A autora, a partir da visão de H. Kohut sobre o narcisismo, procura explicar formas de exaltação do self arcaico grandioso, o qual não foi possível transformar em auto-estima sã, na relação com o objecto do self da infância. Deste modo, a visão grandiosa de si será procurada através de uma ligação ao objecto idealizado à sombra do qual o próprio se coloca, ou através de um funcionamento narcísico mais agressivo em que o objectivo é o enaltecimento do próprio pela desvalorização da necessidade do outro. Assim, procura dar uma ideia de como os vínculos (narcísico, narcisante ou incompleto) formados com o objecto da infância determinam a escolha de objectos ao longo do ciclo de vida, que podem ser mais ou menos compensadores da falha narcísica, consoante a organização da personalidade.
Cada vez mais, na clínica de hoje, encontramos pessoas que se queixam de um sentimento de falta, cuja vida, essa, fica sempre aquém do desejo: nunca nada é tão grandioso como deveria ser. O que recebem é sentido como escasso e nunca suficiente para preencher o vazio, a
Especialista em Psicologia Clínica. Assistente na Universidade de Évora. Sócia Candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 19 de Março de 2008. Revisão recebida em 27 de Março de 2008. Aceite para publicação em 7 de Abril de 2008.
auto-estima é demasiado frágil, e a idealização é uma âncora que funciona temporariamente como um antidepressivo que alimenta o frágil Eu e o enche com ânimo fugaz. Esse vazio interno é adormecido pelas constantes gratificações externas, que, ao diminuírem, conduzem a um aborrecimento profundo, ao nada! Um vazio que aumenta ao ritmo de uma maior utilização de mecanismos projectivos que levam consigo as partes inaceitáveis do self, mas que, com isso, são perdidas, ficando mais vazio ainda.
Pessoas que procuram estímulos que façam vibrar, luzes que lhes permitam brilhar e ofusquem o sentimento interno de incapacidade e debilidade do self, avidamente agarrados a objectos grandiosos e omnipotentes que possam trazer algum tipo de satisfação, essa que não se faça esperar. Embrulhados em relações mediadas por uma restrição sentimental em que não se trata verdadeiramente nem de um nem do outro, mas de uma farsa, exige-se sem a mínima noção da necessidade do outro, essa negada, porque o outro não é mais que um objecto protésico, uma continuação do próprio, um apêndice, um instrumento do sujeito, porque não visto como separado do self e estando ao serviço das suas necessidades infantis. Deste modo, o outro só tem existência enquanto testemunha da grandiosidade do próprio, das suas necessidades de exibição, não é um outro em si mesmo, a sua acção configura-se como função psicológica de um segmento do aparelho psíquico cuja formação não foi concluída.
Exibem um Eu impostor, coberto de disfarces que consagram uma imagem de self grandiosa e omnipotente. Imagem idealizada que oferecem ao mundo de forma a iludirem os outros e a si próprios, procurando uma representação especular que possa compensar a falha. Reclamam ver reflectida a admiração no olhar dos outros, e com a qual necessitam identificar-se. É a função especular que não foi fornecida pelo objecto do self da infância e que é, então, procurada de forma compensatória.
Kohut, tal como Winnicott já havia feito, chamara a atenção para a importância do brilho do olhar materno para o desenvolvimento
do sentimento de valor e importância do self do bebé, o qual “… precisa do brilho nos olhos da mãe para manter a impregnação libidinal narcísica…” (1966, p. 252). É o que designamos de vínculo narcisante, uma relação com um objecto materno essencialmente bom, que admira e promove o desenvolvimento de um self fortificado na criança.
Para Kohut, o sentimento de grandiosidade será gradualmente integrado no Eu, originando um sentimento de confiança nas próprias capacidades e atributos. No entanto, caso a criança sofra graves traumas narcísicos, implicando a não satisfação desta necessidade de exibição e confirmação, o self grandioso fica retido na sua forma arcaica, inalterado, não se desenvolve, torna-se inacessível a experiências exteriores modificadoras, fica vulnerável e irá procurar restaurar a todo o custo a satisfação dessas necessidades mais infantis. Deste modo, o Eu adulto ou tenderá à sobrevalorização irreal do self ou revelará sentimentos exagerados de desvalorização, reagindo de forma agressiva à frustração das suas necessidades.
