O autor discute as encruzilhadas de desejos, mistérios, desafios, perdas e descobertas, carência de experiências, conflitos entre partes do mundo subjetivo e da realidade exterior são condições inerentes á adolescência. Elas refletem as necessidades de se lidar com ansiedades existentes nesse processo universal do homem simbólico. A expressividade da adolescência varia ao longo do tempo histórico. O adolescente do medievo não era o mesmo da atualidade, mas ambos tiveram de enfrentar a crise da adolescência ao elaborarem lutos, conflitos edípicos, fraternos e narcísicos, com as características da cultura de cada época e de cada sujeito (Levisky, D., 2007). À complexidade desta transição para a vida adulta acrescem-se questões transgeracionais e outras inerentes à estrutura e à dinâmica familiares em uma época que coincide com o início do envelhecimento dos pais. O estudo da psicanálise da adolescência implica amor pelo trabalho com jovens, identificação com as suas problemáticas, penetração em seus universos conscientes e inconscientes e descobrimento da técnica e da arte para alcança-los em sua compreensão e na maneira de poder com eles colaborar para o seu desenvolvimento. O estudo do processo de identificação é fundamental para a compreensão da adolescência. Ele pode ser observado por diversos prismas: 1 - evolução da sexualidade na busca de novos objetos; 2 - processo de perdas (lutos); 3 - narcisismo e organização egóica; 4 - ruptura entre as partes não-discriminada e discriminada; 5 - falso e verdadeiro self; 6 - transformações cognitivas e 7 - aprender com a experiência.
Artigo recebido a 17/04/2015 e aceite para publicação a 14/05/2015
Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (filiada à IPA) com especialização nas áreas da infância e da adolescência (filiado à IPA). Psiquiatra da infância e da adolescência. PhD em História Social. Autor de Adolescência. Morada: Rua Bruno Lobo, 218 CEP:05578-020, São Paulo–Brasil, E-mail: /
Encruzilhadas de desejos, mistérios, desafios, perdas e descobertas, carência de experiências, conflitos entre partes do mundo subjetivo e da realidade exterior são condições inerentes á adolescência. Elas refletem as necessidades de se lidar com ansiedades existentes nesse processo universal do homem simbólico. A expressividade da adolescência varia ao longo do tempo histórico. O adolescente do medievo não era o mesmo da atualidade, mas ambos tiveram de enfrentar a crise da adolescência ao elaborarem lutos, conflitos edípicos, fraternos e narcísicos, com as características da cultura de cada época e de cada sujeito (Levisky, D., 2007). À complexidade desta transição para a vida adulta acrescem-se questões transgeracionais e outras inerentes à estrutura e à dinâmica familiares em uma época que coincide com o início do envelhecimento dos pais.
O estudo da psicanálise da adolescência implica amor pelo trabalho com jovens, identificação com as suas problemáticas, penetração em seus universos conscientes e inconscientes e descobrimento da técnica e da arte para alcança-los em sua compreensão e na maneira de poder com eles colaborar para o seu desenvolvimento.
Pensamentos de três jovens ilustram aspectos dessas transformações conflitivas.
Não consigo enxergar saídas
Todas as portas parecem estar fechadas
Não consigo ficar encarcerada
Quero e quero muito estar num lugar como mar de rosas
Onde as rosas exalem um perfume agradável e não fétido como os que sinto neste lugar.
Que a escuridão deste mundo seja substituída por uma claridade pura nos meus olhos
Para que eu possa enxergar um local menos podre, sujo, imundo como esse!
Que o meu ser encontre a liberdade, a paz que eu tanto procuro
Sei que Deus iluminará meus passos, concedendo-me aquilo que tanto anseio: PAZ. (Alessandra, 18 anos)
Page 41Quero ser médico, mas não gosto de estudar e não suporto biologia.
(Fábio, 17 anos)
Você sabe que sou homossexual. Desde pequeno eu sabia que era assim, diferente. Eu queria muito ter uma Barbie e só sosseguei quando minha mãe me comprou. Eu gostava de ter a coleção de roupas dela. Achava maravilhoso brincar com ela. Sempre me achei diferente dos outros meninos. Meu pai tentava brincar comigo de jogar bola, mas eu não gostava, não tinha nenhum interesse em fazer as coisas que ele queria fazer comigo. Com minha mãe era diferente. Eu sempre falo com ela. Ela me ouve, me orienta.
(Antônio, 16 anos)
Alessandra é uma adolescente que apresenta um quadro depressivo, frequente nessa fase da vida, mas seu sofrimento e a impossibilidade de encontrar recursos para lidar com ele e a falta de perspectivas levaram-na a cometer uma tentativa de suicídio.
Muitos adolescentes passam por estados emocionais equivalentes ao de Alessandra, sendo difícil o diagnóstico diferencial entre normalidade e patologia. A compreensão dos fenômenos clínico e frequentes atuações (acting out) dependem de uma análise complexa e multifatorial relacionadas à estrutura, à dinâmica e à economia psíquica subjacentes bem como as características das relações familiares.
Fabio, por sua vez, está envolto em ambivalências diante da perspectiva de uma definição de escolha profissional. Sente-se confuso em suas contradições e imagina-se sem recursos para definir caminhos que vai muito além de sua escolha profissional.
Antônio se coloca como homossexual e relata conflitos de poder e de espaço vividos na relação com os pais sem saber discriminar o caleidoscópio de afetos a descobrir em seu mundo interior ainda indefinido.
São três exemplos reveladores da complexidade que é a compreensão da adolescência pelo viés da psicanálise, cujo foco recai sobre a formação dos diferentes níveis de subjetivação (intra, inter e trans) que se manifestam no percurso do processo de identificação. Identifica-se na poesia de Alessandra um estado mental pouco flexível, determinista, autoritário que a impossibilita suportar sentimentos e desejos contraditórios. Defende-se das angústias cindido a percepção da realidade interna e externa, com perda da capacidade para vislumbrar esperança. O elevado grau de radicalismo, de idealização levam-na a querer muito estar num lugar como um mar de rosas isento de aspectos negativos e frustrantes. Seu mundo subjetivo está dominado por uma visão parcial do universo afetivo. Alessandra não se dá conta de que está criando uma armadilha para si ao não enxergar saídas, pois se depara com algum elemento frustrante que ela acredita não poder suportar. Ela não percebe possibilidades para integrar e incorporar sentimentos antagônicos ou transformá-los em afetos, em elementos simbólicos. Inviabilizada para se aliviar da angústia e recuperar a autoestima quer sumir em busca de paz. Pressionada pela vida pulsional, desejos eróticos e agressivos se mesclam nas redescobertas da vida objetiva e de suas potencialidades físicas, psicológicas, intelectuais, afetivas e sociais. Quer se libertar de si mesma, das dependências infantis, dos pais da infância, sem saber como reestruturar seu mundo subjetivo. É a luta entre o bem e o mal que a humanidade vive.
No adolescente essa luta emerge com o vigor da juventude e com a severidade de um superego ora protetor ora vingativo, ameaçado pela criatividade emergente. Winnicott (1975) em A criatividade e suas origens, capítulo de O brincar e a Realidade, afirma que é a criatividade que dá o colorido de toda a atitude em relação à realidade externa … é através da apercepção criativa que o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida. A cisão na qual Alessandra está imersa impede-a de discriminar os elementos positivos e construtivos do seu ser, buscando pureza e paz num mundo idealizado que supõe encontrar na morte.
Os adolescentes necessitam ressignificar a bagagem de elementos biológicos, psicológicos, sociais, históricos e culturais ao desinvestirem a infância e reinvestirem e descobrirem novas demandas e possibilidades corporais e afetivas que se lhe impõe. A atividade pulsional interfere nas transformações que ocorrem nas configurações narcísicas, relações de objeto, ego, ideias do ego, superego e do self. São elementos coparticipantes do processo de identificação na busca de uma identidade adulta que se faz através de um processo contínuo que atravessa períodos críticos e que organizam novos níveis de desenvolvimento e função. (Erikson, E., l960). Progressões e regressões ocorrem durante esse processo, estimulado pelo sensorial e não-sensorial, e que expande a capacidade de sentir, de ser, de pensar, de optar e de agir.
A crise de identidade do adolescente decorre de forças que se antagonizam. Enquanto deseja manter os privilégios
da vida infantil quer alcançar e usufruir dos prazeres da vida adulta sem ter que arcar com as consequências e responsabilidades. Essa força que o impulsiona para a vida adulta está intimamente ligada à emergência da sexualidade adulta associada à capacidade reprodutora, concomitantemente à reorganização egóica e à ressignificação dos afetos e sistema de valores.
Nesse processo de elaboração de conflitos emergem, com intensidade, estados primitivos da mente, um conjunto de manifestações psíquicas que caracterizam a estrutura do self primitivo ligados aos aspectos narcísicos e ao desenvolvimento dos primeiros núcleos egóicos.
Nos três pensamentos dos jovens que ilustram essas transformações conflitivas pode-se observar a emergência desses estados mentais primitivos nos quais há o predomínio de relações de objeto parcial com dificuldades na discriminação self e objeto. São condições que se assemelham ao que ocorre nas observações de bebês no início da estruturação das representações simbólicas quando predominam ansiedades catastróficas e as defesas primitivas se manifestam por meio de identificações simbióticas, adesivas e identificações projetivas intensas que, se duradouras, afetam o desenvolvimento dos aspectos narcísicos de vida, das relações self/ objeto primitivas e da organização egóica.
Tomarei como pontos de referência as idéias de Freud, Klein, Aberastury e Knobel, Mahler, Bleger, Winnicott e elementos da teoria do self(Kohut, Storolow, Kernberg, entre outros), que, a meu ver, oferecem importantes contribuições para a compreensão dos movimentos psíquicos desta etapa do desenvolvimento emocional.
