Em Agosto de 1976, a psicanalista francesa Françoise Dolto, que muito contribuiu para a propagação da reflexão psicanalítica sobre as múltiplas complexidades e desafios das relações entre pais e filhos, foi convidada a participar num programa de rádio que se tornou amplamente reconhecido em França, e que mais tarde foi convertido em vários livros, editados em Portugal. No programa, Dolto tentava contextualizar as problemáticas, trazidas fundamentalmente por pais, sobre variadas preocupações, difundindo de forma simples o pensamento psicanalítico. Num desses programas, «Será artista?», uma mãe questionou se seria importante explicar à filha os conteúdos dos seus próprios desenhos, ao que Dolto responde: «É melhor não. Pelo contrário, julgo que o que pode interessar à criança é falar sobre os seus desenhos», acrescentando que a criança que mostra o desenho revela um interesse pelo olhar da mãe sobre si mesma, e colmata dizendo: «cada vez se vêem mais crianças com os sentidos das cores. Pergunto a mim mesma se não é a televisão a cores […] quando éramos crianças, não havia tudo isso» (Dolto, 1978, p. 134). Em Portugal, em 1983, João dos Santos, pioneiro na Psicanálise e um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, recriava o mesmo conceito participando num programa da Rádio Comercial, também posteriormente convertido em vários livros. O programa baseava-se numa conversa dirigida por João Sousa Monteiro e trouxe ao panorama português a oportunidade de se abordarem questões complexas
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta, Psicanalista de Crianças, Adolescentes e Adultos. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail: ritagameiro@gmail.com
numa perspetiva psicanalítica, usando uma linguagem acessível a todos. Num dos episódios: «Olha, eu faço-te aqui de saias porque tu dantes tinhas saias e eras maricas», João dos Santos conclui dizendo: «A nossa cultura ocidental é muito voltada para o exterior, é feita de agitação, de agências de viagens que nos preparam os tempos de ócio, dos clubes de disco, das cassetes, dos vídeos e dessa tralha toda. Há cada vez menos funcionamento interno. Mas para nós, psicanalistas, o grande segredo do viver, da nossa experiência, é o sentimento de se funcionar mentalmente bem» (Santos & Monteiro, 1988, p. 21). É bem possível que nem Françoise Dolto nem João dos Santos tenham assistido ao progressivo desaparecimento da televisão, das cassetes e vídeos, que foram sendo substituídas pela Internet. A sociedade contemporânea não é a mesma que estes psicanalistas viveram, porém o seu pensamento psicanalítico e as suas formulações permanecem atuais. A circularidade das questões que se colocam à humanidade faz-nos percorrer uma espiral, permanecendo idênticas. Parece simples assumir que bastaria recordar as suas palavras, mantendo vivos os testemunhos de outrora, mas assistimos, perplexos, a dois tipos de discurso: primeiro, o lamento catastrófico sobre o declínio civilizacional a que se assiste, seguido pela erupção de opiniões «especialistas», assumidas como únicas soluções pela via da radicalização: «Proibido o uso de telemóveis nas escolas.» Perante tal, que falta? Faltará tempo, verdadeira disponibilidade para nos debruçarmos sobre os problemas atuais? Faltará espaço para refletir? Faltarão vozes? Talvez um pouco de cada.
Na busca pela pacificação das suas angústias, perante o que é sentido como desconhecido e incompreensível, muitos pais tentam contactar com um mais amplo e verdadeiro conhecimento sobre os filhos, surgindo questões em torno de múltiplas problemáticas. Este movimento gera uma procura por compreender, pela via da pulsão epistemofílica, que deve ser saudada. Nos consultórios, não é raro vir à tona a temática dos ecrãs, da realidade virtual ou da Internet como meio de substituição dos encontros e ligações reais. Porém, a experiência indica que tais questões espelham o funcionamento e a dinâmica familiar, atual e transgeracional, requerendo que cada situação seja observada e tratada como única, pertencendo a um sistema familiar particular. Estas situações representam um evidente aumento do
interesse pela perspetiva psicanalítica. São, no entanto, situações de expressão reduzida. Chegar à população em geral, penetrar nas comunidades escolares e meios sociais, obteria um efeito considerável na criação de espaços de discussão e reflexão. Porém, há várias décadas que assistimos, contemplativos, à diminuição da perspetiva científica e, mais concretamente, à lenta extinção da presença do pensamento psicanalítico nesses ambientes. Em vez disso, assistimos, num misto de perplexidade e paralisia, ao aparecimento de uma cacofonia composta por um coro de vozes «sapientes» que debitam sobre qualquer tema, usando a sua limitada experiência pessoal ou, no limite, aquilo que, sem qualquer apoio científico, possam considerar «saber» sobre qualquer problemática. Neste momento, qualquer pessoa pode autodiagnosticar-se com «défice de atenção», depois de, há apenas uns tempos, ter descoberto ser «autista». Os «especialistas da Internet» retiram vantagem do que passou a ser o mais nefasto para o público em geral, as «notícias falsas», no sentido em que uma informação é veiculada múltiplas vezes, sem contestação, crítica ou dúvida sobre o seu conteúdo ou proveniência. Esta situação, que tem vindo a instalar-se como meio de aplacar as angústias, por vezes sobre problemáticas graves de mau funcionamento ou patologia, impera em parte devido ao espaço que os psicanalistas já não ocupam, e que dependia, em grande parte, da dádiva voluntária que cada um abnegadamente oferecia.
Já tanto foi dito sobre a problemática do uso da Internet e o espaço que ocupa na sociedade atualmente. Todos sabemos que qualquer mudança paradigmática proveniente de uma evolução traz consigo tanto efeitos benéficos como prejudiciais. Cabe ao psicanalista, sob o uso da rêverie que dirige às flutuações e contradições humanas, oferecer um pensamento e uma perspetiva multidimensionais. Será necessário situarmo-nos no espaço, aquele que não é dentro nem fora e que se situa, tal como o «objeto transitório» de Winnicott, no espaço intermediário. Será nesse espaço de criação conjunta, correspondente ao que analista e paciente vivem, que poderá ser cocriado o espaço de pensamento reflexivo sobre as problemáticas atuais. Françoise Dolto e João dos Santos falavam diretamente para os pais, mas, acima de tudo, as suas vozes viajavam numa teia concêntrica acompanhando a propagação das ondas da rádio, e alcançavam casas, chegavam às famílias, penetravam nas escolas. Sentimos todos a falta dessa escuta.