A autora reflete acerca do encontro psicanalítico como espaço intersubjectivo e transicional em que a escuta, a confiança, a abertura ao desconhecido e a hospitalidade ao estrangeiro constituem as bases de uma palavra livre e das construções em análise, fonte do seu poder transformador e de uma possível regeneração de lugares mentais bloqueados ou em falta, outrora não ouvidos, não olhados e não reconhecidos. Como espaço humanamente habitado, a clínica pode então abraçar a sua origem, clinâmen, desvio transformador e criativo, e sonhar o que ainda não aconteceu.
«[…] Quem? O infinito?/diz-lhe que entre/faz bem ao infinito/estar entre a gente.»
O valor essencial de um encontro psicanalítico é dar condições a quem chega para recuperar o sentido das suas experiências mais íntimas, para que não se perca de si no mundo e não se perca do mundo dentro de si.
Quando é habitado por um genuíno interesse pelo que o outro traz, gesto ético da hospitalidade, e se afasta da língua total enunciadora da verdade, este singular encontro torna possível a confiança para uma livre associação, permite expandir a zona de fronteira em que analista e analisando se encontram e explorar esse pensar incerto, alheio ao que é conhecido de ambos. O que for vivido e construído, quando valioso, repousará então de novo no inconsciente dinâmico e dinamizará a vida.
A Psicanálise é uma terapia pela escuta. Sem escuta que flutue com interesse, não há palavra livre. Possivelmente sensível a esta escuta, a parte submersa do icebergue pode vir respirar à superfície, também através do silêncio onde as palavras se suspendem: «Agora vou calar-me e deixar que o silêncio separe o que é verdade do que são mentiras», escrevia o poeta persa Rumi, citado por Kagge (2017, p. 121). Mas é muito difícil ouvir o silêncio, deixar entrar o estrangeiro. Estamos inclinados ao desconhecimento de nós. Possivelmente para evitar a dor de olhar o sol de frente, a ferida.
Quando Rimbaud (2005 [1871]) exclamou «Je est un Autre» (p. 370), abriu uma concepção original da criação artística: a de que o poeta não controla o que expressa ou de si expressa. «J'assiste à l‘éclosion de ma pensée: je la regarde, je l‘écoute» (p. 374) é a fórmula paradoxal que incita a pensar o indivíduo na sua relação com o espaço psíquico que lhe é desconhecido, o estrangeiro, esse outro em nós.
A especificidade de um encontro psicanalítico é o interesse que dedica a este Eu incompleto, dividido, surpreendente e desconhecido, em constante recriação, à sua natureza plural, conflitual e contraditória, e ao processo complexo e dinâmico pelo qual o amadurecimento e a integração se tornam possíveis.
Delicada arte de ir ao encontro do Outro onde ele permanece e se move, esta escuta, como acto poético, visa «inspecter l'invisible et entendre l'inouï étant autre chose que reprendre l'esprit des choses mortes» (Rimbaud, A., 2005 [1871], p. 380). No espaço transicional que a relação terapêutica instaura, aqui e agora, onde se cruzam passado, presente e futuro, podem então abrir-se lugares no interior dos quais um sonho pode ser sonhado.
Artigo recebido em 16 de Julho de 2019 e aceite para publicação em 14 de Setembro de 2019.
Este artigo tem como base a comunicação apresentada no XXIX Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, «ESPAÇO (IN)FINITO: Psicanálise e Interseção de Lugares», Lisboa, 15 de Março, 2019.
Psicóloga clínica e psicanalista. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Formadora do Instituto de Psicanálise, em Lisboa, e professora-adjunta especialista na Escola Superior de Educação de Santarém. E-mail:
O psicanalista de que falo, fala com o analisando e não do analisando. Sabe da complexidade e da polifonia da interioridade e, por isso, não decifra uma verdade latente. Em capacidade negativa, interessa-se pelo movimento em curso, pelas emoções não pensadas, mais pelo que não teve possibilidade de acontecer do que pelo que não devia ter acontecido. É a forma como acolhe, significa e utiliza a palavra e o silêncio e como os enlaça no espaço a dois que possibilita ainda outras ligações entre pensamentos e a curiosidade por aflorar o que os impede. A palavra, habitada por hipóteses de compreensibilidade, é relançada no movimento psíquico em curso e abre-se a infinitos novos significados.
