A autora procura partilhar a sua leitura deste ensaio conceptual e metapsicológico que situa o Prazer na sua relação com a construção e expansão da teoria psicanalítica, com a organização do funcionamento mental, a psicopatologia e os pressupostos das abordagens terapêuticas, interligando o pensamento de Freud com os necessários desenvolvimentos da Psicanálise contemporânea. Evidencia-se a conceptualização feita do prazer não como um propósito em si mesmo, mas como parte integrante do processo de existência identitária, ligado ao despertar da relação com o objeto, à busca, à indagação e à criação. É apresentado como enquadrado no caminho da individuação-subjetivação, a partir da base primitiva da dor do desamparo originário na condição humana até à capacidade simbólica, nesta incomensurável interrogação sobre estar no mundo, connosco e com os outros. O autor do livro desenvolve alguma reflexão sobre os meandros das várias particularidades e diálogos em torno do que é o prazer, como se obtém, qual o lugar que ocupa no funcionamento mental, na construção do simbólico e na capacidade de pensar, incluindo a discussão metapsicológica Rui Aragão Oliveira tenta também destacar revisões e interrogações contemporâneas, partilhadas no livro, sobre o masoquismo e a relação entre prazer e agressividade, bem como sobre o Prazer ligado ao conceito bioniano de transformação.
Psicóloga Clínica e Psicanalista de Crianças, Adolescentes e Adultos. Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail: conceicao.m.almeida@hotmail.com
O título deste livro que Rui Aragão Oliveira nos apresenta vai direto ao assunto — o prazer. A utilização da palavra única parece condensar o foco no objeto de estudo e a sua complexidade. É um ensaio conceptual e metapsicológico, situando o prazer na sua relação com a construção e expansão da teoria psicanalítica, com a organização do funcionamento mental, a psicopatologia e os pressupostos das abordagens terapêuticas, interligando o pensamento de Freud com os necessários desenvolvimentos da Psicanálise contemporânea.
Neste trabalho, o prazer é-nos apresentado como um elemento estrutural na questão identitária do Ser Humano. Visto não como um propósito, mas ligado ao despertar da relação com o objeto, à busca, à indagação e à criação de si enquanto sujeito. É, assim, enquadrado no processo da individuação-subjetivação a partir da base primitiva da dor do desamparo originário na condição humana até à capacidade simbólica, nesta incomensurável interrogação sobre estar no mundo, connosco e com os outros. Segue-se esta linha, transversal a todo o livro, sempre impulsionada por um desdobrar de interrogações que vão conduzindo à compreensão da experiência interior que chamamos de prazer, nos aspetos conscientes, mas sobretudo inconscientes. É uma linha defendida por Fairbairn (citado no livro), entre outros, segundo a qual «a libido é essencialmente relacional e aspira a estabelecer a relação com o objecto» (p. 70). Demarcando-se da conceptualização homeostática do prazer enquanto determinante último na motivação humana, propõe o Prazer, antes, como propulsor da evolução e do crescimento mental.
É um livro estético com momentos poéticos, é um livro científico que mobiliza contributos da filosofia, da economia, da arte, das neurociências. Integra estas vertentes e, por tudo isto, torna-se desafiante e prazeroso, contrariando também a ideia de que a experiência do prazer é sinónimo de redução de tensão.
Desta forma, Rui Aragão Oliveira convida-nos a pensar várias especificidades e diálogos em torno do que é o prazer, como se obtém, qual o lugar e a importância do equilíbrio económico-dinâmico no funcionamento mental, na construção do simbólico e na capacidade de pensar. E chama-nos à atenção para o facto de o tema ser «quase sempre abordado mais pela incapacidade de obter satisfação e prazer, pela dor que isso provoca e pelo que é capaz de mobilizar no ser humano,
do que verdadeiramente suscitar a oportunidade de usufruir, ou refletir no Prazer» (p. 53).
