Através do filme Into the Wild considerado pela autora como paradigmático da adolescência e tomado como narrativa onírica, são entrelaçadas a dimensão mítica da adolescência como uma passagem labiríntica, através da metáfora do Mito de Teseu e do Minotauro, e a dimensão fantasmática da adolescência definida como “um surto do id”, ou seja, a integração pulsional da sexualidade, num segundo tempo onde a fantasia incestuosa e parricida tem agora os elementos para concretizar-se, levando o adolescente a uma resignificação, à-posteriori, das dimensões narcísica e edípica reativadas. O artigo segue a trajetória do filme, do mito e das vicissitudes da adolescência, através de três momentos chave: a entrada no labirinto-adolescência pela necessidade de resignificar a origem; o labirinto e a luta com o minotauro-pulsional para a sua integração; e a possibilidade de saída do labirinto-adolescência através do fio-de-Ariadne-integração emocional.
Comunicação apresentada no XXVI Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: Adolescência e Psicanálise -Abril 2015, Lisboa.
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association. Formadora no Instituto de Psicanálise da SPP. E-mail: ana.melicias@gmail.com
“(…) Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência.”
Ao ser convidada a pensar o tema Trajetórias da Adolescência, essas duas palavras, trajetória e adolescência, ecoaram dentro de mim e desembocaram imediatamente no filme Into the Wild, que tinha visto há já alguns anos e considero paradigmático da adolescência. É através da narrativa do filme, tomado como um sonho, que desenrolarei o fio de Ariadne, também eu presa no tema labiríntico da adolescência.
O filme conta a trajetória de dois anos de um pós-adolescente e, no dicionário, trajetória é definida como a distância (espaço) que precisa ser percorrida para se chegar a outro lugar, e cujos sinónimos - andamento, marcha, circulação, itinerário, percurso, caminho, via, direção - implicam as relações entre espaço e tempo, eixos matriciais do pensamento e da estrutura psíquica. Na etimologia, trajectus significa a passagem, o transporte, o lugar onde há passagem, a passagem de mar ou de rio, mas também o caminho e ainda a coisa transportada, levada além. A adolescência tem esta forma de ponte, de ligação, de passagem de um lugar a outro, do lugar da infância para o lugar adulto. Segundo a física clássica (Newton - noção de espaço e tempo absolutos), trajetória poderia ser definida por uma linha retilínea ou curvilínea circular, elíptica ou parabólica. Porém a física relativista (Einstein - teoria da relatividade), diz-nos que essa trajetória não exisitiria independentemente, sendo sempre relativa a um sistema particular de referência. E a física quântica (Heisenberg - princípio de incerteza ou desigualdade), ao introduzir o conceito de aleatoriedade trouxe profundas alterações às noções do espaço, tempo, medida, causalidade, simultaneidade, trajetória e localidade, colocando a física moderna frente ao que os físicos atuais chamam “estados coerentes emaranhados” (faixa de Moebius).
Não poderíamos nós emprestar “poético-científicamente” da física a sua definição de trajetória para pensar a passagem pela adolescência como “um estado coerente emaranhado”? Qual seria então a distância que precisa ser percorrida para se chegar da infância à idade adulta? Quanto tempo demoraria? Que sistema de referências estaria correlacionado? Qual seria o trajeto?
Equilíbrio instável, com um pé na resignificação da infância e outro projetando-se na irreversabilidade das escolhas adultas, encontramo-nos no campo relacional-pulsional, onírico-mítico e a trajetória adolescente será sempre paradoxal, incerta, indeterminada. Qual seria então a “coerência desse estado emaranhado”? O aforismo de Kafka (1931) “existe uma meta, mas não há caminho; o que chamamos de caminho não passa de hesitação”, parece descrever com perfeição o aspecto paradoxal na adolescência, de hesitação, experimentação e passagem.
