No início do mês de setembro de 2014, mais precisamente entre 4 e 6 de setembro de 2014, teve lugar em Buenos Aires o 30.° Congresso da Federação Latino-Americana de Psicanálise (FEPAL), sob o tema geral «Realidades y Ficciones».
Tema bem escolhido para um Congresso a ter lugar numa cidade deslumbrante e de riquíssimo inscriptio histórico e cultural, «berço» e lugar mítico de inspiração de escritores de exceção e cultores geniais de narrativas ficcionais oníricas em verso e prosa (Jorge Luís Borges como referência maior, é certo, mas também Julio Cortázar, escritor porteño, irreverente e incansável «viandeiro» do amor, que construiu a sua ficção novelística entre Buenos Aires e Paris e que foi objeto de homenagem neste Congresso em que se mesclaram harmoniosamente cultura e ciência).
Mas Buenos Aires é também uma cidade de tradição psicanalítica ímpar, foz do mítico Rio de la Plata, em que «desaguou» a psicanálise europeia trazida por «estrangeirados» de brilhante recorte teórico e clínico (Angel Garma e Pichon-Rivière, de entre outros nomes de referência psicanalítica) num movimento de vai e vem transatlântico — que teve, e tem, sobretudo em Madrid, seguida de Paris, os lugares privilegiados dessa fecunda «troca de saberes».
Esta cidade, de onde, parafraseando o poeta, «Houve nome a Psicanálise» para o continente sul-americano, foi o primeiro lugar de formação e de divulgação da «boa-nova» psicanalítica no Hemisfério Sul, e alberga, de entre outras instituições de prestígio internacional, a histórica Associação Psicanalítica Argentina (APA), que foi «viveiro» dos homens e mulheres que primeiro deram corpo (e palavra) à psicanálise latino-americana.
O Congresso deu bem conta desta mouvance, já que teve mais de 2000 participantes de variada formação (psicanalistas e estudantes de psicanálise, profissionais de saúde, estudantes e docentes universitários, personalidades da arte, da literatura e das humanidades) que se integraram em trabalhos de: workshops, painéis subtemáticos, grupos de discussão, cursos livres, mesas-redondas, jornadas (educação, investigação, arte e psicanálise, psiquiatria e psicanálise), conferências teóricas, clínicas e científicas, comunicações livres, sessões de pósteres e sessões de exercícios clínicos (seguindo a metodologia da «escuta da escuta» adaptada a um auditório público), além dos grupos de trabalho pré-Congresso (métodos clínicos comparativos, educação, supervisão) e das atividades clínicas pré-Congresso da OCAL, a organização de candidatos da FEPAL.
Estas diferentes modalidades de intercâmbio, de divulgação científica e de troca de saberes envolveram mais de três centenas de colegas argentinos, brasileiros, chilenos, peruanos, mexicanos, colombianos, mas também de outros países sul e centro-americanos, além de psicanalistas europeus e estado-unidenses.
Os subtemas abordados incluíram, entre outros domínios, a formação psicanalítica, a supervisão, a articulação entre psicanálise e psiquiatria, entre psicanálise e saúde comunitária, entre pediatria e psicanálise e entre educação básica, secundária e superior e psicanálise, a investigação em psicanálise e em psicoterapia psicanalítica e a psicanálise aplicada às artes, às humanidades e às ciências sociais.
Este foi, em suma, um conclave psicanalítico internacional de grande riqueza cultural e científica, a que o «colorido» afetivo e artístico, nomeadamente musical, da grande metrópole argentina deu o tom, e que se desenrolou em diferentes espaços da ciência, do ensino e da cultura da cidade (Museu Nacional de Belas Artes, Faculdade de Psicologia da USAL, Faculdade de Ciências Económicas da UBA, Hospital Borda,
Nota: o texto escrito em língua portuguesa está de acordo com o recente Acordo Ortográfico.
Fundação Universidade do Cinema), além de duas das Sociedades Psicanalíticas de Buenos Aires (APA e APdeBA).
Os participantes portugueses distribuíram-se por vários eventos psicanalíticos, desdobraram-se em contactos com colegas de diferentes países e culturas psicanalíticas, e protagonizaram: um grupo de discussão intercultural acerca da Formação em Psicanálise (Alexandra Coimbra); um workshop (taller) subordinado ao tema da Supervisão, uma comunicação livre e um póster (investigação) e uma comunicação em mesa-redonda relacionada com Investigação em Psicanálise (Carlos Farate).
É precisamente numa destas reuniões científicas, o workshop acerca da Supervisão em Psicanálise, que me debruçarei de seguida, de acordo com a seguinte estratégia de apresentação:
Título do workshop/taller (em português, espanhol e inglês);
Participantes;
Resumo temático (em português, espanhol e inglês);
Comunicações apresentadas por cada um dos participantes (português e espanhol).
Importa referir que os textos ora publicados apresentam formatos diversos, já que constituem contributos personalizados de cada um dos membros do workshop para o desenvolvimento do tema «Supervisão entre realidades e ficções narrativas» em diálogo interpares.
