A autora reflete na conceção de Temporalidade em Psicanálise, sublinhando as suas contribuições para o pensamento psicanalítico, nomeadamente através do conceito de mudança psíquica. O tempo para a Física e o tempo subjetivo, constructo da Psicanálise, revolucionaram a conceção tradicional do tempo para a humanidade. A análise dos significados da categoria do tempo em Psicanálise envolve delimitações de diferentes níveis, em que passado, presente e futuro se interligam e coexistem no mesmo espaço psíquico presente. A autora percorre as conceções evolutivas de temporalidade mais significativas na obra de Freud, apoiando-se nos trabalhos de autores que se debruçaram sobre o tema, com destaque para a obra de André Green. Refere as abordagens psicanalíticas mais relevantes, abrangendo teoria e técnica, oriundas da Psicanálise Francesa — que enfatizam uma forma não linear de temporalidade do après-coup — e da Psicanálise Inglesa — com ênfase num modelo de desenvolvimento mais linear de temporalidade. As questões relacionadas com o tempo são a base da teoria psicanalítica, do setting analítico e dos fenómenos psíquicos. Ilustra, através de vinhetas clínicas, algumas questões relacionadas com a temporalidade no processo psicanalítico.
A Filosofia, com Bergson, pergunta: «Que faz o tempo?» A Psicanálise, com Freud, pergunta: «Que faz o tempo na análise?» Não podemos, passivamente, deixar a resposta para a Filosofia, ou subscrevermos a opinião comum de que «é preciso dar um tempo» ou «isso passa com o tempo».
Nos tempos acionados pela análise, que se regulam não pelo tempo cronológico, mas pelo tempo da transferência e dos ritmos subjetivos de cada um dos intervenientes e da díade analítica, abrem-se tempos de transposição e de transformação (Poulichet, 1994), ou seja, abrem-se diversas temporalidades.
Os eventos sucedem-se na nossa história de vida e a nossa perspetiva temporal sobre eles vai sofrendo transformações, ressignificações, num espaço psíquico infinito de atribuição de sentido para a nossa existência como indivíduos e como elementos constituintes do universo.
Não podemos escapar ao objetivo que nos propusemos neste trabalho: analisar a temporalidade em Psicanálise, sem nos determos inicialmente na história do conceito de tempo e invocarmos as conceções contemporâneas sobre o tempo para a Física e consequentes repercussões para a Psicanálise. Das conceções evolutivas de temporalidade na obra de Freud, passando pelos trabalhos de revisão de André Green, Dana Birksted-Breen, Rosine Perelberg, com pequenas incursões na Filosofia, ingrediente indispensável para nos movermos neste terreno de fronteiras difusas, passamos à sala de análise e ao conceito de tempo psíquico/tempos psíquicos e às suas manifestações na clínica, acompanhando esta secção do trabalho com vinhetas clínicas.
As nossas perspetivas sobre o tempo modificaram-se significativamente. De acordo com Hawkings
Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de Lisboa. Psicoterapeuta e Psicanalista; Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail:
(1988), até ao século XX acreditávamos na existência de um tempo absoluto, tempo absoluto posto em causa pela descoberta da velocidade da luz com a teoria da relatividade. Cada observador tem uma medida individual do tempo (cada observador, cada velocidade, cada tempo), inaugurando o conceito de tempo subjetivo. Nas leis da Física, a distinção entre passado e futuro não existe quando se consideram as operações fundamentais entre partículas. Vemos aqui uma ponte entre o tempo para a Física e o tempo subjetivo, constructo da Psicanálise. Reconhecemos também as especificidades da intemporalidade do inconsciente — «os processos do sistema inconsciente são intemporais e não são ordenados nem modificados pelo tempo, ao contrário do sistema consciente, em que tempo e espaço estão ligados» (Alexandre, 2014, p. 70).
Hawkings (1988) refere-se a três setas do tempo — a seta termodinâmica (entropia), a seta psicológica (o cérebro obedece à segunda lei da entropia) e a seta cosmológica (o universo expande-se e não se contrai). Do aceso debate que a seta cosmológica produziu, podemos retirar, de acordo com Canestri & Fiorini (2009), algumas conclusões que se aproximam do objetivo do nosso trabalho: 1) o tempo euclidiano, não medido pelos relógios e expresso em números imaginários, foi acrescentado ao tempo real e 2) a distinção entre tempo e três dimensões espaciais — espaço, tempo e espaço-tempo — cai, dando lugar à perceção do tempo que flui, de que todos partilhamos subjetivamente.
