A construção da entrevista clínica psicanalítica exprime uma parte da actividade intrapsíquica de ambos, entrevistador e entrevistado, com realidades inconscientes, a natureza conflitual e os processos de mudança e de resistência inerentes. Neste trabalho são analisadas diferentes conceptualizações teóricas da entrevista, assinalado processo de comunicação inconscientes e técnicas de entrevista.
Por último, desenvolvem-se as ligações entre os fins clínicos e de investigação científica potencializadas pela entrevista.
Em psicologia, a importância atribuída ao trabalho elaborado pelo entrevistador clínico parece consensual. No entanto, as justificações dessa mesma importância surgem já com um grau de dispersão considerável, remetendo para o enquadramento teórico utilizado; sendo as repercussões técnico-clínicas tão díspares que por vezes se mostram até antagónicas.
No setting analítico ou em psicoterapia psicanalítica, o lugar da(s) primeira(s) entrevista(s) assume um valor de extraordinária importância, onde os processos projectivos e introjectivos comunicacionais se estruturam. Processos onde o terapeuta é igualmente participante, independente do objectivo principal da entrevista, a saber: 1) tendo em vista o acompanhamento clínico; 2) a avaliação do dinamismo de determinadas estruturas e/ou processos do mundo mental ou ainda (ou também): 3) a investigação científica, com um objecto de estudo prévio bem estabelecido.
Psicanalista da Sociedade Portuguesa Psicanálise.
Recebido para publicação em 26 de Junho de 2008. Revisão recebida em 1 de Julho de 2008. Aceite para publicação em 5 de Setembro de 2008.
Para alcançar a complexidade inerente, parece fundamental perceber o que se passa, quando se “passa” uma entrevista.
Penso que o elemento fulcral se encontra na preparação do entrevistador, na sua disponibilidade para suportar o desconhecido, o que não consegue ainda compreender. O prejuízo maior será o de socorrer-se de um conjunto de metodologias meio estéreis, que habitualmente pouco ou mais dão do que um mera reunião de factos, úteis sem dúvida na classificação nosográfica, mas pobres no alcance do dinamismo dos processos inconscientes e fantasmáticos do sujeito.
Por outro lado, sabemos de há muito que o facto de nos encontrarmos, no âmbito da entrevista clínica, nas condições de observador participante, nos remete para condições onde a objectividade e a certeza se tornam paradoxalmente relativas. Os trabalhos clássicos da psicologia experimental sobre a influência da maior ou menor proximidade entre entrevistador e entrevistado na capacidade de execução do entrevistador, mesmo em tarefas simples, objectivas e sem grandes consequências, assumem uma clarividência que não deve ser desprezada pelo clínico: a inerência da comunicação emocional inevitável entre psicoterapeuta e paciente, mesmo não sendo consciente (diria até, essencialmente a que não é consciente), interfere na sua observação, nas suas decisões e na riqueza dos dados obtidos. De tal forma que torna capaz de “falsear” muitos dos discursos traduzidos pelos instrumentos de avaliação clássicos, quando aplicados de forma arbitrária e descontextualizada – um pouco como medir a pulsação ao sujeito após ter subido 10 andares, não levando esse pormenor em conta: o elevado nível das pulsões são bem reais, objectivamente comprovadas, mas traduzem somente uma visão muito parcelar do seu estado de saúde genérico.
A entrevista clínica deve assim balizar toda a estrutura planeada de recolha de informação, de forma a poder usufruir da complementaridade da avaliação dos aspectos relacionais, da dinâmica do mundo mental, e dos aspectos mensuráveis e objectivos.
Esta observação participante, pela sua elevada complexidade, exige ao entrevistador maturidade e flexibilidade mental, que lhe permita uma clivagem integrada do Eu, capaz de em parte se envolver e em parte observar a interacção do seu Eu com o sujeito observado.
Deve assumir, portanto, um duplo fim: o do envolvimento emocional e do rigor objectivo (o que fazem, sentem e pensam ambos os intervenientes, entrevistador e entrevistado).