Esta ferida aberta conduz ao caminho da compensação narcísica, seja pela sobrevalorização do próprio que se coloca numa posição defensiva de exaltação da grandiosidade, de quem não necessita de ninguém (narcisismo agressivo), numa ofensiva constante ao narcisismo do outro; seja pela ligação a um objecto deificado que possibilite ao próprio uma auto-imagem enaltecida (narcisismo libidinal). Coimbra de Matos (Conferência, 2006) referira que os meios utilizados nestes dois mecanismos narcísicos são diferentes, mas o objectivo é o mesmo, o da “ilusão de omnipotência”.
Também Kohut postulou que quando há um defeito na estrutura psíquica responsável pela coesão e visão colorida do self – narcisismo –, podem surgir duas vias para manter a auto-representação mais coesa e positiva: através da ligação a um objecto especular que reflicta a imagem de self grandioso arcaico ou através da ligação a um objecto idealizado, omnipotente, que participa na construção dessa imagem grandiosa.
Assim, em alguns casos, a exaltação do self grandioso que resulta da megalomania infantil possibilita a ilusão de que o próprio não carece de ninguém, uma falsa independência que surge como consequência da desesperança e do sentimento de que nada se pode esperar do objecto. Isto porque o objecto primeiro decepcionou, não possibilitou o desenvolvimento da confiança de que as necessidades afectivas do próprio serão satisfeitas, não se constituiu como objecto contentor e valorizante. Deste modo, os objectos externos não são os reais, resultam de projecções maciças de objectos internos não satisfatórios, incapazes de satisfazer o próprio, frios e desafectados e, como tal, desprezíveis e face aos quais surge a indiferença e a desconsideração. Contudo, sabemos que esta indiferença e desprezo escondem uma intensa necessidade de dependência, afecto e aceitação por parte de um outro. No fundo, procuram com avidez quem queira dar uma re-significação ao seu Eu – buscam uma nova relação restauradora.
Para Kohut, desde o início da vida, o ser humano é relacional, necessita de afecto e comunicação, afastando-se da ideia da centralidade das pulsões biológicas no desenvolvimento. O autor enfatizara a importância dos aspectos relacionais como permissíveis da grandiosidade infantil e facilitadores da idealização, enquanto processos normais do desenvolvimento. Assim, acentua a influência da função parental no desenvolvimento do narcisismo saudável, concebido como uma constelação psicológica enriquecedora, uma linha autónoma de desenvolvimento, o qual só será patológico em certas circunstâncias de reciprocidade deficitária dos objectos do self para com a criança, uma vez que determinam o desenvolvimento de um Eu lesado, que tentará forçosamente medidas que sejam compensadoras.
Assim, com Kohut , o narcisismo não se define pela direcção do investimento pulsional (se é o self ou o objecto), mas sim pela natureza ou qualidade da carga instintiva. Deste modo, mantendo a metáfora económica mas utilizando-a de forma diferente, refere que não é a direcção da libido que importa ter em conta, mas sim a sua
natureza, objectal ou narcísica. De facto, consideramos que a ideia de investimento no self não serve para caracterizar a modalidade de investimento narcísico, dado que o investimento no objecto também pode ser de cariz narcísico, isto é, um investimento em que o objectivo é o ganho narcísico do próprio.
Deste modo, Kohut postulara que a antítese do narcisismo não é a relação objectal, mas sim o amor objectal, pois, em sua opinião, a relação com os objectos pode implicar um investimento tipo narcísico e um isolamento e solidão podem esconder uma abastança de investimentos objectais. Sendo assim, o oposto à libido objectal não pode ser a libido narcísica, dado que esta também pode investir os objectos.
