O pensamento psicanalítico, filiando-se em Freud, Melanie Klein e Bion, desenvolve-se integrando os conceitos da bilógica na estrutura do edifício psicanalítico. A conceção do inconsciente e a descoberta das características do sistema inconsciente são a mais criativa e fundamental formulação do pensamento freudiano, com profundas implicações para a psicanálise e outros saberes. Do «Reino do Ilógico», leis e princípios matemáticos permitem construir um modelo de leitura do inconsciente — a bilógica. As leis dos processos inconscientes, atribuindo-lhe lógicas, permitem situá-lo no multidimensional, proporcionando leitura, diálogo e uma prática mais clara da psicanálise. A palavra não é o único elemento da interpretação. Comunicamos, em níveis mais profundos, próximos da essência do Ser. O artigo, no contexto acima descrito, abordará um resumo das ideias fundamentais da bilógica, a influência no pensamento psicanalítico contemporâneo e as suas implicações clínicas.
Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens.
Encontrei-me com a obra de Ignacio Matte Blanco porque procurava a unidade do que estava disperso, e o disperso que estava na unidade. Foi o encontro com uma nova epistemologia. A lógica clássica aristotélica coexiste com outras lógicas, tão científicas como esta. Foram e são caminhos de entendimentos da natureza humana. Partindo da minha experiência no Hospital Miguel Bombarda (HMB), e estudando a obra de Matte Blanco — psicanalista e matemático —, fui procurando sentidos para essas diversas falas.
Matte Blanco ousou sonhar um ponto de união entre as várias escolas teóricas que estudavam e desenvolviam o pensamento psicanalítico, ao mesmo tempo que estabelecia ruturas que considerava lesivas para o pensamento e para a clínica psicanalítica. O autor mantinha viva a esperança de fusão das várias escolas, afastando a exclusão de analistas por analistas. Contudo, a esperança inicial de unir as diferentes escolas psicanalíticas continuou uma utopia, cuja essência encerra o trabalho nunca concluído.
O autor é considerado um herdeiro de Freud e de Melanie Klein. Mantinha uma relação constante com Bion, estabelecendo um diálogo profícuo com as suas conceções teóricas — no sentido de as integrar ou de as clarificar. Em 1981, publica na Revista Chilena de Psicoanálisis «Reflexionando com Bion», em memória do autor. Neste artigo, desenvolve 80 conceitos, tantos quanto a idade deste quando morreu. Como refere, a sua esperança era a que: «tal como nesta peregrinação Bion brilhou para mim, espero que as minhas reflexões sejam úteis para ajudar outros a concentrarem-se em algum do seu esplendor» (1981, pp. 8–9).
Artigo escrito a partir do trabalho apresentado para obtenção do título de Psicanalista Titular na Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).
Manuela Harthley é matemática e psicanalista titular da Socidade Portuguesa de Psicanalise (SPP), da Associação Psicanílita Internacional (IPA) e da European Psychoanalytical Federation (EPF). É presidente da Comissão de Ética da SPP.
Para Bion, o processo psicanalítico consiste muitas vezes em diferenciar o diferenciável, outras em diferenciar o que parece indiferenciável, outras ainda em mergulhar nas zonas mais profundas do Ser Humano, prescindindo da palavra como relação primeira e única do processo psicanalítico. Passado e futuro fundem-se, por vezes, um no outro. Daí que Bion, querendo transmitir o já vivido, escreveu brilhantemente a obra Uma Memória do Futuro (1990).
Matte Blanco vai então abordar e desenvolver estas novas lógicas, fazendo uso de princípios matemáticos que se aplicam ao consciente e/ou ao inconsciente, permitindo-lhe aprofundar esse Reino do Ilógico. Também Freud intuiu que o inconsciente é permeado por outras regras, e escreveu: «as regras que regem a lógica não se aplicam no inconsciente; este pode ser chamado de Reino do Ilógico» (1938/1959, pp. 168–169).