A par com a revolução da Física relativamente ao conceito de tempo, também a Psicanálise revolucionou a conceção tradicional do tempo. A análise dos significados da categoria do tempo em Psicanálise envolve delimitações de diferentes níveis. Cada ser humano está imerso em tempos individuais e coletivos, históricos e prospetivos, repetitivos, circulares e abertos. O debate «tempos repetitivos, tempo reversível versus tempos abertos, irreversíveis» envolve o campo psicanalítico. Assistimos, para Canestri & Fiorini (2009), a uma transição muito significativa na história da ciência, de um sistema fechado da mecânica newtoniana, em que o tempo é reversível, para (fruto das leis da termodinâmica e especificamente da segunda lei) um sistema de tempo irreversível em que a transformação e a mudança predominam.
No campo psicanalítico, as significações do conceito de tempo têm efeitos poderosos, quer na noção de história usada em psicanálise — categorização da história da infância, relação entre factos e fantasias —, quer no conceito de repetição — como incluímos a produção de diferença e de mudança psíquica.
Para Canestri & Fiorini (2009), o desmantelamento da cosmologia linear, com a noção de tempo irreversível, deu origem à possibilidade de ressignificação do tempo, presente em vários momentos históricos da psicanálise: a) na escola kleiniana, pela ênfase nos tempos de desenvolvimento; b) no debate do papel do working through da história do sujeito versus o aqui e agora; c) no passado, presente, futuro versus trabalho psíquico de construção da história e da subjetividade.
Na Psicanálise contemporânea, os conceitos de história e de tempo ganharam espessura e complexidade, incluindo acontecimentos, contingências e mudanças, categorias que fazem parte da atual noção de Temporalidade em Psicanálise. Importando as metáforas da segunda lei da termodinâmica, a «máquina» (mente) não é perpétua e o calor (conteúdo psíquico) tem necessariamente de se redistribuir para atingir um novo equilíbrio, produzindo mudança. O tempo é mais do que uma repetição eterna e os fenómenos da transferência, análise da transferência, contratransferência, interpretação dão conta de que algo novo pode ocorrer no espaço e tempo.
As questões relacionadas com o tempo são a base da teoria psicanalítica, do setting analítico e dos fenómenos psíquicos com que deparamos na clínica (Birksted-Breen, 2016).
Analisando o conceito de tempo e temporalidade, Green (2009) refere que Freud nos deixou um mosaico de mecanismos temporais sem uma unificação conceptual. Desenvolveram-se abordagens psicanalíticas distintas, abrangendo teoria e técnica, com diferenças significativas entre elas. Para Birksted-Breen (2016), as mais relevantes são as oriundas da Psicanálise Francesa, que enfatizou uma forma não linear de temporalidade, o aprés-coup, e da Psicanálise Inglesa, com ênfase num modelo de desenvolvimento mais linear de temporalidade.
Um problema central na significação do tempo, referido por vários autores (Meissner, 2007; Green, 2002; Perelberg, 2008), é a sua profusão de metáforas espaciais. A psicanálise contemporânea encontrou várias conceções interessantes para os problemas levantados pela noção de espaço, sendo a mais conhecida a noção de «espaço transicional», de Winnicott, com corolários como a noção de «espaço potencial», embora ambas pouco dedicadas à noção de tempo, sendo que, mesmo estas, se apoiam em termos e metáforas espaciais (Green, 2002).
O antes e o depois não dão conta da experiência subjetiva do tempo, mas, mesmo assim, tendemos a usar estas palavras, que remetem para lugares, para espaço. Talvez nos possamos apoiar na Filosofia e no pensamento de Bergson (2001) para compreendermos este predomínio do pensamento linear sobre o tempo. Bergson liga a nossa noção de tempo à forma como nos
expressamos através da linguagem — definimo-nos através de palavras e a linguagem exige o estabelecimento de distinções claras e precisas, a mesma descontinuidade que existe nos objetos materiais. Esta semelhança entre o pensamento das coisas (ou entre as palavras e as coisas) é útil na vida diária e necessária na maioria das ciências, mas não se aplica à nossa noção do tempo.