Para Kohut, desde início existem, no ser humano, necessidades narcísicas que deverão ser satisfeitas pelos pais. Uma corresponde à necessidade de ser admirado, apreciado pelo objecto que deverá reflectir especularmente a fantasia de grandiosidade da criança (objecto do self especular). Esta grandiosidade é vista como natural nesta fase de desenvolvimento, tendo uma função adaptativa que se pode traduzir no sentimento de: “eu sou perfeito e tu admiras-me”, o que representa o seu sentido saudável de omnipotência, que se transformará na auto-estima e autoconfiança, contribuindo para a formação das ambições. A outra necessidade é a de idealizar pelo menos um dos pais e ter um sentimento de fusão com essa imagem parental idealizada i. e., participar da perfeição atribuída ao objecto. Deste modo, precisa criar uma imagem idealizada de pelo menos um dos seus pais e de experimentar uma fusão com o objecto do self idealizado no sentido: “tu és perfeito e eu faço parte de ti”, constituindo a imago parental idealizada, que se transformará nos valores e ideais que acompanharão o indivíduo pelo resto da vida. As qualidades idealizadas do objecto são amadas como fonte de gratificação às quais a criança se sente ligada. Kohut concebe, assim, um “self bipolar” (, 1988), composto, por um lado, por tendências exibicionistas e ambiciosas e, por outro, pela idealização dos pais e do próprio self. O desenvolvimento
dos dois pólos conduz às ambições e ideais, entre os quais existe uma tensão relativa ao fluxo de actividade psicológica que se mantém entre os dois pólos e que o autor designa “arco de tensão” (1977). Introduz, assim, um terceiro elemento no self bipolar que diz respeito à área dos talentos e habilidades, onde se podem formar os mecanismos compensatórios. O autor refere que o não desenvolvimento de pelo menos um dos pólos determina a psicopatologia narcísica, caracterizada por um sentimento diminuído do Eu e uma incapacidade em manter a auto-estima num nível sustentável. Assim, a angústia da pessoa com perturbação narcísica está relacionada com a percepção de que o seu self é vulnerável e tende à fragmentação, dado que não ocorreu o desenvolvimento das configurações narcísicas.
Daqui se deduz que para o desenvolvimento de um narcisismo sadio é necessário que tenha havido a valorização do próprio, e de um outro significativo. Se estas necessidades não forem satisfeitas, o self não chega a atingir a força e coesão necessárias para manter a estabilidade e a auto-estima num nível suficiente, desenvolvendo-se um self fragmentado, frágil e descontínuo, com um baixo nível de auto-estima, que procurará por vias improcedentes a satisfação das necessidades infantis outrora insaciadas.
Assim, o sentimento de segurança da criança está relacionado com a manutenção de um certo resíduo de grandiosidade infantil e, para que essa segurança perdure, é necessária a dependência e uma “simbiose protectora” (E. Cortesão, 1990) com um objecto idealizado.
A criança necessita internalizar imagens fortes, amorosas e protectoras que possam constituir-se como auxiliadoras nas suas dificuldades de crescimento e no confronto com o mundo extraparental.
Deste modo, inicialmente o sentimento de estima por si é mais dependente, provém da capacidade valorativa do objecto narcisante e da sua capacidade para se deixar idealizar, depois, pela “internalização transmutadora” (Kohut, 1988), são criadas estruturas psíquicas que passam a desempenhar essas funções e, como tal, o narcisismo torna-se mais autónomo, mais independente da apreciação externa.
Como refere Coimbra de Matos (2001), inicialmente o narcisismo é dependente do objecto narcisante, o seu “locus de regulação é externo”, formando-se progressivamente um narcisismo autónomo ou autárcico, com “locus de regulação interno”.
Porém, como refere Kohut, quando a mãe não é suficientemente empática, acrescentamos: narcísica e não narcisante, não ocorre uma idealização do Eu, passando a idealizar excessivamente o objecto em detrimento do próprio.
Coimbra de Matos (2001) refere que a excessiva idealização do objecto implica uma baixa auto-estima e será tanto mais grave quando o objecto é do sexo oposto, pois a recuperação narcísica secundária pela identificação sexual e narcisação da auto-imagem sexuada fica impedida.
O que acontece é que se a mãe tem dificuldade na contenção das angústias do bebé, se falha na sua função de espelho valorativo (objecto do self especular = objecto narcisante), denunciando uma lacuna da sua competência empática, a criança tem de se voltar de modo compensatório para o pai. Se este tiver disponibilidade e empatia, pode possibilitar a formação de estruturas psicológicas importantes; oferecendo uma relação que compense as falhas maternas, abra caminho à desidealização do objecto materno e permita a esperança de possíveis relações com novos objectos bons.
Kohut (1988) refere o recurso do psiquismo a estruturas defensivas e compensatórias, em que as primeiras têm como objectivo cobrir uma falha primária no self, enquanto as segundas visam possibilitar uma compensação para essa falha, como se de uma reabilitação funcional do self se tratasse. Muitas vezes a procura incessante de um objecto do self idealizado constitui uma medida compensatória para uma falha ocorrida na relação com o objecto do self especular. Quanto maior a falha com o objecto primordial, maior a avidez na procura do objecto idealizado e consequentemente maior será a decepção, caso ocorra de novo uma falha na relação com esse.
