A partir da constatação de que o desenvolvimento acelerado da tecnologia digital tem imprimido drásticas mudanças na cultura contemporânea, nomeadamente, no acesso imediato a uma informação globalizada e nos modos de comunicação interpessoais, a autora analisa a influência que essas mudanças têm na vida subjectiva dos jovens e no seu desenvolvimento psíquico. Com base na ideia da importância do objecto para a organização do pensamento e da subjectividade, e a partir de alguns exemplos da literatura, são discutidas as repercussões que os modos de apreensão da realidade através do mundo virtual podem vir a ter em áreas do funcionamento mental, como a aquisição da autonomia, a sexualidade, simbolização e o sentimento de identidade.
Por fim, a autora interroga-se sobre a forma como os profissionais de saúde mental e os psicanalistas encaram os seus diagnósticos e as suas intervenções nos dias de hoje.
O desenvolvimento acelerado da tecnologia digital tem imprimido profundas mudanças nos hábitos de vida, nas mentalidades, no acesso ao conhecimento, na rapidez com que se estabelece a comunicação interpessoal, mas também na qualidade das relações. Poderíamos mesmo afirmar que virou do avesso toda a cultura, em que nós, os chamados “imigrantes digitais”, crescemos, aprendemos e fomos educados. Nós conhecemos e contactamos diariamente com essa realidade e com a rapidez vertiginosa das inovações que, bem ou mal, vamos aceitando e integrando. Aproveitamos o que de melhor nos traz, mas sem que os alicerces da nossa estrutura psíquica sejam dramaticamente abalados.
Situações diferentes são aquelas em que o uso da tecnologia se tornou uma forma de dependência, pela psicopatologia pré-existente. A. Lemma cita estudos em que parece claro que determinados factores psicológicos estão associados a um uso excessivo da internet, tal como a solidão, a baixa autoestima, a timidez, a ansiedade social. A realidade virtual evitaria o confronto com essas dificuldades (Lemma, 2014).
O problema põe-se de forma diferente para os “nativos digitais”, os jovens que nasceram e estão a crescer no séc. XXI, para quem a internet é tão natural como o ar que respiram, e os dispositivos digitais são tão indispensáveis que quase funcionam como extensões do próprio corpo, indissociáveis do sentimento do self e da sua identidade própria (Turkle, 2011).
Na verdade, e citando o jornalista Paulo Moura (Moura, 2015), “estes jovens já não vão à net. Eles estão em permanência na net, através dos portáteis, smartphones, das redes wi-fi que, sem deslocações nem gastos, lhes dão acesso a uma informação sem limites, sem filtros nem validação”, onde a “liberdade é uma evidência e a privacidade uma noção cada vez mais longínqua”, e em que “as diferenças entre o mundo real e o mundo virtual estão cada vez mais esbatidas”.
Por outro lado, importa não esquecer que a condição de não termos crescido a usar a internet“, como os jovens actuais, e de sofrermos esta revolução à qual nos temos de adaptar, influencia certamente o nosso julgamento e a nossa atitude profunda em relação às novas tecnologias. Com esta ressalva, há algumas questões que vale a pena discutir.
Uma das questões que se coloca prende-se com a influência que as mudanças no acesso
Artigo recebido em 8 de Abril de 2017 e aceite para publicação em 1 de Julho de 2017.
Psiquiatra da Infância e da Adolescência. Psicanalista. Membro Titular com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Presidente da Comissão de Ensino da SPP. e-mail: mjoségonçalves@sapo.pt
imediato e sem filtro à informação e os modos de comunicação têm na vida subjectiva dos jovens, no seu desenvolvimento e no seu crescimento. É importante compreender se essas mudanças respondem a necessidades evolutivas e emocionais, e se assim for, a quais respondem. Teremos ainda que perceber o que se mantém inalterado e se as bases em que assenta a estrutura do nosso aparelho psíquico continuam a ser as mesmas. Assim como, quais os aspectos da vida psíquica que se apagam, não se desenvolvem, ou que são mascarados por comportamentos de pseudoeficácia que escondem falhas narcísicas e relacionais e não permitem tomar contacto com o verdadeiro self.
