No artigo, parte-se do princípio de que o sentimento de solidão possui uma grande relevância na experiência subjetiva dos indivíduos, constituindo uma importante fonte de sofrimento psíquico. São examinados, inicialmente, autores que sugerem o aumento de sua prevalência nas últimas décadas, cujas causas seriam de ordem política, económica e social. Ainda que durante um longo período o tema da solidão tenha tido pouca expressão na literatura psicanalítica, desde os anos cinquenta do século passado essa tendência alterou-se, quando se tornou objeto mais frequente de investigação clínica e conceitual. Após explorar de forma sucinta parte dessa bibliografia levando em conta a polissemia do termo, o artigo procura descrever três formas prevalentes de solidão. Com base em ideias de Klein, Ferenczi e Winnicott, propõe-se descrever variações deste sentimento, que são denominadas pelo autor, respetivamente, de solidão paranoide, solidão traumática e solidão narcísica. Tal desenvolvimento é acompanhado por três vinhetas clínicas que procuram ilustrá-las.
A solidão constitui uma importante fonte de sofrimento psíquico e um fator frequente na busca de tratamento psicológico (Erlich, 1998; Quinodoz, 1996). Ainda que durante muitas décadas tenha sido amplamente negligenciada pela literatura psicanalítica (Fromm-Reichmann, 1959; Phillips, 1987; Satran, 1978), a solidão tem recebido maior atenção nos anos recentes (Mendelson, 1990; Satran, 1978), sendo reconhecida como um problema cujos desdobramentos alcançam os domínios da saúde mental, bem como as dimensões social, política e económica (Hertz, 2021). Dentre as causas do renovado interesse na solidão, poder-se-ia mencionar uma série de mudanças socioculturais ocorridas sobretudo a partir da segunda metade do século XX que marcaram profundamente a organização da vida social, as formas de interação e os processos de subjetivação em curso. Elas compõem um amplo espectro que abrange as transformações económicas, as mudanças nas relações sociais e de trabalho, bem como a intensificação e a importância concedida ao valor do indivíduo na sociedade. Esta valorização da noção de indivíduo, em particular, tem vindo a refletir-se no amplo destaque concedido à vida privada como foco de realização pessoal, em contraposição à ênfase em compromissos mútuos e empreendimentos coletivos (Sennett, 1999). Mais recentemente, a crescente preocupação com a solidão tem sido associada a elementos como a revolução digital, os efeitos migratórios e de urbanização e mesmo às crises financeiras, o que tem contribuído para a destruição das infraestruturas comunitárias que permitiam aos indivíduos a partilha de espaços e projetos comuns, bem como um senso de pertencimento e a formação de vínculos.
Ainda que transcenda o escopo desse trabalho examinar tais aspetos, vale mencionar que o interesse na solidão foi largamente acrescido pelos efeitos subjetivos da pandemia do novo coronavírus. Basta realizar uma breve busca nas ferramentas da Internet para ter acesso à série de artigos, estudos e reportagens que mencionam as consequências psicológicas dos longos e intermitentes meses de confinamento, distanciamento e isolamento sociais
Psicólogo clínico. Doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (UERJ). Membro correspondente do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro (CPRJ). Membro candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). E-mail:
impostos às populações desde o início da pandemia. A solidão, já então considerada um grave problema contemporâneo, parece ter-se tornado uma experiência endémica, fato descrito em um sem número de pesquisas e estudos recentes (Hertz, 2021). Hertz, por exemplo, diagnostica as duas últimas décadas como as que inauguram o «século da solidão», designação que procura traduzir a ampla dimensão que tal sentimento ganhou na experiência dos indivíduos e que a autora define como própria de um mundo crescentemente polarizado, fraturado e profundamente dividido social, económica e politicamente.
Mas, afinal, que é a solidão? Tratar-se-á de uma condição humana; uma experiência inelutável própria à nossa constituição como sujeitos? Ou ainda um sentimento que traduz um estado afetivo relacionado com circunstâncias específicas e, consequentemente, uma fonte de mal-estar capaz de ser evitada? Ao nos debruçarmos sobre esse sentimento, logo reconhecemos que ele ganha uma descrição particular sob a pena de cada autor, fazendo da sua conceptualização uma tarefa de difícil delimitação. A tentativa de compreendê-la implica reconhecer que a própria noção de solidão está sujeita a uma polissemia bastante alargada, cuja descrição depende tanto da ótica adotada para apreendê-la, quanto da experiência afetiva que se pretende realçar. E ainda que no campo psicanalítico a solidão se apresente com grande frequência nos relatos de pacientes e descrições clínicas, o desafio de circunscrevê-la teoricamente é por vezes apontado como uma das causas de sua posição conceitual marginal na teoria (Erlich, 1998).
As referências à solidão na obra freudiana são bastante raras e esparsas. Podem ser pontualmente encontradas em uma série de artigos (Freud, 2014a; 2014b; 2010), normalmente associadas ao problema da diferenciação entre a angústia realista e a angústia neurótica; ou seja, ao esforço empreendido por Freud para diferenciar o papel etiológico de um perigo externo dos processos inconscientes e destinos da libido na experiência da angústia. Freud (2010) sugere que apesar de algumas fobias serem de mais difícil explicação, «outras, como o medo de ficar só e o de pessoas estranhas, admitem uma explicação segura. Tanto a solidão como o rosto estranho despertam o anseio pela mãe familiar; a criança não pode dominar essa excitação libidinal, não pode mantê-la em suspenso, e a transforma em angústia. Portanto, essa angústia infantil não deve ser contada como angústia realista, mas sim angústia neurótica» (p. 134).
