Partindo da observação da dupla mãe-bebé na família segundo o método Esther Bick, a autora começa por evocar as exigências contratransferenciais que este modelo tripartido propõe ao observador. Segue retomando as sessenta observações realizadas neste caso, para pensar o entrecruzamento dos efeitos da transgeracionalidade e da importância estruturante do ritmo na constituição do psiquismo. Emergem, por fim, as articulações entre a conjugalidade e a parentalidade, na transformação da segunda pele (psicossomática) numa pele rítmica-psíquica, através de uma «harmonização de ritmos» ou «ritmicidade conjunta», que a autora liga ao papel do próprio observador.
A construção do vínculo entre uma mãe e seu bebê pode ser vista como uma história de encontros e desencontros, de claridades e opacidades, de harmonias e desarmonias. Numerosos trabalhos tratam das vicissitudes dessas histórias cheias de variações e de diferentes tonalidades musicais como uma sinfonia inacabada, que se reescreve a cada vez, com cada novo filho. VICTOR GUERRA
Este trabalho nasceu da observação da relação mãe-bebé na família segundo o método Esther Bick (1964). O longo percurso que caracteriza esta metodologia promove o alargamento da mente recetiva (Houzel, D., 2010a), seja a nível pessoal, seja a nível da clínica e do pensamento psicanalítico. Os benefícios do método, tal como preconizados por Bick e pelos autores que expandiram os seus textos seminais, são claramente percetíveis nas várias dimensões deste modelo tripartido: a observação, a escrita e o grupo de supervisão. Os três eixos interpenetram-se, como nos mostra França & Grunspun (2012), pois o objeto de observação (dupla mãe-bebé) e o instrumento de observação (mente do observador) sofrem contínuas transformações, ora mais conscientes, ora mais inconscientes, perante esse desconhecido. A comunicação pré-verbal em identificação projetiva que se vai instalando na dupla mãe-bebé (revêrie e alfabetização dos elementos beta) é experienciada pelo observador, seja de acordo com os seus objetos internos, seja também, e talvez acima de tudo, através de uma comunicação maciça e impactante (Prat, R., 1992), ora com o bebé, ora com a mãe/pai. O treino da capacidade negativa (Bion, W. R., 1962) e da capacidade de contenção no espaço/tempo da observação propriamente dita são promovidos na mente
Artigo recebido em 18 de Março de 2018 e aceite para publicação em 6 de Junho de 2018.
Publicado originalmente em: Observação de Bebês: método e aplicações, de Neyla Regina de Ávila Ferreira França (orgs.). São Paulo: Blucher, 2019: 63–96.
Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Psicanalista da Criança e do Adolescente (IPA). Formadora do Instituto de Psicanálise da SPP e do Método Esther Bick de Observação da Relação Mãe-Bebé (SPP). E-mail:
Nota: este artigo está escrito conforme o recente Acordo Ortográfico.
do observador, que poderá, posteriormente, no grupo de supervisão, apoiar-se nos conhecimentos psicanalíticos disponíveis para articular conjeturas e hipóteses (Gonçalves, M. J., 1998).
Espelhando o conflito estético (Meltzer, D. e Wiliams, M., 1988) como paradigma do desenvolvimento, este modelo de observação constituiu-se numa experiência de qualidade inesgotável cuja melodia continua a reverberar e a produzir novas harmonias. Do campo multifacetado e da complementariedade (Freud, S., 1917) que se cria entre o bebé e o ambiente (nature x nurture), emergiu, neste caso, o entrecruzamento dos efeitos da transgeracionalidade (Fraiberg, S. et al., 1975; Eiguer, A., 1987; Kaës, R. et al., 2001) e da importância estruturante do ritmo (; Guerra, V., 2014) na constituição do psiquismo.
A importância fundadora do ritmo inspirou os subtítulos deste trabalho, evocando a linguagem primordial e universal que é a música4. O bebé escuta, in utero, o pulsar do cordão umbilical e a batida sincopada do coração da mãe. Já nascido, acalma-se ouvindo a repetição familiar desse ritmo originário, ao ser intuitivamente embalado do lado esquerdo do peito. Com o desenvolvimento, esse compasso binário será gradativamente complexificado (compassos terciários e quaternários) passo a passo, com as crescentes exigências feitas ao psiquismo (da bidimensionalidade à tridimensionalidade e à tetradimensionalidade), dando origem a melodias relacionais mais e mais elaboradas. E, ao longo da vida, a música continuará a emocionar-nos com uma profundidade insuspeitada, acima de tudo por vias sensoriais que escapam à racionalidade ou ao processo secundário.
Um casal, ao desejar um bebé, que passará ou não de imaginário e fantasiado (Lebovici, S., 1987) a real, experimenta intensas angústias e incertezas e terá de se reorganizar não só externamente, mas, acima de tudo, psiquicamente. Também o observador estará sujeito a inquietantes ansiedades: de um lado, pela eventualidade de a observação não vir a concretizar-se, caso não encontre uma família que a aceite; de outro, pelo novo papel de observador, a ser criado e experenciado.
Poderíamos dizer que, ainda antes da observação propriamente dita, se desencadeia um processo interno de «gravidez» no observador, que vai acomodando o espaço/tempo que ocupará a tríade semanal — observação-escrita-supervisão —, preparando-se para mergulhar na intensidade emocional da relação precoce mãe-bebé, sem a sua caixa de ferramentas (Ungar, V., 2015) habitual. A casa de uma família é substancialmente diferente do setting do consultório. E a coconstrução do novo papel, de observar sem intervir diretamente, mantendo a necessária empatia com a família, será bem diferente da função mais ativa que a interpretação na clínica analítica permite.
A família é constituída por um jovem casal recetivo à observação. Já moravam juntos e, enquanto preparavam o casamento, souberam da gravidez — dos quatro para os cinco5 meses — do seu primeiro filho. Como o bebé (B) nasceria muito próximo da data agendada para o casamento, decidiram adiá-lo. A mãe (M), de origem estrangeira e imigrante, terminou a escolaridade em Portugal. Apresenta-se comprometida com a família, com o trabalho e com a observação, e, emocionalmente, revela-se contida nas suas preocupações e angústias. O pai (P), ligado profissionalmente à música, tem um círculo de amigos íntimos e mostra-se jovial, brincalhão e afetivo com o filho e com a mulher.
