Longe vai o tempo em que o setting era abordado exclusivamente como dispositivo formal do contrato terapêutico entre analista e paciente. A partir de Bleger (1967), o setting, como “moldura” simbiótica do processo psicanalítico, torna-se “objeto analítico” (Green, 1975 [1990]) sujeito a interpretação em momentos “críticos” de mudança psíquica. Como refere Lemma (2015), a resistência à mudança psíquica é agida pela insistência na transferência simbiótica ao setting analítico indiferenciado, como “núcleo aglutinado” (Bleger, 1967a) da elação sensório-emocional do ego corpóreo primitivo do paciente. As fantasias pré-simbólicas que “circulam” nestes estados regressivos induzem à contratransferência somática (Bronstein, 2013) e à difícil dessubjectivação do material projetivo que mantém o enactment esquizo-paranoide, ou mesmo ambíguo (Bleger, 2013 [1967b]) do par analítico. Só o exercício da capacidade de rêverie do analista (Ogden, 1990) permite dessimbiotizar o setting corpóreo e resgatar o sonho e o livre jogo associativo na relação analítica. O objectivo deste trabalho é refletir sobre a transformação dos “estados corpóreos da mente” (Lemma, 2015) em resposta às dificuldades transferenciais-contratransferenciais suscitadas pelo manejo do setting na relação terapêutica, com duas pacientes em fases diferentes do ciclo vital e com distintas perturbações do funcionamento mental.
A antiga e laboriosa domesticação da carne pelo corpo e deste pela alma desagrega-se, e todos os componentes se autonomizam e entram em conflito. A carne torna-se problemática, a animalidade ressurge, as formas de vida tornam-se fantasmas (…) devemos entender os fantasmas tal como os descreveu Stirner: sistemas, ideias, valores à procura de encarnar-se, todos substituindo a antiquíssima alma.
Bragança Miranda in “A felicidade da história”, texto de apresentação a Quarteto de Heiner Muller
A psicanálise é, desde os primórdios, uma teoria psicológica “habitada” pelo corpo e exercitada pelo jogo psicossomático de figurações evanescentes e potencialmente representáveis, num tempo psíquico marcado pelo encontro de um imaginário diacrónico com a realização sincrónica do desejo de saber de si a partir do outro, e vice-versa.
Esta metapsicologia, de diversa formulação teórica, inicia em Freud a tentativa de lisibilidade do psyhe-soma fundador do sujeito psíquico, através do conceito da pulsão (representante psíquico do instinto sexual e agressivo) e dos seus destinos, consequentes à resolução do conflito, entre pressão para a descarga pulsional e superego, que ora eficazmente mediado pelo ego, tópos dos processos secundários, ora vertido em sintoma. Em Lacan, o corpo está à mercê da linguagem e da ordem
Artigo recebido em 8 de Novembro de 2016 e aceite para publicação em 12 de Fevereiro de 2017.
Artigo apresentado no 31° Congresso Latino-Americano de Psicanálise – FEPAL – em Cartagena, Colômbia, de 13 a 17 de Setembro de 2016, sobre o tema – Corpo.
Psiquiatra. Psicanalista. Membro Titular, com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Membro da Comissão de Ensino da SPP. e-mail:
Psicóloga clínica. Psicodramatista. Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).
simbólica (Fink, 1995), imerso num jogo de significantes que seguem o mesmo destino das pulsões na “mecânica” dualista (regressão versus subjetivação) derivada de Freud.
Por sua vez, Klein impregna as pulsões originárias nas impressões sensório-emocionais do Self primitivo do infans e “submerge-as” num jogo de substituições metonímicas em que raivas, invejas, desejos e frustrações se expressam como fantasias inconscientes de conteúdos corpóreos (fezes, urina, leite, pénis) sujeitas à ação transferencial de defesas narcísicas (clivagem, projeção, negação e idealização), até que a identificação projetiva com o objeto (cindido) da posição esquizo-paranóide se transforme em reparação ambivalente e identificação ao objeto (total) da posição depressiva.