Assim sendo, refletem os estilos pessoais, também de escrita, de cada um dos psicanalistas em diálogo, entre si e com os participantes no workshop, e dão conta de abordagens diferentes, embora complementares, ao trabalho de supervisão, sobretudo como pilar da tríplice formativa da Psicanálise (ao mesmo tempo da análise didática e da formação teórico-clínica).
O primeiro texto constitui uma Introdução ao workshop pelo seu coordenador e os textos seguintes seguem a ordem em que foram lidos pelos diferentes participantes. O último texto é particularmente interessante, já que constitui o contributo de uma não-psicanalista para o trabalho de supervisão, cujo enfoque é a interpretação das narrativas ficcionais trazidas à sessão pelo supervisando na perspetiva hermenêutica (fundadora da exegese psicanalítica).
Embora a notação que se segue acerca desta riquíssima experiência de intercâmbio transcultural entre pares não inclua uma Conclusão (que pudesse ilustrar os momentos mais importantes do debate vivo que aconteceu entre membros e participantes), esse facto não retira a vivacidade ao registo que é submetido à leitura.
E isto acontece, sobretudo, porque os diversos textos apresentados condensam, de um modo analítico e crítico, os pontos mais importantes que foram debatidos na reunião.
Espero que a textura de cada um não desmereça a vivacidade da sua leitura oral, que é o mesmo que dizer, por escrito, que faço votos para que os leitores possam captar a riqueza dialógica dos conteúdos teórico-clínicos de cada um destes contributos escritos.
Supervisão: diálogo entre realidades e ficções narrativas.
Supervisión: diálogo entre realidades y ficciones narrativas.
Supervision: dialogue between realities and fictional narratives.
Carlos Farate (membro titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise – SPP, diretor do Instituto de Formação e Terapêutica Psicanalítica da SPP e membro da Comissão de Ensino da SPP); Carlos Barredo (membro titular com funções didáticas da APdeBA – Asociación Psicoanalítica de Buenos Aires, coordenador científico da FEPAL entre 2010 e 2012, representante da América Latina no Board da IPA), Mónica Chama (mestre em Cultura e Saúde Mental do IUSAM – APdeBA), Carlos Guillermo Bigliani (membro da APdeBA e coordenador do Centro «Berggasse 19» em São Paulo), Regina Tralhão (professora no Instituto Superior Miguel Torga de Coimbra, Portugal, e doutoranda em Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).
Ao colocar a tarefa de supervisão em perspetiva, damo-nos conta da sua tríplice função na instituição psicanalítica: avaliação, investigação e formação. Com efeito, o ato de supervisionar cumpre uma função simultaneamente de avaliação (avaliação técnica e exame teórico da capacidade de o candidato a analista se titular como membro efetivo do Instituto); de investigação (movimentos transferenciais e contratransferenciais, labor interpretativo acerca da narrativa do paciente e manutenção do enquadramento e fluidez do processo psicanalítico); e de formação (ensino clínico, aplicação da teoria à ação terapêutica e ética da relação psicanalítica). Esta triangulação formal contém uma outra triangulação funcional que diz respeito à interação dinâmica (não-linear) dos pares:
analista/supervisor (S) – candidato (analista)//supervisando (C);
candidato/supervisando (C) – paciente/analisando (P);
analista/supervisor (S) – paciente/analisando (P).
Ora, a integração crítica deste duplo plano formal e funcional supõe o manejo da relação intersubjetiva S↔C↔P sob mediação institucional. Como solucionar, então, as possíveis emergências conflituais (dúvida, impasse, crise) do processo de supervisão no plano pessoal e organizacional, através da hermenêutica e da análise expressiva da realidade (técnica e clínica) do processo de supervisão e das ficções narrativas (fantasias de par S↔C, C↔P, S↔P e fantasias de grupo no interior do Instituto)? Os membros do workshop, de diferentes Institutos de Psicanálise Ibero-americanos, apresentam para debate propostas de reflexão/ação formuladas a partir da sua experiência pessoal e institucional, enfatizando os conceitos de campo psíquico, de transferência e contratransferência, de limite e duplo-limite, de intersubjetividade e terceiro intersubjetivo, de metáfora relacional e de aplicação da hermenêutica à análise compreensiva das ficções narrativas do triângulo S↔C↔P.
PALAVRAS-CHAVE: supervisão, campo inconsciente e fantasias de par, realidades institucionais, análise narrativa e expressiva, transferência e contratransferência.
RESUMEN
Al colocar la tarea de supervisión en perspectiva nos damos cuenta de su triple función en la institución psicoanalítica: evaluación, investigación y formación. De hecho, el acto de supervisar tiene una función simultáneamente de evaluación (evaluación técnica y examen teórico de la capacidad del candidato a analista de titularse como miembro efectivo del Instituto); de investigación (movimientos transferenciales y contratransferenciales, labor interpretativa de la narrativa del paciente y mantenimiento del encuadre y fluidez del proceso psicoanalítico); de formación (enseñanza clínica, aplicación de la teoría a la acción terapéutica y ética de la relación psicoanalítica). Esta triangulación formal contiene una otra triangulación funcional respecto de la interacción dinámica (no-lineal) de los pares:
analista/supervisor (S) – candidato (analista)/supervisando (C);
candidato/supervisando (C) - paciente/analizando (P);
analista/supervisor (S) - paciente/analizando (P).
