Neste artigo tentamos realçar a importância da compreensão psíquica do conceito de funcionamento fóbico que encontramos na relação psicanalítica, especificamente com certos pacientes com patologia do narcisismo, borderline e, com frequência, em situações traumáticas. Procurámos com estes pacientes aprofundar um aspeto importante desta investigação clínica, que é a análise da qualidade psíquica do encontro e da ligação entre as duas mentes da dupla analítica. Encontro, que na “posição fóbica central” (Green, A., 2000), funciona como um bastião defensivo que dificulta a transferência e matiza o campo analítico pela qualidade dos objetos internos, que foram vividos como dececionantes, abandónicos e naturalmente sentidos como traumáticos. Nestas circunstâncias podem surgir alguns impasses, na sequência das dificuldades que a dupla analítica vive, face à impossibilidade de pensar simbolicamente o estado da relação, surgindo assim uma aridez representacional onde a capacidade de rêverie é escassa.
A psicanálise tem, ao longo dos anos, investigado certos estados do funcionamento da mente (Laufer, M. e Laufer, E., 1989) de pacientes que, na relação psicanalítica, se refugiam numa posição fóbica, desencadeando uma paralisação do desenvolvimento psíquico, com consequências manifestas para a dinâmica do campo analítico que se organiza e se constrói através da relação transferencial e contratranferencial. Pretendemos analisar, especificamente neste trabalho, certos funcionamentos ou organizações fóbicas, que nascem da própria dinâmica da relação psicanalítica, mas não abordaremos, naturalmente, o conceito psicopatológico das estruturas fóbicas. Falaremos do funcionamento fóbico, que nasce e se torna explícito na dinâmica do campo analítico através da transferência e contratransferência e que se apresenta frequentemente em diferentes patologias como o narcisismo, estados limite ou em situações traumáticas.
Este funcionamento fóbico que pretendemos abordar imobiliza a dinâmica da relação do campo analítico, e daí resultam configurações de diferentes e variadas formas que se exprimem na clínica psicanalítica. Podem caracterizar-se pela qualidade das relações objetais que se apresentam como se estivessem paralisadas, como se fossem vazias ou como se estivessem escondidas ou abrigadas em refúgios internos de difícil acesso. Nestas circunstâncias, o campo da dinâmica da relação analítica é invadido por mecanismos de defesa de evitamento, de projeção e de negação atrás dos quais se escondem intensas angústias, que parecem estarem ancoradas em fantasias de morte e de “aniquilação” (Klein, M., 1945). Estes pacientes, que têm um funcionamento fóbico, apresentam profundas falhas narcísicas que se manifestam por sentimentos de desamparo, por se sentirem perdidos por caminhos que parecem não ter fim. Este desamparo acompanha-os como se fosse uma sombra que está presente e contamina o espaço da dinâmica analítica. Desta forma, descrevem as suas angústias – sempre vividas longe do olhar e fora do espaço terapêutico –, como se fossem vistas
Artigo recebido em 11 de Janeiro de 2017 e aceite para publicação em 14 de Fevereiro de 2017.
Comunicação, apresentada no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, “Da Liberdade e do Medo”, em Abril de 2016.
Psicóloga clínica e da saúde, Psicoterapeuta e Psicanalista. Membro Titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanalistas (IPA), diretora da Revista Portuguesa de Psicanálise. e-mail:
através de um ecrã, mas dificilmente conseguem vivê-las no aqui e agora da dinâmica da relação analítica. Estes pacientes tornam-se uma espécie de mensageiros que trazem, metaforicamente, envelopes aparentemente vazios, que entregam ao analista e este, a partir deles e através da sua capacidade de rêverie, tenta imaginar e criar uma narrativa, encontrando conteúdos que possam dar um significado ao sofrimento mental que só pode ser vivido longe do olhar do outro.
