O fenómeno trans configura-se na atualidade como representativo de toda uma série de tensões, articuladas no plano social, político e cultural, assim como na forma como a clínica perspetiva tais formulações. Central a este discurso, o corpo surge como dimensão importante, considerando-se as suas transformações como representativas de um grau maior de liberdade pessoal. O presente estudo tem como problema de investigação a vivência do corpo de pessoas trans. Empregando os termos propostos por Lemma (2022), procuramos compreender a experiência providenciada pelos participantes do estudo relativamente ao «corpo dado» e ao «corpo certo»/corpo ideal. Metodologicamente, optou-se por uma pesquisa de cariz qualitativo, sendo empregado o método biográfico-narrativo-interpretativo. Em termos dos resultados obtidos, verificou-se que o período da puberdade revela ser de particular importância na transição entre o corpo dado e o corpo ideal, assistindo-se a uma diversidade de posicionamentos em relação a tal formação. O processo de transição é alvo de profunda reflexão, sendo que o ato cirúrgico aparece como opção, não enquanto necessidade óbvia. Em termos de conclusão do estudo, aponta-se para a implicação ética da teoria e prática psicanalítica na relação com este fenómeno.
Artigo submetido para publicação em dezembro de 2024 e aceite em março de 2025.
Psicólogo clínico (ISPA), Doutor Europeu em Estudos Culturais (FCSH-UNL). Membro da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica. Realiza investigação, de carácter transdisciplinar, nas áreas do género e sexualidade, trauma e violência. E-mail: dmatiaspt@gmail.com
Devido a uma confluência de diversos fatores, é possível afirmar que na atualidade o fenómeno trans atua como elemento agregador e revelador de toda uma série de ansiedades e conflitos, aspirações e reivindicações.3 Como afirma Missé (2014), «o fenómeno da transexualidade funciona quase como um paradigma em que se materializam alguns dos principais desafios do nosso modelo social» (p. 22). O alcance cultural de tal matéria, entre a discussão ponderada e o sensacionalismo, é indicativo de uma visibilidade inédita das pessoas trans.
O impacto de tal discussão no mundo psicanalítico viria a materializar-se, de forma mais óbvia, em 2019, com o discurso do filósofo Paul Preciado, proferido no âmbito de uma conferência em Paris organizada pela École de la Cause Freudienne. Preciado, fazendo uso alusivo de uma personagem de Kafka — o macaco Pedro Vermelho, que, perante uma academia científica, demonstra a sua inadequação entre símio e humano —, viria deste modo interpelar a audiência de psicanalistas: «Eu sou o monstro que vos fala. O monstro que vocês construíram com os vossos discursos e as vossas práticas clínicas. Eu sou o monstro que se levanta do divã e toma a palavra, não enquanto paciente, mas, sim, enquanto cidadão, enquanto vosso igual monstruoso» (Preciado, 2020, p. 17). No seu discurso, Preciado criticava a patologização da transexualidade por parte da Psicanálise, assumia que esta se encontrava ainda largamente informada por uma cultura patriarcal e colonialista, cultura essa que percebe ser veiculada pelos textos de Freud e de Lacan, pelo que sugere como contraponto necessário uma psicanálise das instituições analíticas. Preciado concluiu
De acordo com Saketopoulou (2020), o termo «trans» procura «descrever um conjunto heterogéneo de indivíduos que partilham uma sensação de não concordância entre o género experienciado e o género atribuído à nascença com base na observação do sexo» (p. 1019). No presente trabalho, optou-se pela utilização deste termo, por se considerar ser o mais atual no âmbito desta área de estudos. Não obstante, como poderá ser observado ao longo deste estudo, outras nomenclaturas, como «transexual» ou «transgénero», são igualmente empregadas, sinal quer da heterogeneidade conceptual própria deste campo de investigação (Lemma, 2022), quer da compreensão idiossincrática de cada autor relativamente a este fenómeno. De forma geral, no presente estudo, o termo «transgénero» referir-se-á a pessoas que não se identificam com o género atribuído à nascença, sendo o termo «transexual» empregado para designar as pessoas que veiculam o desejo de mudança de sexo.
advogando por uma libertação de Édipo e uma consequente aliança com os «monstros», no sentido de «politizar os corpos, desbinarizar a sexualidade e descolonizar o inconsciente» (p. 121). Várias têm sido as respostas da comunidade psicanalítica, particularmente da franja lacaniana, aos argumentos do filósofo. Em particular — e como forma de ilustração da dimensão atual destas questões —, do psicanalista Allain Miller, que viria a declarar que «a crise trans está entre nós» (Miller, 2021, p. 3). Chegou a considerar-se 2021 como o année trans, perante todo o fulgor mediático e político.
Em larga medida, a conferência de Preciado constitui um momento lógico e inevitável em termos das discussões e tensões presentes entre psicanálise e a temática do género e sexualidade. À crítica feminista do falocentrismo das principais teorias psicanalíticas, assim como a exposição da heteronormatividade das mesmas por parte de académicos e ativistas no âmbito dos estudos sobre sexualidade, alia-se uma crítica da binarização dos sexos. Porchat (2020) considera como o encontro da psicanálise com o género se realiza através de «atração e repulsa» (p. 14), ilustrando assim as várias tensões que se organizam e espelham neste (des)encontro.4
Seguramente, uma leitura linear das relações entre psicanálise e a temática do género e sexualidade será contraproducente. Não obstante a pertinência de vários dos argumentos de Preciado, a sua leitura da relação entre psicanálise e género é, em várias instâncias, generalista:5 a sua acusação da constante patologização, por parte da Psicanálise, de práticas não normativas, não obstante ser pertinente de um ponto vista histórico e político, peca por uma imprecisão advinda da sua generalização. Uma perspetiva contextualizada dos saberes e elaborações da Psicanálise indicaria que esta exibe na sua história também práticas e pensamentos caracterizados por um eixo progressista e humanista, largamente ausente na sexologia e psiquiatria do século XIX (Roudinesco, 2002).
A generalização de Preciado desconsidera como tem sido através do uso da teoria psicanalítica que vários dos argumentos culturalmente enraizados no âmbito do género e sexualidade têm sido
questionados; embora, para este processo, tenha sido necessária igualmente uma crítica interna da própria teoria psicanalítica, presente na própria atualidade, relativamente aos seus fundamentos, considerações e preconceitos.