Imagine o leitor que lhe tento mostrar como as regras ficam alteradas na nossa relação com o tempo através da modificação do suporte real — papel ou digital — que o leitor está a usar para ler, que seguiu, até aqui, uma lógica linear. Se alterarmos o tipo de letra, o tamanho da letra, a previsibilidade do texto, convidamos o leitor a uma exploração visual diferente, nova, estranha, não linear, tal como acontece na nossa relação com o tempo.
O tempo vivido não tem lugar, habita em vários lugares simultaneamente.
O antes é aqui, na experiência psíquica de compulsão de repetição.
O antes é aqui, no reviver de uma experiência traumática.
O antes é aqui na sala de análise e na relação com o analista.
O antes é aqui no reviver do meu interesse pelo tema, transformado pela escrita.
No desenvolvimento desta conceção de tempo não linear, assistimos à originalidade da posição francesa. Para Green (2002), esta deve-se à influência de Lacan e especificamente ao desenvolvimento do conceito de Nachträglichkeit. O conceito foi utilizado por Freud pela primeira vez em 1895 em «Projeto para uma Psicologia Científica». A tradução de Nachträglich e Nachträglichkeit (deferred action, ação diferida, posterioridade) escolhida por Strachey foi variando, de acordo com Birksted-Breen (2016), devido a diferentes utilizações do termo na obra de Freud: 1) o significado de «posterior»; 2) o significado de um movimento do passado para o futuro, ou seja, algo que é depositado no indivíduo, mas que só será ativado mais tarde — teoria da sedução em que o trauma acontece em dois estágios, ou seja, o acontecimento deixa um traço e, num segundo estágio, tem um efeito psíquico, uma ação diferida, em que a temporalidade acontece do passado para o presente; e 3) o significado de algo que é percecionado, mas só ganha significado retrospetivamente, aprés-coup utilização do termo desenvolvida por Lacan e pela Psicanálise Francesa.
Para Laplanche & Pontalis (1990), Freud refere-se várias vezes ao termo Nachträglich, encontrando-se também a forma Nachträglichkeit. Esta noção de «posterioridade» faz parte do seu aparelho conceptual, apesar de não ter apresentado uma definição ou uma teoria de conjunto. A utilização destes termos revela, no entanto, a sua conceção de temporalidade e de causalidade psíquicas.
Em 1896, numa carta a Fliess, Freud referiu-se a uma possibilidade de rearranjo da memória de acordo com as circunstâncias do presente: «Trabalho na hipótese de que o nosso mecanismo psíquico se tenha estabelecido por estratificação: os materiais presentes sob a forma de traços mnésicos sofrem, de tempos a tempos, em função de novas condições, uma reorganização, uma reinscrição» (apud Laplanche & Pontalis, 1990, p. 295). Para Perelberg (2008), Freud anuncia, assim, um mapeamento da mente com ligações entre espaço e tempo, que desenvolveria mais tarde na «Interpretação dos Sonhos», e inaugura a transição da metáfora arqueológica da mente — conceção linear do tempo — para uma compreensão da temporalidade de acordo com vários eixos. Este desenvolvimento conduziu à conceção de que todos os fenómenos em Psicanálise se situam sob o signo da retroatividade e mesmo da ilusão retroativa, ou seja, há experiências, impressões, traços mnésicos, que são ulteriormente remodelados em função de experiências novas, permitindo um novo tipo de significações e de reelaboração (Laplanche & Pontalis, 1990).
Em 1899–1900, com «A Interpretação dos Sonhos», Freud desenvolve a sua conceção da natureza bidirecional dos processos psíquicos. A hipótese da intemporalidade do inconsciente é construída, bem como a de um aparelho psíquico com uma dupla vectorização, que tende ora para o futuro ora para o passado, no puro presente do sonho (Green, 2002). O trabalho do tempo no sonho pode ser entendido, para Poulichet (1994), como uma atuação do tempo nas imagens, que realiza passagens em que as figuras do sonho não são, de facto, imagens constituídas, mas composições significativas que captam e ligam forças, excitações.