Estes pacientes com um funcionamento fóbico trazem para as sessões as descrições das diferentes qualidades do seu sofrimento, das suas angústias, mas não conseguem vivê-las verdadeiramente no quadro da relação analítica. Tornam-se mensageiros do seu sofrimento e do seu desespero, mas evitam ser protagonistas da dor que esses sentimentos desencadeiam, na própria dinâmica da relação analítica. O analista confronta-se, a propósito destes pacientes, com duas configurações de pensamento: uma, que descreve um sofrimento fora do setting analítico e longe do seu olhar e outra, que no aqui e agora, observa e comenta a representação de uma vivência que ao narrá-la, a situa já no passado e não no presente. Este funcionamento fóbico, que não permite viver no aqui e agora da relação mas que se instala no interior da própria comunicação da dupla analítica, impede a vivência do próprio psiquismo, como descreve André Green (2000). O psicanalista, face a esta qualidade de comunicação, pode sentir-se levado, através das suas fantasias contratransferenciais, para fora do campo psicanalítico. A qualidade psíquica do encontro entre duas mentes que se interligam no espaço analítico – tema que se tornou, nos últimos anos, o centro de muitos trabalhos de investigação psicanalítica – mostra como o “estado da relação devido a uma aridez representacional torna a capacidade de rêverie escassa” e pode ser um dos problemas fulcrais da evolução do processo psicanalítico.
Desta forma, o setting analítico - constituído por um conjunto de regras e de atitudes que nascem do contrato terapêutico e que permitem a estabilidade e a confiança, que podem facilitar e possibilitar o estabelecimento do princípio da realidade sobre o princípio do prazer - pode ficar comprometido quando se tratam de pacientes com um funcionamento fóbico. A livre associação de ideias, que deverá surgir espontaneamente na mente da dupla analítica, através da verbalização, torna-se difícil nestes pacientes pois o poder verbal parece representar o que está ausente e distante, e o silêncio e o não dito parece interpretar o que está a ser vivido na dinâmica da relação. Nestas circunstâncias, a valorização da comunicação da linguagem não-verbal torna-se um instrumento de importância crucial para a compreensão da dinâmica do campo analítico. Com estes pacientes, a “atenção flutuante” perde, de algum modo, o seu verdadeiro sentido, pois a mente do analista fica impregnada do desejo de encontrar uma significação para uma escuta, que se organiza através de uma paradoxalidade: uma narrativa que descreve e tenta impor o que está fora do campo analítico e outra que se esconde e que está a ser vivida nesse mesmo momento. Como interpretar este funcionamento fóbico que ataca ou desfaz os elos das ligações psíquicas entre a vivência da dinâmica psicanalítica, no aqui e agora da relação, daquela que é vivida à distância e longe do olhar do analista? André Green (2000), a propósito de um artigo sobre a posição fóbica central, mostra como este funcionamento pode instalar-se na própria comunicação da dupla analítica e impedir a implementação da relação no psiquismo. O analista interroga-se, nestas circunstâncias, sobre as características do funcionamento associativo destes pacientes durante a sessão porque se apresentam como se tivessem uma perturbação do pensamento, ou como se não conseguissem fazer as ligações ou pontes entre o que ocorre fora e dentro do espaço analítico. Mas o que entendemos por posição fóbica central aplicada à clínica psicanalítica?
Este conceito, descrito por André Green (2000), foi criado para poder representar uma disposição psíquica de base – refere-se à organização de um conjunto de qualidades de relações objetais, de defesas e de ansiedades –, com características de um funcionamento mental fóbico que se encontra na cura de certos estados limites. Na nossa experiência, como psicanalista, estamos de acordo com este conceito da posição fóbica que encontramos com uma certa frequência em estados limites, mas também em situações de fragilidades narcísicas e, sobretudo, em situações traumáticas. Nestas circunstâncias pode aparecer no processo analítico um “núcleo de encontro e de cruzamento de diferentes linhas traumáticas” (Green, A., 2000) que dificulta as associações livres na relação transferencial. Nestas circunstâncias podemos então interrogar-nos quais as consequências destas dificuldades de funcionamento fóbico na clínica analítica e psicoterapêutica?
Para responder a esta questão, por nós colocada, podemos debruçar-nos sobre os efeitos que tal funcionamento fóbico tem na construção do processo psicanalítico. As maiores dificuldades que se colocam ao analista ou psicoterapeuta são aquelas que se ligam à impossibilidade do paciente se permitir, na relação analítica, sentir-se capaz de organizar o seu pensamento através da associação livre. Com estes pacientes, o discurso vem preparado para a sessão e a experiência psíquica dos acontecimentos narrados são vividos sempre fora do setting analítico. Os afetos descritos e
vividos estão frequentemente à distância da sessão. A proximidade do analista pode ser sentida como persecutória e evasiva. Por vezes estes pacientes, ao manterem-se à distância do campo psicanalítico, vão configurar uma defesa contra os elos de ligação em relação aos seus objetos internos, que podem ser vividos e representados na transferência analítica. Assim, por receio das suas pulsões destrutivas e de uma imaginária retaliação, estes pacientes tentarão viver a transferência negativa fora do espaço analítico.