Decorrente desta premissa, surge um dos problemas maiores, porém nem sempre assumidos, na metodologia clínica, que se centra na capacidade do entrevistador de diferenciar qual o objecto de estudo: o dinamismo das particularidades inconscientes em causa, ou o sujeito em relação. Como ambas se acompanham, envolvendo obrigatoriamente o entrevistador em relação, torna-se difícil para ele próprio diferenciar-se e integrar estes processos de clivagem integrada do seu Eu.
Perante a angústia confusional do entrevistador, a utilização de outros modelos de compreensão das condutas clínicas tende a sobrepor-se, procurando: o agrupamento de sintomas do modelo semiológico descritivo; os factores de risco ambiental, ou os processos de desenvolvimento. Todos válidos e relacionados, mas porém diferenciados.
Mas não devem ou não podem servir para neutralizar a dificuldade em alcançar os mecanismos de funcionamento mental conscientes e inconscientes ou a organização dos processos fantasmáticos implícitos no modelo analítico dinâmico da compreensão da conduta clínica.
A entrevista clínica surge, sem dúvida, como um instrumento ímpar para lidar com a dificuldade da operacionalização em psicanálise. Embora obrigue a um esforço interno do sujeito entrevistador, que de seguida iremos procurar sistematizar e justificar.
No referencial psicanalítico, a entrevista assume-se essencialmente pelo estabelecimento da relação entre o intrapsíquico e o intersubjectivo da actividade mental, indo, portanto, muito para além da mera e sempre importante partilha de informação. A construção da relação exprime uma parte da actividade intrapsíquica de ambos, entrevistador e entrevistado, com realidades inconscientes, a natureza conflitual e os processos de mudança e de resistência inerentes.
A entrevista clínica contém elementos primários, para além da palavra: transferência, contratransferência e identificação projectiva serão certamente alguns.
Significa, então, que nos encontramos para além da mera escuta do sujeito, procurando ir mais além no alcance da escuta da “escuta do par terapêutico”, isto é, atender à “forma como cada um do par analítico foi escutado pelo outro” .
Só desta forma se torna possível uma elaboração diagnóstica psicanalítica, retirando partido de uma comunicação dilógica, como refere Widlöcher , utilizando um modo informativo de comunicação
e um modo interactivo. Mas sem perder de vista o objectivo último da entrevista: desenvolver no clínico um determinado e sempre limitado conhecimento da vida mental do paciente.
A interacção psíquica assim constituída na relação reporta-se aos factos do “mundo mental” do processo de pensamento do paciente que ocupam igualmente o do entrevistador, que então se vê imbuído de inferências e contextos associativos novos. É também o mundo psíquico do entrevistador que é transformado, assim ele o permita, pelo processo de comunicação. A entrevista clínica está para além do simples acto exploratório. É um tempo e um espaço onde se “activa em cada um dos participantes determinadas ansiedades, defesas, estilos de relação, etc.” (Aguilar & col. 2003, p. 35).
A entrevista, com fins de acompanhamento clínico, não pode então ser utilizada como um mero instrumento mecânico, pecando por inevitavelmente cair numa reducionista comunicação lógica apenas.
São necessárias condições mínimas para o seu exercício: as devidas qualificações profissionais (que certamente dariam outro interessante tema de debate), que obrigatoriamente devem passar por um conhecimento aprofundado do entrevistador do seu próprio mundo mental; o respeito humano e a atitude exploratória ou de investigação; a renúncia ao exercício de influência sobre o paciente; a tolerância à frustração, principalmente de tolerar ansiedades desintegradoras e ainda o desenvolvimento da capacidade empática, suportando funções de contenção das partes mais destrutivas e confusionais do Eu.
O trabalho de equipa interdisciplinar, sem dúvida rico e importante, pode criar no entrevistador uma pressão (temporal, confirmatório de suposto diagnóstico, ou então simples de resolução “mágica” como esperança última), mesmo inconsciente, que surge como uma limitação importante ao desenvolvimento do seu trabalho. Igualmente as limitações temporais, compreensivelmente frequentes no âmbito institucional, podem inviabilizar a riqueza expressa pela entrevista clínica.