O regresso às fundações biológicas, com a publicação dos «Três ensaios sobre a teoria da sexualidade» em 1905, pressupõe novamente um tempo linear, que segue as várias fases do ciclo de vida e que é acessível à compreensão imediata: nascimento, infância, puberdade, adolescência, idade adulta, velhice e morte. Relativamente à evolução da noção de temporalidade na obra de Freud, e de acordo com Green:
«Podemos ver como o pensamento de Freud oscila. Os sonhos permitiram-lhe descobrir uma temporalidade desmembrada, correspondendo à sua intuição inicial de um tempo não-unificado. A teoria sexual deu origem a um tempo ordenado tradicionalmente, em termos do crescimento ao longo da vida. A novidade consistia em colocar o sexual sob a égide do tempo presente, muito antes das manifestações explícitas da puberdade, chamando a atenção para o recalcamento, presente na amnésia infantil, enquanto abria o caminho para o retorno do recalcado.» (2002, p. 13)
Perelberg (2008), debruçando-se detalhadamente no conceito de tempo e espaço, resume a evolução do pensamento de Freud em dois eixos temporais: o eixo genético, que articula o desenvolvimento com a dimensão biológica da vida do indivíduo (Modelo topográfico), e o eixo estrutural (Modelo estrutural). Estes eixos estão associados a diferentes configurações espaciais: inconsciente, pré-consciente e consciente no modelo topográfico (de a ); e id, ego e superego no modelo estrutural (a partir de ). A evolução, não linear, das conceções de temporalidade ocorreu ao longo de toda a obra de Freud.
A evolução de um conceito tradicional em relação ao tempo — passado, presente, futuro — para o questionamento deste conceito de direção do tempo dá origem ao tempo «rasgado» ou «quebrado» (shattered time), conceito esboçado por Freud e desenvolvido por Green (2002) em que passado, presente e futuro se interligam e coexistem no mesmo espaço psíquico presente. As combinações de tempo envolvidas no sonho e nas associações de pensamentos que fazemos dão conta desta coexistência de diferentes temporalidades, muito embora Green advirta para a extrema delicadeza e exigência desta posição mental frente ao tempo.
«Evitar a tentação cartesiana de retomar ao pensamento tradicional passado/presente/futuro que representa uma posição segura de pensamento e que permanece como uma característica distintiva de todos os organismos vivos. Relativamente ao humano, é necessário ir mais além do que é para nós um motivo de orgulho, a nossa consciência do tempo, que também significa a nossa consciência da morte. É necessário mergulhar no tempo psíquico inconsciente que não admite consciência do inconsciente.» (Green, 2002, p. 2)
O desenvolvimento de um «sentido de tempo» tem início precoce. Klein referia-se ao seu início no momento do nascimento — «a mudança na existência da vida intrauterina para a vida extrauterina como o protótipo de toda a periodicidade e como uma das raízes primeiras do conceito de tempo e da orientação no tempo» (apud Sabbadini, 2014, p. 2). A experiência precoce do tempo alicerça-se no momento do nascimento, no encontro com o seio, nos ritmos do período de amamentação, nos ritmos de sono e vigília, mas também, mais tarde, no controlo dos esfíncteres, aspetos que se constituem como precursores de um sentido de tempo e do funcionamento precoce do ego. Assim, o desenvolvimento de um sentido de tempo está estreitamente ligado ao desenvolvimento de um «sentido de identidade», providenciando as dimensões do tempo e do espaço as coordenadas através das quais percebemos a realidade externa e experimentamos estados internos mentais e emocionais (Sabbadini, 2014). Birksted-Breen (2009) desenvolveu o conceito de «Tempo de Reverberação», sugerindo que o sentido mais primitivo e mais subjetivo de tempo se desenvolve na relação precoce com o objeto materno, que tem influência direta nas variações dos ritmos e nas variações da qualidade da sua presença. A temporalidade primitiva estaria, assim, desde o início, marcada pela direcionabilidade, a sequência, o antes e o depois.
Interligando aspetos objetivos e subjetivos, a relação com o tempo está intimamente relacionada com a mudança psíquica e constitui um organizador de todo o processo analítico. Do tempo que passa ao tempo sentido, dança de Chronos e de Tempus, o tempo cronológico e o tempo interno, subjetivo, experimentado por cada indivíduo, estão presentes e transmutam-se. Reconciliar a pessoa com a sua dimensão temporal e inscrevê-la na ordem temporal do ciclo de vida são objetivos do processo analítico. É necessário acompanhar as transformações da patologia da experiência do tempo, que requerem abordagens técnicas diferenciadas.