Normalmente descrita por Freud (2014a) em paralelo com o medo do escuro, a solidão tem sua origem sobretudo na «ausência daquela que cuida e ama, isto é, a mãe» (p. 194). Efeito, portanto, da privação pela criança de um objeto fonte de amor e proteção, a solidão implica a irrupção da angústia que «aparece, então, como reação à falta do objeto» (Freud, 2014b, p. 27).
Adam Phillips (1987) comenta a aproximação sugerida por Freud entre a solidão e o temor do escuro, destacando como ele faz da ausência do objeto o principal referente para sua descrição da solidão. Ou seja, para Freud, os riscos da solidão parecem estar, principalmente, na distância ou no afastamento prolongado de um objeto externo que possa garantir a autopreservação ou a boa dinâmica dos investimentos libidinais do sujeito. Seu antídoto, em contrapartida, estaria na expectativa do reencontro com o objeto externo, cuja presença poderia aplacar a condição inicial de desamparo da criança.2
Pioneira na busca pelo aprofundamento da compreensão da solidão, a psicanalista Frieda Fromm-Reichmann (1959) foi, já na década de cinquenta do século passado, a primeira a denunciar o fato de que a «solidão é um dos fenômenos psicológicos menos satisfatoriamente conceitualizados» (p. 306) e que sofre de um problema terminológico que expressa a dificuldade de discriminar suas variantes. Em um artigo póstumo, organizado a partir de notas deixadas pela autora sobre o tema, ela propõe diferenciar formas de isolamento criativo (solitude), que associa tanto ao sentimento oceânico descrito por Freud quanto a estados de recolhimento introspetivo voluntários nos indivíduos, do que designa de «solidão real» (real loneliness), uma forma não-construtiva e desintegradora de solidão «que, no limite, conduz a estados psicóticos. Torna as pessoas que dela sofrem emocionalmente paralisadas e desamparadas» (1959, p. 309).
Fromm-Reichmann parte do pressuposto de que esta última forma de solidão se encontra conectada ao «anseio por intimidade interpessoal», necessidade esta que poderia manifestar-se independentemente dos impulsos sexuais. A criança privada do estabelecimento de intimidade tenderia a refugiar-se em um mundo fantasmático substitutivo, retirando-se para estados de isolamento afetivo. No contexto do rompimento prematuro dos vínculos de intimidade, afirma a autora, «as raízes da solidão permanente e do isolamento […] e o medo da intimidade e da ternura são plantados na mente da criança» (1959, p. 311). Segundo ela, a perda de realidade ou sentimentos de catástrofe no adulto «também podem ser compreendidos como expressões de uma profunda solidão» (1959, p. 311).
Se bem que Fromm-Reichmann procure diferenciar a solidão da angústia de separação, sugerindo que ambas dizem respeito a experiências distintas, Quinodoz (1996) defende que este sentimento guarda elos estreitos com as teorias da angústia e os mecanismos de defesa psíquicos,
O seguinte diálogo, citado por Freud, é ilustrador do potencial apaziguador da solidão encontrado na presença do objeto externo acima referido: «Certa feita, ouvi uma criança, angustiada com a escuridão, gritar para o quarto ao lado: “Tia, fale comigo, estou com medo”. “Mas de que adianta falar, se você não pode me ver?”. E a criança respondeu: “Quando alguém fala, fica mais claro”» (Freud, 2014a, p. 194).
sobretudo aqueles relacionados com a separação e perda do objeto. Retoma Freud, lembrando que ao longo de sua obra o sentimento de solidão é implicitamente associado à noção de desamparo, sobretudo a partir de Inibição, sintoma e angústia (Freud, 2014b), quando o medo da separação e da perda do objeto tornam-se, para o autor, fatores determinantes da angústia da criança e do adulto.
Erlich (1998) afirma ser «digno de nota que o tratamento psicanalítico dado à solidão, mais frequentemente do que não, é negativamente definido ou é caracterizado como a ausência ou como a falta da presença do outro, ou ainda como a incapacidade de tolerar essa ausência e estar só» (p. 136). O argumento de Quinodoz a respeito da solidão, defende Erlich, é um exemplo disso, uma vez que propõe a tese de que na raiz deste sentimento jaz a angústia de separação não resolvida desde a infância.
Partindo desse contexto, no presente artigo tem-se como objetivo examinar variações da solidão menos centradas na ausência dos objetos do que na dinâmica de sua presença no psiquismo. Ainda que a privação de relações com o mundo exterior constitua um importante fator gerador da solidão, pretende-se recorrer a autores que relacionam esse sentimento com uma determinada função desempenhada pelo objeto primário no psiquismo infantil, fazendo sobressair modos de presença relacionados com a solidão. Para este fim, percorreremos brevemente as ideias de Klein, Ferenczi e Winnicott, procurando depreender destes autores variações da solidão que optamos por caracterizar, respetivamente, como solidão paranoide, solidão traumática e solidão narcísica.
