Neste artigo, estuda-se a influência da literatura na construção da teoria psicanalítica no que concerne aos seguintes aspetos: enquanto método de exposição e de ensaio, enquanto objeto de inspiração e de enunciação de paradigmas psíquicos e enquanto objeto da psicanálise. Para o desenvolvimento deste estudo, relevamos o lugar que a literatura ocupou na obra do fundador da psicanálise, Sigmund Freud. Foi através da literatura e da sua ancoragem literária que o fundador efetuou na cultura a sua emergência catalisadora. É a partir desta ancoragem que emerge da ciência por ele criada, e é através dela, ainda, que vislumbramos uma das razões que justificam a atualidade da sua obra, ou seja, a circunstância da sua intemporalidade. Neste sentido, é também colocada em análise a questão da dupla faceta do mestre, a literária e a científica, para a construção da sua obra.
Ao lermos a obra de Freud, somos confrontados com a pergunta: poder-se-á considerar Freud um escritor, para lá de ter sido o primeiro psicanalista e o fundador da psicanálise? Que relações poderemos estabelecer entre a criação da psicanálise e a criação literária?
A criação literária interessou desde sempre a psicanálise, e o seu fundador manteve com ela, em vida, uma relação profunda de inspiração, de admiração e de conhecimento. Refiro, a título ilustrativo, escritores e poetas, como Goethe, Thomas Mann, Stefan Zweig, Mark Twain, Hoffmann, Rainer Maria Rilke, Henrich Heine, Romain Rolland, Arthur Schnitzler, que o inspiraram, tendo, com alguns deles, estabelecido uma relação epistolar (Pontalis, J.-B., 2014; Prater, D. et al., 2004) ou uma confraternização na qual encontrava alento. Da criação literária, extraiu, no meu entender: um método de exposição e de ensaio, um objeto de inspiração e de enunciação de paradigmas psíquicos e um objeto de análise. Serão estes os principais aspetos que iremos abordar ao longo do presente artigo.
Enquanto método de exposição e de ensaio, foi a partir da cura pela fala, descoberta com o caso Anna O., que Freud estabeleceu pela escrita uma contrapartida científico-literária: a do registo do sintoma. Esta articulação com a criação literária ocorreu sobretudo desde o caso Dora, no qual evidenciou o seu dom e a sua bagagem literária de juventude. Foi a partir do tratamento dos casos de histeria e da sua narrativa que instituiu os pilares da linguagem, a oral e a escrita, como as fundações da psicanálise, e foi pela escrita do caso que se descobriu um autor inspirado, um investigador e um mestre. A clínica é, por si, apontada como fonte de saber, e a metapsicologia como uma elaboração ou uma superestrutura: «teorizar é importante, mas não impede as coisas de existirem» (Freud, S., 1969 [1892, 1905, 1917]). Esta teorização foi também realizada com mestria, e o prazer da sua leitura foi decerto decisivo na atribuição do prémio Goethe, o único que recebeu em vida, o qual, não sendo literário, deteve o nome de um imortal da literatura. Tal circunstância conduziu Pontalis (2014) a reconhecê-lo como escritor, comparando-o a Hermann Hesse e a Thomas Mann.
Artigo recebido em 7 de Julho de 2019 e aceite para publicação em 19 de Setembro de 2019.
Psicóloga clínica, psicoterapeuta, psicanalista e escritora. Formadora na Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), membro da IPA (Associação Internacional de Psicanálise), da FEP (Fédération Européenne de Psychanalyse) e da SEPEA (Société Européenne pour la Psychanalyse de l'Enfant et de l'Adolescent). E-mail:
Nota: este artigo está escrito conforme o recente Acordo Ortográfico.
O próprio Freud parecia identificar-se secretamente com um escritor. Apoiando esta hipótese, nomeamos quatro factos: o primeiro, através de uma referência ao seu livro intitulado Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci (1969 [1910a]) como a obra mais bela que havia escrito; o segundo, o título inicial que havia dado à obra O homem Moisés e a religião monoteísta era O homem Moisés, um romance histórico (Santos, V., 2017); o terceiro, a circunstância de ter mantido na obscuridade epistolar o facto de considerar o escritor Arthur Schnitzler como um seu duplo (Chaves, E., 2016); e o quarto, o facto de Schiller habitar o seu teatro onírico (sonhos non-vixit, , pp. 455, 512, 545, e Marburgo, ).
