Os dois artigos convidados, de Anna Maria Nicolò (AMN) e de Giuseppe Civitarese (GC), inscrevem-se na tradição da literatura teórico-clínica sobre método e técnica psicanalíticos. Coincidência curiosa é o facto de os autores convidados serem eminentes psicanalistas italianos, com amplo reconhecimento internacional, e de os artigos terem como argumento principal o brincar na análise.
O artigo de AMN resulta da comunicação feita no XXX Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise sob o tema A Criança e a Psicanálise. Nesse âmbito, um de nós teve o prazer de colaborar no comentário de um caso de supervisão em contexto de workshop. Já o artigo de GC é uma partilha que o autor colocou à disposição da Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP) para tradução e publicação em língua portuguesa, e que provém de um nosso desafio aquando da entrevista que juntos realizámos em 2021 (Ferreira e Almeida, 2021).
Coincidências que conferem uma ambiência lúdica e estética, no sentido etimológico das palavras, aos pensamentos que a leitura dos artigos em nós suscitou. No entanto, a frugalidade criativa da escrita dos autores não deve, de modo algum, gerar no leitor dúvidas acerca da qualidade e relevo epistémico dos argumentos à sua disposição.
A feliz justaposição dos artigos coloca-nos numa segunda camada de indagação e interligação, que claramente se situa no âmbito da problematização comparada de modelos psicanalíticos contemporâneos e, por isso, se configura como uma ocasião relevante para a evolução do nosso pensamento psicanalítico e apreensão da fineza e nuances conceptuais com que os autores nos prendem.
Os autores oferecem-nos reflexões acerca do conceito de brincar. Deduzem implicações teórico-clínicas para o processo analítico, encontrando no brincar esse lugar de elevação do fazer psicanalítico.
Ambos os trabalhos começam por delinear o brincar como modalidade de funcionamento mental, para depois situar o fenómeno na interação do par analítico (brincar a dois). Finalmente, estendem propostas sobre o brincar como instrumento ou ferramenta técnica à disposição do «quadro» mental do analista. Ambos os trabalhos coincidem em ver no brincar o potencial gerador de transformações significativas que concorrem para os objetivos de mudança e transformações na cura analítica.
Condizentes com o preceito que diz não haver melhor prática que uma boa teoria, nem melhor teoria do que uma boa prática, os autores ilustram os principais argumentos com vinhetas clínicas que facilitam a leitura e ampliam em profundidade a compreensão. No seu artigo, GC envereda ainda numa viva e impressiva explicitação de variações «técnicas», de cariz (in)formativo, apresentando exemplos de como «vê» o Brincar, ou de como o próprio brinca na situação analítica com os seus pacientes. Daí, salientamos o brincar como estilo de conversação, humor, dança, transformação em poesia. GC presenteia-nos ainda com uma preciosa «formulação», propositadamente incompleta
Psicóloga Clínica e Psicanalista de crianças adolescentes e adultos. Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail:
Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta. Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).
(atenda-se ao etc. no final do parágrafo), de algumas ferramentas técnicas no acrónimo SCREMA. Sugestivo no mínimo.
O nosso comentário, também visando deixar ao leitor espaço insaturado, evita a tentação do exercício exaustivo e pontilhoso que o tema certamente mereceria noutra sede. Limita-se, por assim dizer, a umas quantas linhas de esboço associativo que procura dar forma (do grego ideia) a algumas continuidades e descontinuidades entre o pensamento dos autores. E o resto é respiro em reticências que enviam à releitura dos artigos…
Ambos os convidados sublinham a importância do «brincar na análise» como processo gerador de transformação mental. Ainda que, fazendo recurso a diferentes paisagens teóricas, não deixam de sobrevoar ideias de Freud, Winnicott e Bion, que aqui e ali se sobrepõem e reverberam em sensibilidade poética e acuidade conceptual. A este nível, das características do brincar enquanto processo mental, dialogam os autores de modo suave entre si. Ambos concebem a liberdade de brincar como uma forma particular de pensamento, um equivalente da associação livre e do sonho diurno, com potencialidade transformadora e enraizada no prazer de ser, sentir e fazer.