O presente estudo tem como problema de investigação a vivência do corpo de pessoas trans. Mais precisamente, e empregando os termos propostos por Lemma (2022), procuramos compreender a experiência providenciada pelos participantes do estudo relativamente ao «corpo dado» e ao «corpo certo». Atendendo à diversidade de temporalidades em termos do processo de transição por parte dos participantes, optou-se no presente estudo por utilizar nas entrevistas o termo «corpo ideal», em vez de «corpo certo», desta forma procurando sublinhar a importância da fantasia nas considerações ao nível da construção do corpo.
Tratando-se de um estudo exploratório, em termos das questões baseadas na literatura existente sobre o objeto de estudo, procurámos abordar os seguintes tópicos relacionados com a experiência do corpo: (a) as temporalidades experienciadas como relevantes no âmbito da construção do corpo próprio, nomeadamente infância, puberdade/ /adolescência e atualidade dos participantes; (b) as experiências e compreensões próprias das dimensões do feminino e masculino; (c) como é compreendido o processo de transição e as experiências pessoais relativas ao mesmo, como sendo o nome ou a cirurgia; (d) quais as expectativas e imagens associadas ao corpo ideal.
Numa perspetiva histórica, de acordo com Jorge e Travassos (2018), a transição entre os sexos era um tema já abordado por Hipócrates e Heródoto. No campo particular da Psiquiatria, o primeiro registo de um caso próximo à transexualidade foi apontado pelo psiquiatra francês Jean Esquirol. Em 1910, o sexólogo Magnus Hirschfeld empregou o termo «transexual psíquico» para se referir a travestis fetichistas (Lattanzio, 2021). O termo «transexual» apareceria pela primeira vez em 1949, num artigo de D. Clauwell, em que se diferencia tal categoria de outras, como a homossexualidade ou o travestismo. O uso do conceito na Medicina inaugurou-se em 1953, pela mão do endocrinologista alemão Harry Benjamin. A primeira cirurgia de que se tem
documentação realizou-se em 1921. Em 1955, John Money, ao introduzir o conceito de género no âmbito do corpus científico, propulsionou novas investigações sobre transexualidade.
A Psicanálise, na interseção com diferentes disciplinas e saberes, como sendo a Medicina e a Sexologia, encontra-se imbricada nesta história. Relativamente às teorias psicanalíticas sobre a transexualidade, Lattanzio (2021) verifica a existência de três atitudes distintas perante este fenómeno: 1) compreensão; 2) patologização; 3) crítica da normatividade presente nas teorias sobre género e sexualidade. Para Lemma (2022), as teorias psicanalíticas clássicas entenderam a transexualidade através de uma lente essencialista e normativa, sendo assim considerada como a demonstração de um distúrbio narcísico, uma perversão, ou revelando a existência de uma estrutura psicótica (p. 28).
Igualmente, será possível apontar como os primeiros desenvolvimentos na consideração da transexualidade geralmente a equacionavam com a homossexualidade, originando assim a confusão entre, respetivamente, identidade de género e escolha de objeto sexual. Para Jorge e Travassos (2018), uma hipótese a ser colocada na génese da transexualidade será de que se tratam de sujeitos homossexuais que, por ação de defesa extrema frente à sua sexualidade, empregam uma ação no real do corpo de forma que possam adequar a sua identidade às normas sociais. Esta é a hipótese geral de que a transexualidade será uma defesa contra a homossexualidade.
Atendendo quer às críticas advindas dos movimentos sociais, quer à adoção crescente de epistemologias centradas na noção de complexidade, as teorias psicanalíticas da contemporaneidade têm vindo a refletir uma noção múltipla no cerne das formulações das subjetividades trans. Para Lemma (2022), uma visão psicanalítica contemporânea procura integrar o pensamento psicanalítico com perspetivas biológicas e sociais (p. 30), dando particular relevância a aspetos culturais e sistémicos, compreendendo o género e a sexualidade como construções que desafiam noções essencialistas (p. 31). Tal confluência de fatores tem sido assim assinalada por teóricos deste campo interdisciplinar de estudos, na tentativa de procurarem compreender o que leva alguém a desidentificar-se do sexo atribuído à nascença. Cavanagh (2017) recapitula toda uma série de esforços por parte de
teóricos queer que procuram assinalar como as fantasias de várias pessoas trans implicam uma busca do corpo que deveria ter estado presente desde o início. Neste âmbito, Breslow (2017, pp. 432–433) considera como todos os corpos «são de forma continuada e laboriosa produzidos através de sentimentos, desejos, fantasias e processos de identificação (e, assim, de reconhecimento e não reconhecimento)».
Lemma (2022) argumenta que a pluralidade das experiências de pessoas transgénero não se reduz a uma questão psicológica ou psiquiátrica, nem mesmo a uma questão de ordem sociocultural. Assim, avança com a noção de que compreender o mundo interno do indivíduo transgénero implica considerar a experiência subjetiva da corporeidade (embodiment). Igualmente, Lattanzio (2021) considera como os aspetos relativos ao género são centrais na vida de pessoas transexuais, particularmente a busca de adequação ao género a que sentem pertencer, adequação essa que se procura alcançar através do uso e modificação do corpo.
Neste âmbito, importará recordar que para Freud (1923) o Eu seria primeiramente um Eu corporal, sendo assim a autorrepresentação mais antiga a representação corpórea. As experiências precoces, de natureza largamente sensório-motora, vão permitindo a organização — ou desorganização — de um sentido de identidade. Apoiando-se na teoria freudiana das identificações e da primazia inicial do Eu enquanto organização corporal, assim como nas teorias de Jean Laplanche, Heenen-Wolff (2021) sublinha como o inconsciente da criança «é formado através de um “diálogo” implícito com as perceções mais subtis do comportamento adulto, que é psiquicamente significativo, mas não traduzível em significados claros» (p. 469). Na relação criança-adulto, necessariamente assimétrica, ocorre a transmissão de mensagens enigmáticas, possivelmente contraditórias, que informam o desenvolvimento gradual do inconsciente da criança. Vila-Real (2023) assinala como a sexualidade emergente da criança e a sua organização corporal é necessariamente influenciada pela sexualidade inconsciente do adulto: «é esta influência que emancipa o corpo infantil do jugo fisiológico, mas que, sendo excessiva, pode resultar traumática, e, por isso mesmo, manter uma acentuada predominância do corpo somático» (p. 71).