Por último, mas talvez a mais frequente limitação seja a exigência internalizada do entrevistador do que poderíamos designar de “supervisor interno” (P. Casement, 1985), que o pode cegar ou destruir a sua capacidade de ir à descoberta, e de tolerar o desconhecido do paciente, mas também o desconhecido em si mesmo.
O conceito da acessibilidade a partes mentais, introduzido por Betty Joseph, como contraponto aos múltiplos critérios de analisabilidade porventura considerados (exemplos clássicos são a capacidade de manter
confiança básica sem gratificação imediata, ou discriminar self e objecto), traduz-se igualmente na estrutura da entrevista e da sua razoabilidade. Passa a centrar a avaliação proporcionada pela situação da entrevista nos aspectos contratransferenciais, portanto no entrevistador, na sua capacidade de se sentir colocado à prova, de tolerar a incompreensão e a frustração inerente.
Revela a importância das primeiras consultas para além do modo informativo, centrando-o no interactivo, nos aspectos transferenciais e contratransferenciais, remetendo também para os aspectos narcísicos e masoquistas do entrevistador, onde a sua capacidade de se poder surpreender com coisas novas, com o que o sujeito observado desconhece em si mesmo surge como base de compreensão do dinamismo do mundo mental.
Estes processos não se tornam fáceis de aprender, experimentar e igualmente de ensinar. São vividos internamente na situação de entrevista, e exigem uma atenção outra do entrevistador: ao sujeito, ao sujeito em relação consigo e a si próprio.
Talvez por isso nos suscite uma estratificação da entrevista, em que mais do que partes ou fase temporais, que não me parecem realmente existirem formalmente diferenciadas, possam ser consideradas etapas na reflexão e análise do entrevistador.
Num primeiro momento torna-se fulcral conceber a oportunidade de entrevista como uma escuta inerente à descoberta do outro (desconhecido) e não um interrogatório que confirme hipóteses precoces (concebidas sempre inconsciente e defensivamente). Sem dúvida, existem condições materiais impossíveis de desprezar (o tempo, o lugar, a troca económica são disso exemplo), bem como condições afectivas (disponibilidade interna do entrevistador) onde devemos privilegiar a espontaneidade.
O paciente deverá ter oportunidade de organizar naturalmente o seu modo particular de estruturar a relação, necessitando de tempo para que tal aconteça. Em situações onde a angústia vivida pelo sujeito se revele insuportável, a entrevista pode ser enquadrada no contexto de um processo mais longo de conhecimento mútuo, encurtando o primeiro contacto e possibilitando a continuidade numa outra oportunidade.
Contudo, parece-nos sempre ponto essencial o indagar reflexivo sobre a percepção que o sujeito tem do conflito ou sofrimento que o mobilizou
para a procura de auxílio ou de entrevista, e igualmente da forma como estrutura as defesas criadas, bem como do grau de consciência destes dois aspectos.
A avaliação dos momentos críticos evolutivos é também essencial, procurando inferir os movimentos enriquecedores, críticos e ainda aqueles onde a promoção de estereótipos desenvolvimentais se salientou.
As faculdades defensivas ou adaptativas no confronto com situações novas e imprevistas são reveladores de mecanismos complexos que merecem uma atenção particular. Nesse sentido, as mudanças nas características do vínculo do paciente com o entrevistador no desenrolar e finalizar da entrevista permitem inferir graus de plasticidade das funções egóicas e qualidades superegóicas determinantes.