Concordo com P. Fonagy (Fonagy, 2014) quando considera que o inconsciente e o sistema pulsional ligado à agressividade e à sexualidade, assim como o sistema ligado à vinculação, sistemas esses que operam como motivadores da construção de uma identidade própria, não sofrem grandes mudanças. Também não me parece que o conflito psíquico, o conflito interno, as representações mentais dos objectos internos e os mecanismos de defesa percam o seu lugar na arquitectura psíquica.
Contudo, na realidade, há mais impulsividade, mais acção, mais percepção e menos pensamento. Os mecanismos de defesa mais frequentemente usados são mais primitivos, como a clivagem, a denegação, as identificações adesivas. Eventualmente, haverá menos recalcamento, e menos deslocamento. Há menos tolerância à frustração, à espera, à incerteza, mais exteriorização e menos interioridade.
Estas questões não podem deixar de interrogar os profissionais da saúde mental sobre os seus diagnósticos e sobre as suas intervenções.
V. Bonaminio (Bonaminio, 2014) afirma que o espaço psíquico não está a desaparecer, mas que se estará a transformar. Ou seja, que os terapeutas terão de estar preparados para encontrar nas invariantes do aparelho psíquico, as novas manifestações clinicas, e não aplicar os velhos conceitos diagnósticos ou de indicação terapêutica, o que significa, não negar a interioridade psíquica, a essência da dor mental, mas olhá-la com os referentes culturais da nova geração. Refere este autor que entre a tendência dos clínicos excessivamente modernos para “des-patologizar” e a tendência para “hiperpatologizar” dos excessivamente antiquados, há uma “margem de manobra estreita”, cujos perigos temos que evitar.
É uma tarefa difícil, porque sem as necessárias competências técnicas, estamos relativamente “impreparados” para abordar estas novas realidades que se traduzem numa nova cultura que imprime novas formas de socialização e de apreensão de conhecimento. As necessidades relacionais e identitárias do processo da adolescência mantêm-se, mas configuram-se de forma diferente.
No artigo do jornalista acima citado , é referido um jovem que madrugada adentro tem dois monitores abertos ao mesmo tempo, um com um jogo (o League of Legends ou o Minecraft), outro com o Skype dividido em cinco chamadas simultâneas, onde comenta o jogo com os amigos, além do facebook, os sms e eventualmente a Playstation.
Ou ainda o adolescente que, na experiência de V. Bonaminio (Bonaminio, 2014), vem a uma consulta e enquanto fala com o psicoterapeuta está simultaneamente a receber ou a enviar mensagens. Ou ainda aquele que entra no gabinete de consulta e sem qualquer rotura com a realidade nos fala do seu dia. Esteve a conversar com alguém que na realidade pode ser só um perfil, que fez uma marcação para um jogo on-line, que adquiriu terreno no Second life para fazer uma construção, que esteve a ver o seu e-mail, o facebook, e a ler reflexões diárias de Fringuelo, uma alcunha de alguém que não conhece e não sabe se é apenas um perfil.
Mas voltemos à nossa questão, e tentemos compreender as influências que têm estas mudanças na vida subjectiva dos jovens, no seu desenvolvimento e no seu crescimento. Teremos de ter presente que o uso da tecnologia e os seus efeitos no desenvolvimento infantil passa, antes de mais, pelo uso que os pais fazem dessa mesma tecnologia e como essa disposição parental interfere nas relações familiares e, mais concretamente, nas relações dos pais com as crianças.
C. Bjorklind (Bjorklind, 2014) apresentou num Simpósio, organizado pela FEP, com o título “Psicanálise em 2025”, um exercício em que descrevia o eventual percurso evolutivo de uma menina, a quem chamou Ana, que teria nascido numa pequena cidade do sul da Suécia. Os pais da Ana, tal como todos os outros pais, de agora e de antigamente, estavam encantados com a bebé. Mas alguma coisa os distinguia dos pais de outros tempos. Era uma particularidade que, aliás, preocupava as enfermeiras das maternidades suecas. Os pais traziam os seus smartphones e passavam a maior parte do tempo a tirar fotos aos bebés para “postar” nas redes sociais, com prejuízo do contacto visual e físico.
