A autora a partir dos conceitos de Espaço Potencial, Área da Ilusão de Donald Winnicott e das concepções da importância da pele nas primeiras relações objectais de Esther Bick e do seu conceito de Segunda Pele e, também através da noção de Eu-pele de Didier Anzieu, cria a hipótese das tatuagens corresponderem a uma organização defensiva inconsciente do adolescente, face ao desequilíbrio interno que por vezes sente, de projectar para a superfície do seu corpo, na área potencial da pele, essa falha, sentindo-se assim por ela circunscrito e protegido.
Comunicação apresentada no XXVI Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: “Adolescência e Psicanálise”, realizado a 17 e 18 de Abril de 2015, em Lisboa.
Psicanalista, Membro Associado da SPP/IPA. E-mail: anacatarinaduartesilva@gmail.com
Este meu Eu tatuadoQue a mão do outroMe desenhaE na pele me cobreAconchega-meQuando dormeDentro de mim
A nossa autobiografia é também a história da nossa pele, da forma como fomos tocados, diz-nos o poeta Tolentino de Mendonça no seu livro: “A Mística do Instante”. São as experiências primordiais que organizam o nosso sentimento de ser. Para crescer e nos desenvolvermos, precisamos de ser amados e admirados sem condições ou constrangimentos, tal como diz o provérbio: “quem feio ama, bonito lhe parece”. A condição deste amor primário é incondicional, independente do objecto real em si mas da beleza do encontro, de uma melodia que toca ao sabor da reciprocidade de um olhar, pelo qual captamo-nos e nos sentimos captados pelo Outro.
La prima vez que ke te vidide tuz ojos me 'namori.D'akel momento te ami,Fina la tomba te amare.Aserkate mi kerida,salvadora de mi vida.Descubrite i avlame,dekretos de la tu vida.
Mas um Outro que à partida não existe, a não ser como uma extensão de si mesmo. É que o bebé cria o Outro para se ver a Si próprio como um espelho de si mesmo, emergindo em si, uma área potencial de ilusão, de Eu e Não Eu (Winnicott, D., 1971). O bebé através e por este espelhamento, por esta continuidade e estabilidade dos cuidados maternos que lhe são prestados (holding e handling), vai-se criando e diferenciando, desenvolvendo a noção de si e, também, a noção do Outro, de saber quem é e também de quem é o Outro.
“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,Mas porque a amo, e amo-a por isso,Porque quem ama nunca sabe o que amaNem sabe por que ama,nem o que é amar …Amar é a eterna inocência,E a única inocência não pensar…”
Estas primeiras experiências emocionais, centradas no plano dos 5 sentidos: visual, auditivo, táctil, olfactivo e paladar, permitem ao bebé desenvolver a noção de um Eu-Pele . Segundo este autor, a vida psíquica tem na base qualidades sensíveis, em que toda a função psíquica se apoia numa actividade corporal, actividade esta que transpõe o plano mental, em que a Pele é um órgão fundamental para o desenrolar deste processo.
Por outras palavras, este contacto -com+tacto - com esta sensorialidade, com a superfície do corpo, fazem com que o bebé distinga o dentro do fora, o interno do externo, o frio do calor, o agradável do desagradável, o conforto do desconforto e que crie uma noção de um Eu-Pele, que contenha estas primeiras experiências psíquicas.
Acrescenta-se que este Eu-Pele corresponde a uma estrutura que distingue o Eu Psíquico do Eu Corporal e, a partir daqui, constitui-se um Eu-Pensante, já mais capaz de representação e de simbolização das experiências emocionais. A Pele é pois o nosso órgão mais profundo…
Ainda, o prazer simultâneo em ver e tocar, faz com que a Pele seja, ao mesmo tempo, uma fonte e um objecto pulsional, uma fonte e objecto de desejo, considerando-se por conseguinte a Pele como o lugar onde se interligam objectos em que o mesmo objecto -a Pele - serve concomi- tantemente a satisfação de várias pulsões. (Ulnik, J., 2004).
E como não se toca antes de se olhar, o prazer que se tira quando se olha para uma coisa que depois até é uma parte de nós, leva a que estejamos a tomar como objecto da pulsão uma parte do nosso próprio corpo, do nosso Eu, mantendo-se assim uma organização narcísica…
Compreende-se deste modo, que as patologias da Pele se situem-se dentro das patologias narcísicas e das estruturas borderline (Anzieu. D., 1985).