Hoje, através das teorizações de Matte Blanco, sabemos que o inconsciente é o desconhecido que habita o Ser Humano. O autor retorna a psicanálise à descoberta fundamental de Freud — o inconsciente e a sua complexidade —, refazendo uma linha de continuidade no pensamento psicanalítico.
Matte Blanco toma como referência a lógica aristotélica e a sua posterior formulação matemática no século XX, postulando a existência de «outras lógicas» que permitam uma compreensão mais adequada dos processos psicológicos e psicopatológicos. Essas «outras lógicas», cujas leis vai definindo, permitem-lhe a identificação de estruturas e modos de funcionamento. Nesse novo enquadramento, aprofunda a compreensão dinâmica dos processos mentais em paralelo com a lógica aristotélica que continua a ser, ainda hoje, um referente fundamental do discurso científico. A ideia do inconsciente é, no entanto, a ideia central na teoria psicanalítica.
Como afirma Viviane Sprinz Mondrzak (2004), consciente e inconsciente são formas de funcionamento e não estados mentais. À bilógica, apenas estão associadas duas hipóteses sobre o valor lógico de uma proposição — podendo estas ser verdadeiras ou falsas. Estas têm como suporte dois princípios fundamentais: o Princípio da Não Contradição e o Princípio do Terceiro Excluído. Contudo, surgem manifestações não consentâneas com esta lógica bivalente, tanto no plano normal, como no psicopatológico.
No discurso e no raciocínio do senso comum, surgem várias manifestações da não utilização dos princípios lógicos, concordantes com o discurso científico. No entanto, é o discurso psicopatológico que pode ser tomado como paradigmático deste «não respeito» pelos dois princípios. A questão que Matte Blanco coloca é a da possibilidade de formalização de outros princípios lógicos, já intuídos por Freud, que possam ser suporte de outro nível de discurso, contraponto à desordem (felizmente) introduzida pelo não respeito das leis da lógica bivalente.
A bilógica é ainda uma lógica — uma outra lógica — diretamente relacionada com o inconsciente, à qual presidem mais dois princípios, além do terceiro excluído e da não contradição: o Princípio da Generalização; o Princípio da Simetria; e os seus corolários. São estes princípios que regem o pensamento do sistema inconsciente. Nesse sentido, podemos falar da existência da interação destes princípios no sistema inconsciente, podendo estar implicado apenas um deles, ou ambos ao mesmo tempo. Ambos completam a conceptualização matemática inerente à bilógica. Não tendo nós identificado qual ou quais os princípios que estiveram associados ao discurso, ficamos impedidos de o compreender.
Os corolários do Princípio da Generalização ficam na classe geral das propriedades que se relacionam com a característica individual de que partiram. Já os corolários do Princípio da Simetria, que encontramos na prática clínica quotidiana em casos da retroação do delírio na cronologia dos acontecimentos, são a justificativa para o psicótico do encadeamento a que se antepropõe.
Quando o Princípio da Simetria é aplicado, a parte é idêntica ao todo. Todos os membros de uma classe são tratados como idênticos aos de outra classe — que podem ser de ordem superior — e podem assim assumir as características comuns e não comuns das outras classes, contra a lógica aristotélica. Cada membro de uma classe exprime as características da classe, através das quais os elementos se assemelham, mas também se diferenciam dos da outra classe. À luz desta lógica, estar vivo e não estar vivo podem ser consideradas possibilidades que dizem respeito à vida. Então, estar vivo pode ser considerado idêntico a estar morto, sendo esse estar morto uma possibilidade que diz respeito à vida.
Vejamos um exemplo. Quando João (30 anos) foi internado no HMB, afirmava, literalmente, estar morto; aliás, não só afirmava estar morto, como se considerava responsável por todas as mortes ocasionais à sua volta — as que via na televisão do bar ou as que surgiam nas histórias ficcionais do grupo de leitura do hospital. João contou que foi num certo dia, após a leitura do livro Morte de Mim — que o inquietou profundamente —, que se deu a morte de si mesmo. Finalizado o livro, decidiu livrar-se dele, queimando-o.
