Eu não sou eu nem sou o outro,Sou qualquer coisa de intermédio:Pilar da ponte de tédioQue vai de mim para o outro.
Com estes versos, Mário de Sá-Carneiro (1998), a partir da expressão do seu vazio existencial presente nos seus poemas, evoca-nos uma transformação, ou uma viagem: uma de mim ao Outro, no seu caso a partir do tédio.
Há muitos anos que conheço estes versos, e quando fui procurá-los para os incluir nas reflexões deste Vértigo, para minha surpresa, descobri que durante mais de quarenta anos os recitei tal como os ouvi pela primeira vez e tal como exatamente os tinha entendido: Não sou nem eu próprio nem o outro, sou apenas uma ponte que se estende de mim ao Outro. Ou seja, com um sentimento pessoal de alegria e ilusão, entendi que o poeta falava de uma viagem em direção ao outro com desejo e esperança — não a partir do tédio nem da fuga do aborrecimento vital, mas a partir da simplicidade de que ninguém é completo sem a relação com o outro.
Encontrar-me agora com este contraste de significado mostra-me que cada viagem é interna, e isso conduz-me a Fernando Pessoa, que já nos advertia no Livro do Desassossego: “As viagens são os viajantes.
Psicoanalista didata e supervisora de Sociedade Espanhola de Psicanálise (SEP-IPA), diretora da Revista Catalana de Psicoanàlisi (RCP de la SEP).
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O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.” E o que sentimos em cada momento, acrescentaria eu.
Etimologicamente, viagem vem do latim viaticum, que significa “provisões ou recursos necessários para iniciar um percurso, um caminho”. Se o viático para viver são os primeiros vínculos que o bebé recebe e tece na sua criação, são também esses que nos proporcionarão a bagagem, a preparação psíquica para enfrentar as mudanças e as viagens que teremos de fazer ao longo da vida, bem como aquilo que dará conta da resiliência perante as adversidades.
A viagem ao mundo interno que permite uma boa análise psicanalítica, que muitas vezes representa o vínculo que possibilita recuperar ou reparar aquilo que não pôde ser vivido no início, transforma-nos sem nos movermos do lugar. Por outro lado, mover-nos geograficamente só nos transforma se formos capazes de apreender o que a diferença e a novidade nos oferecem, e se sentirmos, ainda que inconscientemente, a satisfação de sermos capazes de nos separar do lugar de origem, de não ficarmos presos aos conflitos pessoais, de conquistar novos desafios e/ou de recuperar ilusões infantis.
Freud começou a viajar após a morte do seu pai. Winterstein (1912) interpreta a viagem como uma expressão de um impulso de errância (Wandertrieb), ligado à necessidade de escapar da rotina quotidiana vienense e à busca de novos desafios.
Atualmente, raramente se procura alcançar novos desafios nas viagens de lazer, mas, de forma impercetível, a mobilidade contínua atravessa todas as dimensões humanas: laborais, emocionais, culturais e identitárias. Isso leva-nos a pensar no indivíduo numa transformação acelerada, que está a modificar a forma de se relacionar e de produzir mudanças internas, o que tem, inevitavelmente, consequências na construção da subjetividade, como pouco a pouco vamos entendendo nos nossos analisandos e também na análise da sociedade.
Outra coisa são as mudanças forçadas, as migrações, que, como na Odisseia, são viagens longas nas quais surgem aventuras tanto adversas como favoráveis ao viajante. Achotegui (2002) descreve como síndrome de Ulisses o conjunto de sintomas mentais sofridos por uma pessoa exposta a uma situação extrema ao mudar de país, além do chamado “luto migratório”.
Dentro da migração, devemos diferenciar a voluntária, a de quem espera viver melhor, e a obrigatória, provocada por guerras ou miséria, que força, com dor, ao afastamento da família e da terra sem se saber quando será possível regressar. É o luto migratório que León e Rebeca Grinberg (1996) comparam à guerra interna de um adolescente na sua passagem para a vida adulta: enquanto ainda não conseguem visualizar realisticamente o lugar para onde vão, vivem num estado irreal que só podem partilhar com companheiros da mesma viagem. E até que se sintam seguros no lugar de chegada, a vertigem não desaparece.
A migração é um processo tão longo que talvez nunca termine. As vivências de insegurança que os migrantes experimentam são determinadas não só pelas incertezas, mas também pelas ansiedades diante do desconhecido e pela inevitável regressão que essas ansiedades comportam. Às vezes, confundem a realidade, como numa alucinação, para sentir próximo aquilo que deixaram para trás.
Arsenio Rodríguez Quintana (2009), poeta cubano, diz assim:
En un instante un canal de VeneciaFue a través del olorUn paseo habitual de la Habana ViejaAl borde de la bahía[…]Què hacen estas ciudades metidas en otras?Acaso se pueden abrir puertasque conduzcan a un mismo lugar?2
Penso também nas viagens que empreendem as pessoas que procuram uma identidade, presas a uma vida desconcertante, infeliz e insegura. Que não se sentem seguras nem confortáveis consigo mesmas,
Num instante, um canal de Veneza
foi, através do odor,
um passeio habitual da Havana Velha
à beira da baía
[…]
Que fazem estas cidades metidas umas nas outras?
Será que se podem abrir portas
que conduzam a um mesmo lugar? [Tradução da autora]
e algumas optam por transitar de um género para outro. Às vezes, é com o desejo de serem aquilo que sentem ser, mas outras é para fugir daquilo que não suportam ser.
Algumas preparam-se, pensam, sentem com profunda convicção. Outras, pelo contrário, iniciam a viagem com pressa, desejam encontrar um lugar ou uma forma de estar que as liberte do vazio, da angústia ou dos mal-estares da vida, e fazem-no sem o viático adequado para a viagem. Podem ser vistas e vividas como uma forma de evasão, em que se procura fugir das tensões internas sem dar tempo para as transformar.
A viagem, que poderia ser vista como uma oportunidade de nos reinventarmos, só produz mudanças se a subjetividade se põe em movimento, porque, caso contrário, fica na superfície e o deslocamento externo não se transforma numa mudança interna real. Só nesses casos, nos de uma mudança interna real, poderíamos voltar a entender o poeta Joan Vinyoli (2014):
I ara quan torno a casa sense nom, sento que he passat pel desert i he creuat el riu, que sóc un altre, més profund.3
A partir da psicanálise, da escuta psicanalítica, podemos ajudar a carregar as alforjas, e para isso é necessário que o analista também esteja em contínua transformação interna. Como psicanalistas, também sofremos a vertigem da aceleração social.
Em pleno século XXI, num mundo com tanta multiculturalidade e civilizações convivendo juntas, é necessário ter uma visão ainda mais ampla para que as tensões internas do indivíduo e da sociedade possam dialogar e compreender-se, evitando conflitos e guerras reais ou simbólicas.
E ter presente que se trata de abrir caminho a cada passo, de não fixar nada e de ir compreendendo a viagem. “Caminante no hay camino”, como dizia Machado. Se vivemos de forma diferente, se se produzem novas interações internas e externas, devemos continuar a abrir portas mentais para compreender a transformação das subjetividades.
E agora, quando volto para casa sem nome, sinto que atravessei o deserto e cruzei o rio, que sou outro, mais profundo. [Traduçao da autora]