Não vou aqui falar da importância do contacto pelo olhar do contacto pele a pele, dos vocalizos mútuos para a organização da relação com o objecto primário e do narcisismo, de que todos estamos conscientes.
Ana é de facto uma nativa digital que, através dos pais, desde o nascimento, teve um contacto imediato e intenso com o mundo virtual.
Em casa, os pais eram muito carinhosos, ocupavam-se dela adequadamente, davam-lhe muita atenção, brincavam, cantavam para ela, liam livros e também se ocupavam das tarefas domésticas habituais. Mas, para além disso, os
pais estavam sempre ligados à internet ou à TV (Bjorklind, 2014).
É verdade que os pais de hoje em dia, e com as novas tecnologias, estão “programados” para as multi-tarefas e para não perder tempo. Tratar de um bebé pode provocar sentimentos de inutilidade e de aborrecimento ou dar lugar a pensamentos angustiantes que se desejam evitar. Com o acesso instantâneo à internet, televisão ou ao smartphone, as mães facilmente afastam esses pensamentos incómodos.
Mas, desta maneira, a “rêverie” materna não é activada e os pensamentos negativos não se elaboram nem se transformam no contacto com o corpo e na observação do estado de espírito do bebé. Perde-se assim uma oportunidade de reforçar o vínculo afectivo mãe-bebé, de tirar partido de um contacto íntimo e próximo, e diminuem-se as possibilidades de os bebés receberem os sinais do impacto que têm nas mães. De algum modo, a interacção, embora adequada do ponto vista comportamental, torna-se menos rica afectivamente.
Mais tarde, esta dispersão parental poderá agravar o sentimento de isolamento e de desvalorização de que muitos adolescentes sofrem.
S. Turkle, no seu livro Alone, Together (Turkle, 2011), refere o relato de uma jovem adolescente de 16 anos. Quando a mãe a vai buscar à escola, Audrey imagina que a mãe está desejosa de encontrar a filha e que não trouxe o seu telefone. Mas ela sabe que isso nunca vai acontecer. A mãe está sempre ligada ao telemóvel. O que acontece na realidade é que Audrey, com uma mochila pesadíssima às costas, entra no carro e a mãe nem olha para ela e arranca de imediato. Diz a jovem “chegam a passar 4 dias sem que eu consiga falar com ela”.
Por sua vez, Audrey, tal como a mãe, nunca se separa do seu telemóvel e prefere mandar mensagens a telefonar aos amigos. “Num telefonema diz-se mais do que se quer, é muita pressão, é preciso manter a conversa, as coisas podem ficar fora de controlo”. “Na mensagem mantém-se uma distância mais segura, diz-se só o que se quer e podemos nem responder”. Mas além disso, é-lhe difícil acabar um telefonema. É uma separação que ela sente como uma rejeição. Audrey é uma jovem tímida, que se sente muito só na família e que, no facebook, construiu um perfil de alguém muito mais sociável e sedutor, um avatar de si mesma, como ela gostaria de ser na realidade (Turkle, 2011).
Por enquanto, este ainda não é o caso de Ana, a menina sueca (Bjorklind, 2014). Antes dos 12 meses, Ana vê bonecos animados na televisão apropriados para a sua idade, e aprende muitas coisas novas. Aos 19 meses, depois de vir do infantário, brinca e usa o iPad. É uma criança feliz com quem os pais passam muito tempo, a brincar, a ler histórias, a dar-lhe mimos. Mas são os momentos mortos, os silêncios, tanto para ela, assim como para os pais, que são mais difíceis de suportar e que todos evitam.
Quando Ana tinha 3 anos, nasceu um irmão, e a disponibilidade dos pais diminui. Contudo, ela já não precisava de ajuda para ligar os seus programas favoritos na TV ou no youtube, e passava horas a vê-los. Com o seu iPad e o seu computador podia entreter-se completamente sozinha. Com os amiguinhos da escola repetia os episódios que viam em casa, mas de uma forma mimética, muito colada ao modelo, sem espírito criativo. Como passava muito tempo “ligada”, a verdade é que perdia o contacto com os pais e eles tinham muita dificuldade em restabelecer a comunicação com ela (Bjorklind, 2014).