Tais experiências encontram-se imbrincadas num contexto intersubjetivo, e foi o reconhecimento de tal que permitiu à teoria
psicanalítica colocar o corpo como ponto de relação privilegiado entre o sujeito e o outro. Seguindo nesta esteira, Von Doellinger (2017) comenta como, derivando da obra de Merleau-Ponty, se pode considerar o corpo enquanto eixo central da constituição da identidade pessoal: «O corpo humano, encarnação da pessoa, é o lugar onde nascem e se manifestam os desejos, as sensações e as emoções. E é também aquilo que nos permite encontrar os outros, manifestando a natureza relacional do indivíduo pela afirmação da sua individualidade» (p. 66).
A importância do corpo no fenómeno trans reaviva o debate sobre a conceção dualista «corpo-mente». Numa compreensão psicanalítica, tal dualidade tem sido claramente criticada. De acordo com Jorge e Travassos (2018), o corpo considerado pela psicanálise, o «corpo pulsional», difere de considerações de ordem biológica, fisiológica ou anatómica: «o corpo pulsional é heterogêneo ao imaginário da anatomia corporal e […] não está submetido exclusivamente a alguma lei natural» (p. 32).
Para vários autores contemporâneos, que procuram ressignificar a ideia clássica de que intervenções no corpo seriam uma forma de acting out, o fenómenos trans é entendido não como uma expressão de patologia, mas, sim, de criatividade. O conceito de sinthome, apresentado por Jacques Lacan no seu Seminário XXIII , tem sido central na discussão e compreensão psicanalítica do fenómeno trans. Sinthome, enquanto a formulação antiga da língua francesa para a palavra «sintoma» (symptôme), é entendido por Lacan como uma mensagem que não é dirigida ao Outro ou pede interpretação, sendo a condição exemplificativa da singularidade do sujeito.
A título de exemplo, Gherovici (2017a) considera o fenómeno trans não como uma questão de «ter», mas como uma estratégia de «ser». Assim, e apoiando-se na formulação lacaniana do sinthome, Gherovici entende a subjetividade trans como a forma singular através da qual se alcança a possibilidade de vida. Gherovici (2017b) compreende que esta noção lacaniana proporciona a possibilidade de pensar no fenómeno trans; para esta autora, a experiência trans revela uma experiência partilhada, a impossibilidade de representar a sexualidade de forma clara e óbvia: «todas as questões de identidade sexual giram à volta de um corpo particular, um corpo no qual não se nasce, mas que se torna» (p. 542). Igualmente, outros autores, como Jorge e Travassos (2018), afirmam que se anteriormente seria a homossexualidade
que abalava um certo consenso social sobre a natureza da sexualidade humana, é a transexualidade que desempenha tal papel na nossa atualidade. De acordo com os autores, «a transexualidade escancara a absoluta ausência da naturalidade do corpo e exibe o caráter heterogêneo da linguagem em relação a ele» (p. 74). Atendendo à complexidade de tais políticas, o corpo trans tornou-se num «barómetro social das políticas da diferença» (Gherovici, 2017a, p. 6).
Nesta leitura, o processo de transição — independentemente de implicar ou não cirurgia — é entendido como uma procura de formar novas representações, de tradução do anteriormente não representado. De acordo com Breslow (2017), uma leitura lacaniana no âmbito do desenvolvimento psicossexual considera não a centralidade do corpo material, estritamente anatómico, mas, sim, os «significados de ordem simbólica que são implicados sobre a anatomia» (p. 438). As fórmulas lacanianas de sexuação encontram uma maior adesão por parte de vários teóricos, já que estas implicam um modelo derivado da lógica e não dos contornos anatómicos (Gherovici, 2017b).
Por outro lado, Lemma (2022, p. 33) aponta um possível limite de tais teorias, uma vez que ao implicarem um certo nível de idealização do fenómeno trans e queer como largamente espaços de possibilidade infinita em termos de invenção e reinvenção, arriscam desconsiderar os aspetos relacionados com a dor e o possível desapontamento que fazem parte dos processos de transição. Não obstante os avanços tecnológicos e médicos, os processos de transição são ainda longos e compostos por diferentes fases, o que implica uma compreensão minuciosa das motivações inerentes à tomada de decisão de nestes se implicar. Numa vertente etnográfica e pessoal, Connell (2010) alude a como os processos de transição não são estáticos: por um lado, implicam uma recolocação na ordem de género — aqui podendo estabelecer-se paralelos com a posição de Gherovici —, assim como são prova de, e apontam para, mudanças históricas no âmbito das relações de género.
Com um foco na clínica, e baseando-se em Merleau-Ponty, Lemma (2022) estabelece a distinção entre esquema corporal — o conjunto de processos sensório-motores que regulam a postura e movimento — e imagem corporal, que seria o «mapa psíquico/libidinal do corpo» (p. 40), organizado de acordo com as leis da biologia e os significados e fantasias de cariz inconsciente que influem na experiência do corpo.
Assim, a prática clínica, argumenta Lemma, encontra-se particularmente focada na compreensão da imagem corporal, uma vez que esta compreende uma «anatomia imaginária» (p. 40), sendo o resultado de significações particulares e de cariz idiossincrático promovidos nas relações mais precoces. O corpo adquire assim, igualmente, um carácter transgeracional, uma vez que recapitula toda uma vasta gama de investimentos inconscientes. Como indica Lemma (2022), o corpo conta a história familiar, de várias gerações.
Desta forma, e reconhecendo a centralidade do corpo na organização de uma identidade coerente, Lemma (2022) considera como a ideia de um «corpo natural» é imprecisa, uma vez que todos os corpos são locais de modificação e construção, fenómenos claros quando percebemos a ação variada de projeções de outros significativos, assim como as determinações oriundas do contexto cultural, por via das suas normas e valores próprios. Ultrapassando-se a noção de «corpo natural», surge a noção de «corpo dado», o corpo que advém dos elementos próprios da fisicalidade e psicogenética e que, logo nas interações mais precoces do bebé, sofre modificações, através do olhar, toque e projeções. Lemma introduz ainda a noção de «corpo certo», o corpo que o indivíduo sente reconhecer como seu.
Uma noção subjetiva do corpo, como apresentada na expressão introduzida por Lemma de «corpo certo», implica compreender que o corpo é construído em larga medida através do olhar do outro. Através de processos crescentemente elaborados de espelhamento e mentalização por parte de figuras significativas, assiste-se ao desenvolvimento de um sentido próprio do que significa o corpo para si. Central neste processo será a distinção, como apresentada por José Gil, entre o «ver» e o «olhar». Para o filósofo, se o «ver» implica necessariamente uma distância, o «olhar» compreende já uma aproximação, mesmo que tentativa: «O olhar implica uma atitude […] de participar no espetáculo total da paisagem» (p. 48).
