O autor debate a evolução das conceptualizações da masculinidade na teoria psicanalítica, entre a visão monoteísta, a fálico-narcísica e a seminal, diferenciando-as e interligando-as. Num segundo momento, reflete na expressão sociocultural e também clínica da identidade masculina contemporânea. Para concluir, são aprofundados aspetos da vivência de prazeres associados à masculinidade, à sua organização psíquica e manifestações específicas.
Nas últimas décadas, o tema da masculinidade tem sido revisitado com profundidade pela teoria psicanalítica (Diamond, 2021; Figlio, 2024), a par com reflexões sobre a feminilidade, essas mais desenvolvidas e acompanhando expressões maiores de pressão social e política. A relação entre os dois temas tem algumas descontinuidades curiosas e significativas, e por vezes acompanham-se mais numa abordagem latente do que no plano manifesto e conscientemente discutido.
O discurso dominante tem explorado aspetos fálicos marcantes na cultura e identidade masculina, minimizando o interesse nos aspetos generativos. David Bell (Figlio, 2024), de forma algo provocadora,
Este texto resulta de uma comunicação realizada no webinar em língua portuguesa sobre «masculinidades», promovido pela Associação Psicanalítica Internacional (IPA) em 2021.
Psicanalista Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: raragao20@gmail.com
mas porventura bem certeira, considera que, na generalidade, a compreensão da teoria psicanalítica sobre o que é a identidade masculina tende tradicionalmente a enaltecer o «pénis» e, por contraste, a «escotomizar» os testículos.
Se o feminino se impôs rompendo com primeiras elaborações, e acompanhando e influenciando movimentos sociológicos e culturais que têm transformado conceptualizações no mundo ocidental, já a masculinidade tem sido revista na Psicanálise essencialmente pela expressão da vivência clínica, que, numa criatividade infinita, vai revelando novas e importantes descobertas.
O rompimento com o equilíbrio do paradigma da lógica binária, num primeiro momento, possibilitou inscrever o masculino e o feminino numa compreensão para lá de aspetos e características limitados por questões externas (ativo/passivo, dominante/submisso), resguardados na falácia da biologia (como destino), ou da mera normopatia obsessiva. Também os movimentos feministas e as profundas alterações sociopolíticas que têm recolocado a autoridade, o autoritarismo e o valor da atribuição da «autoria» identitária, bem como posições diferenciadas na compreensão da dinâmica do mundo mental, têm potencializado um contacto outro com a conceção do masculino: colocando a descoberto qualidades de angústia diferenciadas; preocupações com o corpo inimagináveis até a algumas décadas atrás, e que são bem aproveitadas pela indústria estética, de nutrição e da vivência da atividade física; mas igualmente apreensão com o desempenho da parentalidade, ou a fertilidade; um desassossego com o impacto estético que o olhar do outro, principalmente o desconhecido e distante, demonstra ou meramente insinua, mas que é capaz de ferir e abalar os alicerces da mais segura da identidade masculina.
Freud, do alto da sua inestimável autoridade de criador da Psicanálise, afirmou: «we know less about the sexual life of little girls than of boys. But we need not feel ashamed of this distinction; after all, the sexual life of adult women is a “dark continent” for psychology» (Freud, 1926/2001, p. 212). No entanto, curiosamente, assumiu as dificuldades que se impuseram transferencialmente à sua própria masculinidade, quando acompanhava um famoso paciente masculino, o poeta americano Horace Frink, e que lhe foi particularmente difícil e exigente.
Na realidade, para a Psicanálise não existe uma masculinidade única, mas, sim, diversas versões (Figlio, 2024): aquela que é complementar à feminilidade; a que, esperançosa, deseja a fertilidade e vive com pavor mais ou menos assumido conscientemente a devassidão da infertilidade e finitude; ou a de natureza fálica, invasora e dominadora, paradigma do objeto de inveja, que se reconhece num «sémen capaz de poluir ou envenenar» ao introduzir-se no território do Outro.
Somente algumas décadas mais tarde da proposta de Freud o tema do feminino passou a ser devidamente aprofundado na teoria psicanalítica, com os «revolucionários» contributos de Janine Chasseguet-Smirgel (1964/1970), no livro Female sexuality, que incluiu contributos notáveis e históricos de Maria Torok ou de Joyce McDougall, entre outros.3
Ruth McCall, em 2019, num interessante livro sobre o mundo inconsciente na vida política e social, salienta que foram necessárias várias décadas para sentir as alterações que se enunciaram — mesmo no panorama da cultura psicanalítica — no que diz respeito à conceptualização do feminino, e, diríamos nós, igualmente no que se refere ao masculino. Ruth refere um artigo impressionante de uma psicanalista que residia em Madrid, Marina Prado, editado no The American Journal of Psychoanalysis na década de 1970 (Prado, 1976). Por mera causalidade, Marina narra que, naquela época, numa Espanha conservadora e controlada pelo regime franquista, as mulheres eram obrigadas a morar com os pais até os 23 anos, e podiam possuir propriedades, mas não podiam vendê-las sem o consentimento do marido. A infidelidade feminina era punida legalmente, enquanto a considerável infidelidade dos homens passava despercebida. Refere também que, até então, as mulheres dedicavam a maior parte de suas energias ao ciclo da conceção, gravidez e amamentação. Um regime que era em tudo semelhante ao vivido no vizinho Portugal, até ocorrer a revolução de 1974, e onde em 1973 se conseguiu criar a Sociedade Portuguesa
Não podemos deixar de nomear os contributos anteriores de M. Klein, que trouxeram para o debate psicanalítico a importância da «mãe» e do «seio» no desenvolvimento psicossexual, bem como as vivências pré-edipianas da feminilidade, tal como as reflexões de Winnicott ou de J. Bowlby.