Ao final do primeiro encontro, e perante a pergunta relativa a quando lhes seria conveniente começar, M responde: «Já depois de amanhã! Encontrou bem a casa?», certificando-se de que a observadora (O) não se perderia. Mostrou interesse e recetividade com a observação: «você vai ajudar-nos a compreender melhor o nosso filho». Sendo uma mãe jovem, na sua primeira experiência com a maternidade, parece sentir necessidade de «ser acompanhada» pela O e reassegurada da sua função, como (boa) mãe: «Neste mês, fui todas as semanas ao hospital e eles pesaram e viram que ele estava a crescer muito bem. Acompanharam cada semana (como a O vai fazer…) e viram que estava tudo a correr bem (o que será que a O vai ver?).» Da parte do P, parece haver uma aceitação da observação sem reflexão e com alguma reserva.
Como se organizarão os múltiplos e mutantes arranjos — des-arranjos e re-arranjos — das díades e tríades que se formarão e transformarão dinamicamente entre mãe-pai-bebé-observadora? Frente à intensa relação mãe-bebé, o pai parece ocupar um lugar de espectador, presenciando o desenrolar dos acontecimentos, e de expectador, encontrando-se na expectativa do seu novo lugar: a sua função conjugal deverá ser retomada com novos contornos e a sua função paterna deverá vir a ser desenvolvida. Também a O terá de vir a desenvolver a sua mente recetiva (Houzel, D., 2010a) e o seu novo papel, em capacidade negativa (Bion, W. R., 1970) — suportanto a incerteza do desconhecido na constante atualização do conflito estético (Meltzer, D. e Williams, M., 1988) e contendo a sempre presente inquietação do estranho-familiar (Freud, S., 1919), «mediante a mesma identificação emocional e participação íntima da ligação M-B» (Mélega, M. P., 1987). Terá, assim, oportunidade de mergulhar e testemunhar, em statu nascendi, o psiquismo a constituir-se na enigmática e misteriosa aventura da humanização e da vida.
A palavra Música origina-se do grego Mousa, que significa literalmente «canção» ou «poema». As Musas, nove filhas de Mnemósine (Memória) e Zeus, viviam no Olimpo, no templo Museion (origem da palavra Museu), e personificavam os discursos em verso ou mousike: «arte das musas». Como deusas da música e da poesia, inspiravam simultaneamente a criação artística e científica.
Assim como numa primeira entrevista clínica, o primeiro encontro presencial com a família reveste-se de uma importância fundadora: a proposta de observação é aceite, implicando ambos os pais; é estabelecido o «contrato» da observação (funcionamento, duração, horários, férias, etc.); mas, acima de tudo, os pais e a O dão-se a conhecer pela primeira vez, ativando áreas arcaicas da mente, como na prancha I do Rorschach. Estão a nascer uns para os outros e está a nascer o projeto de observação; tal como B, é ainda um recém-nascido.
M conta que B nasceu de quarenta semanas e três dias, por parto cesariana, uma vez que «depois de catorze horas de trabalho de parto, só dilatou até três dedos e parou. Até pensaram que ele nasceria mais cedo, pelas trinta e oito semanas, mas não… ele estava bem lá. Acho que não queria sair… Nasceu com 3580 kg e agora está com cinco kg». [Emerge desta primeira fala da M a questão da dificuldade de separação. Terá a intervenção sido necessária pela resistência de ambos à separação: B não querendo sair e M estancando a dilatação?]5 B, com um mês e 16 dias, permanece todo o tempo ao colo da M, enquanto dormita. Comunica-se entre choramingos de cólicas e sorrisos, principalmente quando M fala, e esta parece ligada a ele conversando abertamente: «estás com cólicas?!; filho, queres conversar?!». [Como se conversa com um bebé?]M parece estar a viver uma boa relação com o bebé: tranquila e confiante no seu papel, ligada às necessidades do B e tolerante com as suas exigências e flutuações. [Preocupação materna primária?] Diz: «Os bebés não falam, mas comunicam muito!» [Que será que eles comunicam? Poderá a O escutar a dupla mãe-bebé e favorecer uma boa comunicação?] Continua: «Ele tem a constituição do meu avô, que é um homem muito alto e forte, cada mão dele são duas das nossas.» [O B fantasiado é forte pela linhagem materna, reassegurando a sua competência para gerar um bebé bom.] P, permanecendo mais distante, mas presente, acompanha a conversa/relação M-B. M continua: «Ele é tranquilo, mas tem cólicas… Tem vindo a aumentar devagarinho.» [M foi motivada e insistiu na amamentação, revelando um desejo de alimentar e se ligar ao B.] «Tem dias bons e outros piores… Está a adaptar-se.» [Também M parece estar a adaptar-se às necessidades do bebé e à presença da O…] B dormita e sorri enquanto ouve a voz da M, que diz: «Ele até sonha, porque acordamos com ele a rir.» [Valorização do mundo interno?] Em silêncio, olha B enquanto o acarinha. [Tolera momentos de recolhimento e aproveita para ir observando B…] Chamando-o de filho, segurando a mãozinha dele e apertando-lhe a barriga para o ajudar com as cólicas, diz: «Quando nasceu, era a cara inteirinha do pai. Igualzinho!» [Introdução e inclusão do P numa triangulação: o bebé também é dele! Esboço da criação de um espaço entre a M e o B?] P ri-se, babado.
A inclusão final do pai abre-se a eventuais boas triangulações: 1) P vai retomando o lugar com a sua mulher e dentro da mãe; 2) o advento deste novo bebé propõe aos pais o desenvolvimento da função parental — articulação das funções materna e paterna —, simultaneamente à retomada da conjugalidade; 3) a possibilidade de a família aceitar o processo de observação, desconhecido e estranho, denota uma terceiridade que conseguem acolher. A O mantém-se em capacidade negativa perante este intenso e estranho-familiar, tateando o seu novo papel de observadora na família.
B começa a existir no mundo mais alargado: foram fazer-lhe o documento de identificação (3.a obs.). Mostram o nome composto refletindo as subjetividades de ambos: nome próprio estrangeiro (mãe), seguido do segundo nome próprio do pai. O sobrenome da mãe e o do pai refletem também as suas respectivas nacionalidades. Movimentos conciliatórios apontando internamente para uma boa cena primitiva? Irá a O ganhando também um nome-presença no mundo desta família?