Relacionando com a articulação complexa do olhar e ser olhado, Lemma (2022) coloca quatro temas centrais como exemplificativos da sua experiência com pacientes transgénero:
a existência de uma incongruência entre o «corpo dado» e o «corpo certo»;
dificuldade em relatar tal incongruência a figuras de vinculação significativa;
experiência de não ser reconhecido ou de ser visto, não olhado;
foco na materialidade do corpo.
Igualmente, em termos das subjetividades trans, Vila-Real (2023) localiza três tipos de dinâmicas com o corpo:
a não identificação com o género atribuído, com desejo de mudança de sexo: verifica-se a fantasia de não adequação perante o olhar do outro ou perante o espelho;
a não identificação com o género atribuído, sem desejo de mudança de sexo: verifica-se a procura de eludir o binarismo entre masculino e feminino;
pessoas que procuram ignorar a existência do seu corpo: dinâmica que se origina devido a experiências muito precoces de sofrimento físico por razão de doença grave.
Para vários autores (Heenen-Wolff, 2021; Lemma, 2022), a procura do corpo certo advém de um colapso do processo de espelhamento na infância. Lemma (2022) aponta como a relação primária de cuidado implica uma função de espelhamento, nomeadamente no âmbito do estádio do espelho, que se dá entre o sexto e o décimo oitavo meses, em que toda uma série de desenvolvimentos de particular importância ocorre no âmbito da diferenciação Eu e não-Eu (Winnicott (1971/2005). Tal período afigura-se como central na criação de uma autorrepresentação do bebé e da capacidade de pensamento — falhas que ocorram neste âmbito poderão conduzir a uma experiência severa de incongruência localizada na relação com o corpo, surgindo assim a procura de um corpo sentido como coerente, ou «certo» (pp. 44–46). As formações de compromisso que espelham as transformações necessárias, ocorridas desde o corpo dado ao corpo que um é, ilustram como a corporeidade forma a mente. Podemos assim argumentar pela centralidade do corpo no fenómeno trans, por um lado implicado como está numa série de mensagens transgeracionais, por outro fazendo notar-se a sua desejada vivência de acordo com parâmetros idiossincráticos.
Em termos da metodologia do presente estudo, optou-se por uma abordagem de cariz qualitativo, por se considerar a pertinência da obtenção de narrativas pessoais e do significado particular de cada participante perante a questão de estudo (Creswell, 2007; Robson, 2002). Procurámos assim obter narrativas biográficas parciais, conceptualmente focadas num aspeto da biografia dos participantes (as suas experiências do corpo).
Empregou-se o método biográfico-narrativo-interpretativo (Wengraf, 2001), composto por três momentos (subsessões) de entrevista. Na primeira subsessão, o entrevistador coloca uma única pergunta de forma a eliciar a narrativa na sua totalidade, não havendo interrupções. Na segunda subsessão, o entrevistador procura eliciar mais informação sobre os tópicos abordados na narração inicial, seguindo a ordem em que estes foram surgindo e utilizando a linguagem e conceitos empregados pelo entrevistado. Na terceira subsessão, procura refletir-se em duas componentes principais: (a) questões que tenham surgido na análise preliminar das primeiras duas subsessões; e (b) questões teóricas provindas da análise da literatura.
A amostra do presente estudo constitui-se em quatro participantes que à altura do contacto e realização das entrevistas se identificavam como trans. Todos os participantes eram maiores de idade, rondando entre os 19 e 30 anos. Três dos quatro participantes eram biologicamente mulheres à nascença. Aquando das entrevistas, uma participante encontrava-se num processo de transição de homem para mulher (M-F); dois participantes evidenciavam uma identidade considerada como mais fluida, ou incerta; um outro participante realizava o seu processo de transição de mulher para homem (F-M). Todos os participantes, à exceção de um, se encontravam empregados. Em termos de qualificações académicas, dois participantes tinham mestrado, um tinha o grau de licenciatura e um outro encontrava-se a completar o ensino secundário.
As entrevistas totalizam cerca de oito horas, tendo sido conduzidas no período entre maio e setembro de 2022. À exceção de uma primeira subsessão de entrevista, todas as entrevistas foram conduzidas virtualmente, por razão da situação pandémica. Todas as entrevistas foram gravadas, na sua componente áudio, com o consentimento expresso
de cada participante. Nos contactos, utilizaram-se os pronomes com que cada participante se identificava, seguindo-se assim linhas éticas propostas em investigação (American Psychological Association, 2015).
No âmbito da apresentação e análise dos resultados, considerou-se a divisão desta secção de acordo com os temas propostos nas entrevistas.
Todos os participantes veicularam a vivência da experiência de «diferença» na infância, que é associada a um contexto familiar em que a sexualidade é considerada tabu. Como coloca uma participante: «O que fazer com a sexualidade sem fins reprodutivos?» A sexualidade aparece como norma, entendida pelo prisma do «natural», seguindo assim os trâmites sociais, como se de uma função óbvia se tratasse.
A estratégia seguida por figuras da família mais próxima parece não ter sido de uma contenção das dúvidas e angústias próprias do desenvolvimento, mas, sim, de uma domesticação a normas sociais entendidas pelos participantes como restritas. Parece, assim, ter-se organizado um modelo angustiado do que é a sexualidade; empregamos aqui o termo «angustiado» como descritivo desta adesão extrema à norma social, restrita na reflexão, que impede assim de compreender a criança enquanto esta se vai revelando, para lá da imposição social. A exuberância infantil é vista como ameaçadora: a singularidade parece ter sido preterida, em prol da domesticação cultural do corpo.
Em todas as narrativas se verifica uma ideia de pertença ao género oposto. Como formula uma participante que nasceu mulher, desde que se lembra de si sente «uma afinidade pelo lado masculino». O fantasma da homossexualidade paira igualmente na subjetivação do corpo nestes tempos primeiros, homossexualidade essa que parece ter sido compreendida de forma simplista por advir de uma conceção binária da sexualidade: a homossexualidade como simbolizando o negativo, contrária à heterossexualidade positiva. Tal compreensão parece localizar-se num contínuo lógico em que tudo aquilo que veicule uma possível ultrapassagem de fronteiras do que é aceitável do género «natural» é visto como violador da ordem social e, assim, punível.