Este período é considerado por muitos autores como o momento mais difícil da vida do homem (Aberastury, A., 1980), uma autêntica revolução biopsicossocial (Levisky, D., 2013). É referido por outros, como crise
de identidade (Erikson, E., 1976), como moratória psicossocial (Erikson, E., 1976), como fratura no desenvolvimento (Laufer, M., 1989) ou como psicose transitória, ligando-a à questão tantas vezes abordada da explosão da esquizofrenia no final da adolescência. Outros ainda, como Winnicott (1993), tomam-na apenas como “um tempo de alternância entre a independência rebelde e a dependência regressiva, sendo o tempo o seu remédio.”
Os estados afetivos predominantes são o luto e a paixão (Blos, P., 1998). O luto remetendo à experiência de vazio interior, de sofrimento e renúncia e a paixão à sensação de completude. As tarefas implicadas são, da ordem e da complexidade de um segundo nascimento: renunciar ao corpo infantil, abandonar a posição narcísica e os conflitos da bissexualidade, fazer o luto dos objetos de amor iniciais, integrar o renascimento do complexo de édipo e reordenar os processos identificatórios construindo a identidade, através do encontro objetal heterossexual e da escolha profissional.
Através do filme proposto tentarei ilustrar tanto a dimensão mítica da adolescência -como esse lugar “transicional” entre a infância e a idade adulta que caracterizei como uma passagem labiríntica, através da metáfora do Mito de Teseu e do Minotauro (Bayard, J.-P., 2003), como a dimensão fantasmática da adolescência definido por Mannoni, O. (1999) como “um surto do id”, ou seja, a integração pulsional da sexualidade, num segundo tempo onde a fantasia incestuosa e parricida tem agora os elementos para concretizar-se, propondo ao adolescente uma turbulenta resignificação à-posteriori da dimensão narcísica e edípica nesta fase reativadas.
O adolescente, qual Teseu, entrará nesse labirinto emocional de lutos e paixões, “um refúgio em seu mundo íntimo, para poder religar-se ao seu passado e então enfrentar o futuro.” (Aberastury, A., 1980). Aceitando as progressões e as regressões, terá de enfrentar o minotauro pulsional e integrar na sua organização psíquica, como nos diz Winnicott, D. (1993), “o seu novo poder de destruir ou mesmo de matar, poder que, até então inexistente, não complicava os sentimentos de ódio na infância.” Na luta contra a consumação do incesto neste seu “estado coerente emaranhado”, como se desemaranha o adolescente desse labirinto? Mergulhado na complexidade dos caminhos possíveis, terá ele os recursos para integrar o “monstro” pulsional? Saberá ele encontrar o caminho de volta? No mito, será com a ajuda de Ariadne que lhe dará como elemento paterno a espada de lâmina dupla e como elemento materno o novelo cujo fio lhe permitirá encontrar a saída do obscuro e subterrâneo labirinto, de volta à luz. A adolescência vista como um labirinto, como um ritual de passagem, ou como prova iniciática, será para o psiquismo o teste de realidade (Freud, S., 1911) entre o princípio de prazer e o princípio de realidade. Como nos diz Aberastury, A. (1980): “Abandonar a solução do ‘como se’ do jogo e da aprendizagem, para enfrentar o ‘se’ e o ‘não’ irreversíveis da realidade ativa que tem em suas mãos.” E quais serão os fatores que desemaranham as voltas labirínticas, sem os quais o adolescente não encontra a saída, ou seja, não constrói o seu próprio projeto identitário? O fio condutor para poder sair do labirinto para a realidade será, como no mito, o fio da relação amorosa, a fusão das pulsões com o triunfo de Eros sobre Thanatos, a reorganização dos objetos internos em identificações egossintónicas e não alienantes, a autonomia através da independência relativa, a elaboração da feminilidade e masculinidade psíquicas.
O filme guia-nos pela trajetória labiríntica da adolescência. O título foi mantido em inglês - Into the Wild - por não haver uma tradução em português que condense de maneira tão clara, por um lado, o movimento de direção de uma trajetória paralelamente ao de imersão expresso na palavra “into”; por outro, o fato da palavra “wild” agregar simultaneamente o lado puro da natureza (ambiente natural, não habitado, não domesticado ou cultivado), mas também o lado incontrolável da pulsão (selvagem, indomável). O filme de 2007, traduzido em Portugal como O Lado Selvagem, foi escrito e dirigido por Sean Penn. O roteiro é uma adaptação do livro Into the Wild (1996) de Jon Krakauer, baseado numa história real a partir do diário da viagem de Christopher McCandless através da América do Norte, até chegar ao Alaska no início da década de 90.