O quarto do B é a última divisão da casa a ser mostrada à O (4.a obs.). Estará ele repleto dos tais fantasmas «visitantes do passado não lembrado dos pais» (Fraiberg, S. et al., 1975, p. 387)? Será a O sentida persecutoriamente como a bruxa não convidada para o batizado (Bela Adormecida)? Retratará o quarto ainda não habitado pelo B a sua situação familiar? As paredes estão pintadas de cor suave — lado harmonioso — e decoradas com motivos infantis, mas é chamado de «quarto das desarrumações» — lado confuso. No chão, está um puzzle em construção para o B, cujas peças definidas por um corte e desenho ainda fragmentado, parecem configurar o quebra-cabeças do espaço mental, o difícil encaixe do feminino e do materno, do conjugal e do parental. Qual será neste momento o lugar do bebé? Qual será o lugar dado à O?
A posteriori, ressalta a hiper-recetividade da mãe à observação (iniciada dois dias depois do primeiro encontro), em articulação com a ligação ambivalente ao B: não planeado, mas desejado. A gravidez como desejo inequívoco de um bebé caminha par a par com o facto de as modificações do próprio corpo e dos movimentos do B não serem sentidas até aos quatro/cinco meses de gestação. Poderemos conjeturar uma rejeição (denegação)? E em relação à própria observação? Terá a M ficado grávida da observação, ambivalente e prematuramente? Qual terá sido a ressonância interna, para uma aceitação tão imediata, sem um tempo de reflexão? Encontra-se muito necessitada e intui que essa visita semanal lhe possa ser favorável? E o pai, de que maneira desejou ele este bebé e
Em itálico e dentro de parêntesis retos estão os pensamentos conjuntos da O e do seminário de supervisão.
também a observação? Esta modalidade relacional ambivalente (hiper-receptividade — hiper-rejeição) levará M, na relação com a O: 1) a rivalizar, por vezes, diretamente com o filho pela atenção da O e, muitas vezes, a ativar passivamente o interesse desta por si; 2) a mostrar, outras vezes, esperando confirmação, a boa M que é para o B; 3) a usá-la, algumas vezes, no bom sentido do uso do objeto (Winnicott, D.W., 1969). Poderá a O ficar aderida a esta teia de solicitações maternas veladas e deixar de conseguir observar o B? Conseguirá criar uma pele psíquica unificadora do seu papel de O, tanto da mãe(pai), como do B, ou seja, da relação mãe(pai)-bebé? Poderá vir a constituir-se numa mente recetiva (Houzel, D., 2010a) facilitando a pensabilidade?
A parentalidade é uma co-construção — there is not such a thing as an infant (Winnicott, D. W., 1960) — complexa e em grande parte inconsciente, pois, logo no nascimento, se instalam ativamente três configurações edípicas — da M, do P, do B —, e sabemos da importância da transgeracionalidade implicada na emergência da organização psíquica de qualquer bebé (Fraiberg, S. et al., 1975; Kaës, R. et al., 2001). Esta trará, inevitavelmente, as marcas da forma como cada um dos pais viveu interna e externamente as suas relações primárias. Encontraremos os fantasmas indesejáveis do passado dos pais, apenas como intrusos transitórios, ou defrontaremos aqueles que «fixam residência reivindicando os seus direitos acima dos do próprio bebé?» (Fraiberg, S. et al., 1975, p.389).
Durante o longo trajeto da observação, fomos testemunhando a emergência das competências do B na construção da sua subjetividade. Sabemos que crianças com um ambiente bastante favorável apresentam dificuldades de desenvolvimento e relacionais, enquanto crianças com ambientes adversos encontram soluções e conseguem transformar beneficamente o que o ambiente lhes dá, ou seja, conseguem «tirar o melhor partido de um mau negócio» (Bion, W. R., 1979). Cada bebé traz, portanto, os seus próprios recursos, facilitando ou dificultando essa coconstrução. Contrapondo aos «ghosts in the nursery», de Fraiberg, receberia cada bebé a transmissão de influências parentais benevolentes, os «angels in the nursery» (Lieberman, A. et al., 2005)?
A configuração e elaboração edípica da O permitiria diferentes timbres emocionais, harmonizando-se de diferentes maneiras e focando a observação mais nuns aspectos do que noutros? A mente e os próprios recursos da O — questão da personalidade do analista — facilitarão mais ou menos a criação de uma recetividade mental à turbulência emocional evocada?
Durante as sessenta observações realizadas6 neste cenário familiar particular, emergiram padrões transversais, tanto ao funcionamento mental, como a aspectos socioculturais.
Face à triangulação recém-criada, podemos perguntar quais terão sido as vivências do pai e da mãe enquanto bebés dos seus pais. Sabemos, por exemplo, que M foi um bebé prematuro de sete meses, tendo permanecido na incubadora por um mês. Este traço «prematuro» parece circular de várias maneiras: B chegou «prematuramente», obrigando a adiar os planos do casamento; e M propõe insistentemente ao B andar antes de se sentar ou engatinhar, promovendo um desenvolvimento prematuro e uma pseudoindependência. Poderemos pensar no desenvolvimento em falso self (Winnicott, D. W., 1990), num registo de pseudomaturidade (Knijnik, M., 2011), ligado transgeracionalmente às exigências de vida de ambos os pais?
O espaço, o ritmo, a alimentação, o vestuário, a contenção e os brinquedos do B são, em geral, pouco discriminados.
Na sala, há um sofá principal, um espaço condensado utilizado como cama, trocador, quarto, mesa de refeições, etc., onde B dorme, brinca, é trocado, vestido depois do banho, alimentado, etc. Frequentemente, a imaginação da O desliza para a realização de uma peça de teatro ou filme (tipo Nanni Moretti) sobre a vida de uma família, passada exclusivamente no sofá de uma sala… Haverá correspondências entre o uso do espaço de uma casa e o uso do espaço mental que é dado a cada membro da família? Os espaços condensados e tornados equivalentes revelariam uma certa indiscriminação psíquica? Os fatores socioculturais tendem a influenciar uma relação particular com o espaço? Seria a sala o espaço «público» oferecido à O e o espaço «privado», da intimidade, ficaria mais reservado? E, psiquicamente, caberá ainda perguntar sobre a bidimensionalidade ou tridimensionalidade do funcionamento mental? Essa sala-espaço-palco-cenário-único foi, no entanto, vivida dinamicamente ao longo dos dois anos: a disposição dos móveis passou por três rearranjos significativos, visando o seu alargamento e a incorporação de novos móveis para o acomodamento das necessidades tanto do B, como do casal.