Num segundo momento, não obrigatoriamente um momento diferenciado temporalmente, o entrevistador deve centrar-se em aspectos estruturantes do sujeito, que enquadrem elementos formais de maior relevo desenvolvimental, ambiental e familiar da sua história de vida externa, com a riqueza talvez mais subtil do dinamismo fantasmático relacional, em que salientamos:
Funcionamento pré-genital, onde os aspectos da oralidade e analidade assumem particular importância, porque constituintes primários das formas prevalecentes inconscientes das relações, e igualmente da relação terapêutica, em que a capacidade de suportar a intimidade, a necessidade da mesma, ou aspectos da voracidade são revistos, bem como do controlo do outro e de si próprio e das trocas proporcionadas pelo vínculos emocionais (o que poderíamos designar por “digestão afectiva”);
Funcionamento genital, procurando avaliar a forma como o sujeito sente e vive emocional e fantasmaticamente as ligações de maior intimidade erotizada (por exemplo, para fugir à solidão e à dor depressiva ou para evitar o contacto intimo no plano afectivo);
Quais as “zonas mentais erógenas” privilegiadas pelo sujeito no seu contacto relacional (oral, anal, fálico ou genital)? Qual o objectivo predominante do impulso que organiza a relação (de tirar, esvaziar, reter, ficar contido, oferecer-se, dar)? E que qualidade assume (destrutivo, de generosidade ou ambivalente)? E que consequências são expectáveis na fantasia do sujeito relativas a si mesmo e também ao objecto (relacionar para originar gratificação, diminuir da ansiedade, libertação do sofrimento)?;
A vida onírica é igualmente um aspecto a aprofundar, pela riqueza que contém, sem contudo cair na tentação precipitada da interpretação num momento inicial da relação terapêutica;
Os relacionamentos sociais (profissionais, com superiores e “inferiores” hierárquicos, e de amizade) contribuem para uma clarificação da avaliação diagnóstica das estruturas de relação de objecto e de ansiedades predominantes no sujeito;
Por último, parece-nos fundamental a atenção na história evolutiva da entrevista: por onde inicia, com se desenvolve, o ritmo, o movimento e os momentos de alteração.
Os aspectos de carácter mais técnicos atrás expostos, organizadores da estrutura da entrevista clínica e da leitura que a mesma poderá proporcionar, denotam uma clara e importante tendência para realçar o lugar da dinâmica mental do entrevistador. A sua capacidade de comunicação interna tornou-se, desde que Paula Heimann desenvolve o conceito de contratransferência como instrumento psicoterapêutico (P. Heimann, 1950), um dos aspectos centrais da actuação do psicanalista (P. Grieve, 2000).
A contratransferência tinha sido primeiramente nomeada por Freud, numa carta a C. Jung, em 1909 (in R. Michels, 2002), mas sempre enquadrada na referência a partes não conscientes da mente do analista e capazes de comprometer o sucesso terapêutico. Só na segunda metade do século XX se aprofunda a sua importância, através do desenvolvimento da Escola de Relações de Objecto no Reino Unido, mas também de forma notável na América do Sul com Racker (1960) ou Madeleine e Willy Baranger (1992), entre outros contributos importantes.
A concepção actual da contratransferência remete no essencial para aspectos inconscientes repetitivos do passado infantil do psicoterapeuta. Mas também, como nos refere Beatriz Berbardi (2006, p. 27), inclui “diferentes aspectos do seu funcionamento mental que foram se desenvolvendo em suas experiências pessoas de análise e formação, em seu diálogo com teorias e colegas e, sobretudo, no contacto com seus pacientes”. Pode assim oferecer-se ao analista como um oportunidade de crescimento emocional, mental e profissional, e por isso constituir-se simultaneamente como instrumento precioso, mas também como obstáculo, segundo momentos e circunstâncias da sua vivência enquanto clínico.
Introduz-se a ideia de que o entrevistador não é somente um ser reactivo aos sintomas, classificando consequentemente estes encontros, mas deve ser capaz de em conjunto com o paciente desenvolver capacidade criativa, e de atribuir novos significados a novos encontros internos.
A entrevista clínica como encontro emocional, como nos fala Jaume Aguilar (2008), pressupõe um entrevistador sem memória e sem desejo como Bion o concebeu, onde o encontro com o desconhecido do entrevistador seja tolerável e possível, procurando criar sentido a comportamentos, actos ou palavras, numa lógica próxima da “rêverie”; e em que o sentido criado se organiza a partir da relação continente-conteúdo, onde a dependência e crescimento é mútuo – dos conteúdos e do continente(s) (do entrevistador e do entrevistado).
É talvez na entrevista clínica com partes psicóticas da mente que este registo paradigmático da contratransferência – instrumento precioso e/ou obstáculo – e dos processos de comunicação inconscientes se assume na plenitude. São “zonas” em que o desconforto da presença do desconhecido, do sem sentido e sem significado fazem realçar a fragilidade identitária, activando defesas inconscientes do sujeito, mas igualmente do entrevistador, favorecendo o falseamento da escuta.