Como previsto, as narrativas localizam o despertar de questões relacionadas com a subjetividade trans na puberdade/adolescência.
A família não é compreendida como um espaço seguro para lidar e digerir as ansiedades próprias deste período de intensas mudanças; pelo contrário, surge uma teoria da família impeditiva do desenvolvimento do sujeito. Ao invés de a família promover um espaço e tempo de experiência mediado pela continuidade e reflexão, parece ter, em traços gerais, uma atitude de imposição, assim como de impedimento da curiosidade, onde o corpo não pode ser pensado.
Uma participante coloca como, aquando do tempo da puberdade, olhava para outros e fazia um jogo/role-play com aquilo que gostava e o que não gostava. Na sua narrativa, orientada por uma economia estroboscópica, parece surgir uma noção de afastamento, de interação visual mediada por uma certa dificuldade em interagir de forma mais direta. Poder-se-á colocar a hipótese de que uma vez que a família não se apresentou enquanto possibilitadora do espaço e tempo de brincadeira — e, consequentemente, de busca segura pelos alicerces do Eu —, surge uma certa hesitação em tomar de forma mais ativa esse papel de busca e procura por um sentido próprio. Por outro lado, esta hipótese encontra já uma possível objeção, dado que muito do trabalho do ser púbere/adolescente passa por um jogo de avaliação, dimensionamento, dos gostos do outro e como esses gostos influem ou não no Eu.
As referências externas ao meio familiar adquirem um peso mais significativo na construção da própria identidade. Uma participante considera uma «passagem mais andrógina», que ocorre após a saída de casa dos pais, e o encontro com um mundo que se considera ser mais alargado. Novamente se verifica a predominância de uma economia estroboscópica, já que nesta passagem para um mundo maior a participante encontra outras formas do olhar, olhar esse que não é sentido pelo Eu como sendo orientado pelo julgamento.
O período da puberdade/adolescência é identificado por todos os participantes como aquele em que o indivíduo começou a pensar que estaria no corpo errado. Uma participante assinala a sua frustração e incompreensão ao verificar o que considera ser a rigidez crescente nas divisões de género existentes nas brincadeiras: «Eu queria ser um rapaz porque eu queria fazer as coisas que os rapazes podiam
fazer e a mim diziam-me que eu… que és rapariga, não podes ou não devias.» Denota-se das entrevistas uma revolta contra esse arranjo social, que assume neste período uma maior consciencialização do que na infância, e uma agência que se torna possível ao questionar o social.
O desenvolvimento com maior evidência dos caracteres sexuais constitui um choque. Uma participante conta como veio a tristeza com o crescimento dos seios, sentimento que associa à frustração de não poder fazer como os rapazes, andar de tronco nu ou realizar ações associadas com o masculino. A evidência do corpo sexuado perturba uma organização interna.
A identidade passa a ser perspetivada como um becoming: a procura de um ser-se que não se quer fechado ou pré-determinado. Neste horizonte, não se verifica tanto o aspeto da impulsividade, mas, sim, da introspeção: as narrativas frisam a procura ativa de querer tomar um tempo necessário para reflexão, de acordo com o ritmo e necessidade de cada um. Esta procura contém o intuito de questionar o ímpeto pessoal, assim como o social, para adotar determinadas identidades. Se será necessário adotar uma identidade, esta deverá questionar modelos identitários socialmente esperados; tal adoção identitária não parece ser, contudo, animada por uma espécie de revolta clara contra a sociedade, mas por um questionamento dos padrões e imposições sociais. Denotamos uma procura com criatividade para fundar um Eu, resposta essa que fora adiada por uma família impeditiva.
A puberdade/adolescência é considerada, pelos participantes, um tempo de experimentação, de navegar por entre diversas categorizações sociais, de forma que possa alcançar-se uma ressonância própria. Uma participante indica como, neste período, primeiramente se assumiu bissexual, depois gay, tendo posteriormente adotado outras identidades — pansexual, andrógina e, na atualidade, trans. De forma geral, para os participantes as categorias sociais não são vistas como estanques ou contendo uma verdade inerente do sujeito; na realidade, quanto mais as categorias puderem ser experienciadas como abertas, mais importantes são. Quiçá como contraponto, evidencia-se nas narrativas uma experiência de solidão, partilhada como é por uma experiência de procura de algo no social que ressoe no íntimo do indivíduo. A família parece continuar a ter pouca presença neste processo, sendo indicadas dificuldades quanto à compreensão da razão de tal procura.
A procura de constituição de uma identidade parece coalescer ao redor de figuras mediáticas, como académicos, ativistas e outros pertencentes ao mundo do cinema, moda e televisão. Como assume uma participante, «essas formas ajudam a compreender». Tais figuras parecem funcionar como modelos que corporalizam a possibilidade de habitar identidades não-normativas. São figuras que apoiam nos momentos de solidão, que evidenciam como a diferença, sentida pelo próprio enquanto perturbadora e ligada a sentimentos íntimos de exclusão, pode afinal ser vivida. Em larga medida parecem agir como figuras de substituição da família.
O encontro com o espelho é vivido de forma excessiva. A materialidade do corpo parece surgir como elemento incómodo, uma vez que apela para um concreto. Igualmente nesta linha, o corpo começa a ser então ferramenta em que se cruzam possibilidades múltiplas: o corpo pode ser redecorado com aplicações e ornamentos, tatuado, maquilhado, numa tensão entre o escondido e o construído. Se a compreensão das dimensões culturais e sociais se configura como fulcral no entendimento da sexualidade, os participantes sublinham a igual necessidade de compreender um sentido próprio que, em relação com essas dimensões maiores, poderá navegar por entre acedências, conformismos, negações, entre outras posições subjetivas.
Para uma participante (M-F), o «universo feminino» encontra-se ligado a uma noção de «natureza», uma energia que existe e que assume enquanto referência a várias mulheres: «É esta energia que existe e que eu assumo como referência a várias mulheres, desde criança que fui tendo pessoas que de certa forma idolatrava»; na atualidade, inclui modelos de referência provindos de mulheres trans. Sente pertencer mais a este universo do que a um universo mais masculino; compreende a existência deste último, mas não se sente inserida nele. Admite que o universo feminino para si pareça ser sinónimo de construção; e espelha tal consideração ao remontar a brincadeiras infantis. Se por um lado a brincadeira masculina implicava destruição e uma certa brutalidade, o brincar feminino era atravessado por uma noção de maternidade. A noção energética proposta em relação a um universo com qualidades femininas parece revelar uma procura
de incorporar em si tais qualidades, como se o corpo se tornasse num veículo performativo, ativo na criação constante desse feminino. Por outro lado, parece escapar a uma noção total, fechada, pois a participante diz alternar entre o feminino e o andrógino.