O setting, que institui a situação analítica, reflete a evolução da teoria psicanalítica e o alargamento do seu campo de ação, sobretudo pela valoração da comunicação de inconscientes do par analítico (Ferenczi, 1949), que inclui a corrente libidinal (Fenichel, 1939 e Balint, 1950) e as trocas emocionais e afetivas (Alexander, 1935) em que o inscriptio corpóreo é partilhado em díade. Embora em colocação epistemológica diferente, também Winnicott (1951) valoriza o “cenário terapêutico” (Farate, 2012) da psicanálise como “objeto transicional” do Self infantil do analisando, que cumpre a função de holding environment – de “ambiente-mãe” (Bollas, 1979) – em que o “espaço potencial” criado pela “sobreposição de duas áreas de jogo, a do paciente e a do terapeuta” (Winnicott, 1968: 591) permite ao Self infantil do primeiro experienciar a integração psicossomática dos núcleos narcísicos e afetivos da personalidade.
Esta evolução do setting abre o caminho à dialética intersubjetiva eu-outro na relação analítica, enunciada na noção de “duplo-limite” de Green (1990) e concretizada por W. e M. Baranger (1961-62), ao conceptualizarem uma fantasia inconsciente ao par analítico estruturante de um campo bipessoal dinâmico, que Ogden (1994) com o conceito de “terceiro intersubjetivo”, Donnet (2001) com a formulação da “situação analisante”, e Ferro (2009) com a noção da “co-construção narrativa” operada pelo par analítico, confirmaram e expandiram.
Mas é Bleger (1967a) que introduz mais decididamente o corpo do analista no setting ao inscrevê-lo como “não-ego” simbiótico, indiferenciado e primitivo na “moldura analítica” (o “não-processo psicanalítico”) que funciona como esteio incontornável à progressiva diferenciação do ego (o processo psicanalítico). Lemma (2015) considera que este embodied setting (setting corporificado) funciona como um “núcleo aglutinado”, um ego corpóreo primitivo (no sentido de Freud, 1923) que é sede dos “níveis sensoriais e pré-simbólicos de experiência” (Lemma, 2015: 113) que alguns analistas desenvolvem em processo de transferência-contratransferência com pacientes mais regredidos e dissociativos.
Enfim, estas embodied phantasies (“fantasias corporificadas”) formalmente não representáveis do paciente podem então, para Bronstein (2013), dar lugar a respostas contratransferenciais somáticas do analista.
Estas respostas contratransferenciais são modificadas pelo mundo interno do analista, como faz notar Ogden (1999: 158) ao referir-se aos “estados de rêverie sobrepostos de analista e analisando”, em que “ruminações, sonhos diurnos, fantasias, sensações corpóreas, percepções fugazes (…)” do analista constituem “um acontecimento simultaneamente pessoal/privado e intersubjetivo” (1999: 158) a ambos.
Os fragmentos que se seguem de duas análises, de uma jovem adulta e de uma menina, servem de ilustração clínica aos propósitos enunciados.