São vivências que recolocam problemáticas do sofrimento identitário-narcísico, e por isso uma experiência de desintegração identitária, que no seu confronto induz, para sobrevivência do próprio, a retirada dessa mesma vivência: por exemplo, socorrendo-se à clivagem (predominantemente no sujeito) ou à intelectualização (predominantemente no entrevistador). São zonas mentais onde a retirada do afecto e relativa “morte psíquica” remetem para experiências anteriores à linguagem, ou anteriores até ao primado organizacional desta, nas quais a percepção e a motricidade servem de apoio prevalecente às primeiras modalidades de simbolização, necessitando de uma verdadeira mobilização intersubjectiva e transferencial.
O desafio da entrevista irá ser o de criar as condições intersubjectivas de um retorno de contacto com uma zona abandonada de si mesmo. Deve pertencer ao clínico tomar a iniciativa de tentar estabelecer contacto com o que sente repugnância em envolver-se na relação – pensamos que será melhor enganar-se nas conjecturas e hipóteses do que não tentar abarcar parte fundamental da dinâmica do mundo mental!
Ao evocar um aspecto da história do sujeito, permite-se-lhe que ligue a si mesmo aquilo que se apresentava suspenso em termos integrativos, e assim começar a pô-lo em contacto com zonas abandonadas ou desinvestidas de si.
São as reacções do sujeito que informam sobre a proximidade destas áreas. Na medida em que as experiências desorganizadoras passam para o presente do Eu, em que as vivências de desespero, de sofrimento extremo e sem fim, de aniquilamento do Eu são transferencialmente reactivadas, sucede também o retorno de modalidades de defesa particulares: reacções terapêuticas negativas, ansiedades acentuadas, raiva destrutiva, vergonha intensa, etc., e em que, perante a não simbolização, se socorre da linguagem como um aparelho de acção ou de evacuação, organizando ataques ao pensamento que se instalam de forma intensa na entrevista, mesmo que por dimensões temporais reduzidas.
São momentos de entrevista onde a escuta fica ameaçada de desorganização, e em que o clínico se vê tentado a desenvolver ou um retraimento (movimento de des-implicação subjectiva, retirando-se de cena, com sono, apatia ou distracção) ou uma espécie de retorsão interpretativa (onde o contacto se mantém à custa de uma contra-reacção exercida pelo entrevistador).
Também na entrevista, tal como na relação analítica, é necessário que o clínico sobreviva psiquicamente: não só para não se retirar da relação ou não efectuar uma retorsão, mas especialmente para permanecer na relação de forma criativa na resposta dada ao seu envolvimento transferencial.
A utilização da metodologia de entrevista psicanalítica tem essencialmente servido fins de intervenção clínica, nem sempre sabendo retirar plenamente todo o potencial que encerra em si mesma no âmbito da investigação científica.
Como sabemos, a psicanálise, para além de intervenção clínica, não é somente um corpo teórico, constituindo-se igualmente como metodologia de exploração e descoberta dos processos inconscientes. A técnica de entrevista pode conceber-se como um elemento extremamente rico e valioso no acesso à dinâmica do mundo mental, e não necessariamente associado exclusivamente ao contexto clínico.
É certo que a entrevista, tal como a concebemos neste trabalho, não permitirá por definição a composição de um método rigoroso, objectivo, invariável, com directivas de comportamento e de análise claramente estabelecidas. Mas oferece-se como uma oportunidade extraordinária de acesso privilegiado a áreas do mundo mental.
À semelhança de muitas outras aplicações da teoria psicanalítica fora do contexto clínico, também a entrevista psicanalítica pode ser utilizada para a compreensão psicodinâmica e de significados inconscientes de diversos comportamentos, processos psíquicos, acções sociais e situações de vida (D. Cartwright, 2004). Os exemplos da sua operacionalização são múltiplos, com limitações evidentes e reducionismos inevitáveis face à riqueza habitualmente associada ao encontro emocional proporcionada pela entrevista clínica.