de Psicanálise, com enormes dificuldades e oposição do regime político já decadente. Mas, comenta ainda Mariana Prado, aparentemente naquela época era prática aceite na Espanha que um indivíduo tivesse dois psicanalistas, um homem e uma mulher. Cada um poderia então lidar com diferentes partes do paciente e, refere a autora, a fraqueza da mulher analista poderia ser contrabalançada pela força do ego do homem na Espanha do início da década de 1970.
Mais tarde, no decorrer da década de 1990, fomos percebendo que também o masculino não parece ainda um tema assim tão esclarecido nos domínios psicanalíticos (Diamond, 2015, 2021) e que hoje, em pleno século XXI, assume uma importância e significado de enorme impacto.
O masculino (e de igual forma o feminino) pode conceber-se com conceitos que resultam evolutivamente do encontro, num nível inconsciente, de pré-conceções de algum tipo de realizações (diferente dos estereótipos sociais), que se organizam de forma semelhante ao que Bion preconizou na teoria do pensamento, com estruturas evolutivas de estados de pensamento (Davids, 2002).
Podemos então conceber etiologicamente que a masculinidade resulta de um encontro entre uma pré-conceção e uma realização. Este não é um encontro com um objeto externo, mas, sim, a ocorrência da possibilidade do encontro intersubjetivo, por mais primitivo que o possamos conceber.
Genericamente, referimo-nos ao encontro com a figura paterna presente na cabeça da mãe, mesmo que de forma inconsciente, num contacto essencialmente intuído apenas.
Este suposto terceiro elemento tem como qualidade organizar as experienciações com o sentimento de proibição e estabelecimento de limites (associado ao desejo incestuoso e à angústia de fusionalidade). Introduz também abruptamente um espaço psíquico entre progenitor primário e criança, que obriga a uma reorganização interna do sentimento de omnipotência.
Esta conceção de um «pai na cabeça da mãe» torna-se num elemento essencial capaz de facilitar o contacto com o «yet-to-be-known–father» (Ogden, 1989/1992), potencializando a oportunidade de expansão de outros encontros com a alteridade.
Podemos conceber as raízes primitivas da formação da masculinidade como que emergindo da ocorrência deste suposto encontro,
tendo como condição este terceiro elemento (mesmo que na cabeça da mãe e apenas captado intuitivamente) se oferecer como objeto de identificação. Quando a mãe se apresenta como «a mulher do pai», esta ocorrência pode eminentemente existir somente em termos potenciais, sem que necessariamente se manifeste comportamentalmente.
A complexidade dos processos identificatórios implícitos na trama da masculinidade foi primeiramente aprofundada por Greenson (1968), que assinalou as particularidades do processo de desidentificação com a mãe na criança masculina, complementada com a contraidentificação com o pai. As suas hipóteses teóricas tiveram grande aceitação na sua época, aparentemente comprovadas com estudos de carácter antropológico, onde a presença de cerimoniais, por vezes violentos, assinalava a radical separação do menino relativamente à influência materna, com a justificação de assim garantir um futuro homem másculo. Este forçar da separação permitiria supostamente alcançar a desejável autonomia, virilidade e independência, características então essenciais da boa masculinidade. Desta forma, o «excesso de mãe» contaminaria o menino, dificultando a organização da masculinidade, e por essa razão deveria ser evitado o contacto demasiado prolongado com a figura materna.
A sua expressão cultural e artística, como sucede no cinema, foi frequentemente notória e até muito aclamada: o herói individualista dos anos 40 a 60 do século passado, autossuficiente, que seduz, conquista, mas não se liga e sofre no plano afetivo de modo duradouro, e que podemos rever nos célebres desempenhos de John Wayne, ou nos primeiros filmes da série James Bond e, mais tarde, já na década de 1980, na série MacGyver, apenas para dar alguns exemplos.
Pensamos que muitos dos trabalhos sobre a compreensão do feminino deram na realidade um precioso contributo para transformar a visão sobre o masculino (Aragão Oliveira, 2020). Hoje, percebemos que quando ocorre de facto o «excesso de mãe» estamos perante uma dinâmica patológica, rigidificante, onde a mãe se parece opor à autonomia, e em que a desidentificação e a imposição de um corte funciona como defesa narcísica. Habitualmente, contribuem fortemente para a constituição de estruturas superegoicas severas e rígidas.