Há pouca preocupação com a criação das rotinas e ritmos de sono (sentir sono-retirar-se-dormir-acordar), de alimentação (alimentar-satisfação-relaxamento-sentir falta-alimentar),
Dois dias depois do primeiro contacto presencial, inicia-se o processo de observação. B tem um mês e 18 dias. A partir da 53.a obs. (15 meses e dez dias), passou a quinzenal. Na 60.a obs. (vinte meses e vinte dias), passou a mensal, havendo mais duas observações até aos dois anos de B, quando a observação foi formalmente finalizada.
de banho (ora toma, ora não, e sem hora certa), de rotinas diárias (vai ou não vai à ama conforme as disponibilidades e turnos de trabalho dos pais). Os ritmos nesta família estão mais ao serviço dos pais do que às necessidades do B, que a eles se adapta docilmente: geralmente, sente sono e fome uma hora antes de vir a ser alimentado, quando os pais se reunem para jantar. Por outro lado, e geralmente, há uma clara disposição para o incluir e há desejo de estar com ele.
Os diferentes alimentos — sabores e texturas — são misturados e confusionados, facilitando à M a tarefa de alimentação. No entanto, B sempre comeu bem, aceitando tranquilamente as transições do doce para salgado e do líquido ou pastoso para o sólido. Tem uma alimentação rica e variada para a sua idade.
B parece estar muitas vezes pouco agasalhado para o frio que está em casa, e uma t-shirt despida antes do banho pode servir de babete para limpar a boca ao jantar. A fralda é regularmente trocada 15 minutos antes do banho e reutilizada após este.
B passa muito tempo no bebé-conforto e na espreguiçadeira, como se essa espécie de exoesqueleto, de pele externa fornecida pelas diferentes cadeirinhas, propiciasse a contenção interna (pele psíquica criada através dos ritmos, rotinas, diálogos, espaços, jogos e brincadeiras, etc.). Quando é solto no tapete do chão da sala, B fica feliz e explora ativamente os movimentos e recursos do seu corpo.
Não são apresentados e nem facilitados, como se não tivessem qualquer importância. A O oferece, logo no início, um coelhinho de peluche, a partir do qual M compra um gatinho similar — juntos, passam a acompanhar B na sacola da ama. Mais para a frente na observação, B liga-se à O através de um livro com história e músicas de um filme da Disney, que esta lhe dá no seu primeiro aniversário. B traz com satisfação o seu livro quando deseja brincar com a O, criando-se um espaço potencial de fantasia e imaginação, propiciando uma possível alfa-betização da relação M-B nesse campo: por vezes, a brincadeira estende-se prazerosamente aos três.
Encontra-se sempre ligada e tudo ao redor parece orbitá-la. O seu volume alto e o seu tamanho desproporcionalmente grande não favorecem a criação de ritmos e condições de sono e alimentação. Parece ter múltiplas funções: 1) usada como chucha, mas sem o papel calmante de consolo oral, que permitia ao B permanecer ligado ao ambiente; 2) de preenchimento espacial e relacional (M não usa a fantasia, imaginação, para entrar em contacto com o filho: cantar, ensinar gracinhas, conversar, brincar, etc.); 3) de distanciamento (o ambiente fica saturado de luzes e sons). A sobre-estimulação poderia vir a dar origem a uma criança excitada ou hiperativa, o que não parece ter acontecido com B. Curioso e investigador, B sempre se mostrou seletivo em relação à programação (escolhia os mesmos dois ou três desenhos animados com músicas e temáticas afetivas e relacionais adequadas à sua idade), buscando a relação e a exploração de brinquedos quando esta não lhe agradava.
As pessoas que entram no cenário da observação (família, amigos, animais, etc.) não são apresentadas à O, assim como M tem dificuldade em conversar e apresentar o mundo ao filho.
A dificuldade de fazer as transições e os elos apresenta-se refletida numa série de descontinuidades e mudanças abruptas que sabemos não favorecerem a criação de uma verdadeira pele psíquica (Bick, E., 1967, 1986): gravidez não planeada e reconhecida tardiamente; desmame precoce e abrupto; M, ainda de licença de maternidade, coloca B na ama; avó materna emigra, inesperadamente, para outro país, etc.
Contrariamente a P, que conversa, estabelecendo diálogos emocionais com B, a M parece não sentir necessidade de conversar com o filho. Não canta músicas de embalar, não propõe brincadeiras, não introduz, explica ou apresenta coisas ou mudanças. Também com a O, os factos são lançados para despertar interesse, como pequenas manchetes-iscos, e esta só terá acesso à notícia inteira se perguntar. M parece desejar/precisar que a O demonstre o seu interesse, sentindo-se talvez então confirmada e autorizada a contar as suas preocupações. Caso contrário, mantém-se contida e calada com as suas angústias.
O holding e o handling têm frequentemente um colorido intrusivo. M atira B ao ar e deixa-o cair (gerando um misto de prazer e ansiedade); aperta-o excessiva e inoportunamente, contra a sua vontade; beija-o na boca e dá-lhe longos beijos no pescoço; estimula o pénis quando o troca ou banha. B reaje, afastando-se e esbracejando para se livrar da insistência materna. Essa atitude intrusiva
evoca a famosa confusão de línguas descrita por Ferenczi (1932): B pede ternura e M excita-o; B quer aconchego e ela sexualiza a relação. A impossibilidade de diálogo, de usar a fantasia e a musicalidade ou o jogo para se comunicar com B, levará M a ter uma aproximação onde prevalece a excitação e a sexualização?
Parece acrescer um temor ao feminino, como se tivesse de confirmar a virilidade e vitalidade masculina do filho. Diz algumas vezes: «Se cair, é da maneira que aprende logo»; «Queimou a mão no aquecimento e agora nem chega perto, aprendeu!»; «Noutro dia caiu dez degraus da escada… e agora tem cá um cuidado…»; «Ai filho, és mesmo sensível». Estimula assim o lado masculino e ativo da bissexualidade psíquica, defendendo-se da vulnerabilidade e da fragilidade? Ou defende-se do seu bebé imaginário menina? O B real parece ser, no entanto, um menino tão sensível como corajoso, tão amoroso como destemido e desejoso de comunicar e aprender.