A história é biográfica, mas hipotética. O roteiro do filme reconstitui a suposta história vivida, baseando-se num livro que por sua vez se origina num diário. O real vivido não sabemos. Buscamos o sentido sonhando e imaginando aquilo que não podemos saber, tal qual numa análise, onde a história se vai re-construindo através da narrativa que emerge entre a dupla analítica nos movimentos transferenciais e contra-transferenciais, tecendo lacunas, muitas vezes estruturais, que não permitiram aos analisandos continuar a sua jornada. Somos seres de ficção e não de realidades. Transitamos no espaço intermediário entre eu e o outro,
o dentro e o fora, entre o que foi vivido e o que é narrado, entre o que foi sentido e o que pode ser pensado.
Tal como nos sonhos, no filme não há uma temporalidade linear, mas bem ao contrário, contruído em flashbacks permanentes, recria os movimentos progressivos e regressivos desta trajetória adolescente. Sean Penn propõe-nos, com notável maestria, a vivência contratransferencial das angústias e emoções emaranhadas tanto do adolescente como de sua família. Conta os dois anos da viagem de Chris até ao Alaska, que tomarei como o labirinto adolescente a ser atravessado. Conta como os pais vivem o seu desaparecimento real que tomo como o desaparecimento do filho da infância e a obrigatória reorganização dos pais enquanto casal e enquanto pais. Conta episódios chave do seu passado, narrados em voz off pela irmã de Chris, que tomarei como o lado feminino da bissexualidade, mais em funcionamento depressivo, nas oscilações permanentes Ps-D.
A densidade do filme, tal como a dos sonhos, ou como o material numa sessão analítica, obriga-me, para ordenar o caos, a escolher três momentos chave, como fatos selecionados (Bion, W., 1991), como eixo emocional dominante e como fio condutor neste labirinto: a entrada, a luta com o minotauro e a saída.
No início, à laia de sumário, anunciando a trajetória do filme, como se do refrão de um teatro grego se tratasse, somos apresentados ao sonho que se desenrolará… Chris é apresentado ao que terá de resignificar em busca da sua verdadeira identidade, contra as identificações alienantes, no renascimento do Édipo.
Com 22 anos, recém-licenciado, é na festa de celebração da formatura, que Chris devaneia e imagina os próprios pais a formarem-se, a casarem e ousa dizer a si mesmo a verdade que se impõe sobre a origem e que buscamos em qualquer análise: “Quero ir ter com eles e dizer: Parem, não façam isso. Ela é a mulher errada. Ele é o homem errado. Vão fazer coisas que nem imaginam que poderiam fazer. Vão fazer coisas más a crianças. Vão sofrer de maneiras que nem conhecem. Vão querer morrer.” …“Quero ir ter com eles naquela luz de fim de Maio e dizê-lo. Mas não o faço. Quero viver. Pego neles como se fossem dois bonecos de papel, macho e fêmea e bato um contra o outro como duas lascas de pederneira como que para fazerem faísca. Digo-lhes: Façam aquilo que vão fazer e eu o contarei.”
Chris entra no labirinto da resignificação, através deste denso diálogo oníricofantasmático buscando através do conflito estético (Meltzer, D., 1994), apreender o interior enigmático dos seus objetos, o tipo de ligação amorosa que os uniu e lhe deu origem. Temos aqui, a ligação inequívoca à origem com a sua força estruturante e simultaneamente a necessidade do adolescente se diferenciar dos objetos primários e de re-escrever a sua própria história, discriminado e subjetivamente separado.
Enfrenta a sua esfinge e depara-se com uma cena primitiva sádica, o “macho e fêmea” pulsional e narcísico, de cuja faísca ele sente ter nascido, mais do que de um encontro amoroso numa triangulação genitalizada e adulta entre um homem e uma mulher.
