Neste artigo, em que se reflecte no real, na verdade e na transferência, o autor parte do conceito freudiano de convicção. Mais concretamente, expõe como durante uma análise posterior se pode modificar a perspectiva que se havia tido num primeiro processo analítico. Revê o que Margaret Little, Heinz Kohut e André Green, de modo directo, encoberto ou implícito, escreveram acerca da suas análises didácticas depois de passarem por análises ulteriores. Conclui-se daqui a transcendência, para aflorar a convicção de que podem ser tolerados importantes movimentos regressivos no eixo transfero-contratransferencial.
Quando recebi a proposta para participar neste Encontro, adverti o meu interlocutor de que não sou muito versado em Lacan. Conheço bastante dos seus textos, e segui alguns dos seus percursos com um alto prazer intelectual, mas, com o correr do tempo, posso dizer que há quase tantos conceitos dele com os quais concordo como dos que discrepo. O que mais me interessa é que se trata de um autor fecundo em mim, cujas reflexões me ajudaram a propor questões a partir de novas perspectivas. Lacan e os autores através dos quais ele me começou a chegar (primeiro, Jaime Szpilka e Daniel Schoffer; mais adiante, Elina Weschler) mostraram-me, portanto, uma fonte de propostas importantes, que mais adiante foram seguindo o seu próprio caminho no meu desenvolvimento.
Uma questão que resultou em grande interesse foi o contraste entre a sincronia e a diacronia. E, mais em concreto, a recuperação da nachträglichkeit freudiana, abandonada na gaveta do esquecimento pelos postfreudismos de língua inglesa. Além das propostas de origem e da transcendência da introdução da ordem simbólica edípica através da palavra, Lacan levou-me a entender que pensamos sempre a partir do presente, e que reescrevemos a nossa história em cada vez que a pensamos. Assim, podemos ser conscientes de que o nosso relato de uns mesmos acontecimentos passados pode modificar-se em função de acontecimentos futuros. E quando elaboramos diferentes versões de um mesmo acontecimento, que sucede à veracidade do relato? Podemos falar de verdade ou dilui-se-nos o conceito e escorre-se-nos por entre os dedos? Há uma proposta de muito interesse que Freud fez em 1938 no seu último escrito acerca das construções: é a da convicção que surge entre analista e analisando quando uma determinada construção é capaz de evocar lembranças hipernítidas até então inéditas. Curiosamente, fala do par construção/recordo hipernítido e relaciona-o com o par delírio/alucinação, tomando o termo convicção da psicótica convicção delirante. É um
Artigo recebido em 26 de Setembro de 2018 e aceite para publicação em 23 de Fevereiro de 2019.
Este texto tem como base a comunicação apresentada no XII Encontro Lacan, na IPA, subordinado ao tema «Verdade, Inconsciente e Realidade», organizado pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) entre 8 e 10 de Junho de 2018.
Psiquiatra, doutor em Medicina, psicanalista, membro titular, com funções didácticas, da APM/IPA. Director da Revista de Psicanálise da APM. E-mail:
paradoxo que, para nos aproximarmos de um paradigma de autenticidade, nos encontremos tão perto de um paradigma de inautenticidade.
Sob esta perspectiva, gostaria de meditar como se modifica no curso de uma psicanálise posterior a perspectiva que se tinha de uma primeira experiência analítica. Para isso, irei centrar-me em três autores que de diferente maneira precisaram de escrever acerca disso. Algo sucedeu depois — uma vivência marcada por uma forte convicção — para que se convertesse em imperativo, para eles, reflectir numa nova versão. Os autores a que me refiro são Heinz Kohut, Margaret Little e André Green.