Esta interactividade permanente deu-lhe a possibilidade de aprender muita coisa, mas sem contacto com as figuras de referência. Mas dar-lhe-ia a possibilidade de dispor de tempo para pensar e de criar o espaço de jogo necessário ao desenvolvimento da sua criatividade?
Se recorrermos ao pensamento de D.W. Winnicott (1971) sabemos que na sua concepção de criatividade, no início da vida, está o objecto. Num primeiro tempo, o objecto é experienciado como uma criação do recém-nascido mas, pela sua adaptação progressiva às necessidades de bem-estar da criança, progressivamente será visto como alguém com uma realidade própria e separada, facilitando o acesso ao simbólico.
Também S. Freud (1920) descreve o jogo das crianças como uma compulsão de repetição saudável que facilita à criança o acesso à simbolização. O celebrado jogo da bobine é disso um exemplo e evidencia a importância da relação de objecto como motor da criatividade. Numa primeira fase, o neto de Freud de 18 meses, quando a mãe se ausentava, começava a lançar objectos para qualquer lado (para baixo dos sofás, cantos da casa), acompanhando o jogo do som repetitivo, “oooo” (gone), reproduzindo, assim, o seu desaparecimento, como se através dessa repetição, tentasse controlar a sua experiência negativa e o seu desprazer/desamparo com a ausência da mãe e, por outro, agisse a sua zanga. Quando descobriu a bobina (um cilindro com um cordel enrolado), o jogo alterou-se e deu um passo em frente: ele atirava a bobine para longe, mas puxava-a com a corda alternando os “ooo” “gone” com “da” (there), reproduzindo e elaborando a experiência de separação. Assim, durante a ausência da mãe e através deste jogo, ele representava simbolicamente não só o desaparecimento, mas também o reencontro com a mãe.
Esta vinheta remete-nos também para as questões da aquisição da autonomia e da passagem da dependência à independência, bem como para o desenvolvimento da capacidade de estar só, que se vão adquirindo ao longo do crescimento, graças aos processos de internalização dos objectos primários.
A verdade é que Ana mantém e aprecia actividades variadas que os pais fazem com ela, mas não suporta 5 minutos de inactividade ou de espera, e exige que os pais lhe respondam imediatamente às suas perguntas (Bjorklind, 2014).
Aos 12 anos, Ana tem amigos, nunca se aborrece, mas a sua actividade social passa-se quase toda “on-line”, em frente a dois ou três écrans, e tem um estilo de vida muito pouco activo. O contacto social acontece a qualquer hora do dia, de manhã, à noite, no autocarro, na casa de banho. Conversa sobretudo com os amigos e segue no twitter os seus ídolos, escritores, e até Barack Obama. Consciente dos riscos da internet, passa horas a jogar jogos de computador e a viver uma vida ficcionada através do seu avatar (Bjorklind, 2014).
Outros adolescentes, entrevistados por P. Moura, confirmam esta necessidade de estar permanentemente ligados. “Sem a net, a vida seria completamente diferente. Uma vez a electricidade falhou, estivemos assim cinco horas sem saber o que fazer. Foi dramático”. “Foi o fim do mundo”, diz outro. Tanto mais que, diz ainda outro, “a net é preferível à realidade”.
Paradoxalmente, estes adolescentes, se por um lado têm um conhecimento geral mais abrangente do que as gerações anteriores e sabem usar a internet melhor que os tais “imigrantes digitais”, por outro, toda a informação a que têm acesso não é filtrada, estruturada nem organizada. Para ser compreendida, a informação precisa de ser pensada, sequenciada e interpretada e, provavelmente, só outra mente pode favorecer esse processo. Um processo a que eu chamaria de co-construção do conhecimento. Informação e conhecimento não são a mesma coisa e, portanto, alguma coisa se perde com a internet: saber usar a informação e com ela construir um saber que possa ser integrado na sua experiência com o outro.