Do final da latência à eclosão da puberdade há um contraste extraordinário nas manifestações das atividades psíquicas inconscientes. Freud nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade caracterizou-a por uma cisão quase total entre interesses e fantasias ligados à sexualidade e a maturação egóica voltada para a vida social e intelectual bem como o desenvolvimento de valores éticos, morais, sociais, lúdicos e estéticos. Diferenças evidentes ocorrem nas atividades e interesses das meninas e dos meninos. Intensos mecanismos de recalque e defesas de caráter obsessivo emergem frente a conflitos primitivos até então não suficientemente elaborados pelo ego. Graças a estes mecanismos de defesa do ego produz-se um aumento da tolerância à tensão, com maior liberação do ego para o desenvolvimento da aprendizagem e organização da vida frente à realidade objetiva. A superação satisfatória dos conflitos edipianos possibilita a sublimação dos impulsos sexuais, transformando as relações primitivas estabelecidas com os objetos externos e internos em aspectos de sua identidade. O ego e os ideais do ego trabalham em sintonia.
Durante a latência ocorre elaboração de angústias persecutórias e depressivas, resultando dessas atividades psíquicas certo desenvolvimento do ego. Os mecanismos reativos de vergonha, nojo, medo, escrúpulo excessivo e limpeza exagerada ativam-se no sentido da luta defensiva contra a masturbação e contra a sexualidade dos adultos, que é abominada. Nessa luta defensiva, a cisão é reforçada, consolidam-se as figuras idealizadas e as denegridas … 0 mecanismo obsessivo de controle onipotente não se exerce só em relação à sexualidade, mas atinge uma esfera mais ampla. Assim tudo o que implica diferença é profundamente acentuado, mediando um abismo quase intransponível, por exemplo, entre o real e o imaginário, o corpo e a mente, adulto e criança, feminino e masculino, idealizado e persecutório. Os aspectos diferentes são considerados antagônicos e rigidamente mantidos afastados (Amaral, L., l969).
Concomitantemente a esses processos intrínsecos da atividade psíquica ocorre um maior desenvolvimento das capacidades físicas e mentais. O ego, estando fortalecido, permite ao menino e à menina maior independência do ambiente e melhor desempenho das funções psíquicas reguladoras. É um período de maior estabilidade emocional.
No final do período de latência, manifestações psíquicas da puberdade já podem ser percebidas em nível pré-consciente e inconsciente, através de projeções observáveis nos desenhos, nas dramatizações ou por meio de acting outs que precedem as transformações somáticas.
O desenvolvimento egóico pode se caracterizar por um incremento das defesas obsessivas e do recalcamento como uma tentativa inconsciente de prolongar a permanência no período de latência. O ego também pode sofrer uma regressão defensiva frente às angústias emergentes destas transformações abruptas e incontroláveis, decorrentes das pressões instintuais agressivas, destrutivas e sexuais. Período nos quais são frequentes jogos de natureza homossexual, ocorrendo uma separação espontânea nas
atividades entre meninos e meninas, havendo nas atividades um sentido masturbatório e exibicionista, refletindo o início da aprendizagem de sua identidade genital.
No pré-adolescente os sonhos diurnos são frequentes e possuem caráter masturbatório com um forte conteúdo sadomasoquista. São reveladores de um estado de interpenetração das pulsões agressivas, destrutivas e libidinais, à semelhança do que ocorre com as pulsões indiferenciadas do bebê (Lebovici, S. e Soulé, M., l972).
Na puberdade as pulsões emergem, invadem o ego insuficiente para administrá-las, causando um transbordamento de afetos e atitudes comportamentais que serão mais ou menos controladas pela ação superegóica. O superego, por sua vez, ainda não introjetou novos modelos identificatórios adultos capazes de possibilitar um equilíbrio egóico satisfatório. O jovem quer ser adulto, mas ainda não sabe como sê-lo.
Na latência, o ego e o superego estão perseguindo um fim comum: lograr uma adaptação ao ambiente, adotando ideais do ego pertencentes a esse ambiente (Klein, M., 1969).
Na puberdade, essa harmonia entre ideais do ego e o ambiente é rompida. Surge um caráter de urgência instintual, que por um lado determina o fim do período de latência e, por outro, perturba as relações entre organização narcísica, ego, superego e ideal do ego, fazendo com que haja o ressurgimento de aspectos da pré-genitalidade. A busca de uma identidade adulta sexual, cognitiva e social desorganiza o equilíbrio desta relação entre as diferentes instâncias do psiquismo, criando extensa área de conflitos.
A busca de emancipação leva os jovens a viverem confrontos de autoridade. Emergem desejos subversivos nessa busca em que contrariam valores instituídos pelos pais e ambiente familiar na criação de novos espaços para suas experiências emocionais. Chamo à essa busca de mudanças da geografia psíquica na medida em que reestruturam e definem novas configurações na distribuição dos afetos em relação ao self e ao objeto. Com frequência, as atitudes subversivas deixam rastros reveladores de aspectos pueris e exibicionista da personalidade. O monopólio parental é quebrado na redefinição dos espaços privativos e coletivos internos e externos.
A rivalidade com os pais e irmãos põe em evidência conflitos pré-edipianos e edipianos. A comunicação pode ser verbal, mas com frequência é pré e para-verbal, pelo corpo, clima emocional, gesticulação, conduta, dramatização. As palavras podem ser empregadas de forma pouco específica, com amplo espectro de significados reveladores de elevado grau de condensação e de deslocamento presentes no vocabulário do cotidiano.
Na adolescência, qualquer estímulo pode se transformar em sexual, no sentido de aumento da excitabilidade, sem que o estímulo esteja obrigatoriamente vinculado a uma erotização. Situações geradoras de ansiedade, expectativa, medo ou valentia podem elevar o nível de tensão e conduzir à ereção ou polução diurna que se tornam meios de descarga das catexias. Há uma fase de afastamento dos objetos amorosos da infância até o surgimento de uma nova fase, quando emerge a erotização com um período de fantasias masturbatórias e busca de novos objetos de investimento amoroso e sexual.
Os primeiros novos objetos de investimento amoroso e sexual são geralmente os amigos do mesmo sexo. São os fiéis companheiros com os quais mantém as mais íntimas confidências e relações. Tais companheiros(as) representam algo narcísico, mais próximo de um objeto idealizado de si mesmo e projetado no(a) companheiro(a). Não há neste momento uma nítida definição da identidade sexual, como um sentimento de definição de gênero, isto é, de masculino ou de feminino, ainda que conscientemente não existam dúvidas quanto ao sexo anatômico.
Durante o período crítico da adolescência, mobilizado pela organização hierárquica dos impulsos e de seu caráter definitivo e irreversível (Blos, P., 1962), vencidas as fantasias de castração, as rivalidades fraternas, os temores frente ao desconhecido que representa o sexo oposto, o próprio corpo e as potencialidades criativas e destrutivas, ocorrem definições quanto à identidade de gênero e escolha dos objetos de prazer amoroso e sexual. Movimento que culmina com o desenvolvimento de uma identidade sexual adulta e egossintônica.
Nesse processo de ressignificações entram em jogo elementos transgeracionais, a biografia do indivíduo, a qualidade dos primeiros vínculos afetivos precoces, a elaboração dos conflitos edípicos e fraternos bem como a organização estrutural, dinâmica e econômica do aparelho mental.
A autoestima pode estar diminuída ou se apresentar prepotente, omnipotente e arrogante como expressões da debilidade das funções defensivas do ego frente às pressões instintuais capazes de gerar relações sadomasoquistas de continência. São movimentos regressivos que podem ter
função econômica como a de dar tempo ao ego e ao selfpara se edificarem diante das rupturas em relação aos objetos primários de amor (pais, corpo e valores da infância) e a incorporação dos novos objetos. Surgem situações de descargas tensionais e momentos de instabilidade em que predominam intensos mecanismos de identificação projetiva e outros que compõem o que autores contemporâneos englobam como estados primitivos da mente .
Aspectos contraditórios da personalidade do adolescente emergem como querer crescer e permanecer criança. Partes do self estão cindidas e projetadas para fora dele. Os conflitos de amizade e de rivalidade internos e nas relações objetivas se passam internamente e nas relações com pais, irmãos, amigos ou no ambiente escolar. Há momentos diante dos quais o real e o imaginário se confundem.
Tais configurações psíquicas vão depender da estruturação das bases da personalidade primitiva, da sua biografia e do modo como a família e o ambiente lidam na atualidade com este processo global de transformações. São períodos críticos que necessitam cautela, observação, tolerância e continência afetiva. O sofrimento pode ser tão intenso e as atuações (acting out) desmedidas a ponto de colocar em risco a integridade física e mental do jovem ou do meio. Uma observação longitudinal se faz necessária para que se possa avaliar a organização e a rigidez dessas estruturas, se transitórias ou cristalizadas, na configuração da personalidade, capazes de gerar dificuldades de discriminação, análise e crítica.
Na adolescência, quadros clínicos de difícil distinção se apresentam mesclados entre aspectos neuróticos, deficitários, borderlines, psicóticos e psicopáticos sem que se tenha claro numa primeira abordagem até onde fazem parte da Síndrome Normal da Adolescência ou se representam estruturas verdadeiramente patológicas.
As manifestações podem adquirir um caráter tão intenso e desagregador do ego levando Aberastury e Knobel (1971) a considerarem as características desse período como uma síndrome caracterizada por: 1 - busca de si mesmo e da identidade; 2 - tendência grupal; 3 - necessidade de intelectualizar e fantasiar; 4 - crises religiosas que podem ir desde o ateísmo mais intransigente até o misticismo mais fervoroso; 5 - desorientação temporal quando o pensamento adquire as características de pensamento primário; 6 - evolução sexual manifesta, que vai desde o autoerotismo até a heterossexualidade genital adulta; 7 - atitude social reivindicatória, com tendências anti ou associais de diversas intensidades; 8 - contradições excessivas em todas as manifestações da conduta, dominadas pela ação, que constitui a forma de expressão conceitual mais típica deste período da vida; 9 - uma separação progressiva dos pais; 10 - constantes atuações do humor e do estado de ânimo.