Áurea é uma jovem de 23 anos e hábito corpóreo franzino para a idade cronológica, magra e parca de silhueta feminil, de estatura meã para o baixo, a tez morena e o rosto oblongo expressivo, mas de olhar fugidio. É marcada a tibieza na interação com os pares e o evitamento defensivo no corpo-a-corpo com os adultos, sobretudo “portas adentro” com os pais. O relacionamento com a mãe, mulher de corpo firme, busto farto e vontade indómita (a despeito de uma vida conjugal e, por extensão, profissional feita mais de desventuras que de prazeres) é particularmente problemática. Filha única de um casal desequilibrado em que o pai, também de hábito corpóreo magro e estatura para o baixo, parece ser homem de pouca iniciativa e socialmente inibido, cursa Gestão de um modo superficial, já que nunca conseguiu incorporar o “hábito” universitário no duplo plano relacional e intelectual. Iniciou uma psicanálise comigo há 4 anos, trazida pelos pais preocupados com o comportamento regressivo de Áurea, em particular, a sua tendência de procurar a companhia de raparigas mais novas, infantes e jovens adolescentes, com as quais se entregava a brincadeiras em aparência pueris, mas em que o prazer nos jogos masturbatórios e a excitação táctil suscitavam a irritação dos pais e a censura crítica do círculo social de referência. A relação psicanalítica, iniciada aos 19 anos, instala-se com dificuldade e a desconfiança de que me preparo para “invadir” o seu espaço interno ao serviço da “sociedade” parental opressiva. A pouco e pouco vou conquistando a sua confiança, sem “estremecer” os limites fugazes de um Self corpóreo de “pele fina” (Rosenfeld, 1987) que só lenta e timidamente vai desvelando algumas recordações de infância, “instantâneos” soltos e fragmentários, como se não
tivessem “pele mnésica” para os integrar. Por essa altura, refere-me como o roupeiro do seu quarto é usado pela mãe para guardar muitos dos seus vestidos, tornando os seus aposentos uma espécie de “território de passagem” imiscuído sem licença por um corpus materno opressivo. Só encontra refúgio precário na sala de estar “imersa” na internet (ocupada, não raro, a contactar as “amiguinhas” e a marcar encontros fortuitos, sobre os quais se foi “abrindo” a pouco e pouco no “quarto” analítico progressivamente sentido como “continente” (Bion, 1963) para os medos, inseguranças e fantasias regressivas, sob a supervisão firme e empática de um analista-pai maternante e regulador). Os silêncios eram longos em sessão, o que costumo tolerar com dificuldade. A pouco e pouco fui entendendo os diferentes significados deste “silêncio” psicossomático: necessidade de autorização para “corporificar” a palavra; espera pela corporalização de um Desejo (no sentido do “Grande Outro” de Lacan) inexprimível; fantasia simbiótica de confusão com um corpóreo simbiótico e indiferenciado . A pouco e pouco um retículo mnésico sensível foi sendo entretecido, a infância tímida e retraída, com poucas amigas e brincadeiras solitárias de um autoerotismo amorfo e a adolescência de corpo embotado e libido inibida. É como se a procura das raparigas, tocar-lhes o corpo, acariciá-las, brincar os seus jogos masturbatórios pudesse devolver a Áurea “fragmentos” de um Eucorpóreo em défice de integração psíquica como Eu-pele e sustentáculo narcísico de um (futuro) advir adulta. Em uma sessão recente traz um sonho que a fez sentir angustiada (ainda está angustiada). Escuto-a com uma sensação de estranheza, como se a sua voz tivesse uma tonalidade fugidia e imprecisa e ela diz-me:
Que sonho tão estranho, estava a assistir ao desfile da ‘Queima das Fitas’ [uma festa académica]… Era eu, estou ciente disso. De repente vejo-me no desfile, mas não sou eu, é outra pessoa, muito mais nova do que eu. Era a Rute, uma rapariguita de que fui amiga há algum tempo… Sentia que era como se ela tivesse tomado conta da minha pessoa. Ainda me lembro que fiquei assim num sentimento difuso de estranheza, paralisada, sem conseguir ir ter com ela. Ela era eu, mas mais nova e, quando acordei, fiquei por um momento confusa, abri a luz e vi-me ao espelho, como se tivesse de me certificar do meu corpo, da minha pessoa.