Se na relação com estes objectos do self da infância não foi possível a formação da estrutura interna, “o psiquismo fica fixado num
objecto do self arcaico, naquilo que parece uma forma intensa de fome objectal. A intensidade da busca desses objectos e da dependência a eles é devido ao facto de que são procurados sofregamente como substitutos de segmentos que faltam à estrutura psíquica (…) são necessários a fim de tomar o lugar de funções de um segmento do aparelho mental que não se estabeleceu durante a infância” (Kohut, , pp. 45-46).
Contudo, Kohut defende que quando a relação com os objectos do self primários é deficitária e geradora de traumas, é possível, devido à plasticidade saudável do self, a procura de objectos que sejam compensadores, no sentido da reparação das falhas originadas. A patologia representará uma incapacidade de libertação desses maus objectos e a procura de estilos relacionais que são repetitivos e não transformadores. Nestes casos, o indivíduo não pode reagir de uma maneira interna, pelo que a sua auto-estima e o seu sentimento de integridade vão depender de objectos externos, não se auto-avalia de forma positiva e fica subordinado à avaliação exterior, ficando na dependência da imagem reflectida por esses para a sua apreciação.
O indivíduo que não se sentiu apreciado e desejado não se aprecia e não se considera objecto de desejo (Coimbra de Matos constata que “a auto-imagem que em cada um de nós mais perdura é a que nos reflectiu o primeiro objecto de amor – a dos olhos da mãe” [2001, p. 224]), assim necessita de objectos que lhe confiram o sentimento de segurança de que será estimado e reconhecido, encobre-se por detrás de objectos ornamentais muitas vezes símbolos ilusórios de poder, que julga conferirem a admiração desejada, numa lógica de ser aos olhos dos outros, almejando a identificação ao self grandioso.
Kohut (1988) sustenta que quando os desapontamentos da criança em relação às figuras parentais vão ocorrendo de forma gradual, é possível manejá-los de forma saudável e integrá-los internamente. Assim, fala em “falhas óptimas” ou “frustração óptima” que indica o grau ajustado das mesmas, de modo a que a “internalização transmutadora” possa ir ocorrendo, e os dois sistemas (self grandioso e
imago parental idealizada) possam ser modificados na relação com o objecto.
Deste modo, a desidealização do objecto é acompanhada pela consciencialização e valorização das competências crescentes da criança, o que vai possibilitando a autonomização e uma visão mais realista do próprio e do objecto.
Tudo fica perturbado quando a criança descobre precocemente as falhas parentais, quando estas têm uma magnitude acentuada que desiludem drasticamente ou mesmo quando os pais se colocam numa posição narcísica tal que impedem a descoberta gradual das suas fraquezas. Neste caso, o que acontece é que a imagem parental se mantém idealizada em favor de uma desvalorização do self da criança, cujas reservas narcísicas se esvaem nesta idolatria, em que todas as qualidades negativas atribuídas ao objecto devem ser desviadas e voltadas sobre o próprio, depreciando cada vez mais o self.
Sabemos que a manutenção da idealização do objecto é um meio de negar as falhas do mesmo e, como tal, de evitar que a raiva seja dirigida contra ele. É a estratégia defensiva depressiva que impede a constatação de que o afecto dado pelo objecto foi pobre e insuficiente; assim, a face má do objecto é recalcada e pode ter dois destinos: ou deslocada sobre o próprio pelo mecanismo de introjecção, ou, pelo mecanismo de “projecção identificativa” (Coimbra de Matos, 2002), as partes más são colocadas num outro, fora da relação privilegiada, preservando a boa relação com o objecto idealizado.
Os pais narcísicos, incapazes de se colocarem em causa, impunes, desvalorizam o filho para que este fique travado na sua tentativa de liberdade. Estabelece-se assim uma modalidade relacional de mútua dependência, a criança diminuída na sua imagem sente que necessita do objecto magnífico para a sua sobrevivência, para que lhe confira valor pela sua dedicação, mantém-se na dependência do objecto do self para julgar e validar a sua experiência de vida. O objecto, por sua vez, não pode viver sem o nutriente narcísico: o filho que presta vassalagem!
Coimbra de Matos refere que assim se forma um sistema relacional “explorador/explorado” (2002). Os filhos habituam-se a dar aos pais aquilo de que eles necessitam, trata-se de uma inversão de papéis no que respeita ao reforço narcísico. Em nossa opinião, nestas relações forma-se um vínculo narcísico em que a criança é o objecto de exibição narcísica dos pais, sendo reconhecida apenas no cumprimento dessa função; ameaçada de abandono e vítima de desprezo quando não a desempenha.