Schiller representou para Freud, desde a sua adolescência, uma poderosa figura de identificação. Participante do movimento Sturm Und Drang — que representou uma reação ao neoclassicismo e foi um percursor do romantismo: favorecia a criatividade artística, a beleza da natureza e a subjetividade —, juntamente com Goethe, Herder e Haydn, Schiller desempenhou um papel inspirador e determinante no valor que Freud atribuiu ao belo, à liberdade e ao homem total. Identificamos Freud posicionado entre as duas pulsões, numa autorrepresentação do homem total, a imagem do artista, aquele que surge da união entre o inconsciente e a reflexão. Freud terá tido, além de Schiller, muitos duplos. O nome mais referenciado foi o do médico Wilhelm Fliess, mas foi com os poetas e os escritores que estabeleceu esta forte corrente empática e criativa, uma relação que constitui o subsolo imaginativo e fermentador da psicanálise. A eles reconheceu o «poder poético, o intuitivo e a profunda compreensão psicanalítica» (Shaeffer, in Freud, S., 1969 [1919], p. 260), os quais representavam, afinal, segundo a sua teoria do duplo (1919), os seus próprios poderes. A sua identidade de escritor foi, talvez, por si mantida em segredo por considerar que tal prejudicaria a afirmação da psicanálise como ciência.
Enquanto objeto de inspiração e de enunciação de paradigmas psíquicos, a criação literária, com as suas personagens e autores, constituiu terreno fecundo para Freud. A eles aplicou o mesmo método da investigação psicanalítica, qual Sherlock Holmes, como a si próprio se referiu numa auto comparação (Freud, S., 1969 [1917a], p. 11). A título exemplificativo, mencionam-se, entre as muitas análises que compõem a sua obra: as do carácter de Ricardo III e de Lady Macbeth (Freud, S., 1969 [1916]), nas quais dissecou as transformações do desejo e as metamorfoses da representação materna no percurso da vida; os estudos de carácter de Hamlet, de Otelo e do seu autor, Shakespeare, o qual o impressionou tanto que é por si citado setenta e oito vezes ao longo da sua obra, segundo o índice de Strachey; as investigações psicanalíticas de Os Irmãos Karamazov e do seu autor, Dostoievski (Freud, S., 1969 [1928]), aquando do estudo e desenvolvimento dos mecanismos de enfraquecimento e de ocultamento do desejo de morte do pai; e ainda as análises dos textos de Sófocles e da figura de Rei Édipo. As personagens de Édipo e de Narciso, que deram os seus nomes aos complexos psíquicos mais conhecidos, foram soerguidos, recuperados e atualizados: de personagens da literatura clássica, cujo destino provável seria o esquecimento (Roudinesco, E., 1999, p. 154), foram convertidos a personagens atuais com função de mitos universais organizadores da mente e da metapsicologia.
Freud recorre ao saber e à intuição dos poetas para elaborar as suas teorias. Aproxima-se de Schiller, citando-o, por exemplo, aquando da edificação da teoria pulsional, concretamente a dualidade psíquica da pulsão de vida e a sexual, para expressar a ideia da dominância da mente por parte dos instintos orgânicos (Freud, S., 1969 [1910b], p. 224): a fome e o amor «movem o mundo» e constituem «a verdadeira filosofia», «enquanto se espera que a razão o venha a fazer» (carta à noiva, de 1884, in Gay, P., 1989, p. 58; Freud, S., 1969 [1930], p. 139). Recorre a Romain Rolland para analisar o sentimento oceânico (Mijolla-Mellor, S., 2004), transportando-o da investigação da crença religiosa para a do desamparo humano.
