: de que a expressão de um conflito é necessariamente observável num comportamento, num sintoma manifesto ou numa característica autorreportada pelo sujeito, embora outros estudos evidenciem o carácter questionável destas conclusões.
O desenvolvimento do conceito de resiliência, por exemplo, pode servir para ilustrar isso mesmo, pois a ausência ou a presença de determinadas respostas específicas não significa necessariamente a existência ou inexistência de conflito, de sintoma ou de psicopatologia. É neste contexto que a resiliência ao consumo de drogas em ambiente Universitário pode ser mal interpretado porque a sua presença não significa simplesmente desvio psicopatológico e a sua ausência capacidade resiliente (Zimmerman & Arunkumar, 1994).
Como conclusão, percebemos a adolescência como um evoluir psicológico num determinado contexto, onde a particularidade da sua expressão pode ser pensada como um compromisso sintomático relativo a um conflito estruturante do psiquismo. No entanto, esta relação não define a adolescência como um simples sintoma social, embora parte da sua expressão assim possa ser vista, nomeadamente quando é a própria estrutura social que oferece os «argumentos» para a expressão desse compromisso.
Na atualidade esse compromisso é marcado pela velocidade das mudanças não apenas tecnológicas e económicas, mas também relacionais e socioculturais, num contexto de imprevisibilidade: uma boa parte da atividade económica dos nossos dias foi criada nos últimos cinco anos; muitas das especialidades universitárias de hoje não existiam há dez anos; o sistema de relação mais comum em todo o mundo é, atualmente, o digital (facebook), contabilizando em menos de dez anos mais de 1 500 000 000 de utilizadores. As crianças e os adolescentes do século XXI crescem num mundo em rápida transformação e ninguém (pessoa ou instituição) parece estar em condições de poder adivinhar o que virá a ser a realidade não nos próximos 50 anos, mas daqui a dois ou três anos. E assim, paradoxalmente, os adolescentes tornam-se cada vez mais uma referência psicológica dos próprios adultos.
ABSTRACT
This paper analyzes the evolution of teens over the last 300 years. It considers some of the assumptions underlying the developmental models about this phenomenon, namely the adolescence as a universal phenomenon and the adolescence as a cultural specific phenomenon, as it seems to happen in Western culture.
Adolescence as a universal phenomenon is conceptualized and understood as a developmental phase marked by a conflict related with the identity construction of the adult self. In this sense, different behavioral expressions in adolescence of the second half of the twentieth century and early twenty-first century can be related with symptom formation (as understood by Freud), and modeled by social structure transformation. Identity construction is also analyzed as a compromise between different dimensions of this conflict, including cultural and socioeconomic determinants.
KEYWORDS: Adolescence, history, identity.