Em um artigo deixado inacabado e de publicação póstuma, Melanie Klein (1996) procura conceber uma espécie de fenomenologia da solidão.3 Tendo escolhido este tema para um de seus últimos escritos — talvez não por acaso, diante da aproximação de sua morte —, Klein escreve um artigo pouco linear e nem sempre claro, mas que, ainda assim, contém importantes ideias acerca desse sentimento. Ao se debruçar sobre suas fontes — que se impõem «independentemente de circunstâncias externas» —, observa que a solidão emerge como efeito de angústias paranoides e depressivas muito precoces. Mas considera, sobretudo, que a solidão é «parte da condição humana», sendo, em última instância, «o resultado de uma ânsia onipresente por um estado perfeito, inalcançável» (Klein, 1996, p. 341).
Esta noção kleiniana da solidão como traço da condição humana pressupõe a ideia de que uma relação satisfatória com o objeto primário implica um «contacto íntimo» que se constitui em o «alicerce para a vivência mais completa de ser compreendido» a um nível pré-verbal (Klein, 1996, p. 342). Nesse sentido, ela sugere que por mais gratificante que seja a experiência futura de compartilhamento de pensamentos e afetos com o outro, «permanece um anseio insatisfeito por uma compreensão sem palavras» (Klein, 1996, p. 342). Ela parece, assim, supor que a relação arcaica com a mãe cria uma experiência de intimidade irrepetível e, por tal motivo, responsável por uma condição solitária inelutável. No limite, é esta aspiração a uma intimidade absoluta que torna a separação do outro a marca depressiva de uma perda irreparável e que se buscará reencontrar em toda relação posterior. Aqui, a solidão não implica um risco, mas uma certeza.
Ocorre que se, por um lado, Klein parece conceber a solidão como inerente à condição humana, por outro, ela procura descrevê-la da ótica das angústias precoces derivadas das vivências da criança quando confrontada com seu mundo pulsional. Como se sabe, de acordo com a autora, a relação satisfatória com o objeto primário não tem o poder de evitar os efeitos da pulsão de morte e/ou das frustrações impostas à plena satisfação do bebê. Diante das angústias paranoides, o ego precoce do bebê põe em marcha recursos defensivos, dentre os quais os processos de clivagem dos objetos e do próprio ego. Eles constituem a «base de uma segurança relativa no bebê muito pequeno», uma vez que delimitam o campo de atuação dos objetos maus e permitem preservar os bons objetos. Entretanto, lembra Klein (1996), eles operam paralelamente com «outros processos de clivagem, tais como os que levam à fragmentação, [e que] são prejudiciais ao ego e à sua força» (p. 341).
Daí resulta que, em meio às inseguranças paranoides, o sujeito adota uma posição de permanente desconfiança diante dos objetos. Clivados, estes assumem, pela via projetiva, tons hostis e agressivos que levantam permanente suspeita, predispondo o sujeito para processos de desligamento e de afastamento dos objetos. Klein, contudo, parece atribuir maior dano psíquico aos processos de clivagem desorganizadores; estados de fragmentação que impedem a internalização do bom objeto, deixando assim o ego ainda mais exposto às peripécias agressivas dos objetos maus. Se em ambos os casos (clivagem como base da segurança e clivagem como fragmentação) a desconfiança dos objetos tem por consequência o sentimento de solidão, nos processos de fragmentação ela se aprofunda, visto que a falta de confiança recai não apenas nos objetos, mas também no próprio ego. Nesse contexto, as defesas esquizoides, por meio do isolamento do ego em relação aos objetos e às suas próprias partes clivadas, contribuem para os estados de incomunicabilidade e solidão. Seriam, segundo Klein, encontradas em formas de enclausuramento psíquico ou na busca de uma autossuficiência
É interessante notar que tanto os artigos de Frieda Fromm-Reichmann quanto de Melanie Klein, duas referências incontornáveis no estudo da solidão, foram deixados em forma de notas e publicados após as suas mortes. Separados por poucos anos, seus escritos sugerem a preocupação com o tema já no final da vida, o que é indicativo, como sugere a própria Klein, da aproximação entre o sentimento de solidão e a morte (Klein, 1996).
narcísica. Nesse contexto, Quinodoz acrescenta que «quando as angústias paranoides são particularmente intensas, como na psicose, a dor associada a esse sentimento de solidão irá crescer devido ao reforço da projeção induzida pela clivagem e pela fragmentação… [Nesse caso,] as partes perdidas também são sentidas como solitárias» (Quinodoz, 1996, p. 485).
