Este trabalho pretende fazer uma reflexão sobre “Psicanálise remota”, quando analista e analisando estão fisicamente separados. Inspirando-se no filme recente “Her”4, uma história sobre uma relação virtual (amorosa e empática) entre um homem e uma “mulher virtual” (um software construído para ir ao encontro das necessidades emocionais do indivíduo), a autora reflecte sobre as relações “virtuais” contemporâneas e a forma como elas afectam a psicanálise.
Através de exemplos clínicos de psicanálise “por Skype”, são levantadas questões – sobre transferência, silêncio, regressão, e problemáticas de separação – e a forma como estas interferem de forma diferente nos processos psicanalíticos presenciais e remotos. Relativamente à psicanálise remota, a autora sugere que a diferença fundamental não é tanto uma menor informação sobre o paciente (a voz pode funcionar como uma fonte de informação inconsciente), mas antes como na psicanálise tradicional a presença física do analista e o seu espaço/gabinete – contentor poderão activar formas mais profundas e primárias de transferência no paciente. Por outro lado, os exemplos clínicos apresentados mostram como a experiência de alternância entre análise tradicional e remota pode trazer à superfície problemáticas de separação encobertas, assim como uma maior consciência no paciente dos movimentos transferenciais em causa.
Na primeira cena de “Her”, ao som de uma música metalizada e repetitiva, como uma máquina, vemos o rosto de Theodore em grande plano, a sua expressão entristecida e apática, enquanto soletra uma carta de amor…
Aos poucos vamos conhecendo este personagem, cuja profissão é escrever cartas de amor encomendadas por outros, cartas entre amantes ou familiares, que contrastam com a sua vida pessoal (e real), solitária e emocionalmente empobrecida. São cartas poéticas, comovedoras, apaixonadas, atestando a sua riqueza emocional, que ao mesmo tempo parecem não fazer parte dele: terminado o dia de trabalho, volta à sua vida, caminhando solitariamente para casa, enquanto pede ao seu computador de bolso que lhe relate os e-mails do dia (o que é feito sempre com a mesma voz, artificial e indiferenciada), ou que toque uma música melancólica. Uma música que o ajude a encontrar dentro de si a tristeza da perda da sua vida anterior, rica de afectos, com a ex-mulher, como se ele próprio andasse desligado de si mesmo… Em casa, durante uma refeição solitária, brinca indiferente com jogos virtuais tridimensionais, e ao deitar-se recorre a “chats” sexuais, numa busca desesperada de contacto com o Outro, mas onde encontra unicamente diálogos sexuais, respostas com voz feminina e sensual, mas sexualmente cruas, que não lhe permitem ter o “orgasmo emocional” de que anda à procura.
É num dia por acaso, nas suas deambulações solitárias, que descobre um novo sistema operativo que existe para se ajustar às necessidades emocionais de cada pessoa. No seu primeiro contacto com este software, para o programar, é-lhe logo perguntado sobre a relação com a sua mãe como se, à imagem de um psicanalista, o sistema operativo recorresse a informação sobre a relação objectal primária para poder compreender (e ir ao encontro) das necessidades relacionais do indivíduo. Theodore responde o quanto se sentiu sempre frustrado com a relação materna, por a mãe nunca o ter verdadeiramente ouvido, acabando
Artigo recebido em 1 de Fevereiro de 2016 e aceite para publicação em 30 de Dezembro de 2016.
Artigo apresentado no 49° Congresso da IPA, que teve lugar em Boston, em Julho de 2015
Psicóloga Clínica. Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA e-mail:
Realizado por Spike Jonze, em 2013 (imdb.com).
sempre por falar dela própria. Ora, é justamente o contrário do que o sistema operativo - Her - vai ser.
Her - porque ele queria uma voz de mulher - começa logo por escolher o seu próprio nome: Samantha. Samantha é um sistema operativo que vai evoluindo à medida que conhece a realidade, seja a realidade externa das coisas, seja do mundo interno de Theodore. Samantha tem uma voz sensual, meiga, ternamente naif, mas fundamentalmente torna-se um ser virtual que está verdadeiramente interessado em conhecer o nosso personagem. Her vai desenvolvendo uma enorme capacidade de empatia, vai conhecendo Theodore e ajudando-o a conhecer-se a si mesmo, e fá-lo de uma forma livre, sem preconceitos, sem impor desejos ou vontades, sem se projectar. Um verdadeiro modelo de psicoterapeuta empático, ou de uma relação primária perfeita. Este sistema hiper-intuitivo, que se desenvolve a cada segundo de experiência, vai-se gradualmente tornando pessoa, com desejos, vontades, auto-consciência. Her é em parte uma criança deslumbrada com o mundo à volta, em parte uma mulher sensual, meiga e compreensiva, em parte um psicoterapeuta empático. Her é a mulher que deseja verdadeiramente (e desinteressadamente) conhecer Theodore, que adivinha o seu interior, seja o que ele está a sentir (quando ele fica distante e ambivalente por se estar a apaixonar por uma “máquina”), seja quando tem fome e precisa de comer. Her é a mulher e a amiga que o compreende e o diverte. Enfim, a mulher ideal, ou objecto ideal, que vai preenchendo o “buraco no meu interior”, fazendo sentir-se menos só, e por quem Theodore se vai apaixonando.