Parafraseia Thoreau: “mais do que amor, do que dinheiro, do que fé, do que fama, do que justiça, dêem-me verdade”, remetendo-nos à teoria bioniana da busca da verdade nas palavras de Keats - ‘Beleza é verdade, verdade é beleza’. Chris entra no labirinto e caminha into the wild tal Édipo-errante, no seu itinerário em busca da sua origem. Muda de nome, tornando-se Alexander Supertramp evidenciando a busca da sua identidade e o corte implicado na separação do mundo infantil. O apelido é a marca identitária da nossa origem. Christopher McCandless re-nomeia-se de Supertramp, condensando o super e o tramp. “Super”, como vestígio das idealizações e onipotência infantis, cujos lutos são tão penosos durante a adolescência. E “Vagabundo” que se despe de qualquer traço civilizacional e das exigências da realidade social para iniciar a sua viagem iniciática em busca de si mesmo, defindo-se como “um extremista, um viajante estético, cuja casa é a estrada…”
Chris cumpre a universidade, como o último tributo a ser pago ao seu falso self, como nos diz a irmã em voz off: “Tendo vinte a quase tudo, passara quatro anos a cumprir o absurdo e aborrecido dever de se licenciar. Estava emancipado desse mundo de abstração, falsa segurança, pais e excesso material, que o separavam da verdade da sua existência.”
Na “sua luta para sentir-se real, a luta para estabelecer uma identidade pessoal, a luta para viver o que deve ser vivido sem ter de conformar-se a um papel pré-estabelecido” (Winnicott, D., 1993), logo após a formatura, sem avisar os pais, sem deixar rastro ou pista, abandona tudo e parte pela estrada em busca do seu verdadeiro self, onde poderia estar
longe do homem e em comunhão com a natureza selvagem e pura.
“…Não amo menos o homem, mas mais a Natureza” de Lord Byron é a epígrafe do filme. Chris atravessa erraticamente boa parte da América, passando pelo México, à boleia, a pé, de caiaque ou clandestinamente de combóio. Arranja empregos temporários quando lhe falta dinheiro. Não permanece muito tempo em cada lugar. Relaciona-se num jogo de “como se” (Deutsch, H., 1983) com as pessoas que encontra circunstancialmente, consideradas mais como representações de imagens do que como pessoas. Em busca de novos modelos identificatórios, lê avidamente Pasternak (Doutor Jivago), Tolstoi (Guerra e Paz), Jack London (The Call of the Wild) e Thoreau. Como este último, no Walden ou a Vida nos Bosques, queria ir “…para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido.”
O destino final desta viagem será o Alaska. Este surto do id, esta trajetória pulsional, condensa muitos dos temas próprios à adolescência, cujos múltiplos e ricos significados salientarei sumariamente, não cabendo aqui uma abordagem detalhada. Cada um deles, no entanto, parece evocar os caminhos percorridos no labirinto, com hesitações, voltas e recomeços aparentemente erráticos, que vão tecendo o fio significativo da história através da divisão em capítulos que o próprio filme propõe: O meu próprio Nascimento; Adolescência; Idade adulta; Família e Alcançar a Sabedoria.
Numa “zona de inundações súbitas”, Chris desliga-se das últimas amarras sociais e parentais: carro e dinheiro. Enfrenta o seu medo e entra no mar com a mulher de um casal de hippies que encontra, “colocando-se pelo menos uma vez nas mais primitivas condições humanas”, ou seja, re-nascendo. Vive ainda, através deste casal, a aceitação da exclusão edípica numa boa cena primitiva.
Devaneia um diálogo com uma maçã, remetendo-nos à expulsão do paraíso da infância e ao conflito estético do encontro com a beleza da Natureza. Época de consolidação do masculino, aprende com os homens a trabalhar, a caçar e a preservar o alimento da caça, observando, através deles e ainda à distância, as questões da sexualidade. Desafia a autoridade e vive todos os riscos da rebeldia e imprudência, tão comuns na adolescência. Num jogo de toque e foge, acerca-se da sexualidade através de um casal estrangeiro que encontra, como se a vivência adulta da sua sexualidade ainda lhe fosse inquietante e estrangeira. Vive numa gruta e volta a uma cidade, onde se vê na condição degradada de sem-abrigo, sinalizando internamente a falta do seu lugar identitário. Tem uma experiência confusional de despersonalização ilustrando o processo de fragmentação da identificação projetiva.
