Neste artigo, propõe-se uma viagem através da conceção da memória no percurso da história da psicanálise, sugerindo-se três momentos concetivos: o primeiro, saído da influência das ciências naturais, representado na passagem do modelo neuropsicológico ao psicanalítico, com a descoberta do traço mnésico e de uma teoria económica, com o conceito de «memória-lembrança»; o segundo, resultante do estudo da histeria, da descoberta da fantasia e do abandono da teoria do trauma, das lembranças encobridoras e de amnésia infantil, com o conceito de «memória-reconstrução»; e o terceiro, representado pela descoberta da precocidade psíquica presente desde o nascimento, da identificação projetiva, da phantasia inconsciente e do realismo que a caracteriza, com o conceito de «memória-integração», da qual faz parte integrante o conceito de «sonho-como-memória». Serão discutidas importantes implicações na técnica operada por esta evolução na conceção da memória, nomeadamente as do uso da transferência e da contratransferência, da abordagem das patologias do recalcamento às da clivagem, da neurose à psicose, do adulto à criança. Três vinhetas, de uma criança, de um pré-adolescente e de um adulto, ilustram a exposição.
A conceção da memória e do seu lugar na análise tem conhecido uma considerável evolução, acompanhando as mudanças operadas no modelo psicanalítico: partindo da hipnose, da sugestão, de um modelo baseado na transferência, da empatia a partir de um observador externo, evoluiu para um modelo apoiado na transferência-contratransferência, de empatia relacional, entre duas pessoas. Estas transformações convocam-nos a um questionamento, quer dos processos pelos quais se alcança a reconstrução da memória, quer do valor que essa reconstrução significa para a cura.
O reconhecimento do papel da memória na cura, enquanto processo reconstrutivo-construtivo-integrativo, foi desde a fundação da psicanálise um aspeto decisivo: tornar pré-consciente ou consciente o inconsciente, ou, mais tarde, na segunda tópica, o domínio do ego das tendências ditatoriais do superego e das inclinações antissociais do Id (Freud, 1940/1996). Alcançar a construção de uma anamnese compreensiva e pessoal, que corresponde à própria história do sujeito, representa um resultado esperado do percurso, bem como um sinal de sucesso inatingível sem a comparticipação da memória.
Na investigação analítica, a reconstrução histórica tem vindo a procurar cada vez mais a montante do início da vida as origens do sofrimento psíquico. Referimos os traumas precocíssimos, neonatais, in utero e de transmissão transgeracional (Golse, 2007). Os sinais desse sofrimento precoce, o qual entra na relação analítica na maioria das vezes pelos canais inacessíveis à verbalização, vão ao encontro do analista para serem contidos, significados e devolvidos de forma «nutritiva» para
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta, Psicanalista e escritora, Formadora na Sociedade Portuguesa de Psicanálise, Titular, Formadora e Supervisora na SPPC, tem colaboração regular nas atividades científicas da SEPEA (Société Européenne pour la Psychanalyse de l'Enfant et de l'Adolescent), membro IPA (International Psychoanalytical Association), FEP (Fédération Européenne de Psychanalyse). E-mail:
o processo analítico. Nestas circunstâncias, em que falha o verbo, o vivido pelo par analítico representa a via de eleição para a reconstrução da memória suprimida e ausente.
No entanto, nem a concetualização da memória nem a técnica analítica foram sempre as mesmas. Assinalamos três momentos paradigmáticos neste percurso: o primeiro é a viragem de uma conceção «neuropsicológica», saída da hipnose, condicionada pela procura de um modelo das ciências naturais, para um modelo psicanalítico; o segundo momento é resultante do abandono da teoria do trauma e da descoberta da vida da fantasia; e o terceiro é pautado pelas descobertas da identificação projetiva, da phantasia inconsciente e da sua concretude.
O interesse de Freud pela memória subjaz em toda a sua obra. Está presente nos conceitos nucleares de recalcamento, esquecimento, investimento, deslocamento, transferência. Começamos por analisar as principais descobertas e hipóteses de Freud, desde uma fase pré-psicanalítica a uma já psicanalítica.
O interesse pela memória surgiu a Freud enquanto estudante de medicina: investigou a implicação desta função na sobrevivência de seres vivos pouco complexos, nomeadamente a estrutura das redes nervosas da lampreia petromyzon. Vinte anos depois, ao dedicar-se ao estudo da histeria, conciliou ideias trazidas destas observações com hipóteses formuladas anteriormente e elaborou um paradigma especulativo do funcionamento do sistema nervoso central e da memória, ou seja, um modelo interativo, entre o organismo e o meio, ainda hoje uma referência surpreendente pela sua atualidade (Tassin, 2004), no qual hipotetizou a conversão dos estímulos sensoriais em respostas neurovegetativas, motoras e psíquicas (Freud, 1895/1996). O caso da memória e o caso do arco reflexo representam alguns dos itens inovadores: a excitação desencadearia uma resposta motora, ou de atividade, que originaria um aumento da quantidade ao nível dos neurónios, que, devido ao princípio da inércia, tentam descarregar essas quantias. Freud postula uma noção de quantidade e de movimento, uma teoria económica, representando o processo de descarga a função primária do sistema neuronal, a qual reelabora, mais tarde, como princípio do prazer, ou seja, a tendência de o organismo se ver livre da excitação (causa em si de desprazer): «O prazer corresponderia à sensação de descarga […].» (Freud, 1895/1996, p. 364).
Para evitar que o organismo permanecesse nessa inércia escatológica, deveriam existir mecanismos que se lhe opusessem: uma resistência nos pontos de contacto entre os neurónios, que o autor denomina de «barreira de contacto». Distingue dois tipos de neurónios: os permeáveis aos estímulos exógenos, que embora não ofereçam resistência serviriam a perceção, sendo, contudo, incapazes de reter a informação; e os impermeáveis, resistentes, armazenadores de quantidades, que servem a memória.