“Tenho uma doença mental, tenho uma doença de pele. A pele é exterior, o cérebro é interior. Tenho um eczema, tenho uma psicose. Às vezes penso que a pele é interior e que os meus miolos estão à mostra como a mioleira de vaca no balcão do talho”
Dentro desta perspectiva da importância da pele no desenvolvimento psíquico, encontra-se o maravilhoso artigo de Ester Bick, psicanalista inglesa que se dedicou muito à observação da relação mãe-bébe, sobre a importância da Pele nas primeiras relações objectais precoces.
A autora, neste artigo, descreve a formação da pele psíquica como o primeiro objecto continente, introjectado a partir da comunicação primitiva mãe/bebé, que ocorre durante os primeiros cuidados corporais. Para Bick, o bébe nasce com a sensação de que os seus estados de alma e as suas partes do corpo, não têm entre si força de ligação para estarem unidas. Quem desempenha inicialmente esta função de ligação é a PELE. Através do colo, do cheiro e da fala da mãe, o bebé experiencia um sentimento de ligação e de contenção das suas diferentes partes da personalidade não integradas. Com a identificação a esta função contentora, a partir da interiorização da experiência emocional que o bébé tem com a mãe (com o objecto real), surge no bebé a noção de espaço interno e espaço externo. O bebé encontra-se agora preparado para as primeiras clivagens e idealizações entre self e objecto e assim, para a construção do self enquanto distinto do objecto.
Contudo, quando se observa um desajuste do objecto actual ou de ataques a este pela fantasia, falha esta primeira função, emergindo uma outra, a Segunda Pele. A Segunda Pele surge como a criação de um objecto substitutivo da dependência ao objecto primário, como uma formação defensiva, uma protecção muscular com todas as funções mentais correspondentes de comunicação.
A Segunda Pele constitui-se pois como uma estrutura psíquica pseudo-independente uma vez que acredita, que através do uso inapropriado das funções mentais ou de talentos inatos, cria um substituto a esta função contentora da Pele.
A PELE, liga o corpo como se da “alma” ligasse!
Na adolescência, o Corpo é vivenciado como um objecto de transformação, de transição porquanto denuncia a ruptura do equilíbrio entre o investimento nos outros e no próprio ser. O corpo, a imagem de si, tem por base uma questão afectiva, dependente da oscilação dinâmica dos investimentos de amor e ódio que nele se fazem. O Corpo surge deste modo como uma personificação, uma alternativa à ausência de alguém a quem dirigir os impulsos de amor e ódio, podendo por vezes haver um retorno a si de comportamentos agressivos, testemunhos desta complexa relação específica com o Corpo.
Assim, o Corpo pode constituir-se como o reflexo das transformações psíquicas e trai o que se mostra no interior e que o adolescente deseja ocultar (muitas vezes o próprio corpo sexuado).
Na atitude provocatória que o caracteriza, o adolescente ao provocar descontentamento no Outro, põe fora o que lhe vai dentro e a rejeição que por vezes sente em si, é transferida para o Outro; já não é o próprio que se olha de forma negativa, mas o Outro que olha.
O adolescente consegue então viver com esta rejeição que é sua mas, que é posta no Outro. É a paradoxalidade da adolescência! É uma das formas que encontra para conseguir lidar tranquilamente com as constantes modificações a que o processo adolescente o obriga!
O Corpo é um limite com função de estabilizar os estados flutuantes do adolescente em que tudo muda na base de uma constante: o Corpo que é meu, em que o Eu-pele é o envolvente protector de todas estas variações
e corresponde à ordem do fantasma, do simbólico, de alguma coisa que age no Corpo.
No entanto, o Corpo é também um corpo social, um veículo de estar no mundo, um suporte de um discurso social de ser diferente dos outros mas ao mesmo tempo igual a eles, como por exemplo a moda e as tatuagens, no sentido da procura de uma igualdade tranquilizadora que sustente esta diferença!
O Corpo adolescente reveste-se agora de uma nova “Pele”. Procura o Outro que o reconheça: O meu corpo não escolho mas, o que lhe ponho, SIM! Por vezes, quanto mais insatisfeito com o meu corpo, mais o mostro sem o querer. Novamente a paradoxalidade da adolescência: quero que os outros me leiam, me admirem, pelo inverso daquilo que mostro.
Entramos aqui no tema: TATUAGENS!
