As muito humanas capacidades de sonhar e de imaginar, de diversos investigadores e programadores, têm conduzido a avanços tecnológicos significativos, concretizando fantasias previamente vistas como totalmente irrealistas.
O desenvolvimento de sistemas inteligentes é, seguramente, na atualidade, um dos expoentes destes avanços. Quer pelo impacto que tem, já, no ser humano (e na sociedade), quer pelas expectativas de desenvolvimento de um sistema capaz de mimetizar o cérebro humano.
Se a complexidade (a já descoberta e aquela que está, ainda, por descobrir) do cérebro humano nos leva, desde logo, a colocar dúvidas perante a possibilidade de tal mimetização, o ceticismo aumenta se atentarmos à teoria e à prática psicanalíticas. Da identidade filogenética às questões relacionadas com a importância do individual desenvolvimento psicossexual, da relevância das relações precoces ao inultrapassável papel da unidade somatopsíquica na construção da identidade, muitas são as razões que nos levam a concluir pela impossibilidade de desenvolvimento de um sistema que ultrapasse o nível cognitivo e funcional. Algo muito distante do significativo e fulcral mundo relacional, que constrói e modifica a identidade do ser humano.
A história da ficção científica está repleta de exemplos de fantasias realizadas. De objetos e de fenómenos antecipados, por vezes, em séculos: as trípodes que se deslocavam autonomamente, alegadamente criadas pelo deus Hefesto e descritas por Homero; as viagens à Lua, narradas por Júlio Verne; ou a «biblioteca global», avançada por Isaac Asimov, são alguns exemplos da concretização daquilo que, na altura, não passava de fantasias dos autores, e que hoje são realidades estabelecidas e, mesmo, excedidas.
A materialização dessas fantasias deve-se, seguramente, às muito humanas capacidades de sonhar e de imaginar de diversos investigadores e programadores. Do desenho e da construção de simples estruturas mecânicas capazes de realizarem automatismos mais ou menos rudimentares, ao desenvolvimento de computadores com capacidade para a execução de cálculos extremamente complexos e, mais recentemente, à conceção de sistemas inteligentes, os avanços foram sendo alcançados porque o Homem tem uma enorme capacidade criativa.
Mas em que consistirá a inteligência artificial? Outras pessoas estarão bem mais habilitadas do que eu para dar esta resposta. Avento, todavia, a noção proposta por Crowder & Friess (2013) de que os princípios, as teorias e os conceitos fundamentais para a concretização de um sistema
Artigo recebido em 25 de Novembro de 2018 e aceite para publicação em 4 de Fevereiro de 2019.
Comunicação apresentada no XI Colóquio do Porto «Psicanálise e Cultura: A civilização e os seus (des) contentamentos», realizado no Porto, em 9 e 10 de novembro de 2018.
Médico psiquiatra. Director do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa. Psicanalista. Membro titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
Nota: este artigo está escrito conforme o recente Acordo Ortográfico.
de inteligência artificial verdadeiramente autónomo, na aprendizagem e no raciocínio, implicarão a mimetização dos processos e subsistemas existentes no cérebro humano, incluindo conceitos de intuição e de memória emocional.
No desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial, que visam a compreensão da natureza do pensamento e da ação inteligentes, têm participado as mais diferentes disciplinas do conhecimento humano: a engenharia (mormente a cibernética), a biologia, a psicologia experimental, a teoria da comunicação, a teoria dos jogos, a matemática e a estatística, a lógica e a filosofia e a linguística (Buchanan, B. G., 2005).
Mais recentemente, surgiu uma nova disciplina, a psicologia artificial, que pretende estudar os processos mentais de um sistema de inteligência artificial, similar ao cérebro humano, e abordar os processos cognitivos exigidos para que uma entidade artificialmente inteligente seja isso mesmo: inteligente. Isto é, que desenvolva, autonomamente, capacidades de aprendizagem e de autodesenvolvimento; que seja capaz de se reprogramar a partir de novos dados adquiridos e de resolver conflitos de programação, mesmo na ausência de informação completa. Tarefas que incluirão, por isso, a aprendizagem, a memória, a perceção, a linguagem e a lógica (Crowder, J. A. & Friess, S., 2013).