É por isso que concordo com F. Guignard (2014), quando chama a atenção para o papel dos pais. É mantendo o interesse no que o mundo virtual oferece aos filhos e nas experiências que daí resultam que se pode evitar que se retirem da realidade externa e mergulhem na realidade virtual de forma compulsiva. O que é completamente diferente da forma como certos pais usam a tecnologia em detrimento do contacto com os filhos.
Aos 16 anos, Ana está avançada sexualmente e vê pornografia na internet com o namorado, embora sinta algum desconforto. Este desconforto é habitual nesta idade, mas a pornografia não será a melhor maneira de o resolver (Bjorklind, 2014).
Ver pornografia é uma actividade com um carácter intrusivo que não facilita a elaboração psíquica da emergência da sexualidade adolescente. O acesso fácil a actos sexuais explícitos, concretos, e a uma sexualidade com características perversas viola o espaço psíquico, inundando-o de uma carga de excitação que o aparelho psíquico do jovem adolescente ainda tem dificuldade em elaborar. Esta sexualidade agida, desobjectalizada e dessimbolizada, falha de sentido e de contexto interpessoal e intersubjectivo, não dá resposta adequada às questões que se colocam ao adolescente nesta fase da vida, nomeadamente às questões ligadas à identidade sexual, à desidealização parental e à escolha de novos objectos.
Em termos da psicossexualidade, como refere P. Fonagy (2014), não parece que a linha evolutiva pulsional, ou que os fantasmas primitivos, como sejam, a cena primitiva, a angústia de separação, ou de castração e a diferença dos sexos, sofram grandes alterações. Mas o confronto com cenas explícitas, sexualizadas, não deixam lugar para qualquer elaboração mais profunda. Talvez por isso os comportamentos sexuais dos adolescentes procurem cada vez mais a descarga e menos a intimidade e o prazer. Também a identidade de género parece estar cada vez mais volátil e menos consolidada.
Vejamos como este contacto intensivo com a realidade virtual, com as suas enormes potencialidades, mas também limitações no que respeita ao contacto com a realidade física e subjectiva do outro, em que os aspectos da comunicação intersubjectiva claramente não são experimentados ou, são mesmo evitados, interfere com o desenvolvimento psíquico e com o sentimento do self.
Nesta perspectiva, duas áreas parecem-me particularmente afectadas. Uma delas diz respeito aos processos de simbolização, a outra diz respeito ao estabelecimento de uma identidade sólida e do sentimento de coesão do self.
Ao seguirmos o percurso de Ana, verificamos que a instantaneidade da resposta, a que ela se habituou, não promove a capacidade de fantasiar. Freud fala da realização alucinatória do desejo, perante a espera da satisfação, como sendo a primeira manifestação do pensamento. Winnicott fala-nos também da latência da resposta materna, a propósito da mãe que, após um período de total satisfação das necessidades do bebé, a chamada fase de omnipotência infantil em que o bebé como que “cria” o objecto que lhe é instantaneamente apresentado, começa a introduzir a espera, diferindo a resposta. Favorecendo inicialmente esse estado de omnipotência, a presença e empatia materna vão progressivamente introduzindo na relação com o bebé modificações que facilitam
o abandono progressivo da ilusão inicial de omnipotência. É neste processo que a criança acede ao simbólico. No entrecruzamento entre a realidade interna da criança com a realidade externa que a mãe oferece, cria-se um espaço intermédio de experiência, onde os objectos chamados transicionais partilham das qualidades da realidade interna e externa. Existe uma realidade fora do sujeito, mas à qual é atribuída as qualidades do seu mundo interno (Winnicott, 1971).
É nesta a área de ilusão que o jogo da bobina descrito por Freud pode ser compreendido. A criança usa/cria um objecto externo que, sendo objectivamente percebido, representa o objecto interno (a mãe ausente, a não-mãe), que omnipotentemente controla. Ao criar este espaço de jogo, a criança começa a ter consciência da separação/diferenciação dos objectos primários, a criança inicia o caminho que vai da dependência para a independência, desenvolvendo as capacidades de elaborar a ausência do objecto e de estar só. Numa palavra, com a aquisição da capacidade de distinguir entre fantasia e o factos, inicia-se o caminho da simbolização (Winicott, 1971).