Neste sentido, os contributos de AMN e GC dão continuidade a uma tradição de pensamento psicanalítico sobre o brincar. Mencionamos apenas alguns: o jogo de carretel (Freud, 1920) na elaboração da experiência traumática; o contributo de Klein (1929) sobre o brincar na infância e simbolização; os conceitos de espaço potencial e área transitiva na fase de desilusão (Winnicott, 1953, 1971), que implica a saída da situação paradoxal em que o «infant and the maternal care belong to each other and cannot be disentangled» (Winnicott, , p. 40). Esta tradição encontra respaldo nas conjeturas bionianas dum paradigma psicanalítico estético (Civitarese, 2014) de criação e desenvolvimento de novos pensamentos na situação analítica. Os elementos beta, portadores de sensorialidade e emocionalidade encarnada na experiência em uníssono (at-one-ment), são transformados pela função-alfa em pictogramas (subunidades do pensamento onírico no estado de vigília). Os processos de transformação dependem da eficácia/espessura da membrana «ilusória», isto é, a barreira de contacto que sustém uma atitude recetiva às identificações projetivas (comunicação inconsciente) na situação interpsíquica do modelo continente-conteúdo da sessão. Continente-conteúdo que, pela qualidade recetiva e alpha-dream work, gera pictogramas e rêveries tendentes a favorecer a emergência de derivados narrativos e factos selecionados (Bion, 1962, 1963, 1965; Ferro e Basile, 2009).
No centro do paradigma estético da psicanálise bioniana (Civitarese, 2014), encontramos a capacidade negativa da mente, perante a incerteza, a dor mental e a angústia catastrófica, que as oscilações (PS-D) comportam e, o perigo da «verdade» trágica que a condição humana sempre anuncia.
Neste sentido, AMN e GC consideram que brincar corresponde a um funcionamento psíquico transformador de estados primitivos pré-simbólicos da mente, emoções e sensorialidades em busca de figurabilidade — ligações no brincar, da análise tanto de crianças pequenas como de adultos. De igual modo, no plano da interação, o brincar é sublinhado pelos autores como uma modalidade de estar com que favorece a colaboração e sentimentos de confiança.
Ora, propor-se operar a «transposição» ou extensão do brincar da psicanálise da criança para a psicanálise do adulto implica abordar as modificações a nível teórico acerca do modo como se concebe o funcionamento mental e o inconsciente, a relação e comunicação entre paciente e analista. Mas também considerar os aspetos daí decorrentes em termos de método e técnica analítica. Para ambos os autores, o reconhecimento do brincar como modus operandi legítimo no par analítico tem consequências na condução do processo analítico e, em última instância, no que se almeja e concebe como objetivo da «cura» analítica, como AMN explicita no final do seu trabalho.
Se num primeiro momento até podemos ser levados a ver os desenvolvimentos dos dois artigos como complementares, pela «sedução» conciliadora de um certo ecletismo, numa (re)leitura mais sóbria e modesta para com os autores percebemos que os argumentos centrais não o são, e não têm de o ser só porque se debruçam sobre o mesmo assunto.
Efetivamente, é ao exporem o miolo das suas premissas, isto é, ao explicitarem o posicionamento do brincar no manejo da técnica e do processo analítico, através das ilustrações clínicas, que melhor se revelam as diferenças. AMN numa posição eminentemente relacional da situação analítica, e GC num embodiment intersubjetivista, fazendo recurso ao seu modelo pós-bioniano da psicanálise do campo bi-pessoal. Revelam-nos, ambos, interessantes variações e dissonâncias ao nível da epistemologia teórica-clínica que convém atender, nomeadamente na forma de escutar o inconsciente, de elaborar e/ou interpretar o material e, consequentemente, na forma de devolver e intervir na situação analítica.
Um dos aspetos tangentes parece ser a centralidade e relevância conferida ao espaço potencial. Aqui, o que cada autor postula parece ser de diferente ordem.