A lei impõe-se e é brutalmente castigado (castração) por infringí-la, apanhando clandestinamente combóios. Trabalha para juntar dinheiro.
Não aceita o amor sexual de uma adolescente, estabelecendo a relação pelo amor terno que precede a escolha heterossexual adulta, onde as duas correntes se virão a fundir. Visita com ela a “Montanha da Salvação”, hino ao amor ideal e ao desejo de encontrar uma harmonia no caos. Contacta a dor depressiva dos pais pela ruptura radical que fez com eles, vivida através do mesmo casal hippie do começo da viagem, que reencontra agora num festival de música. É trazida à cena a carga dramática da dor de separação dos pais e do luto por perderem o filho da infância na voz off da irmã de Chris: “Faz um ano que ele desapareceu. A raiva, o desespero, o sentimento de culpa dos meus pais, começava a dar lugar à dor. E a dor parecia aproximá-los. Até os seus rostos tinham mudado. A mãe convence-se que é o Chris, que é o filho, sempre que vê um rapaz a vaguear. Eu temo pela mãe que há nela… Duvido que consiga entender o que o Chris quer dizer. Recomponho-me e lembro-me que estes não são os pais com quem ele cresceu, mas sim pessoas amaciadas pela reflexão forçada que a dor traz.”
Encontra um viúvo idoso que perdeu mulher e filho há muitos anos e lhe pergunta: “Onde está a tua família?” Chris responde: “Eu já não tenho uma.” Ensina-o a pescar e quando se despedem dá-lhe instrumentos de pesca, evocando a sabedoria do famoso ditado oriental: “Não lhe dês o peixe, ensina-o a pescar.” Mostra-lhe o seu ofício de gravar o couro, aludindo talvez às marcas inelutáveis que a história crava. Fala-lhe de perdão, apontando para a reparação do objeto total
da posição depressiva. Ao despedir-se dele perante um sinal de estrada que diz “Do not enter. Wrong way.”, conta-lhe: “os meus pais foram filhos únicos e eu sou filho único e quando eu morrer, acaba-se esta linhagem: que achas de me deixares adotar-te? Posso ser o teu avô…” Mostra de forma pungente a importância das relações afetivas que se organizam em linhagens, começando pela matricial, estendendo-se progressivamente na adolescência à família comunitária e, mais tarde, à família profissional e à continuação da linhagem familiar pela organização da parentalidade adulta.
“Após dois anos de errância chega a última e maior aventura. A derradeira batalha para matar o falso ser no seu interior.” Chris chega finalmente ao Alaska, à natureza pura, revisitando o mistério do deserto que Jorge Luís Borges considerou o primeiro labirinto. Busca o interior enigmático do objeto, cuja frieza é bem dissonante do encantamento com a beleza exterior. Encontra um autocarro abandonado, refúgio utilizado por caçadores de alces no inverno. Vestindo o ideal do “bom selvagem” habita esse “magic bus” isolado de tudo e de todos por catorze semanas, caçando, pescando e colhendo bagas silvestres para se alimentar. Constrói uma ponte para atravessar um rio. Construção de pontes que se dão também internamente, através das constantes leituras que, ao longo da sua vida, sempre amenizaram a sua profunda solidão e tristeza, assim como pela redação de um diário, “objeto transicional entre o devaneio e o mundo objetal” (Blos, P., 1998) tão peculiar na adolescência. Utiliza defesas típicas desta fase (Freud, A., 1982), como: o isolamento narcisista, ainda que para Winnicott, D. (1993), “o adolescente é essencialmente um isolado”; o ascetismo, inibidor da vivência pulsional e acentuando tendências masoquistas de esforço, dor e esgotamento; e a intelectualização, que lhe permite deslocar o pulsional para conteúdos ideacionais. Chris vai buscando respostas e resignificando a sua infância, como nos diz através de Pasternak (Doutor Jivago): “Por momentos ela redescobriu o sentido da sua vida. Estava aqui na terra para compreender o significado do seu encanto selvagem e para dar a cada coisa o seu nome correto. Chamar cada coisa pelo seu nome correto.” A “palavra justa” de que nos fala Mannoni, M. (1982), aquela que permite nomear o não-dito transgeracional.