Como consequência direta deste funcionamento, surgiu o conceito de traços mnésicos, estruturados numa rede de neurónios da qual emerge uma entidade com funções específicas chamadas de «ego». A função do ego seria evitar, por um lado, o reinvestimento ditado pelo prazer num objeto ausente — situação que desencadearia a descarga sem a obtenção da satisfação — e, por outro, evitar o investimento numa imagem hostil, situação que iria gerar o desprazer. Diz Freud: «com a hipótese da “atração do desejo” e da propensão ao “recalcamento”, já abordámos um estado de que ainda não foi discutido. Estes dois processos indicam que em se formou uma organização cuja presença interfere nas passagens de [quantidade] que, na primeira vez, ocorrerem de determinada maneira [isto é, acompanhadas de satisfação ou de dor]. Essa organização chama-se “ego”» (1895/1996, p. 375).
O ego possui um papel determinante na diferenciação entre perceção e representação: na perceção, existe um anúncio de descarga percetiva que representa o indicador de qualidade ou realidade; na representação, o objeto está investido de forma alucinatória, contudo produz-se na mesma a descarga. A diferença é que esta última só acontece no caso de o ego não estar investido, porque é o investimento do ego que determina a inibição, sendo esse o motivo pelo qual se considera constituir o investimento do ego o critério para a distinção entre a perceção e a lembrança (Rouart, 1967; Freud, 1895/1996).
O desenvolvimento da teoria do ponto de vista económico permitiu a Freud o estabelecimento de relações entre a memória e a linguagem. Assim, quando se dá o investimento de uma imagem mnésica, a corrente que dele deriva vai alcançar imagens auditivas e verbais motoras. Esta corrente é, à semelhança do que acontece com a perceção, igualmente acompanhada de anúncios de descarga. O investimento nos neurónios motores constituirá o determinante que possibilita a descarga e as associações verbais responsáveis pela relação criada entre as imagens.
Nos desenvolvimentos ulteriores da psicanálise, os conceitos de permeabilidade, de retenção dos estímulos, bem como de investimento/desinvestimento vão relacionar-se quer com a
estrutura e as funções do ego — o qual, consoante o investimento que possuir, abrirá ou não as portas da descarga, possibilitando a perceção ou a lembrança —, quer com o papel da linguagem de transformar, mediante a nomeação, o universo de traços mnésicos desprovidos de forma, de imagem e de afeto em representações (Freud, 1895/1996). Bion irá desenvolver a função alfabetizadora da linguagem mediante a Tabela (Bion, 1962), através da introdução de uma «função alfa», cuja missão consiste na transformação dos elementos sensoriais em bruto e sem sentido, os elementos «beta», provenientes do protomental, em elementos alfa, propícios ao pensamento.
No percurso investigativo iniciado no limiar da hipnose por Charcot e da «relação de influência», na qual Freud usava ainda a pressão da mão sobre a cabeça do paciente, a busca pela reconstrução mnésica alcançava-se pela libertação do afeto, a chamada ab-reação. Freud percebia que o esquecimento representava uma tensão que pretendia descarregar-se (Freud & Breuer, 1893/1979).
Do ponto de vista clínico, a investigação sobre a memória encontrava na afasia o seu ponto de partida (Freud, 1891/1979), levando Freud a distinguir a amnésia orgânica da psíquica, a histérica (Freud, 1893/1996). Paulatinamente, na relação terapêutica, o estado de semiconsciência proporcionado pela hipnose deixava de ser um aliado da reconstrução histórica, bem como da cura. Freud constatava que de pouco servia a recuperação de lembranças sem a correspondente consciência associada: após um alívio sintomático, o quadro acabava por reverter.
O passo seguinte foi abandonar a hipnose e incitar o doente à evocação da memória através dos canais da consciência. Mediante a insistência do médico, que enfrentava e forçava a resistência do paciente, este era conduzido à pesquisa do passado. O paciente deveria verbalizar o esquecido, o proibido, o recalcado, segundo uma exploração focada no problema. O método baseava-se na sugestão, na orientação e na interpretação do médico, que procurava alcançar a memória subtraída à consciência e o esclarecimento das lacunas para dilucidar o sintoma. A reconstrução mnésica era feita a partir de um observador externo, que orientava, sugeria o caminho a seguir na pesquisa e influenciava o paciente. Neste contexto, a memória era concebida como uma memória-lembrança que o tratamento perseguia para tornar consciente, ou seja, para a cura.
Foram pacientes como Anna O. e Emmy von N., bem como a continuada atitude de abertura à aprendizagem, que permitiram a Freud escutar dos seus pacientes e de si próprio a orientação sobre qual seria o melhor caminho a seguir. Foi assim, e a pedido destes, que começou a cura analítica, a talking cure, da qual a investigação da memória fazia parte integrante: o analista deixava falar livremente o paciente, sem interferir nem censurar, mantendo a atenção disponível na totalidade do fluxo associativo. Ia nascendo a regra de ouro do método psicanalítico: a associação livre. A prática deste método ia demonstrando, por um lado, como a memória era sobredeterminada, tanto pelo afeto como pelo seu inverso: o esquecimento (Boulanger, 2015). Por outro lado, demonstrava que a lembrança emergia tanto mais livremente do esquecimento quanto mais livre fosse a sua verbalização.