Trata-se, na maioria das vezes, de uma questão funcional durante o processo de reestruturação da personalidade que poderá deixar sequelas estruturais. O prognóstico estará na dependência de como ocorre, em cada caso, o desenrolar e a resolução do processo intrínseco de identificação e sua interação com o meio ambiente. Dependerá também da flexibilidade dos mecanismos defensivos, do grau de fixação e regressão, da história pregressa do jovem, principalmente em seus primeiros anos de vida, e da possibilidade de redistribuição das catexias.
Mecanismos de defesa primitivos como: cisão, negação da realidade, onipotência, identificação projetiva maciça, adesiva, simbiótica, autística, falhas na discriminação entre realidade interna e externa, ataque às identificações primitivas, dificuldades na dissimbiotização em relação ao objeto primitivo, favorecem a emergência de quadros clínicos intensos e equivalente a transtornos psicóticos e caracteriais, porém, nem sempre cristalizados e, de caráter transitório.
Com a emergência dos processos psíquicos primitivos no adolescente é preciso conhecer os estudos existentes sobre o psiquismo fetal, vida perinatal, primeiras fases do desenvolvimento, observações de bebês e das relações precoces pai-mãe-bebê como os realizados por Rascovsky , Bick , Bowlby (1969), Verny (1981), Stern (1992), Wilheim (1988, 1992). Trabalhos que têm contribuído para uma compreensão melhor de muitas das manifestações dos adolescentes, abrindo novos campos de investigação.
Conceitos desenvolvidos por Winnicott referentes às condições de holding, de continente, de objeto e de espaço transicionais, de preocupação materna primária e de mãe suficientemente boa, do falso e do verdadeiro self na configuração de aspectos autênticos do eu são fundamentais para a compreensão da complexidade dos fenômenos que ocorrem nessa fase de transição crucial para a organização metapsicológica do psiquismo adulto.
Os estudos sobre a formação e integração do self permitem identificar a formação de personalidades como se que se organizam
se submetendo às expectativas que o meio deposita sobre elas e em desarmonia com um sentimento de serem aquilo que realmente são. São personalidades que se relacionam com uma imagem idealizada de si e desconectada de suas reais tendências e possibilidades.
Bion (1962b, , , 1967, ) trouxe profícua contribuição à psicanálise ao possibilitar melhor compreensão sobre modos normais e patológicos de identificação projetiva em suas relações com as partes psicóticas e não-psicóticas da personalidade. Este autor descreveu características de funcionamento do aparelho de pensar em seus diferentes níveis, desde o sensorial até o mais abstrato e conceitual, quanto à capacidade de continência da vida pulsional, das relações entre pensamento e suas relações com a vida afetiva, com a experiência emocional e o conhecimento.
O conceito de pele psíquica desenvolvido por Bick (1968) refere-se a uma fase inicial do desenvolvimento psíquico que antecede a noção de formação de espaços mentais internos e externos, prévia às condições descritas por Klein em relação à idealização do selfe do objeto. Sobre estes vão incidir mecanismos de splitting com consequente cisão do objeto (ou do self) em totalmente bom ou mau, característicos da posição esquizoparanóide.
O conceito de pele psíquica refere-se à importância da qualidade do contato de pele existente entre mãe e bebê como fator preponderante para a organização do ego primitivo. A existência de um sincronismo neste encontro epidérmico mãe-bebê dá ao bebê a possibilidade de vivenciar a existência de uma coerência entre suas diferentes partes e afetos. Quando este contato ocorre fora dessa condição de suficiente sincronismo, do aconchego desejável, da frustração suportável para o psiquismo do bebê, a manifestação da experiência emocional pode ser tal que o bebê parece se esparramar, se desconjuntar, perder seu eixo psíquico de sustentação ou ser aniquilado. A função materna dá as condições necessárias para que o ego rudimentar ou os fragmentos self-objetos possam se integrar a partir de um contorno desenhado psiquicamente a partir da experiência emocional incorporada, fruto da experiência vivida na relação com a mãe. Quer dizer, as forças de integração entre as diferentes partes do bebê são estimuladas a partir de algo que vem de fora ao criar uma barreira protetora que filtra os estímulos como a pele.
Muitos adolescentes apresentam problemas na busca de emancipação por questões relativas à dependência/separação devido a dificuldades ocorridas durante essas primeiras fases do desenvolvimento humano. Relações com objetos e fenômenos autísticos (Tustin, F., 1981) podem ser encontrados como elementos primitivos residuais e defensivos em adolescentes que apresentam intenso estados regressivos.
A capacidade de apreensão de estados primitivos da mente são fundamentais para a realização do trabalho psicanalítico com adolescentes. Muito da comunicação que se estabelece entre o jovem e seu analista é feita através de um tipo de comunicação pré-verbal inconsciente que se manifesta pela respiração, batimentos cardíacos, níveis corporais de tensão equivalentes ao que Piñol-Duriez (1984) detectou em pesquisas neuropsicológicas a partir de estudos das relações mãe-bebê.
Costuma-se dizer que a adolescência se equipara a um segundo nascimento visto que as ansiedades e muitos dos movimentos psíquicos são inerentes ao início da vida psíquica e reeditados com grande intensidade durante a adolescência.
Esses mecanismos primitivos da mente não deixam de existir na conduta humana. Eles permanecem recalcados e submissos às forças de expressão dos mecanismos psíquicos mais atualizados. Teorias como a do imprinting e os estudos etológicos integrados à Psicanálise (Nathan, T., 1983) tem contribuído também para a compreensão dos primórdios da vida mental, ainda que em caráter especulativo.
Tais estudos comparativos revelam que há semelhanças entre o comportamento de certas espécies de insetos e algumas características do comportamento humano como: aproximação e afastamento, ataque e defesa, levando a supor que na relação analítica esses movimentos podem ter por base padrões geneticamente definidos e detectáveis na relação transferencial/contratransferencial.
O estudo do processo de identificação pode ser observado por diversos prismas que iremos caracterizar de maneira resumida: 1- evolução da sexualidade na busca de novos objetos; 2- processo de perdas (lutos); 3- narcisismo e organização egóica; 4- ruptura entre as partes não-discriminada e discriminada; 5- falso e verdadeiro self; 6- transformações cognitivas e 7- aprender com a experiência.
A pressão instintual impele o adolescente a buscar novos objetos gratificantes na realidade externa e no mundo interno. Essa busca em direção ao encontro do objeto sexual faz
com que a expressão da sexualidade sofra transformações, interferindo na redefinição de sua identidade sexual.
Vimos que no início da adolescência havia um direcionamento da libido de natureza narcísica, isto é, voltada para o próprio indivíduo. Mesmo quando o adolescente se relaciona com o outro, neste período, o outro representa uma projeção de aspectos de si mesmo. O outro é vivido de forma idealizada e ocupa o papel de depositário dessas idealizações. O objeto que ocupa esse papel visa reproduzir o próprio sujeito. Com o decorrer do processo evolutivo, essa relação deixa de ser gratificante graças às pressões instintuais na busca do objeto de prazer sexual.
O novo objeto de investimento libidinal é inicialmente um objeto ambíguo, mal discriminado, passando por um estado de ambivalência (impulsos e sentimentos contraditórios e opostos), até alcançar maior definição na escolha desse objeto fruto de fantasias e de experiências que contribuem para maior capacidade de discriminação.
Essa ambiguidade é observada pela má discriminação entre desejos e temores despertos por uma excitação que não sabe bem o que é, do que se trata e o que fazer. Muitos adolescentes podem se defender do próprio crescimento através de regressões e fixações como a persistência na fase narcísica ou a liberação da excitabilidade de forma oral.
A ambiguidade também é observada em relação a outros fatores da personalidade, como aspectos do self primitivo, ainda mal integrados e definidos da relação self/objeto que, por sua vez, se conflitam com aspectos organizados e integrados de uma parte mais desenvolvida do ego. Para Meltzer , o principal transtorno da adolescência é uma identidade confusa relacionada com o surgimento de severo splitting do self característico dos períodos pré-edípicos e pré-genitais da infância. O splitting existente na puberdade seria uma forma de enfrentar melhor a onda de desejos genitais em todas as formas infantis, polimorfas e perversas, ainda pouco modificadas pelo selfadulto e pela identificação introjetiva.
Há, portanto, uma cisão cuja resultante será: parte da excitabilidade sexual dirige-se para a heterossexualidade e parte para os objetos idealizados representados pelos pais da infância. Estes objetos idealizados podem ser deslocados para o(a) companheiro (a) sem que o(a) jovem se dê conta de que o(a) parceiro(a) não corresponde ao que nele(a) está sendo projetado. Isto é, as percepções que podem ter do(a) companheiro(a) sofrem influências de recalcamentos, projeções, distorções, e identificações primitivas e frutos das interferências narcísicas na relação com os objetos internos.
Num primeiro momento, essas relações ocorrem com frequência em nível de fantasias, por meio de sonhos diurnos que não se limitam apenas à aproximação subjetiva do objeto sexual. Eles têm também a função de possibilitar novos investimentos afetivos e de se aproximar da realidade. Nos sonhos propriamente ditos são evocadas situações atuais que se mesclam a outras de natureza edipiana. Reproduzem com a musa inspiradora ou com o príncipe galante situações eróticas da organização genital e pré-genital. Período em que a polução noturna é frequente. Os rapazes bastante assustados com a ocorrência de um fenômeno em seu corpo, que torna público algo de sua intimidade sobre o qual não têm nenhum controle.
