O passado colonialista português caracteriza-se por uma história em que os elementos de violência social e de episódios traumáticos permanecem em busca de reconhecimento, de representação e de elaboração psíquica. A mentalidade colonialista e racista persiste, fazendo parte da identidade de Grande Grupo, e contribui para uma transmissão radioativa dos elementos traumáticos não elaborados. As catástrofes sociais, fruto da ação de seres humanos sobre outros seres humanos, suscitam um tempo de latência durante o qual a memória e reconhecimento coletivos se encontram comprometidos, gerando uma ausência de ressonância afetiva perante os seus efeitos. As produções culturais em torno destes temas podem constituir-se como telas intermediárias, contribuindo para a possibilidade de representação e elaboração mental dos elementos traumáticos da história coletiva e individual.
Num tempo global de elevada tensão e conflitualidade como o atual, marcado pela emergência e pelo retorno cíclico das mais diversas formas de intolerância e violência, é urgente potencializar o espaço de reflexão e a possibilidade de pensamento crítico e transformador nas dimensões clínica e social.
No que diz respeito ao colonialismo e ao racismo no contexto português, caminhamos para a construção de uma literacia que nos permita, numa dimensão dinâmica mais profunda, compreender os sujeitos brancos e os sujeitos negros nos seus encontros e desencontros.
Os contextos norte-americano e brasileiro apresentam uma proliferação de trabalhos sobre estes temas, onde o pensamento psicanalítico (teórico e clínico) se enriquece no diálogo com a filosofia, a história, a antropologia e demais ciências humanas, fazendo jus ao legado dos pioneiros da psicanálise.
Centenas de anos de história marcados pela escravatura e a espoliação dos povos nativos africanos deram corpo ao colonialismo português formalmente terminado há apenas 49 anos. Este curto intervalo temporal contribui parcialmente para a escassez de trabalhos em Portugal. Contudo, consideramos que é a dimensão de destrutividade e violência dessa história que levanta maior resistência, dificultando uma plena elaboração em posição depressiva onde possam ter lugar a identificação introjetiva, a culpabilidade, a responsabilidade e a reparação.
Apoiados em trabalhos sobre trauma e violência sociopolítica, percorremos elementos históricos a par da narrativa do romance Terra Morta, em busca de sentido.
Terra Morta (1949/2008) é um romance da segunda fase da obra do jornalista e escritor Castro Soromenho, que se afasta das referências europeias. Nascido em Moçambique, filho de mãe cabo-verdiana e pai português, o escritor começa por acompanhar o pai e depois, como este, torna-se angariador de mão de obra para a Companhia de Diamantes em Angola.
No contacto humano direto, recolhe elementos antropológicos e culturais; e ao colocá-los por escrito, contribui para a preservação da memória, da cultura, da história e da identidade das populações originárias do território angolano, que o colonialismo português se encarrega(va) de negar,
A partir da comunicação apresentada no V Congresso de Psicanálise de Língua Portuguesa, que decorreu em São Salvador da Bahia (Brasil) em abril de 2023.
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Psicanalista de Crianças e Adolescentes. Formadora do Instituto de Psicanálise. E-mail:
desvalorizar e destruir, tornando visíveis as suas estruturas e o seu sistema racista.
Em Terra Morta, revela-se a degradação social e económica resultante do abandono da exploração de borracha e a forma como as mesmas estruturas esclavagistas e racistas serão a base para a chegada de novos colonos para a exploração das terras e de diamantes.
Diversas camadas históricas desse território vão sendo expostas, revelando os vínculos complexos que os sujeitos brancos e negros estabelecem entre si, marcados por relações de poder e representações dos sujeitos que se renovam apesar de aparentes mudanças.
Entre a abolição da escravatura e a independência dos povos africanos, o sistema esclavagista irá persistir e renovar-se. Após a abolição da escravatura, os sujeitos negros continuaram a ser escravizados, entregues aos portugueses como parte do tributo dos sobas, trabalhando sem remuneração por períodos de tempo teoricamente finitos na prática, até que a sua condição física permitisse que fossem rentáveis.
O mesmo sistema esclavagista e racista que assegurou a exploração da borracha entre final do século XIX e início do século XX irá assegurar, com algumas modificações, a exploração de diamantes e as plantações dos colonos portugueses até à independência.
Terra Morta ilustra extratos da condição da mulher negra e das relações entre brancos e negros, que ainda hoje impregnam os discursos racistas que sustentam uma representação dos sujeitos negros baseada na infantilização, na primitivização, na descivilização, na animalização e na erotização, como referido por Grada Kilomba (2008/2019).
A este percurso cumulativo de violência e trauma junta-se o período de Guerra Colonial e de independência dos povos africanos.