São muitas vezes configurações familiares onde há uma relação fusional com uma mãe intrusiva e fria, sentida como não afectuosa, e um pai que não se constitui como objecto empático, que não facilita a passagem à triangularidade, pois não se coloca como elemento separador da dualidade mãe/filho e que desencadeia uma rejeição traumática, fortalecendo o vínculo regressivo com a mãe (o que coloca mais obstáculos à autonomia). O filho, com um Supereu dotado de uma exigência esmagadora e com um Ideal do Eu megalómano (de acordo com Coimbra de Matos, 2001), constituídos à imagem e semelhança do objecto), tem uma auto-estima flutuante e dependente da aprovação do objecto, está aniquilado na sua tentativa de separação, pois toda a raiva narcísica está voltada sobre o próprio, o que o fragiliza cada vez mais e o mantém prisioneiro dessa relação de depleção narcísica.
São vinculações narcísicas que se estabelecem precocemente e que condicionam a escolha de futuros objectos de relação, impedindo a procura do amor mais objectal. Coimbra de Matos (2002) referiu-se ao facto de uma das funções principais do pai e da mãe na relação com a criança ser a de possibilitar a estruturação das relações objectais, de modo a construir o padrão de relações humanas com ambos os sexos.
Deste modo, encontramos na vida adulta estilos relacionais que correspondem a uma repetição destes esquemas interiorizados na relação com o objecto precoce. Num perpetuar da ligação ao objecto materno como objecto do self idealizado, procuram-se relações com
objectos também eles idolatrados que conferem sentimento de valor ao próprio. A separação em relação ao objecto idealizado não se deu e, ainda que escolham outros objectos, estabelecem com eles ligações que espelham essa relação primária.
Assim, de acordo com as ideias de Kohut, o narcisismo próprio, o sentimento de mais valia advém da participação na ligação ao objecto perfeito, como fonte de sustentação narcísica e como substituto da estrutura psíquica responsável pelo narcisismo. A desvalorização do próprio é ocultada pela ligação a um objecto dotado dos valores almejados. Trata-se de uma alternativa cosmética, algo que permite ir disfarçando o sentimento de imperfeição, mas que não elimina a consciência da frouxidão do self.
A. Reich (1953) já havia referido que algumas mulheres, para restaurar a sua auto-estima danificada, estabeleciam uma ligação a um ideal fálico engrandecido, que permitia uma compensação para o sentimento de insuficiência e inferioridade.
Muitas vezes colocam-se face a estes objectos de uma forma masoquista, subserviente, apenas para lhe ser atribuída a admiração. Nestes casos é a ligação ao objecto que confere um sentido positivo ao self, um sentimento de existência válida. Existe um investimento no outro ainda que seja de cariz narcísico. Poderemos falar de relação objectal, mas de cariz infantil, pois não se trata de uma relação de troca, é uma relação de dependência para receber a gratificação narcísica. Nestes casos, a sexualidade é pré-genital, muitas vezes agida e com o objectivo de receber elogios.
Estamos na linha da depressão de inferioridade descrita por Coimbra de Matos, que corresponde à “ pobreza do investimento libidinal do Eu” (2001, p. 78), à idealização massiva do objecto, à introjecção das partes más desse, desembocando numa desvalorização cada vez maior do self, fazendo-o definhar.
A ligação ao outro idealizado é um meio de o próprio se poder validar, constituindo-se o outro como um complemento, algo que falta ao próprio e lhe confere o sentimento de maior valor. Nesta ligação
é conseguida uma segurança contra o sentimento de humilhação que o próprio teme, espécie de escudo protector contra o seu sentimento de inferioridade. A ligação a objectos poderosos permite iludir o próprio e os outros sobre as suas fragilidades, conferindo uma auréola de superioridade e simbolicamente de poder sexual, mas esta imagem de grandeza é enganadora e apenas encobre o sentimento real de inadequação. Dizia-nos um paciente: “É preferível chorar no banco de um Porsche do que no banco do autocarro!”. Deste modo, julgam ser tanto mais quanto mais tiverem. Estes pacientes crêem que a posse de objectos poderosos lhes torna possível esconder a dor que sentem e minimizar o seu fundo depressivo, passando a viver uma vida assente numa festa de lágrimas, em que se vive numa “lógica do se…”: “eu era feliz se tivesse um emprego onde ganhasse muito”, “eu era mais feliz se tivesse um companheiro(a) que tivesse mais dinheiro”, “se eu mudasse para outra casa era mais feliz…”, mas no fundo, a lógica é: “eu era mais feliz se tivesse sido verdadeiramente investido(a) pelo objecto primordial, mas serei mais feliz quando desidealizar a relação com esse objecto e me permitir libertar a raiva contra ele!”. Nestes casos, a ligação ao outro não serve tanto uma função de possibilitar uma coesão do self, mas sim uma vivacidade, uma alegria que falta ao próprio pela visão denegrida que tem de si.