Escreve Carlos Drummond de Andrade (2000):
«Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.» (p. 13)
A escuta é a fonte do poder transformador do encontro psicanalítico e de uma possível regeneração ou amadurecimento de lugares mentais bloqueados ou em falta, outrora não ouvidos, não olhados e não reconhecidos. O psicanalista de que falo sabe que sem a escuta e uma presença que se inclina, que suporta o que está desabrigado, o analisando seria mais uma vez remetido ao abandono de partes de si. Escreve Donald Winnicott (2000 [1958]):
«As ideias são como a respiração; são também como crianças, e se eu não faço nada por elas, o analisando sente que estão abandonadas. O seu medo maior é pela criança desamparada, ou pela ideia ou observação abandonadas, ou pelo gesto de uma criança que fica sem resposta.» (p. 352)
O psicanalista de que falo também sabe que é a escuta que permite que a clínica produza teoria, ou seja, que surjam espaços para o ainda não pensado, o não escrito e o não descoberto. Como nos lembra Bion, «Toda experiência emocional de aquisição de conhecimento é, ao mesmo tempo, uma experiência emocional do ignorado não conhecido» (1992, p. 297).
A vida e o que dela fazemos é um complexo emaranhado onde se cruzam tempos e espaços, linhas que entrelaçam o mundo interno e o mundo externo. Epigénese e construções. Impossível escutar-analisar uma vida como se fosse composta por objectos em solitária meta-conversa no interior de um aparelho psíquico, pois é na relação que o ser humano amadurece, que a vida psíquica acontece, por vezes parece que morre e pode ainda renascer.
O objecto da investigação psicanalítica — cada sessão é um tempo de investigação — ocorre no espaço criado pela intersecção dinâmica dos mundos subjectivos do analista e do analisando, na relação. As demandas do corpo que caiu no mundo desde sempre pediram que a relação humana lhes respondesse, as resolvesse. Foi o resultado desse trabalho de cuidado humano e de cultura que nos construiu. As construções em análise serão ainda resultado desse trabalho e desse cuidado para o que ainda não nasceu.
Cada sessão é o investimento comum de um espaço de jogo partilhado, para onde verte o conteúdo do que é dito e silenciado, o tom, o ritmo e a gestualidade que os acompanha, o que exige uma sensibilidade viva, atenta, presente. Espiral que, ao invés do círculo, não se encerra em si mesma; espaço conversado que não reproduz o isolamento que o trauma causou. Se assim não for, pensa o analista, que será a transferência do analisando senão a resposta ao meu lugar vazio? E que será a minha contratransferência senão um incompreensível e repetitivo delírio a uma só voz?
Neste encontro, as palavras trocadas são como a respiração: expiração e inspiração. São vitais. Angústia, excitações, segredos, desejo, medos arcaicos inconfessáveis e os seus corolários lógicos circulam e retornam transformados, num vaivém entre expectativas, projecções e continentes de hospitalidade, abrindo novos sentidos à vida interior e à vida fora da sala de análise, ao gesto espontâneo e ao viver criativo, homo faber. A confiança permite que a vida psíquica se torne suportável, primeira condição para que possa ser habitada, e, depois, para que se possam explorar zonas interditas, o inconsciente recalcado.
Na sua obra Transformações – Passagem da aprendizagem ao crescimento, Bion (2010 [1982]) compara o processo psicanalítico à actividade do pintor, aproximando a análise da criação de uma imagem que nunca lá esteve — via di pore — e afastando-se da técnica de elucidação e decifração inteligível dos segredos do corpo e da alma — via di levare. A actividade do pintor e do psicanalista seriam comparáveis, uma vez que ambas assentam em potencialidades criadoras e num espaço intermediário feito de elementos invariantes e de elementos sujeitos a uma transformação. Escreve Bion: «a experiência original é transformada pelo acto de pintar ou pela análise» (2010 [1982], p. 7). Este espaço restaura o poder polissémico da palavra e anima-a. É, por isso, expansivo.
O psicanalista de que falo sabe que traduzir é trair e, por isso, evita «extrair» significados e substituir a versão original por uma versão oficial de verdade psicanalítica, à qual a palavra do analisando serviria apenas de ilustração, triste «vinheta» clínica para apresentação numa sociedade do espectáculo.
Experiência de mutualidade e de alteridade, o psicanalista participa do amadurecimento do
texto, com narrações partilhadas e não saturadas, abrindo áreas emocionais anteriormente subtraídas ao pensamento. Como propôs Donald Winnicott: «brinca» (2005 [1971]). Apresenta ideias ou pensamentos como objectos para serem usados no espaço potencial da sessão e, se forem úteis ao analisando, conservados como objectos subjectivos que vão sofrer uma transformação. Pontes para o modificável, um novo começo, na feliz expressão de Michael Balint (1969). Senão, pensa o analista, para que serviria este trabalho?
O psicanalista de que falo é, portanto, uma presença viva, uma pessoa em relação, que convida à viagem e a mergulhar «Au fond de l'Inconnu pour trouver du nouveau!» como num poema de Baudelaire (1857).