A qualidade de estar vivo e a qualidade de não estar vivo estão ambas presentes em João, um vivo que acha que está morto, um vivo/não vivo. Quando o Princípio da Simetria é aplicado, não
pode haver relação de contiguidade entre as partes e o todo: é a ausência de espaço no sentido físico-matemático, ausência de espaço e de tempo. Não aceitar que existe um nível no ser humano no qual uma afirmação e o seu contrário são idênticas implica que se pode aceitar que existe um nível no qual estar vivo ou estar morto é igual; que as imagens paternas são sentidas ao mesmo tempo como boas e extremamente más, ou seja, que o bom e o mau podem coexistir ao mesmo tempo na mesma pessoa.
Esta lógica que usa apenas o Princípio da Generalização e da Simetria, na sua interligação, não conhece a diferença entre uma coisa e uma outra coisa; o ser e o não ser. Esta é a lógica simétrica que serve de suporte ao pensamento simétrico (PS), referido também como homogéneo ou indivisível. A lógica aristotélica serve de suporte ao pensamento assimétrico (PA), referido também como heterogéneo ou divisível. É esta bilógica que permite, a vários autores, um novo olhar sobre o inconsciente de Freud e vários outros processos mentais subjacentes às teorias psicanalíticas. A partir desta nova perspetiva, podemos redefinir o conceito de infinito, como veremos mais à frente.
Matte Blanco refere que a obra sobre o inconsciente freudiano contém implicitamente o conceito de estrutura bilógica (embora ainda ninguém o tenha formulado), e inclui a antinomia fundamental. Grotstein (1994) referiu que os psicanalistas, entendendo a bilógica como um contributo importante para o seu pensamento, vão avançando e integrando esses dois modos de ser: homogéneo ou indivisível; e heterogéneo ou divisível.
A regressão pode ser vista como um estado arcaico, que pode ser correlacionado com o conceito de modo indivisível de Ser de Matte Blanco; um estado de absoluta simetria que, possivelmente, constitui a essência da confusão psicótica, na qual não existe distinção ou separação do Ser ou Não-Ser. Parafraseado Sanchez Cardenas (2011), podemos afirmar que, para Matte Blanco, a divisão fundamental que existe na mente não é o que separa o consciente do inconsciente, mas o que separa o modo simétrico do modo assimétrico.
Nas palavras de Matte Blanco: «Assim sendo, podemos afirmar que existe uma antinomia fundamental em muitas estruturas dos seres humanos, que manifestam a copresença dos dois modos de ser. Sendo aparentemente incompatíveis um com o outro, aparecem, contudo, em conjunto no mesmo sujeito. Isto é incompreensível para um pensamento dito normal» (1988, p. 70). Adquiridos os princípios fundamentais que sustentam esta nova lógica, o conceito do infinito é redefinido: «O conceito de infinito é a expressão dos esforços desesperados do modo heterogénico e da sua lógica para tentar compreender o indivisível» (1988, p. 96).
Existem, contudo, níveis no inconsciente, em que os princípios da lógica aristotélica são respeitados. Por exemplo, níveis lógicos diferentes, em que quando se dá a emergência do pensamento simétrico, todo o pensamento lógico parece desaparecer, e novamente a lógica bivalente tenta impor-se, estabelecendo uma ordem mais consentânea com o domínio intelectual, com a ordem dita «legal». Podemos, nesse sentido, considerar um confronto de lógicas. Por um lado, a lógica simétrica que exerce sempre pressão para se exprimir, ou seja, o vivido do inconsciente. Por outro, a lógica bivalente que rege outra parte do Ser Humano e que anula a pressão sempre que pode, ou seja, o inconsciente.