À medida que o processo evolutivo prossegue tanto o rapaz quanto a moça saem do campo do imaginário, do fantasioso, pressionados pelas forças do crescimento, pelos desejos de novas experiências ao realizarem as primeiras aproximações com o objeto homo ou heterossexual como fonte de prazer e de amor. Fantasias masturbatórias amenizam os temores à castração e revelam uma organização psíquica cujas pulsões ainda são pouco elaboradas ao nível do ego e portadoras de elementos perversos. Ouvem-se histórias de grandes conquistas, recheadas de conteúdos sadomasoquistas, de posse e domínio total do objeto de prazer, que estimulam a atividade autoerótica carregadas de prazer e culpa.
Lebovici (1972) salienta que os jovens tendem a erotizar suas lembranças e a relacionar atividades banais às suas fantasias sexuais. Essas fantasias tornam-se insuficientes e frustrantes, pressionando-os à experiências reais. São as seduções cantadas e paqueras cuja forma varia de acordo com a época e a cultura, até a consumação da primeira experiência sexual plena. Experiência que se realiza mas nem sempre acompanhada de um sentimento de plenitude e de integração entre o erótico e o amoroso. A evolução das experiências erótica, sensorial e afetiva não caminham juntas. Aquilo que pode ser prazeroso para um dos sistemas pode ser angustiante e culposo para o outro. Com o tempo e com o evoluir das experiências concretas haverá a integração dessas diferentes partes do ego mais estruturado e capaz de melhor conter suas contradições e de integrar afetos.
Chodorow sugere que na moça seu apego ao pai é mais idealizado e menos intenso do que o do rapaz à sua mãe. Ela precisa encontrar seu próprio modelo, desvencilhando-se daquele estabelecido nas primeiras relações com a mãe, acrescido de suas experiências pessoais como mulher (descoberta de sua genitalidade e o sentido da menstruação) e como futura mãe. Sua agressividade fálica é sublimada para poder se sentir complementada através do seu companheiro.
No rapaz, por sua vez, há a necessidade de enfrentar as ansiedades de castração, tendo que perder as gratificações oriundas das relações primitivas com a mãe, e encontrar seu novo objeto de amor. Ele mantém desde bebê um modelo heterossexual. Busca na companheira uma reprodução dos aspectos valorizados ou idealizados da relação com a mãe, associada às experiências que adquire em suas novas conquistas no campo amoroso.
O processo é muito complexo para ambos visto que interferem fantasias inconscientes do passado e do presente tanto na mente dos pais como na dos jovens. Dependerá primordialmente dos adolescentes a responsabilidade de romper essas dependências infantis, desinvestindo o primeiro objeto de amor, desfazendo-se da simbiose primária para pode realizar novos investimentos amorosos de forma efetiva, gratificante e construtiva. Podendo encontrar no outro também uma complementariedade de si mesmo e de dar ao outro esta oportunidade a partir de seus atributos e falhas.
Poderão surgir temores de retaliação e abandono ou identificações defensivas de caráter homossexual na dependência de como rapazes e moças elaboram suas fantasias incestuosas e sublimam suas relações com os pais do mesmo sexo e do sexo oposto.
As moças parecem temer menos a retaliação materna do que o rapaz a retaliação paterna. É difícil generalizar essa proposição visto que a configuração da identidade sexual é complexa e dependente de inúmeros fatores, inclusive daqueles relacionados à organização do self e de aspectos da cultura dominante em determinado local e época.
Rapazes e moças necessitam renunciar de forma irreversível aos objetos incestuosos, objetos primários de amor, transformando-os, através da sublimação e reelaboração, em aspectos de sua identidade adulta. A evolução dessa busca no encontro de um objeto sexual, erótico e de amor caminha em direção ao desejo de amar e de ser amado. Algo de narcísico sempre permanecerá presente na personalidade, tendo como função manter a integridade do self e as bases do sentimento de autoestima.
A evolução das experiências amorosas leva os jovens a abandonarem a bissexualidade, a ambivalência, a se desvencilharem das imagos parentais e ansiedades primitivas. O fato de terem adquirido a capacidade de procriação, associada à possibilidade de realização dos papéis parentais e a definição de não-consumação do incesto, acrescidas de novas aptidões do pensamento lógico e abstrato, e de um ego mais eficiente, concretiza a individuação. Condiçãoesta que conduz o adolescente para a definição de uma identidade adulta melhor definida e mais estável, cujo equilíbrio é dinâmica e sofre certo grau de oscilação.
As garotas redescobrem a existência de um pênis interno, no sentido de possuírem um poder de penetração na relação com o objeto amoroso, e desenvolvem sua habilidade em lidar com a vida, enquanto aperfeiçoam a capacidade de continência.
Os rapazes, por sua vez, se reasseguram e aperfeiçoam o sentimento de penetração e redescobrem serem possuidores de um útero mental, que representa sua capacidade feminina de continência e de sensibilidade. É a integração dos opostos e o reencontro das partes perdidas, dentro de si e na complementariedade que o outro representa.
Suspeito que aqueles que se encaminham para a homossexualidade masculina ou feminina ou outras formas de sexualidade conservam em si espectros caleidoscópico de múltiplas identidades que se configuram diferentemente da resolução edípica clássica vinculada ao sexo anatômico, ao temor à castração, aos pais da infância, a questões narcísicas que precisam ser melhor investigadas. A identidade de gênero e a busca de prazeres sexuais provém, provavelmente, das manifestações perverso-polimorfas precoces para as quais a cultura contemporânea abre espaço. Ela recalca e reprimi menos do que a cultura de outras épocas históricas recentes. A sociedade contemporânea é menos definida, líquida em muitos dos seus limites e contornos e tolera melhor diferenças e singularidades (Morin, E., 1994; ). A sociedade líquido-moderna é aquela em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação dos hábitos e rotinas, das formas de agir (Bauman, Z., 2007).
O adolescente atravessa esse período da vida com muito sofrimento, turbulência e fases de depressão, em consequência das perdas sucessivas e abrangentes que ocorrem em seu corpo infantil, no seu mundo interno e na qualidade de suas relações consigo mesmo, com as pessoas, com o tempo e com o espaço. Até então vivia dentro de um universo que estava relativamente organizado que agora se transforma rapidamente pelas pressões hormonais, pulsionais e da sociedade contemporânea, conjunto capaz de gerar momentos caóticos em seu íntimo que o impulsiona e do qual ele se defende.
A força do desenvolvimento faz com que haja uma reorganização, através da incorporação de novos objetos de investimento afetivo e da relação com novos aspectos identificatórios que se estabelecem concomitantemente e à medida que os lutos pelos objetos e partes perdidas da infância vão sendo elaborados.
As transformações corporais, a perda da bissexualidade, da identidade infantil e dos pais da infância constituem os elementos que deverão ser trabalhados pelo ego, através de um processo longo e instável de elaboração do luto.
Novas relações com o corpo vão se estabelecendo a partir de mudanças impostas pela puberdade com o desenvolvimento físico e dos elementos sexuais primários e secundários. O surgimento da menarca e da ejaculação associado às suas novas funções, desejos e temores conscientes e inconscientes são trabalhados ao nível do ego e do superego reestruturando novos esquemas e a identidade corporal.
As velocidades com que ocorrem as transformações corporais, a elaboração do luto pela perda do corpo infantil e a aquisição das funções adultas são diferentes. Cria-se um estado de desarmonia interna com aumento da tensão e o surgimento de forças antagônicas que se refletem na conduta, com atuações à semelhança de manifestações psicopáticas, cuja permanência nesse estado configurará uma condição psicopatológica.
A busca de definição e integração das identidades de sexo anatômico e de gênero implicam na sublimação e incorporação de aspectos oriundos das identificações com o sexo oposto e do próprio por meio da elaboração dos conflitos edipianos e fraternos.
Surgem, simultaneamente, novas condições para a organização do pensamento com maior capacidade de abstração, de reversibilidade, da atividade simbólica de abstração e do incremento da capacidade de racionalização. Um outro nível de compromisso e de responsabilidade desponta.
Há adolescentes que atravessam essas circunstâncias vivendo um sentimento de profundo vazio com as perdas dos objetos da infância até serem repostos pelos objetos frutos de novos investimentos e ressignificação dos anteriores.
A agressividade pode se voltar contra o self, dificultando a incorporação de novos objetos em seu mundo interno. Como consequência, quadros melancólicos podem se organizar com riscos de atuações como tentativas de suicídio.
Não são raras aventuras sexuais, experimentos com drogas, rachas de carro, atos delinquenciais como resultantes de uma necessidade de aderirem a algum objeto mágico, poderoso e paradisíaco de forma inconsequente e na ilusão de reencontrarem os objetos, primitivos perdidos.
As perdas dos ideais de ego infantil são paulatinamente substituídos por novos ideais que se organizam como fruto de idealizações e do resultado de experiências vivenciais. Estas são adquiridas através das novas descobertas, conquistas e fracassos na vida real e mental, conduzindo-os a reelaborações das figuras parentais e de si próprios. Os novos modelos de objetos afetivos investidos e incorporados na reorganização dos ideais de ego estabelecem novos níveis de conflito. O encontro de ideologias, de líderes filosóficos, religiosos, políticos, artísticos, esportivos, o desenvolvimento de atividades grupais possibilita o encaminhamento e a busca de resolução dos conflitos instalados entre as partes primitivas e atuais da personalidade.
Se considerarmos a presença dos mecanismos primitivos de funcionamento mental como os que caracterizam o funcionamento psicótico, entenderemos que o adolescente, na busca de sua identidade adulta, vive um fenômeno inevitável e, até certo ponto, independente de fatores externos, relativo à necessidade psíquica de se desprender de suas partes primitivas. Isto é, de seus núcleos psicóticos, de modo a que eles possam ser suficientemente recalcados, reelaborados e reincorporados ao novo self que está se organizando, como salientou Bleger (1973).
No decorrer do processo de identificação emergem no ego os aspectos primitivos e atuais da personalidade. A aquisição de novas identidades não suprime as anteriores, mas recalca as mais primitivas para as profundezas do inconsciente.