Vale mencionar que um dos aspetos interessantes da caracterização kleiniana desse tipo de solidão ligada às defesas esquizoparanoides diz respeito ao fato dela se instituir na presença do objeto e não exatamente na sua ausência. No início da vida, o bebê não é ainda capaz de representar a ausência do objeto aquando de suas angústias arcaicas, uma vez que se encontra sempre presente na dinâmica de sua fantasia inconsciente — seja como objeto protetor e fonte de amor, seja como objeto hostil e fonte de dor. É precisamente nesse sentido que a sua solidão é vivida na presença de objetos ameaçadores, dos quais precisa se proteger. Pode-se assim inferir que para Klein a primeira experiência de solidão constitui-se entre um momento idealizado de totalização narcísica — a solidão como condição humana — e, ainda, um efeito da desconfiança diante da hostilidade do objeto — um estado de solidão defensiva ou reativa, que propomos nomear de solidão paranoide. Para Klein, portanto, essa primeira experiência afetiva não tem como referente central a ausência do objeto externo ou a distância das figuras protetoras, mas, sim, a sua presença persecutória na economia fantasmática do sujeito. Uma presença que oscila entre a idealização de uma intimidade irrecuperável e o isolamento defensivo diante dos ataques do objeto.
Não obstante essa associação entre a solidão, as angústias paranoides e suas defesas, Klein encontra igualmente nos efeitos da posição depressiva — especialmente nos processos de integração — elementos geradores deste sentimento. Seja pela fantasia de ser abandonado à própria sorte diante das partes más do objeto e/ou do ego, seja pela diminuição dos processos de idealização dos bons objetos, ou ainda pela capacidade incipiente de representar a ausência da mãe e tomar-se como responsável por seu desaparecimento, o bebê torna-se, na posição depressiva, um ser novamente ameaçado pela solidão. Segundo Quinodoz (1996), os processos de integração psíquica, visto que tendem a diminuir as defesas contra as angústias, abrem caminho para que o sentimento de solidão possa tornar-se mais consciente. Afirma que «quanto mais um indivíduo tende a se perceber como único (e integrado), mais ele percebe que está sozinho e essa solidão é a marca registada da condição humana. Alguns são relativamente mais capazes de tolerá-la. Outros, entretanto, a experimentam como uma dor psíquica intolerável…» (Quinodoz, 1996, p. 486).
Ainda que o ego esteja mais integrado e seja suposto suportar as ambivalências próprias da aproximação de suas experiências de amor e de ódio dirigidas aos objetos, na posição depressiva não é tanto a clivagem ou os processos de fragmentação que constituem o indivíduo solitário, mas as angústias depressivas que abrem espaço para a representação da ausência do objeto. Acreditar-se na origem do desaparecimento do objeto provoca o medo da morte (tanto do objeto quanto do próprio sujeito), que, segundo Klein, «desempenha um [importante] papel na solidão ao longo de toda a vida», e parece concentrar um de seus maiores riscos. Didier Anzieu (1987), ao descrever em um belo artigo uma série de antinomias da solidão, nos lembra que «da dor nasce o sentimento de solidão; por sua vez, a solidão ressuscita a dor, às vezes física, sempre moral» (p. 127).
Clara, jovem adulta, procurou atendimento psicanalítico pouco tempo depois da separação dos pais. Este evento ocorreu de forma violenta e deu início a um longo processo litigioso que alterou profundamente não apenas a dinâmica das ligações afetivas familiares, mas também a de seus próprios objetos internos. As discussões e o afastamento dos pais acabaram por ativar uma série de fragilidades da paciente e enfraquecer sua organização egoica, até então marcada por alguma rigidez e busca por controle nas dimensões afetiva e profissional.
Após um momento inicial em que Clara fez esforços para preservar a imagem do pai, procurando manter-se afastada das disputas do casal parental, veio progressivamente a identificar-se com as queixas maternas de abandono e traição. Na sequência, fortaleceu-se um intenso discurso de ódio dirigido ao pai, ora identificando-o com um adulto «mal resolvido» em busca da juventude perdida, ora com um «psicopata» incapaz de reconhecer empaticamente o sofrimento imposto à família. Clara passou a ter dificuldade de reconhecer o pai como uma figura familiar, que, desde então, passou a ocupar o lugar de um perseguidor cuja intenção seria aliciá-la com bens materiais, ou ainda alguém que, pelo abandono, a forçava a reviver sentimentos de desamparo insuportáveis.
A progressiva desconfiança da figura paterna e as suas dúvidas crescentes levaram, após um processo judicial perpetrado por Clara contra o pai, a um rompimento e afastamento definitivo entre ambos. Quaisquer movimentos do pai em direção à filha passaram a ser vividos como invasivos, perigosos e sempre dotados de uma intenção persecutória, como manipulação ou exercício de poder sobre ela. O pai, mesmo mantido fisicamente distante, tornou-se uma presença interna ameaçadora e responsável por uma profunda solidão. A necessidade de proteger sua intimidade
e evitar o contacto com figuras masculinas recorrentemente experimentadas como temíveis e pouco confiáveis trouxe enormes dificuldades no âmbito de suas relações pessoais, bem como no manejo da transferência. O analista, inicialmente idealizado como alguém que poderia reconhecer o seu sofrimento e aliar-se empaticamente às suas queixas, transformou-se em mais um elemento que seria, aos seus olhos, incapaz de compreender sua condição de isolamento reforçada por uma forma de solidão paranoide.