Dito de outra forma, podemos observar uma bilógica, no sentido em que quer a lógica simétrica, quer a lógica bivalente estão presentes num grande número de manifestações do Ser Humano, interpretando-se os dois sistemas para lá do logos. Existem, não obstante, estruturas que aparentam um modo de funcionamento que não pode ser considerado assimétrico, isto é, divisível. Ambos os modos de ser estão presentes, em simultâneo. É uma lógica que é mais ampla do que a bilógica, no sentido em que engloba as duas anteriores, mas contém algo mais do que esta.
Esta lógica está intimamente ligada ao conceito matemático de infinito, permitindo-nos a «Psicanálise bimodal chegar até ao âmago da matemática». Os exemplos do tipo «lógico bimodal» podem surgir da análise das grandes histórias de amor, como as que surgem na literatura, nomeadamente em Amor de Perdição, Romeu e Julieta, Heloísa e Abelardo, ou Tristão e Isolda. De um lado, o ser que sabe e conhece a realidade amorosa, divisível, por isso tendo consciência de que a «erosão» da relação interpessoal criaria obrigatoriamente um fim ao estado de paixão figurado — por exemplo, em Romeu e Julieta. Por outro lado, para que esse estado se mantenha possível e indivisível, é preciso matar os amantes enquanto se amam absolutamente, mantendo-os assim eternamente unidos e, portanto, «bimodalmente» juntos.
Assim, no imaginário do leitor, Romeu e Julieta são simultaneamente os que estão sempre unidos, mas também aqueles que «sabem» que se vivessem estariam separados. Daí a verdade estranha da afirmação: «Morrem cedo os que amam», ou ainda o enigma da frase de Herberto Helder (1981): «quem ama é sempre cedo para o tempo». O cedo manteria o indivisível, o tempo manteria o divisível.
Sendo o Ser Humano um todo, do qual fazem parte os dois modos de ser — modo de ser simétrico e modo de ser assimétrico; inconsciente e consciente —, é possível pensar que existirá uma lógica que presidirá a um sistema mais vasto, reconhecendo as diferentes lógicas como fazendo parte dessa outra lógica: a superlógica.
A intuição de Freud sobre essas outras lógicas que regem o inconsciente é manifesta. Freud aborda mais detalhadamente esta questão em A Interpretação dos Sonhos (1900/1959). O domínio do inconsciente ainda só é acessível, essencialmente, através do mundo do sonho, do pensamento infantil, dos atos falhados, da psicopatologia da vida quotidiana. Como refere, «as leis que presidem à lógica não prevalecem no inconsciente, este deve ser chamado “O Reino do Ilógico”» (1938/1959, pp. 168–1969); ou, noutra passagem: «pensamos que os processos no inconsciente ou id obedecem a leis diferentes das que estão presentes no ego pré-consciente. Chamaremos essas leis na sua totalidade de processo primário, em contraste com o processo secundário que governa o curso dos acontecimentos no pré-consciente e no ego» (1938/1959, p. 164).
Matte Blanco, a partir da resposta à questão que coloca: «Porque é que o inconsciente é inconsciente?», vai desenvolver uma outra perspetiva, que lhe surge como fulcral, dos conceitos psicanalíticos: da emoção, do sonho, da regressão, da identificação projetiva, do instinto de morte. Define ainda novos conceitos — como pensativar, matriz básica, estruturas vitais e estruturas não vitais, —, deixando o campo de pesquisa aberto para novas conceptualizações, novas perspetivas e inúmeras possibilidades de investigação futura.
Relativamente ao inconsciente reprimido, o autor afirma que não é consciente apenas porque existe uma proibição, pois logo que desapareça o interdito, torna-se consciente. Mas o inconsciente não reprimido não pode tornar-se consciente devido à sua própria natureza. Sobre esse inconsciente, diz-nos: «Agora, quero pôr em evidência uma explicação possível, em termos de dimensões espaciais, para a impossibilidade de acesso à consciência, como é o caso do inconsciente não reprimido» (Matte Blanco, 1988, p. 87).