Este é um tema transversal na nossa vida e na nossa clínica, presente de várias formas, presente no eixo do tempo externo, no quadro externo temporal da análise — sob a forma da duração das sessões, tempo de intervalo entre sessões, pausas analíticas —, mas também no eixo do tempo interno, na temporalidade psíquica que não pode ser objetivamente medida em horas ou dias, um tempo interno que ocorre no campo intersubjetivo entre analista e paciente e que envolve processos psíquicos complexos (Collins, 2020). Estes inscrevem-se por sua vez na complexidade da experiência psíquica, tal como descreve Fernanda Alexandre:
«Os tempos e os espaços psíquicos das diversas fases da vida interna condensam-se no aqui e agora da relação transferencial e são constituídos por diferentes qualidades de afetos que vão da dor, do desespero, do luto do paciente, desenhando a singularidade do sofrimento como pessoa, mas que também lhe permitem a descoberta do reencontro, da esperança e do convívio com os outros.» (2014, p. 71)
A análise aprofunda-se quando é possível colocar em movimento uma série de mudanças na experiência do tempo. Passado e presente iniciam uma nova relação entre si, sendo necessário que ambos os intervenientes, paciente e analista, entrem num estado de tempo fluido para que o aprofundamento ocorra (LaFarge, 2014). Talvez possamos ver este estado de tempo fluido como algo presente num enactment, tomado
como processo total. As regras da relação são surpreendentemente alteradas e dão origem a uma nova organização da díade e da relação subjetiva com o tempo em ambos os intervenientes, ou seja, o enactment como parte do trabalho psíquico, que se destina a desenvolver uma relação relativamente consistente com a dimensão temporal da nossa existência, em que o passado é revivido e transformado, permitindo a integração de experiências na linha temporal mais fluida passado-presente.
Kernberg (2008), sobre o fenómeno de destruição do tempo na patologia narcísica, refere-se à experiência traumática, alvo de múltiplas influências na experiência subjetiva da passagem do tempo, dependendo da natureza e duração da mesma — o tempo paralisado e o reviver recorrente contribuem para a reverberação de processos inconscientes que reduzem e empobrecem a experiência do tempo, em particular do tempo vivido após o trauma, reduzindo a capacidade de o indivíduo fazer novos investimentos significativos e gerar novas experiências que poderiam enriquecer a experiência da passagem do tempo, condenando o indivíduo a reviver subjetivamente um mundo imutável. A compulsão de repetição seria também uma negação implícita da passagem do tempo. Nada mudou e a compulsão de repetição indica que o tempo está congelado. A duração do tempo encurta, em contraste com o que acontece com os relacionamentos emocionais profundos que caracterizam a identidade saudável.
A paisagem do mundo interno dos pacientes vai-se modificando, através da interligação das transformações da qualidade dos objetos internos, da elaboração psíquica e dos movimentos transferenciais que vão assumindo novas formas e sentidos, permitindo o desenvolvimento e enriquecimento da relação com o tempo, como se observa na seguinte vinheta clínica:
M., mulher, 32 anos, no 5.° ano de análise refere numa sessão: «Esta noção de que as coisas dependem de mim, esta ideia de que também posso deixar a minha vida fluir, sem estar sempre ansiosa, sempre a intervir, e quando intervenho ser daquela forma repetida em que sinto que tenho de ser sempre eu a fazer tudo… mesmo esta posição de usufruir das coisas é ela mesma uma decisão… eu dantes nem pensava, seguia um plano de ação… já consigo ter uma certa serenidade, já consigo estar a andar de carro sem estar sempre a ouvir música aos altos berros, ainda tenho alguma dificuldade em não ir ao Facebook ou ao telemóvel ver se tenho mensagens… ainda há uma certa inquietude cá dentro… mas aquele bicho carpinteiro que não parava já se vai sentando, à sombra de uma árvore… esta ideia do silêncio e de estar comigo e apreciar verdadeiramente as coisas boas começa a fazer sentido.»
Se estamos desligados da passagem do tempo, se não reconhecemos algum movimento antes e depois, movimento experimentado externamente pelos sentidos ou internamente, somos incapazes de mudar (Meissner, 2007). A vinheta clínica seguinte ilustra o jogo dinâmico entre tempo, mudança e movimento.