Cartwright (2004) organizou alguns procedimentos que intitulou de Entrevista Psicanalítica de Investigação (Psychoanalytic Research Interview) com o objectivo de explorar os processos inconscientes, representações do self e do objecto, defesas predominantes, bem como a análise das narrativas construídas no contexto da entrevista. Essencialmente focado na compreensão da construção do significado, baseia-se nos processos do dinamismo intrapsíquico, construindo directivas e técnicas próprias para a elaboração da entrevista.
As conceptualizações teóricas assumidas, no âmbito da investigação científica, influenciam de forma determinante o método de entrevista, reflectindo-se depois no tipo de questões colocadas pelo clínico, na forma como conduz o processo e os focos de interesse assinalados. No encontro terapêutico, o paciente procura tratamento e auxílio, colocando-o num contexto diferente da entrevista, em que o investigador está interessado em compreender uma questão específica quase sempre pré-determinada. Temos assim claramente diferenciados o teor e as motivações para ambos os intervenientes do encontro: sujeito e entrevistador.
É possível ainda utilizar entrevistas clínicas psicanalíticas num procedimento genérico, e socorrer-se também de métodos cognitivos e neurofisiológicos, como o realizou por exemplo Shevrin et al. (1992), num desenho experimental complexo, procurando testar hipóteses detalhadas sobre processos inconscientes.
Na investigação científica são ainda escassos os trabalhos de autores psicanalistas que incluam reflexões e cuidados metodológicos no âmbito da entrevista clínica, como a análise de consistência interna e externa, ou a validação independente. A complexidade inerente, remetendo para aspectos transferenciais e contratransferenciais, justifica as dificuldades presentes e o afastamento precipitado destes rigores.
Liderando uma vasta equipa de colaboradores, Manfred Cierpka, psicanalista germânico da Universidade de Heidelberg, retirou partido da metodologia de entrevista, desenvolvendo o instrumento Operationalized
Psychodynamic Diagnostics, para a resolução do complexo problema de classificação diagnóstica. Criou um sistema multi-axial, conciliando as descrições fenomenológicas, de base estatística, do DSM e do ICD, com os sistemas de compreensão psicanalítica actualmente existentes. Baseia-se em cinco eixos diagnósticos: a experiência de doença e as pré-condições para o tratamento; a relação; o conflito; a estrutura; e as perturbações psíquica e psicossomáticas (Cierpka et al., 2007). É no eixo das Relações Interpessoais que vemos aproximar-se da metodologia de entrevista, onde aspectos transferenciais e contratransferenciais são considerados e de algum modo operacionalizados
Como sabemos, o diagnóstico em saúde mental baseia-se em sistemas de classificação diagnóstica definidos internacionalmente, onde se destacam o Diagnostic and Statistical Manual (DSM), da Associação Americana de Psiquiatria, e a International Classification of Mental and Behavioral Disorders (ICD), da Organização Mundial de Saúde (OMS). Apesar da importante validade e fiabilidade oferecidas por esses sistemas de classificação diagnóstica, nenhum deles contempla plenamente os aspectos psicodinâmicos de compreensão e avaliação da dinâmica do mundo mental dos pacientes. Deste modo, os sistemas de classificação do DSM e do ICD apresentam-se como puramente fenomenológicos, centrando-se nos sintomas e negligenciando os aspectos subjacentes ao funcionamento mental e enquadramento psicopatológico de um indivíduo. Por outro lado, é sabido que os sistemas de diagnóstico puramente psicanalíticos e psicodinâmicos, apesar de úteis para a compreensão diagnóstica, apresentam alguns dados contraditórios e não têm uma fundamentação experimental e estatística que lhes confira uma validade e fiabilidade, cientificamente suficientes. Este tema assume-se como particularmente actual na discussão do meio científico internacional da especialidade (M. Cierpka et al., 2007; P. Fonagy, 2003, 2007).
A OPD foi criada na procura de uma melhor resolução deste complexo problema. Encontra-se actualmente validada e adaptada para as principais línguas e culturas onde os cuidados de saúde mental pública se encontram mais desenvolvidos, bem como a investigação científica inerente (), apresentando na generalidade bons resultados no que confere à validade e fiabilidade (M. Cierpka, 2007).