Age o seu “assassinato inconsciente” (Levisky, D., 2013), cortando radicalmente com a família onde cresceu no meio de mentiras, não-ditos e desmentidos com o impacto traumático e desestruturante que a transgeracionalidade sempre encerra. Revelada casualmente aos 18 anos por amigos dos pais, tem acesso à história verdadeira da sua origem, ao segredo violento e à violência sempre latente nas relações familiares, tão bem relatada pela irmã em off: “Descobriu que as histórias dos nossos pais, sobre a forma como se conheceram, apaixonaram e casaram, eram mentiras calculadas que escondiam uma verdade feia… Quando se conheceram, o nosso pai já era casado. E já depois do Chris ter nascido o nosso pai teve outro filho da primeira mulher, com quem era ainda legalmente casado. Esse fato, subitamente, fazia de mim e do Chris filhos bastardos. A arrogância do nosso pai fazia com que esquecesse convenientemente a dor que causava. E a nossa mãe com a vergonha de jovem amante, tornou-se cúmplice dele na mentira… O casamento fraudulento e a negação que o nosso pai fazia em relação ao outro filho eram, para Chris, o assassínio diário da verdade. Ele sentiu toda a sua vida a mudar, como um rio que, subitamente, invertesse a sua direção, passando a correr para montante. Essas revelações atingiram a essência do sentido de identidade do Chris. Fizeram com que toda a sua infância parecesse ficção.” E é esse oculto, esse desmentido traumático que ele tem de resignificar para encontrar a sua identidade, o seu verdadeiro self.
Concordo com Kancyper, L. (2007), quando nos diz: “O que na infância é silenciado, surge aos gritos na adolescência.” Na mesma linha, Jeammet, P. (2007) continua: “a adolescência é um indício da qualidade das aquisições dos primeiros anos da infância.” Infância essa vivida por Chris, como nos conta a irmã, no meio de “acessos de fúria diários em casa. Violência que éramos obrigados a testemunhar. Era muito real. Mas também parecia teatro. Eles escolheram-nos tanto para juízes como para réus.”
Como encontrará Chris a saída do labirinto? Como sairá da sua trajetória adolescente, do tal “estado de confusão emaranhado”? Como resignificará à posteriori o não-dito, o oculto?
Através das palavras de Tolstoi no seu livro “Family Happiness and other stories” parece viver uma epifania, um insight integrativo: “Vivi muita coisa e agora acho que percebi o que é preciso para ser feliz. Uma vida calma e isolada no campo com a possibilidade de ser útil a pessoas a quem é fácil fazer bem e que não estão habituadas a que lho façam.
E trabalho, que esperamos possa ser útil e depois o descanso, a natureza, livros, música, amor pelo próximo. Essa é a minha ideia de felicidade. E depois, em cima de tudo isso, tu como companheira. E filhos talvez. Que mais pode o coração de um homem desejar?” Traduzidos aqui amor e trabalho, segundo Freud, os dois pilares da saúde mental, Chris parece aceder a uma consolidação identitária mais estável e harmonizada entre pulsão e ego, entre as pulsões de vida e de morte.
