O autor elabora acerca de conceptualizações do objecto em psicanálise e de interpretação psicanalítica, e sua interdependência. Socorre-se de alguns contributos de Bion e do contexto psicanalítico que o influenciou, assinalando divergências e proximidades com Lacan quanto ao objectivo imaginado para uma psicanálise.
Num primeiro momento, gostaria de recordar Martin Bergmann (apud Urribarri, F., 2009, p. 47), psicanalista e historiador, quando exclamou que, para o melhor e para o pior, Freud nos deixou uma Psicanálise longe de estar completa e definitiva. É uma área do conhecimento que tem a virtude de nos interrogar permanentemente. Estou certo de que os desenvolvimentos destes últimos cem anos espantariam muitíssimo o próprio Freud e os seus discípulos mais entusiastas.
De acordo com cânones da sua rigorosa formação científica, Freud debruçou-se primordialmente na conceptualização metapsicológica, procurando dar fundamento à técnica interpretativa como meio para alcançar um fim (terapêutico). Enquadrava assim uma tradição hermenêutica, capaz de jogar com a descodificação de uma suposta linguagem codificada segundo determinadas regras (dos processos inconscientes), com uma outra de carácter funcional, capaz de desencadear a mobilização de determinados processos mentais no paciente. Centrou-se no conflito intrapsíquico e, tecnicamente, na interpretação da transferência.
Posteriormente, vimos o foco interpretativo deslocar-se para uma dimensão intersubjectiva, enfatizada pelas escolas de relações de objecto e do papel da noção do Outro em Psicanálise. Tecnicamente, assistimos a reformulações em torno da contratransferência e dos desejos do analista.
Na actualidade, a conceptualização do objecto analítico e da interpretação tem-se centrado na representação do setting analítico como forma de aceder às particularidades do funcionamento mental nos limites da analisabilidade: limites na acção terapêutica sobre o paciente, mas, igualmente, limites da capacidade analítica da mente do psicanalista.
Assim, a analisabilidade é redefinida em termos de construção do objecto analítico e do processo analítico — estes, objecto e processo, são um terceiro elemento discursivo e heterogéneo, feito de representações e afectos, produto do encontro e comunicação entre analista e analisando no espaço potencial organizado pelo setting.
O objecto analítico é uma ferramenta metodológica que permite a produção de material analítico e a oportunidade para o seu estudo, apresentando-se como não-empírico e não-observável (Urribarri, F., 2017).
Bion, quando concebeu uma teoria do Pensamento, fez deslocar a atenção para o processo de elaboração na mente do analista no acto da construção da interpretação. Da atenção da procura da suposta interpretação correcta, o acto interpretativo é agora colocado num lugar diferenciado na sua natureza conceptual. A interpretação parece assim existir além da capacidade consciente do analista, como o pensamento existe além do pensador.
A verbalização da interpretação, na forma clássica, surge apenas como uma das várias formas, mais ou menos elaborada, da expressão do pensamento.
Significa que o analista interpreta sempre que exista enquanto tal no exercício da sua função
Artigo recebido em 30 de Dezembro de 2018 e aceite para publicação em 4 de Fevereiro de 2019.
Este texto tem como base a comunicação apresentada no XII Encontro Lacan, na IPA, subordinado ao tema «Verdade, Inconsciente e Realidade», organizado pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) entre 8 e 10 de Junho de 2018.
Psicanalista. Membro titular, com funções didácticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
psicanalítica. Mesmo que se mantenha em silêncio, ele diz inconscientemente algo da sua capacidade de escuta: do que escuta (e do que não escuta) e de que forma o escuta, e o que faz com os elementos da nova escuta.
No final da década de 1950, e depois de forma mais evidente no decorrer da década de 1960, Bion foi-se diferenciando da técnica kleiniana no uso do aqui e agora, ocupando-se preferencialmente da experiência presente do paciente. O seu trabalho «Notes on memory and desire» (1967)(tornou-se num clássico, onde propõe que, em cada sessão, o analista em atenção flutuante não deve trazer nem história nem futuro, ou seja, deve poder abstrair-se da memória, do desejo e da compreensão para que possa observar e apreciar o significado das suas observações, e possibilite a intuição. Na realidade, deverá ser capaz de suportar um estado capaz de conter sentimentos de desorganização, de confusão mental e até persecutórios.
Como tal, a remoção do sintoma não é mais um objectivo específico, mas um subproduto, como Lacan bem realçou, ao determinar o foco de interesse sobre o instalar do processo analítico na mente do paciente. Afastando-se da sugestão, a posição do analista parece ser quase um promotor de alienação, que não serve apenas para a compreensão e interpretação explicativa, mas que se torna capaz de provocar efeitos indeterminados — «L'interprétation analytique n'est pas faite pour être comprise; elle est faite pour produire des vagues» (Lacan, J., 1975, p. 35).
A forma como o terapeuta consegue escutar e observar o paciente, como se apercebe de que o paciente recebe a interpretação e como vivencia o instante relacional são elementos essenciais que regulam o grau de interactividade e imersão das intervenções, num jogo permanente entre o estar imerso na atenção flutuante e o regresso à superfície em contacto com outros níveis da realidade.
O analista tem de ser o arquivista da história da análise, procurando nos registos das memórias pré-conscientes, através da sua atenção flutuante, e dando origem ao nascimento da fantasia contratransferencial, que é suposto ir ao encontro da fantasia transferencial do paciente. Ambos, analista e paciente, são elementos dinâmicos essenciais que originam um processo de reconhecimento interno.
