Neste texto, Civitarese, um dos psicanalistas mais representativos da Bionian Field Theory (BFT), parte da teoria de campo analítico como o lugar onde os acontecimentos da sessão correspondem a manifestações do inconsciente conjunto do par analítico e não são apenas atribuíveis a um dos elementos, para abordar novas perspetivas da escuta psicanalítica.
Para a compreensão desse inconsciente, o autor propõe, como metáfora, uma bússola, que teria como pontos cardeais a transferência, a identificação projetiva, o enactment e o campo psicanalítico, conceitos que considera fundamentais na comunicação analítica e que representam graus crescentes do envolvimento inconsciente do psicanalista no processo terapêutico, sendo o campo analítico aquele que mais desenvolve a relação.
Aceitando a continuidade entre o modelo BFT e os modelos ditos clássicos, freudiano e kleiniano, o autor privilegia a descontinuidade e a diferença, referindo-se essencialmente ao conceito bioniano de transformação, subjacente ao conceito de campo analítico, em contraste com o conceito de deformação, que definiria os restantes modelos.
A partir de Bion e da ideia de que os pensamentos (elementos alfa) se formam a partir dos elementos sensoriais das experiências emocionais (elementos beta), é no aqui e agora da sessão e com a ajuda do analista que a natureza emocional não consciente da experiência atravessa
Pedopsiquiatra e Psiquiatra. Psicanalista, membro titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Membro da Federação Europeia de Psicanálise (FEP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA).
E-mail: mjose.goncalves@sapo.pt
uma série de transformações e se torna progressivamente numa experiência emocional consciente e significativa (Grotstein, 2002).
Civitarese refere que considerar o material da sessão como uma manifestação do inconsciente conjunto do par analítico corresponde a um avanço teórico e técnico importante, com a passagem de um modelo de duas mentes em diálogo, eu/tu, para um modelo conjunto, nós.
Exemplifica o autor (Civitarese, 2023): se um paciente conta um sonho da véspera, que pode ser relevante em si mesmo, o analista considera a história do sonho como parte do sonho do analista e do paciente no aqui e agora da sessão, transformando os beta-elementos em representações verbais e representações significativas, “não interessa quem conta o sonho (itálico do autor), é um sonho que sonhamos em conjunto” (p. 28). A propósito de outro exemplo, em que o paciente narra um acontecimento significativo da infância, Civitarese olha-o como se fosse um sonho sonhado em conjunto no tempo real da sessão. Essa escuta permite-lhe intuir melhor a experiência emocional da narrativa e trazê-la para o campo analítico. Noutro exemplo ainda, mostra como as respostas emocionais do analista e do paciente a um episódio narrado pelo paciente são da mesma natureza.
O autor reconhece que certos aspetos da teoria de campo podem parecer a alguns psicanalistas contraintuitivos, nomeadamente a ideia de que é difícil distinguir as participações, no plano inconsciente, do analista e do analisando, no aqui e agora da sessão de psicanálise.
Considera que uma das maiores dificuldades em ensinar e aprender a escuta do psicanalista neste modelo de intervenção é a passagem do paradigma de duas mentes —analista/ analisando — distintas, que se influenciam mutuamente, e ao qual, segundo o autor, subjaz implicitamente a ideia freudiana de deformação, para um modelo ético, não de suspeição, mas de respeito, ou seja, em que o analista assume a sua parte de responsabilidade quanto à qualidade emocional do vínculo. Outro desafio que é colocado ao analista, neste modelo, é a ideia de que o conceito de campo implica reconhecer a dinâmica que se estabelece entre os diferentes elementos da experiência e as qualidades que emergem como um todo, em detrimento do significado que cada elemento tem em si mesmo.
Trata-se de dar significado à experiência vivida em conjunto, promovendo a expansão da mente com a criação de novos vínculos e novas funções psíquicas (Civitarese, 2023).
Perante a dificuldade da aplicação deste método, Civitarese propõe, para que o analista possa apropriar-se da técnica, que as sessões sejam analisadas de acordo com um certo número de parâmetros, como sendo exercícios que devem ser repetidos com a mesma persistência que um músico desenvolve quando aprende a tocar o seu instrumento. Por exemplo, dar um título à sessão ou tentar identificar quem fala, sem antes indicar se é o analista ou o paciente. Contudo, faz um alerta para que estes exercícios não se façam durante a sessão, porque anulariam a capacidade negativa do analista e toda a sua espontaneidade emocional, objetivo último da sua ação terapêutica e, acrescento, da sua capacidade de escuta do inconsciente.