Em situações críticas do desenvolvimento humano, e não só nestas, observam-se movimentos regressivos, de tal forma que mecanismos do funcionamento psíquico primitivo, de natureza fusional, simbiótica, psicótica ou autística e do qual fazem parte as primeiras identificações, emergem no ego. Estas partes indiscriminadas permanecem apenas adormecidas, vindo à tona em situações nas quais predominam ansiedades do tipo catastrófica, paranóide ou depressiva.
Na adolescência, esse fenômeno torna-se mais evidente pelo conjunto de fatores biológicos, psicológicos, sociais, históricos e culturais que caracterizam esse período crítico, de múltiplas transformações e pleno de ansiedades. O adolescente revive, inconscientemente, a intensidade das vivências da infância em frontal conflito com suas aquisições e experiências atuais, mobilizado que é pelas forças do crescimento, as quais o impelem para a conquista da identidade adulta.
Essa conquista se caracteriza por uma ampliação do universo relacional, envolvendo aspectos sexuais, cognitivos, emocionais, ideológicos, políticos e sociais.
Vale a pena abrir um parêntese para dizer que o processo de identificação não termina na idade adulta. Ele prossegue por toda a vida, através de sucessivos períodos críticos de reorganização egóica, devido a novas redistribuições da libido e a transformações de valores e ideais. A percepção, consciente e inconsciente, da evolução e aproximação do irreversível, a morte, leva o indivíduo à busca de novas relações existenciais, num processo de sucessivas elaborações de perda em seu mundo interno.
A vivência de lutos é inerente à vida emocional e são vários os períodos críticos durante o processo evolutivo sentidos como tal. O nascimento, o desmame, a entrada na vida escolar, a adolescência, o casamento, todos estes acontecimentos contêm um elemento de perda, o qual, por sua vez, abre espaço para novas aquisições.
Quando os filhos adolescentes partem para dar continuidade à sua vida, os pais vivem intensamente, assim como seus filhos, estes períodos de transformações como perdas. Perdas não só da condição de pais de crianças, mas de transformação de toda uma relação existencial, onde a perspectiva da relação têmporo-espacial torna-se diferente daquela vivida na infância ou adolescência.
Nesse processo contínuo de transformações, que caracteriza o processo de identificação, há aspectos que se tornam mais ou menos invariáveis enquanto outros sofrem contínua evolução.
Assim, podemos dizer que algo da essência dos vínculos estabelecidos a partir da vida intrauterina e dos mecanismos psíquicos primitivos de natureza fusional e simbiótica se perpetuam e são reeditados na adolescência.
Esses elementos da vida primitiva evoluem a partir de investimentos objetais, de trocas afetivas iniciadas através da relação dual mãe/filho, e sofrem as influências do meio circundante. Trocas que representam os primeiros modelos identificatórios do bebê e a possibilidade de organização do ego primitivo.
Abrem-se aqui grandes discussões teóricas, especulativas, quanto à gênese do ego: a existência ou não de relação objetal nos primórdios da vida (incluindo a vida intrauterina), e as repercussões sobre a organização narcísica sem me aprofundar nesse campo complexo.
Observamos através da história da psicanálise que, como toda questão epistemológica, ela se desenvolve através de um sistema de redes associativas, à semelhança da rede neuronal descrita por Freud . Parece-me que esta se assemelha ao que se estuda hoje em informática, através da teoria das redes, com seus nós, pontos de convergência, divergência, e elementos que não se cruzam num determinado nível, mas que poderão se encontrar através de interligações em outros níveis. Os teóricos discutem a existência de uma fase anobjetal, precedendo a formação de objetos internos. Outra corrente defende a ideia de que o ego primitivo se estabelece a partir de relações de objeto (parcial) desde o início da atividade psíquica, visto que a pulsão sempre procura algo para investir e se estabelece na mente como uma representação psíquica do objeto.
Neste sentido, um dos ramos da psicanálise manteve-se mais próximo do pensamento freudiano. Após seu artigo de 1923, O Ego e o Id, surgiram novos autores e trabalhos relativos à formação do ego, suas funções e mecanismos de defesa.
Anna Freud escreveu: O ego e seus mecanismos de defesa, dando início à escola que posteriormente veio a se chamar Psicologia do Ego, a partir dos trabalhos de Hartmann . Outros autores surgiram dentro desta linha de pensamento, como Bowlby (1969), com extenso trabalho sobre a importância dos vínculos na relação dual mãe-bebê (Attachment and Loss) e Spitz , descrevendo os organizadores internos e o desenvolvimento da comunicação, principalmente em seus aspectos pré-verbais .
Mahler trouxe contribuições
relacionadas à individuação humana que parte da ideia que a vida mental evolui de um estado autístico, passa por uma relação de fusão e indiferenciação entre oeu e o não-eu em direção à separação e individuação, com consequente discriminação entre sujeito e objeto.
Klein e seguidores, como Segall, lsaacs, Milner, Meltzer, Bion, Bick, Pick, Rosenfeld deram ênfase às fantasias inconscientes, às posições esquizoparanóide e maníaco-depressiva, aos mecanismos de defesa primitivos (negação, cisão, controle onipotente, idealização) e suas consequências sobre as relações de objeto parcial e total, e ainda à presença do Édipo precoce.
Um terceiro grupo pode ser identificado por meio dos trabalhos de Winnicott, Storolow, Kohut, Kernberg, com variações que levam em conta conhecimentos que foram se ramificando dos grupos anteriores.
No estudo das fases mais primitivas do desenvolvimento (pré-esquizoparanóide e esquizoparanóide) predominam ansiedades psicóticas, catastróficas, persecutórias e depressivas, associadas a processos narcísicos. Processos que podem se associar a fortes componentes autísticos, onipotência, arrogância, identificações projetivas maciças, levando à fragmentação dos objetos internos, do self, e inclusive em relação à percepção do próprio corpo, como se pode observar em certos quadros delirantes e alucinatórios da adolescência.
A intensidade e permanência desses estados no adolescente trazem intensos transtornos adaptativos, de natureza psicótica e psicopática, diferentemente dos processos neuróticos, quando prevalecem os mecanismos de recalcamento. Em qualquer dos casos pode haver comprometimento do processo de identificação e de definição da identidade. Os processos psicóticos, psicopáticos ou neuróticos não se excluem no ego, podendo haver predominância e alternância de um sobre os demais.
O narcisismo pode ser caracterizado como um estado no qual cada um dos componentes instintuais da sexualidade trabalha por sua conta em busca do prazer, sem preocupar-se com os demais, e encontra sua satisfação no próprio corpo do indivíduo. É esta fase do autoerotismo, a qual é sucedida pela eleição de objeto … Os instintos sexuais até então dissociados aparecem fundidos em uma unidade e tomam como objeto o ego; não deixamos de pressentir que tal organização narcísica não haverá de desaparecer nunca por completo (Freud, Totem e Tabu, ).
Klein discordou de Freud em relação à questão do narcisismo primário, no qual ela teria entendido que, para Freud, não haveria objeto, uma vez que o indivíduo investiria a libido sobre ele mesmo. Desde o princípio haveria uma relação de objeto (objetos parciais) o que definiria a existência de um ego precoce já no início da vida relacional.
Pode-se entender do texto acima, onde Freud salienta o autoerotismo como elemento fundamental de prazer que a relação autoerótica seria equivalente da relação de objeto parcial, no sentido kleiniano do termo. O investimento do corpo (parte dele, ou de uma função) seria o objeto de localização da catexia.
Freud sugere que: os instintos sexuais até então dissociados aparecem fundidos em uma unidade… Estas são ideias precursoras das bases para a compreensão da estruturação e desenvolvimento do ego primitivo, para a compreensão da formação do self primitivo como resultante da integração de diferentes partes que, inicialmente, não estão integradas, onde self e objeto se confundem.
A denominação narcisismo primário talvez não seja adequada, pois entendo que a figura mitológica de Narciso, que dá origem ao conceito de narcisismo, pode representar a existência de uma capacidade de se perceber através de uma figura discriminada, total, definida e gratificante. A expressão self talvez se aproxime mais deste estado, no qual há esboços de uma percepção de si como representantes do que seja o “self primitivo e as relações de objetos parciais da escola kleiniana, ou a relação self/objeto primitivo da escola de Kohut.
Pode-se entender que o narcisismo primário, nesse sentido, é uma etapa do desenvolvimento, e que o ego pode retornar a ela, através de fragmentações e relações de objetos parciais, ou através de estados de self/ objeto não diferenciado. Este estado narcísico da personalidade pode se fazer presente como uma fase do processo evolutivo, como uma perversão, ou por ocasião de ansiedades intensas e desestruturadas que atingem o ego fragilizado.
Durante a adolescência as configurações narcísicas estão em evidência e tomam parte na organização do sentimento de autoestima, elemento que participa da reestruturação da identidade durante o processo de identificação. É de fundamental importância a preservação da autoestima uma vez que a fragilidade egóica torna o adolescente suscetível a situações que abalam esse sentimento. É função da atividade narcísica regular o sentimento de autoestima e manter a coesão e a estabilidade da representação
do self”- fundamento estrutural sobre o qual repousa a autoestima – (Storolow, R.D., l983).
As satisfações autoeróticas estabelecidas com partes do corpo se equiparam às satisfações oriundas de objetos parciais à semelhança das relações self/objetos inicialmente não-discriminadas. Com a evolução, o bebê adquire a capacidade de discriminar entre as suas próprias sensações e os objetos que o estimulam, externos e internos, objetivos e subjetivos, dando um contorno ao seu self. Concomitante e progressivamente, estrutura-se um eixo central, em torno do qual se organizam as diferentes partes do self.