A noção de espaço potencial é muito importante no artigo de AMN. Proposto por Winnicott, para se referir a uma área intermediária de experiência, o espaço potencial situa-se entre a fantasia e a realidade, entre o dentro e o fora, entre o processo primário e secundário. Na obra de Winnicott, diferentes formas de espaço potencial incluem o espaço lúdico e o brincar, a área dos objetos e fenómenos transicionais, o espaço analítico, a área da experiência cultural, a área da criatividade. AMN apoia-se especificamente nesta noção para sugerir um papel de relevância do brincar na psicanálise, que, integrando, vai além da visão que limita o brincar à expressão de conflitos e representação de fantasias inconscientes (Klein, 1932).
Para AMN, o quadro mental analítico é eminentemente relacional. O que o paciente transmite brincando é, essencialmente, expressão das suas fantasias inconscientes passadas e reencenadas, através da transferência num espaço transicional da sessão analítica. Aqui, a interferência atual é de alguma forma reconhecida, quando se refere ao fenómeno transicional como sendo constituído por uma sobreposição paradoxal de dimensões no brincar — é e não é ao mesmo tempo. As fantasias inconscientes passadas, no sentido em que AMN as equaciona, mais do que reencenadas, são então (a)postas no jogo da relação analítica.
«Estamos só a Brincar», diz Luigi, na tentativa de se assegurar que ambos transitam ainda o espaço potencial, em resposta à interpretação da analista. O «Eu penso que hoje estás zangado comigo» (sic.) — a interpretação da analista — rompe a membrana «transitiva» do brincar, diríamos nós, uma vez que não mantém suspensas as consequências concretas na realidade, que protege e faz de cintura ao Brincar.
Neste momento, parece assistir-se à «sobreposição» do inconsciente do paciente com o inconsciente da analista, onde a contratransferência, porque inconsciente, toma a palavra. O que AMN enfatiza na sua reflexão é a qualidade transformativa das interpretações transferenciais daí resultantes, na paradoxalidade do brincar, enquanto espaço potencial que se situa entre o objeto subjetivo e o objeto objetivamente percebido, extensões-eu e não-eu (Winnicott, 1971). Diz-nos a autora: «Luigi está zangado com a analista na transferência […] que permite atestar a sobrevivência do objeto depois da destruição», sempre e quando a analista-mãe é suficientemente boa, poderíamos completar.
Para GC, influenciado pelo entrelaçamento de um Bion em Winnicott, é a comunicação inconsciente que circula no par analítico e representa ou «sinaliza» o padrão do vínculo: experiência emocional operante na situação analítica. O que é «transferido» (se é que no seu modelo podemos falar verdadeiramente de transfert) não mais se pode diferenciar das variações, por vezes invariantes (os bastiões dos Barangers), geradas no hic et nunc do encontro entre ambos. Nem, do mesmo modo, se pode genuinamente desintricar das dinâmicas emergentes a «contenção» e a estimulação vindas da assimetria proporcionada pelo analista no modelo continente-conteúdo. Estamos perante uma fantasia inconsciente coconstruída, em permanente atualização e mútua influência inconsciente.3
Aqui, a interpretação, mesmo que aberta, fraca, insaturada ou oblíqua, deixa de ser o único instrumento disponível para desencadear transformação. Neste sentido, GC reivindica implicações inovadoras ao nível da teoria da técnica propondo-se contribuir para o manejo clínico da estrutura intersubjetiva que ele e outros autores chamam de campo analítico — um nós inconsciente. Mas, acrescente-se, seguindo também a lógica e as regras do espaço transicional. Assim, enquanto para AMN o espaço transicional é o palco da dramatização da transferência do paciente, e da contratransferência do analista, para GC o espaço transicional é o palco de dramatização de um nós inconsciente, do encontro no «aqui e agora» onde emergem os derivados narrativos e no casting pirandelliano de personagens em busca de pensador-autor e transformação.