Esta forma, na realidade, contribui para um sentimento de masculinidade mais rígido, sem expressão para a plasticidade afetiva, ou mesmo dando lugar a um embotamento emocional.
Nestes termos, a afirmação do masculino evidencia-se no prazer da delimitação e do corte, desfrutando do movimento separador, com obtenção do prazer afirmativo e dominador. O contacto, a considerar, tende basicamente para uma vivência intrusiva e defensivamente penetrante no que diz respeito à fantasia inconsciente associada. O sentimento de posse, mesmo que essencialmente subjetivo, parece ser dominante na economia do dinamismo psíquico.
Porém, as investigações sobre vinculação e desenvolvimento precoce têm evidenciado algo diferente: é a qualidade da relação com a mãe, e não a qualidade da separação, que parece facilitar ou dificultar a construção da masculinidade.
Nesse sentido, M. Diamond (2004, 2009) denominou o processo de «presença do pai e mãe» enquanto função inconsciente na construção da masculinidade. O autor supõe então a criança capaz de condensar ambos os processos identificatórios. E, portanto, em vez de apenas se evidenciar o corte e salientar a polaridade das escolhas, podemos conceber a criança a conseguir aproveitar o movimento de transformação identitária para mobilizar uma função fálica, sabendo colocá-la ao serviço do contacto com a realidade diferente, e concebendo-a como elemento de ligação e comunicação, capaz de tolerar e conceber a sua incompletude, respeitando a alteridade e a inquietude da descoberta do estranho, tornando-se consciente da sua própria vulnerabilidade.
A complexa tarefa que se impõe ao sujeito, no seu desenvolvimento e evolução psíquica, é a forma como este narcisismo fálico pré-edipiano precoce e esta omnipotência fálica se integram num sentido de masculinidade contínuo e envolvente (Diamond, 2013).
Deste modo, poderá transformar o desejo e prazer por possuir o objeto num instrumento ou função mental diferenciada, capaz de promover a oportunidade da descoberta, criando ligações e encontros intersubjetivos com potencial impactante no seu próprio mundo interno.
Por assim dizer, do mesmo momento pode na realidade emergir o corte, que favorece a intrusividade penetrante ou uma caesura que favoreça a comunicação e construção criativa.
A «versão fálica», hoje referida como expressão de uma «masculinidade tóxica» (Figlio, 2024), é capaz de estimular sentimentos
persecutórios, triunfais, que combatem a esperança pelo domínio, pela destruição e a intrusividade. A «versão seminal» estimula funcionamentos mentais próximos da posição depressiva (em termos kleinianos), mobilizada pela regeneração, tolerante à realidade e disponível à flexibilização, aprendizagem e à sua própria transformação.
O primeiro, identificado ao «pai fálico-narcísico», vive exponencialmente o prazer de penetrar, movido pela fantasia de, ao fazê-lo, se introduzir para se substituir à criatividade materna, sem necessidade do outro. Já o identificado ao «pai com testículos» (expressão utilizada por Meltzer) ou ao conceito penis-as-link, de Birksted-Breen (2016), que caracteriza a masculinidade seminal (Figlio, 2024), é impulsionado pelo desejo de nutrir a criatividade materna, numa expectável intercomplementaridade.
À visão do monismo fálico, que para os homens concebia a masculinidade centrada somente no pénis (e para o feminino, na ausência do pénis), parece simplesmente faltar uma noção de espaço interno, pró-criativo, e as ansiedades específicas que assim ficariam marginalizadas, sem expressão representativa ou mesmo não reconhecidas.
Como tal, a masculinidade é inerentemente ambivalente no que pretende com o objeto, e essencialmente nas ansiedades que revela sobre a qualidade do seu próprio espaço interior: será fértil e vigoroso ou destrutivo, paralisante e venenoso?
Para concluir, pensamos que o dilema da identidade masculina remete para a capacidade de potencialmente integrar ambas as configurações. Tal tem implícito uma exigência no equilíbrio psíquico considerável, acedendo a prazeres diferenciados, por vezes contraditórios e/ou conflituais, mas coexistentes (Aragão Oliveira, 2023, 2024): prazer da posse dominante e/ou prazer do encontro criativo de descobrir o outro, e simultaneamente de se descobrir mais um pouco ainda.
Mas será da organização interna desta coexistência, e do equilíbrio económico alcançado, que se poderá efetivamente constituir uma responsabilidade ética e a função cuidadora da natureza reflexiva inerente ao desenvolvimento da função analítica da mente.
ABSTRACT: The author discusses the evolution of conceptualizations of masculinity in psychoanalytic theory, between the monotheistic, phallic-narcissistic and seminal views, differentiating and interconnecting them. Secondly, the author reflects on the sociocultural and clinical expressions of contemporary masculine identity. Finally, specific aspects of the experience of pleasure associated with masculinity, its psychic organization and specific manifestations are explored in depth.
KEYWORDS: pleasure, masculinity, paternal function, phallic, seminal.