Interessante o conceito de narcisismo funcional proposto por Storolow e Lachmann (1983) ao salientarem que toda a atividade mental é narcísica no grau em que sua função é o de manter a coesão estrutural, a estabilidade temporal e a tonalidade afetiva positiva da representação do self. Este conceito possibilita a compreensão de funcionamentos narcísicos, patológicos ou não, que emergem na adolescência em função de configurações arcaicas da relação self/ objeto e dos mecanismos primitivos de defesa. São regressões a estágios mais primitivos, e portanto, sobre os quais o sujeito tem maior controle, sentimentos de coesão, integração e de continuidade.
Dificuldades precoces no relacionamento mãe/bebê, nos primeiros anos de vida, podem perturbar profundamente a organização do sentimento de continuidade, da autoestima, do sentimento subjetivo de identidade, dos sentimentos de constância do self e do objeto.
Winnicott , seguindo outros caminhos, trouxe os conceitos de falso e verdadeiro self.
Kernberg aproximou conceitos kleinianos (agressão pré-genital e mecanismos primitivos de defesa) aos da psicologia do ego ajudando na compreensão dos estados narcísicos e borderline da personalidade, frequentes durante a crise da adolescência.
Hinshelwood (199l) esclarece que as expressões self, ego e sujeito eram usadas de forma intercambiável por Klein e que o termo (ego) é empregado como complemento do objeto, enquanto que self..é usado para abranger a totalidade da personalidade, que não inclui apenas o ego, mas também a vida pulsional … já o ego é a parte organizada do self. …Oego é uma organização mental objetivamente descrita, e o self é a representação que é investida no narcisismo.
A relação self/objeto primitivo, momento em que não há discriminação entre sujeito e objeto, evolui em sua trajetória para a diferenciação. O bebê, a partir da relação dual, abre caminho para a individuação, através das forças de coesão que agregam as partes do self (ou dos objetos parciais), oriundas de um estado narcísico primário que é o organizador do sentimento de ser, base do self primitivo, através das trocas realizadas com o objeto real externo, a mãe.
O objeto externo funciona como um espelho usado para desenvolver um retrato do self. A capacidade de holding e de rêveriedo objeto fazem dele um objetoespelho modulador das características afetivas projetadas pelo bebê que, ao serem reincorporadas, sofrem as influências das fantasias existentes tanto no objeto-espelho como no bebê.
Hinshelwood vê semelhanças entre os pontos de vista de Klein, Kohut e Winnicott, de que a primeira preocupação do bebê é manter seu sentimento de self, o qual chamaria de sentimento de ser, contra o medo do aniquilamento.
Há uma tendência entre os autores em torno da afirmação de que o ego coeso é uma resultante das forças de integração dos múltiplos objetos parciais (bons e maus, construtivos e destrutivos), os quais correspondem às partes que compõem o self. A metáfora pode ser a dos elementos que compõem uma família na qual cada elemento tem suas características individuais e dinâmicas próprias, mas agem sobre os demais elementos e sofrem a ação destes.
O adolescente sofre as pressões do crescimento com orgulho e desafio como aspectos do seu self, e, simultaneamente, vive a inveja e hostilidade em relação ao seu próprio crescimento. Parte de si não pode suportar esta condição, como um irmão menor que não aguenta as diferenças em relação ao irmão maior e, por isso, precisa destruí-lo, mas também precisa dele para se proteger e como modelo de admiração. Os ataques inconscientes ao crescimento são como uma defesa para não ter que se afastar da sua criança e admitir que, para alcançar em si o adulto que deseja ser, depende de muito trabalho mental: tempo, experiência, elaboração e dor.
As primeiras relações estabelecidas com o corpo materno deixam seus registros no ego primitivo de modo que, paulatinamente, tais registros efetuados nas memórias sensoriais, cognitivas e emocionais, se intercomunicam, formando sistemas cada vez mais complexos.
Das características desta díade começa a se estruturar o psiquismo infantil, através do encontro entre o narcisismo materno, que
se estende à criança, e a criança, que tem sua mãe incluída em seu mundo interno (Erikson, E., l950).
O bebê, em seus primórdios como ser associal e de vida instintual quase que exclusiva depara-se com o primeiro legislador e organizador externo, a mãe, que o conduz à adaptação e ao princípio da realidade . Isto significa aprender a discriminar e a tolerar frustrações frente a impulsos e desejos. Repetidas situações desta natureza possibilitam à criança desenvolver e organizar em seu ego mecanismos de defesa que contribuirão para sua capacidade adaptativa. Cria-se um espaço propício para as representações sensoriais e simbólicas, que são as bases da comunicação humana.
A díade mãe/bebê, inicialmente indiferenciada, fusionada, simbiótica, vai se modificando em direção à diferenciação entre o eu e o não-eu, entre o self e o objeto, na busca da individuação, caminho para a conquista da própria identidade.
A organização das instâncias psíquicas, dos mecanismos de defesa, das relações de objeto parcial e total possibilitam o desenvolvimento dos processos de identificação e da identidade, com diferentes características, segundo os momentos evolutivos em que se encontram. Os objetos introjetados são recriados no ego e organizam o superego. Objetos que, inicialmente, estão relacionados com o corpo do bebê e da mãe, como a percepção dos batimentos cardíacos maternos, o contato de pele, a tensão corporal, o olhar, a vibração emocional existente entre a mãe e o seu bebê. Gestos, atitudes e emoções são incorporados, deixando impressas suas experiências emocionais. São as primeiras identificações perceptuais, as quais possibilitarão o desenvolvimento conceitual entre semelhanças e diferenças, entre prazeroso e frustrante, entre sincronismo e assincronismo na relação. Conjunto que constitui o substrato para o desenvolvimento da empatia, do sentimento de confiança básica, da qualidade das relações objetais, bases das primeiras identificações.
Nas fases iniciais do desenvolvimento, a discriminação é inexistente ou tênue. Com a evolução, a discriminação caminha para um certo estado de percepção afetiva, de natureza confusional, até alcançar a capacidade de discriminação. O ego evolui da não-discriminação, passa por um estado de ambiguidade até alcançar um estado de ambivalência. Surge a capacidade de ter dúvida e a possibilidade de elaborar o pensamento. Neste ponto, o ego organizado tem a possibilidade de funcionar com predomínio do processo secundário.
Este conjunto de elementos da vida mental primitiva, representado por mecanismos de defesa primitivos e característicos das relações self/objeto primitivo e das ansiedades inerentes a esses estados psíquicos configura o que chamamos de estados primitivos da mente que se aproximam dos conceitos de Bleger de partes não-discriminadas e discriminadas da personalidade.
O conjunto das estruturas primitivas fusionadas, não-discriminadas, indiferenciadas, Bleger denominou-as de estrutura sincicial. Este autor assinalou que a problemática do adolescente consiste em como desconectar-se a partir desta fusão primitiva e organizar outro tipo de conexão ou relação. Esta organização primitiva contém o narcisismo primitivo, condição de fundamental importância para a compreensão de muitos dos fenômenos normais da adolescência. Dependendo de sua intensidade e duração poderá trazer sérias consequências para o processo de identificação e de identidade do jovem.
Freud (19l4), em Introdução ao Narcisismo, alertou que o investimento excessivo de natureza narcísica na eleição do objeto traria inúmeras dificuldades para o desenvolvimento das relações.
Isto significa que a parte fusionada da personalidade acompanha o indivíduo ao longo de sua vida. Sua maior ou menor intensidade interferirá na organização da identidade. Ela funciona como se fosse um protótipo identificatório , com o qual a nova identidade em formação se compara, se desvincula e se transforma, em grande parte, em elementos que comporão a identidade adulta.
Na adolescência, os investimentos narcísicos estão exacerbados e sofrem a ação dos mecanismos esquizóides ou dissociativos que interferem na diferenciação e discriminação dos núcleos aglutinados de natureza narcísica que compõem a estrutura sincicial. Bleger afirma que parte dessa estrutura sincicial jamais alcançará um estado estrutural diferenciado. Somente parte desta estrutura sofrerá transformações sobre as quais se organizarão as partes mais evoluídas da personalidade. Assim, a identidade encontra-se estruturada em três níveis que se interatuam: 1 - estruturas mais evoluídas da personalidade que intervêm na sociabilidade, caracterizada pela relação
interpessoal e baseada fundamentalmente sobre os mecanismos de projeção e introjeção; 2 - mecanismos de identificação projetiva-introjetiva e 3 - persistência da estrutura sincicial primitiva. Parte da identidade se organiza sobre uma base que é pouco evoluída, que não é nem interna nem externa, pois ainda não houve a discriminação em termos de individualização. Estes aspectos são fundamentais em relação ao processo de identificação do adolescente uma vez que a crise de identidade do adolescente é basicamente uma ruptura ou desorganização da estrutura sincicial, o que ocorre sempre que uma crise vital resulta profunda e total.
Mahler caracteriza o processo adolescente por meio da evolução egóica e da relação de objeto. Entende que há, inicialmente, um processo de fusão, seguido de dessimbiotização, que ocorre em duas fases durante a evolução: a primeira na infância e a segunda, na adolescência. Na infância, o bebê vive um estado autístico normal, de desorientação alucinatória primária e a satisfação de suas necessidades advém do seu próprio mundo autístico todo-poderoso. A etapa seguinte se caracteriza pelo estabelecimento de uma relação simbiótica normal. Nesta, o bebê e sua mãe funcionam formando um sistema único, investido de modo onipotente, onde não há discriminação entre oeu e o não-eu. A autora valoriza a ideia de narcisismo primário de Freud, e o subdivide em duas fases: 1 - narcisismo absoluto, que corresponde a uma ausência de consciência em relação ao agente materno; 2 - surgimento da noção de elemento gerador de gratificações. O conjunto de sensações internas constitui o núcleo do self“, ponto central, cuja cristalização em torno do sentimento de si favorecerá o desenvolvimento de um sentimento de identidade. Este sentimento possibilita ao bebê delimitar seu próprio mundo, definindo os contornos do ego corporal, distinguindo-o daquele representado pelo mundo dos objetos. Com a evolução do ego primitivo há o deslocamento da libido, de tal forma que o objeto investido é discriminado do próprioeu. Este movimento dá condições para que o bebê caminhe em direção à autonomia e individuação. Na adolescência ocorre a segunda fase do processo de dessimbiotização necessária para que se alcance um estado de autonomia e emancipação. Desvios poderão levar o adolescente a uma persistência ou abandono prematuro em relação ao objeto interno primitivo.