Fica em silêncio e eu sinto-me contratransferencialmente a Áurea sonhadora que alucina o desdobramento em um corpo de menina que “desfila” na minha (na nossa) mente em comum. Suspira e diz em murmúrio “que estranho, ao mesmo tempo estou a sentir-me liberta ao contar-lhe isto” e eu digo-lhe, depois de um momento fugaz, que “é como se a Áurea pudesse, enfim, ir recuperando um corpo seu, de menina adolescente, que estava reprimido, que ainda não podia desfilar nos seus sonhos de jovem mulher”. Ficamos em silêncio e eu vou sentindo, vamos sentindo, progressivamente, um apaziguamento e um bem-estar que transforma o estranho (unheimliche) de há pouco em sensação familiar (heimeliche) de integração psíquica (Freud, 1919) de uma identidade feminil longamente alienada da sua mente, por via da satisfação onírica de um desejo tanto tempo reprimido.
Rita, atualmente com 8 anos de idade, é uma menina seguida em tratamento psicanalítico desde os 5 anos. Como manifestações mais graves do seu sofrimento psíquico, a encoprose e a inibição relacional com adultos e pares sobre um fundo de ligação ansiosa a uma mãe frágil e projetivamente identificada à insegurança afetiva desta filha. Com efeito, a insegurança da filha parece atualizar a labilidade emocional e material da relação com a própria mãe (avó materna da menina, com quem a Rita praticamente não tem relação).
A menina é filha única de um casal incerto e circunstancial e nasceu de parto normal, após uma gravidez que decorreu em clima psíquico desfavorável pelo estado depressivo flutuante da mãe. Clima “depressivo” que deu lugar, após o seu nascimento, a uma depressão “vazia” pós-parto que muito se refletiu na relação precoce mãe-filha.
Menina de corpo franzino e tez morena, com um rosto fino em que despontam uns olhos grandes de brilho triste, Rita recusava-se inicialmente a ficar com a analista no espaço terapêutico, em atitude regressiva omnipotente, aninhando-se ao colo da mãe de um modo que a analista observava (e sentia) confundido, já que pareciam “esculpidas” em um só corpo. Quando procurava aproximar-me desta unidade simbiótica regressiva Rita-Maria (Maria é o nome da mãe), ora era “atacada” pelo cheiro a cocó que a “repelia” com imundíciesraivas e “cheiretes”, medos, ora era afrontada pelo virar de rabo de uma “Rita-Maria” de olhos fechados e em posição fetal “dentro” de um útero materno depressivo e complacente. Só ao fim de 3 meses aceitou ir ficando com a analista na sessão (tendo a mãe iniciado acompanhamento psicoterapêutico com outro psicanalista). As sessões com Rita provocavam na analista um cansaço psicossomático difícil de suportar, já que tinha de estar à escuta de um medo “arcaico” de rejeição projetado maniacamente em si. Sentia-se, não raro, “transfigurada” na personagem fantasmática de uma mãe-analista afetivamente lábil e materialmente insuficiente. Numa sessão próxima das férias grandes, Rita meneia o
corpo, em frenética agitação, entre um desenho inacabado, um jogo de “faz-de-conta” incipiente e uns grafismos “pictográficos” que rascunha num papel ao acaso. Isto é, não brinca, o que a analista lhe faz notar em tom de voz firme e contentor. Ouve-a e, de imediato, cruza os braços, para, imponente no seu corpito franzino, dizer verbal e gestualmente à analista que não vai querer brincar, “ordenando-lhe” que seja ela a brincar enquanto Rita fica a assistir como espectadora. Torna-se depois uma espécie de realizadora, já que delimita o espaço com bancos e se coloca atrás em atitude de observação diretiva. Diz à analista que ela é uma menina que se estava a comportar mal e a analista faz de conta que está a ter uma “birra”, ralhando que não vai fazer nada do que lhe dizem para fazer porque a deixaram sozinha. Vai mas é atirar lama para todos os que se aproximarem dela. Rita entusiasma-se e incentiva a analista a continuar. Diz de seguida à analista que de