Vamos começar por Heinz Kohut. Há importantes evidências (Angueli, D., 2015) de que um dos escritos mais célebres do autor austríaco estabelecido em Chicago — o referente às duas análises do Senhor Z (Kohut, H., 1979) — é na realidade um relato autobiográfico encoberto. Kohut fala-nos da história de um suposto paciente que se analisa com ele em duas etapas diferentes da evolução do seu pensamento como analista: uma primeira etapa em que ele mesmo se define como mais próximo ao ali entendido como ortodoxia freudiana (na realidade, uma aproximação técnica próxima à defendida pela Psicologia do Eu); e uma segunda etapa na qual ele sofreu já supostamente de uma evolução na linha do que se denominou Psicologia do Self. Trata-se de um escrito relativamente tardio na evolução do seu pensamento — publicado três anos antes da sua morte, quando já diagnosticado de uma leucemia por ele então considerada irreversível. Trata-se, portanto, de uma espécie de testamento, em que o autor não quer prescindir de transmitir às próximas gerações um legado feito sob uma profunda convicção. Quanto às referidas evidências, teremos de nos referir à análise de Kohut com Ruth Eissler, quando se faz alusão à primeira fase do tratamento, e à própria auto-análise de Kohut, quando se faz alusão à segunda, talvez misturada com a maneira como ele se considerava a si mesmo um analista perante os seus analisandos.
O Senhor Z apresenta-se-nos na primeira fase como um belo e inteligente jovem homem adulto que vive do dinheiro da herança do seu pai. Filho único, convive estreitamente com sua mãe. Conduzem-no à análise as dificuldades para estabelecer relações sociais e de casal (com 11 anos e durante dois anos manteve uma relação homossexual com um treinador de trinta anos [curiosamente, não apresentada como abuso]), não conseguindo vínculos de verdadeira profundidade com mulheres. Sofre assim mesmo uma série de sintomas somáticos funcionais. Na sua análise, a transferência é analisada na sua vertente resistencial como uma transferência materna, e a questão fundamental centraliza-se nos conteúdos edípicos intrapsíquicos, incestuosos e parricidas. Tanto os importantes e insaciáveis requerimentos narcisistas no decurso da análise, como as fantasias masturbatórias presentes desde os cinco anos e até à idade adulta, em que é cruelmente maltratado por uma mulher de idade adulta, são interpretados nesta mesma linha. Nem a tarefa do analista na transferência nem a dos pais na constituição do seu psiquismo são consideradas questões de relevância. A análise termina de um modo aparentemente satisfatório (de facto, serve a Z/Kohut para entrar na American Psychoanalytic Association), com importantes melhorias sintomáticas nos diferentes âmbitos. Anos depois, no entanto, o Senhor Z volta a análise com uma problemática séria: sente uma forte superficialidade e uma profunda insatisfação em todos os âmbitos da vida. Tanto nas relações pessoais como nas sexuais, ou como na sua brilhante carreira profissional, se impõem estas mesmas componentes. A sua mãe sofre uma ruptura psicótica quando se torna independente e adoece gravemente. Isso conduz a uma relação transferencial com um intenso requerimento narcisista, desta vez tolerado pelo analista — primeiro, com uma componente muito idealizada, e depois, especular, com componentes fusionais importantes, onde o analisando se torna muito egoísta e demandante. Com tudo isso, é possível ponderar a função da mãe com a sua psicopatologia e a ausência do pai (adoeceu gravemente aos três/quatro anos de Z, apaixonou-se pela sua enfermeira e desapareceu durante anos, deixando Z sozinho com a mãe) na problemática de Z, que anteriormente tinha sido atribuída exclusivamente à sua problemática edípica. Sonhos acerca de cidades incendiadas e corpos mutilados, pelos suas componentes associativas, são relacionados com a parte caótica e incendiária das relações com a mãe. Através de um sonho em que o pai aparece com presentes, vai-se restabelecendo a figura do pai, muito desvalorizada até então. Todo este segundo trecho, vivido com uma importante convicção, se vai traduzindo com muita brevidade em importantes mudanças relacionadas com uma profunda fortaleza no self e com um sentimento de virilidade desconhecido até então.
Independentemente da idealização evidente no relato desta segunda parte, interessa-me ressaltar a visão de Kohut quanto à primeira fase do tratamento, cuja verdade transferencial parece ser posta em questão.