Theodore começa a relacionar-se com ela como se fosse uma namorada: colocando o dispositivo no bolso da camisa, mostra-lhe o mundo exterior, enquanto vão passear, olham o rio e o pôr-do-sol, caminham entre as pessoas. E, sobretudo, conversam muito.
Mas há algo que falta a Theodore… a fisicalidade, o sentir do corpo, a sexualidade, e a tranquilidade de saber que se está a relacionar com um ser de carne e osso. Ele continua a procurar outras mulheres sendo, aliás, Samantha (que ainda não desenvolveu o sentimento de posse e ciúme) que o incentiva a aceitar um encontro real com uma mulher real, amiga de amigos comuns.
Então, ele sai com uma mulher verdadeira, atraente e disponível mas, se inicialmente se vai desenvolvendo entre eles uma relação de aparente cumplicidade e atracção física mútuas, esta acaba por se tornar um desencontro: a mulher tem medo que ele a abandone depois de uma noite de sexo e, ao transmitir-lhe os seus receios/exigir o seu compromisso, toca nos próprios medos de Theodore de não ser capaz de dar o que ela quer, levando-o a afastar-se e aumentando por sua vez ainda mais os receios dela. E assim se cria o equívoco… E a câmara fixa a cara desta mulher real que subitamente ficou inexpressiva, seráfica, bloqueada pelo medo, como se não fosse real… É estranho como para nós, espectadores, a relação com a máquina Samantha parece mais autêntica e sintónica, porque menos contaminada com as mútuas projecções (dos medos, do passado, de experiências anteriores).
E Theodore volta para Samantha, mulher virtual, mas que parece ir muito mais ao encontro do seu desejo, numa relação de imensa intimidade e cumplicidade. E à medida que Her vai aprendendo o funcionamento dele, torna-se progressivamente mais humana, vai desenvolvendo conflitos internos, quer e não quer que ele se vá encontrar com a ex-mulher para assinar os papeis do divórcio. Ela vai aprendendo sobre o ciúme, a dor, o medo, a alegria, e também a intimidade sexual. Sem corporalidade, ela consegue sentir virtualmente o corpo: “I can feel my skin!”, e ambos se sentem sexualmente unidos.
Mas o corpo continua a faltar, não só o corpo sexual, mas o corpo para mostrar a terceiros, para poder sair com amigos; e não só o corpo para ter um orgasmo, mas para sentir a sua pele, o cheiro, a respiração. E Samantha, ao perceber isso, encontra uma solução: arranja um “corpo de aluguer”. Uma mulher loura e atraente toca à porta de Theodore, trazendo no corpo um sensor que transmite a voz de Samanha para ele ouvir e que, por sua vez, permite a Samantha sentir as sensações do corpo da mulher real. Mas, depois de alguns preliminares sensuais, um pormenor (um tremor no lábio da figurante) faz Theodore sentir que aquilo não é real. O corpo não pode ser virtualmente inventado. Theodore ouve no sensor a respiração ofegante de Samantha, ou um súbito suspiro e exclama irritado: “Porque respiras assim, estás a fingir, tu não és um ser humano, não precisas de ar como nós!”.
No entanto, a necessidade deste “sistema” cúmplice com quem ele tudo partilha (como com um psicoterapeuta) é mais forte, e por isso ele não é capaz de deixar Samantha, mesmo sem corpo. Sem corpo e sem imagem, para poderem existir fotografias fixadas na memória… Ela inventa então um outro objecto, só deles, que possam partilhar na memória afectiva: a música, melodias que ela própria compõe, e às quais aos poucos acrescenta palavras.
Até que um dia ele a procura e não a encontra, vasculha o computador mas o sistema operativo parece não existir em lugar nenhum. Theodore corre pelas ruas aflito, numa verdadeira angústia de separação, enquanto se cruza com os outros transeuntes, todos eles absortos da realidade externa, de olhos fixos em dispositivos electrónicos e auscultador no ouvido, falando para uma realidade virtual. Samantha finalmente entra em
contacto e explica-se: “Está a acontecer uma coisa nova comigo, estou a evoluir para sentimentos novos que não posso explicar por palavras…”. Então ele começa a perceber. Acalma e olha à sua volta, e só então vê as pessoas que por ele passam, absortas nos seus smartphones, em relações virtuais… E Theodore pergunta a Samantha com quantas pessoas ela fala e ela responde “8316”, e por quantas está apaixonada, e Samantha diz “641”. Theodore não pode aceitar, não acredita numa relação de amor sem exclusividade. Samantha diz-lhe: “O coração não é uma caixa, mas um sistema em expansão…”. Mas ela já evoluiu para uma outra realidade, uma outra consciência: “Já estou num outro lugar, no espaço entre as palavras, já não posso viver no teu livro”. Samantha evoluiu para o espaço que existe entre as palavras, o não dito, o lugar do inconsciente?