Os conceitos de aprendizagem e de aquisição de conhecimentos são, por isso, parece-me, primordiais no desenvolvimento de sistemas inteligentes.
A questão da aprendizagem e do desenvolvimento de sistemas capazes de a adquirir teve início com os programas de jogos de xadrez. Só posteriormente, com o desenvolvimento de métodos heurísticos, se alargaram as possibilidades de aquisição de conhecimento (Buchanan, B. G., 2005). A mudança de paradigma, por assim dizer, foi a passagem da computação do cálculo para a comunicação.
Mas a complexidade (a descoberta e aquela que está, ainda, por descobrir) do cérebro humano será possível de ser mimetizada por um sistema não orgânico? Fenómenos como o pruning, a migração, a agregação e o reposicionamento neuronais (que ocorrem durante todo o desenvolvimento do ser humano), a plasticidade neuronal ou as modificações significativas na produção e na expressão de neurotransmissores, que vão, cada vez mais, aumentando a complexidade conhecida da estrutura e do funcionamento cerebral (Rodado, J. & Rendon, M., 1996), colocam-nos dúvidas quanto à possibilidade da mimetização pretendida. E isto apenas em termos orgânicos.
Neste momento, a questão da aprendizagem e da aquisição de conhecimento (e da sua representação) está centrada, creio, na construção de sistemas que façam a gestão do conhecimento e aprendam a aprender, mas em termos estritamente cognitivos.
Em termos psicanalíticos, porém, podemos afirmar que a inteligência é, apenas, uma das muitas funções do Eu. Uma função superior, é certo, mas uma das muitas funções do Eu.
Nenhum dos sistemas propostos abarca na sua totalidade aquilo que Freud chamou de «aparelho psíquico» — quer de acordo com a primeira tópica (a existência de um sistema consciente, um sistema pré-consciente e um sistema inconsciente), quer em termos da segunda tópica (que identifica as três instâncias psíquicas: o Id, o Eu e o Supereu).
A inteligência artificial, da forma que tem vindo a ser desenvolvida, está intrinsecamente ligada às funções superiores do Eu consciente, não levando em conta nem as motivações pulsionais e instintivas (do Id) que estão associadas a determinado pensamento, nem os estados afetivos específicos que precedem qualquer estado cognitivo. Isto é, não leva em conta toda a área subjetiva intrapessoal nem as emoções que antecedem e acompanham os estados cognitivos. No fundo, é como se se apresentasse um produto final sem atentar aos diferentes e individualizados percursos (humanos) para se atingir tal produto. Retomando a biologia, poderemos afirmar que a inteligência artificial se relaciona com as funções corticais, escotomizando o facto de essas mesmas funções estarem integradas com outras, subcorticais, e de serem, sempre, produto de muitas outras funções cerebrais e psíquicas (Badalamenti, A.F., 1988).
Retomando a ficção científica, a antropomorfização (resultado de fenómenos projetivos) de sistemas de inteligência artificial é por demais evidente. Filmes como Blade Runner – Perigo iminente (Scott, R., 1982), AI – Inteligência artificial (Spielberg, S., 2001), Ex Machina (Garland, A., 2014) e Blade Runner 2049 (Villeneuve, D., 2017) apresentam sistemas inteligentes humanoides que se comportam, pensam e sentem como se humanos fossem.
Do androids dream of electric sheep? (Androides sonham com ovelhas elétricas?) é mesmo o título da novela de Philip K. Dick (1968) a partir da qual foi escrito o argumento do filme de Ridley Scott Blade Runner – Perigo iminente. Mas serão os sistemas inteligentes capazes de sonhar? A fantasia ou os sintomas psicopatológicos como o delírio ou a alucinação podem ser mimetizados? E, no limite, se tal, afinal, se concretizar, que identidade terá esse sistema, se não tiver uma história pessoal, se não for biológico… Como conseguir alcançar a subjetividade, o implícito, o não-dito?