O adolescente, porque faz parte do seu desenvolvimento questionar os limites e as ligações mais primárias, na ausência de uma relação forte e firme que dê cobro à instabilidade e desequilíbrio emocionais provocadas por ele mesmo, inscreve no Corpo essa marca.
Ao não se sentir olhado pelo Outro, ao não se sentir reconhecido pelo olhar do Outro, ao se sentir vulnerável na sua dependência do amor do outro que não o olha, retorna a si (Freud e o Narcisismo Secundário) e inscreve essa marca no Corpo - o símbolo fica agora inscrito no lugar desse Outro que não olha. Projecta para a superfície do seu corpo essa falha, essa ausência, essa carência. Podemos pensar aqui na utilização do Corpo como uma área transicional, de ilusão entre o Eu e o Não-Eu, no sentido de Winnicott, emergindo o sentimento de que a parte de si projectada e tatuada na superfície do corpo corresponde a um Outro separado e distinto de si que o limita e securiza. Através desta nova imagem o adolescente é pelo Outro reconhecido e reconhece-se a si.
No entanto, ao se tatuar, o adolescente cria uma nova dependência: A DO CORPO. Porque há uma satisfação pulsional em se tocar e se olhar, porque este procedimento alimenta o seu narcisismo, o seu amor próprio, a tatuagem pode funcionar também aqui como uma Segunda Pele; uma forma inconsciente de se organizar defensivamente, uma maneira pseudo-independente de marcar a sua própria independência pela qual se sente olhado, admirado e preenchido neste seu ser esvaziado de si.
A tatuagem trata da construção de uma narrativa interna posta no meu Eu à superfície de mim, num desdobramento de mim cá para fora. A tatuagem é, qualquer coisa que me transborda e mapeia esta minha nova pele, que me recria e que me acompanha nesta nova descoberta de mim, através do Outro que desvende este véu com que me revesti.
A tatuagem corresponde então a um a inscrição simbólica na Pele de uma falha na capacidade mental de conter, articular, integrar as emoções, decorrentes das alterações corporais e consequentes alterações psíquicas, em que o corpo trai ao invés de proteger as emoções que quer manter ocultas. (Jeammet, P., 2002)
As tatuagens, se por uma lado denunciam a estranheza em que vivem os adolescentes oriunda deste Corpo desconhecido, também ajudam a controlar os impulsos e os desejos que emanam deste corpo em transformação. Ainda, constituem-se como uma afirmação perante os pais que o Corpo é seu, que são donos e senhores do seu próprio Corpo e que a decisão, a responsabilidade pelo Corpo, é sua!
O Corpo, é agora, simultaneamente meu e um estranho em mim que me olha e me reconhece. A ele admiro, por ele sou admirado.
As tatuagens correspondem a uma forma criativa de superar e ultrapassar a confusão em que o Adolescente se sente - os desígnios da adolescência, como o poema do início tão bem nos diz.
A Adolescência constitui-se como um trabalho de integração e de articulação entre passado, presente e futuro, entre o que foi, o que é e o que há de vir a ser. No entanto, corre o riscode não ter sido, de não ser e de não chegar a ser!
«Nunca tive infância, nem adolescência, nem portanto idade viril a que chegasse. Sou o negativo absoluto, a encarnação do nada. O que se deseja e se não pode obter, o que se sonha porque não pode existir nisso está meu reino nulo e aí está assente o trono que me não foi dado. O que poderia ter sido, o que deveria ter havido, o que a Lei ou a Sorte não deram atirei-os às mancheias para a alma do homem e ela perturbou-se de sentir a vida viva do que não existe. Sou o esquecimento de todos os deveres, a hesitação de todas as intenções. Os tristes e os cansados da vida, depois de levantados da ilusão erguem para mim os olhos, porque eu também, e a meu modo, sou a Estrela Brilhante da manhã. E há tanto tempo que o sou! Outro me veio substituir (…)”
ABSTRACT
The author brings together the Winnicottian concepts of the Area of Illusion and Potential Space, and Bick's formulations about the importance of the skin in the early relationships with objects, namely the idea of the Second Skin. By adding these ideas to the concept of Skin-Ego, the author has created the hypothesis that tattoos can be a type of Second Skin, an unconscious defensive mechanism which the adolescent uses when s/he projects his/her inner worries onto the potential area of the surface of the body – the skin.
KEYWORDS: Ilusion Area, Potential Space, Skin-Ego, Adolescence, Body, Tattoos, Second Skin