Enquanto Klein adverte o leitor logo nas primeiras linhas do seu artigo de que está interessada no sentimento de solidão desvinculando-o de circunstâncias externas, Ferenczi se aproxima do tema de modo diverso. Como se sabe, não sem chocar o meio psicanalítico de sua época, Ferenczi resgatou a dimensão da realidade em sua teoria do trauma, conferindo às experiências de violência sofridas pela criança um fator etiológico central no traumatismo psíquico do sujeito. De sua perspetiva, o trauma pode ser dividido em dois tipos, que, por sua vez, dependem da relação que estabelecem com momentos distintos da experiência da criança com os adultos. A conjunção desses fatores é aquilo que irá determinar a sua gravidade e sua extensão na economia psíquica do sujeito.
Em linhas gerais, além dos efeitos estruturantes próprios a qualquer encontro com o outro — representado por uma diferença incontornável entre as linguagens da sexualidade do adulto e da ternura da criança —, Ferenczi supõe um caráter desestruturante do trauma capaz de desorganizar e desarticular o ego. Nesse caso, mais do que uma simples diferença nos modos de comunicação e relação entre a criança e o adulto que concorreriam para o desenvolvimento e a organização subjetiva, o trauma desestrutura e compromete gravemente o funcionamento psíquico. Aqui, a confusão de línguas (Ferenczi, 2011b) entre o adulto e a criança se apresenta não só como um elemento inevitável da relação, mas, sobretudo, «pelo exercício abusivo do poder e da autoridade de um adulto que desconsidera o desejo e o modo de funcionamento da criança» (Mello et al., 2019, p. 4).
Contudo, pode-se dizer que a história do traumatismo começa, mas não termina, aí. Diante do impacto violento da experiência com o adulto, a criança recorre a uma presença alternativa de modo que compreenda o que se passou — alguém que possa reconhecer o seu vivido traumático e que sirva de apoio para que venha a conferir algum sentido ao ocorrido. Este novo adulto, entretanto, quando incapaz de suportar o relato infantil, desmente a criança negando o acontecimento violento. Aparentemente sem conseguir antecipar as dolorosas consequências de seu ato, este adulto, talvez não cego, mas certamente surdo ao sofrimento da criança, colabora para a composição do cenário propício para o caráter definitivamente traumático da experiência. Ou seja, somam-se dois fatores: a dor diante da violência do ato exercido pelo primeiro adulto e a dor de seu descrédito pelo segundo. Mais do que a violência inicialmente sofrida pela criança, Ferenczi (2011a) atribui sobretudo ao desmentido de sua experiência o principal elemento promotor do trauma. Um desmentido que não é apenas de seus afetos, mas, em última instância, de sua própria existência.
Um dos aspetos fundamentais para os quais a teoria do trauma de Ferenczi aponta é como, pela via do desmentido, a relação com o outro e a possibilidade de compartilhamento do sofrimento se veem gravemente ameaçadas (Verztman & Romão, 2020). Tendo de lidar sozinha com os efeitos traumáticos do vivido violento, a criança perde a capacidade de confiar no outro, de partilhar o mal sofrido e de ter reconhecida a sua dor. Mais do que isso, vê abalada a possibilidade de confiar em seus próprios sentidos e perceções, já que postos em causa por aquele a quem recorre. Aqui, a criança se encontra diante de um impasse em que a opção pela preservação da confiança no adulto implica a desconfiança em si mesma. Privada do apoio que a permitiria partilhar os efeitos da violência sofrida, a criança perde a confiança no outro, sendo assim impingida para uma profunda solidão. Segundo Ferenczi (1990), «segue-se que uma solidão realmente total e absoluta, onde não existe sequer a esperança de ser compreendido e ajudado pelo mundo exterior, é insuportável» (p. 239).
É nesse sentido que o desmentido, além da força traumática que lhe é inerente, tem consequências importantes para o vivido solitário, pois ao recusar-se a reconhecer a dimensão e a realidade do sofrimento da criança, o adulto a expõe irremediavelmente à solidão. Ao examinar os efeitos subjetivos e clínicos desta situação em uma de suas pacientes, Ferenczi (1990) afirma que:
«a solidão traumática, a interdição e a vontade de interdizer do pai, a surdez e a cegueira da mãe, é isso o que torna a agressão traumática, isto é, própria para fissurar o psiquismo. O ser que fica só deve ajudar-se a si mesmo e, para esse efeito, clivar-se naquele que ajuda e naquele que é ajudado» (p. 240).
Nesse caso, portanto, a solidão enquanto marca afetiva fundamental do que sobrevive à situação traumática não é tanto um efeito da ausência do outro, quanto de uma presença cuja indisponibilidade desqualifica o vínculo de confiança da criança consigo mesma e com os seus objetos. Diante desse tipo de «solidão completa após o trauma» (p. 240) — uma solidão traumática —, o outro se encontra materialmente presente,
porém subjetivamente incapaz de cumprir o papel de quem poderia reconhecer e ajudar a significar a dor da criança. Em contraste com a solidão kleiniana, na qual o vivido intrapsíquico parece suficiente para tecer as bases da solidão (paranoide), da perspectiva ferencziana esse sentimento se apresenta como efeito intersubjetivo de um outro presente, mas incapaz de corresponder às necessidades da criança. Para este tipo de solidão importa menos a ausência do objeto do que sua presença descomprometida, surda, porquanto incapaz de atender aos apelos do sujeito. Nesse caso, uma das antinomias da solidão descritas por Anzieu permanece a meio caminho de sua realização, pelo menos até poder ganhar um destino alternativo no encontro analítico. Diz ele: «para ser compreendida, a solidão deve ser compartilhada, quando, só então, deixa de ser solidão» (Anzieu, 1987, p. 124).