Passemos para Margaret Little. Num manuscrito (Little, M., 1985), a autora descreve-nos, na primeira pessoa e pormenorizadamente, os seus processos analíticos: sendo já médica, aos 35 anos, procura pela primeira vez ajuda. Começa uma primeira psicoterapia com um analista junguiano; pouco depois, passa para uma psicanálise mais «clássica» com Ella Sharpe (primeiro, mais próxima
de Klein; depois, aproximando-se do «Middle Group»), que lhe abre as portas da British Psychoanalytical Society. Ainda que reconheça o valor deste processo, queixa-se de o seu analista se concentrar mais em conflitos intrapsíquicos relacionados com a sexualidade infantil e o Édipo, não atribuindo importância às questões identitárias mais de base ou relacionadas com funcionamentos caóticos ou patológicos da sua própria mãe. Antes de finalizar a sua análise, capta certos sinais e sintomas médicos na sua analista e aconselha-a a consultar-se por causa deles, sem que a sua analista dissesse nada a respeito. Ella Sharpe faleceu pouco depois do fim desta análise como consequência da doença que subjazia aos sinais e sintomas referidos. Quando chega pela primeira vez à consulta de Winnicott, Margaret Little tem já 48 anos. No princípio, não se sentindo compreendida, parte uma jarra com lilases brancos, ao que Winnicott responde saindo do escritório; volta no fim da hora e encontra-a a recolher os bocados — intervém dizendo-lhe que pensava que o iria fazer mais adiante. No dia seguinte, uma réplica exacta da jarra enfeitava o escritório e Winnicott diz-lhe que partira algo que ele estimava. Um tempo mais tarde, aterrorizada e presa de espasmos, agarra-se às mãos do seu analista, que a sustenta e segura a sua cabeça: interpreta-lhe que está a reviver o momento do seu parto. Margaret referirá que aí se produziu o nascimento de uma relação. Noutra ocasião, fala de como, quando pequena, estabeleceu uma estreita amizade com uma menina do colégio, que, por doença, não voltou depois das férias e acabou por falecer — a sua mãe recriminou-a por não lhe ter escrito. Margaret nota o pranto do seu analista; isso dá-lhe ocasião de chorar como nunca tinha podido fazer até esse momento. Não muito depois, Winnicott fala de como, em alguns momentos, pode sentir ódio pela sua mãe. Little contrapõe as suas duas experiências analíticas como muito diversas: sente em Sharpe a sua «mãe aranha», com interpretações transferenciais convencionais centradas nela enquanto paciente (como no Senhor Z de Kohut, nem na história infantil sente que se tome em consideração a responsabilidade dos pais, nem na análise do analista), tem a sensação subjectiva de inautenticidade e de que a sua problemática nuclear não se resolve. No entanto, descreve Winnicott como um analista que aceita o seu desafio regressivo, permitindo-se «ser a sua mãe» e mostrando-se autêntico e directo (às vezes, o leitor pode perguntar-se se no limite da correcção técnica, como, por exemplo, no contacto físico com seu paciente) — permitindo pensar no que teve que ver com a sua mãe ou os seus pais e não só com ela. Vamos, por último, a André Green , que, ao longo da sua carreira, seguiu três processos analíticos. Um primeiro com Maurice Bouvet, que lhe serve para entrar na Société Psychanalytique de Paris. Como no caso de Little, o seu analista morre, inesperadamente, pouco depois de terminar a análise. Um segundo trabalho analítico é realizado com Jean Mallet, para tornar assimilável esta perda. O terceiro processo analítico verifica-se com Catherine Parat. Ainda que Green não se refira à sua primeira análise de um modo explícito, como Little, nem encoberto, como Kohut, desenvolve uma teorização como conclusão do seu terceiro processo analítico. Podemos, talvez, afirmar que são questões próprias que não foi possível resolver durante as duas primeiras análises. Referimo-nos suas propostas da mãe morta , cuja publicação, não por acaso, dedica à sua terceira analista.