Nesta perspetiva, é a multidimensionalidade do inconsciente que não tem forma de expansão através de uma comunicação tridimensional. Por outras palavras: «Não será porque o inconsciente lida com um número de dimensões maior do que aquelas com as quais o nosso consciente pode lidar? Não poderia ser que, se fôssemos capazes de pensar em termos de maiores dimensionalidades, tudo o que é desconhecido do inconsciente poderia facilmente entrar na nossa consciência e ter uma lógica própria?» (Matte Blanco, 1988, p. 90). O autor conclui que é pelo facto de as nossas perspetivas — o nosso pensamento consciente — serem estruturas multidimensionais que não somos capazes de nos tornar conscientes, daí que o inconsciente seja inconsciente para nós. Podemos assim afirmar que a intervenção psicanalítica vai além da palavra, comunicando entre si as multidimensionalidades do analista e do analisando. Assim, essa comunicação de inconsciente a inconsciente anuncia ainda uma potencialidade de um outro consciente. Cada novo futuro prenuncia infinitas lógicas. São estas perspetivas que nos permitem prever o indivisível, ou seja, ir da simetria à assimetria pela simetria.
As cinco características do sistema inconsciente descrito por Freud em O Inconsciente (1915/1959) são: (1) ausência de contradição e negação mútua; (2) deslocamento; (3) condensação; (4) ausência de tempo; (5) substituição da realidade externa pela realidade interna.
Todas estas características podem ser abordadas à luz da bilógica, ou seja, aplicando os Princípios da Generalização e da Simetria e os seus corolários. Nesse sentido, podemos estabelecer uma outra extensão e compreensão dessas características. Matte Blanco propõe, precisamente, uma nova leitura de oito características do sistema inconsciente a partir de A Interpretação dos Sonhos : (1) a copresença de elementos contraditórios; (2) a alternância entre ausência e presença de sucessão temporal; (3) as conexões lógicas reproduzidas como simultâneas; (4) a causalidade como sucessão; (5) a equivalência de identidade e a conjunção de alternativas; (6) a semelhança; (7) a copresença, nos sonhos, de pensar e não pensar; (8) e a profunda desorganização da estrutura de pensar.
Nestas oito características propostas por Matte Blanco, podemos afirmar que, por um lado, a simetrização impera, no sentido em que o princípio da simetria se impõe, e o pensamento e a consciência desaparecem; por outro lado, no seu todo, estas características são uma conjugação das cinco propostas por Freud.
As treze características — propostas por Freud e Matte Blanco, respetivamente — têm em comum uma característica fundamental: a unificação de coisas que são para o pensamento comum distintas e separadas. Enquanto o pensamento habitualmente trabalha no sentido de distinguir as coisas, o inconsciente tende a unificar e a justificar tudo.
Os processos de pensar têm uma determinada estrutura — são conjuntos que se formam através das inter-relações das suas componentes. As estruturas bilógicas estão presentes em todas as formas de conceber e viver diferentes aspetos da vida humana: na religião, na arte, na política, e até na ciência; assim como nos diferentes enfoques psicanalíticos. Às vezes, podemos viver o mundo como uma unidade indivisível, na qual a pessoa e as coisas são tomadas como iguais; outras vezes — mais frequentemente —, pensamos em termos de bilógica; e algumas vezes ainda, pensamos em termos de lógica clássica.
Assim, podemos distinguir três tipos diferentes de estruturas bilógicas: Alassi — alternância entre pensamento assimétrico e simétrico; Simassi — simultaneamente pensamento assimétrico e simétrico; Tridim — estrutura bilógica tridimensionalizada. As estruturas bilógicas estratificadas correspondem a diferentes níveis de assimetria. Os tipos de estruturas bilógicas são definidos em função das modalidades de interação entre a lógica simétrica (com vários níveis de simetrização) e a lógica clássica.