A entrada na vida adulta de João foi marcada por uma grave crise. Até então educado para seguir o projeto de vida delineado pelos pais, que envolvia um certo tipo de atividade profissional e de ideal afetivo, rompeu bruscamente com as expectativas a si impostas ao abandonar radicalmente suas escolhas anteriores. A tentativa de libertar-se dos ideais parentais veio acompanhada de uma crise depressiva, sintomas psicóticos e ideação suicida, que, associados ao uso de drogas como artifício para lidar com uma angústia insuportável, o levaram a procurar tratamento.
João foi progressivamente entrando em contacto com lembranças reveladoras de uma figura materna extremamente instável, cuja relação com ele envolvia a experiência de violência, humilhação e acusações permanentes à sua incapacidade de socialização e insuficiência em diversos âmbitos. Passou a reconhecer um sentimento de fúria que o acompanhava, bem como as situações de risco às quais se expunha como modo defensivo de lidar com a introjeção da violência materna. Acompanhado pelo medo de perder a sanidade, sua raiva oscilava com sentimentos de ausência, afastamento da realidade e futilidade. Nesses momentos, tudo parecia perder o sentido, o mundo tornava-se povoado por uma sensação de estranheza e, internamente, João sentia estar afastado de uma importante parte de si mesmo. Sucumbia a estados de isolamento e profunda solidão.
João relata uma passagem especialmente reveladora do seu sofrimento e das dinâmicas familiares. Aquando da saída de sua primeira crise, certo dia questionou desesperadamente o seu pai acerca das percepções que tinha sobre a sua mãe. Foi em busca da confirmação de suas impressões de que parte de suas dificuldades estariam diretamente relacionadas com a instabilidade e desorganização emocional maternas, fato sempre desmentido pela incapacidade de o pai reconhecer sua dor e protegê-lo dos ataques da mãe. Se até então se mantivera silencioso sobre aquilo que ele também parecia reconhecer como perturbador e altamente problemático na atitude da mãe de João, o pai emocionou-se ao admitir ao filho a violência que este sofrera desde a infância, podendo, dessa forma, validar a vivência da sua dor. Mesmo que breve, aquela demonstração de reconhecimento pelo pai teve um profundo efeito em João: abriu as portas para um longo trabalho de elaboração de suas experiências traumáticas e para a compreensão do recurso ao isolamento e à solidão como formas de lidar com seu sofrimento.
Ainda em seu artigo sobre as antinomias da solidão, Didier Anzieu (1987) menciona sua constatação clínica de que mais do que a prevalência de uma imago materna má, aquela que ele mais comumente reconhece como presente na origem deste sentimento é a de uma mãe distante e impassível às emoções e expectativas da criança. Partindo dessa observação, propomos examinar uma variação da solidão à luz das ideias de Winnicott, complementadas por algumas considerações de Roussillon (2013). Ambos os autores ampliam e ilustram um determinado aspeto da solidão derivada da relação com o objeto primário, permitindo compreender o que propomos chamar de solidão narcísica.
Ao tentar delimitar hipóteses etiológicas sobre as patologias do narcisismo, Roussillon (2013) revisita o conceito de narcisismo primário propondo, fundamentalmente, que ele «não pode ser concebido de modo solipsista» (p. 178). Assim, mais do que um estado anobjetal e indiferenciado entre a criança e o seu ambiente original, Roussillon descreve o narcisismo primário ressaltando a ideia de processualidade, vale dizer, insistindo numa dupla tarefa a ser efetuada pelo bebê: investir e construir o laço com o objeto e, simultaneamente, diferenciar-se progressivamente do mesmo. O bebê passaria, alternadamente, por momentos mais ou menos organizados em relação ao meio, que caminhariam na direção de um lento processo de diferenciação mais fina entre o eu e o outro.
Para compreender como se dá esse processo de diferenciação e a consequente saída do narcisismo, o autor recorre sobretudo às ideias de Winnicott (1975) a respeito da função especular como organizadora da relação mãe-bebê. Acrescenta, porém, que o vínculo primitivo entre ambos deve pressupor o encontro de um objeto «duplo de si mesmo» (Roussillon, 2013). Nesse sentido, as primeiras formas de interação com o ambiente devem envolver o encontro de um objeto vivido como diferente, mas que seja, ao mesmo tempo, capaz de se fazer semelhante «no encontro e nas condições do encontro» inicial. Ou seja,
um objeto separado e distinto da criança, mas que aceite, simultaneamente, tornar-se semelhante ao engajar-se numa relação de espelhamento e de partilha de seus estados afetivos. É esse tipo de vínculo primitivo, que tem por base a experiência de a criança ter sido olhada e refletida no olhar materno (Winnicott, 1975), que Roussillon (2004) denomina de homossexualidade primária em duplo. Um tipo de ligação onde a capacidade mútua de prazer e de satisfação se faz indispensável, pois é a sua presença no contacto com o outro que irá determinar o modo como a dependência será tolerada pela criança. A interação «em duplo» configura a história pela qual a criança é refletida pelo objeto e a maneira pela qual este pôde assegurar uma função de espelho de seus estados internos.