Será que o espaço virtual, a internet, cumpre esse objectivo? Há quem defenda que sim, que pode funcionar como um espaço intermediário de ilusão. A mim, parece-me exactamente o contrário, na medida em que não opera na área do mental, mas quase exclusivamente na área do perceptivo.
Se o espaço transicional é um espaço que exige um processo de transformação da experiência e uma posição activa da mente, pelo contrário, no espaço virtual a experiência baseia-se na percepção directa e imediata dos fenómenos, assim como numa posição passiva da mente.
Com a internet, o sujeito, para aliviar o desagrado da experiência que lhe é proposta, afasta-a, substituindo-a por outra mais agradável que está à distância dum “click” e não a transforma. O investimento da tecnologia sobrepõe-se ao investimento do pensamento, como refere F. Guignard (Guignard, 2014)
Ao contrário, no jogo, no faz de conta, que implica um processo de simbolização, passa-se o contrário. É o que diz Freud a propósito do seu neto. Em vez de sofrer passivamente a realidade da ausência materna, a criança, graças ao brincar, passa activamente a controlar o aparecimento e o desaparecimento do objecto materno (Freud, 1920).
Além disso, a internet promove formas regressivas de pensamento, ao dar respostas imediatas e não mediatizadas/relativizadas pelo objecto, o que associada a uma presença corporal, não abre espaço para a subjectividade nem para a criatividade.
A ligação permanente à internet, o “estar amarrado aos seus dispositivos electrónicos”, como diz S. Turkle (2011) também não favorece a independência em relação ao objecto, nem a elaboração da ausência e, por esse facto, compromete a construção de uma identidade sólida, o que nos leva à segunda questão.
A segunda questão diz respeito à construção da identidade. Na adolescência, esse processo faz-se à custa de um trabalho psíquico doloroso, do luto dos imagos parentais, da sua desidealização, do encontro com novos objectos que com as suas características contribuem para a consolidação da identidade própria. Os pares, os professores, têm neste processo um papel relevante, como modelos que se incorporam ou rejeitam, que se amam ou odeiam.
Ora, como sabemos, também nas escolas, cada vez mais os professores contactam preferencialmente os pais e os alunos online. Furtando-se ao contacto pessoal, físico e em lugar próprio, as relações perdem as características afectivas e únicas de cada relação.
Na realidade, na internet, há uma descorporalização, uma perda de contacto com o próprio corpo e com o corpo do outro, deixando de haver um lugar físico para a relação e para o afecto que lhe está associado.
Com este de tipo de comunicação imediata, descorporalizada e deslocalizada, não existe elaboração da distância física, nem da ausência. A separação e a ausência do objecto não são vividas, mas controladas pelo próprio, que está “on” ou “off”, de acordo com o seu estado de espírito, e se submete a esse mesmo registo do lado de lá.
O que fica apagado com estes mecanismos é, uma muito menor exposição ao sofrimento, mas também uma capacidade mais limitada de tomar contacto com a dor mental e de a elaborar ou, muito simplesmente, de contactar com a realidade vivida em tempo real.
Turkle (2011) conta um episódio que ilustra bem como os jovens vivem a sua realidade nos dias de hoje. Uma mãe estava com a sua filha adolescente de visita a Paris, quando esta recebe uma chamada telefónica de uma amiga que a convidava para almoçar em Boston. Diz Turkle: “A minha filha respondeu simplesmente: Não posso. Que tal sexta-feira. É claro que a amiga da minha filha não sabia nem ficou a saber que a minha filha não estava em Boston. Para a minha filha, social e emocionalmente, para onde quer que vá, está sempre em casa. Tal como outros jovens, não vive as experiências na realidade em que está”.