Coordenando uma vasta equipa de profissionais em Barcelona, com colaboração de grupos de trabalho em Milão e em Lisboa, o psicanalista Jaume Aguilar desenvolveu um instrumento de avaliação diagnóstica – A Escala de Diagnóstico Psicanalítico Kleiniano (EDPK) – baseado na
Teoria das Relações de Objecto desenvolvida por Melanie Klein e outros autores. Criada e estudada nos últimos 15 anos, tem sofrido diversos desenvolvimentos e versões (J. Aguilar et al., 1996; J. Aguilar et al., 2003; J. Aguilar, 2008).
O seu propósito foi, desde o início, o de introduzir uma dimensão intrapsíquica e relacional na investigação clínica e epidemiológica do diagnóstico, considerando que a compreensão psicodinâmica pode enriquecer a apreciação obtida por outros métodos de diagnóstico. À semelhança de outros instrumentos centrados nos processos transferenciais, como os de Gill & Hoffman (1982) ou de Luborsky et al. (1986), a EDPK enfatiza especialmente as reacções transferenciais e contratransferenciais. A escala não substitui em caso algum o diagnóstico psicanalítico, pressupondo aliás o processo psicanalítico como um processo de diagnóstico constante. Tenta apenas formalizar uma impressão diagnóstica inicial que permita obter um perfil estrutural intrapsíquico do sujeito e quantificá-lo com finalidades de investigação clínica e epidemiológica. A avaliação é obtida a partir de entrevistas não estruturadas, nas quais é possível utilizar algumas questões, esclarecimentos, comparações e até mesmo interpretações, com o objectivo de explorar sistematicamente os diferentes aspectos considerados: investigação do Eu (insight, comunicação e cognição social, reconhecimento das emoções, tolerância à frustração e à complexidade), investigação da posição esquizo-paranóide (identificação projectiva patológica, tipo de clivagem, Super-eu, áreas de manifestação preferencial da ansiedade, qualidade da ansiedade), organização patológica da personalidade, e ainda investigação da dimensão depressiva (elaboração da posição depressiva, defesas contra o processo de luto, defesas de carácter maníaco e outras defesas perante a posição depressiva).
A ideia é poder situar o sujeito em níveis diferentes de um continuum, nas diferentes subescalas consideradas. Tem sido utilizada em diferentes populações, apresentando resultados satisfatórios quanto à fiabilidade interna, coerência com modelo teórico ou ainda fiabilidade interavaliadores (Aguilar et al., 2003). Surge como um instrumento útil nas investigações que se focam nos processos internos de mudança e resultados psicoterapêuticos, e é aplicável a diferentes modalidades de tratamento.
Oferece ainda a possibilidade de estudar aspectos saudáveis dos pacientes, o que parece especialmente fecundo dada a limitação da descontextualização inerente à categorização psiquiátrica das diferentes
perturbações psicopatológicas (Aguilar et al., 2003), tornando igualmente possível o estudo epidemiológico da evolução longitudinal das diversas perturbações.
A EDPK pode organizar-se também como um instrumento poderoso no auxílio da elucidação dos acordos e desacordos entre diferentes clínicos que visem compreender psicanaliticamente o mesmo material de entrevistas.
Parece-nos então que a entrevista clínica psicanalítica, complexa na sua conceptualização, e diferenciada pela inclusão dos processos inconscientes, oferece-se como um elemento extraordinariamente rico no trabalho clínico e de grande potencialidade na investigação científica.
Os seus campos de aplicação na compreensão de aspectos inconscientes da dinâmica do mundo mental são vastos e ainda longe de se encontrarem bem explorados, afirmando-se como estratégia complementar fundamental em múltiplas acções sociais.
De manejo difícil, reclama preparação e maturidade do entrevistador, mas constitui-se sem dúvida como capaz de alcances profundos e frutíferos.
SUMMARY: Psychoanalitic clinical interview expresses parts of intrapsychic world of both, patient and interviewer: unconscients worlds, conflicts, changing process and resistences.
This paper is about different theoretical conceptualizations of the psychoanalitical interview, as well as unconscient communication and interview thecniques.
Research and clinical development of the psychoanalitical interview are discussed.
KEYWORDS: Interview; Analytical listening; Clinic and research.