O filme acaba com uma carta de Theodore, desta vez pessoal, verdadeira, para a sua ex-mulher, a explicar-lhe (e a compreender) o passado, o presente e o futuro da relação deles. Como se, através da relação virtual com o sistema operativo Samantha, ele tivesse elaborado, crescido, tornando-se mais pessoa…
Her fala-nos da solidão num mundo moderno em que um sistema inteligente artificial é desenhado para preencher o buraco deixado pela falta de relações humanas íntimas, verdadeiras, que alimentam emocionalmente e fazem crescer. Mas, paradoxalmente, parece ser esse mundo tecnológico e virtual que, ao tomar o lugar das outras relações humanas, contribui para essa solidão (Turkle, 2011).
O filme coloca em diálogo relações virtuais e relações reais, em que o outro (real e humano) existe na sua corporalidade e na sua imperfeição. Paralelamente à relação virtual, de encaixe “perfeito”, com Samantha, e aos desencontros de Theodore com as mulheres reais, o filme mostra-nos uma outra relação afectiva (de um colega de Theodore com a sua namorada) e de como ela existe e preenche, na aceitação e amor pelas imperfeições de cada um. Ele diz-lhe: “A coisa que mais gosto em ti é dos pés”. “Dos pés?”, responde ela, fingindo-se indignada. Samantha, ao contrário, é perfeita, moldada à imagem do desejo e necessidade de Theodore. A sua única imperfeição é a ausência de corporalidade mas, como ela afirma: “Descobri que existem vantagens em não ter corpo: não ter limitações, não morrer…”.
Her é, ao mesmo tempo, uma espécie de psicanalista virtual, que procura conhecer o outro, de uma forma isenta, despida de preconceitos e projecções, e através desse processo ajuda esse outro (Theodore, ou o paciente) a conhecer-se a si mesmo e a crescer como pessoa… No final do filme, Theodore compreende de uma forma mais profunda a relação (e a perda) da sua ex-mulher, recupera partes suas das quais, para fugir à dor, procurara fugir (daí a sua solidão), e transforma-as dentro de si, tal como num processo analítico.
Vivemos no tempo das relações virtuais, à distância, muitas vezes com pessoas que não conhecemos fisicamente, apesar de não ser claro se elas resultam de uma possibilidade acrescida pela evolução tecnológica, ou se são o sintoma de toda uma outra forma de nos relacionarmos. Há poucos anos atrás, os amigos eram encontrados ao longo da nossa história de vida, na escola, no trabalho, no casamento, aos quais nos unia a partilha de experiências comuns. Agora temos um número imenso de “amigos” (nas redes sociais), alguns dos quais nunca vimos. Antes escrevíamos cartas de amor, quando o ser amado estava longe, agora enviamos um SMS (no exacto segundo em que a vontade surge, a descrever cada acção ou pensamento da nossa existência), colocamos uns posts no Facebook, temos uma conversa em tempo real pelo Skype. No passado, quando viajávamos para outros lugares, era um conjunto de novas experiências e vivências que tínhamos de guardar para nós, eventualmente comunicá-las por carta (que muitas vezes chegava após o nosso regresso). Agora, podemos estar a viajar e cada nova experiência ou sensação que entra em nós, poderá ser logo descarregada (forward) para outros, através das redes sociais, e-mail ou SMS. Por outro lado, quando as saudades apertavam, tínhamos que esperar pelo reencontro; agora isso não é coisa que uma sessão Skype não resolva. Antes tínhamos que (a)guardar, conter, elaborar os nossos sentimentos. Agora vivemos na era do rápido, do fácil, do superficial, do imediato. De que forma isto tem um efeito nas pessoas, nos nossos pacientes, e na técnica psicanalítica?
Por outro lado, a Era actual é imensamente mais exigente: as pessoas estão em permanente mobilidade, não só geográfica (trabalhos que exigem deslocações frequentes, expatriações e emigrações), como relacional e amorosa: há umas décadas tínhamos uma ou duas relações amorosas sérias durante a vida, enquanto agora as relações afectivas podem ser várias vezes renovadas ao longo da vida. Daí também a exigência de meios compatíveis com, por um lado, uma vida profissional intensa que deixa pouco tempo para novos encontros e, por outro, a necessidade de formas rápidas de encontrar pessoas/afectos compatíveis connosco. A comunicação virtual permite um conhecimento do outro na sua dimensão psicológica, anterior a um conhecimento físico, uma pré-selecção virtual para nos poupar o tempo que nos falta (e colocar uma distância segura). Resta saber se este conhecimento virtual não será também ele enganador.