Parece-nos, neste ponto, necessário evidenciar como o caminho inaugurado pelo pai da psicanálise em Construções em Análise (Freud, 1964) desemboca na noção intersubjetiva de terceiro analítico (Ogden, 1994), ao qual não são alheias as conceções de Winnicott acerca do espaço transicional, ilusão (uso do objeto, being, etc.), e as noções de Bion acerca da identificação projetiva como comunicação, modelo continente-conteúdo, evolução da noção de sonho e pensamento onírico diurno e rêverie, PS-D, vínculo e transformações, que temos vindo a evocar. Paralelamente a estes contributos de Winnicott e Bion, que surgem ainda inscritos num modelo psicanalítico unipessoal clássico, assente na análise dos fenómenos inconscientes intrapsíquicos, transferenciais, da pessoa do paciente, vão emergindo no pensamento psicanalítico algumas propostas conceptuais e pontos de vista que sistematizam passos para a eclosão de uma psicanálise bi-pessoal (Baranger & Baranger, 2008; Bleger, 1967; Langs, 1978; Ogden, 1994; Ferro e Basile, 2009), de ascendência filosófica e psicológica intersubjetivista (Merleau-Ponty, 1945; Lewin, 1951). Esta traduz-se na análise de fenómenos emocionais e comunicativos inconscientes (identificação projetiva) que se geram no campo analítico entre duas pessoas com subjetividades distintas, mas que pelo encontro cocriam um campo intersubjetivo inconscientemente, um terceiro analítico (Ogden, 1994). Segundo Levine (2022, p. 7), «uma
Encontra-se em Ogden (1994) um conceito semelhante. Conjugando o conceito de Winnicott de espaço transicional e uso subjetivo do objeto com o conceito conteúdo-continente de Bion, vê emergir na relação analítica um terceiro espaço intersubjetivo, o terceiro analítico, coconstruído por ambos os sujeitos da análise, na qual analista e analisando projetam ambos as suas visões subjetivas e inconscientes de si e do outro: relacionam-se nessa área em tensão dinâmica.
dimensão emocional criada pela interação afetiva inconsciente e uma interafetividade de paciente e analista no contexto do processo analítico».
Referimo-nos, pois, a alterações que se foram interligando e desenvolvendo a partir de dificuldades encontradas na clínica com crianças e casos graves. Neste paradigma, o foco é não a resolução de conflitos internos pela passagem do inconsciente ao consciente, característico do funcionamento neurótico e simbólico, mas, sim, o aprofundamento dos processos inconscientes de forma a que se aumente a capacidade criativa do paciente, tendo por base as suas necessidades profundas de unificação do self e de partes fragmentadas, evacuadas, ou estioladas, mesmo não vividas, ainda que experienciadas (Winnicott, 1974; Ogden, 2014). Neste quadro, o manejo de «técnicas» que visam a transformação de elementos beta, crus, em elementos alfa, «cozinhados» nos processos sublimatórios de uma mente (Civitarese, 2020) em busca de figurabilidade e derivados oníricos, assume centralidade.
Elaborando estas perspetivas, o brincar pode ser considerado uma «construção conjunta terciária», consciente e inconsciente, do par analítico.
Outro aspeto que nos parece nuclear, em ambos os autores, é a equivalência entre o brincar e o sonhar, igualmente com as suas raízes em Klein, Winnicott e Bion. Brincar e sonhar são então atividades que recorrem a funcionamento mental equivalente, prenhe de liberdades plásticas, onde a ilusão pode ser experienciada mantendo as ligações afetivas, sem impedimentos de maior ou contradição, onde o sistema percetivo da realidade se aproxima da alucinação e com efeitos transformativos nutrientes ao aparelho de pensar pensamentos. Para os dois psicanalistas, brincar e sonhar mobilizam recetividade no analista em relação às necessidades do paciente. Mesmo na ideia de um nós inconsciente, a empatia pode ser vivida mantendo um bom nível de assimetria e tensão transformadoras. Percebe-se um igual entendimento quanto à possibilidade de a realidade poder ser plasticamente «figurada» através do pensamento-sonho, noturno e diurno, também no espaço da sessão, cosendo Winnicott e Bion pelos fenómenos transicionais e alfa dream work, a que fizemos referência anteriormente.