A nossa proposta é considerar que a fantasia de um colonialismo português brando e a negação do racismo estrutural são elementos constitutivos da Identidade de Grande Grupo (Volkan, 2001), que contribuem para uma organização narcísica assente na superioridade branca portuguesa, para a negação da destrutividade do Grande Grupo, bem como para a negação dos traumas da colonização e da descolonização.
A resistência e a intolerância ao reconhecimento, à integração e à elaboração dos elementos de violência deste percurso histórico têm, de entre outros efeitos, dificultado a elaboração de lutos e traumas de ex-combatentes da Guerra Colonial, dos vulgarmente denominados retornados, dos refugiados africanos e dos seus descendentes, contribuindo por vezes para a sua retraumatização e para uma organização melancólica perante as perdas da guerra e da descolonização.
A mentalidade colonialista e o racismo estrutural do presente estão na origem das mais diversas injustiças sociopolíticas que se constituem como uma efetiva retraumatização dos sujeitos negros. Ambos alimentam um sistema defensivo que permite preservar o narcisismo dos sujeitos brancos, mantendo uma imagem grandiosa e humanizada do seu papel histórico, negando a sua destrutividade e o lugar onde os sujeitos negros foram e são descaracterizados, objetificados e desqualificados. Ambos são elementos constitutivos de um terreno onde prolifera o racismo nas suas diversas formas: estrutural, institucional, interpessoal e internalizada.
O racismo é uma terra que resiste tenazmente à erosão, uma terra radioativa que contamina o presente, por exemplo na forma como as relações entre diferentes etnias, os parceiros que as constituem e os seus descendentes foram e são ainda negados, marginalizados e desvalorizados.
Segundo Eva Weil (2016), quando estamos frente a catástrofes sociais, fruto das ações de seres humanos sobre outros seres humanos, os processos de rememoração individual e coletiva encontram-se comprometidos e a construção da memória individual da catástrofe fica dependente da memória e da elaboração coletivas. A autora coloca a hipótese de um recalcamento temporal coletivo (30 a 40 anos), no caso do Holocausto, para que os testemunhos e as experiências dos sujeitos possam finalmente ter lugar de pertença, de reconhecimento e de memória partilhada na comunidade. Este tempo de latência é curiosamente coincidente com o que observamos em Portugal, se tomarmos como ponto de partida o 25 de Abril de 1974.
Weil (2016) refere que no caso em que os traumas coletivos não encontram lugar psíquico, ocorrem processos psíquicos que geram um território de espaço descontínuo onde os elementos traumáticos permanecem em bruto e em estado latente à espera de transformação e de um ambiente recetivo para se manifestarem na esfera coletiva ou íntima.
Sublinhamos a necessidade de um ambiente recetivo no qual a experiência individual pode encontrar ressonância no ambiente social, e para tal é necessário o conhecimento e o reconhecimento das circunstâncias da catástrofe e das suas consequências numa população.
Weil (2016) enumera algumas das problemáticas encontradas em contexto clínico, fruto de traumas coletivos não elaborados: a dificuldade de subjetivização por inibição, clivagem ou negação; as perdas massivas; os impasses na história familiar e a amputação de ramos genealógicos que contribuem para a mortificação das identificações.
O racismo estrutural continua todos os dias a estar na origem de fenómenos de violência e de
crueldade, uma violência à qual consideramos ser aplicável a noção de radioatividade como metáfora para a violência sociopolítica e para a sua forma de transmissão, que permite nomear os efeitos monstruosos, inesperados e aberrantes causados por esta (Gampel, 2016).
Das bombas de Nagasaki e Hiroshima aos acidentes nucleares de Chernobyl e Fukushima, podemos facilmente compreender a acuidade da escolha de Gampel para cunhar conceitos associados à investigação de situações traumáticas geradas pela ação violenta de seres humanos sobre outros seres humanos.
Como sujeitos sociais que somos, encontramo-nos no lugar de recetores e transmissores dessa radioatividade, e enquanto psicanalistas cabe-nos assumir a responsabilidade e a tomada de consciência dessa radioatividade, mantendo-nos abertos para rever as narrativas das nossas histórias pessoais, dos nossos pacientes e da história coletiva da qual fazemos parte.
Esses encontros com a história individual e coletiva requerem capacidade negativa, tolerância à dor psíquica e ao contacto com elementos destrutivos, violentos e estranhos, para os quais poderá ser difícil encontrar representação.
Consideramos útil o recurso a três conceitos de Frances Tustin, citados por Yolanda Gampel (2016), para a compreensão desses elementos, organizados como Symbolon ou Diabolon. O primeiro enquanto objeto primitivo, fonte de satisfação, êxtase e total correspondência; o segundo enquanto cólera produzida por situações de frustração. Symbolon e Diabolon são dominados por sensações e caracterizados por não serem reflexivos, ambos fruto de uma contínua transmissão radioativa. Por sua vez, os Metabolon configuram-se como contextos que fomentam crescimento psíquico abrindo espaço para a transformação desses elementos estranhos.