Através da compulsão de repetição, os pacientes retomam até ao infinito, na sua narrativa, as mesmas histórias, as mesmas situações, os mesmos fantasmas que se apresentam com um denominador comum, o desejo de se queixar dos sentimentos de humilhação, reproduzindo os repetidos abandonos, as permanentes incompreensões que minam a sua autoestima e desencadeiam um afeto depressivo. André Green (2000), a propósito destes casos com um funcionamento fóbico, assinala a extrema dificuldade que estes pacientes têm nas sessões para poderem restabelecer a integridade da atividade associativa, uma vez que aparece, com frequência, uma rutura da continuidade do fluxo do pensamento. O analista ou psicoterapeuta, face a estas circunstâncias, tem a sensação que perde uma visão completa e integrada da situação da dinâmica analítica e contratranferencialmente pode sentir-se estranho em relação ao paciente.
Também com estes pacientes encontramos dois movimentos psíquicos que se interligam entre si. Por um lado, uma culpabilidade imensa que faz um apelo à contínua reparação que nasce da pulsão de morte em relação aos objetos vividos como abandónicos. Por outro, tenta provar que os objetos a que estão profundamente ligados não têm valor e, por isso, através da sua fantasia omnipotente, podem ser substituídos e destruídos em qualquer momento. Esta situação clínica é particularmente visível em situações de patologia limite onde os pacientes tentam provar a si próprios e aos outros que o objeto pode ser destruído e substituído a qualquer momento, como se não tivesse valor e interesse. Estes pacientes, como vários analistas descrevem, têm uma tendência a deixar um traço de vazio da sua presença na sessão analítica.
Alguns psicanalistas, nos seus trabalhos de investigação clínica, têm mostrado perplexidade em relação ao facto destes pacientes terem reações excessivamente intensas e desproporcionadas face a situações do quotidiano, aparentemente normais e adequadas à situação narrada. Essas reações são mobilizadoras de aspetos dos processos psíquicos, sobretudo do trabalho do negativo que, na prática clínica, chamamos de conteúdo latente, em contraponto com o conteúdo manifesto, “que se encontra nos limites da representação como resultado do efeito do inconsciente por um lado e por outro, dos aspetos destrutivos da mente” (Alexandre, M.F., 2014). Como é que estes aspetos destrutivos da mente se fazem sentir na clínica psicanalítica?
Para ilustrar este funcionamento fóbico que encontramos na clínica, tentaremos descrever alguns aspetos da dinâmica da relação, com um rapaz de vinte e cinco anos que procurou o processo psicanalítico para encontrar um apaziguamento interno. Este jovem licenciado vivia de trabalhos esporádicos e mantinha-se financeiramente através de apoios familiares. Procurou o processo psicanalítico na sequência de um desconforto interno, com tonalidades depressivas, que se arrastava há anos e que se caraterizava por dificuldades em implicar-se nas situações de trabalho e nas relações de intimidade amorosa. Parecia estar com sinceridade nas relações familiares e de trabalho mas sentia-se sempre distante nas relações com as pessoas com quem convivia. Arranjava trabalhos sempre com características provisórias e relações amorosas em que se sentia longe da relação.
Inicia uma sessão no princípio da semana falando da sua ausência na consulta anterior. De uma forma seca, precisa e breve onde parece não haver emoção, diz: “não vim, não tive tempo”. Seguiu-se um curto silêncio que foi balizado pela nossa contratransfêrencia e em que tivemos o sentimento de que estava a viver um afeto ligado a uma culpa por ter faltado à última sessão e não nos ter dado nenhuma justificação. Em tom crispado transforma o sentimento de culpa, que lhe é difícil ser representado, num ataque violento aos seus amigos e colegas mais próximos, desvalorizando-os, diminuindo-os e projetando neles tudo aquilo que detesta em si – a passividade, a paralisação, a dificuldade de ser criativo, o desnorte em que se sente devido ao sentimento de não ser capaz de encontrar um rumo para a vida. Após um longo espaço de tempo da sessão, em que através de identificações projetivas coloca nos amigos as suas próprias inquietações, limites e paralisações internas, faz um silêncio. Nesse curto silêncio –.que sentimos não nos dar espaço para interpretar – vivemos um afeto de culpa como se nos atacasse e dissesse que eramos responsáveis por esta paralisação interna e consequente sofrimento. Em seguida, associa diferentes episódios passados com amigos e familiares mas que tinham um denominador comum – o sentimento de ser humilhado, desvalorizado e atacado –, continuando a queixar-se que as pessoas mais importantes da sua vida não estiveram verdadeiramente com ele. Identifica-se como uma pessoa solitária e distante e que não se sente reconhecido pelas
pessoas próximas incluindo, – segundo a minha contratransferência – a sua analista.