Freud constatava que o esquecido não estava perdido, mas, sim, armazenado de forma encriptada na rede da consciência. Esta rede detinha qualidades de resistência e de inércia, as quais se opunham ao livre acesso à memória. Quanto à estrutura da rede, esta constituir-se-ia por traços mnésicos sobrepostos e possuiria uma dinâmica própria: seria sujeita a remodelações periódicas, retranscrições do gravado, segundo os acontecimentos mais recentes (Freud, 1896/1996). Os traços mnésicos provenientes de várias origens seriam registados no sistema percetivo-consciente mediante múltiplos signos, e o seu esquecimento operar-se-ia mediante o recalcamento, que representa uma recusa em desencriptar estes elementos pelo afeto negativo neles contido. O recalcamento poderia ser de dois tipos: no primário, o material recalcado é constituído por representações não verbais fixadas; no secundário, o conteúdo é acessível à recordação. Conclui-se, assim, que a memória é uma função dinâmica em permanente atualização/construção, circunstância que irá introduzir a mudança concetual proposta: de memória-lembrança para memória-reconstrução.
A clínica da histeria, bem como a permanente autoanálise conduziram Freud à constatação de que nem a compreensão do trauma da sedução ocorrido no passado havia levado à cura, nem seria credível apontar a todos os pais a perversão, nem no inconsciente se poderia distinguir a realidade da ficção colorida pelo afeto, nem na psicose ou no delírio mais confuso a lembrança inconsciente mais profunda viria à superfície para revelar as experiências da infância (Freud, 1897/1996: 310; Ricœur, 2000). Esta constatação constituiu, quanto a nós, um segundo ponto de viragem na psicanálise e na concetualização da memória. Freud, ao abandonar a teoria da sedução, do trauma, pela da fantasia, introduz uma mudança radical na
conceção mnésica, passando o acesso à memória a ser concebido como um processo de reconstrução e de resgate mediante o trabalho analítico (Freud, 1914/1996), conceção que apelidámos de «memória-reconstrução». Tal mudança de perspetiva desembocará mais adiante na majoração da importância da relação analítica, nomeadamente nos fenómenos da transferência e da neurose de transferência.
Nesta conceção e no que concerne às distorções da memória, estas seriam devidas a lembranças encobridoras (Freud,1899/1996) e à amnésia infantil (Freud,1905/1996). As primeiras representam «ficções» destinadas ao ocultamento dos buracos da memória; e as segundas devem-se à interferência de fantasias sexuais. Assim, tanto as distorções da memória quanto a amnésia infantil são indissociáveis da descoberta dos mecanismos do recalcamento, do falseamento do inconsciente, do esquecimento, da resistência, da sexualidade infantil e dos sonhos (Freud, 1898/1996, 1900/1996, 1901/1996).
Freud afirmou no início d'A interpretação dos sonhos que «o modo como a memória se comporta nos sonhos é […] da maior importância para qualquer teoria da memória em geral» (Freud, 1900/1996, p. 57). Os traços mnésicos constituem um material em bruto, codificado, desprovido de qualidades. A regressão implicada no sonho, tal como no processo de cura, transforma os traços mnésicos em formas e em imagens, mediante um trabalho de figuração e de dramatização, teoria que Bion haveria de desenvolver na «teoria do pensar», e Meltzer, no «teatro da mente». Em Freud, o sistema percetivo-consciente providenciaria as qualidades sensoriais, mas não as de armazenamento: deste modo, no sonho, o sonhador revive a imagem mnésica associada à excitação e ao afeto de satisfação da necessidade que lhe pôs fim, ou seja, realiza o desejo.
O pensamento do sonho é diferente do pensamento vígil: Schleiermacher, citado por Freud (Schleiermacher apud Freud 1900/1996, p. 85) enuncia a sua principal diferença, a qual constituirá amplo objeto de trabalho na obra de Bion (Bion, 1962): «o sonho pensa por imagens, não por conceitos, como acontece no plano vígil». O recalcamento representa o defeito na tradução que ocorre inevitavelmente na passagem do sonho para o plano do pensamento vígil.
Mais tarde, Freud (1915(a)/1996) sublinha não só a natureza imagética dos traços mnésicos do início de vida, mas também descobre a representação da coisa, a qual é melhorada pelo correspondente investimento no objeto. Ao desenvolver o modelo topográfico, com a introdução dos sistemas Cs, Pcs, Ics, declara que o Ics é muito mais amplo do que o reprimido e reformula o lugar da representação da coisa e da palavra. Refere Freud: «a apresentação consciente abrange a apresentação da coisa mais a apresentação da palavra que lhe pertence; ao passo que a apresentação inconsciente é a apresentação da coisa apenas. O sistema Ics contém os investimentos da coisa dos objetos, os primeiros e verdadeiros investimentos objetais; o sistema Pcs ocorre quando essa apresentação da coisa é hiperinvestida através da ligação com apresentação da palavra correspondente» (1915(a)/1996, p. 171). Conclui que o elemento negado pela repressão à apresentação na neurose de transferência é a tradução em palavras. «Assim, se uma apresentação não for traduzida em palavras ou um ato psíquico não for hiperinvestido, permanecerão, a partir de então, no Ics em estado de repressão» (1915(a)/1996, p. 206). As ligações entre o inconsciente e a memória estreitam-se (Freud, 1914/1996).
Consideramos que daqui decorrem duas consequências: a primeira, o resgate da memória, mediante a tradução em verbo dos elementos negados presentes na neurose de transferência, passa a constituir o eixo motor da cura. Se acaso o analista não alcançar a tradução em verbo daqueles elementos, a oportunidade poderá não ocorrer de novo, ficando para sempre reprimidos, perdidos no Ics. A segunda, que decorre da primeira, mas aprofunda-a, coloca a relação de transferência no centro da recuperação da memória, ou seja, da lembrança perdida no inconsciente.