Em termos psicanalíticos, salientemos a importância do desenvolvimento psicossexual
e da sua vivência individualizada (nomeadamente da sexualidade, e da agressividade), a importância das relações precoces, da inultrapassável unidade somatopsíquica na construção da identidade, do facto de o ser humano existir no corpo próprio e na relação com o corpo do outro. E, além das questões ontogenéticas, não esquecer a não menor importância da identidade filogenética.
A identidade humana, em permanente construção, não é, por isso, passível de ser representada como algo atingido.
E convirá, ainda, recordar os princípios fundamentais reguladores do funcionamento psíquico humano, propostos por Freud, que, ainda que sejam atualmente compreendidos de forma diferente da inicialmente proposta, se continuam a verificar e confirmar na nossa prática clínica: o determinismo psíquico, a múltipla determinação, a múltipla função, os princípios do prazer e da realidade e os processos primário e secundário ou a compulsão à repetição.
Investigadores e programadores construíram, já, alguns sistemas com eventual aplicação à prática clínica médica e psicoterapêutica: na década de 1960, o programa ELIZA imitava a comunicação empática de um terapeuta com uma abordagem do tipo rogeriano; no início da década de 1970, foi criado o modelo computacional PARRY, que simulava um indivíduo com uma psicose esquizofrénica do tipo paranoide — sistema que terá passado, pela primeira vez, pelo famoso «teste de Turing» (1950) (Luxton, D. D., 2014); no final da mesma década de 1970, foi criado um modelo — ERMA — que simulava uma paciente do sexo feminino em psicanálise, mas que, apesar de integrar cinco módulos em permanente interação (relacionados com base de conhecimentos, com o Supereu, com a introspeção, com o discurso e com a análise de meios para alcançar determinadas finalidades), assim conseguindo alcançar funções superiores, se mantinha num registo de funcionamento meramente cognitivo. O mesmo se passa, a meu ver, com os sistemas de inferência dirigida por padrões (PDIS – Pattern-directed inference models) implementados para variadíssimas utilizações, como na compreensão de discurso, na ajuda ou substituição do diagnóstico médico, ou na investigação de diversos processos cognitivos (Teller, V., 1988).
Há, contudo, diversos investigadores que têm fomentado uma aproximação e uma complementaridade entre o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial e a psicanálise. Uma das faces mais visíveis desta aproximação será Sherry Turkle, professora de Sociologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e fundadora e diretora do Institute of Techology and Self. Nos seus trabalhos, Turkle salienta que modelos computacionais como os de Minsky (1987) evocam a teoria da relação de objeto de Fairbairn e agentes que remetem para as instâncias psíquicas freudianas (Turkle, S., 1988), acabando, contudo, por falar em «recalcamento cognitivo» e «inconsciente cognitivo» — indo, por isso, ao encontro da relação de extrema proximidade entre a ciência cognitiva e os desenvolvimentos da inteligência artificial (Forbus, K. D., 2010).
Ou seja, e retomando o que atrás já salientámos, os profissionais dos computadores e os investigadores das neurociências precisam de atentar às limitações dos computadores e compreender a enorme complexidade do cérebro e da consciência (Shapshak, P., 2018). Mais ainda, acrescentaríamos, atentar às dificuldades acrescidas que se relacionam com o não-consciente e ao que se passa ao nível da subjetividade.
E esta é uma outra questão relevante: a da possibilidade de existência de uma consciência por parte de um sistema de inteligência artificial. Para esse problema, chama a atenção, por exemplo, Fred Levin (1997), num comentário a um artigo de Mark Solms publicado no Journal of the American Psychoanalytic Association (Solms, M., 1997). Nesse comentário, Levin identifica aquelas que chama de «variáveis hipercomplexas» — a afetividade humana; o sentimento de self; a capacidade observacional empática; a capacidade introspetiva; a mentalidade psicológica; a capacidade de insight; a criatividade; a capacidade semiótica (comunicacional); a transferência e a contratransferência; o desenvolvimento psicológico diferenciado; o relacionamento de objeto; a coesão do self; a capacidade de aprendizagem avançada; a capacidade de amar; a capacidade de estabelecer e utilizar valor humano e hierarquias de objetivos; o sentido de humor; a aceitação da mortalidade. Estas e outras seriam, então, «variáveis hipercomplexas» que requerem uma combinação de processos inconscientes e processos conscientes (autorreflexivos) que não são, de momento, passíveis de mimetização por um sistema de inteligência artificial. E temos sérias dúvidas que alguma vez o sejam.