Esta narrativa dramática é descrita como se situasse fora do processo analítico e ficássemos com o sentimento que o protagonista daqueles sentimentos não era a pessoa que os narrava, mas alguém que não podia ali estar presente. A descrição de todos estes afetos dolorosos, enumerados de uma forma estranha, como se não lhe pertencessem e fossem vividos por alguém que vive num outro mundo. Contratransferencialmente, ficámos com o sentimento de que, com estes pacientes, os afetos só podem ser nomeados quando distantes do olhar e do pensamento do analista. Este funcionamento fóbico desencadeia, ao nível contratransferencial, o sentimento de incapacidade e, sobretudo, de incredulidade, porque descreve afetos intensos que parece não foram vividos pelo paciente que esta ali presente
Estes pacientes, com um funcionamento fóbico, não conseguem reproduzir na transferência o reconhecimento da sua verdade interna, que muitas vezes se apresenta matizada pela qualidade dos objetos primários, que foram vividos como dececionantes, abandónicos ou traumatizantes. A intensidade destes afetos é tão violenta que estes pacientes, por receio de destruir os objetos internos, retiram-se evitando representá-los, através na relação psicanalítica. Desta forma, estes pacientes que se retraem ou que se escondem num sistema defensivo apresentam um difícil acesso emocional, levantando problemas técnicos sobretudo no manejo da transferência e da contratransferência. Como podemos explicar estes estados regressivos da mente?
Estes estados regressivos, que têm sido ao longo dos anos uma fonte de investigação clínica, mostram como o estado da mente de certos pacientes se retrai do contacto com a realidade, retirando e fechando-se sobre si mesmos, evitando assim as relações de proximidade ou de intimidade (Joseph, B.,1975, 1992; Rosenfelt, H.,1964; Steiner, J., 1993, 2011). Como tivemos oportunidade de referir num trabalho anterior, esta retirada psíquica é caracterizada “por um poderoso sistema de defesas narcísicas que nascem da luta contra as experiências traumáticas ou destrutivas” (Alexandre, M.F, 2007).
A experiência da transferência é caraterizada por uma forma de viver, na relação analítica, as diferentes qualidades das relações objetais. Ora, certos pacientes, como refere Steiner (2011), são vulneráveis aos sentimentos de humilhação quando observados pelos outros. Como constatámos, parece que a superioridade e a inferioridade estão presentes nestes pacientes que se sentem olhados e que tentam, na relação analítica - como verificámos na primeira parte da sessão do caso anteriormente apresentado -, colocar-se numa posição de superioridade, projetando simultaneamente os sentimentos de inferioridade na dinâmica da relação analítica. Nestes pacientes, como certos autores descrevem, a experiência de contacto pode ser sentida como uma humilhação. Preferem pensar que ali não estão e, assim, não experimentam a dinâmica da relação analítica que pode ser sentida como ameaçadora.
A propósito desta questão, Bollas (1999) descreve num dos seus artigos um caso clínico que tinha um padrão da relação que era marcado por experiências de aproximação e de afastamento, e que toda a mudança era sentida como maligna e devastadora. Acrescenta que estes pacientes, enquanto crianças, desenvolvem uma relação de natureza mutativa face aos acontecimentos. Com estes pacientes “o idioma pessoal” (Bollas, C.,1999), ou seja, o sistema que constitui um instrumento de comunicação, é conhecido mas não pode ser pensado, constituindo assim, segundo o autor, o âmago do indivíduo. Como tivemos ocasião de referir num trabalho anterior, “estas experiências não pensadas nem sempre são fáceis de contactar ou representar (…) e por vezes espreitam por detrás do conteúdo manifesto ou escondem-se através de uma dissociação, de angústias persecutórias (…), e por vezes essas experiencias pairam algures e interferem na dinâmica da relação que se sente evadida pelo desconhecido e por um perigo que não tem nome” (Alexandre, M.F., 2014).