Ahora bien, la integración crítica de este doble plano formal y funcional supone el manejo de la relación intersubjetiva S↔C↔P bajo la mediación institucional. ¿Como solucionar entonces las posibles emergencias conflictuales (duda, impase, crisis) del proceso de supervisión en los planos personal y organizacional a través de la hermenéutica y del análisis expresivo de la realidad (técnica y clínica) del proceso de supervisión y de las ficciones narrativas (fantasías de par S↔C, C↔P, S↔P y fantasías de grupo al interior del Instituto)? Los miembros del taller, de diferentes Institutos de Psicoanálisis iberoamericanos, presentan propuestas de reflexión para el debate a partir de su experiencia personal e institucional, enfatizando los conceptos de campo psíquico, de transferencia y contratransferencia, de límite y doble-límite, de intersubjetividad y tercero intersubjetivo, de metáfora relacional y de aplicación de la hermenéutica al análisis comprehensivo de las ficciones narrativas del triángulo S↔C↔P
PALABRAS CLAVE: supervisión, campo inconsciente y fantasías de par, realidades institucionales, análisis narrativo y expresivo, transferencia y contratransferencia.
ABSTRACT
Once the supervisory task is in prospect we become aware of its triple function in the psychoanalytic institution: evaluation, investigation and formation. Indeed, the supervisory act performs simultaneously a function of: evaluation (technical appraisal and theoretical proof of the skills the psychoanalytic candidate shows to become a member of the Institute); investigation (transference and countertransference movements, interpretive labour on the patient's narrative, maintenance of the setting and fluidity of the psychoanalytic process); formation (clinical teaching, application of theory to therapeutic action and to the ethics of the psychoanalytic relationship). This formal triangulation encompasses a functional one that concerns the dynamic (non-linear) interaction of the following pairs: analyst/supervisor (S) – candidate/supervised (C); candidate/supervised (C) – patient/analysand (P); analyst/supervisor (S) - patient/analysand (P).
No início da minha prática psicanalítica, terminava, invariavelmente, a sessão dizendo ao paciente «Bom, ficamos por aqui hoje». Ainda hoje, ao fazer a supervisão de um caso de psicanálise ou de psicoterapia, tenho por hábito fazer notar ao supervisando a analogia entre a estrutura narrativa do material da sessão e uma peça operática em que os temas da Abertura, depois de desenvolvidos nos diferentes tempos/cenas do libreto, são reapresentados no Finale.
Que valor atribuir a estas intervenções? Método ou estilo pessoal? Utensílio técnico ou ato de rememoração? Realidade técnica ou ficção pessoal?
Ao refletir na supervisão, somos confrontados com uma literatura que a define como processo e destaca a realidade da dimensão didática (como pilar do modelo tripartido da formação psicanalítica, com a análise didática e a formação curricular), relegando para plano secundário a reflexão acerca do manejo da contratransferência por parte do supervisando como resposta às interferências da transferência na ficção narrativa (onírica) do paciente em sessão.
Retomo analogicamente uma brilhante asserção de H. Etchegoyen (1989) acerca da transferência e afirmo que, se, em toda a supervisão, a contratransferência do supervisando na relação com o paciente está presente, nem tudo o que é apresentado como contratransferência o é realmente.
E isto tanto mais quanto não é possível, hoje em dia, pensar na supervisão sem a considerar, seja na intersecção dos três pares de atores (supervisor ↔ supervisando ∩ supervisando ↔ paciente ∩ supervisor ↔ paciente), seja na sua complementaridade triádica (supervisor ∪ supervisando ∪ paciente), privilegiada, esta última, pelos psicanalistas que se inscrevem nas perspetivas intersubjetivista, interativa e interpersonalista do processo psicanalítico.
Esta complexificação da supervisão decorre da introdução do conceito kleiniano (retrabalhado por W. Bion) de Identificação Projetiva no léxico e na prática psicanalítica.
Com efeito, se a metapsicologia freudiana situa o trabalho de supervisão no âmbito da, designemo-la assim, «neurose de contratransferência» (correlato da neurose de transferência) e orienta a interpretação da transferência para a ficção narrativa edipiana, já a epistemologia pós-kleiniana adensa a «trama» do binómio
The critical integration of this double plan (formal and functional) supposes the managing of the intersubjective relationship S↔C↔P under institutional mediation. How is it then possible to solve out the possible conflictual issues (doubt, impasse, crisis) of the supervisory process both in the personal and organizational plans through the hermeneutics and the expressive analysis of the reality (technical and clinical) of this process along with its narrative fictions (unconscious fantasies of pair S↔C, C↔P, S↔P and of group inside the Institute)? The members of the Workshop, from different Iberioamerican psychoanalytic institutes, will debate reflection/action proposals based on their personal and institutional experiences,
by emphasising the concepts of psychic field, transference and countertransference, limit and double-limit, relational metaphor along with the application of hermeneutics to the comprehensive analysis of the narrative fictions of the triangle S↔C↔P.