As novas ideias, pensamentos e sentimentos acerca das pessoas e das coisas, assim como as suas relações, significam diferentes coisas para nós, em conformidade com os estratos da nossa mente, diretamente relacionados com o grau de simetrização que utilizamos. Matte Blanco considera que podem ser feitas relações nos cinco estratos, no desenvolvimento normal, mas que se mantém um nível razoavelmente distinto.
As propriedades que presidem a essas relações entre os estratos são: cada estrato é distinto dos anteriores e dos seguintes; o que ocorre num estrato não ocorre no que está acima ou no que está abaixo; cada estrato está presente de uma forma misteriosa em cada um dos estratos que estão próximos da superfície, contudo, estes estão presentes de uma forma invisível, não interferindo nas características do estrato que está a ser manifestado.
Assim, podemos dizer que embora aparentemente contraditórias, estas propriedades não o são na realidade, pois «o indivisível está misteriosamente presente nas profundidades de cada um, embora coberto por uma aparente superfície de assimetria» (Matte Blanco, 1988, p. 55).
As estruturas bilógicas estratificadas podem apresentar vários estratos articulados em níveis. O primeiro nível é o da perceção e do pensamento bem delimitado e perfeitamente assimétrico. Neste nível, existe a conceção de uma coisa concreta e bem delimitada — pessoa, objeto material — ou de um conceito abstrato, tal como o conceito de liberdade do desejo. O segundo nível é um nível também consciente, mas em que o sujeito pode explorar as relações entre o objeto concreto e outros, encontrando as suas semelhanças e as suas diferenças; isto é, pode situar o objeto na classe de equivalência a que pertence e saber às que não pertence. Assim, o objeto é situado em função da sua posição relativa a inúmeros outros objetos.
O primeiro estrato diz respeito à lógica do pensamento científico, isto é, a lógica aristotélica. O segundo estrato corresponde a emoções mais ou menos conscientes. As emoções manifestam-se de forma visível pela primeira vez, e apesar de as emoções serem estruturas bilógicas e assim aparecer a possibilidade de simetrização, esta está delimitada no nível consciente — uma pessoa pode dizer que A é como um lobo, mas a pessoa normal sabe que A não é um lobo, é uma pessoa. O terceiro estrato — estrato profundo — corresponde à simetrização da classe. É o estrato em que o princípio da simetria aparece com grande frequência, imperando os aspetos que conduzem à simetrização descrita acima. Adquiridas estas características, cada indivíduo é tomado como a classe, podendo adquirir as suas potencialidades e características.
Esta estrutura estratificada é diferente das estruturas anteriores, porque permite compreender a totalidade da vida psíquica humana: parte da pura lógica clássica até ao limite, em que é una e indivisível. Nesta, encontramos todas as estruturas anteriores, em menor ou maior grau. É constitutiva dos seres humanos, porque é um aspeto inevitável e essencial da vida psíquica humana; pode ter o valor zero, pois o ser humano não conhece a simetria e/ou a assimetria total.
Podemos dizer então que os estratos podem ser lidos em função do seu maior ou menor grau de simetria/assimetria. Por vezes, é possível fazermos a distinção, e outras vezes recorrer à indiferenciação entre os objetos, sendo, no entanto, acessível o reconhecimento da lógica simétrica através de métodos adequados.
Matte Blanco vai definir ainda, como vimos, os conceitos de pensativar, matriz básica e estruturas vitais e estruturas não vitais. Pensativar é pensar o modo indivisível de ser — embora saibamos, por outro lado, que este é suposto não poder ser pensado. Contudo, como a ausência de contradição está presente na bilógica e no inconsciente, é o acesso à multidimensionalidade que permite pensativar. A emoção é o inconsciente, uma vez que para muitos a emoção é isomórfica do inconsciente, tendo propriedades iguais, embora sendo diferente. Pensativar é da mesma categoria isomórfica, mas nada que não esteja presente no sonho, tendo em maior ou menor grau processos alheios ao pensamento. O sonho sonhado jamais pode ser o sonho narrado.