um lado é uma casa e do outro a rua, e que foi despedida de casa e ficou a viver na rua. Como gritou e fez asneiras, foi despedida. A analista faz o que ela diz, e ela acrescenta que não tem cama nem comida, que está sozinha e que é muito pequena. Ainda por cima é de noite e não pode sair dali, até porque ninguém a vai buscar. Neste momento da sessão, a analista começa a sentir um mal-estar físico progressivo, uma sensação de frio e sente-se como que “envolta” numa “película” psíquica de enorme tristeza que a impede de continuar a ouvir as ordens da Rita. O tempo da sessão está a chegar ao fim e ninguém vem buscar a Rita, já que, como soube mais adiante, os pais se atrasaram 40 minutos sem avisar. A analista fica “enredada” com ela nesta espera incerta, que, ademais, lhe “impôs” o atraso irremediável no compromisso que tinha de ir buscar a sua filha (que não pôde avisar por estar fisicamente impossibilitada de o fazer). A caminho de casa, a tristeza e a sensação de desconforto físico não deixaram de incomodar a analista, preocupada como estava com o sofrimento de Rita. À noite, já em sua casa, teve uma recordação de infância, e lembrou-se da sensação de desamparo e do medo que sentia de se perder da sua mãe quando ela lhe contava a história da “Menina dos Fósforos” de H. Christien Andersen. Recordou-se, até, de como lhe pedia para nunca morrer, ao que a mãe respondia empática e carinhosamente, dizendo-lhe que iria ficar sempre com ela e aconchegando-a no seu regaço. A reflexão íntima sobre esta fantasia infantil, fê-la tomar consciência quer da sua contraidentificação concordante ao infantil desamparado e libidinalmente inibido da Rita, quer da contraidentificação complementar a uma mãe interna frágil e insegura, já que “clivada”, ela própria, de uma figura materna aconchegante e securizante (que, na memória contratransferencial da sua infância, pôde re-experienciar psiquicamente). Esta tomada de consciência tem tido uma enorme importância no aprofundamento do trabalho psíquico sobre a clivagem da mãe interna e na progressiva resolução do sentimento de desamparo e da inibição libidinal da Rita.
O trabalho psicanalítico, tanto com Áurea como com Rita, parece ilustrar com detalhe a importância da escuta inconsciente do analista em relação a aspetos pré-simbólicos e formalmente não representáveis, aliás, no caso de ambas dificilmente figuráveis, tal era a intensidade do agir somático “encoprótico” em Rita e do silenciar psicossomático de um corpo deslibidinizado, logo impensável e inefável, em Áurea.
Ora, tanto na relação de par analítico que o analista entretece com Áurea, como na díade analista-Rita, são identificados importantes movimentos transferenciais-contratransferenciais, em que a noção de “setting corporificado” de Lemma (2015) encontra ilustração significativa.
Referimo-nos tanto aos silêncios e à quase imperceptibilidade sensível de um corpo sem palavra que o possa substanciar em Áurea, como ao “invólucro” regressivo sádico-anal primitivo “imposto” à analista pela “confusão” simbiótica Rita-Maria (figurando o “não-ego” ou o “núcleo aglutinado”, a que se refere Bleger, 1967) como oposição à díade como relação construtiva, i.e., como processo psicanalítico. E de que a analista só conseguirá definitivamente libertar-se quando na sessão apresentada interpreta, pelo jogo, o sentido deste agir “encoprótico” primitivo, numa interessante transformação projetiva em que Rita se “transfigura” em realizadora-mãe-analista cruel e rejeitante e “assiste” ao (seu) sofrimento abandónico na “pele” de analista-filha que, apesar do intenso sofrimento psicossomático (que ilustra bem a interessante noção de “estado corporal da mente” proposta por Lemma, 2015) consegue a transformação psíquica do agir de Rita ao incarnar/representar a menina que faz “birras” porque não tem o calor e a atenção maternante carinhosa de que necessita.