KEYWORDS: supervision, unconscious field and fantasies of pair, institutional realities, narrative and expressive analyses, transference and countertransference
transferência-contratransferência ao «hic et nunc» da sessão analítica ao introduzir noções como: relação analítica como externalização de relação objetal interna (Money-Kyrle, R. 1956), contraidentificação complementar e concordante (Racker, H., 1968) ou contraidentificação projetiva (Grinberg, L., 1997).
Por outro lado, a revolução da ética psicanalítica decorrente da (bem-sucedida) derivação da teoria estrutural do campo para a psicanálise, empreendida por W. e M. Baranger (1961-1962) e delimitada pela noção de fantasia de campo (bipessoal) do par analítico, transformou decisivamente o setting da relação de supervisão. Esta relação passa a ser colocada a par da relação de par analítico, o que conduz à ideia fecunda de que o par supervisor (S/s) é componente (e) do setting do par analítico (♀/♂).
Estes desenvolvimentos teóricos conduzem a que alguns psicanalistas, sobretudo afiliados à corrente interpersonalista, intersubjetivista e relacional, conjeturem diferentes configurações para o conjunto «supervisor supervisandopaciente» (que Brown, L., 2011, designa de «matriz triádica intersubjetiva» da supervisão), atribuindo aos três atores do processo de supervisão uma dinâmica sistémica e ecológica (já que cada um influencia os outros e o sistema como um todo, cf. Marshall, R., 1997). Por outro lado, a investigação empírica qualitativa acerca da representação social da supervisão entre supervisandos/candidatos e supervisores in acto nos Institutos Psicanalíticos (por exemplo, Cabaniss et al., 2001; Columbia Supervision Project, 2001; Zaslavsky et al., Contratransferência e supervisão, 2005) aborda a adequação da definição «totalista» (objetiva) da contratransferência em confronto com a definição «específica» (subjetiva) para a prática da supervisão.
Ora, esta «abertura de campo» epistemológica convida ao aprofundamento da compreensão do modo como, e o tempo em que, atua a supervisão enquanto um processo que integra o setting expandido do tratamento psicanalítico (da relação de par analítico). A supervisão torna-se, assim, num locus privilegiado para o estudo de conceitos-chave do trabalho psicanalítico, tais como o binómio transferência-contratransferência, a interpretação e o setting dinâmico.
Em Finale (que reapresenta a Abertura), e antes de passar aos distintos colegas que comigo partilham esta Oficina, deixem que vos diga que se, há longo tempo, modifiquei (personalizei ?) o modo de concluir as sessões, o mesmo não aconteceu com a tese acerca do modus operandi narrativo da sessão, a qual, por resultar de um processo de supervisão particularmente enriquecedor e bem diferenciado da minha análise pessoal, ainda hoje é útil para a minha atividade didática (tal como para o final deste Introito).
Es una práctica bajo transferencia, en tanto se le habla a un analista, es decir: no es una consulta con un experto acerca de la manera correcta de aplicar un saber pre-establecido que prescribiría una técnica adecuada para dirigir una cura analítica.
El supervisado, por medio de su decir y sin saberlo, pone en juego algo de sí mismo a lo que hay que atender, en tanto no se trata solo de la relación y los intercambios que entabla con su paciente, sino fundamentalmente de los lazos que mantiene con el psicoanálisis.
La labor de supervisión ha de estar orientada a colaborar con esa tarea de reinvención del psicoanálisis, de su relación con él, que corresponde hacer a cada supervisado.
Las urgencias ante necesidades o apremios que se traducen en demandas del estilo de: ¿Qué hago? ¿Qué le digo?, solo pueden ser respondidas orientándolas hacia la tarea de escuchar las asociaciones y sostener la posición del analista.
Encontrar un ligar como analista en un recorrido formativo, implica siempre el abandono de otras posiciones: la médico-psiquiátrica, la pedagógica, etc., desde donde también se podría ofrecer respuestas a las demandas formuladas por el sufrimiento de un paciente.
La regla fundamental es lo que organiza el intercambio analítico, diferenciándose de la función de alianza y poniendo de manifiesto que la cooperación intelectual no es camino de verdad.
Conviene intercambiar acerca de las formas de presentación del material, teniendo en cuenta que el relato del caso, la selección de sus marcas, la construcción de su trama, son medios más propicios para poner en evidencia los modos en que el analista se ve implicado en la transferencia que sostiene (lo que se ha dado en llamar contratransferencia), que las ocasionales confesiones a que ese relato pueda dar lugar.