É a partir de 1920, com o advento da teoria estrutural (Freud, 1923/1996), que Freud retira as ilações mais extraordinárias sobre a memória e suas implicações na relação psicanalítica. Após a fase inicial, na qual coligia o material inconsciente do paciente, interpretando-o, constituindo-se, quanto a nós, como «memória do paciente», o analista evoluiu para uma fase «de sugestão», na qual forçava as resistências do paciente para este «confirmar as construções teóricas do analista com a sua própria memória» (1920/1996, p. 29). Contudo, este esforço era inoperante, dado que a parcela inacessível à lembrança representava a parte «essencial», patologicamente repetida, como se se tratasse de uma experiência do presente (Freud, 1914/1996), em vez de ser recordada, como o analista desejaria.
A relação de dependência do paciente para com o analista repetia o passado esquecido, a memória recalcada inacessível, percorrendo o eixo histórico ontogenético numa nova neurose, artificial, a chamada «neurose de transferência». A neurose de transferência constituía uma substituição da neurose primitiva. Esta força da repetição, a «compulsão à repetição atribuída ao reprimido inconsciente» (Freud, 1920/1996, p. 31–32), estaria
presente «no quotidiano, nos sonhos das neuroses traumáticas e no jogo infantil» (Freud, 1920/1996, p. 33). O ego, imbuído do seu papel repressivo, remeteria o inaceitável ao destino do recalcamento no Id, o qual seria memorizado sob a forma de traços mnésicos interferentes na vida psíquica mediante o esquecimento, os sintomas e os sonhos (Freud, 1940/1996).
A relação com o traço mnésico, abordada em trabalhos anteriores (Freud, 1895/1996, 1900/1996, 1925/1996), é retomada, afirmando que a excitação se torna consciente no Cs, mas não deixa nenhum traço atrás de si: é transmitida aos sistemas seguintes, Pcs e Ics, e é neles que deixa o traço permanente. Daqui, decorreu a afirmação radical de Freud de que «a consciência surge em vez de um traço de memória» (Freud, 1920/1996, p. 36).
É, pois, o traço mnésico, o inconsciente, que tem de percorrer o caminho inverso, encontrando o momento para se manifestar nos sistemas Pcs e Cs. A memória não se manifesta sem trabalho psíquico, sem tradução, transformação ou atualização: é uma memória em reconstrução. Acede-se à memória através dos sonhos, dos atos falhados, dos esquecimentos, dos sintomas, das transferências, dos deslocamentos, das projeções, das repetições, etc, mas não existe um acesso direto a ela, ao inconsciente e ao que ficou esquecido no passado, que, contudo, continuará sempre a exercer uma pressão contínua para se expressar, representar ou figurar.
O que nunca foi consciente e por isso nunca foi esquecido, reminiscências, terrores originários, traços de prazer indeléveis inscritos, permanece inacessível, constituindo o que mais tenazmente procura expressão. Contudo, uma via de acesso abre-se à investigação mnésica devido ao estabelecimento do papel atractor das impressões auditivas presentes no Pcs no retorno dos traços mnésicos ao Cs (Freud, 1923/1996): Freud constata ser unicamente mediante a fala que as conexões com os resíduos mnésicos, particularmente os auditivos, poderiam ser estabelecidas (1940/1996).
Também o passado filogenético, a herança de uma memória coletiva arcaica, ou seja, os traços de memória da experiência de gerações anteriores (Freud, 1939/1996, 1940/1996; Farias, 2008), poderia ser encontrado. Freud refere que nos sonhos encontramos não só matéria mnésica primitiva, da infância primeva, que nunca foi esquecida, outrossim tornada inconsciente pelo efeito da repressão, mas também matéria «que não pode(ria) ter sido gerada nem na vida adulta de quem sonha nem na sua infância esquecida» (1940/1996, p. 180).
Na relação que se estabelece entre o indivíduo e o grupo, também a memória do passado é, por um lado, sujeita quer ao esquecimento quer às deformações impostas à lembrança e, por outro, retida em traços mnésicos: «O que é esquecido nunca se extingue, é apenas reprimido […], isolado em anticatexias […], podendo restar partes isoladas acessíveis à lembrança. O reprimido mantém a sua tendência a revelar-se à consciência se o ego diminuir a repressão devido quer a processos naturais, como o sono, ou patológicos, se a força instintiva implicada no traço for reforçada, caso da adolescência, ou da semelhança com o momento atual» (1940/1996, p. 180), como no caso da relação de transferência, acrescentamos nós.
A força de eliminação dos traços mnésicos (Freud, 1898/1996, 1899/1996), a repressão, implica que o esforço para eles se revelarem não possa ocorrer sem a presença de deformações ou deslocamentos, tal como nos sonhos e na transferência, sem contradições ou lacunas.
Será através do processo transferencial agido pela pressão do inconsciente da memória, sob o primado da compulsão à repetição (Freud, 1914/1996, 1920/1996), que a memória e a transferência se aliam: o recalcado atuado através da repetição transferencial é uma recordação, bem como uma resistência à lembrança propriamente dita. A interpretação do presente da relação transferencial (Freud, 1915(b)/1996), enquanto reprodução do passado recalcado, constitui a elaboração central libertadora do esquecimento, do fardo da repetição e do sintoma, aprendendo o ego (no modelo estrutural) a usar a ansiedade (Freud, 1920/1996, 1923/1996) num processo assistido pela transferência terapêutica, sob o impacto das exigências do Id, da realidade externa e interna.
Em conclusão, a reconstrução da memória, através da interpretação/elaboração, vai sendo resgatada ao recalcado, uma vez que as experiências precoces e tardias traumáticas não assimiláveis vão sendo verbalizadas. A dor, aceitada e trabalhada, bem como os sintomas e o carácter, podem desistir de existir, deixando de exercer pressão na formação da patologia.
Na breve vinheta clínica que se segue, ilustram-se alguns pontos desta passagem de uma conceção pré-analítica da memória-lembrança, na qual se valorizou a intervenção guiada pela sugestão de hipnotismo, a uma conceção analítica da memória-reconstrução. Nesta, o traço mnésico afundado no esquecimento é recuperado pela ação da interpretação da transferência (e da contratransferência).