Este “instantâneo” de grande riqueza técnica (e ética) traduz tanto a interpretação do setting simbiótico, no sentido de Bleger (2015), como a dessubjectivação, e consequente ruptura, do enactment depressivo da analista, ora em contraidentificação complementar (Racker, 1958) à mãe interna “fria” e incapaz de Rita, ora em contraidentificação concordante (Racker, 1958) ao Self infantil triste e revoltado de Rita (a que o dramatismo do acting-out parental, em curiosa colusão psíquica com a fantasia onírica da sessão, introduz uma nota de re-experienciação traumática reveladora).
A este propósito, importa realçar a importância da rêverie quer intra-sessão (o jogo tem um carácter
Na versão que a analista ouvia em criança a menina era órfã e só tinha um padrasto alcoólico que a agredia se ela não trouxesse o dinheiro da venda dos fósforos. Na véspera de Natal, a menina, descalça no meio da neve, tentava vender os fósforos, mas ninguém a via/ouvia, todos estavam focados nas compras de Natal. Anoiteceu e não tinha vendido nada, não queria voltar para o padrasto que a ia agredir e então, cheia de frio, começou a acender os fósforos para se aquecer. Acabou por morrer de frio a olhar para uma estrela aonde estava a sua mãe.
de “rêverie a dois”, também a fazer lembrar o “sonho para dois”, a que Cassorla (2013), numa óptica bioniana, se refere como instrumento psíquico apto a destrinçar um enactment regressivo na relação analítica), quer extra-sessão (de facto um segundo tempo da sessão, como defendemos em trabalho anterior com a noção de “setting expandido da relação analítica”, Farate, 2102) com a lembrança do medo e do desamparo que a analista sentia na sua infância quando a mãe lhe contava a história da “menina dos fósforos”.
Também em Áurea, de um modo diferente embora complementar, é possível identificar a importância da dessimbiotização de um setting corpóreo/“quarto” analítico que, no início, reeditava psiquicamente o “quarto” da casa/corpo diluído e “perpassado” de modo intrusivo por uma mãe interna sentida, e fantasiada, como um corpus fálico e castrador da sua libidinização adolescente.
É esta dessimbiotização que permitirá a Áurea e ao analista libertarem-se progressivamente do enactment silencioso, indiferenciado e regressivo a que estavam psiquicamente confinados. Por outro lado, a reconstituição delicada e paciente do retículo mnésico de Áurea possibilitar-lhe-á entrar em contacto com um imaginário adolescente homossexual e narcisante até aí inibido (movimento psíquico ao qual nos referimos, a partir do contributo de Anzieu (1995), como a progressiva transformação do Eu-pele em Eu-psíquico diferenciado e articulado com o Eu-corporal).
Ora, o “instantâneo” onírico da sessão dá conta da transformação psíquica de um “estado corpóreo da mente” (Lemma, 2015) partilhado pelo par analítico (a “estranheza” da transfiguração onírica do corpo de Áurea e da sua “amiguinha” e a própria “estranheza” do analista ao sentir-se, em estado de rêverie, a Áurea sonhadora que vê desfilar o seu corpo de menina), pela interpretação dessubjectivante da fantasia que subjaz ao desejo da corporificação de uma identidade feminil longamente alienada da sua mente.
Finalmente, mesmo se o corpo está sempre presente na sessão psicanalítica e o setting lhe dá espessura e representação de coisa idealizada e acessível à fantasia, não deixa de ser a representação de palavra a mediar a sua apropriação psíquica pelo sujeito ao longo do processo psicanalítico.