De outro modo, quando os mecanismos que predominam são os projectivos e a clivagem, as partes más do objecto são colocadas num outro, a imagem idealizada do próprio é conseguida através de um refúgio narcísico, forma de se colocarem num pedestal donde julgam ser admirados pelo seu poder e pela ideia que transmitem de não necessitarem de ninguém, embora sejam profundos adictos de admiração. No entanto, como o que procuram é a admiração, a carência perdura, a falta de amor genuíno continua a corroer o seu mundo interno. O bloqueio afectivo vai ganhando terreno, o amor fica cada vez mais longe, a proximidade relacional acaba por ser evitada, pois desencadeia angústias graves ao self pouco coeso, que ameaça desmoronar-se.
Assim, há cada vez mais uma fuga ao confronto com o interno e com os afectos, procura-se o adormecimento do sentir e do luto, muitas vezes com recurso a medicação que promova o entorpecimento emocional. O pensamento reflexivo não se desenvolve, fica-se pelo instrumental e o concreto.
A exaltação do self grandioso adquirirá formas mais patológicas consoante o grau de fragilidade e coesão do self, dependendo da precocidade e gravidade das falhas parentais, consoante está em dominância uma organização psicótica da personalidade ou uma organização limite da personalidade ou uma organização neurótica da personalidade (A. Pérez Sanchéz, 2003), determinando a utilização mais ou menos marcada da identificação projectiva, da clivagem e da negação da realidade.
As injúrias narcísicas que são infligidas precocemente, num estádio em que o corpo e a mente não estão conectados psicologicamente, conduzem a uma patologia mais severa, pois interferem negativamente na possibilidade de desenvolvimento de um self coeso e, deste modo, os objectos do self são mantidos, mentalmente, nas suas formas mais arcaicas (P. H. Ornstein, 1974).
Assim, as falhas maternas foram mais devastadoras para o desenvolvimento do Eu, porque o objecto incompetente, demasiado desatento e sem afecto, criou um vínculo precário, que impossibilitou a separação eu/outro, gerador de um self fragmentado que receia diluir-se na relação, promovendo estados confusionais, em que a organização psicótica da mente domina e a exaltação do self grandioso é conseguida através do delírio de grandeza e da megalomania. Uma auto-imagem mais valorizada é alcançada através de formas mais doentias, afastadas da relação, desenvolvendo-se uma arrogância psicótica (que substitui o orgulho próprio) donde sobressai uma inveja destrutiva. Nestes casos há uma destruição dos aspectos do outro que desencadeiam inveja, num ataque constante ao narcisismo alheio, por projecção das partes indesejadas do próprio self no outro. O self pouco coeso está fragmentado numa imagem grandiosa arcaica e
numa outra desvalida e frágil, esta última negada e projectada sobre o outro. Poderíamos dizer que se forma um self narcísico (que encobre o self desnarcisado), de tal modo forte, atacante e arrogante face ao outro que tenta proteger a imagem grandiosa afastando-se do contacto com a realidade, a qual é tida como antinarcísica, dado que confronta o próprio com a necessidade do outro e com as fragilidades que desencadeiam uma vergonha arrebatadora. A realidade interna e externa é odiada, a parte psicótica da personalidade em aliança com este self narcísico destrói as funções que constituem resposta evolutiva ao princípio da realidade.
Nesta linha, Rosenfeld já havia referido a existência de uma organização mafiosa que impedia a revelação da parte dependente e frágil da personalidade.
Neste tipo de funcionamento narcísico, a idealização e a grandiosidade servem para negar a realidade e a necessidade do objecto, esse tido como maligno e com o qual se receia, de modo persecutório, a ligação.
Kohut havia sugerido que quando os desvios parentais eram muito significativos, implicando falhas graves enquanto objectos do self, eles eram vivenciados como “atacantes não empáticos da integridade do Eu” (, p. 91).
