Já lá iam cerca de quarenta dias de navegação. Para trás, muito para trás, Belém, as Canárias, a ilha de São Nicolau. Agora, só a imensidão e a agitação do mar, o vento, as vagas sacudindo tudo, o espaço exíguo, o medo, a nau de Vasco de Ataíde perdida (o que lhe teria acontecido?), as noites povoadas por vultos, o corpo emperrado gemendo, a comida seca e salgada, os ratos, o odor fétido, a imundice, o cansaço…
Mas, afinal, lá estava ela, a terra, uma promessa de chão, de água límpida e de alimento fresco… Primeiro, o anúncio: “muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e também outras a que chamam rabo-de-asno […] e aves a que chamam fura-buxos” (Caminha, 2025, pp. 60-62). Depois, pela luz da tarde, “um grande monte mui alto e redondo, outras serras mais baixas ao sul dele e, ainda, uma terra chã com grandes arvoredos” (Caminha, 2025, p. 62). Apesar dos seus cinquenta anos, era a primeira viagem marítima que Pero Vaz de Caminha realizava. Sabia da arte da escrita e da retórica, da vida palaciana, da malha urbana do Porto, onde nascera, crescera e vivera. Quanto à violência da guerra, provara-a na batalha de Toro.
Expectante, encostou-se à balaustrada da nau. O seu olhar transpunha o azul turquesa do mar, que se desfazia, esbatido, no branco da areia e se estendia pela faixa intensamente verde, longa e contínua do horizonte. Uma brisa suave afagava-o. Deslumbrado, interrogava-se
Fernando Pessoa, 1982, p. 387.
Psicóloga clínica, doutorada em Psicologia Clínica. Docente universitária. Psicanalista, membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail:
se teria aportado no Jardim do Éden. Como seria aquela terra desconhecida que se oferecia, aos seus sentidos, com tanta beleza?
E, agora, à medida que as embarcações se aproximavam do areal, acometidos talvez pelo receio e pela curiosidade, acorriam, ao seu encontro, homens. “A feição deles é serem pardos, à maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, e não procuram cobrir nada, sem fazer caso de mostrar suas vergonhas. E a respeito disso estão em tanta inocência como têm em mostrar o rosto” (Caminha, 2025, pp. 67-68). São seres diferentes-semelhantes que despertam uma panóplia de sentimentos, entre a atração, a estranheza e a inquietação. Falam. Mas o seu linguajar é tão outro, que não se consegue discriminar, sobre o fundo do quebrar manso das ondas, qualquer som articulado. Na carta que endereça ao Rei D. Manuel de Portugal, Pero Vaz de Caminha descreve, com minúcia, essas gentes. Os artefactos, as ornamentações corporais, os arranjos capilares. Salienta, com espanto, a formosura dos corpos bem constituídos, brilhantes, limpos, com ar saudável, e a maestria e a beleza da arte plumária. E o trato. Inicialmente, vieram com arcos e flechas, mas pousaram-nos quando tal lhes foi pedido. Depois, ainda que mantendo alguma reserva, abriram-se ao Encontro. Ofereceram a sua oratória, os próprios instrumentos de defesa e de ataque, contas, cocares e mantos com plumagens exuberantes. Dançaram, tocaram, riram. Ajudaram a carregar as naus com água e lenha. Em suma, foram corteses e hospitaleiros. “A amizade deles conosco era já tanta que quase nos estorvavam no que tínhamos de fazer” (Caminha, 2025, p. 103).
Toda a viagem pressupõe a possibilidade de um Encontro. É flagrante, na descrição tecida por Pero Vaz de Caminha, o maravilhamento vivido no contacto com a costa brasileira e com o povo tupi. Provavelmente, também este se sentiu fascinado por aqueles seres que surgiam do mar, de dentro de embarcações enormes e sofisticadas, claros de tez, barbudos, pouco cuidados, com trajes e objetos insólitos. Seriam xamãs? Quer uns quer outros eram humanos, semelhantes e diferentes. Quer uns quer outros estavam perante um mundo estranho, de que não conheciam nem a linguagem nem as comunicações não verbais habituais. Quer uns quer outros sentiam-se temerosos e, simultaneamente, atraídos. E, socorrendo-nos de Meltzer (1988),
talvez possamos imaginar que estas gentes terão sido atravessadas, uma e outra vez, pela ideia: como é, de que é feito aquilo que, ao olhar, se apresenta dotado de uma beleza transcendente? Os segundos de comoção e de êxtase estéticos, que suspendem o tempo e o eternizam, não são perenes, e arrastam a vivência dolorosa da fragilidade, da incompletude e da finitude. Então, será que o que é belo, e atrai, é dotado de bondade interior? Será que é seguro caminhar na sua direção? Ou será que é preferível evitar a intimidade do encontro, através do controlo, da posse, da objetificação do outro? Como lidar com o não saber, com a incerteza?
Os povos indígenas aproximaram-se dos recém-chegados (talvez entendidos como seres de dimensões espirituais) entregando-lhes presentes que simbolizavam amizade e perspetiva de aliança. Mas os viajantes, empenhados numa expansão comercial predadora, sustentada por uma cosmovisão em que eram donos e senhores de metade do mundo, estavam, desde o início, apenas vocacionados para a apropriação. Queriam ouro, a posse da terra, dos corpos e das almas. Diz Pero Vaz de Caminha: “esta gente é boa e de boa simplicidade, e imprimir-se-á rapidamente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar” (Caminha, 2025, p. 108). Defendem-se, assim, do mistério e da incerteza do Encontro “aplanando” o outro, que, apesar de manter características formais e sensuais, fica desprovido de interioridade, de capacidade de sentir, de pensar e de julgar, isto é, em vez de objeto de respeito, de afeto e de conhecimento, é reduzido a objeto de uso. Os viajantes evitam a turbulência emocional, que os sacode, lendo o mundo através de um sistema ideológico, intrusivo e possessivo. As cintilações de luz, de sombra e de comoção, que perpassam nas suas paisagens internas, esmorecem e não se transformam em coisa pensável. As suas mentes não oferecem casa para a “experiência emocional da beleza do mundo e da sua maravilhosa organização” (Meltzer & Williams, 1988, p. 20). Os seus olhos não veem o visto, os seus ouvidos não escutam o escutado e os seus corações não se tornam mais sábios.
Ontem, hoje ou amanhã… como é, como é que viajamos?