O jovem A., de doze anos, filho único, adotado com seis anos, veio até nós depois de várias experiências psicoterapêuticas, de entre as quais a última, tida com a hipnose. O hipnotista, que A. chamava de «guia espiritual», havia-o seguido desde o início do ensino básico devido a um desinteresse escolar persistente, para o qual não se encontrava
fundamento, nem nas provas de nível psicológico nem nas neurológicas.
Quando A. começou a análise, esperava de nós uma explicação, uma orientação para as suas dificuldades. Relatava-nos os seus dias tristes, sem amigos, perseguido por tarefas escolares enfadonhas, aulas sem interesse, explicações infindáveis, que lhe preenchiam o pouco tempo não letivo, e, sobretudo, pela incapacidade de memorizar o que ia compreendendo. As sessões, preenchidas com fracassos e antecipações de piores dias, cavavam em nós o vivo sentimento de impotência e de desespero: «que mais poderíamos fazer?», era a questão que aflorava a evocar a desistência. A. deitava-se no tampo da nossa mesa de trabalho, como se teria deitado no divã do hipnotista, aguardando a assistência de outrora.
Outras interpretações transferenciais também se faziam presentes: o receio da repetição da renúncia do nosso investimento, tal como acontecera com os pais biológicos e com anteriores terapeutas. Uma dessas interpretações, na linha do esperançamento (Azevedo, 2021), era fornecida sublinhando-se o par esperança-temor da nossa desistência. A libertação de memórias ocorria: lembrava-se de a mãe adotiva, ansiosa, o levar a médicos em busca de uma cura e de uma explicação, bem como do esforço em o ajudar nos estudos.
Quando questionado sobre memórias reveladas pela hipnose, disse estar perante um vazio completo. Lembrava-se unicamente de uma conversa, após uma sessão, na qual o guia transmitira à mãe elementos do seu passado, mas ele nada recordava. A figura do hipnotizador surgia como uma figura paterna protetora e afetuosa, em contraste com a quase ausência de relação com o pai adotivo: demitido do convívio familiar, isolado, senão mesmo com um núcleo autista, ocupava parte de uma sombria sala de arrumos, na qual lia e relia livros antigos. A. questionava-se: «Para que servia aquilo? Coisas que já não existiam!» Em nós, surgia a fantasia do desespero materno e do desencanto paterno com este filho, quiçá o arrependimento pela adoção.
A interpretação da clivagem do objeto paterno, bom guia versus mau pai, suscitava alguma aproximação àquele e, consequentemente, à atividade do seu interesse, ou seja, à leitura. No segundo ano de análise, A. conquistara o seu primeiro amigo, e numa competição edipiana negativa, disputava com o pai o lugar de eleição da atenção, logrando alcançar dele momentos de intimidade saborosa, como uns jantares a dois. Paulatinamente, surgia um interesse pela leitura de certos livros policiais que estavam «lá em casa».
Contudo, nas sessões, aos catorze anos, a raiva libertada durante a análise relativa ao abandono primevo era reeditada, quer perante a depressão paterna declarada, quer perante a materna, em suspensão; e na relação de transferência, encontrava razões de queixa de pouca assistência e de pouca atenção: a analista deveria fazer os trabalhos de casa dos próprios filhos — porque não faríamos nós os dele? A raiva incontida contra o objeto era também projetada nas relações extratransferenciais: aliara-se a um pequeno grupo delinquente que arrombava cacifos nas estações de comboio. A interpretação desta violência dirigida ao interior da analista, representante do corpo materno, da qual desejava extrair uma nova família e um novo destino, era acompanhada de garatujas efetuadas com violência no tampo da nossa secretária. Com o lápis de carvão, desenhava uma pequena figura impercetível que logo tapava com traços carregados de ódio. Ouvíamos-lhe murmurar, naqueles momentos, algo como «toupas, toupas». Interpretávamos-lhe a raiva contida, o desejo de apagar memórias, o «toupas» que parecia envergonhá-lo e ter alguma responsabilidade no assunto.
Nas sessões seguintes, aquelas sequências corriam velozmente, evocando na analista uma sexualidade escondida e reprimida, até que, numa dessas garatujas ocultadas, vislumbrámos o que nos pareceu ser a figuração de um pénis. Interpretámos que lhe estava a ser difícil falar connosco de coisas relativas ao sexo, ideias, talvez acontecimentos. Parecia querer falar, mas não tinha a certeza de encontrar em nós uma ouvinte diferente da mãe, do pai, ou de outros, no passado. Embora ainda com a cabeça deitada sobre o tampo da mesa, levantou fugazmente os olhos para nos encarar, e murmurou: «toupeira». «Tens andado escondido, debaixo da terra, como uma toupeira», dissemos-lhe, com afeto. Abanou negativamente a cabeça: «era a minha alcunha». «Onde?», perguntámos, com alguma surpresa. «Na casa.» Parecia referir-se aos tempos passados na instituição de acolhimento. «Porque tinhas essa alcunha?» Percebemos a vergonha e o medo. Dizemos-lhe: «Na altura, não podias falar, mas agora a situação é diferente.» A. fica deitado até ao final da sessão.