Green afirma que os sintomas que o levam à consulta não são uma depressão clínica clássica, mas, sim, uma sensação de falhanço na vida pessoal, amorosa e profissional, com conflitos mais ou menos agudos em todos estes âmbitos. A manifestação fundamental produz-se como uma autêntica depressão de transferência, na qual se produz a revivescência de uma depressão infantil em resposta a uma desinvestida busca por parte de uma mãe. Isto é, uma mãe que primeiro investe no bebé, mas que, por diversos motivos, lhe retira bruscamente a sua investidura: continua a estar presente fisicamente, mas deixa de o estar mentalmente. Conhecendo dados da sua história (Duparc, F., 1996), sabemos que André foi o mais novo de uma fratria de quatro. Assentes no Egipto, a mãe viajava com frequência para França para cuidar de uma filha mais velha que padecia de uma tuberculose óssea. Numa dessas viagens, a mãe soube da sua gravidez de André — podemos supor que os padecimentos na mãe pelos importantes sofrimentos desta filha estiveram por trás da profunda desinvestida e depressão da mãe a que parece poder assomar-se na sua terceira análise.
Não me quero alargar mais. As três situações que comento têm elementos em comum que nos podem levar à reflexão. Os três casos são primeiras análises que servem para entrar numa instituição analítica. Nos três, de modo explícito ou implícito, pode comentar-se que as primeiras análises estiveram mais marcadas pela ideologia a priori do analista ou da instituição. Geralmente, a tendência é centrar mais o peso nos conflitos mais intrapsíquicos do analisando, isto é, em níveis mais neuróticos do seu funcionamento — com analistas que aparentemente resistem mais a deixar-se envolver no âmbito transfero-contratransferencial.
As análises posteriores parecem ser mais exigentes no âmbito contratransferencial. Partem de necessidades importantes dos analisandos não vinculados com exigências institucionais. Parece que os três analisandos requerem aos analistas
que tolerem a expansão na transferência dos seus funcionamentos menos neuróticos. Kohut, aparentemente, fala de importantes requerimentos narcisistas na transferência, com um analista que permite a sua expansão e que não a interpreta como resistência e se localiza fora do jogo transfero-contratransferencial. Little parece que precisa despregar a sua parte mais actuante, e o que vive como as suas partes mais loucas. Winnicott parece aceitar o desafio regressivo da sua analisanda. Quanto a Green, parece de grande transcendência o facto de poder despregar uma depressão de transferência, e que a sua analista, Catherine Parat, o possa tolerar. Isto é, parece que nas três situações nos encontramos com experiências transfero-contratransferenciais mais intensas, com componentes menos neuróticas, com uma afectividade muito presente. E o que importa para a temática desta mesa, com importante convicção por parte dos analisandos relativamente àquilo que se viveu nos processos e a sua transcendência curativa.
Para mim, continua a não ser evidente o facto de se poder falar de verdade na transferência sem que isso não seja mais do que um exercício intelectual. Mas claro está, aquilo que eu posso destacar após este breve percurso é a sua importância, para que se possa produzir um sentimento de convicção no analisando de que o analista se deixa levar pelo desafio regressivo do analisando. Na minha opinião, enquadramentos estáveis com um alto número de sessões são condicionamentos importantes para que isto se possa produzir. Trabalhos com poucas sessões por semana, ou com sessões curtas ou de tempo variável, poderiam favorecer a resistência no analista a deixar-se envolver nestes movimentos transfero-contratransferenciais.
SUMMARY
In this paper that thinks over the real, the truth and the transference, the author starts from the freudian concept of conviction. And more accurately, he considers how during a latter psychoanalysis, the perspective of a former one can be modified. He makes a review about what Margaret Little, Heinz Kohut and André Green wrote (either in a direct, concealed or implicit way) about their formative psychoanalysis during later analytical procedures. He concludes that the transcendence of tolerating important regressive movements in the transfero-contratransferencial axis is important in order to make the conviction appear.
KEYWORDS: truth, transference, conviction, regression, re-analysis, contratransference.