Com os primórdios da fundação da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), surgiu a necessidade de construir um espaço de reflexão, de questionamento e de divulgação do pensamento analítico, que começava assim a emergir das elaborações psíquicas inspiradas na experiência clínica dos psicanalistas. Desta forma, na pequena comunidade analítica de então, nasceu o desejo de criar uma revista de psicanálise de forma a conceptualizar, partilhar e expandir, através da escrita, as diferentes experiências psíquicas vividas na dinâmica do par analítico. Com a criação dessa revista — The International Journal of Psychoanalysis (IJP) —, surgiu um espaço privilegiado para representar e divulgar, através de artigos, as elaborações psíquicas que surgiam na relação psicanalítica. Passados cem anos, após a divulgação deste jornal, constatamos que quase todas as sociedades psicanalíticas tiveram necessidade de criar um espaço próprio de divulgação, de forma que se partilhem com a comunidade científica os diferentes modelos teóricos e as variadas formas de pensar e viver a relação do campo analítico. Na verdade, a experiência mostra-nos que, ao longo do processo psicanalítico, o analista precisa, através da escrita, de encontrar formas de representar afetos inomináveis que circulam na dinâmica da relação entre paciente e psicanalista. Mas como descrever esses sentimentos irrepresentáveis que surgem no espaço psíquico e que, por vezes, se configuram como uma sombra invisível que ataca o elo da relação e tenta desfazer o campo analítico? É na sessão, através da elaboração da nossa prática psicanalítica, que é possível encontrar um espaço de relação, como sublinhava Bion (1974): «onde verdadeiramente se pode ler as pessoas» (p. 64); acrescentando ainda que não é na leitura dos livros que temos essa possibilidade. Desta forma, como anteriormente assinalámos, «a escrita analítica não é fácil e pressupõe que o analista esteja disponível para contactar com o inacessível que se esconde atrás duma palavra, uma recordação, uma música ou um silêncio» (Alexandre, 2020, p.14). Assim, «para escrever sobre psicanálise é necessário contactarmos com o negativo, de forma que se faça todo um caminho para chegar ao representável» (Alexandre, 2020, p.14). Desta forma, o processo criativo da escrita psicanalítica, como salienta Ogden (2005), tem uma função transformadora, inscrevendo-se, segundo ele, num género literário que permite transformar afetos e sentimentos em palavras escritas.
Ao falarmos da escrita analítica, surgem, naturalmente, diferentes interrogações que não são fáceis de responder. Como representar as constantes transformações e mudanças vividas na relação de campo da dupla analítica? Levine, no admirável texto preparado para este debate, sublinha: «o próprio objecto da investigação […] assenta nas coisas que podem ser sentidas, mas não conhecidas empiricamente pelos nossos sentidos e, certamente, não são totalmente possíveis de serem representadas pela linguagem». Neste sentido, Bion (1965) mostrou repetidamente que a experiência emocional realmente existe, mesmo que tenhamos poucas
Psicóloga Clínica e da Saúde, Psicoterapeuta e Psicanalista. Psicanalista de Crianças, Adolescentes e Adultos e Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail:
palavras para a descrever corretamente. Desta forma, a escrita pode ser invadida por um jogo de projeções que paralisam a mente e que impedem o desenvolvimento do processo criativo. Mas a escrita, como muitos analistas têm assinalado, surge como uma forma de figurabilizar o desconhecido, transformando assim as impressões sensoriais e as emoções em elementos alfa, e possibilitando desta forma a passagem e a transformação dos pensamentos oníricos num processo criativo. Deste modo, a escrita analítica tem como objeto de estudo, tal como o sonho, o espaço psíquico que se constrói a partir de duas mentes que se entrecruzam, condensando e figurabilizando as diferentes qualidades da relação. E é nesse espaço — campo dinâmico — que tudo ocorre — desde a incerteza, a efemeridade e a incompletude —, mas, também onde se entrecruzam as palavras escritas para nomear o sonho que surge das experiências emocionais da dupla analítica. Freud (1915) sublinhava que, sob o ponto de vista psicológico, ouvir e experimentar algo são duas coisas diferentes. É essa experiência interna, vivida na relação analítica, que tentamos narrar, para a partilhar com a comunidade psicanalítica.
A escrita psicanalítica torna-se, assim, num instrumento de trabalho valioso para a formação de todos os analistas. Tentamos representar a qualidade dos elos que unem as diferentes experiências internas vividas na dinâmica da relação. Mas como todo o processo criativo — em que o irrepresentável se transforma no representável —, o espaço da escrita é invadido por dúvidas, medos, angústias e desistências. Escrever é um processo penoso: exige a construção de um espaço agregador que possa conter as diferentes ideias a propósito do tema que nos propomos trabalhar. A escrita psicanalítica, como um processo criativo, envolve interrogações que oscilam entre a função de agregar as diversas ideias, mas também envolve interrogações que podem convocar dor psíquica, assim como frustração e solidão (Bion, 1965).