Os comportamentos delinquentes haviam parado. A. estava centrado na relação da neurose de transferência e na nova, em construção (Azevedo, 2017, 2021). Noutra sessão, ainda deitado com a cabeça sobre a mesa, declarou baixinho: «O Nélio ia a todos.» Sentimos o alcance da declaração: o outro não era unicamente um agressor que atribuía alcunhas depreciativas aos companheiros de abandono, mas também um violador. «Foram coisas tão difíceis de viver que as apagaste, para não sofrer. Mas elas estão aí, a querer saltar para o meu colo, para te libertares e também mudares a ideia que tens de ti.» A. chorou. Sentimos a agonia do estômago pisado; não ousámos quebrar o silêncio. Adormeceu ali mesmo, no «cadinho imaterial» da nova relação (Matos, 2019; Azevedo, 2017). A nomeação do objeto e a descrição do ato haviam
soltado o trauma recalcado e permitido o acesso à memória-lembrança: a vivência do passado; o contexto, o abandono e a desproteção; o significado, a violação. O conflito, tornado consciente entre a agressão introjetada do abusador e a autoimagem vergonhosa, a confiança na nova relação firmada foram-se consumando. Através da relação de recordar-repetir-elaborar, firmaram-se as conquistas da reconstrução mnésica, conceito de memória-reconstrução, mediante a análise da transferência (e da contratransferência), dos sonhos, das associações livres, numa partilha transformadora da memória, bem como a prevalência da perceção e do pensamento sobre o apagar e o abolir do passado.
Os contributos de Klein (Blass, 2012; Klein, 1932/1997, 1946/1985, 1975/1996), nomeadamente no que respeita quer à descoberta dos mecanismos primitivos presentes desde o início da vida, esquizoparanoides e depressivos, quer às defesas primitivas postas em ação naquela fase da vida, nomeadamente a clivagem com identificação projetiva no interior da mãe, quer à realidade da vida psíquica primitiva, sua concretude, espacialidade e dinâmica, marcaram, quanto a nós, um terceiro ponto de viragem na conceção da memória no percurso da psicanálise, conferindo-lhe uma qualidade fantasista correspondente ao espírito clivado e prematuro infantil.
A vida de phantasia descrita por Klein, com o seu realismo, espacialidade e dinamismo, outorgaram-lhe uma dimensão psíquica até então nunca concebida (Meltzer, 1979): o espaço mental que se desenrola no interior, vivido como realidade, habitado por atores vivos em relações plenas de significado. Esta vida de phantasia, cunhada com «ph» para distinguir da fantasia descrita por Freud como fuga à frustração, passou a ser acessível na análise: descobria-se a memória do bebé no interior da criança e do adulto. A phantasia ocorre precocemente, animada pelo sadismo oral, anal e uretral, encenando quadros de matricídio, infanticídio, roubo, estupro, flagelações, castrações, etc., cenas edipianas precoces e parcelares atuadas por partes dos objetos e do self,
No entanto, é o conceito de identificação projetiva desenvolvido por Klein (1946/1985), Heimann (1955), Money-Kyrle (1956), Rosenfeld (1963) e Segal (1964/1975), correspondente a uma fantasia omnipotente de introdução de uma parte do self no objeto externo, e depois no objeto interno (Meltzer, 2015), que abrirá à psicanálise a possibilidade de contactar com as experiências primevas. As relações objetais entre aspetos parciais do self e do objeto entram no cenário da relação analítica, animadas por fantasias inconscientes sádicas intrusivas, tornando acessíveis as análises das crianças, o tratamento da reação terapêutica negativa, bem como do acting out, da psicose, da psicossomática, de entre outras patologias da clivagem. Partes das identidades do bebé, bem como do analisando, fundem-se através da identificação projetiva, confundindo mãe e analista, em busca da contenção, identificação, compreensão e devolução.
Trata-se de uma viragem substancial na psicanálise, que apelidámos de «memória-integração», que sucede ao conceito de «memória-reconstrução», baseado na análise do transferido-reconstruído. A «memória-integração» baseia-se na análise da integração dos aspetos clivados da memória presentes nas partes clivadas e projetadas do self e do objeto.
Nesta viragem concetiva da memória, consideramos os seguintes fatores, com relação entre si: o primeiro é a consideração pelo estado de não integração do ego; o segundo é a vida de fantasia que anima as partes psíquicas clivadas; e o terceiro é a dinâmica de projeção-introjeção subjacente à construção do ego e à dinâmica analítica.
Tendo em conta estes fatores, como se concetualiza a partir desta mudança a transferência? Sem uma integração psíquica alcançada, sem uma identidade e objeto totais constituídos, como se estabeleceria a neurose de transferência, a relação que no processo analítico repete os caminhos da memória do passado ontogenético (Freud, 1912/1996; Wallerstein, 1967)? A interpretação que procuraria a reconstrução genética a partir de uma tal transferência parcelar seria também ela fantasiosa, pois a carga emocional do phantasma (Isaacs, 1966) que anima a vida de fantasia no limiar do corporal, do não-verbal, e que constitui em si mesma a primeva representação psíquica da pulsão, tal como nos descreve Isaacs, não representa um aspeto total do vivido, mas, sim, uma experiência fragmentária, animada pela vida pulsional e relacional, segundo os moldes dos interpretativos fantasistas do início da vida. Assim, a reconstrução genética ensaiada a partir da interpretação da neurose de transferência não é credível, enquanto estiverem dominantes as defesas primitivas do ego infantil: a clivagem, a identificação projetiva, a negação, a idealização primitiva, a desvalorização e a omnipotência (Kernberg, 1995).
A recuperação da memória contida num aspeto parcelar e deturpado do passado está implicada na própria integração-construção do ego. É impossível traçar as raízes do ego (Heimann, 1966; Blass, 2012) e das suas funções — perceção, atenção, memória, julgamento e síntese (Freud, 1895/1996) — sem considerar o papel da dinâmica da projeção e da
introjeção e das relações de objeto primordiais. Daqui, decorrem, em nosso entender, duas ilações fundamentais: que os pedaços de memória contidos naquelas vivências parciais, com atores também eles não totais, representam uma ligação, quer com o inconsciente da memória não verbal não representada do passado, quer com o passado e o presente relacionais analítico e extratransferencial; e que será mediante a relação analítica, o jogo da projeção-introjeção, que nascerá o ego integrado com memória e demais funções. Até ocorrer a integração da memória, os limites dentro-fora estão ameaçados, os aspetos parcelares do objeto e do self projetados intercambiam-se entre paciente e analista, a temporalidade surge fusionada nos tempos passado, presente e futuro, de tal forma que não há representação/simbolização, mas, sim, atuação do trauma: a memória parcelar é fantasia, ação, enactement e o que é vivido na contratransferência.