O autor descreve um self amarrado ao seu dispositivo, que é o lugar a que pertencem, e está ausente da realidade que lhes é proporcionada, seja ela boa e agradável, seja dolorosa e estranha. Na realidade, este estado de espírito remete para o mecanismo da negação. Nega-se a realidade histórica, pode negar-se a identidade pessoal, através de identidades flutuantes, particularmente evidentes nos perfis e nos jogos. Pode mesmo
negar-se a diferença dos sexos e reforçar-se as identificações miméticas e adesivas.
Voltando ao início da minha exposição e à forma como os profissionais da saúde mental encaram esta questão, podemos analisar um caso, descrito na literatura por V. Bonaminio (2014), que me parece paradigmático.
O caso refere-se a um jovem adolescente que acompanhou há trinta anos, o qual descreveu com algum pormenor. Só farei aqui referência a um aspecto. Este jovem de 11 anos tinha um desejo secreto. Transformar-se, concretamente, num personagem de um desenho animado. Teria que se transformar numa figura pequenina e magrinha para poder entrar nesse mundo que, para ele, só aparentemente era bi-dimensional. Lá seria um deles, influenciaria os acontecimentos relatados nos episódios, conquistaria a rapariga mais bonita – a namorada do chefe – e teria com ela, que era o seu amor verdadeiro, uma relação romântica.
Diz-nos o autor que, se tivesse antecipado o que hoje é considerado “normal” nos jogos da internet, teria reconhecido alguma plausibilidade no desejo secreto do seu paciente e aceite a sua atracção pelo mundo virtual, menos complicado. Poderia ter percebido melhor as necessidades do seu verdadeiro self, em vez de atribuir um carácter delirante e ter interpretado a relação transferencial. Teria tentado estar mais perto da experiência e menos preocupado com o diagnóstico.
Esta vinheta introduz o tema da forma como entendemos os nossos pacientes, do valor que damos a certas manifestações. Algumas características comportamentais que observamos actualmente remetem-nos para uma sintomatologia próxima da patologia borderline e, no entanto, poderá ser visto apenas como o “ar dos tempos”.
De qualquer forma, não devemos abdicar da compreensão que é a nossa, a compreensão psicanalítica do significado emocional e conflictual das manifestações dos nossos pacientes. Devemos, sim, olhar para a nossa contratransferência também na sua relação com o fenómeno da globalização tecnológica.
De facto, desde Freud, muita coisa mudou na teoria e na clínica, e nunca foi necessário abdicar dos princípios essenciais da nossa prática, da empatia, da compreensão das motivações e dos conflitos inconscientes.
O uso generalizado da tecnologia digital, internet, smartphones e redes sociais, alterou radicalmente os hábitos de vida e da cultura de comunicação e de informação, sobretudo entre os mais jovens.
Havendo virtudes incontestáveis na globalização da informação e da comunicação, no uso dos diferentes dispositivos e aplicações digitais, há que não descurar a importância das experiências intersubjectivas, com o outro real e concreto na sua fisicalidade, mas também na sua subjectividade.
Penso que as crianças que tiveram verdadeiramente a possibilidade de, na relação com os cuidadores, criarem um espaço transicional de jogo, de criatividade, que nas palavras de Winnicott têm uma área intermédia de cultura, com um lugar próprio, que a realidade virtual não substitui nem intoxica, e que bem usada pode ser uma enorme mais valia.
Desde tempos imemoriais que o ser humano procura ultrapassar as limitações da vida em sociedade, sem verdadeiramente o conseguir, como Freud mostrou no livro “Civilização e o seu Descontentamento”.
A Internet é mais uma tentativa que também não consegue criar o mundo perfeito que todos gostaríamos de viver.
ABSTRACT
Considering the fast development of the digital technology and the consequent changes in contemporaneous culture, such as the immediate access to global information and the new forms of interpersonal communication, the paper reflects on their influence on the subjective life and psychic growth of the young people.
Based on the importance of the object in the thought organization of the child, the author, using some examples from literature, aims to show the repercussions of the virtual reality on several area of the mental functioning, like autonomy, sexuality, symbolization and sense of identity. A last question is about how the health mental and the psychoanalysts approach clinical issues nowadays.
KEYWORDS
Virtual reality; psychic growth; thought, subjectivty