Em atitude binocular, o autor revisita e explora a riqueza das contradições e incoerências inerentes à questão do lugar do prazer no equilíbrio dinâmico-económico do psiquismo, bem como na luta entre a busca do prazer do reencontro e o evitamento da dor da perda, nas diversas formas de obter prazer ou nos estados de aprazer, dando conta de que foi com estes paradoxos que a Psicanálise foi criada, se expandiu e irá continuar a expandir-se.
Uma dessas particularidades, estreitamente ligada à condição da alteridade, é sobre a relação entre prazer, sofrimento e frustração, mostrando o modo mentalmente complexo como nos organizamos na procura alucinatória da fusionalidade (imprescindível à diferenciação) que transportamos na nossa circunstância gregária, através de expectativas que Bion (1962) chamou de pré-conceções. O prazer, conjugado com a dor, é considerado elemento essencial no propósito do acesso ao objeto, ao serviço da representação interna deste, para que possa emergir a atribuição de significado em cada experiência de encontro ou de desencontro.
Explorando diferentes formas de alcançar prazer, no texto aborda-se também a questão da relação entre a economia do prazer e a dinâmica do inconsciente: alcançar o prazer pela descoberta (do recalcado) ou pela criação do que não existe (o não representado), realçando a maior profundidade desta última. Neste ponto, deixa-se implícita uma interligação com dois modos de fazer e estar na psicanálise: o clássico e o contemporâneo, demarcados pela linha da segunda tópica e pela ideia de construções em psicanálise, sendo o modo contemporâneo mais fundo e integrador, não se opondo ou excluindo o clássico.
O autor convida-nos ainda à vertente da economia psíquica ligada ao Prazer, a partir de um vértice que revolucionou, no tempo de Freud estudante, a economia objetivista com a introdução de noções calorosas como subjetividade, desejabilidade e satisfação. E daí, liga-se ao papel central que o Prazer tem no equilíbrio psicodinâmico do Psiquismo.
Mapeando de forma clara o modo como o ser humano se organiza psiquicamente, nesta procura de si na relação com o outro, é mostrado como a psicopatologia se pode apresentar em dois
territórios: o histriónico, onde o prazer não pode ser sentido como tal, governado pela interiorização da moral sexual com imperativos de abstinência ou autocontrolo, medos vários, culpa e vergonha como guardiões do autoboicote da fruição, expressos através do controle sedativo da ruminação com reverso de «bela inconsequência»; e o narcísico-depressivo, de insatisfação e humilhação permanentes, de reivindicação, às vezes passiva no formato de desvitalização, outras vezes de busca de inimagináveis, inesgotáveis e compensatórios prazeres, dominados pela urgência do imediatismo sensorial.
E qualquer um deles «lobotomiza» a possibilidade de um terceiro lugar mental, qualitativamente diferente e ameaçador pelo contacto com a dor e com a frustração, pelo luto pela perfeição, pela desidealização da fusionalidade, mas também pela liberdade de usufruir, renunciando ao self insaciável. É, contudo, neste terceiro lugar, de equilíbrio dinâmico-económico entre o prazer e dor (também subjacente a todo o livro), onde o erro ou lapso pode ser integrado e desenvolvido, que «emerge um lugar para a construção do subjectivo […] e a desejabilidade inerente que confere valor a determinado objecto, acontecimento, acção ou atitude» (p. 54).
Podemos ainda encontrar uma reflexão sobre situações em que prazer e sofrimento possam coexistir num mesmo indivíduo, em que a busca de fusionalidade rigidamente idealizada pode lançar-se numa perda de limites e até de contacto com a realidade, com fenómenos disruptivos. Será o domínio da luta contra a besta do aniquilamento e a morte psíquica — a psicose.