Nestas situações, a separação em relação ao objecto não ocorreu, a angústia de separação é mais grave, pois o objecto faltou enquanto bom objecto, não foi um objecto que falhou como acontece nas estruturas depressivas em que houve afecto, ainda que empobrecido e aquém da medida do desejo do próprio. A constância do bom objecto não se forma porque o objecto não foi constante na dádiva de amor, a relação estabeleceu-se com um objecto mau, desenvolvendo-se um vínculo incompleto, que impede a formação de uma pele mental, formando-se um self cheio de lacunas que o torna permeável.
Nestes casos, a ligação ao novo objecto é temida e a raiva narcísica tem aqui uma função marcada, na defesa do próprio pelo ataque ao outro, promovendo a separação.
Segundo Kohut, quando o indivíduo se sente narcisicamente vulnerável, ele reage às críticas (reais ou antecipadas) com a retirada, asilando-se narcisicamente, constituindo uma fortaleza narcísica que o impede do sentimento de vergonha, ou com o ataque, pela arrogância ou humilhação do outro. Nesta linha refere: “O desejo de transformar a experiência passiva em activa , o mecanismo de identificação com o agressor , as tendências sádicas conservadas por aqueles que, em criança, foram sadicamente tratados pelos pais – todos estes factores ajudam a explicar a prontidão do indivíduo inclinado à vergonha a reagir a uma situação que potencialmente provoque pelo uso de um remédio simples: infligir activamente aos outros aqueles danos narcísicos que mais tem medo de sofrer, ele próprio.” (1988, p. 138).
Para Kohut, a raiva, agressividade e voracidade que se encontram nestas perturbações são acontecimentos secundários à desagregação do self, gerados pelo desapontamento com o self e com os objectos do self, e não primários ou responsáveis por essa desintegração. A agressividade e o ódio surgem como secundários à não gratificação das necessidades das estruturas narcísicas, que na infância não foram alvo de admiração por parte dos pais. Assim, aquilo que um analista clássico vê como pulsões sexuais e agressivas primárias Kohut considera expressões secundárias de um self fragmentado (M. Siegel, 2005).
Quando estes pacientes são atingidos na sua ferida, surge uma raiva cega face às experiências de frustração que o fazem sentir impotente e que despoletam memórias de experiências de humilhação precoces, as quais desencadeiam uma explosão vulcânica de raiva dominadora. Como refere Coimbra de Matos: “ Ferido no seu orgulho, o animal humano enraivece-se” (2002, p. 383). No entanto, como estas zangas estão relacionadas com situações vivenciadas precocemente, as reacções explosivas de agressividade não são suficientes para reparar o dano sofrido, e vão debilitando cada vez mais o self.
A raiva narcísica manifesta-se muitas vezes pelo ataque constante ao narcisismo do outro que, para além da função de enaltecimento
do próprio, impede a manifestação da necessidade desse objecto, o qual afinal é idealizado, o que conduz à inveja e à frustração.
Quando se trata de uma organização borderline da personalidade, o ressentimento face ao objecto que não cumpriu a sua função está acumulado e é gerador de raiva, a fragilidade narcísica é grande, a coesão do self é melindrosa. A escolha dos objectos é mediada pela impulsividade, basta o brilho exterior do objecto para trazer ao próprio a esperança da existência de um lugar para ficar, serve qualquer objecto que possa ir possibilitando uma aparente organização. Isto porque o indivíduo não se sentiu acolhido pelo objecto primário, o qual pela sua presença inconstante não possibilitou o desenvolvimento do que Coimbra de Matos (2001, 2002) designou de “constância do sujeito no interior do objecto” – é a ausência de um lugar, a falta do sentimento de ter sido verdadeiramente investido e apreciado pelo objecto, desenvolvendo uma chaga narcísica, reaberta a cada relação terminada, o que facilmente acontece, pois, dada a clivagem objectal, rapidamente a parte má do objecto primordial é deslocada para o novo objecto (desaparecendo a parte boa), surgindo a frustração e a desilusão. Pela tendência ao agir e pela incapacidade de elaboração depressiva (pois ficaram a caminho entre a posição esquizo-paranóide e a depressiva), facilmente se procura uma nova relação para preencher o vazio através da nova ilusão, movidos por um pseudo-desejo e por um pseudo-sentimento amoroso.