Com estes pacientes encontramos, por vezes, na dinâmica da relação analítica, questões relacionadas com diferentes qualidades de silêncios. Podem ser figurabilizados, - como se de um forte sentimento de distância ou de difícil compreensão se tratasse -, de modo que o paciente não se permite ser tocado pelos afetos que circulam na dinâmica da relação. Como descreve Salman Akhtar (2012) a propósito do “silêncio não mentalizado” em que os pacientes ficam sem ideias e parecem enfrentar – confusos e perdidos – o abismo da ausência de palavras. Diferentemente do “silêncio defensivo”, que aparece espontaneamente como resposta à emergência dos desejos e fantasias inaceitáveis como a culpa, a vergonha e o medo da retaliação. Nestas circunstâncias o silêncio surge como uma defesa da emergência de fantasias inaceitáveis que desencadeiam ansiedade e sentimentos transferenciais de vergonha e de hostilidade da parte do paciente face ao analista. Estes pacientes com um funcionamento fóbico escondem-se por detrás de um manto de invisibilidade verbal (Akhtar, Salman., 2012) e frequentemente são silenciosos ou falam de uma forma parca de maneira a defenderem-se das suas angústias de morte, ou uma maneira de paralisarem o pensamento do analista. Estes silêncios, como
o anterior autor assinala, podem ser vistos como enactements que refletem uma autoproteção, identificações projetivas importantes, reversões de cenários infantis traumáticos, ataques aos vínculos e destrutividade direcionada ao processo psicanalítico ou psicoterapêutico. Com estes pacientes, muito difíceis, o campo analítico pode ser evadido pela ausência de palavras ou por um retraimento narcísico que dificulta a compreensão dos elos de ligação entre o analista e o paciente. Desta forma, podem levantar-se questões em relação às qualidades das transferências e das contratransferências, com os subsequentes problemas técnicos e clínicos que surgem, naturalmente, nestas circunstâncias.
Tentámos neste trabalho realçar a importância da compreensão clínica deste conceito de funcionamento fóbico, que encontramos na dinâmica da relação psicanalítica de certos pacientes com patologias narcísicas ou limites e em situações traumáticas de difícil elaboração psíquica. A compreensão da dinâmica deste conceito facilita, naturalmente, o desenvolvimento do processo analítico com estes pacientes que levantam sérias questões teóricas e técnicas em relação à dinâmica da dupla analítica. Nestas circunstâncias, o foco mais importante da investigação clínica é a análise da qualidade psíquica do encontro e da ligação entre as duas mentes da dupla analítica. Encontro, que na “posição fóbica central” (Green, A., 2000), funciona como um bastião defensivo, que impede na transferência, o reconhecimento da sua verdade interna. É verdade que, estas situações clínicas, estão matizadas pela qualidade dos objetos internos que foram vividos como dececionantes, abandónicos e naturalmente sentidos como traumáticos. Nestas circunstâncias, podem surgir alguns impasses, na sequência das dificuldades que a dupla analítica vive, face à impossibilidade de pensar simbolicamente o estado da relação, surgindo assim uma aridez representacional onde a capacidade de rêverie é escassa.
Estes pacientes que têm um funcionamento fóbico dificilmente vivem o aqui e agora da relação e sistematicamente, metaforicamente, retiram-se para um espaço distante onde podem evitar as fantasias de aproximação porque geralmente, tal situação, evoca angústias claustrofóbicas. Com estes pacientes as mudanças psíquicas podem ser sentidas como inquietantes e, por vezes, refugiam-se em silêncios que funcionam como enactements que refletem uma autoproteção.
ABSTRACT
In this article we try to highlight the importance of the psychic understanding of the phobic functioning concept that we find in the psychoanalytic relationship specifically with certain patients with narcissistic and borderline pathology and frequently in traumatic experiences. With these patients we have tried to expand an important aspect of this clinical research, which is the analysis of psychic quality of the encounter and the connection between the two minds of the analytical relation. In the “phobic central position” (Green, A., 2000), the encounter acts as a defense stronghold that hinders transference and the analytical field is shaded by the quality of the internal objects, which were experienced as disappointing, abandonic and naturally felt as traumatic. A few deadlocks may arise under these circumstances, following on from the difficulties that the analytical relation experiences given the impossibility of symbolically reflecting on the status of the relationship, thereby leading to a representational aridity where the capacity to dream is scarce.
KEYWORDS
Analytical field relationship
Phobic functioning
Representational aridity, “Central phobic position”