Manteniendo claras las diferencias entre aquello que es instituyente en la experiencia para la formación de un analista, y lo institucional, ligado a requerimientos organizativos o demandas de reconocimiento, la institución analítica como ámbito formativo, cumplirá su papel al preservar esa forma de lazo social que es instituyente al promover la experiencia de supervisión en un dispositivo consecuente con el discurso del analista y con su ética.
Considero que la respuesta que se esgrime ante esta pregunta estará sustentada en la misma lógica con que pensamos la función del control o supervisión de nuestra práctica.
Un analista ¿es?, ¿Se trata de algo del orden del ser que, como tal, se portaría con la solvencia de la identidad?
Un analista ¿se hace?
No se trata de negar la importancia de la formación, el trípode freudiano es, sin duda el sostén de nuestra práctica.
El recorte que me interesa señalar tiene que ver con la ilusión de un punto de arribo que, “per sé”, sería garante de saber. Casi al modo de un título que se porta…, nuevamente algo del orden del ser.
Sólo aceptando que se puede estar, o no, en posición de analista, la función del control, de la supervisión de nuestra clínica cobra su verdadera dimensión, pues ella ofrece un lugar privilegiado para descubrir lo que resiste al ejercicio de la función de cada analista. Eso que se dice al decir “el caso”.
Y en este devenir analista, se experimenta que, no se trata de un analista sino, de “al menos dos”, ese analista que produce efectos en los análisis que tiene a su cargo y ese que, sobre esos efectos, teoriza, hace clínica.
La clínica no es el psicoanálisis.
El psicoanálisis es una experiencia para siempre perdida, se desvanece en el punto en el que se produce, irrepetible, intransmisible. “En un análisis hay una pérdida radical, y querer llenarla equivale a caer en la indecencia y en la obscenidad”1. Y será la clínica, lo que un analista (o un analizante) puedan y quieran decir de esa experiencia, de los avatares transferenciales, de sus consecuencias. En suma, de la dirección de la cura.
La clínica es una teoría del acto analìtico.
Es en ese “a posteriori”, en esa reflexión sobre lo acontecido, en eso que se deduce del acto, en el momento en el que un analista pone en cuestión su trabajo, esto es, abre un espacio de interrogación que lo implica.
Es necesario que, en ocasiones, en ese “entre dos” que son la práctica y los efectos de ésta sobre el analista se abra el espacio de la supervisión.
Entonces, Entre dos que se refiere a un tercero, ante quien se despliega la dinámica de un análisis en curso, las detenciones, las vacilaciones, las tensiones de ese saber inconciente que es trabajado en la transferencia.
Suposición de un saber, causa de un decir.
Nos enseñó Lacan que la transferencia tiene siempre el sentido de indicar los momentos de errancia y también de orientación del analista.
Ahora bien, una supervisión implica una demanda a un analista con quien se está en transferencia de trabajo, algo de su palabra nos ha “tocado” y le suponemos un saber acerca, fundamentalmente, del deseo de analista. Esa es la experiencia requerida y a ella se dirige una demanda en relación a un analista y su acto.
Disponerse a interrogar nuestra práctica no implica pues una consulta a alguien experimentado que sabrá del paciente cuya cura dirigimos despojado del decir que no puede decirse.
Si así fuera caeríamos en apostar al “conocimiento”, y nos acercaríamos peligrosamente al pensamiento paranoico.
Pensar la clínica en un dispositivo de supervisión implicará poner a trabajar la particularidad de un posicionamiento, tanto lo que el analista supervisante hace, como lo que “se deja hacer”. Es decir causa… de un deseo que pone a hablar.
Es en este marco en el que me pregunto: ¿se puede pensar en una supervisión grupal? Y apuesto a que sí. Siempre que el número de participantes no tienda a colmar la falta de cada cual, siempre que se mantenga la falla, puede hacer existir el grupo “lo” analista a quien el supervisante habla.
La práctica del control no es grupo, no es una obligación, pero no es prescindible.
Cf. Dumézil, C., 1992.
Para situar el problema. En Viena se decía que había tres profesiones imposibles: educar, gobernar y psicoanalizar. En Buenos Aires decimos que si algo es pasible de solución es un problema, si es imposible solucionarlo es una tragedia. El territorio que estamos abordando es así el de las tragedias imposibles.
Asi, aliviados al desvestirnos de toda pretensión, y abusando de esta estrategia fóbica para aproximarse al objeto de estudio, me gustaría pincelar someramente “la música de lo que pasa”2, o de lo que pienso que pasa, lo no debería pasar y reforzar una propuesta de lo podría pasar más frecuentemente en una supervisión.
Vargas Llosa3 piensa que “escribir novelas es un acto de rebelión contra la realidade, contra Dios, contra la creación de Dios que es la realidad. Es una tentativa de corrección, de cambio o de abolición de la realidad real, de su substitución por una realidad ficticia que el novelista crea. Él es un disidente, el creador de una vida ilusoria, creador de mundos verbales porque él no acepta la vida y el mundo tal como son o como el cree que son. …cada novela es un deicídio secreto, una muerte simbólica de la realidad.”