Paul Valéry diz-nos que «o mais profundo é a pele». A sua importância como órgão que tudo reveste, envelopando e unificando, ou seja, que está na origem de tudo, é atestada nas expressões quotidianas que dão conta da variedade de sentidos ao redor da pele — à flor da pele, ficar com pele de galinha, não lhe vestir a pele, ter duas peles, dentro da pele, estar na sua pele, lobo em pele de cordeiro, etc. — como as utilizadas também no curioso título do trabalho de Régine Prat (2010).
Sabemos desde Freud — «O ego é primeiro e acima de tudo um ego corporal» (1923, p. 40) — que o corpo é o lugar da experiência emocional e da construção do pensamento. «O próprio corpo de uma pessoa e, acima de tudo, a sua superfície, constitui um lugar de onde podem originar-se sensações tanto externas quanto internas. Ele é visto como qualquer outro objeto, mas, ao tato produz duas espécies de sensações, uma das quais pode ser equivalente a uma percepção interna.» (Freud, S., 1923, p. 39) A sensorialidade da experiência tátil pode ser então tomada como modelo da experiência psíquica.
Do nascimento até ao redor da 30.a observação, o ambiente de B é marcado por uma série de descontinuidades e ruturas que parecem ter-se constituído como terreno fértil para eclodir uma doença psicossomática de pele. Possível criação de uma segunda pele (Bick, E., 1967; Meltzer, D., 1975) e não de uma verdadeira pele psíquica? O casamento já marcado teve de ser adiado por três meses, pela descoberta «inesperada» da gravidez do 4.° para o 5.° mês; o nascimento foi subitamente por cesariana; o desmame abrupto aconteceu aos dois meses; o bebé foi colocado na ama aos dois meses e meio, estando M de licença de maternidade até aos seis meses; o casamento foi novamente adiado, por mais seis meses, desta vez por dificuldades financeiras ligadas aos subsídios à maternidade e à sazonalidade da profissão do pai.
A emigração inesperada da avó materna, levando M a deprimir-se e afastar-se de B, parece ter sido o acontecimento disparador do seu adoecimento aos três meses e meio (9.a e 10.a obs.), que se manteve até ao redor dos nove meses. Pele psicossomática, com diversas modulações e sucessivos diagnósticos: crosta láctea (dois meses), pele seca (três meses) e pele atópica (quatro meses). Dos quatro meses (12.a obs.) até aos oito meses e meio (30,a obs.), instala-se um crescente e penoso desconforto configurado como alergia ao leite em pó (cinco meses) e alergia à lactose (cinco meses e meio). Aos seis meses, surge a alergia ao leite de vaca e temos o auge do mau-estar, coincidente com o retorno de M ao trabalho (19.a obs.). B sente permanente e aflitivamente dor e coceira, chegando a ter praticamente todo o corpo em ferida (20.a obs.). Com sete meses, é diagnosticado com eczema (24.a obs.) e vive-se um grave impasse. B faz uma paragem no desenvolvimento, não gatinhando e recusando sentar-se. Aos oito meses, o casamento está marcado e confirmado para o mês seguinte.
Colocam-se algumas hipóteses e conjeturas transversais a várias dimensões: 1) pessoais, e ligadas às descontinuidades vividas precocemente na vida da mãe e do pai e talvez não suficientemente integradas; 2) conjugais e sociais, pela sobrecarga de trabalho da mãe, uma vez que o pai não pode oferecer estabilidade financeira à sua família; 3) culturais, na medida em que pela forte cultura religiosa de origem de M, a gravidez antes do casamento possa ter sido «vivida em pecado».
Em termos da parentalidade, o puzzle da triangulação parece difícil de encaixar, pela juventude do casal e o inesperado do bebé. Claramente acentuado com a partida da avó materna, reabrindo feridas e ruturas precoces, leva a mãe a um período de clara depressão. E sabemos que o objeto continente é sentido concretamente como uma pele, tem «como função interna conter as partes do self e depende, inicialmente, da introjeção de um objeto externo, sentido como capaz de cumprir esta função» (Bick, E., 1967, p. 194). M parece viver a maternidade funcionalmente, num registo muitas vezes de superfície (bidimensionalidade) e de indiscriminação de espaços e tempos, sem criar os elos, os ritmos, a revêrie e a continência que permitam ao B criar uma verdadeira pele psíquica. Pressiona B a adquirir uma pseudoindependência, mantendo-o, por outro lado, muito contido (bebé-conforto, espreguiçadeira) ou aderido a ela, em mensagens ambíguas. Excita-o com demonstrações afetivas intrusivas, favorecendo mais o corpo-a-corpo
adesivo do que a tri e tetradimensionalidade do mente-a-mente psíquico.
O casamento, duas vezes adiado, é finalmente marcado. Este facto, por volta da 30.a observação, parece constituir um turning-point organizador e estruturante. Esboçam-se as configurações do puzzle conjugal e parental, a discriminar-se pelo crescente encaixe das peças. Alguns desenvolvimentos:
aos oito meses e meio (30.a obs.), os preparativos para o casamento tomam o cenário familiar. B faz uma surpreendente recuperação física e psíquica com a retomada do desenvolvimento: a pele fica limpa de feridas, senta-se equilibradamente sem apoio e quinze dias depois já gatinha sem dificuldade;
a excitação e confusão de línguas, não se tendo dissolvido totalmente, vai dando progressivamente lugar ao encantamento pelo bebé. Ainda que tardiamente, M parece ir resgatando a linguagem da ternura;
aos nove meses, descobre-se que B não é alérgico a leite de vaca;
com nove meses e meio (33.a a 35.a obs.), dá-se o casamento e a lua de mel, com a observação emocionante e estética de uma boa/bela cena primitiva (35.a obs.), surgindo já com clareza a imagem do puzzle, resultante do encaixe mais harmonioso das «peças-chave» que faltavam;
B passa a ter o seu quarto (37.a obs.) e sai do quarto dos pais, agora casados! A conjugalidade surge mais estruturada, favorecendo a parentalidade;
B dá um salto no desenvolvimento, gatinhando agilmente, explorando a casa (perto e longe) e brincando. A parentalidade parece mais introjetada;
B é batizado no dia em que faz um ano (40.a e 41.a obs.). Vem toda a família que vive fora, o que parece ativar a própria infância e nascimento da M, que conta a sua penosa história de vida (39.a obs.) à O;
B é uma criança simpática e resiliente, encontrando recursos criativos para lidar com o ambiente pouco discriminado, mas amoroso.