A matriz básica é o lugar em que a simetrização exerce a maior influência, e é a região do inconsciente profundo. Assim, introjeção e projeção deixam de ter qualquer diferença, devido às características do inconsciente. Apenas se vai distinguindo quando vão sendo introduzidos diversos graus de assimetrização. Para Matte Blanco, no início da vida, nos níveis mais profundos, é a paz que reina.
As estruturas não vitais são aquelas que põem obstáculos enormes à vida, mas que se pretendem transformar, pela análise, em estruturas vitais que são isomórficas. Uma está ao serviço da não vida, a outra está ao serviço da vida. No entanto, o modo indivisível de ser parece ser a base de tudo, a melodia indivisível que está nas pautas da emoção. Assim, o infinito é a manifestação do esforço
desesperado que o modo heterogéneo do ser usa para tentar compreender o indivisível.
Susana (34 anos) é professora universitária doutorada. Numa sessão, relatou-me um sonho:
«Estou numa casa com um cão que se chama Cão Life [tinha mencionado antes na sessão que a mãe dela arranjou um cão há poucos dias, e ela, Susana, só tinha tido um cão quando era adolescente]. A certa altura, aparece um outro cão, também meu, e começam a aparecer cães de várias outras pessoas. O meu Cão Life ficava muito agitado com os cães das outras pessoas… Eu pedia para os levarem dali, mas parecia que ninguém me ouvia, e aparecia sempre outro cão. Quando saio de casa, o A. estava num descapotável—– com um design que parecia saído de um filme. Veio buscar-me… mas estavam no carro várias raparigas, alunas, mas eu fui à frente ao lado dele. Continuo, de carro, mas há qualquer coisa que me preocupa, faltava-me alguma coisa.
«Depois, entrei com uma amiga numa sala de aula de antigos alunos de japonês, e não sabia o que estava ali a fazer. Quero sair dali, mas aparece um hipopótamo e um crocodilo, e a minha amiga diz-me assim: “não podes passar”. Penso que vou chegar atrasada à análise pois faltam apenas cinco minutos para a sessão começar.»
Faz uma pausa e depois diz: «acordo preocupada com a hora da sessão, mas afinal não estava atrasada, pois a sessão era às 10h00 e não à hora que aparecia no sonho». E então, analisa com convicção: «Eu estou é atrasada para ter filhos, pois já tenho esta idade e não tenho um namorado com quem tenha uma relação afetiva para poder ter filhos. Já sabe que eu só quero ter filhos se tiver um homem com quem tenha uma relação amorosa.»
Eu digo-lhe: «Parece que no sonho tem muitos filhos cães, nem todos desejados.» Susana permanece agitada e fala-me da possibilidade de ter namorados e pretendentes que não quer; e os que não tem porque não lhe revelo o segredo de os ter. Como se quisesse que fosse eu a expulsar os outros indesejados na sua vida, para dar lugar à entrada daqueles que deseja ter. Parece julgar que eu tenho uma linguagem que não lhe revelo, um conhecimento que não partilho consigo — como um segredo acerca de como ter um namorado com o qual ter filhos —, e responsabiliza-me por isso.
A Susana diz-me que a sala de japonês é o que ela às vezes ainda não compreende na análise. Diz-me também que marcou encontro para essa semana com um professor universitário, e para a semana seguinte, com um engenheiro — os dois um pouco mais velhos do que ela. Eu digo-lhe: «Parece que afinal os monstros interiores que não a deixam viver a vida — o hipopótamo e o crocodilo — se transformam em dois homens, com quem vai sair, e não estão todos cheios de filhos de namoradas.» A Susana diz-me: «Será que finalmente posso estabelecer uma relação afetiva? Espero não chegar atrasada para ter filhos.»
Tal como refere Salgueiro (1991): «Esta estrutura Tridim, observada frequentemente nos sonhos, procura dar uma forma tridimensional a acontecimentos psíquicos possuidores de um número maior de dimensões que só podem ser representados por uma multiplicação dos elementos constitutivos, que surgem sob várias formas» (p. 10). O sonho narrado jamais será o sonho sonhado.