Em nosso entender, este livro é profundamente marcado pela revolução introduzida com a noção do id da segunda tópica e pelas consequências da descoberta da pulsão de morte. Nessa medida, reposiciona o prazer nas linhas da Psicanálise Contemporânea, laborando nos trabalhos da fase tardia de Freud e nos fortes contributos dos que o expandiram, como Klein, Bion, André Green e outros. Variáveis como a capacidade de tolerância à frustração e à dor mental, a noção bioniana de transformação, passam aqui a ser não só incluídas como determinantes nas questões que Rui Aragão Oliveira nos deixa para pensarmos.
A partir de inquietações clínicas como a compulsão à repetição, a relação entre a agressividade e o prazer, o masoquismo, que na
história da Psicanálise impulsionaram a investigação e as alterações na conceptualização do mundo e do funcionamento mental, ao nível metapsicológico o autor conjuga várias perspetivas do prazer, desde a económica à relacional, interligando-as num contributo dirigido ao que, na nossa leitura, nos parece ser a compreensão da profunda dimensão de construção do sentido de self. Aqui, o prazer passa a ser também o prazer ligado à transformação, à transformação em sonho, ao encontro com o objeto transformacional, aquele cuja constância é feita da integração das invariâncias, mas com as imprescindíveis variâncias a cada novo minuto criativo de representação interna e a cada nova expectativa de vir a criar uma nova memória de futuro, a partir do que não existe ainda e não se sabe bem o que será.
Permanece central a ideia intersubjetiva de que «o despertar para o Prazer ocorre com a aquisição da noção de objecto e da relação constituída, tal como a ansiedade nasce com o receio da perda» (p. 86), onde a dor beneficia em ser lida como intenção de busca de auxílio e o prazer passa a estar também ligado ao processo de transformação. Mas podemos, também, pensar que somos remetidos para a noção de busca da verdade, para os vários e mais profundos níveis de identificação, o grande desconhecido no qual está, igualmente, o potencial para a criatividade e a originalidade, de acordo com a redefinição de inconsciente não representado da segunda tópica, que o autor refere ser ainda hoje mal integrada ou parcialmente integrada por académicos e estudiosos. Afinal, um inconsciente como função (Bion, 1962) e não como lugar, no qual também podemos confiar; e daí, o prazer é também o prazer do sonho, da criatividade, da construção e da procura. O primeiro pensamento e o primeiro desejo nascem, em suma, do encontro com o objeto ausente. Ou seja, com a possibilidade de o recriar internamente.
Refundando a função organizadora do balanço entre o prazer e a dor na atribuição de significado da existência identitária, Rui Aragão Oliveira coloca-nos perante «outro gigante ainda por esclarecer», que é o masoquismo. Faz uma integração da revisão conceitual realizada pelo psicanalista italiano da atualidade Giuseppe Civitarese, apresentando o masoquismo como implícito à condição humana, ligado à busca do objeto e da individuação, onde o ritmo do balanço com a dor é central. Mas, sobretudo, associado aos traços traumáticos deixados
pela relação primária com este, podendo organizar-se patologicamente. Acrescentaremos, de forma proporcional e secundariamente, à falência do amor.
Encontramos aqui, nesta matéria, alguma ligação com a posição de Laplanche (1992), quando defende que a busca do contacto com a excitação que vem do inconsciente do objeto é uma experiência imensamente traumática. Mas como um vestígio no humano que o acompanhará toda a vida, também na relação com o que desconhece dentro de si.
Nesta revisão, a compulsão à repetição masoquista é relida não como uma escravização à pulsão de morte (ou como uma expressão desta), mas como um sonhar (que pode também ser um sonhar no corpo). Não serviria, como nos refere o autor, para satisfazer ou encenar um desejo incestuoso reprimido, mas, sim, para realçar um estado ansioso e uma tentativa de pré-organizar a transformação em linguagem, antecipando a representação simbólica. Portanto, como uma tarefa ligada à atribuição de significado e não à destrutividade. A destrutividade é algo diferente. Como refere Laplanche (1992), é a circulação do não sentido, o sinal da não integração da pulsão de morte, no objeto total. Acrescentando que em relação a esta pulsão Freud não lhe atribuiu energia própria.