Nestes casos, a dependência em relação ao objecto é grande, a maior fragilidade narcísica, a menor coesão do self conduzem a uma necessidade vital da presença do outro. Amaral Dias (2004) refere que o borderline tem uma necessidade de “ancoragem nos objectos”, de forma a lhe possibilitarem uma “pseudo-vida”.
A função supletiva do objecto terá de ser mais completa do que na organização depressiva: além de o objecto ter de possibilitar uma visão mais colorida do self, deverá proporcionar um sentido de coesão, como refere Amaral Dias: “Os borderline utilizam o objecto como uma segunda pele” (2004, p. 70), necessitam de depender de um
objecto, o que desencadeia uma raiva profunda face à consciência dessa necessidade, mas facilmente o objecto se torna frustrante, sendo imperativo passar a novo objecto.
Em muitos casos, os indivíduos encontram-se num “dilema claustrofóbico-agorafóbico”, descrito por Rey (citado por ). O indivíduo receia, de um modo claustrofóbico, um envolvimento profundo com o objecto, o qual é vivenciado como agressivo e aprisionador, que limita a autonomia pela desvalorização humilhante e a incapacidade que incute e pela sua conduta rejeitante. Toda a nova relação remete para memórias de uma relação precoce vivida numa dependência limitadora e esgotante das reservas narcísicas. O sujeito sentiu-se explorado, deu mais do que recebeu, pois esteve à mercê de um objecto ele próprio com necessidades narcísicas que o usou como forma de se fazer valer. Assim, tem de se afastar, mas não o pode fazer completamente porque isso conduzirá à ansiedade agorafóbica, pois, devido à sua incompletude narcísica, o outro é vivido como a parte de si que corresponde à representação mais colorida do seu self. A angústia de separação é avassaladora porque desencadeia sentimentos de vazio e incompletude, falta o outro para se sentir pleno, para o seu self estar mais coeso.
Trata-se de uma lógica tranquilizadora, afasta-se para se poder aproximar. Podemos dizer que, nestas relações, encontramos o indivíduo num “conflito de ambitendência” (Coimbra de Matos, 2002) como resultado da falência do processo de separação-individuação. O sujeito deseja aproximar-se do objecto, mas tem de afastar-se, pois receia ficar dependente.
O drama destes pacientes é que eles não podem aceitar a autonomia do outro nem a sua necessidade dele, porém, paradoxalmente, eles precisam do objecto para serem reconhecidos, devido às suas necessidades narcísicas (D. Zimerman, 2004). É o impasse narcísico: se, por um lado, o reconhecimento do outro como entidade separada ameaça a omnipotência do indivíduo, por outro, depende dele para não adoecer mais e não cair na depressão.
De modo semelhante, A. Green considera que o indivíduo com fragilidade na sua auto-estima encontra-se entre a angústia de separação face à ideia de perda do objecto e a angústia de intrusão que corresponde ao perigo de ser invadido por ele (é a angústia bipolar).
Daqui se deduz que o frágil self que não teve oportunidade de se enriquecer narcisicamente e de se desenvolver na relação com o objecto principal, pois foi prematuramente esvaziado, tornando-se débil e pouco coeso, tem de se suster à custa da construção de fantasias grandiosas, que correspondem à exaltação do self arcaico grandioso. A modalidade de investimento narcísico que facilita esta exaltação varia consoante a organização de personalidade é mais psicótica ou mais neurótica, contudo, a finalidade é a mesma: possibilitar uma visão mais colorida e coesa do self, o que não foi possível com o objecto da infância. Deste modo, poderá ir num continuum desde a procura de uma ligação com um objecto idealizado à sombra do qual se enaltecem, até a uma posição de: “o objecto sou eu” (J. Coderch, 2006), numa filosofia de bastar-se a si próprio porque considera que nada de bom pode esperar do objecto.
SUMMARY: The author, from Heinz Kohut views of narcissism, tries to explain forms of the archaic grandiose self exaltation whose transformation in healthy self-esteem was not provided by the relation with the selfobjects of childhood. In this way, a great vision of the self will be reached within the connexion to an idealized object in whose shadow one stays, or within a narcissistic aggressive function whose aim is the aggrandisement of the self by the devaluation of one's need of the other. So, tries to give an idea of how the links (narcissistic, promoting narcissism, or incomplete) formed with the selfobject of childhood, define object choices in the life cycle, witch can be more or less compensatory of narcissistic default, depending on personality organization.
KEYWORDS: Kohut; Narcissism; Selfobject.