A relação em «duplo», contudo, não implica apenas a forma como a mãe reflete os estados internos do bebê. Pressupõe também a hipótese de que, a partir de uma experiência de ilusão, o bebê se experimenta como sendo ele próprio, e não o ambiente, a fonte responsável por sua própria satisfação. Daí o caráter narcísico da «relação em duplo», que, aos poucos e por meio dos processos de desilusão e desadaptação do ambiente, abre espaço para a diferenciação; ou seja, para a conceção do outro como diferente de si mesmo.
Ocorre, porém, que se, por um lado, o narcisismo primário implica originalmente uma dimensão de alteridade no encontro com o objeto, por outro, esta vem a ser esquecida ou desconsiderada pelo bebê em seu estado de ilusão. Em outras palavras, no processo pelo qual o bebê tende a tudo atrair para si mesmo, ele tende igualmente a ofuscar o que vem do outro. Nas palavras de Roussillon (2013),
«o processo narcísico não apaga somente o traço do objeto, ele apaga também o processo pelo qual ele o apaga; ele apaga para o sujeito aquilo pelo que ele se constitui, aquilo que ele “deve” aos objetos com os quais se construiu; ele apaga também, enfim, o processo pelo qual ele assimilou a parte do outro em sua organização própria. Estes são os processos constitutivos da ilusão narcísica primeira (p. 279).
O problema, sinaliza o autor, encontra-se justamente quando o bebê se vê impedido de restabelecer subjetivamente a parte da alteridade através da qual se constitui; ou seja, quando não é capaz de «desconstruir o postulado narcísico solipsista» e reencontrar, assim, o traço perdido do objeto no ego. É precisamente este traço que, segundo Roussillon, torna possível restabelecer a função «objetalizante» da pulsão.
Para compreender esse processo pelo qual o bebê não é capaz de encontrar saídas para o seu narcisismo, Roussillon aproxima a teoria freudiana da melancolia da noção winnicottiana da mãe como espelho. Abre, assim, um caminho pelo qual torna-se possível pensar em uma outra variante da solidão: a solidão narcísica. Em linhas gerais, Roussillon (2013) sugere que a sombra do objeto que recai sobre o ego é justamente «aquilo que o objeto não refletiu ao sujeito de seus próprios estados e movimentos internos, lá onde falhou sua função de espelho». Em outros termos, o vazio e o silêncio encontrados pelo bebê em resposta aos seus apelos intersubjetivos se traduzem na «sombra» do objeto que é incorporada pelo sujeito em seu processo identificatório. É esta sombra que recai sobre o ego e ofusca a alteridade do objeto, que, por sua vez, o encerra em uma espécie de solidão ou isolamento narcísico que o mantém fechado em si mesmo.
Pode-se assim supor que a falha no processo pelo qual o objeto exerce a função de «duplo», além de impedir o compartilhamento de prazer e o desenvolvimento da função reflexiva, converge para um narcisismo solipsista que estaria na origem desta modalidade de solidão. Nesse caso, a solidão desenvolve-se na presença de um objeto que se faz ausente na experiência do bebê pelo fracasso no exercício da função de espelhamento. Um objeto silencioso, deprimido talvez, incapaz de conter e refletir os estados afetivos do bebê, e que não consegue iluminar a saída para o labirinto do seu narcisismo, condenando-o, assim, à solidão. Anzieu (1987), mais uma vez, é preciso ao afirmar que «a solidão é insuportável e desestruturante se reviver a memória de ter coexistido com um objeto primordial indiferente» (p. 126).
No momento em que fui procurado por Sandra, seu estado profundamente melancólico era acompanhado de um completo isolamento. Saía de casa muito raramente e seu contacto com o mundo externo resumia-se a um telefonema semanal à mãe e ao marido, que viviam distantes dela. Sua solidão manifestara-se desde cedo e se intensificara com a saída de seu país natal, quando rompera com a quase totalidade de seus laços afetivos e profissionais.
Sua grande fragilidade e desesperança manifestavam-se no desejo de não ter nascido e na fantasia de que poderia ser aspirada como pó para o fundo de um saco de aspirador, de onde jamais voltaria a sair. Afirmava viver em modo de sobrevivência, como quem confidencia que a sua submersão progressiva encontrava tão somente no seu próprio corpo e na sua autoconservação os apoios que sua vida libidinal era incapaz de oferecer.
Sua mãe, com quem possuía uma relação profundamente ambivalente, declarava, desde que Sandra era criança, ser sua melhor amiga e única pessoa confiável. Ao mesmo tempo, destilava uma crítica mordaz aos atributos físicos e psicológicos
de Sandra, pelos quais mantinha-se aderida a uma filha imaginária e mais próxima dos seus próprios ideais de perfeição.
Desde cedo, Sandra desenvolveu-se em meio a uma espécie de refúgio psíquico que ganhou representação material no seu quarto, de onde pouco saía e no qual experimentava uma grande solidão. Em sua pré-adolescência, passava mal diariamente antes de ir para a escola, fato desconsiderado pela família e transformado em uma espécie de desmentido do seu sofrimento, que se conservou silenciosamente até a idade adulta. A fantasia infantil que sempre a acompanhara de esconder-se debaixo dos móveis para jamais ser encontrada contrasta com aquela mais comum na infância, na qual a ocultação da criança convive com a sua expectativa pelo prazer de ser descoberta.