A possibilidade de um ambiente recetivo surge-nos na articulação entre os Metabolon e o conceito de Telas Intermediárias, de Eva Weil (2014), este último associado a produções culturais que permitem a construção de narrativas sobre elementos traumáticos na esfera coletiva e que contribuem, na esfera clínica, para a capacidade de pensar, rememorar e simbolizar esses elementos.
Em Portugal, a produção artística ligada às questões do racismo e do colonialismo começou na última década a ocupar um espaço cada vez mais alargado, semeando Metabolon/Telas Intermediárias no nosso território.
A Grande Exposição do Mundo Português manteve-se presente com a existência da Praça do Império, onde os brasões das colónias figuravam nos arbustos. A intervenção urbana de que foi alvo esta praça suscitou um debate público aceso que resultou na decisão de retirada dos brasões. Contudo, em 2023, a «nova» praça não só mantém o nome de Praça do Império, como mantém os brasões das ex-colónias portuguesas colocados, desta vez, na calçada. Esta inauguração é reveladora de um apego institucional a uma visão grandiosa do período colonial e da ditadura, mas a existência de um forte movimento social e cultural comprometido com a realidade histórica e social do colonialismo e do racismo vai procurando gerar Terra Viva, territórios de questionamento, representação psíquica e movimentos de integração e reparação, como é o caso de um grupo de artistas anónimo que tem realizado a sua intervenção sobre os brasões da Praça do Império.
A companhia Hotel Europa, formada por André Amálio e Tereza Havlí ková, desenvolve espetáculos de teatro documental, apoiados na investigação e recolha de testemunhos, que são reproduzidos em palco. Através de material autobiográfico, narrativas familiares, testemunhos e pesquisa historiográfica, abordam questões do passado recente ligadas ao colonialismo, fascismo e comunismo. Portugal não é um país pequeno, Os filhos do colonialismo, Amores pós-coloniais, Passa-Porte e Os filhos do Mal são exemplos de espetáculos assentes em entrevistas realizadas a antigos colonos portugueses, a refugiados africanos da década de 1970, bem como dos seus descendentes, filhos e netos de combatentes e de apoiantes do fascismo.
Debaixo do tapete é um documentário realizado por Carlos Costa, baseado numa investigação da jornalista Catarina Demony. Chegada à adolescência, Catarina Demony começa a questionar as histórias familiares da sua bisavó, avó e mãe, todas nascidas em Angola, e depara com um tabu: o passado esclavagista da família. Este questionamento confronta-a com cinco gerações de comerciantes de pessoas escravizadas, com a descoberta de que o actual Museu da Escravatura era a antiga fazenda do seu bisavô e com as entrevistas com descendentes de pessoas escravizadas.
As produções artísticas parecem indicar o fim do tempo de latência dos episódios traumáticos, e ao estabelecerem-se como telas intermediárias, abrem territórios de questionamento e possível elaboração de traumas coletivos e individuais.
Num estudo exploratório realizado em 2011, Nussbaum observou três fatores que condicionam a capacidade de o analista manifestar antirracismo na sua prática: a orientação teórica preferencial, a perceção da psicanálise como modalidade de tratamento branco e elitista e a quantidade de treino e de estudo sobre questões de racismo.
Rasmussen & Salhani (2010) referem alguns dos processos psicodinâmicos da ideologia racista a operar nas ações sociais de vítima e agressor, a saber: inveja, fantasia inconsciente, identificação projetiva e projeção.
Para os autores, «O racismo e o trabalho antirracista evocam emoções poderosas, e emoções poderosas evocam defesas poderosas como a clivagem, a identificação projetiva, a idealização e a desvalorização» (2010, p. 509). A análise dos processos psicodinâmicos implica um reconhecimento do vínculo entre a mente do sujeito e o contexto social, da forma como a história, as ideologias e as práticas sociais marcam os mecanismos de defesa que permitem gerir níveis de angústia e manter elementos do seu narcisismo, como é o caso das projeções implicadas no processo de denegrir um grupo de forma que se preserve outro.
No trabalho clínico ou na esfera coletiva, a mente do analista poderá ser a Terra Viva que regenera os territórios mortos e radioativos que a violência coletiva nos traz.
ABSTRACT
The Portuguese colonialist past is characterized by a history in which the elements of social violence and traumatic episodes remain seeking recognition, representation and psychic elaboration.
The colonialist and racist mentality endures, being part of the identity of the Large Group and contributes to the ongoing radioactive transmission of unprocessed traumatic elements.
Social catastrophes resulting from the actions of one human being upon another establish a latency period during which collective memory and recognition are compromised, generating an absence of affective resonance concerning their effects.
Cultural productions around these themes may constitute an intermediary canvas, contributing to the possibility of mentally representating and processing the traumatic elements of collective and individual history.
KEYWORDS: colonialism, racism, radioactive transmission, intermediate canvas.