Lacan concebeu o «reconhecimento no espelho» como o momento de cristalização primária da «imagem especular», uma forma intuitiva em que o sujeito realiza a vivência da Unidade. A antecipação da imagem do corpo como Uno coloca um fim ao «corpo fragmentado». A realização deste importante momento permite uma transformação interna capaz de organizar um conceito de forma diferenciada. Como nos diz Alain Gibeault (2010), em 1966 Lacan estava absolutamente consciente do quanto devia à intuição da Sra. Klein, que antes tinha já falado das imagens de um corpo fragmentado: «they are confirmed by the assertion of fantasies of the so-called paranoid phase in the phenomenology of kleinian experience» (, apud Gibeault, A., 2010).
No registo imaginário, o Ego identifica-se com o Outro como se fosse a sua própria imagem e identifica o Outro a si próprio, com a sua própria imagem, o que traz à mente diversos aspectos que Melanie Klein tinha denominado de Identificação Projectiva.
Por seu lado, Bion socorreu-se inicialmente de conceitos matemáticos abstractos (elementos β, elementos a, função α, etc.) para poder lidar com as características inerentes ao inconsciente, através das quais, mesmo desconhecendo as variáveis em jogo (inconscientes, por definição), lhe era permitido abordar e analisar a função mental transformadora que lhe está associada.
A elaboração mental do analista no momento criativo da constituição da interpretação psicanalítica remeteria no essencial para uma mudança subtil, mas diferenciadora. O foco não é mais no pensamento ou na transformação em conhecimento (T(K)) que tem lugar no plano das representações, mas nas mudanças psíquicas no plano experimental/vivencial, ao nível da não-representação (ou T(O), nas conhecidas elaborações propostas por Bion).
Para ocorrer a interpretação psicanalítica, ambos os processos T(K) e T(O) devem estar presentes no mundo mental do analista, num processo intenso de interacção dinâmica.
Uma das problemáticas essenciais, que trespassa as discussões técnicas anteriormente referidas acerca da validação da interpretação, reside na semelhança de processos inerentes à elaboração mental de uma interpretação e, grosso modo, da criação de uma «mentira». A diferenciação é consideravelmente complexa e subtil. O que as diferencia prende-se essencialmente ao facto de que a dita «mentira», ao contrário da interpretação analítica, não servirá para elaborar novos pensamentos e promover a expansão do espaço mental.
Para Lacan, a Psicanálise permite ao sujeito descobrir algo da sua verdade interior, obrigando-o a eminentes sacrifícios e renúncias. Rómulo Lander (2016), teorizando acerca do mecanismo da cura, afirma a semelhança na concepção do propósito da psicanálise entre Lacan e Bion. Para o primeiro, o designío da análise é ajudar o sujeito a não ceder aos seus desejos; a solução não é adaptar-se à família ou ao grupo social onde vive, mas ser o que o sujeito é verdadeiramente, na busca constante de um suposto saber. Com Bion, o objectivo da análise é ajudar o indivíduo a conhecer a sua verdade, sendo que é por definição uma realidade última incognoscível (O) e que apenas podemos realizar aproximações e aceder
a partes dessa realidade última (K).
Penso que, no essencial, Lacan privilegiou uma topografia da mente, o lugar que ocupa a verdade. Bion privilegiou o conhecimento (K) como meio de acesso aos lugares da verdade, mais ou menos distantes/próximos.
Ambos fomentaram uma alteração profunda na proposta analítica: deixámos de estar exclusivamente interessados em ajudar o analisando a descobrir a forma final de uma qualquer verdade preexistente a que ele mesmo não se permitiu aceder, porque estamos mais interessados em ajudar a desenvolver uma capacidade que possibilite a descoberta ou criação da verdade.
A Psicanálise procura desenvolver instrumentos para pensar, auxiliar o sujeito a construir novas histórias, olhar com outras perspectivas, e que possam reinterpretar as suas velhas descrições. Não é somente a remoção do sintoma, mas dar a possibilidade ao analisando de ser ou vir a ser o principal agente da sua própria história e pensamento (Aisenstein, M., 2007), transformando o modo de ver e de se ver no espelho interno.
Na elaboração do processo de interpretação na mente do analista (Britton, R., 1994), mais do que a formação de certezas absolutas, ele deverá paradoxalmente permitir-se vivenciar a incerteza, o não saber e o desconhecido, e, por inerência, a frustração — no sentido de que lhe falta algo, onde mentalmente parece ser capaz de criar um vazio, do qual poderá então evoluir para um estado próprio que poderá aceder a ser pensado de múltiplas formas, elaborações e expressões.
O objecto analítico será assim uma construção que contém não apenas um significado por revelar, mas, essencialmente, uma construção de um significado que nunca então tinha sido criado. Dependerá do que o analista está preparado para comunicar, mas igualmente do que o paciente está preparado para receber.
A natureza polissémica do processo obriga a que a posição do analista seja complexa e variável. Não pode ser rígida ou predeterminada — nem como um pai edipano, nem como uma mãe continente, nem como um duplo narcísico (Urribarri, F., 2010).
O analista terá de saber jogar com sensibilidade e minúcia de acordo com os guiões de trabalho na singularidade polifónica do campo analítico criado em cada sessão.
Trabalha num espaço de caesura entre permanentes alterações de vértices que, partindo do aqui e agora, mobilizam aspectos do passado sem excluir o futuro — o «aqui e depois» —, abrindo o campo à transformação não somente do sintoma, mas da expansão da mente — reconhecendo e transformando o modo de ver o Mundo, e o modo de se ver a si próprio.
ABSTRACT
The author elaborates on conceptualizations of the object in psychoanalysis and of psychoanalytic interpretation, and its interdependence. Some of Bion's contributions and the psychoanalytic context that influenced him are pointed out, indicating divergences and proximity with Lacan as to the objective imagined for a psychoanalysis.
KEYWORDS: Bion, Lacan, psychoanalytical object, interpretation.