O registo da 30.a observação (oito meses e 16 dias — um mês antes do casamento) será transcrito, uma vez que resume muitos aspectos já referidos, além de espelhar o retomar do desenvolvimento e a pele sarada, coincidentes com a marcação do casamento. Que terá significado o casamento nas suas dimensões cultural, transgeracional e intersubjetiva? Poderemos considerar que B pode retomar o desenvolvimento, pelo retomar da conjugalidade adiada dos pais? Pensando no impacto profundo da mente da mãe e do pai no corpo/psiquismo do bebé, poderá o casamento ter-se constituído como concretização da boa cena primitiva tanto para B como para os pais?
B está na espreguiçadeira, muito relaxado, a dormir profundamente, e a TV está, assim como a luz, inabitualmente desligada, criando um ambiente acolhedor. M parece feliz. Senta-se no sofá ao lado da O e fala de todos os preparativos do casamento (convites, igreja, fotógrafo, menu, convidados, vestido, os rituais e costumes da sua nacionalidade, etc.). B continua a dormir calmamente e sem se mexer. M, inesperadamente, acende a luz forte do teto. Volta a sentar-se e continua a falar dos vários convidados. Desvaloriza a sua tristeza por alguns familiares importantes não poderem estar presentes. B começa a acordar, mexendo as pernas e abrindo e fechando os olhos. Quando abre os olhos, está bem de frente para a O. Olha-a demoradamente e esboça um sorriso, voltando a fechar os olhos, até que os abre de novo e se mantém quieto a olhar. M está atrás dele e ele ainda não percebeu. B observa a O, que o cumprimenta. M observa o filho a observar a O como se, de repente, tomasse o seu lugar de observadora e gostasse dessa posição, pelos sorrisos cúmplices que faz e pelo tempo que permite que B a olhe, mantendo-se em silêncio. [B observa a O, re-conhecendo possivelmente o laço que os une? M observa a observadora em relação com o filho, permitindo que este se interesse por outras pessoas. Terá introjetado a função observante da observadora?] Passado um pouco, diz: «Acordado, filho?!» Ele vira a cabeça para trás, estica os bracinhos e choraminga, «pedindo» que M o pegue. M levanta-o, beija-o e diz: «Ai tão suado, coitadinho, filho, que calor.» B está de fralda e t-shirt. A pele está toda normalizada como só esteve até aos três meses. A O sente um imenso alívio! Além da pele lisinha, B está bonito e grande. M passa-lhe a mão pelo cabelo e diz: «Está igualzinho ao meu avô, o meu sangue a vir ao de cima… Cada vez mais loiro.» Ri-se. M coloca-o no chão e diz: «Mostra à Ana, filho!» A O não se contém e, emocionada, diz: «Mas que maravilha, hem, B?» Ele está sentado como se sempre se tivesse sentado… Totalmente sem apoios e em perfeito equilíbrio. M dá-lhe dois brinquedos. [Será que tem vindo a sensibilizar-se para a importância do brinquedo e do jogo, através da O, que foi dando alguns brinquedos ao B? Antes, não havia brinquedos e nem o espaço potencial da brincadeira.] Ele pega na chave de plástico colorida, que ora leva à boca, ora abana para chocalhar as bolinhas coloridas propositalmente. M liga a TV no canal Panda, para a qual B olha, sorrindo para os desenhos/músicas que lhe agradam e lhe são familiares. A certa altura, M sai para a cozinha e B chora na direção dela. [Não entra em desespero, mas mostra a angústia dos oito meses.] M diz: «Ai filho,
que coisa, tudo a mãe, tudo a mãe… Não pode ser.» Do corredor, fica a olhar com certa satisfação para o choro dele. [] O choro com lágrimas vai ficando mais forte, tornando-se numa reclamação. A O sente desconforto, por M o olhar e deixar chorar. Quando o choro se intensifica bastante, pega-o ao colo, acalma-o e volta a sair para a cozinha. Ele chora na direção da cozinha. [° mês.] Uma visita que se encontrava na casa pega B ao colo e senta-se no sofá onde estava a M; aninha-o maternalmente, embala-o balançando suavemente e fazendo festinhas na cabeça e nos bracinhos. Limpa-lhe as lágrimas e vai falando suavemente: «Ai, tantas lágrimas, ai, é tudo mãe, tudo mãe, pronto, já passou, a mãe está ali. Olha a Ana…» [ «» «» ] M volta da cozinha e diz: «Ah! Ah! Já me trocou por outra… Rápido, não é?!» Ao ouvir a sua voz, B retoma o choro. [] M mantém-se afastada, para ele a requisitar mais e mais, e o choro vai aumentando. Decide então dar-lhe banho, começando a despi-lo. O corpo não tem uma única ferida ou vermelhidão. Finalmente, a pele sã de um bebé! M diz que vai aproveitar a fralda, que não tem xixi, e leva-o para a casa de banho, sentando-o na banheira sem nenhum apoio. B mantém-se em perfeito equilíbrio e com prazer. Tenta pegar nos bonecos flutuantes do banho, que se afastam com os seus movimentos na água. Choraminga enquanto M lhe vai lavando a cabeça. Deita-o então para lhe lavar o corpo e ele está feliz. Tem uma ereção e faz xixi. M ri-se e mexe no seu pénis: «Oh, seu porcalhão, agora… agora…» [ «» ] B brinca com um brinquedo que afasta com as mãos para observar à distância; aproxima-o de seguida e leva-o à boca. Bate com força as pernas, espirrando, com prazer, água por todos os lados. M ri-se e é tolerante, penso que até acha uma certa graça a tanta vitalidade, interpretando-a talvez como um ato de masculinidade. B começa a vocalizar bastante. Numa melodia de conversa, vai repetindo sílabas e experimentando diferentes entonações. M ri-se e ele sorri de volta, e continua. Sinto um clima de grande descontração, de brincadeira, de prazer. M deixa-o deliciar-se com a água, com os movimentos, com as vocalizações. Quando o retira da banheira, leva-o para o sofá da sala, onde o seca e lhe passa creme. B, muito enérgico, brinca com a chave de plástico e, por vezes, tenta pegar no tubo de creme. Levanta-se subitamente, de uma vez só, passando da posição deitado para a de sentado. M ri-se, olhando para mim, surpresa e orgulhosa: «Já viu isto?» Diz que ele tem uma força incrível. Que não para. Que caiu e teve de puxar a grade do berço para cima, porque ele já tem força para sair. Diz que vai montar o quarto dele. Que ainda tem medo, porque, uma