Assim, teremos de aguardar no processo: pela integração psíquica dos objetos e do self que entram de forma partida e persecutória na relação analítica; pela passagem progressiva da posição esquizoparanoide à posição depressiva; pela resolução das ansiedades primevas, de modo que as experiências da relação transfero-contratransferencial se preste à reconstrução mnésica total e ontogenética. Até lá, a memória clivada emergente será tratada «como se», bem como a interpretação que a acompanha refletirá a relação de fantasia que a anima.
A menina L. tinha quatro anos e encontrava-se em psicoterapia psicanalítica, com duas sessões semanais, havia meio ano, quando emergiram estados de espírito incontroláveis: ensaiava agredir-nos com uma cadeira perigosamente manipulada sobre a nossa cabeça. Gritava: «Migalhar, migalhar!» Ápices, nos quais transitava de uma brincadeira suave de dar de comer à analista para a sua destruição. Noutras ocasiões, empunhava uma esferográfica, pretendendo penetrá-la nos nossos olhos. Filha única, desejada, encenava uma violência da relação saída da união entre o objeto materno sádico, omnipotente, e o self infantil, frágil. Nesta relação, ora representávamos uma parte do objeto idealizado, poderosíssimo, que ela tentava seduzir e aplacar, ora uma parte do objeto denegrido e desvalorizado: nessas alturas, declarava ao adulto que a levava a casa ter sido sem valor a sessão. Noutros momentos, representávamos uma parte do seu self infantil revoltado com o sadismo do objeto, bem como uma parte do seu self infantil frágil, ávido de um novo e diferente desenvolvimento: «achas que vou ter filhos?», perguntava L. quando um horizonte de esperança rasgava as trevas do seu humor. Através das incursões dentro do nosso interior, avaliava quer os estragos perpetrados, quer alguma bondade e riqueza ainda disponíveis para si.
Na época a que se reporta o caso, seria absurda a interpretação da ansiedade relacionada com memórias de relações totais, dado o funcionamento primitivo da mente e as clivagens do self e do objeto. As memórias eram presentes, parcelares e deturpadas pela phantasia, acessíveis mediante a projeção e a atuação na relação analítica; o passado era o presente e o presente não representava o passado ontológico.
Foi o trabalho analítico com a qualidade da transferência, vivida através da identificação projetiva, seu imediatismo e concretismo, parcialidade das experiências, bem como com a contratransferência, dolorosa e angustiante, que nos permitiu passar de um estado sem memória, ou de pedaços de memória-phantasia, para um outro, mais realista, de integração psíquica. A reconstrução de um passado doloroso ao peito e suas memórias estabelecia-se: momentos em que o bebé esfomeado asfixiava com o seio comprimido contra a sua face, momentos em que o mamilo respondia dolorosamente ao sadismo da sucção e ensanguentava-se, momentos em que o bebé entrava no interior do seio para o desbravar e conhecer. A resolução final da integração total dos objetos e do self, bem como da memória, foi alcançada noutra etapa, quando nos procurou no início da vida adulta para uma análise.
Nesta reflexão, consideramos três principais contributos para o conceito de «memória-integração», que partiram de Klein e dos seus continuadores, e tiveram em Bion um expoente. Referimos o primeiro contributo, relativo à identificação projetiva concebida, não como um mecanismo patológico, mas como um processo que subjaz à comunicação, desde a aurora da vida, cujo protótipo é o intercâmbio entre o bebé e a mãe (Bion, 1962), que levou ao desenvolvimento do uso da contratransferência não como um elemento perturbador, mas como elemento e instrumento de análise. A contratransferência entrou no centro do diálogo analítico, uma vez que as memórias não pensadas, unicamente adequadas à evacuação, ao serem projetadas no analista, em busca de um contentor e de uma função alfabetizadora, encontram nele o agente metabolizador e facilitador do crescimento. Partira-se do uso da contratransferência para a autoanálise do analista quanto ao aspeto inconsciente ativado na sessão e na melhoria implícita no trato do paciente (Klein, 1946/1985), tornando-se alvo de investigação (Heimann, 1950; Racker, 1960; Segal, 1982; Meltzer, 1973; Winnicott, 1947/2000, ; de entre outros).
Situamos o segundo grande contributo no desenvolvimento da Tabela (Bion, 1973), uma teoria do pensar e do aparelho para pensar os pensamentos, na qual a função memória só se torna possível mediante o processo de ligação que caracteriza o pensar: a transformação operada pelos elementos alfa sobre os elementos beta, sensoriais, a ligação fornecedora de significado e subjetividade à experiência aleatória. Sem os elementos alfa, o pensamento do sonho e o armazenamento na memória não ocorrem, pois a barreira de contacto, o separador entre os estados acordado e de adormecimento responsável pelo recalcamento e pela memória, é formada pelos elementos alfa. Deste modo, são estes elementos os responsáveis pela memória e pelo esquecimento, bem como pela subjetividade.
O terceiro contributo representa uma recomendação para o analista. Partindo do conselho de Freud para criar um estado de «cegueira artificial» (Freud & Salomé, 1975), a fim de poder «ver» melhor, Bion postula um estado «sem memória nem desejo» para o analista se libertar do domínio das sensações, do passado e do futuro, e desenvolver a capacidade analítica (Aguayo, 2014). Meltzer, a este propósito, desenvolve uma situação de relaxamento e de confiança no processo analítico, na «beleza do método», um estado de ignorância que deixa o processo fluir além das palavras (Stramer, 2012).