Estamos no domínio do pré-simbólico onde é feita, pelos autores, a equiparação entre o brincar e o sonho. GC explora a ideia de transformação no brincar, na proximidade a uma transformação em O, digamos assim, em «regressão progressiva», que ocorre nas camadas «transicionais» do inconsciente, através da sintonia emocional at-one-ment. Esta «regressão progressiva» pode permitir ao paciente viver pela primeira vez a experiência de significação com o outro, pelo eixo do prazer (gozo) partilhado e convivido. Esta é uma diferença fundamental em relação às transformações em O, que parecem ocorrer mais no registo «incorporado» da violência estética e/ou contemplação mística da verdade (Bion, 1975), que surge, como sugere Civitarese a propósito do brincar, como «simulação da simulação» (sic.). Na transformação no brincar, o que se coloca a jogo não é a verdade. Evocando Walter Benjamin, no brincar, tal como no sonho, do que se trata é da possibilidade do impossível, é de colocar em espaço potencial o anelo como verdade que será. E neste sentido, GC mostra-nos que no adulto se brinca com a musicalidade da palavra, com ritmo e melodia, do jogo de metáforas que harmonizam pensamentos distantes, ligando-os em novas significações, e que a força transformadora estará na vitalidade e espontaneidade prazerosas que lhe são inerentes. Fora, portanto, das garras de concretude da consciência.
Desta forma, percebemos que a sincronia emocional permitirá sensações equivalentes à unidade primordial da oralidade, algo corpóreo trazendo a sonoridade da voz junto com a palavra, com o significado, e, assim, proporcionando uma representação de um self com acesso ao prazer.
Notemos agora algumas diferenças no pensamento dos autores, tal como nos surgem nestes dois trabalhos. No que diz respeito à incapacidade de criação da ilusão, AMN centra-se na patologia do paciente, mesmo considerando a intervenção do ambiente via impigment. Em passo dissonante, GC prefere circunscrever o mesmo assunto como uma incapacidade que está a acontecer no aqui e agora e, portanto, a ser reconhecida como um fenómeno do adoecer do próprio encontro analítico. Isto é, do campo bi-pessoal. Não lhe interessa por si só um colapso da rêverie, ou o bloqueio, ou o enactment no analista, ou mesmo a incapacidade de sonhar e produzir derivados narrativos do paciente. É antes sensível à emergência de personagens analíticas (ao como se do brincar, ou ao recurso do filtro onírico «hoje sonhei que…») para extrair informações das oscilações dos estados mentais em ambos os membros do par analítico, e ao como, e o que, deveria estar a acontecer, ou a ser sonhado, no campo pelo par e não está. E daqui, poderemos também derivar para as heterogeneidades entre os dois autores em torno do conceito de trauma.
Podemos ligar a expressão do trauma e o modo como ele se atualiza à construção de significado no encontro analítico. Salientamos a preocupação de GC em distinguir facto histórico e o significado consciente e inconsciente que a narrativa sobre este pode conter dentro de si, durante a sessão. De acordo com Levine (2021), o que eventualmente chamamos de trauma é determinado pela relativa força e equilíbrio da luta para conter, «desintoxicar» e «metabolizar» a experiência
existencial, crua. Assim, importa escutar e acolher como a experiência bruta, nessa luta, não pôde ser transformada em experiência psíquica significativa, pela interrupção de contenção e representação. Mas nestes dois artigos, a questão coloca-se também de outro modo, a saber: como se trabalha, então, o trauma através do brincar?
Vemos com AMN e GC que é pela vivência intersubjetiva do que não foi representado e se encontra desligado das redes de significação, passando a poder fazer parte integrante delas. No entanto, GC é muito sensível à dobra que o Brincar, e o funcionamento simbólico inconsciente, opera na concretude da realidade. Desapegando-se e descolando-se do realismo, suspendendo a suspeita, entregando-se à paradoxalidade, a transformação no Brincar coloca a narrativa do trauma no funcionamento como se típico da mimesis e confere-lhe estatuto de personagem e narrador do aqui e agora da comunicação entre inconscientes.