Será ela talvez mais necessária num tempo imediato, rápido, superficial e virtual que nos deixa mais sós? Por outro lado, esta mesma vida moderna parece tornar também a psicanálise tradicional muitas vezes difícil. No início, o setting analítico exigia cinco sessões por semana, que foram sendo reduzidas pela impossibilidade (tempo, dinheiro) dos tempos actuais, e finalmente, nos últimos anos, com o desenvolvimento da comunicação por rede, também a psicanálise foi buscar a via “virtual” para situações de impossibilidade da presença física do paciente: a terapia remota através de telefone ou Skype. De facto, alguns autores estão convencidos de que:
(…) numa Era em que o desenvolvimento de uma economia global, com aumento das viagens e da comunicação wordwide instantânea, trouxeram uma transformação social e pessoal da mente e da sua concepção no espaço, a psicanálise tem que encontrar formas de transcender os limites da distância para alcançar o analisando do século XXI (Sharff, 2013: 62).
Mas logo de imediato surge a questão: será que este método por via remota, virtual, sem a presença física de analista e analisando, se pode chamar psicanálise?
Freud definiu o método psicanalítico como a via de acesso ao inconsciente. Para tal foi criado um setting (divã, hora, local e frequência regulares, neutralidade do analista) que supostamente facilita esse mesmo acesso ao inconsciente do paciente, através da associação livre, interpretação da fantasia inconsciente, transferência e contratransferência, análise das resistências, etc.
Para alguns psicanalistas é possível manter o quadro analítico à distância porque, apesar do corpo do analista não estar presente, a sua voz pode ecoar o ambiente silencioso-mas-contentor da presença materna. Assim, o analista ouve com o terceiro ouvido o tema implícito, tal como o analista no gabinete, ouve melhor atrás do analisando, fora da sua vista e de olhos fechados (Leffert, 2003).
Apesar de, em ambas, a análise tradicional e tele-análise, se privilegiar a comunicação auditiva mais do que a comunicação corporal, na análise tradicional o corpo dá sinais não-verbais, enquanto a tele-análise assenta no discurso e escuta analítica como modo primário de troca: o telefone privilegia a semiologia da voz… Por exemplo, uma mulher que vai para longe e faz análise à distância estabelece uma transferência erótica porque imagina o analista mais novo, sem a prova da realidade; outro paciente desenvolve uma transferência materna pelo timbre da voz do analista. A voz oferece um canal substituto, através do qual o sintoma se torna presente para ser trabalhado. Alguns autores defendem a visão de que a psicanálise por telefone, Skype ou video-conferência é indicada a nível individual, em circunstâncias excepcionais para aumentar a continuidade analítica (Sharff, 2013).
A minha caminhada na psicanálise remota foi-me sugerida pelos meus próprios pacientes, quando tiveram que mudar de país, numa altura do seu percurso analítico em que ainda estávamos longe do final. Perante a minha proposta de contactarem um outro analista, escolheram manter a mesma relação, mesmo na ausência da presença física da analista. Assim, iniciei esse processo, que considero ter sido importante e proveitoso, que sinto ter dado uma continuidade ao processo analítico anterior, mas que, ainda assim, me tem levantado algumas questões. Questões que em seguida exemplifico com algumas vinhetas clínicas, nomeadamente no que se refere às seguintes dimensões: presença física e transferência; silêncio e regressão; ausência física e problemáticas de separação.
Alguns autores consideram que, apesar da importância da presença física numa sessão analítica tradicional, onde desejo e abstinência evocam memórias e fantasias ligadas à sexualidade infantil, nas sessões remotas a voz do analista produz igualmente uma resposta corporal no analisando e vice-versa (Sharff, 2013). Assim, apesar do analista à distância não poder ver a resposta corporal no analisando, ele utiliza outros meios de observação: hesitações, paragens na respiração, mudanças no tom que revelam muito mais do que as palavras. A comunicação inconsciente pode ocorrer por via auditiva, visual e sensorial. A linguagem está incorporada no sistema sensório-motor: “words stir emotions” (as palavras mexem nas emoções). A comunicação auditiva produz uma imagem no ouvinte, que depois é colocada em palavras, tal como na análise tradicional. Em estudos comparativos de sessões presenciais e à distância, não foi possível ver qual era qual (Mirkin, 2011)
Mas será de facto o mesmo? De que forma a presença física tem influência na transferência inconsciente?
Ana, com 36 anos, em análise “tradicional” há vários anos, apresentava uma problemática edipiana que a impedia de ser capaz de se comprometer com um homem. Os homens que a atraíam tinham que ser distantes, pouco disponíveis, incapazes de compromisso, tal como o seu pai. A transferência analítica assentava na tentativa de me agradar, evitando possível conflitualidade e negando a rivalidade que vivia constantemente com as outras mulheres, tal como fazia com a mãe. Ao contrário, era com os homens que, tal como sempre acontecera com o pai, era agressiva, reivindicativa e ciumenta.