No primeiro caso gera um prolongamento na relação de dependência em relação aos objetos idealizados com o predomínio de processos primários e baixa tolerância a frustrações e atuações. Identificações projetivas ocupam o espaço do pensar e tornam o outro depositário de aspectos seus, agindo de modo controlador sobre os objetos das projeções.
Quando, pelo contrário, ocorre uma desconexão rápida dos objetos primitivos, o fenômeno pode gerar profundos sentimentos de vazios que Cassorla (1991) sugere terem a potencialidade de caminharem para o suicídio, somatizações, ou para a organização de uma pseudomaturidade representativa de um falso self. Processo que pode ser observado também do ponto de vista da desidentificação quando aspectos das múltiplas facetas da identidade anterior são desinvestidos sem que o sujeito os preencha com novos objetos. O indivíduo necessita se desvencilhar das identidades mais primitivas e se reidentificar a partir da escolha de novos objetos com dor e culpa, mas que, por outro lado, libera-o frente às novas pulsões e possibilita-o construir uma nova identidade e modelo de vida.
Kancyper (1990) salienta que nesse processo de desidentificação e reidentificação há uma liberação da pulsão de morte que pode sofrer diferentes destinos: 1 - estabelecer novas identificações e caminhar para identidades negativas; 2 - tornar-se parte de um superego tirano e punitivo. As dificuldades na resolução dessas situações podem conduzir o adolescente a organizar-se em quadros graves de depressão, pânico, sentimentos de abandono, fuga da realidade, quadros obsessivos, os quais se confirmam em minha prática clínica.
Kohut chama de raiva narcísica o ataque que o indivíduo realiza a si mesmo quando seu desempenho não corresponde à imagem idealizada de si, sendo esta uma condição para o surgimento de doenças psicossomáticas como na bulimia e na anorexia.
McDougall (1987) caracteriza esse ataque ao corpo na medida em que: Tudo aquilo que ameaça destruir a ilusão de indistinção entre o corpo próprio e o corpo materno o impulsiona a reencontrar o meio intrauterino perdido. Fenômeno que induz a mãe a responder instintivamente a esta demanda, trazendo alívio e sono ao bebê, pelo ritmo de seu corpo e pela manutenção do contato corporal. Na adolescência este fenômeno se reedita levando-o a um prolongamento imaginário desta relação de um corpo para dois quando o jovem enfia-se na cama, e dela não quer sair. É através das frustrações, adequadamente moduladas pela mãe, que o bebê progride
do estado alucinatório até alcançar a relação com o objeto real. Progressivamente, a criança estabelece uma relação com o objeto real interno, elemento do equipamento mental, e as separa das reações do corpo. Um equivalente deste processo é revivido inconscientemente pelo adolescente que, progressivamente, realiza novas experiências e desafios que o ajudam a construir sentimentos de maior segurança em si e passa a melhor se relacionar com a vida interior e com o mundo externo.
Winnicott sugere que há um momento em que a criança alucina o seio como fazendo parte delamesma, portanto parte do seu narcisismo primário. Quando a mãe oferece o seio, o bebê transforma esta alucinação numa ilusão, como se o objeto tivesse sido criado por ele. Esta evolução possibilita que se organize na mente do bebê um espaço virtual e lúdico, que conterá as representações do self, do objeto, conjuntamente com a capacidade de pensar. A criança busca, desta forma, recriar a ilusão da unidade básica, formada pelo corpo-mente-seio materno.
Penso que a relação que o adolescente mantém com o objeto idealizado visa a reproduzir esta fantasia primordial, de um corpo para dois. Fantasia representada pela ilusão da unidade básica que é quebrada pela experiência emocional do nascimento e que o bebê busca reencontrar ao sair do útero. Meltzer (1985) denominou como a perda do primeiro objeto estético essa experiência vivida pelo bebê ao nascer. Lembrança que é ativada e recuperada em cada relação e ao longo da vida quando nos sentimos diante de angústias frente as quais temos dificuldades para lidar. Nos momentos depressivos e de regressão busca-se retornar à ilusão da unidade básica e resgatar a vivência da relação com o objeto estético fundamental.
McDougall enfatiza que falhas nesse processo fundamental trazem repercussões sobre a capacidade de integração e de discriminação entre corpo, pensamentos e afetos.
O adolescente, ainda que nas fases anteriores à adolescência tenha vivido com um razoável equilíbrio e compensação, falhas ou traumas reais ou fantasiosas ocorridos nos períodos iniciais da vida terão grande probabilidade de serem revividas na vida relacional atual com manifestações emocionais equivalentes àquelas vividas nos períodos iniciais da vida paralelas e concomitantes às manifestações atuais.
O adolescente, na definição de sua identidade, realiza uma luta interna e externa para descobrir e expressar o seu eu autêntico. Lobão, cantor e compositor brasileiro, reproduz em sua música a busca de autenticidade do adolescente ao dizer: eu me amo frente aos desejos, medos, desafios e coragem no enfrentamento do desconhecido que emerge dentro de si e nas relações com o mundo exterior. O jovem teme se desiludir consigo mesmo em suas experiências. Há, entretanto, um outro medo, o de ter o seu eu verdadeiro aniquilado pela imposição do desejo externo, pelo stablishment, e em consequência, sentir a necessidade de se submeter como forma de defesa, uma adaptação forçada, que vai além daquilo que ele realmente sente que é. A questão básica está a intensidade desta submissão a ponto de violentar a verdadeiro eu..
A vida em sociedade requer certa dose de falso selfpara que ela possa se realizar. Simpatia, delicadeza, cordialidade, diplomacia são atributos que podem ser usados para mascarar externamente os verdadeiros sentimentos, assim como muitas reações agressivas podem ser defensivas frente ao temor em externar a sensibilidade e o amor. Por exemplo, adolescentes do sexo masculino podem reprimir sua delicadeza e sensibilidade por sentirem-se ameaçados em sua virilidade, devido a fantasias e questões culturais, tolhendo algo que lhes pode ser espontâneo e autêntico, aniquilando algo do seu ser.
O adolescente, em meio às suas inúmeras indefinições, necessita se experimentar para se conhecer, e muitos se defendem, pois trazem em sua biografia emocional sequelas na formação do verdadeiro self. Quando a pessoa não se dá conta de seus sentimentos reais e deforma a sua capacidade criativa e espontânea de responder aos estímulos, acaba por se expressar através do falso self. Torna-se uma personalidade que se organiza “como se”.
A construção da base do ser autêntico está nos primórdios da relação mãe/bebê na medida em que a mãe aceita se submeter ao controle onipotente do bebê e o ajuda, progressivamente, a lidar com frustrações. Neste processo a mãe colabora para que se forme na mente do bebê um espaço virtual no qual ele tem a ilusão de criá-la, lá onde ele a deseja. Oportunidade para que se estruture o sentimento de ser, base do verdadeiro self.
Por meio de um estado psíquico que Winnicott denominou de preocupação materna primária, a mãe, ao ajudá-lo a lidar com suas frustrações, modula o sofrimento imposto pela realidade de modo a torna-lo suportável e sem que se transforme em ameaça de pânico, catástrofe
ou desorganização. Caso contrário, o bebê terá que se submeter ao outro, organizando-se em torno de um falso self, para sobreviver às fantasias de aniquilamento.
Quando o bebê, por falhas existentes nestas primeiras relações, tem que crescer mais rápido do que pode, suportar frustrações em demasia, comer quando não tem fome, acordar quando ainda precisa dormir, controlar os esfincteres antes do tempo, acaba havendo uma adaptação excessiva para sobreviver às demandas externas.
Winnicott (, , ) desenvolveu em profundidade suas teorias a respeito de como se formam o verdadeiro e o falso self. Em O Ser e o Viver, Júlio de Mello (1989) diz: A mãe suficientemente boa alimenta a onipotência do lactente, e o faz repetidamente. Um self verdadeiro começa a ter vida através da força dada ao ego fraco do lactente, pela complementação da mãe das expressões de onipotência do lactente… A mãe que não é suficientemente boa não é capaz de complementar a onipotência do lactente, e assim falha, repetidamente, em satisfazer a manifestação do lactente; ao contrário, ela o substitui por sua própria manifestação, que deve ser validada pela submissão do lactente. Essa submissão por parte do lactente é o estágio inicial do falso self, e resulta na inabilidade da mãe em sentir as necessidades do lactente… Através deste falso self, o lactente constrói um conjunto de relacionamentos falsos, e, por meio de introjeções, pode chegar até uma aparência de ser real, de modo que a criança pode crescer tornando-se exatamente como a mãe, babá, tia ou irmã, ou quem quer que seja que, no momento, domine o cenário.
Na busca de sua autenticidade, o adolescente pode viver uma condição de um falso self adequado, pois ele necessita se agrupar e para isso se adapta ao usar as mesmas roupas, cortes de cabelo ou ouvir as mesmas músicas, graças à individualidade ainda não definida. Em meio a dúvidas e confusões, identifica-se com o grupo, de modo a quebrar alguns vínculos de dependência com o meio familiar e controlador da infância até resgatar o sentimento de que o que o ilumina em suas buscas é interno, vem do fundo da alma.