Mais integrado, sente encontrar-se pronto para sair do labirinto. Prepara a sua mochila mas, ao chegar ao rio, o caudal aumentado por inesperadas chuvas impede-o de atravessar. É obrigado a voltar e escreve: “Desastre. Travessia do rio impossível. Isolado pela chuva. Só. Assustado.” A primeira vez em que surge a sua vulnerabilidade. Chris emagrecido e pouco nutrido, diz: “Tenho fome!” Nomeia a falta e entra em contato com a dependência, frente ao cenário pseudo-ultra-independente que montou. Cai o véu da oni-potência e Chris sente-se im-potente, “aprisionado no lado selvagem” sem saber se encontrará o seu fio de Ariadne. E este fio, este elemento essencial, parece-me mais não ser do que “a confiança que liga os adolescentes a seus pais” (Jeammet, P., 2007). Confiança vem do latim confidentia, confidere, e significa acreditar plenamente, com firmeza. Como poderia Chris con-fiar nos seus pais? Como poderia ele fiar com alguém, tecer internamente na companhia de alguém o seu próprio caminho? Parece-me que a con-fiança torna os pais fiadores dos filhos, pela reverie e pelo holding na sustentação protetora da turbulência desta trajetória transitória da adolescência.
Chris não tem mantimentos, nem mais forças para lutar por eles. Escreve, como se de um testamento se tratasse: “A felicidade só é real, quando é partilhada” assinando, enquanto repete à laia de coro: “Chamar cada coisa pelo seu nome correto.” Assina com o seu nome próprio e os nomes de família da mãe e do pai. Mais discriminado agora, sem temer perder a sua identidade, pode re-inscrever-se na sua matriz identificatória.
No início do filme Chris fantasia o casamento dos pais e entra no labirinto. Agora, já tendo percorrido o labirinto-viagem, já tendo lutado com o minotauro-pulsionaltraumático, já tendo resignificado o que se encontrava cindido, misterioso e oculto, encontra-se pronto para sair. Adquiriu, como nos diz Jeammet, P. (2007), “um modo de funcionamento psíquico adulto, uma capacidade de autonomia e atividade reflexiva, isto é, uma dupla possibilidade de distanciamento em relação aos outros e a si mesmo.”
Saído do claustro (Meltzer) da hipocrisia da sua história, através da pensabilidade (Bion) que foi adquirindo na sua trajetória de separação, mais de acordo com o seu verdadeiro self (Winnicott), encontra-se finalmente com os seus objetos internos mais reparados (Klein), podendo vincular-se amorosamente não mais ao macho e fêmea da díade narcísica, mas ao pai e à mãe numa boa cena primitiva genitalizada e adulta.
Chris percebe que vai morrer… Num gesto espontâneo, segue o fio condutor que o leva aos pais reparados internamente, ligado que se sente agora aos seus objetos internos transformados. No breve momento que separa vida e morte, aconchega-se no abraço imaginário de re-encontro com os pais: “E se eu estivesse a sorrir e a correr para os vossos braços? Veriam então o que eu vejo agora?”
Na complementariedade inevitável entre o mundo interno e o externo, na ténue linha que une a vida e a morte, sem fiadores na sua trajetória adolescente, Chris perde o fio de Ariadne que paradoxalmente integrou emocionalmente na sua trajetória de separação-reparação-tranformação.
ABSTRACT
The film Into the Wild is considered by the author a paradigmatic portrayal of adolescence. Taken as an oneiric narrative, this work intertwined the mythical dimension of adolescence as a labyrinthic passage, analysed through the metaphor of the Myth of Theseus and the Minotaur and the phantasmatic dimension of adolescence, defined as an “outbreak of the id”. This outbreak represents the integration of the sexual drive in a second moment where incest and parricidal fantasies now possess the necessary elements to be realized, later leading the adolescent to an a-posteriori resignification of the reactivated narcissistic and oedipal dimensions. The article follows the trajectory of the film, of the myth and of the adolescence, through three key moments: the entrance into the labyrinth of adolescence through resignification of the origin, the labyrinth and the battle with the minotaur-drive and finally, the exit from the labyrinth and from the adolescence through Ariadne's thread of emotional integration.
KEY-WORDS: adolescence; trajectory; labyrinth; film; applied psychoanalysis
FICHA TÉCNICA DO FILME:
Into the Wild
Realização: Sean Penn
Argumento: Sean Penn
Interpretação: Emile Hirsch, Hal Holbrook, Jena Malone, Kristen Stewart, Marcia Gay Harden, Vince Vaughn, William Hurt Duração: 148 minutos
Género: Drama
País: Estados Unidos
Ano: 2007