Dias transcorridos sem qualquer cuidado com a higiene pessoal manifestavam-se em períodos de maior sofrimento, quando mantinha o hábito de deixar alimentos à vista e intocados, acompanhando seu processo de apodrecimento. Confundia-se com tais objetos, identificando sua situação subjetiva com este estado de decomposição, sendo consumida pela própria morte em vida. A forma como insistia em manter as janelas da casa fechadas, ao abrigo de qualquer estímulo, refletia um estado de asfixia em relação ao mundo cuja representação era sempre difícil de acessar. Seu relato pessoal era muito próximo daquele descrito por Ogden (2016) acerca de pacientes que vivem à sombra do medo do colapso. Diz ele que «tais pacientes acham extremamente doloroso sentir-se vivos — até mesmo a ponto de sentir prazer em resposta à sensação de calor suave do sol em sua pele — porque provoca a dor do reconhecimento de quanto suas vidas foram não vividas» (Ogden, 2016, p. 90).
Durante o seu processo psicoterapêutico, Sandra pôde aos poucos aceder a registos precoces nos quais sentia-se profundamente desamparada e opaca ao olhar do outro. Pode-se supor que parte do seu sofrimento e a forma daninha de solidão com a qual se acostumou a conviver refletia a dificuldade da saída de um modo muito primitivo de narcisismo. Refratária à formação de vínculos e muito propensa ao isolamento, seu retraimento em busca de uma autossuficiência narcísica parecia expressar o risco de entrar em contacto com um objeto reiteradamente indisponível, que, no limite, nunca pôde ser encontrado na medida e na hora certas.
Das breves ilustrações clínicas acima apresentadas, pretendemos descrever formas de solidão que nos parecem relevantes tanto teórica quanto clinicamente. Certamente não compõem um registo exaustivo das muitas modalidades pelas quais esse sentimento pronuncia-se na experiência psíquica dos sujeitos. Como pudemos observar, a tentativa de delimitar conceitualmente esse sentimento encontra obstáculo nos diferentes modos como é descrito na literatura psicanalítica e na polissemia que o caracteriza. Não há como examinar a solidão sem levar em conta sua dimensão plural, que, conforme apontado, forma um espetro em que pode oscilar de formas de isolamento criativo até vivências intensamente desintegradoras e desorganizadoras no psiquismo.
O que procuramos em especial destacar é que as modalidades de solidão examinadas nos parecem menos indicativas da ausência dos objetos na dinâmica do psiquismo e/ou da incapacidade de tolerar o desamparo representado pela falta do outro do que de uma determinada qualidade da sua presença no mundo mental. Na sua modalidade paranoide, a solidão se apresenta como uma reação a um objeto hostil e persecutório cuja presença provoca reações de grande isolamento quando projetada nos objetos externos. Por um lado, pudemos examinar a forma como a solidão pode ser compreendida a partir de uma dimensão ontológica; uma condição humana fruto da ânsia por um contacto de intimidade inalcançável que condena o sujeito a uma experiência de solidão inescapável. Por outro lado, e mais precisamente aquela modalidade que buscamos salientar, a solidão se impõe como resultado de uma determinada experiência com os objetos internos e pela confrontação com o mundo pulsional do indivíduo, conduzindo o psiquismo aos processos de clivagem e fragmentação. Já na solidão traumática, o sujeito se vê confrontado com um objeto que, diante de uma situação de violência vivida, esquiva-se da possibilidade de ampará-lo no processo de conferir sentido à sua experiência. Aqui, o primeiro tempo de uma experiência traumática se soma ao segundo, qual seja o doloroso desmentido da sua perceção do vivido violento e o enfraquecimento da confiança em si mesmo, que o incapacitam para significar o que sente. Ele se vê, desse modo, condenado a ter de lidar solitariamente com sua própria dor. Por fim, chamamos a atenção para estados precoces nos quais o indivíduo se defronta com a indisponibilidade de o objeto primário cumprir a função de espelho necessária para os processos de integração e para sua saída do narcisismo. Nesses casos, sob a sombra do objeto que não pôde refletir os seus estados internos, o sujeito se encontra mais propenso a experimentar formas de isolamento e solidão de caráter eminentemente narcísico.
ABSTRACT
The article assumes that the feeling of loneliness has a great relevance in the subjective experience of individuals, constituting an important source of psychic suffering. Initially, it examines authors who suggest an increase in its prevalence in recent decades, whose causes would be social, political and economic. Although for a long-time loneliness has had little expression in the psychoanalytic literature, since the 1950s this tendency has changed, when it became a more frequent object of clinical and conceptual investigation. After briefly exploring some of this bibliography and considering the polysemy of the term, the article seeks to describe three prevalent forms of loneliness. Based on ideas by Klein, Ferenczi and Winnicott, it describes variants of this feeling that the author defines as, respectively, paranoid loneliness, traumatic loneliness and narcissistic loneliness. This development is accompanied by three clinical vignettes that try to illustrate them.
KEYWORDS: loneliness, object relation, narcissism, trauma.