A participante relata como na sua infância se sentia melhor com professoras do que com professores, com a mãe do que com o pai. Brincava muito com raparigas, depreendendo assim que as brincadeiras acabavam por ser mais «femininas». Com pessoas do sexo feminino, sentia-se «mais calma e segura do que às vezes [com] pessoas do sexo masculino».
Para a participante, ocorre um questionamento constante, ao pensar se tem de agir «mais masculina ou feminina». Colocando a questão no plano do social, da pressão social, acaba por assumir igualmente a pertinência de uma auscultação interna: «Tem de haver imensa reflexão do que realmente queremos e se o que queremos é aquilo que vem de nós ou que vem dos outros, e se calhar é mais um balanço do que acontece entre ambos.»
Para um outro participante (F-M), desde que se lembra de si que sente uma afinidade pelo lado masculino. Diz não saber explicar; gostava de coisas de rapazes, de brincar com carrinhos. Na escola, era considerado mais como rapaz, devido às suas brincadeiras estarem mais associadas às brincadeiras típicas dos rapazes. Sente que tem um lado masculino, mas que tem um lado feminino, e que não o quer perder. De acordo com padrões sociais, o feminino é o lugar das emoções, da sensibilidade, da empatia; o lado masculino é o lado do arriscar, de gostar de fazer coisas destrutivas. Parece transmitir que na sua experiência uma menina gostar de jogos tipificadamente masculinos era considerado de forma rígida, como sendo contranatura. Afirma querer ser um rapaz, «porque eu queria fazer as coisas que os rapazes podiam fazer e a mim diziam-me que eu… que és rapariga, não podes ou não devias». Uma identificação com um pai abandonante parece ter implicado na construção imprecisa de um corpo: por vezes, gosta do seu corpo, por vezes não, oscilação que atribui a estar «confuso». Embora biologicamente mulher, gostava de brincar a fazer a barba com o pai, até um momento em que tal brincadeira era impossível de continuar devido a ter chegado o tempo de saber a diferença entre homem e mulher. Neste ponto, poderemos
questionar se a não apreciação por parte do contexto familiar relativamente a tais fantasias e seus fundamentos não terá incapacitado uma libidinização própria do corpo, não permitindo atingir uma genitalidade, isto é, uma convicção perante as qualidades e características do seu corpo.
Um outro participante, nascido biologicamente mulher, identifica-se como pessoa «agénero». Usa pronomes e termos masculinos, com os quais se sente mais confortável, mas não se revê no termo «homem». Um episódio de doença na infância conduziu a uma alteração radical do corpo, o que parece ter implicado que o corpo não podia ser vivido de forma libidinizada. O corpo aparece como objeto, quer no sentido de poder ser manipulado por si, quer de ser manipulado por outros. No que indica como «pré-puberdade», surgem questões relativas ao corpo atraente, instaurando-se um conflito entre ser uma menina «atraente», «bonita», ou, por outro lado, não se querer envolver de todo em questões ditas «femininas». O corpo parece ficar ausente, não habitado, apenas forma, com o propósito de encaixar nos padrões sociais; como diz o participante, tratar-se-ia do paradigma do corpo servir para outrem. Episódios vários de mudança significativa, em dimensões múltiplas, parecem informar uma resolução gradual de não se ver refletido no termo «mulher». Neste âmbito, alega que o não precisar de «preencher esses espaços de mulher» traz uma possibilidade de viver de forma mais confortável com o seu corpo. Num ato que considera rebelde, de transgressão, a possibilidade de «não ter de» permite sair das prescrições e ordens de outros, nomeadamente dos pais. No seu entendimento, a identidade que assume de «agénero» implica o rompimento com as expectativas sociais — parar de tentar encaixar-se em «caixinhas que só sufocavam». A questão do ver e da beleza aparece como algo muito pesado, e o corpo paga na procura de sair de um «mundo circunscrito». Escapar às categorizações — não se é menino nem menina — traz alegria.
Para um outro participante (F-M), a aproximação às considerações sobre o que entende ser o masculino e o feminino parece, na sua narrativa, encontrar-se na aproximação a um ideal de corpo, desenhado de forma generalista: o participante gostaria de ter um peito masculino, um órgão genital masculino.
Na construção de uma identidade entendida como própria, o nome vem ocupar um lugar de particular importância, uma vez que se entrelaça no processo de reconhecimento desse corpo considerado mais adequado. O termo «nome morto» é geralmente empregado para designar o nome dado à nascença. A mudança de nome é vista como mais um passo de reconhecimento da afirmação da identidade pessoal.
Uma participante queria continuar com algo do nome original: «E queria continuar um pouco essa parte […] depois fui ver várias listas de nomes tanto com [a inicial do nome original] como com outros, e que fosse um nome assim pouco casual, que não fosse uma Maria, foi um nome também que pensei porque era de avós e mãe e tudo isso, todo um significado forte.»
A adoção de um novo nome, sentido como refletindo a sua identidade própria, advém de uma reflexão e procura. A escolha do novo nome remete, no caso desta participante, para uma certa necessidade de não clivar: o nome adotado recupera determinadas características do nome dado à nascença. Neste âmbito, consideramos pertinente colocar a hipótese de se tal não revelará a necessidade de reter algumas das implicações inconscientes encerradas no nome. Como apresenta a participante na sua narrativa, a identidade não se constrói com portas duras; uma certa flexibilidade é sinal de saúde mental.
Na sua procura da adoção de um novo nome, a participante exibe o que poderá ser entendido como um fashioning de si própria, um projeto de reinvenção. O nome que adota é um nome que caracteriza com o uso de referências a envelope, um nome que rodeia, que «está em torno de» si, remetendo-nos para a hipótese de que o nome escolhido sirva como um possível envelope psíquico, com características de contenção.
Um participante refere não gostar do conceito de «nome morto», afirmando que não gosta do conceito de uma pessoa que morreu para estar aqui hoje. Assim, indica que «era “eu”, com menos informação». O seu nome adotado coagula influências dos pais, em particular da mãe, assim como do seu envolvimento com movimentos sociais.