Ariano Suassuna, analiza el conflicto del escritor con la realidad y nos cuenta como Monteiro Lobato crea un mundo encantado en su quinta del interior de Sao Paulo (Sitio do Picapau Amarelo). Suassuna dice que el escritor se incluye a si mismo, representándose en esa nueva realidad que crea.4
Sigmund Freud en su tiempo, tal los escritores en todos los tiempos, decidió escribir sus ficciones sobre la realidad de la vida de las personas y sobre la ficción que se creaba en su relación con ellas. Llamó a esa última ficción transferencia y pensó que esa sería un arma importante para cambiar la realidad del pasado de estas personas que él llamaba pacientes. La proliferación de imitadores de esta actividad hizo necesario revisar sus producciones por medio de un procedimiento que fue llamado supervisión. Como en ciertos talleres de arte medievales, los escritores con más antigüedad en el oficio fueron ayudando a escribir esas ficciones a los más jóvenes.
Una supervisión no es acaso un intento que un novelista (la relación A-S) realiza de cambiar una realidad que ya había sido sometida a otra tentativa de cambio por otro novelista (la relación P-A)? Esa realidad-sesión que tiene que ser “re-escrita” a través de un proceso de “creación colectiva” de una nueva ficción demanda, esos “deicidios” sucesivos, conocieron a través de los tiempos diversas recetas que pueden encontrarse entre otros muchos lugares en la Psychoanalitical Electronic Publications (PEP.Org) donde la respuesta, al consultar el término supervisión reza: Results 1 – 30 of 6,661 total, for your search on “supervision”.
Eso puede ser un indicador que no es un tema banal.
En general los artículos visitados tratan de proponer su comprensión de la supervisión a partir de la del proceso de análisis.
Así encontre en Odgen5 alguien que, a su manera, establece alguna relación entre escribir, soñar y analizar. El que analista y paciente se fecundan mutuamente con sus “sueños” (palavra que usa para definir el material aportado por cada uno de los participantes al encuentro). Propone que el analista ponga en palabras ese clima de reverie (Bion) que surge a través de síntomas, estados afectivos y “sueños” de ambos protagonistas durante la sesión, intentando, desde la polisemia que oferece metaforizar lo que “pasa”, ampliar el contacto de su paciente con su mundo interno y con él. Los “sueños” del paciente son transferencialmente sentidos, sufridos y hablados por el paciente, los “sueños” del analista son contratransferencialmente auto-interpretados por que se les supone despertados por el paciente, la unión de ambos producirán uma interpretación en la “cocina del analista” que es entonces ofrecida al paciente.
Odgen extiende esta visión del proceso de análisis a la supervisión, la supervisión tiene que ofrecer um marco (frame) en el que haya tempo para desperdiciar (“time to waste”) y en el que se realice la función del par S-A que seria re-sonhar (“dream up”) P, creando uma “ficción” compatible con la verdadera experiencia emocional de A con P.
Retoma desde esta perspectiva neo-bioniana, una visión que Racker (contratransferencia y supervisión) y Searles (processo reflejo), complementándose, ya nos habían ofrecido en los años 50 y 60.
Los viejos libros de técnica nos ofrecían el modelo de la brújula: desde la contemplación de las asociaciones libres de P, A (o S en relación al relato de A) encuentra un Norte. La atención flotante, que vale tanto para el análisis como para la supervisión, es la que nos orienta frente a la “asociación libre” del analista sobre el material que presenta al supervisor. Esta operación se da por supuesta en la supervisión, pero merece ser realzada.
Algunos autores (por ejemplo Langs6 y de alguna forma un lado de Quinodoz7), expresan un lado que llamaría duro en cuanto al uso estricto del encuadre. Prohibir el “cafecinho” en la supervisión o exigir que el paciente elegido para la supervisión sea impreteriblemente consultado con el supervisor antes de su tratamiento no colabora en mi opinión al clima necesario
Cf. Heaney, ‘Song’, 1979, citado por Odgen.
Cf. Bruce, J., 2012.
Cf. Ogden, T. H., 2005. Ver también Ogden, T.H., 1999.
Cf. Langs, R., 1994.
para la supervisión. Rígidamente entendidos pueden deteriorarlo. Otros autores (Grinberg8), que cuentan con un poco más de mi simpatía, entienden que el objeto de la supervisión es enseñar a pensar psicoanalíticamente y proponen revisar en la relación S-A lo que tiene que ver con contraidentificaciones de A con P dejando para el análisis de A con su analista el resto del análisis de su contratransferencia, inclusive la surgida en la supervisión.