Em cada novo encontro com o estrangeiro — o Outro e esse Outro em nós —, percorremos o caminho de regresso a uma possibilidade somática e inconsciente e trazemo-la de volta aqui: transferimos. Uma marca inscrita no âmago do nosso ser conta-nos como o meio envolvente nos humanizou, organizou a esperança e tornou possível um tempo de amadurecimento, de emancipação, de desejo e de sonho. O grau de resistência ao estrangeiro, ou, ao invés, a transformação deste encontro em expansão criativa, parece fundar-se nos momentos outrora vividos e guardados na nossa memória inconsciente. Relações de objecto interiorizadas são simbolicamente revividas e recriadas na nova relação. René Kaës assinala que:
«Acquise et éprouvée dans les liens, la confiance est un des fondements des liens à venir […] Elle comporte nécessairement une anticipation sur la réponse et le comportement, mais si elle inclut une incertitude, elle demeure néanmoins prédictible, prévisible. L'espérance est sa compagne.» (p. 265)
E justamente a propósito do conceito de fiabilidade, Donald Winnicott (1987) escreve numa carta a Donald Meltzer:
«A fundação de uma estrutura psíquica estável e sã está certamente relacionada com a fiabilidade da mãe interna, mas esta fiabilidade é ela própria mantida pelo indivíduo. É verdade que as pessoas passam a sua vida a transportar um candeeiro sobre o qual se apoiam, mas algures no começo teve que haver um candeeiro sozinho, senão, não há introjecção da fiabilidade.» (p. 158)
A fiabilidade da mãe interna tem as suas raízes no início da vida, e a fiabilidade e a confiança são as condições para que exista um espaço potencial, um espaço de jogo e criação, um lugar onde colocar o que encontramos. Quando esta primeira trajectória de amadurecimento e humanização sofre acidentes, então os novos encontros, fora e dentro de nós, levam-nos ao lugar onde falhou o encontro. Desiludidos, tenderemos a negar que o encontro nos seja necessário. Não o entendemos, não nos entendemos. Uma morte relacional anunciada fragiliza os movimentos de introjecção e elaboração e conduz à impossibilidade da sua utilização criativa. E também a uma dificuldade maior: a de uma compreensão autêntica e empática com o estrangeiro, dentro de nós e ao nosso lado, analisando ou analista. Quando assim é, nesse espaço interior estamos cegos, não vemos nada que mereça atenção renovada. Impossibilitados do olhar do viajante, o mundo das nossas percepções, também interiores, cansa-se, é letra-morta, enquanto não for animado por um olhar.
Dizia Freud que os poetas «costumam conhecer uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos permitiu sonhar» (1922 [1907], p. 114). E o poeta escreve: «pode ser que nada esteja prescrito, que nada se cumpra como um destino» (Rosa, A. R., 2004, s/p.). É esta confiança que o psicanalista de que falo leva para cada encontro, a de que
«[…] A anterioridade se situe diante de um olhar que a atravessa e a transforma na possibilidade do acto ser um puro começo. Quando cada palavra consome o seu início no extremo de si própria e deixa o campo intacto para a liberdade do sopro anónimo e dos nomes novos no seu espaço aberto.» (Rosa, A. R., 2004, s/p.)
O psicanalista sabe que só do contacto emocional verdadeiro surge o encontro (in) esperado. Como espaço humanamente habitado, a clínica abraça então a sua origem, clínamen, desvio transformador e criativo. Escreve Ramos Rosa:
«É talvez o aberto que cria o horizonte, é talvez a respiração que abre o mundo. Mas o alento não poderia romper sem a linha pura do horizonte e a lâmpada da respiração não se acenderia se o mundo não fosse já o extenso mundo do aberto. Por isso a escuta é a espera vazia aberta ao tempo e à possibilidade de uma palavra livre mais fiel à simplicidade nova de um começo.» (2004, s/p)
O psicanalista de que falo pensa: «é esta a esperança que o meu analisando traz para o encontro. Senão, porque razão haveria ele de comparecer?» E propõe-se então sonhar o que ainda não aconteceu.
ABSTRACT
The author reflects on the psychoanalytic encounter as an intersubjective and transitional space in which listening, trust, openness to the unknown and hospitality to the foreigner, constitute the bases of free association and of the constructions under analysis, source of its transformative power and of a possible regeneration of blocked or missing mental places, once unheard, unseen and unrecognized. As a humanly inhabited space, the clinic can then embrace its origin, clinamen – a transforming and creative deviation – and dream about what has not happened yet.
KEYWORDS: psychoanalytical encounter; listening; hospitality; foreigner; transitional space.