Por outro lado, para este participante, os nomes não são concebidos como veiculando particular importância: «nomes são só um conjunto de sons que alguém usa e [alguém] vira a cabeça se os falarem na
rua». O participante não concorda com a ideia de o nome ser essencial ou importante, embora reconheça a sua pertinência pela via do reconhecimento: para o participante, o nome escolhido deve ser respeitado e não é discutível. Para o participante, ter nomes diferentes para cada dia é algo possível: o nome é um adorno, um adereço estético. O nome foi algo que os pais deram, entre tantas coisas, algumas das quais o participante refere não serem do seu agrado. O nome é então um local do trauma, perante o qual pode haver rebelião, sendo que o Estado ou os pais não têm de se intrometer: veicula assim a existência de mecanismos evacuativos.
Verificamos deste modo que o nome implica e está implicado numa cadeia de transmissões intergeracionais, que em larga medida perfazem a formação da subjetividade, bem como veiculam a própria noção de corpo e, consequentemente, de existência. O nome adotado advém de uma constelação de influências, na procura de uma reestilização de si mesmo, sendo encarado por vias informadas pela criatividade e o trauma.
Para todos os participantes, a transição é encarada como um processo, não como algo imediato; assim, a cirurgia, embora contemplada como hipótese, não é entendida como o objetivo principal, ou até mesmo necessário.
A cirurgia é questionada como possível ferramenta da sociedade para adequar os corpos trans a uma noção de normalidade: «Mesmo os próprios cuidados médicos acabam por nos impor isso desde o início… Não é uma obrigatoriedade, mas é algo que muitas vezes é sugerido, para a pessoa voltar a ser normal.» Igualmente, dois participantes afirmam não sentir necessidade de realizar a cirurgia, alegando aspetos de natureza económica, tal como o aspeto doloroso do processo. Um outro participante afirma estar determinado a realizar a cirurgia, exibindo apenas hesitação no âmbito estético, procurando assim assegurar-se da qualidade e profissionalismo do cirurgião escolhido.
Uma participante refere aspirar ao corpo de atriz/modelo trans que surge na atualidade das séries televisivas. Para a participante, a beleza transparece como mescla de uma certa presença feminina e andrógina.
Tem procurado encontrar a relação entre beleza e algo que contenha uma qualidade etérea, celestial, com uma outra qualidade mais holística, através do uso da maquilhagem e vestuário.
O corpo é algo para se sentir confortável e que possa usar; neste âmbito, a participante parece localizar-se entre o sentir e o ser, entre o ser e o usar. As alterações do corpo implicam que revisitar-se é como revisitar uma pessoa diferente; o «tornar-se», este becoming, não é tornar-se em algo estático, mas é, sim, um processo contínuo. É um processo mediado pela reflexão, a importância de refletir no que se tornou naquele momento.
Um outro participante demonstra ambivalência em relação ao corpo: por vezes, gosta, por vezes não. No cerne, parece residir uma indeterminação, uma inconclusão sobre o corpo: pode olhar-se ao espelho e gostar, e cinco minutos depois já não gostar. O desequilíbrio interno é associado a uma série de interposições e negações: «não podes, não deves», o correto é seguir as normas sociais. Esta confusão de línguas, entre um certo polimorfismo infantil e o seguir à risca das normas sociais, parece desaguar numa forte desadequação interna, criando uma oscilação identitária que não permite a elaboração de um corpo ideal.
Um participante entende uma tónica precisa entre o ser atraente (para outros) e o ser belo (para si). Neste paradigma, de aparente contradição, surge um corpo ideal como sendo um corpo que pode ser preenchido com roupas, acessórios, tatuagens, piercings e outros elementos. O corpo surge assim como plataforma para o adorno.
O corpo como repositório de marcas e adornos parece, numa leitura possível, procurar resgatar o corpo de uma indefinição primária, possivelmente advinda de uma pobre existência de libidinização aquando das relações mais precoces. Nesta leitura, o corpo seria construído por marcas claras e óbvias, nesta procura de resgate retroativo de uma existência.
Através da análise das narrativas dos participantes, verificamos como o corpo, enquanto centralidade de um projeto de construção do próprio, atravessa as fronteiras entre o Eu e o grupo, gerando-se e sendo gerado por uma série de tensões irresolúveis, já que esta tensão
compõe o pilar central da constituição de uma identidade sentida como própria.
Nas narrativas, a infância é rememorada como período em que se experienciava já um certo grau de diferença perante os pares. Contudo, é na puberdade/adolescência que se assinala uma série de mudanças sentidas como catastróficas. Se, por um lado, tal enuncia um carácter próprio, transformador, deste período, revela igualmente o peso de uma intolerância social frente ao ir mais além das normas de género. O carácter extremo de algumas experiências de pessoas trans, tornadas óbvias aquando da puberdade/adolescência, parece radicar-se numa infância em que o jogo e a descoberta gradual de um Eu próprio foram abafados por uma ordem social dogmática em relação à aplicação de normas restritas no âmbito da expressão do género e da sexualidade infantil.
O corpo ideal parece assim surgir como um corpo que pode ser entendido como próprio através da sua manipulação. É um corpo que pode ser ornamentado a gosto, sobre o qual se poderá ter um conjunto de ações próprias. Neste sentido, o processo de transição parece ser um processo de recuperação de uma agência própria, de construção de um corpo que é ressignificado como podendo ser passível de ser visto, tocado, habitado. Esta leitura ganha uma outra pertinência ao considerarmos a proposta de Lemma (2022), de que o fenómeno do embodiment é encontrar uma hospitalidade no seu próprio corpo (p. 10).
Como vimos, uma hipótese central em termos etiológicos é de que a transexualidade se configura como organização defensiva perante a homossexualidade (Jorge e Travassos, 2018). A proposta revela alguma pertinência, ao atendermos ao preconceito cultural que implica como indesejável uma orientação sexual não-normativa. Neste âmbito, será importante para o clínico procurar desvendar uma eventual homofobia internalizada, de carácter ego-distónico. Não obstante, parece-nos ser possível localizar nas narrativas uma oposição séria a esta teoria enquanto explicativa de toda a génese da resposta trans. Para a maioria dos participantes, a adoção de uma identidade trans é posterior à resolução própria de uma homofobia cultural. Assim, se esta hipótese apresenta uma clara pertinência, em particular atendendo a aspetos inconscientes na formação da identidade sexuada, não poderá, no nosso entendimento, ser tomada como hipótese única.