D., mulher, 30 anos, aproxima-se da fase final da sua análise. Torce um tornozelo e este é um pretexto para uma análise mais detalhada e profunda da sua relação com o tempo. Em casa, de baixa médica, imobilizada, o tempo passou de outra forma, privada da omnipresença de um estado mental que a obrigava a desdobrar-se na urgência do agir. O fluir do tempo sentido modificou-se, deu lugar a pensamentos sobre a sua vida, sobre o desejo de mudança profissional. Associou, na sessão, ao seu desejo de ter sido ouvida com cuidado, com tempo. Disse que teria direito a esse tempo, mas esse tempo já passou e terá direito a outros tempos. Lembrou-se de um diálogo recente com a mãe: «A minha mãe pediu-me para lhe fazer um favor daquela forma que ela sempre fez, a choramingar: “se gostas de mim faz-me esse favor”… Mais uma vez, para lhe fazer um favor, aquele favor de a livrar das porcarias em que se mete!… E eu disse-lhe que não, que eu também precisava, e respondi: “se gostas de mim não me peças isso”.»
Interligando a dimensão do corpo privado de movimento com o desenvolvimento da capacidade de estar só, a paciente enuncia que no seu espaço mental o tempo de vida do objeto interno maligno chegou ao fim, permitindo o acesso ao luto, encontrando formas de interromper o curso inexorável da compulsão de repetição e permitindo a mudança psíquica.
Na vinheta clínica abaixo, podemos observar como a díade analítica é indissociável e como os fenómenos de contratransferência e a relação com o tempo de ambos os intervenientes participam na construção de novas temporalidades nos momentos da sessão.
I., mulher, 60 anos, encontra-se no segundo ano de análise. Numa sessão online, e a propósito da sua compulsão de compra de malas na Internet, ativo na minha rêverie um poema de Omar Khayyam (poeta persa, século XII) — «vinho, vinho, taças, taças, depressa… já envelheci» — e ofereço-lhe uma versão modificada — «malas, malas, depressa, depressa… já envelheci». Emite uma gargalhada sonoramente informática. Ri-se, pela primeira vez nesta sessão, após ter enunciado o resultado muito inquietante de uma biópsia.
A angústia de morte ligou-se à minha relação com o tempo, aos afetos evocados pelas memórias de leituras deste poeta, e foi possível dançarmos as duas a dança do tempo.
O entrelaçado contínuo, não linear, das cadeias associativas ao longo do processo analítico, dando origem à apropriação de tempos internos e de um acesso a diversas temporalidades, não ocorre de uma vez só. Vai acontecendo, em miríades de interações nos tempos das sessões, nos tempos da evolução e transmutação da transferência, nos pensamentos-sonhos, no tempo cronológico dos anos que passam. Como exemplo de parte do trabalho associativo de uma sessão:
P., homem, 43 anos, encontra-se no segundo ano de análise: «Hoje vamos falar do tempo e da mortalidade. A questão do tempo e da morte tem-me causado angústia e noto mais isso nos tempos [ri-se], nos tempos mortos.»
P. descreve episódios em que estes pensamentos o assaltaram, associando a noites de sono agitado e sonhos. Descreve um sonho.
«No sonho, estava a ver vários sites de carros e apareceu um negócio fantástico e fui ver o carro… quanto mais via o carro, mais pensava: “este carro está novo, impecável, mas se eu compro este carro pode ser o último carro que eu posso ter para o resto da vida”. Questionava-me no sonho: “será que o tempo que me resta eu vou passar neste carro?». O sonho acabou por rodar nesta instabilidade.»
Em associação, refere-se ao pai, às suas limitações, à sua anemia recente; refere-se às perdas de sangue de outro familiar e verbaliza: «um dia destes, ele apaga-se e a coisa pode correr mal». Liga às suas próprias limitações, e a uma ressonância magnética que foi fazer a uma articulação, comparando-se com o pai.
Paciente: «Eu sou igual ao meu pai! E eu queria ser um bocadinho diferente do meu pai. E estamos nisto, esta consciência de que já não me resta o tempo todo, “tens metade”! Dei por mim a deixar de usar relógio para ser um bocadinho rebelde, precisava de fazer qualquer coisa para não ter o tempo em mim.»