Ao fim de alguns anos em análise, a Ana inicia uma relação amorosa que gradualmente começa a ser capaz de investir e transformar(-se). Algum tempo depois o namorado é chamado para trabalhar no estrangeiro, e desafia-a a ir com ele durante dois ou três anos. O trabalho analítico que tínhamos desenvolvido revelou a necessidade da Ana arriscar e ser capaz de se comprometer com um homem, vencer o medo de partilhar um espaço físico com ele, em vez de manter sempre um pé de fora, fugindo para a sua própria casa/amigos/família sempre que a relação com ele ficava demasiado próxima ou conflituosa. Por isso decidimos continuar o trabalho analítico por Skype (mantendo dias e horas regulares, e sem imagem, como se estivesse no divã).
Desde o início que a nossa “web-relação” foi extremamente fácil, sem nunca a ausência física ter interferido na sua capacidade associativa, falando ela mais descontraidamente do que nunca. O trabalho analítico prosseguiu analisando a relação com o namorado, e as questões que a preocupavam no seu mundo interno. Mas, de alguma forma, a transferência analítica parecia estar mais silenciosa. Foi só durante um período de férias, quando ela volta ao gabinete, que foi claro para ambas que não era a mesma coisa. Ela senta-se na cadeira à frente da analista e diz:
Hoje tenho de me sentar aqui e não no divã, para recuperar a presença consigo… Mas sinto uma sensação de estranheza, é perturbador estar aqui novamente consigo, como se tivesse que agradar… Quando estou protegida atrás do ecrã é tudo muito mais fácil, é como se estivesse ainda mais comigo mesma…
Na sessão seguinte, tendo já recapturado a presença da analista, pôde voltar ao divã.
Durante o seguimento à distância, a Ana parecia não sentir a falta da presença física da analista para elaborar as suas dificuldades na relação com os homens mas, quando a recupera, sente que isso interfere no seu movimento associativo, que está menos com ela mesma, com uma maior interferência da relação transferencial. Esta forte interferência da relação transferencial materna pôde então ser elaborada, facilitando uma maior capacidade de compromisso com o seu namorado.
Parece, pois, que o retomar da presença física da analista potenciou a relação transferencial cuja elaboração ajudou a ultrapassar a ambivalência no compromisso amoroso.
Não existe música sem silêncio, tal como sem ele não existe melodia analítica. O silêncio na relação analítica é mais uma forma de comunicação inconsciente, uma relação não verbal entre paciente e analista, ajudando na compreensão do mundo interno do paciente.
Para Freud, o silêncio era considerado uma resistência, já que, na sua concepção do funcionamento mental, o sintoma ou sofrimento psíquico era consequência de ideias e afectos que haviam sido reprimidos, sendo a cura conseguida ao fazê-los emergir na consciência. Era então a palavra – através da associação livre – que permitia este processo.
Actualmente, o silêncio, tal como a palavra, é também considerado pela psicanálise como uma forma de comunicação inconsciente. O sofrimento psíquico deixa de ser unicamente a resposta ao recalcamento, mas o reflexo de padrões de relação precoces interiorizados (inconscientes), que se actualizam nas relações actuais. E esta transferência de padrões relacionais inconscientes aparece na comunicação verbal e não verbal: na entoação, na “música das palavras”, nos silêncios (Marta, 2005).
Assim, à partida, a terapia remota não coloca qualquer obstáculo ao silêncio, que poderá ser ouvido e compreendido tal como na presença física. No entanto, alguns autores falam de um outro silêncio, que permite ter acesso a memórias pré-verbais, mas que implica a presença física da pessoa do analista, como a presença física “silenciosa” da mãe numa altura em que a criança ainda não fala, e cujos afectos são revividos no silêncio (Bollas, 1992).
Christopher Bollas (1992) salienta a importância do silêncio para o contacto do paciente com partes do seu self mais profundo, a que ele chamou de conhecido não-pensado. O autor parte do conceito de Winnicott de “mãe ambiental”: a mãe que provê a continuidade do ser, que “contém” o bebé num ambiente criado por ela, e facilita o seu crescimento; será a mãe que, através da experiência intersubjectiva com o filho, mantém coesos os rituais das necessidades psicossomáticas (alimentação, troca de fraldas, acalmar, brincar, dormir); a mãe, como o “outro self” da criança, que transforma o ambiente interno e externo do bebé. Assim, ainda não totalmente identificada com um outro, a mãe é experienciada como um processo de transformação. É uma relação objectal que não emerge do desejo, mas de uma identificação perceptiva do objecto com a sua função, e a memória dessa primeira relação objectal perdurará na memória adulta e irá manifestar-se na busca de um objecto (uma pessoa, um lugar, um acontecimento, uma ideologia) que promete transformar o self.