Devido à ansiedade de não saber, às dúvidas e ao mistério insuportável da sessão, o analista satura-se com o sensorial e o desejo, colocando-se na coluna dois da Tabela, representante da mentira, de modo que impeça o contacto com o desconhecido do paciente. A experiência conducente ao contacto com a verdade da experiência emocional, o O, é impedida. Na teoria da «mudança catastrófica», Bion havia distinguido um aspeto de evolução da memória da sua «regurgitação»: assinalou o estado mental do analista obstruído pela memória, incapacitado de observar (Bion, 1965/1991, 1994). Diz Bion, citando Keats: «quero reservar o termo memória para a experiência relacionada com tentativas conscientes de recordação. Estas são expressões do medo de que um elemento, “incertezas, mistérios, dúvidas”, interfira» (Keats apud Bion, 1973, p. 77). Desta memória defensiva, Bion destaca o conceito de «sonho-como-memória», que flui sem deixar traço, que contribui para o crescimento do par e dificilmente é recordado (1973, p. 78). O pensamento do sonho constitui o primeiro nível de integração psíquica da Tabela e, por essa razão, é parte integrante do conceito «memória-integração».
Ogden (2004), a este propósito, considera ser este o momento em que o analista realiza o verdadeiro trabalho analítico, não estando conscientemente em busca da compreensão do presente no passado. E, em segundo lugar, refere o exemplo dado por Bion (2000) de uma analista que o procurara como paciente, que havia valorizado tanto uma observação dele que a tinha esquecido. Bion afirmou-se satisfeito, mas ainda mais ficaria se um dia algo do que ali tinha sido vivido retornasse como um sonho no trabalho dela e a ajudasse.
«O vento cortante no rosto, à direita o mar profundo. A roda da ciclista estremece sobre o alcatrão.» Deixamo-nos ir no relato do sonho de L. no final de uma análise. Para trás, um longo manto tecido de muita vivência, partilha, dificuldades e transformações. A confiança no processo analítico convida-nos à escuta interna, sem consideração nem pelo passado coconstruído nem pelo futuro. De aparência cuidada, no sonho L. não se incomoda com a sua figura maltrapilha: «Tenho pressa de comprar uma casa.» Atrás de si, corre um rapaz a dar-lhe as peças da bicicleta que vão caindo: «está a desfazer-se». Sustemos a emoção: identificamos a tarefa analítica. «O mar à direita do caminho permanece muito abaixo da falésia.» Olhamos para o vazio do chão ao lado direito do divã: a separação do nosso colo. «Cheguei à mercearia de infância, onde me abastecia.» Dá-nos um abraço. Ao lado, o marido a olhá-la e a chorar. Choramos por dentro.
Associa a roupa, o desejo de sucesso e a mercearia à condição social, empreendedorismo e força maternos. Fala-nos dos episódios familiares da véspera, em que cuida dos filhos, recriando neles uma infância protegida e alegre. Deixamo-nos ir na sua elaboração, na qual despontam aspetos anteriormente ocultados: a identificação com aspetos positivos e corajosos maternos; a dependência e depressão paternas repetidas na relação com o marido. Como uma gota de água iluminada por um outro ângulo, regressamos do esquecimento a uma imagem da viagem analítica: a fuga frenética à depressão numa atividade económica que assegura o abastecimento da infância de miséria afetiva e narcísica; o caminho trilhado, no qual fomos estrada à beira do abismo e assistente; a urgência pela reconstrução do self e do objeto; o momento atual, em que nos abraçamos e pensamos na separação: existe dor, mas com sentido, tolerável, e tempo ainda para assegurar que aquele que chora não é mais excluído.
A viagem continua. Em jeito de conclusão, convidamos à leitura de um poema de António Vera, cuja compreensão inconsciente implícita ficará em suspensão perante o leitor:
De profundis
ir até ao fundomas não ficar láe regressar sempreque o fundo é vazio:lugar que não hásempre além de sipreso da memóriapor um fio2
Não obstante a evolução concetual operada na história da psicanálise na conceção da memória, consideramos ser a investigação que dela decorreu útil e atual, quer na conceção inicial, mais neuropsicológica da memória, quer na decorrente do recalcamento, quer na relacionada com a problemática da clivagem, da identificação projetiva e da phantasia. O conhecimento adquirido permite abordar as questões da memória no tratamento das partes traumatizadas, neuróticas, bem como das partes psicóticas, que exigem ora trabalho com a «memória-lembrança», ora com a «memória-reconstrução», ora com a «memória-integração».
ABSTRACT
In this article, we propose a journey through the concept of memory in the history of psychoanalysis, suggesting three conceptual moments: the first moment emerging from the influence of the natural sciences, is represented in the transition from the neuropsychological to the psychoanalytic model, including the discovery of the mnesic trace and of an economic theory, and the concept of “memory-remembering”; the second moment, resulting from the study of hysteria, the discovery of fantasy and the abandonment of the theory of trauma, of screen memories and childhood amnesia, introducing the concept of “memory-reconstruction”; and the third stage, is characterized by the discovery of psychic precocity present from birth, projective identification, unconscious phantasia, and the realism that characterizes it, introducing the concept of “memory-integration”, of which the concept of “dream-as-memory” is part of. The article will discuss important implications for the technique operated by this evolution in the concept of memory, namely the use of transference and countertransference, the approach from the recalcitrance to cleavage, from neurosis to psychosis, from adult to child. Three vignettes, featuring a child, a pre-adolescent, and an adult, illustrate these points.
KEYWORDS: memory, remembering, reconstruction, integration, transference-countertransference.
(2010). Folha a folha os dias. Colibri, p. 87.