Analista: «Anemia, será o P. a pensar na consciência do tempo que se esvai e o deixa num estado de anemia mental: “será que eu ainda posso esperar coisas boas, carros novos, coisas de vida, ou só posso esperar coisas de morte/doença/repetição… eu sou igual ao meu pai”.»
Paciente: «Sim, eu a tomar consciência de algo, sinto que tropecei ou fui confrontado com “olha que isto não é para sempre”, como se eu tivesse estado sempre desligado destes pensamentos [silêncio]. Há 20 anos, eu não pensava nisto [ri-se], há 20 anos! Há 20 meses, eu não pensava nisto! Lembro-me de ver o B. [filho] a entrar na água, era um problema o degrau, mas este ano foi diferente, entrou simplesmente e não foram os baby steps do ano anterior.»
Analista: «Algo/degrau sentido como abrupto, que foi sendo pensado aqui, baby steps ao longo do tempo, se calhar há cerca de 20 meses?»
Paciente: «Ah, pois é! Nem tinha feito as contas, talvez sim… agora, depois deste, há aqui outros degraus que eu vou ter de saber dar, aproveitar mais as pessoas e as coisas…»
Analista: «A pensar-se no tempo, no tempo sempre adiado para o tempo presente, uma mudança significativa.»
Paciente: «Sim, é profundo e complexo, o tempo é agora porque eu já não sou eterno; sim, é uma mudança significativa que é semelhante às dores de crescimento, causa dor e angústia.» Finaliza a sessão com referência a um episódio da manhã do dia da sessão, em que brincou e riu com o seu filho.
Sim, parafraseando o paciente, o Tempo e a nossa relação com ele é um tema profundo e complexo, que foi, desde os primeiros tempos da humanidade, «escrito» como o tema mais trágico da humanidade (Muldoon, 2006), aquele que causa mais dor e sofrimento existencial. Jorge Luis Borges, na sua História da Eternidade, ilustra de forma poética a opressão da repetição que se observa nesta última vinheta clínica.
Como pude não sentir que a eternidade, ansiada com amor por tantos poetas, é um artifício esplêndido que nos livra, embora de maneira fugaz, da intolerável opressão do sucessivo (Borges, 1989, p. 363).
A verdade é que a sucessão é uma intolerável miséria e que os apetites magnânimos cobiçam todos os minutos do tempo e toda a variedade do espaço (Borges, 1989, p. 337).
Borges traduz para poesia esta inquietação do paciente, quando este diz: «Eu sou igual ao meu pai! E eu queria ser um bocadinho diferente do meu pai», mas também é este sofrimento tornado consciente, esta «dor de crescimento», que lhe permite uma mudança na sua relação com o tempo.
Enquanto a Filosofia nos ajuda a indagar, pensar e problematizar o tempo, a Psicanálise é chamada a elaborar, transformar esta dimensão trágica em dimensão integrante e integradora da mente, em que a finitude é parte do sentido da vida e não o seu apêndice-sombra.
Na análise, a nossa esperança é conseguir analisar aquele presente e aquele passado ao mesmo tempo, à medida que a nossa vontade e a nossa mente se tornam parte da dança (Smith, 2009), ou seja, é analisar a dança à medida que a dançamos, desafiando assim a dança da morte.
ABSTRACT
The author reflects on the concept of temporality in Psychoanalysis, highlighting its contributions to psychoanalytic thought, namely through the concept of psychic change. Time for Physics and subjective time, a construct of Psychoanalysis, revolutionized the traditional conception of time for humanity. The analysis of the meanings of the category of time in Psychoanalysis involves delimitations at different levels, in which past, present and future are interconnected and coexist in the same present psychic space. It goes through the most significant evolutionary conceptions of temporality in Freud's work, based on the works of authors who focused on the theme, with emphasis on the work of André Green. It refers to the most relevant distinct psychoanalytic approaches, encompassing theory and technique, coming from French Psychoanalysis — which emphasized a non-linear form of après-coup temporality — and English Psychoanalysis — with an emphasis on a more linear developmental model of temporality. Issues related to time are the basis of psychoanalytic theory, analytic setting and psychic phenomena. Illustrates, through clinical vignettes, some issues related to temporality in the psychoanalytic process.
KEYWORDS: temporality, psychoanalysis, psychic time.