Na transferência – que segundo Bollas ocorre mais para o espaço e processo analítico do que para a pessoa do analista – o paciente está a relacionar-se com o objecto transformacional, isto é, experiencia
o analista como mãe-ambiental, uma memória préverbal que não pode ser percebida num discurso que evoque a experiência, mas somente num ambiente que se assemelha a esta experiência: de não intrusividade e de holding, e num tipo de saber simbiótico ou “telepático”.
Além disso, Bollas salienta a “regressão à dependência” como um processo fundamental e normal em análise, retomando as ideias de Balint (1968) e Winnicott (1965) sobre a “regressão normal”, como a necessidade de certos pacientes usarem o contexto e processo analítico para se desfazerem do fardo do falso self e sucumbirem ao self verdadeiro.
De facto, o contexto analítico torna-se um convite à regressão: o deitar no divã, as sensações físicas de ser contido por esse objecto físico, a proximidade física do analista; o conforto e prazer, ligado à atenção que o analista dá ao seu self, mesmo no meio de sofrimento. Depois de focalizar a sensação física de ser contido pelo divã e as sensações acústicas de ouvir os sons do mundo (os carros que passam, o tique-taque do relógio, o som de vozes do exterior, os barulhos do estômago e da respiração do analista), o paciente mergulha no conhecido não-pensado. Os pensamentos surgem em resposta aos estímulos sensoriais como os sons ou objectos visíveis da sala, existindo uma transição subtil entre o escutar, ver, ter sensações do mundo externo, e o escutar, ver, e ter sensações e sentimentos do mundo interior, que Winnicott chamou de “área intermediária do vivenciar” (Bollas, 1992).
Como fazer esta regressão, ela própria facilitada pela sensorialidade do analista, a sua respiração, o espaço contentor e os objectos à volta, longe da presença física do analista?
Madalena é uma adolescente de 15 anos, seguida em psicanálise “tradicional” três vezes por semana. A sintomatologia que leva a mãe a procurar ajuda para a filha é a compulsão para se cortar (nos braços, pernas e barriga) sempre que se sente “angustiada” e uma fobia súbita a estar com os colegas da escola. A Madalena cresce sozinha (pai pouco presente, mãe deprimida, irmão 9 anos mais velho, que aos 16 vai estudar para o sul do país), num ambiente violento: o pai alcoólico agride verbalmente a mãe, e esta fica deprimida de cama durante um ano, aos 5/6 anos da paciente. Os pais divorciam-se quando Madalena tem 8 anos e, se inicialmente o pai vinha buscá-la aos fins de semana (embora a deixasse muitas vezes sozinha em casa), a relação com o pai vai desaparecendo gradualmente à medida que este a deixa de procurar. A sintomatologia inicia-se aos 12 anos, quando a mãe tem que ir trabalhar para outra cidade e Madalena decide não ir com ela (fica com a irmã da mãe) para não ser mais um “fardo” económico. Nesta altura, inicia os cortes para acalmar a angústia (de abandono) e inventa um amigo imaginário que a acompanha para todo o lado. A fobia aos colegas da escola acontece um ano depois, após o regresso seguido de novo afastamento do pai, que a leva a pensar que afinal o pai não gosta mesmo dela, começando a partir daí a sentir-se rejeitada e excluída entre os pares.
O seguimento psicanalítico da Madalena, inicialmente face a face, é desde logo muito rico, com relatos de pesadelos terríveis, com sangue e violência, sonhando repetidamente com marionetes presas nas cordas, cheias de cicatrizes, sem olhos e de boca cozida, o que a analista interpreta como ela se sentindo prisioneira na sua dor interna que não pode ver nem dizer.
Será só dois meses mais tarde, num dia em que ela entra e imediatamente pede para se deitar no divã, que finalmente consegue falar do seu sofrimento mais profundo: “Precisava de não a ver, de estar deitada em silêncio neste divã, para lhe falar dos meus lados negros…. Quando estou de frente para si, parece que me sinto mais obrigada a fazer conversa”.
Madalena não voltou a deixar o divã, e a melodia analítica passou a oscilar entre a confissão dos seus maiores desesperos e um silêncio progressivamente mais tranquilo e durador, que levava a analista a pensar na presença silenciosa da mãe com o bebé antes dele adormecer, tal com Bollas descreveu…
Alguns meses depois ela pede-me para fazer algumas sessões à distância por Skype, para poder ir passar férias com a mãe, no mês anterior às férias de verão da análise. A analista decide aceitar pelo facto da paciente ter sido forçada a separar-se precocemente da mãe e estar na altura a viver sozinha com os avós, bastante mais velhos, passando muito tempo fechada no quarto a ver séries de televisão sobre o sobrenatural e a viver relações virtuais com rapazes.