RESUMEN
Queda distante el tiempo en que el “setting” era abordado exclusivamente como dispositivo formal del contrato terapéutico entre analista y paciente. Desde Bleger (1967) el “setting”, “moldura” simbiótica del proceso psicoanalítico, se convierte en “objeto analítico” (Green, 1975 [1990]) y objeto de interpretación en momentos “críticos” de cambio psíquico. Como refiere Lemma (2015) la resistencia al cambio psíquico es obrada por el transfer simbiótico hacia el encuadre indiferenciado, “núcleo aglutinado” (Bleger, 1967a) de elación sensorial-emocional del yo corporal primitivo del paciente. Las fantasías pre-simbólicas que “circulan” en estos estados regresivos inducen a la contratransferencia somática (Bronstein, 2013) y a la difícil de-subjetivación del material proyectivo que mantiene el “enactment” esquizoparanoide, si non ambiguo (Bleger, 2013 [1967b]) del par analítico. Sólo la “rêverie” del analista (Ogden, 1999) permite dessimbiotizar el “setting” corpóreo y rescatar las capacidades de sueño y de libre juego asociativo del par analítico. El propósito de este trabajo es discutir la transformación de los “estados corpóreos de la mente” (Lemma, 2015) en respuesta a las dificultades de transferenciacontratransferencia planteadas por el manejo del “setting” en la relación terapéutica con dos pacientes en diferentes etapas del ciclo vital y sofriendo de trastornos distintos del funcionamiento mental.
PALABRAS-LLAVE: setting corpóreo, desimbiotización, asociación libre, simbolización
ABSTRACT
The time when the setting was exclusively approached as a formal device of the therapeutic contract between analyst and patient is long gone away. In fact, from Bleger (1967) on the setting, taken as symbiotic “frame” of the psychoanalytic process, became an “analytic object” (Green, 1975 [1990]) subject to interpretation in “critical” moments of psychic change. As Lemma (2015) puts it the resistance to psychic change is acted-out through the persistent symbiotic transference to an undifferentiated analytical setting taken as “agglutinated core” (Bleger, 1967a) of the sensorial-emotional elation of the patient's primitive bodily ego. The pre-symbolic fantasies that “circulate” in these regressive states can cause in the analyst both a somatic countertransference (C. Bronstein, 2013) and an extreme difficulty in the desubjectification of the patient's projective material that keep the analytic pair either in a schizoid-paranoid or an ambiguous (Bleger, 2013 [1967b]) enactment. In such moments only the analyst's capacity of “rêverie” (Ogden, 1999) can disentangle the symbiotic bodily “setting” and repair the dreamy and free associating capabilities of the analytical pair. The aim of this paper is to reflect upon the transformation of these “bodily states of mind” (Lemma, 2015) in response to the transference-countertransference difficulties raised by the management of the setting in the therapeutic relationship with two patients at different phases of their life cycle and suffering from diverse disorders of mental functioning.
KEY WORDS: bodily setting, symbiotic disentanglement, free association, symbolization
RÉSUMÉ
Le temps où le «setting» analytique était pris exclusivement comme dispositif formel du contrat thérapeutique entre analyste et patient est terminé. En effet, après Bleger (1967a) le «setting», pris comme «encadrement» symbiotique du processus psychanalytique, est devenu un «objet analytique» (Green, 1975 [1990] soumis à interprétation dans les moments «critiques» de changement psychique. D'après Lemma (2015) la résistance au changement psychique est agie par l'insistance sur le transfert symbiotique à un setting indifférencié et pris comme «noyau agglutiné» (Bleger, 1967a) de l'elation sensorielle-émotionnelle du moi corporel primitif du patient. Les fantasmes présymboliques qui «circulent» dans ces états régressifs induisent alors au contretransfert somatique (C. Bronstein, 2013) et à la difficile de-subjectivisation du matériel projectif qui maintient l' enactment schizo-paranoïde, ou même ambiguë (Bleger, 2013 [1967b]), du pair analytique. Seule la capacité de «rêverie» de l'analyste (Ogden, 1999) permet le clivage de ce setting corporel symbiotique et la récupération des capacités de rêver et d'associer librement du pair analytique. Le but de cet article est de réfléchir sur la transformation des «états corporels de la psyché» (Lemma, 2015) en réponse aux difficultés transférentielles-contretransférentielles soulevées par la gestion du setting dans la relation thérapeutique avec deux patientes en phases distinctes du cycle vital et souffrant de troubles psychiques différents
MOTS-CLÉS: setting corporel, clivage symbiotique, association libre, symbolisation