Os coevos e seguidores de Freud mantiveram esta tradição de diálogo inspirador com a criação literária. Refiro a título exemplificativo Ernest Jones (1967 [1949]), com o trabalho sobre Hamlet e Édipo; Ella Sharpe (1967 [1929]), com o estudo psicobiográfico de Edgar Allan Poe; Maria Bonaparte (1973 [1945]), com a análise de um conto de Sade, Histoire de Juliette, ou les prospérités du vice, que lhe proporcionou a base para o estudo do masoquismo enquanto precursor do sadismo e da crueldade na luxúria; Otto Rank (2013), com nove livros de análise de escritores como Hoffmann, Chamisso, Dostoievski, Poe e Maupassant; Melanie Klein, em cuja obra é possível identificar as influências das leituras de Nathalie Sarraute, de Francis Ponge e de Dante Alighieri (David, N., 2003), extraindo da tragédia grega de Ésquilo o que alguns consideram ser o «complexo de Oresteia» (; Alford, C., 1990; Grosskurth, P., 1987; Jacobs, A., 2008), para a abordagem da génese do matricídio e da maior ansiedade do homem que, sendo incapaz de discernir o bem do mal, o amor do ódio, mergulha num estado confusional para, em seguida, destruir
e perder tudo o que mais ama. Também a partir da obra If I Were You, de Julien Green, Klein extrapolou o conceito de identificação projetiva, o qual mudou a história e a prática da psicanálise (Klein, M., 1985 [1955]; Ogden, T., 1992).
Enquanto objeto de análise propriamente dito, o estudo da criação literária permitiu o retorno à clínica. A análise do processo criativo, iniciada com a autoanálise de Freud e dos seus sonhos, direcionou-o para a descoberta da presença de mecanismos psíquicos comuns aos sonhos, à criação literária, aos mitos e aos sintomas histéricos, a saber: o papel do trabalho do inconsciente; a dinâmica entre conteúdos manifesto/latente; a presença das lembranças infantis, individuais/coletivas, estruturantes; e a marca do desejo que as move.
Para Freud, é através da criação (1969 [1917b]) que o artista melhor consegue iludir o conflito e ser mais bem-sucedido na realização do desejo, bem como no evitamento do desprazer. Freud considera a existência de um caminho que conduz o artista da fantasia de volta à realidade: esse é, nada mais nada menos, do que o caminho da arte (1969 [1917b], p. 377). Tal capacidade deve-se a três grandes ordens de fatores. Primeiro, porque o artista dispõe de utensílios que o homem comum não possui, a saber: a arte do ocultamento poético, da qual fazem parte também a ordem estética e a de substituição. Estes utensílios permitem ao artista criador a realização do desejo, sem a emergência das emoções penosas, tais como a vergonha e a culpa, emoções associadas aos conteúdos psíquicos em causa. Segundo, porque, tendo êxito, o artista consegue alcançar através da sua criação o reconhecimento dos outros, e, por esse facto, alcançar aquilo que não imaginara conseguir na fantasia: o amor sexual, a satisfação narcísica e a resolução da angústia de castração. Terceiro, porque o artista possui, na sua constituição psíquica, maior capacidade para a sublimação e para a sua recuperação, na circunstância de aquela ter sido perdida devido à repressão que havia sofrido.
É o caso de um jovem adulto que preenche as sessões ora com a angústia de não vir a alcançar o sucesso almejado com a sua produção literária, ora com a angústia de perder definitivamente a inspiração por causa da psicanálise. Na verdade, quando consegue enfrentar a inibição, a via da escrita oferece-lhe um escape substitutivo muito satisfatório para as suas ansiedades de impotência; quando não, só a psicanálise o afasta da ideação suicida. As sessões preenchidas com a exibição dos seus sucessos, pretendem, de um só golpe, encobrir a inferioridade narcísica e alcançar, na relação tranfero-contratranferencial, a narcisação da identidade sexual, tarefa em cuja realização o objeto havia falhado na infância do paciente. Essas sessões complementam-se com outras, em que o estado de espírito é bem diverso: o da perplexidade e do afundamento emocional perante a rejeição de contacto físico por parte da mulher amada. Esta rejeição replica no fantasma do paciente, bem como na própria realidade, a castração primária sofrida no passado. Nestes momentos, perde a capacidade criativa, no entanto, logo que a retoma, pela escrita, o seu humor melhora. Alimenta as sessões com os relatos da sua criação, os quais representam sonhos acordados, devaneios literários que permitem não só o escape da angústia como também, pela sua representação, alguma transformação e a elaboração mais profunda.