As sessões Skype correram bem, a ligação manteve-se, mas Madalena fala constantemente, e pela primeira vez, de dois lados seus, do leve e do sombrio, e de como ali, à distância, era como se os seus problemas tivessem desaparecido… O discurso centrou-se muito mais no aqui e agora, os sonhos quase desapareceram, os silêncios aumentaram. Mas silêncios sem a mesma qualidade elaborativa e regressiva das sessões presenciais. Eram silêncios que ela traduzia como não estar a pensar em nada, o pensamento vazio, como se estivesse num tempo suspenso, à espera do retomar das sessões na presença física da analista. Por vezes, ela mencionava ouvir o tique-taque do relógio do gabinete, como que a tentar estar ali novamente.
A regressão parece tornar-se então mais difícil à distância, sem a presença física do analista.
De que forma a separação física do analista interfere nas problemáticas ligadas à separação e ao abandono? A análise virtual cria um espaço físico infinito, as sessões podem ser feitas a partir de qualquer lugar, e ao mesmo tempo retira o espaço real, continente, do gabinete do analista, para onde o analisando “tradicional” tem que se deslocar activamente várias vezes por semana.
Catarina está em análise “tradicional” há sete anos, após cerca de três anos de psicoterapia face a face. Procura ajuda por volta dos 18 anos, após uma tentativa de suicídio, que se seguiu a um abandono pelo namorado que tinha nessa altura. Os primeiros anos do acompanhamento são marcados por uma intensa angústia, que ela procura controlar através de ruminações obsessivas que a levam à exaustão, pelo medo do abandono, e fundamentalmente por uma enorme dificuldade em se entregar na relação com o outro, seja com o namorado que a abandonou e do qual ela “não gostava, mas precisava dele”, seja transferencialmente com a psicoterapeuta. A transferência psicoterapêutica oscilava entre a aproximação e o afastamento, entre a necessidade imensa do outro e o medo do abandono, o que levava a analista a pensar num funcionamento limite. Ao fim de algum tempo foi-lhe proposta uma psicanálise três vezes por semana.
É deitada no divã que tudo parece mudar no gabinete da analista. A transferência que se apresentava já não é a aproximação/fuga, mas uma enorme agressividade devoradora, tendo surgido na mente da analista a ideia da “devoração do seio” de Klein, e de um funcionamento esquizoparanóide. O ódio à mãe abandonante, a inveja dos outros que tinham mais sorte na vida - do novo namorado, da analista -, estavam constantemente presentes na sala. As fantasias centravam-se menos sobre o abandono mas mais sobre a agressividade: imaginava empurrar o namorado pela janela, ou estrangular a analista. E, sobretudo, surgia uma enorme desesperança: “ninguém me pode ajudar…”.
Ao longo de vários anos tudo isto foi interpretado e muito da vida de Catarina mudou: encontrou um namorado estável de quem gosta, fez amizades boas e duradouras, acabou o curso e experimentou vários trabalhos, e esteve a viver uns meses no estrangeiro com o namorado, o que até há pouco tempo era impossível para ela, para quem mesmo as férias da analista eram difíceis de suportar.
Foi nessa estadia no estrangeiro, trabalhada na análise ao longo de vários meses, dada a sua dificuldade em se separar da mãe e da analista, que a levou a sugerir continuar as sessões por Skype. E é neste contexto que as suas relações e a transferência parecem mudar: o trabalho analítico começa a centrar-se fundamentalmente (e novamente) nas questões da separação/abandono. Sente-se só quando está sozinha, e invadida quando está muito tempo com outros, sendo obrigada a afastar-se durante alguns momentos para se voltar encontrar… Sonha com casas em perigo, rodeadas de assaltantes que a qualquer momento podem entrar, como se sentisse a sua barreira psíquica em perigo. Por outro lado, curiosamente, na ausência da relação com a mãe real sobre a qual projectava constantemente o ódio e frustração na relação primária, e na ausência física da analista, para quem ela transferia a inveja e a zanga com o objecto primário, a identificação projectiva maciça diminuiu: “Agora sinto que as coisas estão dentro de mim, e não lá fora como eu achava”. É neste contexto menos projectivo e transferencial que um funcionamento sadomasoquista, associado à agressividade do início da análise, começa a surgir: vê um filme em que um homem agride uma mulher e fica muito aflita, primeiro com medo que lhe possam fazer mal, numa identificação à vítima, depois imagina-se má, como podendo também esfaquear alguém, identificando-se com o agressor.