Los dioses (¡o los demônios!) que tienen que ser enfrentados para crear una “novela” diferente sobre la “realidad” de la sesión a la que se desea aportar/editar/transformar comprenden desde pequeños obstáculos para producir algo nuevo y consecuentemente también un aprendizaje, hasta lo que llamo “reacción supervisiva negativa” (RSN), en que el avance del conocimiento y del processo de creación quedan bloqueados. Entre otros obstáculos que pueden acometer uno o ambos miembros de la pareja S-A, muy citados por diferentes autores, se recomienda estar alerta a las: tendências narcisistas: exibicionismo, fusión, RSM (que puede llevar S-A al altar), envidias, pánico, deseo de ser devorados o devorar el material como la persona del otro paciente;
configuraciones edípicas: rivalizaciones varias, deseos de ganar, abusar, derrotar, miedo edípico de contacto;
exigencias y problemas institucionales: la mayoría de los autores con buen sentido común parecen estar de acuerdo con que en la actividad de supervisión sea evitada la evaluación destinada al Instituto ya que ella distorsionaría el proceso de creación y aprendizaje. Muchas de las detenciones del aprendizaje en la supervisión son efecto del circuito de sumición, simbiosis, confusión y robotización descripto por Utrilla9 (regresión institucional) que se dan com el analista y/o es reforzado por el supervisor por conductas o dogmas que son aceptados por la institución:
Problemas en la vida del analista del analista y de la relación entre ellos;
Problemas en la vida del supervisor: “avoir le traque” de parte de los supervisores; Problemas en el país.
Dejaremos para la discusión los ejemplos clínicos que iluminan estos obstáculos epistemológicos.
Así nuestro trabajo es como ir juntando las piezas de un juego para armar o las notas de una melodía con que montamos una estructura que ofrecemos para una reflexión emocional. Los ficcionistas mas freudianos buscan construir una ficción histórico representacional y en los novelistas kleino-bionianos se destacan los relatos emocional-vivenciales.
Si tenemos suerte en esa estructura que llegamos a montar conseguimos incluir representación, afecto, transferencia, contratransferencia e historia.
A veces somos creativos como Mozart a veces somos repetitivos como Salieri.
MAS MOZART, MENOS SALIERI
Durante casi veinte años durante aproximadamente seis horas por semana coordiné grupos de supervisión de hasta diez analistas en formación. Aprendimos bastante y creo que conseguimos dejar claras algunas cosas sobre análisis y alcanzamos en conjunto producir nuevas “historias”, algunas buenas “melodías”.
En el contexto de esa experiencia hace unos veinte años invitamos a un gran analista para supervisar en esos grupos durante una semana. Nuestro famoso supervisor importado, muy querido por todos nosotros, había quedado viudo de su compañera de muchos años recientemente y un ambicioso proyecto, que para mí tenía algo de reacción maniaca a su duelo, había fracasado recientemente.
Habiendo venido de un país muy distante y siendo tan famoso las expectativas sobre sus aportes eran enormes. Ocurrió que en la reunión del primer grupo (duraban dos horas), ví que nuestro colega sudaba profusamente sin poder formular otra cosa que preguntas. Como no era su estilo y suponiendo que algo le ocurría, comencé a hacer hipótesis sobre el material. A partir de ellas nuestro supervisor produjo una melodía maravillosa. Al terminar me dijo “gracias pero me parece que voy a necesitar de vos durante toda la semana de supervisiones. Si me trabo, vos tocas unas notas y yo sigo con la música.”
No era muy distinto de lo que me venía ocurriendo en todos esos años de supervisión. Y posiblemente nos ocurre a todos en los grupos en que “damos” supervisión. Como hace muchos años que escuchamos esta música, conseguimos descubrir quien ese día consigue desarrollar mejor el tema o produce una melodía más rica. A veces en la orquesta que formamos consiguen tomar cuerpo varios temas producidos por varios de los participantes de esa orquesta. Estoy diciendo que puede haber varios nortes, o que pueden componerse, en esa “jam sesión”, varias melodías. Algunas notas pueden estimular en uno unas melodías y otra en otras.
PROPUESTAS
1. TÉCNICA
El tema que propongo para discutir no es sólo el de ocasionales inhibiciones, ni el de una dificultad de contacto del supervisando por patologías edípicas o narcisisticas propias o facilitadas por una contraidentificación. No. Lo que someto a discusión es si la supervisión exclusivamente individual puede ser también
Cf. Grinberg, L., 1975.
Cf. Utrilla, M., 2011.
síntoma, y un síntoma empobrecedor de la tarea y de nuestras instituciones. Que este estilo de supervisión nos priva de enriquecernos con varias vivencias contratransferencias e ideas sobre el material que pueden ser despertadas, frente a un mismo material en los participantes del grupo. Si aceptamos la existencia de un sujeto múltiple (cf. Piera Aulagnier, I. Berenstein) porque no pensar que múltiples sujetos, en un grupo de supervisión de creación colectiva, podrían ofrecer su sensibilidad contratransferencial, su experiencia clínica y sus capacidades en general para iluminar diferentes partes de ese sujeto múltiple?