Assim, podemos afirmar que a criação literária, à semelhança de todos os fenómenos psíquicos, é multideterminada. Ela pode representar uma expressão da conflitualidade psíquica, um sintoma, mas também pode constituir a expressão de uma parte saudável da mente. Pode ser uma fuga autista de desrealização ou um refúgio na fantasia, um modo de gerar experiência de contacto com o self primitivo formado a partir da delimitação sensorial (Ogden, T., 1991), diríamos, neste caso, a escrita em substituição da vida. Mas a criação literária pode constituir ainda um modo de elaboração de um trauma através do recordar, do repetir e do elaborar, processo do qual não se exclui a ab-reação libertadora dos afetos dolorosos, de que são exemplos os relatos de casos de vítimas do Holocausto (Felman, S. & Laub, D., 1992; Frankl, V., 2006; Grimbert, P., 2004; Waintrater, R., 2003, 2017). E pode ainda representar, no sentido winnicottiano, uma recriação do espaço potencial (Winnicott, D., 1975), a área intermediária entre a realidade e a fantasia, o lugar onde nos é permitido viver e expressar o nosso verdadeiro self através da comunicação significativa que dá sentido à vida e permite o caminho na sempre incompleta e dura tarefa da adaptação à realidade, sem que a ela nos submetamos. O conceito de espaço potencial, lugar onde pode nascer a obra literária, tem, em nosso entender, uma relação com o pensamento de Freud, quando este afirma que a obra literária, enquanto devaneio, é uma continuação, ou um substituto, do que foi o brincar infantil (Freud, S., 1969 [1908], p. 141).
A criação literária está também intimamente relacionada com a capacidade de formação de símbolos. Este aspeto é desenvolvido por Klein, Susan Isaacs e Bion, tendo encontrado um momento maior em Marion Milner (Milner, M., 1952). Diz-nos esta autora e psicanalista
que é a necessidade de reconhecer o familiar no desconhecido e o desconhecido no familiar o que caracteriza o ato criador, e que a angústia perante o desconhecido, a angústia perante a realidade da desvinculação e a angústia da separação, com todas as ansiedades a elas associadas, são ultrapassadas (Stefana, A., 2019). O ato criativo é compreendido como uma viagem que implica a tolerância à perda temporária do sentido do self e das suas capacidades objetivas de análise.
E, para finalizar, sublinhamos a importância da capacidade associativa para a criação literária, relembrando Freud e o método da associação livre por si estabelecido a partir da correspondência de Schiller com Körner, como base, quer para a psicanálise quer para a criação literária. Refere Freud: «Os que estão familiarizados com a literatura psicanalítica recordarão neste ponto a interessante passagem, na qual o famoso poeta e pensador recomenda a todos os que desejem ser produtivos, a adotarem o método da associação livre.» (Freud, S.,1969 [1920], p. 278)
Esta afirmação de Freud permite-nos considerar que a analogia entre as disposições recetivas e livre associativas de ambas as mentes, a psicanalítica e a poética, no devir do ato psicanalítico e no devir do ato criativo poético, a impermanência da experiência em si, assim como as marcas que perduram dessa relação nos conduzem por associação livre ao poema intitulado «das margens» do poeta António Vera: «à passagem do rio/as margens sentem/quem por elas passou/revolto ou lento//águas de toda a cor/umas de cor azul/outras de cor barrenta//margens que enquanto o bebem//recebem os despojos/contados nos relógios/de seus tão vários tempos//horas dos campos verdes//horas do rio sumindo/nas fendas do deserto//que tudo hão de sugar chegado o tempo//de só haver as margens/do já bebido rio/do já suspenso tempo»3.
ABSTRACT
This article studies the influence of literature in the construction of psychoanalytic theory with regard to the following aspects: as a method of exposure and essay, as an object of inspiration and enunciation of psychic paradigms and as a psychoanalytical object. For the development of this study we highlight the place that literature occupied in the work of the founder of psychoanalysis, Sigmund Freud. It was through literature and its literary anchoring that the founder effected in the culture its catalytic emergence. It is from this anchorage that the science created by him emerges, and it is through this that we glimpse one of the reasons that justify the actuality of his work, that is, the circumstance of its timelessness. In this sense, the question of the double facet of the master, literary and scientific, is also analyzed for the construction of his work.
KEYWORDS: psychoanalysis, literary creation, literature, double identity psychoanalyst-writer.
António Vera (2003). Escrito na margem. Lisboa: Colibri, pág. 13.