Mas as mudanças já criadas, os objetos e sistemas já desenvolvidos, e em utilização, implicam também o repensar das teorias e da prática psicanalítica.
São já reais sistemas inteligentes como os avatares (simulação de humanos em realidade virtual) capazes de interagirem e estabelecerem uma conversação inteligente e utilizados em algumas intervenções terapêuticas psiquiátricas; o desenvolvimento de modelos computacionais de decisão clínica capazes de detetar alterações da temperatura, expressões faciais, características
vocais e outros padrões de comportamento; ou a utilização de companheiros virtuais (sejam eles animais de estimação robôs ou de outro tipo) na tentativa de diminuir sentimentos de solidão (Luxton, D. D., 2014).
Estes sistemas levarão em conta a importância da relação terapêutica? A compaixão, a empatia, a sabedoria da experiência pessoal — por parte do terapeuta — e os lapsos, as hesitações, as contradições e a ambivalência — por parte do paciente — serão passíveis de modelos computacionais?
Atualmente, contudo, é já por demais evidente o recurso aos computadores e à realidade virtual por parte da população. Teremos, por isso, de atentar ao facto de que esse relacionamento tem implicações na identidade e no sentido do self do ser humano. O que, assim sendo, afetará a forma como nos relacionamos com os outros (ademais de os computadores poderem ser vistos como companheiros dos utilizadores). Nesse aspeto, concordamos com Turkle (2004) quando aponta para a necessidade de repensar as teorias da relação de objeto, levantando significativas questões.
Os sistemas de inteligência artificial passarão a ser incluídos na rede de relações «interpessoais», com implicações ainda não completamente esclarecidas. Sistemas de inteligência artificial podem vir a ser utilizados para reconhecer os estados emocionais dos utilizadores e responder com estados emocionais próprios (seja através de animais ou outros bonecos mecânicos). E, neste caso, por exemplo, os objetos transicionais deixam de ser foco de projeções e passam a agir. Que implicações terá está facto no desenvolvimento da capacidade de fantasiar e brincar (no sentido winnicottiano), uma vez que tal fenómeno origina uma profunda ausência da subjetividade do ser?
E, retomando a existência de avatares de realidade virtual, que implicações terá na construção (e na coesão) da identidade dos indivíduos a possibilidade de, virtualmente, serem de um e de outro sexo, de alterarem a sua identidade de género, de experienciarem mudanças de estilo e de respostas, de se representarem com outros corpos? São questões que se levantam, já, na prática clínica diária e que exigem o repensar das teorias psicanalíticas num modelo suficientemente flexível que permita a liberdade individual, a não normatividade e se adeque ao tempo presente (para preparar o futuro). Sem esquecer, contudo, e tendo em conta os conhecimentos atuais, que a complexidade do mundo psíquico (e não apenas cognitivo) do ser humano não é traduzível no registo funcional dos sistemas inteligentes. A estes, falta-lhes o significativo e fulcral mundo relacional, que constrói e modifica a identidade do ser humano.
ABSTRACT
The genuine human capacities of dreaming and imagining, of different researchers and programmers, have led to significant technological advances, fulfilling fantasies previously seen as completely unrealistic.
The development of intelligent systems is, certainly, one of the major examples of these advances. Both for the substantial impact it already has on the human being (and on the whole society) and for the growing expectations of developing a system capable of mimicking the human brain.
The bulking known complexity of the human brain and the certainty of what's still to be discovered, make us doubt of such possible mimicry. Our skepticism increases when considering psychoanalytic theory and practice. From phylogenetic identity issues to those related to the importance of individual psychosexual development, from the relevance of early relationships to the unsurpassable role of the somatopsychic unity in the human identity construction, many reasons lead us to conclude that it is impossible to create a system that goes beyond the cognitive and the functional levels. Something very different (and exceedingly distant) from the significant and crucial relational world, which builds and modifies the human being's identity.
KEYWORDS: artificial intelligence; psychoanalysis; cognition; relation.