2. OBJETO DE SUPERVISIÓN
En nuestra reunión de Fepal en São Paulo (2012) propuse una serie de áreas de las que deberíamos ocuparnos siguiendo las propuestas de la llamada intención de “outreach” de nuestras instituciones. Creo que eso puede ser difícil de realizar porque tenemos como institucion una cierta tendencia entrópica. Entre otras razones creo que nuestra tendencia entrópica a vivir dentro de nuestros consultorios y de nuestras instituciones tiene diferentes razones, algunas de las cuales traté de puntualizar allí. Las supervisiones exigidas por los institutos, en general de pacientes individuales, refuerzan esa tendencia. Otros objetos de supervisión, muchos de los cuales fueron frecuentados por Freud-instituciones (grupos, trabajo, escuela, etc), familias, arte, literatura e historia- enriquecerían el proceso y se conjugarían con las pregonadas propuestas de out-reach de la institución.
Em A interpretação dos sonhos, Freud (1969/1900) coloca-nos frente à questão básica da psicanálise: a interpretação. Da Interpretação diz-se ser o todo de ideias, emoções e ditos que significam também (e sobretudo) outra coisa além do que manifestam. Decide, deste modo, pela abertura a conteúdos latentes, «escondidos» e «não-esquecidos», mas não diretamente acessíveis ao Eu que procura e «quer» saber. Ora, se, por um lado, dizer que significam não é dizer o que significam, a abertura decidida a outros sentidos abre igualmente os seus preconceitos ao diálogo que amplia e faz resignificar os próprios limites do sentido, condição de possibilidade da experiência de verdade.
Interpretação e sentido constituem, assim, os elementos centrais de qualquer reflexão hermenêutica cuja experiência da verdade faz exigência da relação, da presença inalienável de um outro que convoca e provoca, e através do qual o jogo da pergunta e resposta faz acontecer a novidade do (re)encontro. Para esta verdade, a positividade do método constrange e deforma a possibilidade de qualquer abertura e é neste sentido que Gadamer, em Verdade e Método (1997), nos fala de uma verdade que surge como experiência, como experiência dolorosa, é certo, da arte ou da própria história, e procura um conceito de conhecimento e de verdade relacionado ao todo da experiência do ser humano no mundo, que é, na sua profundidade, a própria experiência hermenêutica. Nesse universo «verdadeiramente hermenêutico», participam «o modo como nos experimentamos uns com os outros, como experienciamos as tradições históricas, os ocasos naturais da nossa existência e do nosso mundo» e nele não estamos, nem podemos estar, fechados, separados do outro e do mundo, antes, muito antes já, sempre abertos e a eles ligados pela linguagem e pelo pensamento.
Assim, a metáfora arqueológica, tão cara a Freud, pertence a esta disposição para a verdade histórica que, em presença da experiência de abertura, impõe ao psicanalista uma atitude de escuta atenta e de (re)pontuação dos insistentes circulares que resistem a qualquer (nova) apresentação de sentido. O passado trazido à linguagem só pode ser modificado no horizonte do presente, constituindo o diálogo a condição privilegiada para a reformulação consciente de pressupostos de sentido, condição base para a
verificação da eficácia de uma interpretação. Por outro lado, se a escuta atenta é central para a relação no dizer dialógico do encontro terapêutico, a escuta descentrada é crucial para o emergir das emoções mais básicas, das representações até então «interditas» de participação na consciência. Esse processo de «alteração» de campo, complexo, alarga e intensifica a experiência que, na perda e pela liberação da perda, possibilita o ganho que preenche o vazio que a dor vai mantendo.
Todavia, ainda que as interpretações a partir do mesmo material sejam distintas, a possibilidade de serem igualmente verdadeiras é legítima apenas sob condição de serem respeitadas as possibilidades inerentes ao contexto tornado visível no dizer do analisando. Entre a intenção do autor-analisando e a do intérprete-analista, é decisivo o respeito pela intenção do texto/do discurso, isto é, das possibilidades geradas pelo entretecer de razões no âmbito da situação analítica, só reconhecidas pelos seus efeitos ou pela eficácia da aplicação. Deste modo, as resignificações da história de vida do analisando, narradas na sessão, acabam por ser sempre reconstruções, possibilidades de sentido, mais próximas da arte, do criativo, do que da verdade histórica, ou, se quisermos, do que «realmente aconteceu».
Hermenêutica e psicanálise deixam assim de poder ser uma ajuda metodológica ou didática, ou seja, deixam de se referir apenas à comunicação simbólica, e passam a referir-se, de modo mais amplo, ao todo da vida humana.
Lembrar com Heidegger (1927) que toda a autocompreensão e compreensão de si só podem ser reconhecidas como condição mais fundamental de ser/estar no mundo é imprescindível, assim como é imprescindível lembrar, com Gadamer (1927 [2005]), que a interpretação é afirmação de que o entendimento não é método de leitura nem procedimento de reflexão crítica, antes um modo de ser, e como tal é algo inerente à própria existência humana. Estamos constantemente a interpretar e, deste modo, a interpretação dá-se a partir de círculos distintos, sendo que a verdade nada mais é do que a fusão de horizontes, algo consensual, uma espécie de acordo intersubjetivo.
O entendimento é, então, um processo dialógico de encontro entre passado e presente, no qual a exposição das pressuposições particulares ao outro estão suscetíveis e (espera-se) abertas a revisões futuras.