vez, B chorava e gritava sem parar e ela não o ouviu. Mas que também pode colocar o berço dele de maneira que ele os veja de lá, porque os quartos são mesmo em frente um do outro. [] Continua: «Ainda por cima, ele já dorme a noite inteira e nem acorda para beber leite.» [] M veste-o e mostra como ele a ajuda, enfiando os bracinhos na camisola. B começa a choramingar. M aperta-o, excita-o com beijos na boca e no pescoço, e coloca-o no chão, sentado. Ele olha para a TV, brinca com uma bola e choraminga na direção da cozinha. M foi buscar o jantar dele e, como habitualmente, vai usando o braço do sofá como mesa, trazendo um copo com água, uma taça com sopa e outra com peixe e verduras, um pote de gelatina industrializada e uma toalha. Senta-se, coloca B ao colo com a toalha grande a servir de babete. A visita despede-se e M diz-lhe para pegar num convite do casamento, mas para não dizer a ninguém que já lho deu. B choraminga e M diz que ele está cheio de fome: «Oh, filho, não te dão comida lá na ama? Que fome!» [á é bem tarde, ] Diz que já introduziu o peixe, separado, sem estar misturado na sopa, e que ele gostou. Experimentou gelatina, para não ser sempre iogurte, e ele também gostou. Diz aceitar muito bem diferentes sabores e ter passado a dormir muito bem. B vai comendo com apetite, uma colher atrás da outra. [] M vai alternando ora a sopa, ora o peixe com legumes, ora a gelatina. De vez em quando, dá-lhe água pelo copo. Ele tem apetite e vai comendo, colher atrás de colher, enquanto vai olhando para os desenhos animados na TV. [ M não apresenta a comida («…»«…»…] No entanto, ela é cuidadosa na preparação da refeição e atenta
Casamento confirmado. B dorme a noite toda. Pele curada. Retoma do desenvolvimento. Sinais da angústia dos oito meses. Alimentação variada. M observando a observadora na relação com B. Encantamento a ser retomado. Perspectiva de quarto para B. Cantam e dançam pela primeira vez.
Testemunhamos finalmente a dança simbólica da díade, escutando a melodia da tríade. Terá sido o diálogo precoce estagnado pelo casamento colocado «em pausa»? O laço de encantamento suprimido pelo aflitivo sofrimento da pele? Estará a segunda pele, resultante de fatores transgeracionais e descontinuidades agidas, a metamorfosear-se numa pele psíquica verdadeira, num espaço mental tridimensionalizado? O casamento, próximo de vir a realizar-se, parece ter desencadeado o descongelamento e o re-ligamento do fio quebrado da conjugalidade ao fio em construção da parentalidade. Depois do casamento, B ganha um quarto-espaço-próprio e o casal readquire a conjugalidade na intimidade do seu próprio quarto.
Apoiados nas sessenta observações, e à guisa de conclusão, levantamos algumas articulações entre a conjugalidade e a parentalidade, na interseção da transgeracionalidade e do ritmo, como constituintes do psiquismo.
Verificamos que a partir dos três meses o bebé desenvolveu uma doença psicossomática de pele, que se foi agravando até aos nove meses e dando origem, simultaneamente, a uma paragem do desenvolvimento. No momento em que a mãe pôde restabelecer de forma clarificada, dentro e fora de si, a construção da conjugalidade suspensa pelo nascimento do bebé, pôde então estruturar mais consistentemente a parentalidade. O resultado foi a pronta recuperação do bebé e a imediata retoma do desenvolvimento.
Colocamos a hipótese de que a falta da construção da pele psíquica verdadeira, devido a descontinuidades agidas (acting) transgeracionalmente, foi compensada psiquicamente pela continuidade assegurada pelo ritmo/musicalidade (profissão do pai e língua estrangeira da mãe). O bebé tem muito ritmo e um visível prazer na música. O ambiente da família é muito musical: os pais conheceram-se através da música e o pai trabalha com música. A mãe, de origem estrangeira, fala com o bebé na sua língua materna, com uma musicalidade própria, sendo que os momentos esteticamente mais emocionantes da observação foram justamente a mãe a cantar e a dançar com o bebé (30.a obs.) e a escutar com ele músicas de Natal (44.a obs.) do seu país de origem.
O puzzle da conjugalidade e da parentalidade parece começar a encaixar. A conjugalidade finalmente oficializada (tanto interna, como sociocultural e religiosamente) poderá ter funcionado como pele psíquica para a parentalidade agora «autorizada», permitindo ao B retomar o seu desenvolvimento? Curar a pele é também ir estabelecendo uma pele psíquica (e não mais uma segunda pele), ou seja, a sua intersubjetividade, separado, mas ligado através do um lugar discriminado: filho do casal com o seu quarto? Quarto como «espaço físico dentro da família com tradução psíquica no self infantil e como indicador de equilíbrio familiar relacional mantendo a distância suficientemente boa entre as gerações de pais e filhos» (Ferreira, T., 2002).
A parentalidade até aqui assente na funcionalidade e na ambiguidade (desejar casar, mas deixar-se engravidar; desejar este bebé, porque senão não o tinham tido, mas simultânea e inconscientemente rejeitá-lo, pois paralisou o casamento) parece ter sido transformada pela conjugalidade, e esta última, dialeticamente, ao permitir a desintoxicação da parentalidade, abriu
o caminho para a criação de uma verdadeira pele psíquica.
B expressou o seu mal-estar através de uma doença psicossomática que parece refletir as descontinuidades precoces (gravidez, desmame, ama, emigração da avó, luto da mãe), vivências sem os necessários elos e transições que lhe permitissem construir um sentido de continuidade, um envelope psíquico (Houzel, D., 2010b). Assim que M consegue realizar o seu desejo de constituir uma família (a oficialização do casamento parece permitir-lhe apropriar-se da família já construída, não só de facto, mas finalmente de direito), B responde com uma pronta retoma do desenvolvimento. O «casamento oficializado e autorizado» e o bebé em desenvolvimento parecem, por outro lado, retroalimentar-se num ciclo benigno, aumentando os recursos tanto da M, como do B.