Uma vez analisada a sessão do ponto de vista da teoria de campo, o último exercício que o autor recomenda é percorrer a bússola do inconsciente e analisar a sessão do ponto de vista da transferência, do enactement e da identificação projetiva e perceber qual a chave que permite uma melhor compreensão do material.
Esta observação parece-me da maior importância. Como diz o autor, as teorias psicanalíticas contemporâneas inserem-se na continuidade dos conceitos freudianos e kleinianos, aprofundando o conhecimento sobre os fenómenos clínicos e melhorando a técnica. Freud sempre considerou que a teoria psicanalítica, por ele desenvolvida, era suscetível de ser melhorada e mesmo alterada com as novas descobertas da ciência, e Bion (citado por Grotstein, 2002), ao falar da relação entre interpretação e transformação, refere que tem consciência dos problemas que deixou de lado.
A bússola que Civitarese nos propõe permite-nos esses olhares complementares sobre o material da sessão.
A sessão de análise tem momentos de desregulação, em que o paradigma eu/tu se impõe, nomeadamente quando os mecanismos de identificação projetiva na dinâmica transferência/contratransferência prevalecem e transformam não só o conteúdo emocional da sessão, como deformam as representações de cada um dos elementos do par analítico.
O autor propõe uma dicotomia entre deformação e transformação e restringe este último conceito à teoria de campo.
Como sabemos, para Bion, as transformações dizem respeito especificamente às modificações que sofrem os diferentes elementos
sensoriais e emocionais, no momento da sessão e num contexto intersubjetivo, e a que progressivamente se atribuem significados. Este processo transforma a experiência emocional inconsciente numa experiência emocional consciente. Tem como paradigma a origem da mente e o modelo da relação continente/conteúdo na relação mãe-bebé, com base no conceito de rêverie materna.
Mas salientando a ideia do autor sobre importância dos vários modelos teóricos, gostaria de acrescentar que a ideia de transformação percorre a teoria psicanalítica de forma transversal.
Por seu lado, o conceito de deformação foi desenvolvido a propósito do trabalho do sonho (Freud, 1900/1953) e consiste na dissimulação e distorção, pelo conteúdo manifesto, dos pensamentos latentes do sonho, reprováveis e incómodos. No sonho, também há simbolização e a sua interpretação transforma e alarga o significado da experiência subjetiva e liberta o paciente dos mecanismos da repetição.
Para Freud (1915/1957), transformação está associada ao conceito de pulsão, que se manifesta através dos seus representantes psíquicos, que se transformam no encontro com o objeto, desenvolvendo a capacidade de elaborar símbolos, de criar ideias, de pensar e de equilibrar os princípios do prazer e da realidade.
Neste texto, Civitarese reitera que a sintonia emocional inconsciente do par analítico é transformadora das respetivas mentes e deve ser o instrumento privilegiado para o avanço do processo analítico.
Mas se a capacidade transformacional da afinação emocional conjunta do paciente e do analista deve preceder a identificação dos conteúdos, num segundo plano existem outras transformações que ocorrem em cada um dos elementos da díade por força do contacto entre dois inconscientes, cuja organização decorre dum histórico vivido e sentido de forma individual. Transferência e contratransferência estão intimamente ligadas, pelo mecanismo de identificação projetiva que transforma a mente do analista, e por vezes o sentir do corpo, resultando muitas vezes no aparecimento de enactments.
O segundo olhar do analista sobre estes acontecimentos vai permitir transformações na sua comunicação e reflete-se nas representações que o analisando tem de si próprio e dos seus objetos internos.
Em meu entender, estes dois conceitos de transformação completam-se ao longo do processo analítico e ambos contribuem para
a construção duma relação única e irrepetível. Em cada sessão, analista e paciente procuram em conjunto a verdade intrínseca do paciente.
Em conclusão, os desenvolvimentos contemporâneos alargaram o âmbito da teoria e da técnica, mas sem excluírem da cena analítica os modelos estruturais e fundadores da teoria psicanalítica.
Assim, as ideias inovadoras de Civitarese, num processo que Aulagnier (citada por Baranger, 1993) chama teorização flutuante, foram-me conduzindo, neste comentário, ao conceito freudiano de inconsciente, lugar psíquico onde os processos de deformação e de transformação se cruzam e vão dando lugar às representações objetais e narcísicas do sujeito.