Na linha do processo de diferenciação self-objeto, mais abrangente do que a linha pulsional, surgem ainda algumas interrogações estimulantes acerca da complexa interligação entre o prazer e os diferentes tipos de agressividade ou a malignidade sem sentido associada a estados de forte desespero. Um outro «gigante» ainda por esclarecer, na compreensão de situações extremas como o terrorismo e a guerra.
E todas estas reflexões acabam por ser transpostas para o plano da transformação no campo analítico, onde Rui Aragão Oliveira mobiliza a conceção metapsicológica de Bion para nos alargar a compreensão acerca da mudança psíquica e ajudar a ir além de Freud nesta problemática, que de certo modo nos oferece como solução a ideia pouco desenvolvida e falível da sublimação. Diz-nos: «Bion entende que, para garantir a ocorrência de transformações psíquicas, é essencial que ambos os princípios co-existam [Princípio do Prazer e Princípio da Realidade]. Só assim, na plenitude do funcionamento dos
dois supostos princípios, reunimos condições para a concretização da mudança psíquica e o desenvolvimento da capacidade de pensar» (p. 65).
Em reforço, dá-se uma pertinente advertência de que ao psicanalista não interessa sobrepor o princípio da realidade, pois este e o Inconsciente são de ordens e lógicas diferentes. O trabalho de modificação da frustração no sujeito está longe de ser um trabalho racional, e as mudanças psíquicas apenas determinadas pelo consciente. Maria Fernanda Alexandre, no seu estudo «Mudanças Psíquicas no Processo Terapêutico – O Papel do Narcisismo», chama a atenção para a mudança desejada poder ser sentida como insuportável por significar uma traição e um abandono dos objetos internos. Será preciso todo um trabalho que proporcione vivência, a duas mentes, para novas identificações e novos investimentos securizantes. E, assim, pelo alargamento da capacidade de sonhar, se «descongela o equilíbrio psíquico» estagnante para que possa haver fruição subjetiva do prazer de ser, bem como crescimento psíquico.
Por fim, o autor deixa-nos umas palavras sobre esta «estranha forma de vida», no capítulo «Notas sobre o Prazer e a clínica psicanalítica». Destaca-se a atitude analítica de ser analítico sobre o próprio processo psicanalítico, sobre o prazer e a dor no percurso identitário do analista. O prazer de coconstruir, da intimidade, mas também do encontro com a diferença do outro. A dor-prazer de tolerar que não se sabe. Rui Aragão Oliveira retira o psicanalista suficientemente do altar da idealização, o que não produz outra coisa senão inibição no crescimento e colonização.
ABSTRACT: The author of this article seeks to share her reading of this conceptual and metapsychological essay, which situates Pleasure in its relationship with the construction and expansion of psychoanalytic theory, the organization of mental functioning, psychopathology, and the assumptions underlying therapeutic approaches, connecting Freud's thinking with the necessary developments in contemporary psychoanalysis. The concept of Pleasure is highlighted not as an end in itself but as an integral part of the process of identity existence, linked to the awakening of object relations, the pursuit, inquiry, and creation. It is presented as embedded in the path of individuation-subjectivation, from the primitive basis of the pain of original helplessness in the human condition to symbolic capacity, within this boundless questioning of being in the world, with ourselves and with
others. The book's author offers reflections on the intricacies of various particularities and dialogues around what Pleasure is, how it is obtained, and the role it occupies in mental functioning, the construction of the symbolic, and the capacity to think, including metapsychological discussion. Rui Aragão Oliveira also seeks to highlight contemporary revisions and questions shared in the book on masochism and the relationship between pleasure and aggression, as well as on Pleasure related to the Bionian concept of transformation.
KEYWORDS: metapsychology of pleasure, subjectivation, sense of self, masochism, transformation in dreaming.