Neste sentido, para GC a posição analítica de escuta do inconsciente não coincide com escutar o «realismo histórico», nem com a necessidade de reconstruir e «verificar» ou «testemunhar» uma realidade traumática pretérita, por vezes fragmentada. Não estando em causa a realidade da realidade traumática, e preconizando a hospitalidade empática do outro, para GC a indagação sobre o significado inconsciente continua a ser a especificidade da escuta analítica. Assim, a emergência da narrativa do trauma na sessão constitui-se numa personagem do campo analítico como outra qualquer (agressividade, sexualidade, etc.), que informa e dá forma ao vínculo emocional na comunicação inconsciente no campo analítico.
Tomemos agora algum espaço para mostrar outra distinção entre as perspetivas dos autores. Um comentário de ANM, na linha de Winnicott , relembra-nos a «advertência que mesmo o analista pode correr o risco de provocar impingments por meio das suas interpretações, pois existe o perigo potencial que sejam apenas frutos da imaginação do próprio. Mesmo que condizentes com a história ou o funcionamento interno da criança, essas intrusões interpretativas impedem que a criança tenha uma atividade autónoma no processo de brincar» (sic).
Pelo que interpretamos da posição de GC, existe de facto este perigo. Por exemplo, quando GC questiona «como fazemos para saber se o jogo de palavras ou a piada humorística produzem efetivamente um instante de reconhecimento ou antes o contrário? Em absoluto, não o podemos saber. O que, porém, podemos fazer é ser sensíveis às variações do clima emotivo que verificamos nas novas narrativas que chegarão como resultado daquilo que acabamos de dizer: se refletem aspetos de progressão ou regressão» (sic.). É como se GC nos estivesse a dizer: «atenção, o mundo fantasmático do analista decorre também em função da dupla analítica, não funciona desgarrado dos conteúdos que o paciente coloca no campo e no analista, e influenciam-se e reagem mútua e continuamente». Nesta conceptualização, não há, portanto, nem um puro mundo fantasmático do paciente, nem uma pura imaginação do analista. Esta última é consequência do que o paciente ali coloca e deverá ser considerada como uma (in) formação de como se desenrola progressivamente a intersubjetividade. Uma abordagem que parece mimar as investigações de Langs (1978) e Faimberg (1996) na necessidade de escutar e analisar a reação e significação après-coup do paciente à injunção interpretativa do analista e vice-versa, numa perspetiva dialética.
AMN aproxima-se desta perspetiva ao falar da sua leitura do enactment, entendendo que «não estamos diante do erro do analista, mas, sim, da sua ação inconsciente que surge do vínculo no par analítico» (sic), e o quanto a toma como uma leitura que desencadeia mudanças no paciente. Também quando aborda a revolução técnica do espaço potencial e transitivo do brincar em análise afirma que os objetivos do tratamento psicanalítico não consistem em atingir a posição depressiva ou resolver conflitos tornando o inconsciente em consciente, ou mesmo em fazer avançar o processo de subjetivação. Para AMN, o que se torna crucial é a qualidade, o significado e a plenitude da vida do paciente. Neste sentido, para AMN a análise deve aumentar «o alcance e a profundidade dos processos de pensamento inconsciente» (sic), possibilitando um processo que tem muito que ver com o brincar interno, «uma espécie de criatividade pessoal» (sic).
Nesta linha, uma última nota. Diversos autores, seguindo Bion nas «explorações» em O das experiências emocionais no par analítico, por exemplo em Uma Memória do Futuro (Bion, 1991), nos têm alertado para os perigos das interpretações saturadas em suposto saber. O uso do «jargão» na sessão, ou a tentação para, como afirmou Amaral Dias (1996, p. 21), «a denominação de uma coisa chamada inconsciente implica um exercício autoritário, autocrático, da parte de alguém em relação a alguém». Inscrevendo-se nesta herança, GC, considerando que o «brincar também significa desistir da altivez, da seriedade e da arrogância» (sic), deixa-nos algumas palavras dirigidas à formação dos candidatos, brincando de forma séria, e original, com a importância de estes contemplarem o treino de uma forma insaturada de estar e escutar (igualmente a sua própria rêverie) e interpretar não desaprendendo a configuração humana. Ajuda-nos, assim, a ter psicanalistas mais criativos e genuínos, mais hospitaleiros da subjetividade do outro e da presença criativa desse Outro, o inconsciente.