O sonho sonhado no reino da multidimensionalidade fica com a palavra atraiçoada. Para pensar o sonho, seria necessário podermos «pensar o modo indivisível» de Ser, mas este é alheio ao nosso pensamento. É precisamente o que Matte Blanco designa de pensativar: «O sonho revela em maior ou menor grau de pureza um modo que é estranho ao pensamento, mas também implica o pensamento. Por outras palavras, o sonho é de natureza bilógica» (Matte Blanco, 1988, p. 261).
O nosso primeiro olhar para o sonho não tem significado ao seu dispor para representar estas relações lógicas entre sonhos e pensamentos. Contudo, a ausência de relações não se encontra sempre presente no sonho, ou seja, umas vezes as cadeias associativas são simétricas e outras vezes são assimétricas.
Eu, psicanalista, sou sensível às minhas próprias intuições inconscientes, espontâneas; compreendo-as a partir desse lugar, com lógicas conhecidas, mas ainda do lugar do desconhecido, pondo-as ao serviço da comunicação com o paciente, na hora e no lugar certo. Sei que devo abdicar, no trabalho analítico do paciente, de tudo aquilo que ele sente que lhe é útil para que a interpretação seja o resultado de um processo de pensamento que passa da «simetria à assimetria através da simetria». Por outras palavras, que parte do lugar onde tudo é idêntico introduzindo a diferenciação através das similitudes do inconsciente do analista e do analisando.
O analista só interpreta efetivamente se o analisando passar a poder usar a sua capacidade de colocar o psicanalista fora da área dos fenómenos da subjetividade humana. Só o paciente tem as respostas, conhecendo os limites da compreensão do analista. Dessa forma, o paciente adquire a capacidade de se reconhecer e se construir a si próprio criativamente.
Portanto, a contradição entre o analista que é suposto interpretar e o analista que abdica da sua necessidade de interpretar é aparente: à luz da bilógica entrelaçada entre a lógica aristotélica e não aristotélica, a contradição não existe.
Eu coloco-me como analista, sabendo que ser Psicanalista, tal como Ser Humano, já não é apenas
o domínio da palavra. É antes a possibilidade de irmos cada vez mais longe, aos lugares profundos do nosso ser: lugares que não se comunicam por palavras, mas que são também o lugar fundamental de onde o psicanalista comunica com o analisando sem o fanatismo interpretativo. A comunicação através da sua multidimensionalidade é ainda, e muitas vezes, de inconsciente a inconsciente.
O analista só pode constituir-se como analista no lugar de construção de identidade, em contacto com a homogeneidade original, tendo assim a esperança de ter acesso aos seus próprios colapsos, geridos pelas angústias primitivas, e tendo a possibilidade de saber que não sabe. Apenas a verdade de uma experiência emocional entre analista e analisando, a nível inconsciente, pode permitir as transformações psíquicas para a construção do sujeito.
ABSTRACT
Psychoanalytic thought, affiliated with Freud, Melanie Klein and Bion, develops by integrating the concepts of bi-logic into the structure of the psychoanalytic edifice. The conception of the unconscious, the discovery of the characteristics of the unconscious system, is the most creative and fundamental discovery of Freudian thought, with profound implications for psychoanalysis and other fields of knowledge. From the “Realm of the Illogical”, mathematical laws and principles allow the construction of a model for reading the unconscious — the bi-logic. The laws of unconscious processes, attributing logic to it, allow us to place it in the realm of the multidimensional, providing a better reading, a more precise dialogue, and a clearer practice of psychoanalysis. Language is not the only element of interpretation. We communicate, at deeper levels, closer to the essence of Being. The article, in the aforementioned context, will provide a summary of the fundamental ideas of bi-logic; its influence on contemporary psychoanalytic thought and its clinical implications.
KEYWORDS: bi-logic, strata, unconscious, symmetry.