Gostaríamos de sublinhar alguns aspetos que consideramos centrais no âmbito das discussões em redor desta temática. Contrariamente a um certo senso comum, todos os participantes veicularam como o projeto de transição é um tempo a que chegam após longa reflexão. Em particular, mesmo atendendo a variações idiossincráticas ligadas a questões económicas e do contexto familiar, a cirurgia não é vista como algo obrigatório, e mesmo quando equacionada, é um movimento que recebe a mais ampla reflexão e crítica. Neste tempo amplo de consideração, os profissionais de saúde mental são convocados, sendo que tal apelo encontra sérias dificuldades atendendo a aspetos diversos, nomeadamente a precariedade dos serviços de saúde mental nos sistemas públicos de saúde, assim como a fraca formação de base dos profissionais sobre estes temas. Perante a mercantilização da saúde, é possível argumentar que são muitas vezes aqueles que procuram os serviços de saúde que apelam a um tempo maior para se escutar a sua condição própria, para lá de uma resposta única e estereotipada.
O fenómeno trans, traduzido nos questionamentos sobre a construção do corpo, constitui-se na atualidade como um desafio às mais variadas teorias. Como se pôde observar, os participantes adotaram uma noção particularmente construtivista em relação ao corpo e à identidade. Não obstante, é igualmente possível compreender como esta postura construtivista é atravessada por uma forte idiossincrasia: a experiência própria é informada por — ao mesmo tempo que vai mais além de — uma aplicação construtivista frente às realidades sociais e pessoais.
Neste âmbito, se o corpo é desenhado como indo para lá de uma conceção dualista, que revela uma oposição entre masculino e feminino, até mesmo entre homem e mulher, advogando-se assim a construção social como pedra basilar da compreensão, tal postura será igualmente criticável. Como alguns dos mais célebres proponentes da teoria queer têm avançado, a cultura e as suas formulações, mesmo aquelas que poderemos considerar de teor preconceituoso, são difíceis de contornar, uma vez que perfazem alguns dos tijolos da nossa subjetividade. A dificuldade de sairmos da nossa cultura vem colocar um ponto de interrogação pertinente nas teorias que propõem que a cultura é mais fácil de mudar do que a biologia. Assim, optar por um
apoio numa teoria construtivista não parece diminuir as angústias relacionadas com a procura de uma identidade própria. Esta revela-se na encruzilhada entre o individual e o social, entre o Eu e o grupo. Perfaz-se assim como particularmente tensa, uma tensão irresolúvel, uma vez que é esta tensão que alimenta o caminho de procura de si. O ethos liberal, que promove a fluidez e uma biografia flexível (Lemma, 2022), compreende pouco a importância e necessidade de algum grau de cristalização, de encontro de si consigo mesmo, para lá da sobreidealização da figura do eterno nómada.
Como articular todas estas coordenadas com uma prática clínica? Presente na sua crítica à Psicanálise, Paul Preciado incorpora o que considera ser a falta de imaginação existente na mesma: «Eu não sou aquilo que imaginam que eu sou» (2020, p. 44). Assiste-se, atualmente, a uma série de gestos públicos por parte de instituições psicanalíticas que procuram apresentar as suas desculpas pela história de patologização de sexualidades não-normativas e da diversidade sexual. Neste âmbito, Hertzmann e Newbigin (2023) apresentam no seu livro os comunicados da Finlândia, do Reino Unido e dos Estados Unidos. É assim necessária a continuação de investigação psicanaliticamente informada nesta área. Consideramos que mais pesquisa poderá ser elaborada ao nível dos cuidadores de pessoas trans, cuja qualidade e teor das mensagens enigmáticas transmitidas no âmbito das relações mais precoces é reconhecida como de particular pertinência na elaboração das subjetividades, nomeadamente subjetividades trans. Igualmente, sugerimos que a aposta contínua em trabalhos longitudinais com esta população é da maior relevância na compreensão das confluências entre elementos epigenéticos, interpessoais e relacionais, assim como culturais e sociais, na constituição do fenómeno trans. Atendendo à tendência demonstrada na literatura especializada, que privilegia um saber contextualizado e atento às idiossincrasias, em detrimento de uma exposição etiológica, consideramos que a pesquisa informada pela teoria e prática psicanalítica poderá ser da maior importância para o desenvolvimento deste campo de estudos e prática clínica.
Para Lemma (2022), uma possibilidade de fazer frente ao discurso inflamado, bem como às necessidades concretas dos mais variados quadrantes (clínico, social, político), será a adoção de uma «capacidade negativa», como preconizado por Wilfred R. Bion. No seu
encontro com a poesia e literatura, pela figura de Keats, Bion (1970) viria a insistir na noção de capacidade negativa como convite a despir pré-conceitos e assim poder observar novos modos de organização da experiência. A clínica enquanto modelada pelo paradigma da observação, sendo esta baseada na atenção contínua e no exercício da capacidade negativa, permite ir reconhecendo os tempos e os espaços, os diferentes ritmos, as fronteiras particularmente ténues entre a beleza e o sublime, e como um corpo vai sendo formado. Como alega Lemma, «o desafio é procurar que as questões perdurem, assim como resistir às tentações de uma certeza imediata» (2022, p. 6). Ao procurar a continuidade das questões, «entender o transgénero requer que estejamos dispostos a prescindir da procura da certeza (p. 65). Esta parece-nos ser, no seu âmago, uma tarefa bioniana, certamente de exigência psicanalítica.
ABSTRACT: The trans phenomenon is currently understood as being representative of a whole series of tensions on a social, political and cultural levels, as well as in the way the clinic views these formulations. Central to this discourse, the body emerges as an important dimension, considering its transformations as representative of a greater degree of personal freedom. This study seeks to address the experience of trans people's bodies. Using the terms proposed by Lemma (2022), we sought to understand the experience provided by the study participants in relation to the ‘given body’ and the ‘right body‘/ideal body. Methodologically, we opted for a qualitative research, using the biographical-narrative-interpretative method. In terms of the results obtained, it was found that the period of puberty/adolescence is of particular importance in the transition between the given body and the ideal body, with a diversity of positions transpiring in relation to this formation. The transition process is given deep reflection, with surgery appearing as an option rather than an obvious necessity. In its concluding remarks, the study points to the ethical implications of psychoanalytic theory and practice in dealing with this phenomenon.
KEYWORDS: transgender, body, gender, psychoanalytic theory.