Perguntamo-nos ainda acerca das competências do B. Ele é um bebé resiliente, doce, cheio de competências: limita a mãe na sua intrusividade; sofre, autocontendo-se; investiga, deseja o conhecimento (K) e busca-o ativamente; aprende a brincar; liga-se afetivamente (aos pais, aos brinquedos, às personagens das histórias — do livro e dos seus programas favoritos da TV — e à observadora). Sabemos que os bebés trazem qualidades próprias que lhes permitem lidar melhor ou pior com o ambiente onde «a cegonha os deixou». Terá ele criado uma segunda pele, um estado transitório de não-integração, mantendo o seu verdadeiro self oculto, até que o ambiente lhe permitisse um «gesto espontâneo»?
Colocamos como hipótese que a música, lugar pré-verbal de afetos, correu sempre subterraneamente nesta família e se tornou num apoio para o crescimento do B. O ambiente, apesar de pouco discriminado, tem uma melodia amorosa. Todas as pesquisas de Haag (1986) sobre o pensamento sensorial mostram a coexistência de registos simbólicos pré-verbais e verbais, estabelecendo uma trama sensorial através do contacto rítmico nas trocas de olhares, sons e toques. A transformação da sensorialidade do bebé através da relação/revêrie com a mãe prepara a introjeção da continência de sensações-emoções. Nas palavras de Victor Guerra (2014): «O ritmo configuraria então uma das primeiras formas de inscrição da continuidade psíquica, um núcleo primário de identidade (identidade rítmica)… Há algo além do conteúdo da linguagem: a música, a melodia, o ritmo, que podem chegar a ser uma forma de apoio do ser: a sonoridade da língua materna, que forma parte do itinerário existencial do ser humano e, por sua vez, é o sinal de identidade de todo imigrante.» M fala com B na sua língua materna, com uma musicalidade própria, que é claramente a língua dos afetos e da intimidade entre os dois. O P trabalha com música e, em casa, ela está sempre presente no ambiente.
Haag (1990) considera também que as experiências sensoriais são o fundamento da paixão, tanto de conhecer como de ser conhecido, sendo assim a base da capacidade exploratória e criativa do bebé. Parece-nos que este bebé e estes pais encontraram uma «harmonização de ritmos», «ritmicidade conjunta» ou «compatibilidade rítmica», como forma de «nomear uma forma de encontro não verbal, que pareceria ser fundador de um núcleo primário do self (identidade rítmica) que, como vemos, continua vigente ao longo da vida e que se revive a posteriori em momentos importantes nos quais às vezes a palavra não funciona como forma de elaboração psíquica» (Guerra, V., 2014).
O papel da observação não seria também esta «sintonização e harmonização de ritmos» não verbal com a família, favorecendo a transformação da pensabilidade pela continuidade da presença, pelo desenvolvimento da empatia com-paixão e pela capacidade continente da mente da O? Observação como «atenção continente» para, no «domínio da sensorialidade», acolher «o que Geneviève Haag chama de “excorporações ou sensações-emoções”» (Druon, C., 1995, p. 142). M criou uma transferência positiva com a O, revisitando situações precoces da sua própria história, valorizando o espaço do brinquedo/jogo e introjetando uma função observante. B ligou-se à O, através do brincar e dos livros de histórias com músicas, cuja sonoridade-figuralibilidade-narratividade talvez tenha contribuído para o seu desenvolvimento, alargando o espaço potencial e intermediário, base de toda a cultura.
ABSTRACT
Based on the mother-infant observation in the family according to the Esther Bick method, the author begins by evoking the counter-transferential requirements that this tripartite model proposes to the observer. Continues by retaking the sixty observations made in this case, to intertwining the effects of transgenerationality and the structuring importance of rhythm in the constitution of the psyche. Finally, the transformation of the second (psychosomatic) skin into a rhythmic-psychic skin, brings the articulation between conjugality and parentality through the “harmonization of rhythms” or a “shared rhythmicity”, which the author links to the role of the observer himself.
KEYWORDS: second skin, rhythmic-psychic skin, conjugality, parentality, Bick observation.
quando ele não quer mais, respeitando. Quando termina, M coloca-o em pé no chão e aperta-lhe a barriga, que está bem cheiinha e redondinha. Ele dá um sonoro arroto. Começa a ouvir uma música, ri e dança, vocalizando, e treinando a melodia. M sorri, achando graça, e diz: «Acho que ele não se desenvolvia por causa da pele. [M coloca hipóteses e pensa no seu bebé.] Agora, não tem mais nada de eczema e tem outra disposição. Nunca mais se coçou e sangrou. É um alívio, já não sabia o que fazer…» [M vivia num estado de constante ansiedade, embora não verbalizasse. Contida emocionalmente, não mostrava tanta aflição quanto a que sentia.] Pega-o ao colo, dança com ele feliz enquanto canta e diz que ele adora esta música. [O bebé pequeno solicita uma comunicação emocional pré-verbal, que parece não estar bem desenvolvida na M. Por outro lado, as angústias do corpo adoecido eram muito intensas até agora e talvez M possa, a partir daqui, gradativamente, retomar o diálogo afetivo precoce, tão estruturante, que se perdeu. Desaparecendo a ansiedade da pele, ela está mais propícia a contactar descontraidamente com B? Enquanto ele esteve doente, não estava livre para a relação?] Ele, sorridente, vai vocalizando e imitando a melodia. [A criança capta a música e a melodia, linguagem pré-verbal que (re)conhece desde sempre]. M parece estar vivendo um momento de encantamento e repete várias vezes que B adora esta música. [Ele adora a música e ela adora poder dançar esta música com ele… Cantar e dançar é um momento relacional muito importante em todas as culturas, para expressar sentimentos, sejam de enamoramento ou de guerra, etc…] Termina a hora. A O despede-se do B e da M. Ela pega na mãozinha dele para fazer o gesto de adeus: «Diz adeus à Ana, diz…» [Começa a existir o espaço lúdico das imitações como primórdios das identificações: dizer adeus, mandar beijo, onde a galinha põe o ovo, etc.]