Não raro os pais sugerem algum caminho para o jovem, o qual ele nega frontalmente como opção. Tempos depois, quando a situação já parece estar esquecida ou ter sido superada, eis que o jovem nos surpreende com sua decisão, muito semelhante àquela sugerida pelos pais mas como uma definição interna vinda de dentro dele como uma elaboração criativa e original. Outros movimentos sentidos como pressão, imposição, ameaça, invasão do espaço próprio levam o adolescente a reagir defensivamente frente ao que lhe parece ser uma ameaça de aniquilamento do seu próprio eu.
“… na base do falso self está a dificuldade do pleno uso da onipotência infantil, da qual derivam a ilusão, a imaginação e o brincar, isto é, a capacidade de usar símbolos…, diz Mello Fo. (1989). Há, por parte do adolescente, uma adaptação excessiva ao meio, que se contrasta com uma pobreza de vida interior. O exibicionismo, a estereotipia de comportamento e o mimetismo são tendências reveladoras do falso self.
A busca do eu autêntico tem como resultado a possibilidade de viver com seus aspectos psíquicos antagônicos como querer crescer sem abandonar os privilégios da infância. Implica em incorporar ao eu aqueles aspectos que considera indesejáveis. São sentimentos que podem ferir o desejo de manter o ideal narcísico imaculado, sem se aperceber que estes são componentes inerentes à sua personalidade. Isto é, o indivíduo é constituído em seu ego de aspectos de vida e de morte, de construção e de destruição, mesmo ao nível narcísico, como partes do seu self (Green, A., 1988).
O autêntico é o que não é falso; é o que é original. Implica em se libertar da imposição do desejo do outro e do próprio superego censor para conquistar a realização e o controle dos próprios desejos para a sua satisfação. E conquistar a capacidade de estar só diante da necessidade da opção e apesar do outro.
Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, sabemos que o adolescente alcançou um nível de desenvolvimento que lhe permite utilizar o pensamento hipotético-dedutivo, estágio combinatório (recipro-cidade, mutualidade afetiva e social) no qual prevalecem as operações formais, descritas por Piaget (1990).
O adolescente é capaz de propor enunciados verbais. Realiza experiências em um momento da vida em que as condições de compromisso e de responsabilidade são menores quanto às suas consequências e com maiores possibilidades para trabalhar por meio de erros e acertos.
A capacidade intelectual do adolescente dispõe de mecanismos para analisar, sintetizar, levantar hipóteses, avaliar probabilidades, correlacionar. Lida com um conjunto de variáveis e movimenta-se do particular para
o genérico e vice-versa. Estabelece conceitos e amplia sua cadeia associativa e o campo de conhecimentos em nível cognitivo, afetivo e social. Contudo, ele apresenta intensa carga de mecanismos de defesa primitivos próprios do processo de identificação, queinvadem o seu ego e interferem em suas funções cognitivas devido a intensas identificações projetivas, onipotência, ambivalência excessivas ao lado de grande capacidade de racionalização fragilizando ainda mais o ego já enfraquecido pelo processo de transição. As capacidades perceptiva, de elaboração e associativa tornam-se comprometidas, empobrecidas diminuindo o contato com o mundo objetivo e subjetivo. Prevalecem mecanismos próprios do pensamento primitivo com funções de descarga por meio de atuações, negações, cisões, em prejuízo das funções intelectuais de análise, crítica, síntese, e da atividade criativa.
Muitas atitudes delinquenciais decorrem de ações impensadas devido a dificuldades de acesso ao pensamento formal, a presença de distorções na apreensão das relações temporais, espaciais e na integração entre oeu e o não-eu.
Os conceitos de Klein sobre a relação entre a curiosidade sexual, o sadismo e o impulso epistemofílico contribuem para a compreensão de como fatores emocionais interferem nas relações entre curiosidade sexual, inibição intelectual e transtornos de aprendizagem. A autora (Klein, M., , 1931) coloca em evidência que transtornos intelectuais em pacientes psicóticos sofrem as consequências de cisões e de ataques agressivos ao objeto dividindo-os em totalmente bons ou maus motivados pelo ódio e pela inveja dos mesmos. Fenômeno que distorce a percepção com prejuízos na integração das diferentes partes que compõem o objeto. As fantasias inconscientes ampliam ou destroem as possibilidades do conhecer. Klein identificou, também, que a atividade perceptual e intelectual do bebê contém conhecimentos inatos e que, a meu ver, se aproximam das proto-representações descritas por Freud e das preconcepções de Bion. Na adolescência, estes aspectos da mente infantil podem emergir ao lado de aspectos bem desenvolvidos da atividade cognitiva e do aprender com a experiência.
Bion (1962b, 63, 65, 67, 70) ampliou a compreensão das ações dos mecanismos psíquicos primitivos positiva e negativamente na livre utilização da capacidade de pensar. O ódio, a inveja e o amor interferem na capacidade de incorporação e na compreensão. Quando prevalecem as identificações projetivas intensas o aparelho de pensar é destruído e os vínculos afetivos podem ser atacados. A impulsividade leva o indivíduo a usar o aparelho mental de modo primitivo, como elemento de descarga, prejudicando as possibilidades de trocas intelectuais, sociais e afetivas.
Em contrapartida, o adolescente pode investir de forma excessiva as funções intelectuais como defesa frente a temores oriundos da sexualidade genital, pressionado pelos hormônios e pela atividade pulsional. Sentimentos de culpa e inibição intelectual, por sua vez, podem ser decorrentes de temores inconscientes frente às fantasias sexuais ligadas a conflitos infantis não resolvidos, carregados de aspectos perversos, em um ego enfraquecido e empobrecido pelos conflitos que o envolvem.
Portanto, há uma nítida relação de interdependência entre amor, ódio e conhecimento. Esta relação se inicia a partir da qualidade do vínculo estabelecido na relação mãe/bebê. As capacidades de continência, de rêverieda mãe em poder modular e filtrar as ansiedades que atingem o bebê, possibilitam-no, a partir do contato corporal gratificante, incorporá-la e conhecê-la vivencialmente, sendo estas as bases do aprendizado, do conhecimento e da formação do aparelho de pensar.
No início da vida a base do conhecimento é corporal, somático, atrelado às sensações físicas que são transformadas de elementos sensoriais em conteúdos mentais por meio da função alfa. Dependendo da qualidade do vínculo estabelecido entre ambos, o bebê pode transformar os elementos sensoriais (beta, na versão de Bion) em pensamentos, isto é, em uma qualidade mental mais evoluída (afetos, representações, símbolos, linguagens, ações). Conteúdos mentais utilizáveis para pensar e sonhar, e não somente como elementos de descarga. Uma relação pautada na inveja e no ódio tornam o objeto sobre os quais se projetam as fantasias destrutivas um objeto ameaçador, destruído ou ausente, e em consequência surgem sentimentos persecutórios, de total desamparo ou de aderência, prejudicando a incorporação adequada do objeto, com repercussões sobre a compreensão, o conhecimento e o aprendizado que podem advir da relação estabelecida com este objeto.
O adolescente é mais vulnerável a perturbações em sua capacidade de pensar e na plena utilização de seus potenciais cognitivos. Manifestações como baixo rendimento escolar, desinteresse pelo
conhecimento, bloqueios na compreensão, estados de devaneio, atos impensados e delinquenciais podem ser expressões sintomáticas consequentes à ação da vida afetiva sobre a atividade cognitiva.
Uma criança que cresce em condições de abandono atinge a adolescência num estado de profunda desvantagem em relação a outros jovens criados dentro de um contexto familiar adequado. Os prejuízos cognitivos, afetivos e conativos dos primeiros emergem na adolescência, pondo em evidência falhas e distorções irreparáveis ao longo da vida. Observa-se que muitos destes jovens não chegam a alcançar o pensamento formal e combinatório, organizando-se dentro de quadros deficitários, melancólicos, delinquenciais, psicóticos, psicopáticos ou somáticos com limitações em suas capacidades de sublimação no conhecimento e em ações criativas dos impulsos agressivos, sádicos e libidinais.
Carvajal (1993) diz que: Somente um equilíbrio adequado entre aprendizagem intelectual e controle instintual pode formar um ser comuma repressão permeável e um manejo cultural adequado do seu psiquismo inconsciente. Ou, como afirma Hinshelwood (1992): o pensamento e a racionalidade dependem da vida emocional do tipo mais primitivo, e, em realidade, dela emergem.
O adolescente atinge seu equilíbrio quando for capaz de realizar um trabalho integrado entre cognição evida afetiva resultante das diferentes forças que pressionam o seu ego dentro de determinada cultura em seu tempo histórico.
ABSTRACT
Adolescence seen in light of contemporary psychoanalysis Studying the psychoanalysis of adolescence requires a love of working with young people, identifying with their problems, penetrating their conscious and unconscious universes, and discovering the technique and art of establishing a connection with them in their understanding and collaborating with them to further their development. The author discusses the tangle of desires, mysteries, challenges, losses, discoveries, inexperience, and conflicts between parts of the subjective world and external reality that are inherent conditions of adolescence. They reflect the need to deal with the anxiety produced by the symbolic processes universal to human beings. The expressiveness of adolescence has varied over historical time. Adolescents in the Middle Ages were not the same as today s adolescents, but both had to face the crisis of adolescence by elaborating tensions such as mourning, oedipal conflicts, sibling rivalry and narcissism with the characteristics of each epoch and subject (Levisky, D., 2007). In addition to the complexity of this transition to adult life, adolescents also face transgenerational issues and others inherent in the dynamics and structure of family life at a time when their parents are beginning to age. Studying the identification process is fundamental to an understanding of adolescence. It can be observed from several angles: (i) the evolution of sexuality in pursuit of new objects; (ii) the process of loss (mourning); (iii) narcissism and ego organization; (iv) ruptures between indiscriminate and discriminate parts; (v) false and true self; (vi) cognitive transformations; (vii) learning from experience.
KEYWORDS: Adolescence, psychoanalysis, mourning, transgenerationality, transformation