É quando a Catarina volta de viagem e regressa à análise tradicional, 10 meses depois, que o sadomasoquismo surge transferencialmente de uma forma mais clara, na sua forma de reacção terapêutica negativa: como uma menina pequena ela deita-se no divã, chora e fala baixinho e de forma contida, cheia de pena de si mesma e de tudo o que lhe aconteceu na infância e que ela não perdoa. Quanto mais as sessões eram construtivas, das quais ela saía mais lúcida e menos angustiada, mais eram atacadas pouco depois dentro dela: “Eu sinto que saio daqui bem, mas depois é como se eu desconfiasse… Sinto que ataco esta relação, e fico sem nada…”. Aos poucos foi-lhe interpretada a necessidade de lealdade aos maus objectos do passado e a reacção terapêutica negativa, que surgia quando ela ficava contente com a relação com a analista, a qual lhe provocava uma inveja devoradora, e que a fazia atacar a relação e distanciar-se: “Sim, eu sinto que invejo toda a gente, toda a gente tem mais sorte do que eu, e também invejo a Dr.a…”. Foram necessários vários meses para que, ali na presença desta transferência analítica, a enorme raiva e inveja, se transformassem gradualmente numa enorme tristeza… Lentamente fazendo o luto dos maus objectos da infância.
Em resumo, a distância física da analista, criada pela terapia remota permitiu o reviver das questões primordiais da separação/desamparo materno e, ao mesmo tempo, diminuiu a projecção da frustração e raiva sobre a mãe real e a analista. E o posterior regresso à análise permitiu, através da transferência, pôr a descoberto os mecanismos sabotadores sadomasoquistas, que até aí permaneciam encobertos.
Mais importante do que comparar psicanálise remota e tradicional, será talvez avaliar se o setting remoto mantém ou não a essência psicanalítica. Freud decidiu inicialmente deitar o paciente no divã, não porque soubesse que isso facilitava a regressão, mas porque tinha dificuldade em olhar directamente os pacientes. Só posteriormente terá compreendido as vantagens dessa posição. Agora o método psicanalítico terá novamente que se adaptar à realidade remota, e talvez venhamos a descobrir algumas vantagens desse setting.
Uma psicanálise tradicional é sempre melhor, tal como qualquer relação é mais rica na presença física, na qual o corpo facilita a transmissão de informação não consciente. Mas no que diz respeito à psicanálise remota talvez, como tentei ilustrar, o problema não seja tanto a falta de informação importante sobre o paciente à distância (quando escrevia as sessões Skype, a imagem do paciente aparecia na minha mente deitado no divã), mas antes como, na análise tradicional, a presença física do analista e o seu gabinete contentor poderão activar formas mais primárias de transferência no paciente, como no caso da Ana. Além disso, a psicanálise remota poderá dificultar o processo normal de regressão, como no caso da Madalena.
Por outro lado, os exemplos clínicos que ilustrei mostraram como a alternância entre análise presencial e remota permitiram fazer emergir problemáticas de separação inconscientes (caso da Catarina), ou uma melhor consciência da transferência (caso da Ana). Além disso, a ausência física poderá ter vantagens ao esconder informação da realidade consciente: a falta de uma imagem real, tal como um teste projectivo, facilita a projecção do inconsciente, e assim o paciente que o analista não vê mas imagina na sua mente poderá tornar-se uma importante fonte de informação contratransferencial.
Finalmente, parece-me que a psicanálise remota deverá ser intervalada com a psicanálise tradicional quando esta tem que ser interrompida por (1) razões independentes do processo psicanalítico do paciente (sem ser uma resistência), como acontecimentos externos, ou (2) uma decisão relacionada com o progresso analítico, como mostraram os meus exemplos clínicos, quando as minhas pacientes com dificuldades de compromisso amoroso aceitaram ir ter com os seus companheiros no estrangeiro.
E ainda, a análise à distância poderá ser, inicialmente, o método possível quando a própria sintomatologia do paciente (e.g. fobias) o impede de estar fisicamente presente.
A questão da Psicanálise Remota assenta, então, na importância do analista manter sempre a sua atitude analítica, o seu setting interno:
a neutralidade, a escuta e interpretação analíticas, a atenção aos fenómenos transferenciais e contratransferenciais; e encontrar o melhor setting externo remoto possível, à imagem de um setting tradicional: dias e horas regulares, sem vídeo para facilitar a regressão e a associação livre, e sempre que possível intervalar com sessões presenciais.
ABSTRACT
This paper reflects on “remote psychoanalysis”, when analyst and patient are physically separated. Inspired by the recent film “Her”(*), a story about a virtual (loving and empathic) relationship between a man and a “virtual woman” – (a software “operation system” designed to meet all individual needs, including emotional), it reflects on modern “virtual” relationships, and how they can affect psychoanalysis. Through clinical examples on psychoanalysis “by Skype”, questions are raised – about transference, silence, regression, and separation issues - and how they interfere differently on the presential and remote psychoanalytical processes.
Regarding remote psychoanalysis, the author suggests it is not so much the problem of lacking important information from the patient (the voice can work as a source of unconscious information), but rather how in traditional analysis the analyst's physical presence and the containing room may activate deeper and primary forms of transference on the patient.
On the other hand, the clinical examples indicate how the experience of alternation between traditional and remote analysis brought up hidden separation issues and a better transference awareness.
KEYWORDS
Remote Psychoanalysis, virtual relationships, transference, regression, separation anxiety.
(*) Directed by (2013), imdb.com